02/04/2019 - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

02/04/2019

Segurança pública: do Ceará para Harvard

Por Wanfil em Crônica

02 de Abril de 2019

“Todo mundo já ganhou o prêmio Nobel, menos o brasileiro”, dizia Nelson Rodrigues, tripudiando de intelectuais e expondo um traço de nossa cultura, que é a ânsia pelo reconhecimento internacional.

Mais ou menos por isso é que nas Olimpíadas, desconhecidos atletas de remo ou tiro, subindo ao pódio, automaticamente viram heróis nacionais por alguns dias, embora o país siga irrelevante no ranking das nações com medalhistas. E todo ano, para decepção geral, o Oscar de filme estrangeiro nos escapa. Até no futebol essa baixa autoestima é visível: a grande esperança dos nossos jogadores é justamente ir embora do Brasil, de preferência para a Europa. É o auge, a realização, o ápice.

Faço essas considerações depois de ler na imprensa que o governador Camilo Santana vai aos Estados Unidos – em Harvard! – falar sobre “estratégias para superação da criminalidade”. Confesso que estranhei um pouco a escolha do tema, já que os índices de violência no Ceará apontam, ao longo dos últimos dez anos, para uma intensa degradação. Mas o o que importa nesse texto é Harvard e o mundo desenvolvido.

Complexado como um bom brasileiro, ainda incrédulo, fui buscar detalhes no site da famosa universidade por já onde passaram dezenas de ganhadores do Nobel que nunca conquistamos. Encontrei palestras sobre tradução de poesias coreanas e a convivência com tubarões brancos, mas sobre o Brasil, os destaques eram um documentário do João Moreira Salles e um seminário sobre desmatamento na Amazônia. A respeito das lições cearenses para a superação da criminalidade, nenhum registro.

Foi então que descobri que a conferência é uma realização de alunos brasileiros em Harvard, com autorização da universidade. É o Brazil Conference at Harvard & MIT 2019. – Hã? Como assim? Um colunista chegou a dizer que os americanos queriam ouvir o governador!

Antes que me acusem de inveja e despeito – já que nunca sai do Brasil, jamais fui premiado em lugar algum e nem convidado a palestrar no exterior – informo que a conferência dos estudantes brasileiros de Harvard reúne uma impressionante quantidade de personalidades de diferentes áreas e ideologias: Jorge Paulo Lemann, FHC, Guilherme Boulos, Tite, Dias Toffoli, Ciro Gomes, Pelé, Geraldo Alckmin e outros. De governadores, além de Camilo, a lista inclui Wilson Witzel (RJ), Flávio Dino (MA) e Fátima Bezerra (RN). Até o vice presidente Hamilton Mourão vai. Só gente importante.

A razão da minha frustração, na verdade, é outra. Por um instante, em delírio bairrista, imaginei o Ceará sendo reconhecido por uma das maiores instituições americanas, e numa área em que todos, até os fatos, diziam ser um desastre. Seria a nossa redenção. Aposto que políticos e empresários nicaraguenses dão palestras para alunos nicaraguenses que estudam em Harvard. Chilenos falam a chilenos, moçambicanos, argelinos e por aí vai. Um monte de gente dá palestras para alunos estrangeiros de Harvard, até o brasileiro.

Difícil mesmo é o Nobel.

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Segurança pública: do Ceará para Harvard

Por Wanfil em Crônica

02 de Abril de 2019

“Todo mundo já ganhou o prêmio Nobel, menos o brasileiro”, dizia Nelson Rodrigues, tripudiando de intelectuais e expondo um traço de nossa cultura, que é a ânsia pelo reconhecimento internacional.

Mais ou menos por isso é que nas Olimpíadas, desconhecidos atletas de remo ou tiro, subindo ao pódio, automaticamente viram heróis nacionais por alguns dias, embora o país siga irrelevante no ranking das nações com medalhistas. E todo ano, para decepção geral, o Oscar de filme estrangeiro nos escapa. Até no futebol essa baixa autoestima é visível: a grande esperança dos nossos jogadores é justamente ir embora do Brasil, de preferência para a Europa. É o auge, a realização, o ápice.

Faço essas considerações depois de ler na imprensa que o governador Camilo Santana vai aos Estados Unidos – em Harvard! – falar sobre “estratégias para superação da criminalidade”. Confesso que estranhei um pouco a escolha do tema, já que os índices de violência no Ceará apontam, ao longo dos últimos dez anos, para uma intensa degradação. Mas o o que importa nesse texto é Harvard e o mundo desenvolvido.

Complexado como um bom brasileiro, ainda incrédulo, fui buscar detalhes no site da famosa universidade por já onde passaram dezenas de ganhadores do Nobel que nunca conquistamos. Encontrei palestras sobre tradução de poesias coreanas e a convivência com tubarões brancos, mas sobre o Brasil, os destaques eram um documentário do João Moreira Salles e um seminário sobre desmatamento na Amazônia. A respeito das lições cearenses para a superação da criminalidade, nenhum registro.

Foi então que descobri que a conferência é uma realização de alunos brasileiros em Harvard, com autorização da universidade. É o Brazil Conference at Harvard & MIT 2019. – Hã? Como assim? Um colunista chegou a dizer que os americanos queriam ouvir o governador!

Antes que me acusem de inveja e despeito – já que nunca sai do Brasil, jamais fui premiado em lugar algum e nem convidado a palestrar no exterior – informo que a conferência dos estudantes brasileiros de Harvard reúne uma impressionante quantidade de personalidades de diferentes áreas e ideologias: Jorge Paulo Lemann, FHC, Guilherme Boulos, Tite, Dias Toffoli, Ciro Gomes, Pelé, Geraldo Alckmin e outros. De governadores, além de Camilo, a lista inclui Wilson Witzel (RJ), Flávio Dino (MA) e Fátima Bezerra (RN). Até o vice presidente Hamilton Mourão vai. Só gente importante.

A razão da minha frustração, na verdade, é outra. Por um instante, em delírio bairrista, imaginei o Ceará sendo reconhecido por uma das maiores instituições americanas, e numa área em que todos, até os fatos, diziam ser um desastre. Seria a nossa redenção. Aposto que políticos e empresários nicaraguenses dão palestras para alunos nicaraguenses que estudam em Harvard. Chilenos falam a chilenos, moçambicanos, argelinos e por aí vai. Um monte de gente dá palestras para alunos estrangeiros de Harvard, até o brasileiro.

Difícil mesmo é o Nobel.