agosto 2015 - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

agosto 2015

Dilma no Ceará: os aliados sumiram

Por Wanfil em Política

31 de agosto de 2015

A impopularidade não perdoa. No post anterior eu disse que a visita da presidente Dilma Rousseff (PT ) ao Ceará serviria pelo menos para mostrar quem faria, por livre e espontânea vontade, papel de figurante na agenda montada pela equipe do Palácio do Planalto.

O resultado pode ser conferido na foto abaixo, tirada durante cerimônia para a entrega de unidades habitacionais em Caucaia:

Palanque murcho: onde estão os governistas crônicos do Ceará, fiéis aliados de outrora? – Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

As autoridades que compareceram ao lado da presidente mais impopular da história cumpriam ali um dever de ofício, litúrgico, por força dos cargos que ocupam. Fora esses, o cortejo de governistas crônicos do Ceará sumiu, como sempre acontece quando a maré política muda.

Para comparar, no post a que me referi no início do texto, publiquei uma foto de 2013 na qual sorridentes aliados da presidente disputavam espaço dentro de uma vagão do metrô de Fortaleza, para ver quem aparecia ao lado dela. Naquela época Dilma estava de cima, era bem avaliada e favorita para as eleições do ano seguinte. Agora, como todos sabem, a situação é outra bem diferente.

Diante da rejeição popular, aliados locais trocam de partido, afetam surpresa e buscam distância daquela que até bem pouco tempo atrás, diziam ser a mais brilhante das gestoras. Tudo para dar a impressão de que nada têm a ver com o buraco em que o Brasil se meteu.

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Dilma vem ao Ceará para nada. Resta ver quem serão os figurantes do factoide

Por Wanfil em Política

26 de agosto de 2015

Dilma-metro-Fortaleza-linha-sul-Foto-Roberto-Stuckert-Filho-PR

Dilma no Ceará, em 2013, quando ainda era popular. E agora, quem embarcará com ela no trem da impopularidade? Imagem: efeito sobre foto de divulgação

A presidente Dilma vem ao Ceará na próxima sexta-feira (28). Na agenda, a petista irá a Lavras da Mangabeira (terra do senador Eunício Oliveira, do PMDB) assinar ordem de serviço para trecho da ferrovia transnordestina. Depois, como se fosse prefeita do Brasil, segue para Caucaia, onde entrega algumas unidades do ‘Minha Casa, Minha Vida’. Não há confirmação sobre uma eventual vistoria nas obras da transposição do São Francisco. Por fim, em Fortaleza, ela participa do evento “Dialoga Ceará”.

Mais do mesmo
Na prática, Dilma não fará nada, a exemplo de visitas anteriores. O Minha Casa Minha Vida programa sofreu corte de 5,6 bilhões de reais por causa da crise, sem contar com nos atrasos dos pagamentos às construtoras, que por isso começaram a demitir operários. No Ceará, serão entregues quatrocentas e poucas unidades, muito pouco para um governo que festejava a condição de sétima economia do mundo.

A transnordestina, assim como a transposição, é exemplo de ineficiência, com atrasos sucessivos e aumentos de preços inexplicáveis. E o “Dialoga Ceará” é invenção de marqueteiro na tentativa de mostrar que seu governo não se resume a escândalos de corrupção, caos político e desastre na economia. Como sempre, vai sobrar discurso e faltar ação. Nem a reforma do aeroporto prometida para a Copa o governo conseguiu fazer.

A novidade
Nada disso é novo. Dilma já veio ao Ceará outras vezes fazer promessas e discursos sem nexo. A diferença é a conjuntura desfavorável para a presidente. Processos no TSE e no TCU, ameaça de impeachment, protestos contra o governo, inflação alta, aumentos nas taxas de energia e nos combustíveis, dólar descontrolado, desemprego recorde, redução nos repasses federais para estados e municípios e maior índice de impopularidade da história.

Sem contar o passivo local, como os 650 milhões de reais do tesouro estadual gastos para receber a refinaria prometida aos cearenses, ou a redução de verbas para a saúde, que ampliou a crise no setor.

Trem desgovernado
Antes, quando ainda registrava boas taxas de aprovação, a presidente era seguida por um cortejo de aliados sorridentes, ansiosos por fotografias e incapazes de cobrar-lhe promessas como a refinaria. Eram coadjuvantes dos factoides presidenciais dispostos a tudo para ficar no trem do governismo, quando este andava nos trilhos. Agora, a situação é outra. Cid já saiu do ministério e Ciro tratou de procurar um partido independente, no caso, o PDT.

Será interessante ver quem, livre de obrigações partidárias ou de funções administrativas, ainda se dispõe a ficar no trem desgovernado pilotado por Dilma, na condição de figurante durante as encenações públicas agendadas para a visita.

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Manifestação contra o impeachment: a derrota numérica e moral do PT, CUT, MST e UNE

Por Wanfil em Política

21 de agosto de 2015

Que as manifestações contra o impeachment de Dilma seriam muito menores do que aqueles que pedem a saída da presidente, isso todos já sabiam, uma vez que a gestão da petista tem batido seguidos recordes de impopularidade.

Sendo impossível superar os adversários em número, e sem poder abordar, por motivos óbvios, temas como a corrupção, restou ao engajamento chapa-branca organizado pelo Partido dos Trabalhadores e entidades sob o seu comando, notadamente CUT, MST e UNE, rotular de golpe elitista os protestos anti-Dilma.

Militantes profissionais
Mas para que essa estratégia pudesse prosperar seria necessário credibilidade. Entretanto, nesse ponto os organizadores das manifestações de solidariedade à presidente falharam. A começar pela data e hora escolhidas: começo de tarde de uma quinta-feira, ou seja, em pleno horário de expediente, condições que exclui, de cara, o trabalhador comum. A mensagem para o público foi a de que estavam ali, na maioria, militantes “profissionais”, afinal, sábado e domingo é dia de folga até para esses trabalhadores de passeata.

Outro ponto salta aos olhos: de um a profusão de bandeiras vermelhas, enquanto nos atos pelo impeachment prevaleceu o verde-amarelo. De um lado a militância que coloca o partido acima de tudo, do outro, a defesa do país. Qual das duas imagens é capaz de influenciar mais os cidadãos?

Contradição e incoerência
Outro problema foram as contradições entre a defesa do governo e críticas ao ajuste fiscal. Se a administração está errada, por que então mantê-la, mesmo diante de tantos escândalos?

Os que marcharam contra Dilma também expõem contradições internas, no entanto, são unânimes na convicção de que o governo é ruim e mentiroso. No caso dos aliados do petismo, não existe a convicção de que o governo seja minimamente bom em algo, pelo contrário, como se viu, muitos deles também o reprovam. Segundo o Datafolha, na marcha do PT em São Paulo, apenas 54% aprovam Dilma.

Nos embates de guerrilha, a vitória consiste em derrubar o moral do inimigo. Nesse sentido, as manifestações governistas foram duplamente vencidas, já que nem em suas próprias fileiras elas foram eficazes.

Os fatos
Por último, CUT, UNE, MST e PT foram às ruas no mesmo dia em que o IBGE informou aos brasileiros que o desemprego subiu para 7,5%, maior índice desde 2009. Depois, no momento de trabalhar a repercussão dos atos, o Caged apresentou dados sobre a quantidade de vagas de trabalho cortadas no mês de julho passado. Foram 157.905 carteiras que deram baixa, o pior resultado desde 1992.

Moral da história: para ajudar o governo, não bastam palavras de ordem e militantes profissionais. Seria preciso uma boa notícia que fosse para mostrar, um rumo a apontar, uma luz no fim do túnel. Mas isso está em falta, por obra e graça deste governo. Sem isso, não há como escapar do vexame.

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Ferreira Gomes: partido novo, encenação antiga

Por Wanfil em Política

19 de agosto de 2015

Em mais um capítulo de sua peculiar trajetória política, os Ferreira Gomes devem mesmo sair do PROS para entrar no PDT, sétimo partido a servir de abrigo aos  grupo liderado por Ciro e Cid Gomes.

O encontro que reuniu os ainda filiados do PROS no Ceará, na noite da última segunda-feira, repetiu a encenação que sempre é feita nessas ocasiões, necessária para tornar verossímeis as alegações escolhidas para justificar a mudança, invariavelmente fundadas nos mais belos e nobres propósitos, tudo para disfarçar que são as conveniências eleitorais do momento a razão para essas idas e vindas.

No caso atual, ninguém escondia lá na tal reunião do PROS estadual que a opção pelo  PDT empolga mais pela possibilidade de uma nova candidatura de Ciro Gomes à Presidência da República, em acordo com o presidente nacional da sigla, Carlos Lupi, ex-ministro do trabalho que perdeu o cargo por causa de denúncias de corrupção.

Quando saíram do PSB para ingressarem no PROS, os Ferreira Gomes e seus comandados alegaram compromisso com a reeleição de Dilma. Negavam uma candidatura própria com Eduardo Campos. A petista não será candidata em 2018, mas em meio a atual crise e faltando (em tese) pouco menos de três anos e meio para o fim do mandato da petista, os aliados da presidente no Ceará engrossam as fileiras da oposição e do PMDB, que já anteciparam o debate sucessório, fragilizando ainda mais o governo. Curiosamente, o prefeito Roberto Cláudio, ainda no PROS e com o pé no PDT, diz que antecipar debates eleitorais é um desrespeito com o povo, mas comemora publicamente a possível candidatura de Ciro. Convicções moldadas pelas oportunidades são outra característica de quem está sempre disposto a mudar de partido como quem troca de roupa.

É claro que Ciro Gomes tem o direito de querer ser candidato e que mudar de partido não é crime. Mas a frequência com que isso acontece, sempre em função de candidaturas, é sinal de inconsistência política para liderar nacionalmente uma agremiação política e de intolerância para conviver com as naturais disputas internas que existem em todos os partidos. A sucessão de trocas pode indicar ainda falta de lealdade, o que abre espaço para críticas sobre uma propensão ao oportunismo crônico. De qualquer forma, esse estilo tem funcionado aqui no Ceará. Se irá colar lá fora, é o que veremos. Sabe como é, tudo demais é veneno.

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Muito além dos protestos

Por Wanfil em Política

17 de agosto de 2015

Mais uma vez centenas de milhares de pessoas protestaram contra o governo Dilma em todo o país. Não obstante as polêmicas sobre o tamanho da mobilização – se maiores, iguais ou menores do que as anteriores –, o que importa para os agentes políticos no Brasil é o fato de que essas multidões que saíram às ruas são uma pequena amostra da insatisfação geral registrada por pesquisas de opinião, e que mostra que o problema, para o governo, vai muito além do tamanho ou das camadas sociais ali representadas, notadamente de classe média, chegando a dois pontos elementares: a quebra na relação de confiança entre sociedade e governo e a persistência com que os protestos se repetem, que indica um estado de ânimo disposto a se prolongar no tempo.

Processo
Como esta foi a terceira manifestação somente em 2015 – sempre com boa presença de público –, fica cada vez mais evidente que não se trata de um fenômeno pontual ou restrito, mas de um sentimento constante que se irradia por todo o país, um processo contínuo que se desenvolve sem contrapontos capazes de contê-lo.

O máximo que o governo conseguiu até aqui para mostrar alguma reação foi o apoio provisório do senador Renan Calheiros (PMDB), conchavo que fez do alagoano um dos alvos nos protestos de domingo. Quando o apoio a uma gestão é prejudicial à imagem de alguém como Renan, é sinal de que se chegou ao fundo do poço.

Instinto de sobrevivência
Em ambientes assim, com o governo desacreditado, o instinto de autopreservação de políticos em geral é buscar distância dele e evitar críticas aos movimentos de contestação, ou até mesmo apoiá-los. No que diz respeito a aliados, não se trata de um movimento brusco, feito às pressas, pois o governo ainda tem as suas armas, especialmente no que diz respeito a cargos e verbas.

Por isso, tudo é feito por etapas. As declarações de apoio começam a ficar mais raras, depois críticas começam a aparecer, entremeadas com sugestões ambíguas, e por fim o silêncio passa a predominar.

Em meados de julho passado, governadores do Nordeste em busca de verbas para amenizar os efeitos do ajuste fiscal, assinaram uma carta contra o impeachment de Dilma. O que dizem agora? O tema definitivamente se consolidou como pauta dos manifestantes. Até o momento, nenhum dos signatários veio a público repudiar os protestos. Inteligentes, não darão murro em ponta de faca. Pelo menos, não de graça.

Collor
As primeiras denúncias de corrupção contra o governo do ex-presidente Collor surgiram no início de seu mandato, em junho de 1990. O impeachment foi aprovado em setembro de 1992. Não quer dizer que a história irá se repetir (os protestos naquele período começaram mais tarde), mas é o parâmetro mais próximo que se tem a servir de referência para comprar com a situação política atual. E isso, por si só, diz muito.

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O efeito Bolsonaro

Por Wanfil em Crônica

14 de agosto de 2015

O deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) veio ao Ceará para participar dos protestos contra Dilma Rousseff (PT) e atiçou os ânimos nas redes sociais. Parlamentar direitista dado a extremos, enaltece o período da ditadura militar no Brasil e critica ditaduras de esquerda em outros países. Com a derrocada do petismo, faz coro com os que repudiam a roubalheira na Petrobras.

Caricatura ideológica
Jair Bolsonaro é uma espécie de caricatura. Não é profundo, mas é histriônico como debatedor. Em vez de ajudar a promover os postulados da direita, coisa normal no resto do mundo, ajuda a distorcer suas teses pela forma exagerada com que trata temas polêmicos. Sua sorte é que a esquerda, liderada pelo PT, perdeu a credibilidade até mesmo entre seus simpatizantes.

Geralmente ignoro o noticiário a respeito de Jair Bolsonaro, porque é irrelevante. O deputado não lidera blocos ou partidos, não comanda comissões importantes, não articula votações, nada. Não obstante, ele logra êxito em se firmar como parlamentar bem votado e constantemente procurado por jornalistas, pois suas confusões rendem audiência. Se é o que o público quer, é o que o público vai ter. Uns o querem para bode expiatório (seria a prova cabal de que o fascismo estaria logo ali), outros para que bata no governo (metaforicamente falando, claro) sem papas na língua. O sucesso é garantido.

Jair Bolsonaro não desqualifica, nem qualifica os protestos. Multidões rejeitam suas teses e ainda sim sairão às ruas para dizer que não querem pagar novamente a conta pela festança alheia.

Bolsonaro não é causa da insatisfação geral, nem dos rumores sobre o impeachment ou a renúncia de Dilma. Bolsonaro é efeito, produto de um tempo. Sua ascensão revela a falta de referências morais, políticas e intelectuais no Brasil, capazes de indicar novos caminhos para os problemas que enfrentamos.

Bolsonaro é uma personagem. Seu contraponto de sinal inverso é o deputado Jean Wyllys (Psol), também ele superficial. Ou o ator petista José de Abreu. Falam, falam e não dizem nada, não levam a nada. Só atiçam emoções sem terem como canalizar tanta expectativa. São os personagens de uma tragicomédia, símbolos da nossa indigência política.

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Aliado do PT no Ceará, Ciro diz que PT, Lula e Dilma enganaram a população. Parece contradição, mas é método

Por Wanfil em Política

11 de agosto de 2015

Em entrevista ao jornalista Fernando Rodrigues, do portal UOL, parceiro da Tribuna do Ceará, Ciro Gomes, disse que Dilma, Lula e o PT mentiram para a população. A imensa maioria dos brasileiros concorda, conforme atestam as pesquisas de opinião. Como isso não é novidade, resta evidente que a fala tem por objetivo marcar uma posição.

Como Ciro evita negar uma candidatura à Presidência, a conclusão lógica é que o ex-ministro procura ocupar espaços no vazio de lideranças políticas nesse momento de crise, no esforço de disputar novamente o cargo.

Terceira via
O discurso é feito com cuidado. Ao mesmo tempo em que diz que Dilma erra feio, Ciro afirma que ela é vítima de conspiradores, incluindo aí o nome de Lula entre os que a atrapalham. Acusa a oposição de golpista, mas evita falar, por exemplo, sobre algumas delações, como a de Ricardo Pessoa, da UTC, que afirma ter financiado as campanhas de Lula e Dilma com dinheiro desviado da Petrobras. A estratégia que é possível deduzir dessa movimentação é desqualificar simultaneamente governo (com PT e Lula juntos) e oposição, para se apresentar como terceira opção.

Tudo isso faz parte do jogo. Ciro é inteligente, articulado, político experiente com recall nacional que o qualificam a postular o cargo, caso consiga um partido. Mas é preciso fazer aqui um reparo e um alerta.

Reparo
Se Dilma, Lula e o PT mentiram aos brasileiros, é preciso lembrar que não o fizeram sozinhos, mas com a ajuda dos aliados. O Ceará foi um dos estados que deram maior votação para a então candidata à reeleição, apesar das promessas não cumpridas e da pegadinha da refinaria. A responsabilidade pela decepção da população, portanto, deve ser compartilhada com seus defensores no estado. Sem eles, a mentira não teria prosperado por tanto tempo.

Alerta
Em sua fala, Ciro critica o comando nacional do PT. Acontece que não há como dissociá-lo de suas estruturas locais. O nome forte do PT cearense, deputado federal José Guimarães, é o líder do governo na Câmara, em Brasília. Tentar separá-los não passa de uma conveniência.

Quando ainda era aliado de Eunício Oliveira, Ciro esculhambava o PMDB nacional, mas preservava o diretório estadual. Só depois de romper é que passou a criticar igualmente a todos.

É a mesma coisa com o PT. Hoje é conveniente manter boa relação com a sigla no estado porque o governador pertence aos quadros do partido e porque o prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio, candidato apoiado por Ciro e por enquanto no Pros, precisa da aliança com o PT para ter tempo na propaganda eleitoral. Para os petistas, fica o constrangimento, afinal, se o partido é liderado por mentirosos, não deveria ser cortejado pelos aliados de Ciro no Ceará.

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Enem 2014 mostra que escolas usam artifícios não pedagógicos para incrementar resultados

Por Wanfil em Educação

06 de agosto de 2015

O resultado do ENEM por escola divulgado nesta semana com dados referentes a 2014, jogou luzes sobre uma prática questionável utilizada desde outras edições da avaliação, mas que passava quase despercebida do público. Isso foi possível graças à criação de um novo indicador, o “índice de permanência”, que revela se o estudante cursou total ou parcialmente o ensino médio no estabelecimento pelo qual prestou o exame.

Médias artificiais
O índice acabou revelando que muitas das “campeãs” do Enem possuíam índice inferior a 20% de permanência, ou seja, que participaram da prova com a maioria dos alunos vindos de outras escolas. Estas se defendem dizendo que turmas especiais são comuns. Tudo bem, mas existe aí um problema ético a ser examinado: com alunos importados, o resultado não refletirá integralmente a qualidade de ensino daquela escola. Isso é correto?

Existe ainda outro ponto. Alguns colégios particulares separam alunos de melhor desempenho em pequenas turmas, que possuem CNPJ diferente. Basta ver a lista do Enem para comprovar isso. Escolas com sedes inteiras compostas de apenas 20, 30 ou 40 alunos. São unidades cujos resultados podem levar o público a pensar que o desempenho desse grupo reduzido corresponde ao do estabelecimento como um todo, perfazendo uma média geral, mas que na verdade não passa de uma amostra específica e pontual.

Nesses casos, a prática é mais grave, do ponto de vista ético. O aluno estuda, por exemplo, a vida inteira no Colégio Militar e, próximo ao exame do Enem, recebe uma proposta para representar uma grande escola particular. Junto com outros estudantes mais preparados, matriculados na sede, digamos assim, “exclusiva”, conseguem colocar o colégio entre os melhores do país, gerando material de propaganda. No entanto, os outros alunos, aqueles que estão matriculados na sede original, com o CNPJ antigo, amargam resultados bem mais modestos.

Se os pais compararem o CNPJ da escola bem classificada, na qual imaginam que seus filhos estudam, com o CNPJ real das sedes nas quais eles efetivamente frequentam, descobrirão que a imensa maioria não estuda naquela da propaganda, como eles pensavam.

Ceará
O portal UOL publicou matéria mostrando que metade dos colégios top 10 tem baixo índice de permanência. A reportagem cita estabelecimentos de São Paulo, do Rio de Janeiro e do Ceará: Farias Brito, Christus e Ari de Sá. O baixo índice, por si, não prova a existência de turmas separadas nessas escolas. Mostra que suas turmas de 3º ano não são compostas, na maioria, por alunos que já estudavam nelas. Mas isso, convenhamos, já pega mal.

Valores
Ainda que não seja uma prática ilegal, o uso de artifícios não pedagógicos para incrementar resultados no Enem, serve para mostrar que a educação só pode ser um diferencial na formação de um indivíduo e, por consequência, de uma sociedade, se ela envolver valores. Isso vale para as famílias, mas também vale para as escolas.

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Enem 2014 mostra que escolas usam artifícios não pedagógicos para incrementar resultados

Por Wanfil em Educação

06 de agosto de 2015

O resultado do ENEM por escola divulgado nesta semana com dados referentes a 2014, jogou luzes sobre uma prática questionável utilizada desde outras edições da avaliação, mas que passava quase despercebida do público. Isso foi possível graças à criação de um novo indicador, o “índice de permanência”, que revela se o estudante cursou total ou parcialmente o ensino médio no estabelecimento pelo qual prestou o exame.

Médias artificiais
O índice acabou revelando que muitas das “campeãs” do Enem possuíam índice inferior a 20% de permanência, ou seja, que participaram da prova com a maioria dos alunos vindos de outras escolas. Estas se defendem dizendo que turmas especiais são comuns. Tudo bem, mas existe aí um problema ético a ser examinado: com alunos importados, o resultado não refletirá integralmente a qualidade de ensino daquela escola. Isso é correto?

Existe ainda outro ponto. Alguns colégios particulares separam alunos de melhor desempenho em pequenas turmas, que possuem CNPJ diferente. Basta ver a lista do Enem para comprovar isso. Escolas com sedes inteiras compostas de apenas 20, 30 ou 40 alunos. São unidades cujos resultados podem levar o público a pensar que o desempenho desse grupo reduzido corresponde ao do estabelecimento como um todo, perfazendo uma média geral, mas que na verdade não passa de uma amostra específica e pontual.

Nesses casos, a prática é mais grave, do ponto de vista ético. O aluno estuda, por exemplo, a vida inteira no Colégio Militar e, próximo ao exame do Enem, recebe uma proposta para representar uma grande escola particular. Junto com outros estudantes mais preparados, matriculados na sede, digamos assim, “exclusiva”, conseguem colocar o colégio entre os melhores do país, gerando material de propaganda. No entanto, os outros alunos, aqueles que estão matriculados na sede original, com o CNPJ antigo, amargam resultados bem mais modestos.

Se os pais compararem o CNPJ da escola bem classificada, na qual imaginam que seus filhos estudam, com o CNPJ real das sedes nas quais eles efetivamente frequentam, descobrirão que a imensa maioria não estuda naquela da propaganda, como eles pensavam.

Ceará
O portal UOL publicou matéria mostrando que metade dos colégios top 10 tem baixo índice de permanência. A reportagem cita estabelecimentos de São Paulo, do Rio de Janeiro e do Ceará: Farias Brito, Christus e Ari de Sá. O baixo índice, por si, não prova a existência de turmas separadas nessas escolas. Mostra que suas turmas de 3º ano não são compostas, na maioria, por alunos que já estudavam nelas. Mas isso, convenhamos, já pega mal.

Valores
Ainda que não seja uma prática ilegal, o uso de artifícios não pedagógicos para incrementar resultados no Enem, serve para mostrar que a educação só pode ser um diferencial na formação de um indivíduo e, por consequência, de uma sociedade, se ela envolver valores. Isso vale para as famílias, mas também vale para as escolas.