novembro 2014 - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

novembro 2014

PT saudações, PT contradições

Por Wanfil em Partidos

29 de novembro de 2014

Nas saudações do encontro da Executiva Nacional do Partidos dos Trabalhadores, realizado entre a sexta e o sábado, em Fortaleza, as mensagens convergiam para um apelo de unidade: apesar de tudo, das contingências e circunstâncias, dos erros e limitações, o partido tem uma história e identidade. Diante dos inúmeros impasses impostos pelo exercício do poder, a cúpula da sigla sabe que precisa realinhar o discurso da militância se almeja dar continuidade a seu projeto. O problema são as contradições que se acumularam nessa trajetória.

Marcas do passado
O anfitrião Camilo Santana, governador eleito do Ceará e primeiro petista a ocupar esse cargo, deu o tom logo na abertura do evento: “Vou imprimir no meu governo as marcas do PT que vêm mudando a realidade do país”. Que marcas são essas? O PT nasceu da fusão entre uma base sindical operária afeita ao pragmatismo, com setores da Igreja Católica e da intelectualidade (especialmente da Universidade de São Paulo) inspirados no credo marxista.

Em sua gênese se misturam o messianismo redentor e a crítica contra o sistema capitalista. Somente uma força de esquerda livre de ambições pecuniárias seria capaz de acabar com a corrupção e com a injustiça, para promover a igualdade social. São essas as marcas aludidas no discurso de Camilo, ecoando o desejo de militantes (na verdade, a arraia-miúda do petismo) de resgatar essa imagem de pureza, conspurcada por escândalos e alianças inimagináveis no passado.

Reformas
Por isso a direção do partido, incluindo a presidente Dilma, afirma que é necessário refazer as conexões com os movimentos sociais para entender o recado das urnas. Partindo dessa premissa, o PT prega a necessidade das seguintes iniciativas:

1) consultas populares para uma reforma política, questão bastante criticada por juristas, uma vez que o tema é complexo e multifacetado. De todo modo, o fim do financiamento privado de campanha entra na conversa como solução contra a corrupção, vista agora pelos petistas como problema sistêmico, e não mais como uma questão de conduta ética e moral;

2) intensificar a pregação pelo “controle social da mídia”, eufemismo para designar mecanismos de pressão contra a imprensa livre, que seria uma reação contra o suposto golpismo das oposições. A presidente Dilma deu a senha: “Nós colocamos que a verdade venceria a desinformação”. Verdade aí é a versão oficial para tudo o que hoje constrange o governo.

Contradições
O problema é que, na prática, o PT deixou que a reunião se transformasse em ato de desagravo ao tesoureiro do partido, Cândido Vaccarezza, e à ortodoxia da política econômica do governo Dilma, sem necessidade alguma de mea culpa, afinal tudo é culpa da imprensa…

Vacarezza é acusado de envolvimento no pantagruélico escândalo da Petrobras. Como ninguém sabe onde vai parar a investigação, é grande o risco de botar a mão no fogo pelo companheiro. Se fosse para ouvir mesmo o recado das urnas, o PT deveria afastar preventivamente seus filiados sob suspeita até que as investigações sejam concluídas.

Já a nomeação de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda, que tanto parece incomodar setores do partido, foi debitada na conta do pragmatismo. “É o jeito”, dizem seus líderes. No entanto, isso não reduz a contradição com a escolha de um nome ligado ao mercado. Ao fazer agora o que dizia repudiar na campanha, o que configura inegável estelionato eleitoral, o PT perde mais um pouco daquela credibilidade do passado.

No final, a militância pensa com saudosismo, luta para reaver parte do prestígio que a sigla já teve. Mas seus dirigentes estão preocupados mesmo é com a próxima reforma ministerial.

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Ministro da Integração Nacional explica por que é natural que cearenses bebam água contaminada

Por Wanfil em Ceará

25 de novembro de 2014

O ministro na Integração Nacional, Francisco Teixeira, participou na última segunda-feira (24) de reunião do Comitê Integrado de Combate à Estiagem, realizada em Fortaleza.

Na ocasião, ao comentar a constatação de que metade da água distribuída por carros pipa no Ceará é imprópria para consumo humano, Teixeira, com a autoridade de quem representa o governo federal nas ações contra a seca, mandou ver: “Quando diminui a quantidade [de água ofertada], é natural que diminua a qualidade. E fica cada vez mais difícil encontrar água de qualidade”. E aí, o que dizer? Parece até uma constatação técnica incontornável, mas não passa de evasiva para evitar cobranças. Fosse um sertanejo obrigado a buscar água em poças sujas, a explicação seria até razoável, mas como se trata de um ministro, sinto dizer, a resposta beira ao cinismo, afinal, se a baixa qualidade é natural nessas circunstâncias, o que não é admissível é o seu consumo por seres humanos. Estamos – não custa lembrar – no Século 21.

Acontece que as coisas não param por aí. Com o propósito de mostrar que o governo não se rende às fatalidades do clima, Teixeira continua: “Pra isso [encontrar água de qualidade] a operação carro pipa busca o máximo possível ir atrás de água nos sistemas convencionais de distribuição de água: adutoras da Cagece no Ceará, por exemplo”.

O que isso quer dizer? Nada! Pior: significa dizer que a oferta de água tratada é limitada e pronto. Quem não puder ser atendido pela Cagece, paciência!, afinal, o Ministério da Integração Nacional fez o “máximo possível”.

Por fim, para não perder o hábito deste governo, a conclusão da transposição do Rio São Francisco foi prometida para o final de 2015. Como a obra está atrasadíssima – deveria ter ficado pronta em 2010 – e seu cronograma já foi alterado diversas vezes, o melhor é desconfiar e não baixar a guarda na hora de cobrar celeridade.

No momento em que a gestão Dilma vive uma crise fiscal sem precedentes e já anuncia um ano de corte de despesas, um bom começo seria pedir que ministros saíssem de Brasília somente em casos de necessidade real. A visita de Francisco Teixeira ao Ceará, por exemplo, não passou de gasto desnecessário de dinheiro público com passagens e hospedagem. Não disse nada de novo, não inaugurou nada, não trouxe coisa alguma. Foi somente mais do mesmo e solução que é bom, nada.

Na reunião do tal Comitê especialista em cisternas e carros pipa, todos foram devidamente servidos de água mineral. Sabe como é…

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Camilo diz que governo sabe quando e onde os crimes acontecem. Ótimo! Se é assim, só falta agir!

Por Wanfil em Segurança

21 de novembro de 2014

Atenção para a fala do governador eleito Camilo Santana (PT), em entrevista concedida após reunião com a equipe de transição, na quinta-feira (20), para avaliar a situação da segurança pública.

“Hoje o nível de tecnologia, o nível de organização da polícia hoje no Ceará na segurança evoluiu tanto, que hoje a gente sabe onde é que são as áreas mais críticas, os horários que acontecem o maior número de homicídios ou de crimes.”

Repare que o novo governador enfatiza bem o tempo presente com a repetição do advérbio “hoje”. É um tributo ao ainda governador Cid Gomes (Pros), seu padrinho político. Não há o antes, só o agora dotado de qualidades inéditas. Se é assim, é uma boa notícia, uma vez que sabendo onde e quando os crimes acontecem, basta agora partir para a ação. Fica até difícil explicar por qual razão os índices de criminalidade não caíram vertiginosamente. Por incrível que pareça ao governador eleito, o Ceará hoje é o segundo estado mais violento do Brasil, de acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Em 2006, o Estado ocupava a 15ª posição.

O problema desse excesso de zelo para não ferir suscetibilidades é deixar de ver a realidade. Isso não implica em falta de reconhecimento a respeito desses investimentos, mas se não houver a aceitação de que o modelo adotado hoje falou, não será possível fazer as devidas correções para o próximo ano, para o amanhã.

A experiência dos últimos oito anos mostra que esse investimento em equipamentos e tecnologia não foi o bastante. Evidentemente Camilo não precisa sair criticando a gestão Cid, que isso seria deselegante, mas é importante ter em vista que o desastre – e a palavra é essa mesmo – na segurança pública do Ceará é político. Na verdade, faltam rumo e liderança. E isso não pode ser comprado.

É preciso deixar claro desde o início que a política da nova gestão é de tolerância zero, que polícia e governo são parceiros, que a máquina está realmente organizada para atuar de forma coordenada. A crise de segurança, repito quantas vezes for necessário, é antes uma crise de autoridade que só pode ser debelada com pulso firme e sem tergiversações.

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Vice-governadora prevê ano de arrocho no Ceará. Entenda o que isso significa

Por Wanfil em Política

19 de novembro de 2014

Nas campanhas eleitorais a ordem é vender sonhos, expectativas de futuro. Discursos com mais concursos, novos investimentos, números fabulosos, ampliação do assistencialismo (programas sociais, dizem na propaganda), desoneração e corte de impostos para gerar empregos, estimulam os eleitores.

Divulgado o resultado das urnas, os eleitos começam a deslocar o centro da conversa. O que antes era certo e garantido, agora passa a depender de variáveis que não eram mencionadas. Assim, começam a aparecer nas entrevistas termos como “controle”, “estudos”, “planejamento”, “capacidade”, “orçamento”, “repasses”, entre outros.  Os compromissos são reafirmados, mas devidamente acompanhados de alertas condicionantes. Vale ressaltar que no Ceará candidatos de oposição e de situação diziam saber onde conseguir recursos para cumprirem suas promessas. Por isso, qualquer tergiversação nesse sentido configura mudança de postura, para dizer o mínimo.

Nada disso é novidade, nem foi criado em 2014. Por ser comum, não significa que seja ético, pelo contrário, especialmente se levarmos em conta o padrão moral da política brasileira. Dilma não condenou a aumento de juros durante a campanha para três dias depois de reeleita aumentar os juros? O nome disso é trapaça, mas, nesse casos, é igual simulação de pênalti: encerrado o jogo, nada muda o placar. Em casos em que um novo gestor ainda está por assumir o mandato, esse método fica mais fácil de ser operado, pois há um tempo até que o novo governo comece e se adapte ao cotidiano da administração.

No Ceará, a vice-governadora Izolda Cela (Pros), que participa das reuniões da equipe de transição, deu início ao processo de redução de expectativas:

“Nesses dois, três anos mais recentes, o orçamento de estados e municípios têm sofrido apertos, ajustes. A diminuição das transferências do Governo Federal tem sido muito significativa. Então, é claro que uma nova gestão se inicia com todo aquele alerta de atenção, controle, de fazer caixa. Essas são as tarefas que já se anunciam e que são esperadas mesmo para um estado que tem uma estabilidade financeira. (…) Porque aquilo que exigirá mais recursos precisa desse tempo de controle do primeiro ano para acontecer”.

Tradução do Wanfil
Obviamente, a fala de Izolda é marcada por um habilidoso uso de eufemismos típicos da política. Por isso, faço aqui uma tradução livre do politiquês economicista para o português sem subterfúgio:

“Durante o governo Dilma a economia parou e isso reduziu os repasses federais para os estados e municípios. Assim, como a receita do Ceará não basta para bancar projetos que contavam com o aumento desses repasses, o jeito agora é cortar gastos para poupar e tentar terminar o que está em andamento. Então, em 2016, se der, a gente vê os novos projetos e ações”.

Convenhamos, não é o tipo de coisa que governistas digam durante a campanha, nem mesmo de forma cifrada. Desse jeito, não daria para “continuar mudando”. Sabe como é, vergonha é perder eleição.

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Câmara de Fortaleza acata indicação do Pros (Cid) para a presidência da Casa: é barba, cabelo e bigode

Por Wanfil em Política

18 de novembro de 2014

As articulações para a eleição do novo presidente da Câmara de Vereadores de Fortaleza, no próximo dia 2 de dezembro, revelam que partidos políticos não passam de abrigos para projetos particulares. Também mostram quem é que manda de fato no pedaço. Ações, todos sabem, valem mais do que palavras.

Ao que tudo indica, salvo uma improvável manobra de última hora, o vereador Salmito Filho, do Pros, secretário municipal do Turismo, será o eleito. Na sexta-feira, o vereador Elpídio Nogueira, que também é do Pros, desistiu de concorrer ao cargo. Na segunda, foi a vez do vereador José do Carmo (PSL), abrir mão da disputa, abrindo caminho para a construção de uma chapa única.

Salmito tem toda legitimidade para voltar ao comando da Câmara, que já presidiu entre 2009 e 2010, quanto era do PT. Acontece que a forma como esse processo foi conduzido deixa a impressão de que o Executivo municipal ultrapassou os limites da autonomia entre os poderes, afinal, o prefeito Roberto Cláudio indicou um membro do seu secretariado para assumir a presidência do Legislativo, que tem, entre suas prerrogativas, fiscalizar o governo. Mal comparando, é como se Dilma escolhesse, sem mais nem menos, o ministro Aloísio Mercadante para presidir a Câmara dos Deputados, passando por cima dos partidos e dos demais postulantes que já vinham trabalhando pelo cargo. Lá, isso nunca aconteceria, mas por aqui as coisas são mais provincianas. Manda quem pode, obedece quem tem juízo.

Na verdade, na hierarquia de poder hoje estabelecida no Ceará, a escolha de Salmito pelo Pros foi mera formalidade para dar ares de autonomia a uma indicação feita por Roberto Cláudio, conferindo ao prefeito um papel de liderança que, no fundo, não existe, já que é Cid Gomes quem dá a palavra final. Ou alguém imagina esse tipo de decisão sendo tomada à revelia do governador ou contra a sua vontade?

Desse modo, os fatos não deixam dúvida. O grupo político liderado por Cid, hoje instalado no Pros, comandará diretamente em 2015 a Assembleia Legislativa, a Prefeitura de Fortaleza e, muito provavelmente, a Câmara de Fortaleza, último reduto institucional de relevância política que ainda não estava completamente dominado pelos Ferreira Gomes. Não que fosse um espaço de resistência, mas de qualquer modo, nos últimos dois biênios, a Câmara tinha sido presidida pelo PT e depois pelo PMDB, siglas que saem enfraquecidas nessa história. E de modo indireto, o grupo continua no controle do governo do Estado, já que Camilo Santana, apesar de ser petista, foi eleito pelo Pros, que já mostrou seu peso ao indicar três dos cinco nomes para a equipe de transição anunciada pelo governador eleito.

Trata-se de uma hegemonia inédita no Ceará desde a redemocratização. É barba, cabelo e bigode.

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Camilo deixa PT de fora da transição e confirma: o cidismo continua firme no poder

Por Wanfil em Partidos

14 de novembro de 2014

O governador eleito Camilo Santana (PT) definiu os nomes para sua equipe de transição: a vice-governadora Izolda Cela (Pros), o deputado estadual e ex-secretário da Fazenda Mauro Filho (Pros), o chefe de Gabinete de Cid Gomes, Danilo Serpa (Pros), o secretário adjunto do Planejamento, Orçamento e Gestão, Carlos Eduardo Sobreira, e o pai do governador, Eudoro Santana.

Continuísmo
O PT ficou de fora. É possível dizer que a sigla está contemplada com o próprio Camilo, mas o fato é que o governador eleito nunca figurou como liderança do petismo no Ceará. Na verdade, ele sempre foi visto mais como um expoente do grupo ironicamente chamado de “PT cidista”. Outra justificativa seria alegar que os nomes foram escolhidos pelo critério de conhecimento da atual gestão. No entanto, se é assim, de onde virão as novas ideias? De Eudoro Santana? Sem integrantes que incorporem a visão da nova gestão para as prometidas correções de rumos, a equipe não sugere continuidade, mas continuísmo puro e simples.

Transição é o momento em que a nova equipe passa a se inteirar dos detalhes da gestão anterior, mas como está, feita por nomes que já são do Executivo, não há transição, mas manutenção da atual linha de governo. É  o terceiro mandato de Cid.

Desconfiança
Como na política todo ato tem um significado simbólico, o anúncio deixa transparecer que existe, se não uma desconfiança, uma falta de afinidade política entre Camilo e o comando estadual do seu partido. O Pros teria mesmo grande espaço, disso ninguém duvidava, afinal, o partido tem maioria na Assembleia Legislativa e foi quem, na prática, bancou a campanha de Camilo. Prova disso foi que o padrão visual da campanha foi o amarelo e não o tradicional vermelho, fato que causou algum constrangimento interno no PT. Além do mais, Cid Gomes não escolheria um candidato que, eleito, transferisse o núcleo do poder para outras paragens. Mas daí a ver o PT excluído desse momento, vai uma distância grande.

O fato é que nesse processo de transição, o Pros – que é, como sempre digo, a sigla de aluguel que hoje abriga o grupo político liderado pelos Ferreira Gomes -, continua como o centro gravitacional em torno do qual orbitam as demais forças governistas. Dificilmente a Casa Civil, a Fazenda, a Infraestrutura, a Segurança, a Educação e o Turismo, pastas poderosas e estratégicas, ficarão com indicações do PT.

Coadjuvante
Resta aos petistas agora esperarem por algum prêmio de consolação, algumas secretarias de menor porte e importância, como Pesca ou Esporte. É claro que o partido vai reclamar, pressionar, jogar duro, para tentar ocupar espaços de maior relevância. Pode até conseguir barganhar algo, mas a perspectiva de que o arranjo governista fosse formado a partir da primazia do PT seguido dos demais aliados desmoronou. Se o petismo chegou a sonhar com algum protagonismo, pode acordar, pois começa o governo Camilo como coadjuvante.

A essa altura, Luizianne Lins deve dizer assim para José Guimarães: “Eu avisei”.

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O Ceará no limbo: governo Cid acabou, gestão Camilo é mistério

Por Wanfil em Ceará

13 de novembro de 2014

Velhos problemas, poucas certezas e muitas dúvidas.

Velhos problemas, poucas certezas e muitas dúvidas.

Na semana em que o Anuário Brasileiro de Segurança Pública confirmou o Ceará como o segundo estado mais violento do Brasil (16% de aumento no número de homicídios em um ano), o governador Cid Gomes postou uma série de fotos com obras como a reforma do Cine São Luiz, o Hospital Regional do Sertão Central, em Quixeramobim, um viaduto e uma escola profissionalizante em Maranguape. Tudo muito bacana e bonito, mas o silêncio sobre a violência contrasta com a gravidade dos índices anunciados. Enquanto isso, a Guarda Municipal de Fortaleza deixou o programa “Crack, é Possível Vencer”, feito em parceria com a Secretaria de Segurança, por falta de condições de trabalho. Na Via Expressa, tradicional ponto da bandidagem em Fortaleza, cidadãos continuam sendo assassinados. No interior, policiais são executados. De certo modo, o governo Cid não tem mais o que fazer mesmo nessa área e segue agora em modo automático. Resta esperar e contar os mortos.

Após oito anos, o clima parece ser de prestação de contas informal, de despedida. Bons números sempre existem, especialmente em relação a infraestrutura, mérito reconhecido nas urnas. Numa época de desconfiança generalizada contra políticos, Cid foi um governador razoavelmente bem avaliado pela população. Segundo o Datafolha, durante a campanha eleitoral, quando os feitos da administração são realçados pela propaganda, o governador conseguiu média 6,6 e sua gestão foi aprovada por 47% dos entrevistados (em 2010 a aprovação era de 65%). Não é brilhante, mas no contexto atual, foi bom.

Restando menos de dois meses para o fim do governo, nada de impactante será discutido ou anunciado, pois o compasso é de espera. Assim, até janeiro, os cearenses vivem um limbo de comando: o atual governante se despedindo, o novo, Camilo Santana, do PT, se preparando para assumir. E aí é que são elas. Mesmo sendo de continuidade, o governo Camilo é uma incógnita até o momento, por diversas razões. Como dividir a estrutura administrativa entre o PT, que certamente anseia por maior participação, e o Pros, sigla de aluguel que abriga o grupo cidista? Camilo realmente terá independência e autonomia para contrariar interesses? Os conflitos internos na base acontecerão e sua liderança será testada. Esse é outro fator que gera expectativa, pois até hoje o governador eleito nunca liderou grupos políticos. Autoridade não se transfere: ou o sujeito a emana naturalmente, ou não. A força da caneta bastará? Para Dilma, não bastou e sua autoridade, em que pese o estilo pessoal da presidente, não se estabeleceu de fato, pois seus comandados sempre esperam pela palavra de Lula. Que secretários serão mantidos? Aliás, será mesmo bom manter secretários de uma gestão anterior? Mais: quais serão devidamente dispensados? Cargos serão distribuídos para compensar aliados não eleitos?

Por fim, a segurança pública poderá ter um novo rumo? O anuário deste ano tem como base nos dados de 2013. No Ceará, ainda que os índices melhorem na próxima edição, eles são de tal forma ruins, que a única certeza é de que este ainda será o maior desafio da próxima gestão. Passadas as eleições, sem a pressão da disputa, Camilo pode avaliar o que realmente deu errado (e que nunca foi admitido pelo governo estadual) e pensar em mudanças nas políticas públicas para a área. Se fechar os olhos para as falhas da gestão que se encerra, corre o risco de repetir o que não deu certo. E para fazer isso, é necessário não temer melindres. “Reconhecer é aprender, meu amor”, diz o roqueiro Nasi. Janeiro está logo ali.

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TCE dá auxílio-moradia a quem não precisa. É farra com o nosso dinheiro. E são os fiscais da lisura administrativa…

Por Wanfil em Corrupção

11 de novembro de 2014

Leio no blog do jornalista Diego Lage, também do portal Tribuna do Ceará, que o Tribunal de Contas do Estado vai pagar um auxílio-moradia de R$ 4.377,73 aos seus membros, com exceção da conselheira Soraia Victor e do procurador de contas Gleydson Alexandre, os únicos a não pedirem o “benefício”.

A medida é inspirada na resolução 199 do Conselho Nacional de Justiça, publicada no dia 7 de outubr. A falta de rigor para os critérios é constrangedora. O Art. 3º da resolução “Minha Casa, Minha Vida dos juízes“, como bem ironizou o advogado Jorge Hélio, diz: “O magistrado não terá direito ao pagamento da ajuda  de custo quando: I – houver residência oficial colocada à sua disposição, ainda que não a utilize”. Parece cuidado, mas é esperteza.

É claro que existem casos em que o servidor necessita da ajuda, principalmente se foi transferido para uma outra cidade, mas repare que o texto deixa aberta a porta para que o potencial beneficiário receba esse caríssimo auxílio-moradia mesmo que possua um ou mais imóveis particulares na cidade onde mora ou trabalha. Só não recebe se não quiser.

Conselheiros do Tribunal de Contas do Ceará precisam morar, claro, no Ceará. E mesmo assim quase todos aceitaram receber o agrado pago com o dinheiro dos contribuintes, como se fossem sem-tetos, como se a sociedade lhes devesse o favor de terem aceito a nomeação para os cargos vitalícios que ocupam.

Que comam brioches!
Quando os protestos tomaram conta do Brasil em junho do ano passado, muitos se perguntavam: como isso aconteceu assim de uma hora para outra? Historiadores sabem que esse tipo de processo demanda tempo. Revoltas são ápices de um conjunto anterior de acontecimentos e práticas que foram se acumulando até estourarem em determinado evento.

Na França do Século 18 a rainha Maria Antonieta foi alçada à condição de vilã nacional no seio dos contrastes sociais que marcaram a Revolução Francesa. De um lado, a pobreza extrema da maioria e a carestia dos alimentos, do outro, a alienação e as extravagâncias de uma aristocracia deslumbrada e  insensível aos problemas do povo. A ela foi atribuída a famosa frase “Se não têm pão, que comam brioches”. A tirada foi de um livro de Rousseau, de muito antes, mas sobrou para Antonieta, que morreu guilhotinada.

No Brasil do Século 21, as eleições de 2014 deixaram a impressão de que toda aquela indignação se diluiu na cultura dos vícios políticos de uma nação irremediavelmente corrompida, afinal, os governantes se mantiveram no poder. Nossa aristocracia burocrática, alienada da realidade, viu nisso o sinal verde para a perpetuação do patrimonialismo.

Ironicamente, no caso em questão, autoridades que têm a missão de zelar pela lisura dos gastos governamentais, dos princípios da austeridade e da economicidade, que devem dar o exemplo de retidão para poderem fiscalizar gestores públicos, se sentiram à vontade para viver o luxo dos que se acham acima de tudo e de todos. Os conselheiros do TCE e os magistrados que recebem auxílio-moradia sem precisar podem dizer agora, altivos: “Não têm casa? Que prestem concurso ou sejam nomeados”. Vamos ver até onde quem paga a conta vai aguentar.

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E você que brigou por causa de candidato, com que cara fica agora?

Por Wanfil em Eleições 2014

07 de novembro de 2014

Durante a campanha eleitoral – e vou me ater aqui apenas à disputa presidencial, muita gente encarnou o clima de vale tudo dos programas eleitorais e mandou ver nas redes sociais. Ofensas e melindres estremeceram muitas amizades. A justificativa, de modo geral, era de que acima de tudo estava em jogo o futuro do Brasil, nessa guerra entre bons (os que votariam no mesmo candidato) e maus (os que votariam nos adversários).

Vi, por exemplo, muitos amigos meus brigando com outros amigos em comum na defesa da candidata Dilma Rousseff (PT) contra o retrocesso que representariam as candidaturas de Aécio Neves (PSDB) e Marina Silva (PSB). E vice-versa. O fim da história, todos sabemos: Dilma ganhou com pequena margem.

Mas na campanha, abatida ainda no primeiro turno, Marina foi acusada de estar a serviço de banqueiros, pois uma de suas coordenadoras de campanha, a educadora Neca Setúbal, é uma das herdeiras do banco Itaú. É antológica a propaganda em que a comida desaparecia do prato da família pobre, enquanto o narrador acusava a candidata adversária de estar a serviço dos bancos. Foi uma forma engenhosa (muitos consideram desonesta) de dizer que política econômica que se vale de aumento de juros só beneficia os mais ricos. O vídeo foi compartilhado sem reservas como prova de que Marina era um embuste. Já Aécio, derrotado no segundo turno, representava o (ai, meu Deus!) neoliberalismo que teria “quebrado o Brasil três vezes”! Seria, portanto, a reedição de uma política econômica que não saber fazer outra coisa senão aumentar juros para combater a inflação, sacrificando o consumo dos mais pobres no altar do mercado financeiro. A solução? Dilma.

Pois bem, passadas as eleições, ver agora a presidente fazer o inverso do que anunciou a candidata me constrange na medida em que me desses amigos queridos, que agora pouco se manifestam.

Vamos a alguns exemplos: após a eleição, o governo Dilma (garantia de que a pobreza continuaria diminuindo, diziam seus entusiastas) liberou o anúncio de dados oficiais que foram proibidos de serem divulgados para não atrapalhar a campanha. A saber: o déficit nas contas públicas é recorde, a presidente não conseguirá cumprir a meta fiscal de 2014, a pobreza voltou a crescer, segundo informações do IPEA e do IBGE. Reeleita, só então Dilma confessou que realmente a inflação é um problema urgente e que por isso apoia o… aumento de juros decidido pelo Banco Central! Lembram da discussão sobre a independência do BC? Pois é. E ainda tem o aumento de preços represados dos combustíveis e da energia elétrica. Esse conjunto de ações basta para comprovar que estamos diante de um dos maiores estelionatos eleitorais da história do Brasil. Só perde, a meu juízo, para o Plano Cruzado, do governo Sarney.

Já pelo lado da oposição, é mais difícil cobrar coerência, pois, afinal, perderam e não podem por à prova o que prometeram fazer (ou não fazer). De todo modo, ser oposição não significa ausência de responsabilidade. O noticiário dá conta de um suposto acordo entre PT e PSDB para preservar alguns de seus membros na CPI da Petrobras, no Congresso Nacional. Os tucanos negam, os petistas alardeiam, como a mostrar: viram, são iguais a nós! O fato é que políticos deixaram de ser convocados para prestar depoimentos. Aécio já disse que acordos assim são inaceitáveis e tal. Seus eleitores aguardam cenas dos próximos capítulos, temerosos de que a mudança prometida acabe em piza. Dilma não se pronunciou a respeito, mas na campanha, Dilma disse que sobre a corrupção na Petrobras, seu governo iria “até o fundo, doa a quem doer”. Não foi o que se viu na CPI.

É isso. Como é que a gente fica? Como é que ficam os que desfizeram laços de amizade por acreditar em discurso de político em campanha eleitoral? O calor dos debates acalorados deu lugar agora, especialmente por parte de quem votou em Dilma, a um silêncio desconfiado. Hora de cada um perguntar a si mesmo: E aí, valeu a pena?

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TCU aponta indícios de superfaturamento na Linha Sul do Metrô de Fortaleza

Por Wanfil em Ceará

05 de novembro de 2014

Durante debate eleitoral realizado pela Rede Record no último dia 20 de outubro, a presidente Dilma Rousseff (PT) citou o metrô de Fortaleza como obra concluída por seu governo. A afirmação gerou polêmica nas redes sociais. No final, ficou comprovado depois que das três linhas do projeto, apenas a Linha Sul estava concluída e já funciona em fase de testes. Isso não impediu que um exército de assessores corresse para postar imagens de que a obra estava sim terminada e que os críticos eram mal intencionados. Isso, porém, são águas passadas e a presidente foi reeleita. A novidade agora diz respeito a outro aspecto desse mesmo empreendimento: o financeiro.

O Tribunal de Contas da União (TCU) aprovou nesta quarta-feira (5) seu relatório anual com os resultados de auditorias feitas em obras federais, chamado de Fiscobrás.

De acordo com o TCU, entre as obras reprovadas e com recomendação de retenção parcial de valores está a implantação do Trecho Sul do metrô em Fortaleza. Por qual motivo? Suspeita de superfaturamento.

Ao todo, das 102 obras fiscalizadas, 58 apresentaram problemas. Em nove foram encontrados indícios de irregularidade grave com recomendação de paralisação (IG-P) e indícios de irregularidade grave com retenção parcial de valores (IG-R), que é o caso do Ceará. Essas informações serão enviadas ao Congresso Nacional, que deverá avaliar se procede ou não com o bloqueio preventivo de recursos para esses empreendimentos.

Pois é. Não é a Veja que está dizendo. Nem a oposição. É o TCU. Confira a informação publicada no site do tribunal (o carimbo IGR está no canto superior direito da imagem):

TCUAs informações sobre o Fiscabrás estão disponíveis para o público aqui.

É bom que a bancada cearense no Congresso Nacional fique atenta na hora de examinar o relatório do TCU, afinal, ela está lá para defender o interesse do Ceará e o dinheiro dos contribuintes. Ou não?

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TCU aponta indícios de superfaturamento na Linha Sul do Metrô de Fortaleza

Por Wanfil em Ceará

05 de novembro de 2014

Durante debate eleitoral realizado pela Rede Record no último dia 20 de outubro, a presidente Dilma Rousseff (PT) citou o metrô de Fortaleza como obra concluída por seu governo. A afirmação gerou polêmica nas redes sociais. No final, ficou comprovado depois que das três linhas do projeto, apenas a Linha Sul estava concluída e já funciona em fase de testes. Isso não impediu que um exército de assessores corresse para postar imagens de que a obra estava sim terminada e que os críticos eram mal intencionados. Isso, porém, são águas passadas e a presidente foi reeleita. A novidade agora diz respeito a outro aspecto desse mesmo empreendimento: o financeiro.

O Tribunal de Contas da União (TCU) aprovou nesta quarta-feira (5) seu relatório anual com os resultados de auditorias feitas em obras federais, chamado de Fiscobrás.

De acordo com o TCU, entre as obras reprovadas e com recomendação de retenção parcial de valores está a implantação do Trecho Sul do metrô em Fortaleza. Por qual motivo? Suspeita de superfaturamento.

Ao todo, das 102 obras fiscalizadas, 58 apresentaram problemas. Em nove foram encontrados indícios de irregularidade grave com recomendação de paralisação (IG-P) e indícios de irregularidade grave com retenção parcial de valores (IG-R), que é o caso do Ceará. Essas informações serão enviadas ao Congresso Nacional, que deverá avaliar se procede ou não com o bloqueio preventivo de recursos para esses empreendimentos.

Pois é. Não é a Veja que está dizendo. Nem a oposição. É o TCU. Confira a informação publicada no site do tribunal (o carimbo IGR está no canto superior direito da imagem):

TCUAs informações sobre o Fiscabrás estão disponíveis para o público aqui.

É bom que a bancada cearense no Congresso Nacional fique atenta na hora de examinar o relatório do TCU, afinal, ela está lá para defender o interesse do Ceará e o dinheiro dos contribuintes. Ou não?