setembro 2014 - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

setembro 2014

E a eleição no Ceará chega ao ‘escândalo dos banheiros’. Mais do que previsível…

Por Wanfil em Eleições 2014

29 de setembro de 2014

Quando o governador Cid Gomes bateu o martelo e decidiu que seu candidato à sucessão estadual seria o ex-secretário das Cidades Camilo Santana, conseguiu manter o PT em sua coligação, mas deixou aberta a possibilidade de resgate para aquele que foi o maior caso de corrupção de sua gestão, o “escândalo dos banheiros”.

Associação direta e automática
É que Camilo tem o nome associado ao episódio, por ter assinado a prorrogação de convênios celebrados com associações comunitárias fantasmas. Além disso, no decorrer das investigações, chegou a ter os bens indisponibilizados por ordem da Justiça. Não estou dizendo que o candidato é criminalmente culpado, pois as ações estão em andamento, mas apenas lembrando que seu nome é vinculado ao caso. Isso é inegável, tanto quanto o potencial negativo dessa ligação para suas pretensões eleitorais.

Na reta final da campanha, com a disputa parelha, contando com o apoio dos governos do Estado e da prefeitura de Fortaleza, é natural que seus adversários, cedo ou tarde, trouxessem o ‘escândalo dos banheiros’ à tona. Era previsível. E foi o que aconteceu. A coligação de Eunício Oliveira, do PMDB, passou a veicular inserção na propaganda eleitoral relembrando o caso. Nos debates da NordesTV (dia 26) e da TV Diário (dia 28), o tema rendeu os momentos de maior tensão da campanha até o momento.

Respostas frágeis
Por ter sido escolhido apesar desse passivo político, era de se esperar que o candidato governista tivesse uma carta na manga para um contra-ataque, ou uma prova consistente e cabal de inocência. Camilo se defende em três frentes: 1) diz que mandou investigar tudo, quando a investigação foi realizada pela Procuradoria dos Crimes contra a Administração Pública (PROCAP), do Ministério Público do Estado do Ceará; 2) diz que não era o secretário quando os convênios foram assinados, jogando a culpa em seus antecessores, o que depõe contra a gestão que ele defende; 3) diz que foi induzido a erro por funcionários de segundo escalão quando assinou as prorrogações dos convênios fajutos, minando a própria imagem de gestor capaz. Convenhamos, são argumentos frágeis.

No debate da NordesTV, Camilo acenou com essas saídas ao ser questionado pela deputada Eliane Novais, do PSB, sem maiores problemas, uma vez que a tréplica mudou de assunto. Mesmo assim, sentindo o risco da abordagem, o candidato pediu direito de resposta. Já no debate da TV Diário, Camilo surpreendeu ao abordar ele mesmo o tema, no ataque, desafiando seu principal adversário, Eunício Oliveira – a quem chamou de covarde, no melhor estilo Ciro Gomes -, a dizer-lhe diretamente, “na cara” (de novo o estilo Ciro Gomes), quais eram especificamente as acusações que tinha contra ele. A resposta foi desconcertante: “Eu nunca fiz uma acusação ao senhor. (…) Quem faz acusações ao senhor é o Tribunal de Contas do Estado, quem está investigando o senhor é o Ministério Público. Nós somos os candidatos ao Governo do Estado e a população tem o direito de saber em quem vai votar no dia 5”.

Camilo retrucou lembrando que alguns dos envolvidos no caso, apoiam Eunício. O problema aí é que, para efeito de eleição, o que vale mesmo é a imagem do candidato e não tanto de seus aliados mais distantes. Camilo é apoiado, por exemplo, por José Guimarães, do PT, conhecido pelos episódio dos “dólares na cueca” de uma assessor, e nem por isso acaba ligado a esse caso. Além de mais, outros existem outros citados na investigação dos “banheiros fantasmas”, como Sávio Pontes, ex-prefeito de Ipu, que são aliados dos governistas.

O tamanho do estrago
A questão, nesse momento, não é o caráter processual do ‘escândalo dos banheiros’, mas sua significação política e eleitoral, carregada de simbologias. Nada mais escatológico do que um caso de corrupção envolvendo desvio de dinheiro público destinado a construção de banheiros para famílias de baixa renda. É o paraíso dos chargistas, que cravam esse aspecto em imagens de assimilação rápida: verbas descendo pela descarga, políticos sentados em vasos sanitários, a palavra impunidade escrita em papel higiênico, e por aí vai. A cobertura da imprensa, principalmente pelo jornal O Povo, o primeiro a publicar a investigação da Procap, e pela TV Jangadeiro, que mostrou que o esquema funcionava em diversos municípios e não apenas em Pacajus, também foram fundamentais para não deixar as denúncias caírem no esquecimento. Presidentes do BNB e do TCE caíram por causa delas.

Agora, enquanto os processos judiciais se arrastam, a emergência de uma eleição retoma esse conjunto para fazer a associação (natural, diga-se) de um caso de corrupção de grande magnitude, fácil de compreender (diferente, por exemplo, dos desmandos na Petrobras), fresco na memória e amplamente conhecido pela população, com o candidato governista. Acreditar que isso não seria levantado numa campanha eleitoral seria ingenuidade e ingênuos não existem nesse meio. Talvez o governo tenha subestimado o potencial de estrago da exploração desse escândalo. Ou não. As urnas dirão.

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Você conhece Murilo Rubião?

Por Wanfil em Livros

27 de setembro de 2014

“A princípio foi azul, depois  verde, amarelo e negro. Um negro espesso, cheio de listras vermelhas, de um vermelho compacto, semelhante a densas fitas de sangue. Sangue pastoso com pigmentos amarelados, de um amarelo esverdeado, tênue, quase sem cor. Quando tudo começava a ficar branco, veio um automóvel e me matou”. Trecho do conto O pirotécnico Zacarias, de Murilo Rubião, publicado em 1974, sobre a luta de um homem para provar que estava realmente morto.

Murilo Rubião - Obra Completa. Cia. das Letras.   O inexplicável e o mágico como partes da vida.

Murilo Rubião – Obra Completa. Cia. das Letras. O inexplicável e o mágico como partes da vida.

Rubião é assim: elegante na sintaxe, envolvente na prosa, de modo a deixar o leitor sempre ansioso pelo próximo parágrafo; seguro na condução do ritmo e surpreendente nos arremates. O inusitado, o misterioso e o fantástico aparecem em seus contos como algo normal. Em O Pirotécnico…, o personagem assim explica sua condição incomum: “No passar dos meses, tornou-se menos intenso o meu sofrimento e menor a minha frustração ante a dificuldade de convencer os amigos de que o Zacarias que anda pelas ruas da cidade é o mesmo artista pirotécnico de outros tempos, com a diferença de que aquele era vivo e este, um defunto”. Como pode isso? Não se sabe, apenas pode.

Em outro conto, O ex-mágico da Taberna Minhota, Murilo é alucinante e ao mesmo tempo pungente: “Todo homem, ao atingir certa idade, pode perfeitamente enfrentar a avalanche do tédio e da amargura, pois desde a meninice acostumou-se às vicissitudes, através de um processo lento e gradativo de dissabores. Tal não aconteceu comigo. Fui atirado à vida sem pais, infância ou juventude. Um dia dei com os meus cabelos ligeiramente grisalhos, no espelho da Taberna Minhota. A descoberta não me espantou e tampouco me surpreendi ao retirar do bolso o dono do restaurante. Ele sim, perplexo, me perguntou como podia ter feito aquilo”.

É justamente o inexplicável na condição de coisa simples, o elemento que fascina nas histórias de Murilo Eugênio Rubião (1916-1991), um dos nossos poucos representantes do chamado realismo mágico. Entretanto, seus textos foram publicados em meados de 1940, antes, portanto, do sucesso de Gabriel García Marquez e Julio Cortazár, expoentes mais famosos desse estilo. Mas não se trata apenas de buscar o estranhamento do leitor. A prosa fantástica é rica por seu teor metafórico. A de Rubião em particular é relacionada com aspectos da psicologia, sem referências a revoluções, contrastes sociais, lições de moral, essas coisas. Talvez por isso seja menos reconhecido do que deveria.

Rubião também dominou com precisão o suspense, como no conto A armadilha: ” Quis voltar ao corredor, a fim de recomeçar a busca, quando deu com um biombo. Afastou-o para o lado e encontrou uma porta semicerrada. Empurrou-a. Ia colocar a mala no chão, mas um terror súbito imobilizou-o: sentado diante de uma mesa empoeirada, um homem de cabelos grisalhos, semblante sereno, apontava-lhe um revólver. Conservando a arma na direção do intruso, ordenou-lhe que não se afastasse. Também a Alexandre não interessava fugir, porque jamais perderia a oportunidade daquele encontro. A sensação de medo fora passageira e logo substituída por outra mais intensa, ao fitar os olhos do velho”.

Os textos de Murilo Rubião são sedutoras lições de português que refletem seu trabalho minucioso. Um conto poderia ficar anos sob lapidação. Os diálogos também são marcantes, de frases curtas e ferinas, entrecortados com reflexões dos personagens ou do narrador. Pincei uma amostra de Os três nomes de Godofredo:

“Insatisfeito com as dúvida que me ocorriam, indaguei meio constrangido:
– Eu a convidei para o jantar, não?
– Claro! E não havia necessidade de um convite formal para me trazer aqui.
– Como?
– Bolas, desde quando se tornou obrigatório ao marido convidar a esposa para as refeições?
– Você é minha mulher?
– Sim, a segunda. E preciso lhe dizer que a primeira era loura e que você a matou num acesso de ciúmes?
– Não é necessário. (Já ficara bastante abalado em saber do meu casamento e não desejava que me criassem o remorso do qual não tinha a menor lembrança)”.

E para mostrar a versatilidade desse escritor, encerro com um poético trecho de O pirotécnico Zacarias“Amanhã o dia poderá nascer claro, o sol brilhando como nunca brilhou. Nessa hora os homens compreenderão que, mesmo à margem da vida, ainda vivo, porque a minha existência se transmudou em cores e o branco já se aproxima da terra para exclusiva ternura dos meus olhos”.

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Ibope no Ceará: corrida contra o tempo

Por Wanfil em Pesquisa

25 de setembro de 2014

O instituto Ibope divulgou sua terceira pesquisa para as eleições no Ceará. O candidato Eunício Oliveira, do PMDB, oscilou um ponto para cima e continua liderando a corrida eleitoral com 43% das intenções de voto. Camilo Santana, do PT, segue em segundo, com 38%, quatro pontos a mais do que na pesquisa anterior. Os indecisos são 8%. Eliane Novais (PSB) tem 3% e Ailton Lopes (PSOL) 1%. O levantamento foi encomendado pela TV Verdes Mares.

Como a margem de erro é de três pontos para mais ou para menos, os dois candidatados que polarizam a disputa estão tecnicamente empatados. É claro, também, que por esse mesmo critério a diferença que os separa pode ser maior. O que vale mesmo agora é observar as tendências do momento.

Os cenários
O Ibope apresentou um cenário parecido com o que foi colhido pelo Datafolha, divulgado no final de semana, levando em conta, claro, as diferenças metodológicas de cada um e a margem de erro.

Descontando pequenas variações, o quadro é esse: Eunício estabilizado na ponta, sem perder votos, mostra uma incrível resistência, pois enfrenta as máquinas do governo estadual e da prefeitura de Fortaleza. Já Camilo continua crescendo, mas em ritmo bem inferior ao registrado na segunda pesquisa, no início de setembro, quando o candidato subiu 20 pontos. Depois disso, nas últimas três semanas, o crescimento foi de quatro pontos, uma média de 1,33 ponto por semana. Esse ritmo não seria suficiente para tomar a dianteira. No entanto, esse cálculo frio não reflete a volatilidade de uma campanha. E ainda tem o famoso Dia D, quando os candidatos acentuam o trabalho de sedução de apoiadores, se é que vocês me entendem.

Cuidado redobrado
Tudo isso confirma o que foi dito aqui desde o começo: com a polarização das eleições para o governo estadual entre essas duas candidaturas, a reta final da campanha será disputadíssima.

E aí, mais do que nunca, é preciso que as autoridades, especialmente o tribunal regional eleitoral do ceará, fiquem atentas para possíveis irregularidades. É que para muita gente, feio é perder e vale tudo para ganhar.

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Dá licença, eleição é prioridade!

Por Wanfil em Eleições 2014

23 de setembro de 2014

Já imaginou, caro leitor, chegar em um hospital com crise de apendicite e descobrir que o cirurgião pediu licença para atuar por duas semanas como militante de campanha eleitoral? Ou, no caso de ocorrência policial, ser informado que o delegado se afastou pelo mesmo motivo? Ninguém pensa em situações assim, pelo simples fato de que é algo impossível, afinal, na escala de prioridades desses profissionais, e horário de expediente, as eleições ficam em segundo plano. A não ser que o servidor em questão seja governador ou um político com outro mandato qualquer. Nesses casos, a prioridade é invertida. O que são pacientes sem atendimento, seca, violência, essas coisas, diante da emergência de uma campanha eleitoral? É uma lógica cruel, mas é assim que funciona.

No Ceará, não é diferente. Pesquisas eleitorais despertaram o instinto de sobrevivência política do governador Cid Gomes, que prontamente anunciou a decisão de se afastar temporariamente do cargo para ajudar na campanha de Camilo Santana (PT), seu indicado, para o governo estadual. O anúncio veio adornado com aquele palavreado cívico, pelo qual deixar as obrigações de lado para “mergulhar” na campanha seria um ato de desprendimento. Como se os eleitores precisassem do alerta clarividente de quem está no poder; como se a escolha por alguma outra opção fosse uma espécie de autossabotagem da população. É natural que governantes apoiem candidatos, mas com o devido comedimento, com respeito a pluralidade e discernimento para não confundirem o processo eleitoral com teorias conspiratórias, teses golpistas ou manifestação de injustiça. Esse tipo de distorção é comum aos que não compreendem a natureza da democracia, afinal, governos não têm donos e a alternância é normal, pois o poder emana do povo.

Dito isso, lembro que nada há de ilegal no pedido de licença. Aliás, político priorizando eleições é regra em todo o mundo. A questão é ficar atento aos limites impostos pela condição de governantes. O próprio Cid já havia feito isso em 2012, na acirrada campanha para a Prefeitura de Fortaleza. Entretanto, dessa vez, ao decidir repetir a estratégia logo após a divulgação de uma pesquisa desfavorável ao candidato governista, ficam sinalizadas as seguintes impressões: 1) as coisas não saíram como o planejado; 2) o medo de perder se instalou no comando da campanha; 3) a candidatura apresenta sinais de fragilidade. Tivesse saído antes, isso não aconteceria, mas agora, a percepção de que o candidato precisa ser salvo às pressas pode até atrapalhar.

De todo modo, Cid faz é bem em pedir para sair, pois assim oficializa uma situação que já existia de fato. O certo é que um chefe de governo deve estar totalmente empenhado nas questões públicas e na agenda administrativa, caso contrário, que se afaste mesmo. Aliás, bem que Cid poderia ser acompanhado por alguns secretários, como seu irmão Ciro Gomes na Saúde e Ferrúcio Feitosa na tal Secretaria de Grandes Eventos, que ultimamente aparecem mais atuando como cabos eleitorais do que exercendo suas funções originais. Tudo o que o Ceará não precisa neste momento é de autoridades que, na prática, deixam seus afazeres para priorizar interesses partidários.

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Datafolha no Ceará: entre expectativas e frustrações

Por Wanfil em Pesquisa

21 de setembro de 2014

A mais recente pesquisa Datafolha para as eleições no Ceará, publicada pelo jornal O Povo neste sábado, mostra uma tendência à estabilidade na disputa, com 34% para Camilo Santana (PT), e 41% para Eunício Oliveira (PMDB), que mantém a dianteira.

O Datafolha confirma, por assim dizer, a análise que fiz na rádio Tribuna Bandnews  no dia 03 de setembro sobre a pesquisa anterior do instituto. Camilo havia avançado 12 pontos (pulando de 19% para 31%), dando a impressão de que uma onda favorável se formava. Entretanto, alertei que esse aumento se tratava ainda de transferência de votos do governador Cid Gomes para o seu escolhido. Quem quer que fosse o candidato governista, ele estaria ali na casa dos 30%, talvez um pouco mais, por herdar a preferência de parte dos que aprovam a atual gestão. Dali por diante, portanto, Camilo teria que conquistar seus próprios votos. E aí vimos que o ritmo caiu e o candidato agora apenas oscilou dentro da margem de erro de 3 pontos, frustrando aliados que nos bastidores já falavam em virada, probabilidade que causava inegável apreensão entre os partidários de Eunício.

Como eu já havia dito, o processo de transferência de Cid para Camilo atingiu o teto. Por outro lado, Eunício dá sinais de que também encontrou seu limite de intenção de voto. Se não caiu, deixando a impressão de que encontrou seu piso, também não conquistou indecisos, que são 13% dos entrevistados. Um feito, diga-se, pois descontados votos brancos e nulos, o peemedebista estaria eleito em primeiro turno com 51% das intenções de votos, contra um adversário que tem o apoio do governador e do prefeito de Fortaleza

Nessa reta final, faltando duas semanas para a eleição, um problema adicional para Camilo é o noticiário desfavorável criado pela reação desastrada de Cid Gomes,  seu fiador, no caso das denúncias do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa. A pesquisa não avalia o impacto do caso, mas é razoável suor que isso reduza o peso da imagem do governador como principal puxador de votos para o petista.

O Datafolha desta semana é isso: frustração para quem sonhava com uma virada e renovação das expectativas para os que a temiam.

Senado
Para o Senado, Tasso Jereissati (PSDB) subiu mais quatro pontos e aparece com 58% da preferência dos eleitores, aumentando a diferença para o segundo colocado, Mauro Filho (Pros), que registrou 19%. A diferença, de 39 pontos, quase três vezes o número de indecisos, que é de 14%. Contando somente os votos válidos, Tasso fica com 74%, contra 24% de Mauro.

A pesquisa mostra que essa é uma tendência que se repete em todos os segmentos avaliados. Como os governistas devem concentrar seus esforços na campanha de Camilo, a situação de Mauro fica mais difícil. Tasso caminha para retornar ao Senado, salvo reviravoltas monumentais de última hora.

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Paulo Roberto Costa e as “armações políticas” no Ceará

Por Wanfil em Política

18 de setembro de 2014

O Supremo Tribunal Federal derrubou a liminar que impedia a circulação, em todo o país, da revista ISTOÉ. No último final de semana, a edição com a revelação de denúncias que teriam sido feitas pelo ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa contra o governador do Ceará, Cid Gomes, em depoimento tomado dado à Polícia Federal após acordo de delação premiada.

Repercussão demorada
Embora diversos políticos e partidos tenham sido acusados de participar desse esquema de desvio de dinheiro público em contratos da estatal, somente a Cid Gomes ocorreu a ideia de tentar impedir a venda da revista. Para o desgosto do governador cearense, foi exatamente isso que deu notoriedade ao caso.

De início a notícia ficou restrita à cobertura do portal Tribuna do Ceará e da rádio Tribuna Bandnews FM, mas com a decisão judicial de impedir a comercialização da revista, tomada a pedido do governo e imediatamente interpretada como censura (o que foi confirmado pelo STF), que o caso ganhou o imenso destaque nos grandes veículos da imprensa nacional e até internacional.

Quem são? Como agiram?
No entanto, nada disso guarda relação com o mérito da matéria jornalística que deu início a toda essa confusão. Sobre isso, o que se tem até o momento é a nota de Cid publicada no site do governo do Ceará, e que confirma a resposta enviada para a ISTOÉ, segundo a qual tudo não passa de “armação criada por meus adversários, visando interferir na disputa eleitoral no Ceará”. Diante disso, cabe perguntar: quem são esses adversário? Até o momento, ninguém foi apontado oficialmente. E como se deu essa armação? Paulo Roberto Costa mentiu deliberadamente a serviço de inimigos dos políticos que citou ou a revista inventou o depoimento? Não se sabe exatamente os detalhes dessa suposta trama denunciada por Cid. E isso debilita seu argumento, pois apelar a generalidade e apontar teses conspiratórias é mais ou menos a resposta padrão de todo político em situação de emergência.

Aliados do governador argumentam que a intenção real desse noticiário negativo seria atingir Camilo Santana (PT), indicado por Cid à sucessão estadual. A vinculação entre padrinho e apadrinhado é inegável, mas é bom lembrar mais uma vez que foi a reação do governo que ajudou a propagar o episódio, turbinando, inclusive, as vendas da revista. Dado o conjunto da obra, caberia concluir que gente das próprias hostes governistas estaria envolvida na “armação”. Além do mais, de acordo com a justificativa de Cid, o mais lógico seria atacar diretamente o próprio Camilo, que tem o passivo do famoso escândalo dos banheiros.

Silêncio e suspense na CPI
No mesmo dia que o STF derrubou a liminar contra a revista, Paulo Roberto Costa foi depor na CPI mista do Congresso Nacional que investiga escândalos na Petrobras. O depoente ficou em silêncio. Não disse nada, não confirmou nomes, não apresentou documentos. Como bem lembrou o jornalista Ricardo Boechat, da Bandnews, essa postura é reveladora. Paulo Roberto Costa optou pelo direito de permanecer calado, para não prejudicar o acordo de delação premiada. Caso tivesse revelado algo dito anteriormente à polícia e à Justiça, quebraria o acordo de confidencialidade exigido pelas autoridades. É sinal de que leva a delação a sério. Alívio momentâneo para os nomes citados na imprensa que vazaram dessas oitivas, suspense para quem vive o medo de ser realmente atingido pela investigação.

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O Ceará e o propinoduto da Petrobras: cautela nas conclusões e urgência na investigação

Por Wanfil em Corrupção

15 de setembro de 2014

Reportagem da revista Istoé coloca o governador do Ceará, Cid Gomes, na lista de políticos que supostamente receberam propina em contratos superfaturados da Petrobras. A denúncia teria sido feita por Paulo Roberto costa, ex-diretor da estatal, que após ter sido preso, fez um acordo de delação premiada com a Justiça.

Verossimilhança
O caso é grave, pois a Petrobras hoje é foco de negócios mal explicados; por isso, a situação exige cautela e, ao mesmo tempo, urgência. Cautela porque a investigação está em andamento; o que foi divulgado até agora não é oficial e vazou por meio de grandes veículos da imprensa. Mas é preciso também urgência para evitar que os citados, em caso de inocência, não tenham a honra e as imagens prejudicadas, já que estão envolvidos numa história que, no mínimo, guarda bastante verossimilhança com os fatos.

Vejamos alguns: 1) o delator ocupou posição de destaque na Petrobras. Era mesmo um figurão com acesso, portanto, a informações detalhadas desses contratos; 2) a Petrobras está metida até o pescoço numa rede de corrupção descoberta na operação Lava Jato, da Polícia Federal; 3) os políticos apontados no esquema atuam em estados onde a estatal tinha projetos envolvendo refinarias; 4) a delação só tem serventia se resultarem em fatos comprovados, ou seja, o delator não tem o que ganhar mentindo, pelo contrário, perde o benefício caso tente usar a investigação para outros fins. Esse conjunto de fatores não prova nada, nem garante que tudo o que o ex-diretor diz é verdade, mas agrava as denúncias, pois as tornam críveis para o público e para os investigadores.

Desmentido
Em resposta, por meio de sua assessoria, Cid disse que não conhece e que nunca esteve com Paulo Roberto, e que é vítima de uma armação de adversários políticos, sem dar nomes. Acontece que, como mostrou o portal Tribuna do Ceará, Cid já esteve reunido ele sim, com quem chegou participar, aqui no Ceará, do lançamento da pedra fundamental da refinaria da Petrobras – obra que não saiu do papel -, ao lado de Lula (confira as imagens).

Talvez o governador tenha sido traído por um lapso de memória, mas ser desmentido na própria defesa é outro elemento que ajuda a dar ares de verdade às acusações do delator. Pode até não lembrar, mas Cid conhecia e esteve sim com seu suposto acusador.

Quanto a suposição de uma armação política, trata-se de um argumento tão grave quanto o conteúdo dos depoimentos de Paulo Roberto Costa, pois nesse caso a Polícia Federal e o Ministério Público Federal estariam envolvidas na trama. Sem contar que o depoente não tem, pelo menos até onde se sabe, atuação política no Ceará. É preciso mais que uma tese conspiratória para desacreditar a testemunha inconveniente; seria necessário mostrar o que ele ganharia agindo assim.

Presunção de inocência
No mais é bom lembrar que todos os implicados pelo ex-diretor da Petrobras, Renan Calheiros, Roseana Sarney, Cândido Vacarezza, Romero Jucá, entre outros expoentes da política brasileira, são inocentes até prova em contrário. Cid Gomes e seu grupo, também.

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Os Demônios

Por Wanfil em Livros

13 de setembro de 2014

Os Demônios, de Dostoiévski (1872) - Editora 34

Os Demônios, de Dostoiévski (1872) – Editora 34

Os Demônios, obra de Fiodor Dostoiévski inspirada no noticiário sobre o assassinato de um estudante por membros de um grupo político clandestino e niilista chamado Justiça Sumária do Povo, em 1869, liderado por Sergei Nietcháiev, autor do tenebroso e fanático O Catecismo de um Revolucionário, de onde podemos extrais ilustrativas amostras de uma natureza política e moral influente até os dias de hoje: “Um revolucionário despreza toda a teoria; renuncia à ciência atual e abandona-a para as gerações vindouras. Não conhece senão uma só ciência: a da destruição”. De algo assim, nada de bom pode sair mesmo.

Pois bem, ao esboçar uma crítica a esse tipo de radicalismo, o autor de Crime e Castigo denunciou ali o germe da manipulação da intolerância e da baixa autoestima como instrumentos políticos para arregimentar e insuflar pessoas dispostas a tudo por um ideal. Esse idealismo é denunciado, com toda razão, como mero pretexto para o uso supostamente racional da violência.

De modo brilhante, quase sobrenatural, Dostoiévski antecipa aos seus contemporâneos, em Os Demônios, escrito em 1872, as bases de um processo de degradação social que terminaria, quase cinco décadas depois, na eclosão da  Revolução Russa e seu legado de horror: 30 milhões de vítimas do comunismo, somente naquele país. Mais do isso, o escritor revela a gênese de qualquer movimento radical que tenha no ímpeto destruidor sua razão de existir, delineando um perfil que pode identificar desde agentes do nazismo até os terroristas islâmicos do nosso presente, no que eles têm em comum: o ódio e a intolerância com o contraditório. Mudam nas formas externas, mas a essência é a mesma.

Dostoiévski, óleo sobre tela (1872), por Vasily Perov.

Dostoiévski, óleo sobre tela (1872), por Vasily Perov.

Basicamente, o livro narra o início e o desenvolvimento das atividades do que poderíamos chamar de célula política com função desestabilizadora. No começo, parecem patéticos, pois são poucos, embora saibam que outras células existam por aí (eles não devem manter contato entre si, para em caso de fracasso, não delatar as demais). Seus membros se imiscuem em vários órgãos do Estado e sua missão é criar problemas, de forma a excitar o descontentamento geral. No entanto, esses indivíduos atuam sobre a tessitura de uma sociedade onde a elite (no caso, a aristocracia russa), vive alienada da realidade, perdida em bailes, salamaleques, viagens à Europa e solenidades de condecorações, enquanto a população sofre com a pobreza e a ignorância. É o ambiente perfeito para prosperar as teses racistas ou de luta de classes, que objetivam personificar culpados em determinados grupos sociais.

Quando governos estão dissociados dos anseios de um povo, o ressentimento pode ser facilmente manipulado. Daí que o título de Os Demônios seja uma referência ao evangelho de Lucas (8, 32-36): ” Ora, andava ali pastando no monte uma grande manada de porcos; rogaram-lhe, pois que lhes permitisse entrar neles, e lho permitiu. E tendo os demônios saído do homem, entraram nos porcos; e a manada precipitou-se pelo despenhadeiro no lago, e afogou-se. Quando os pastores viram o que acontecera, fugiram, e foram anunciá-lo na cidade e nos campos. Saíram, pois, a ver o que tinha acontecido, e foram ter com Jesus, a cujos pés acharam sentado, vestido e em perfeito juízo, o homem de quem havia saído os demônios; e se atemorizaram. Os que tinham visto aquilo contaram-lhes como fora curado o endemoninhado”.

A alegoria é clara: os demônios estão soltos à procura de porcos, de desavisados que caminham sem perceber para a própria desgraça. Na política, ela pode se manifestar assim, como nessa profética passagem destacada na orelha da edição que li: “No esquema dele cada membro da sociedade vigia o outro e é obrigado a delatar. Cada um pertence a todos, e todos a cada um. Todos são escravos e iguais na escravidão. Nos casos extremos recorre-se à calúnia e assassinato, mas o principal é a igualdade. A primeira coisa que fazem é rebaixar o nível da educação, das ciências e do talento. O nível elevado das ciências e das aptidões só é acessível aos talentos superiores, e os talentos superiores são dispensáveis. Os talentos superiores sempre tomaram o poder e foram déspotas. Os talentos superiores não podem deixar de ser déspotas, e sempre trouxeram mais depravação que utilidade; eles serão expulsos ou executados. A um Cícero corta-se a língua, a um Copérnico furam-se os olhos, um Shakespeare mata-se a pedradas – eis o chigaliovismo”.

No Brasil de hoje, o descompasso entre as aspirações da população e governantes hipnotizados pelos jogo do poder pelo poder já mostrou suas feições mais impulsivas nos protestos de junho de 2013. É nesse descontentamento com a corrupção e a ineficiência administrativa que apostam os defensores de uma reforma política que, ao final, será útil a grupos que repudiam o mérito como força construtiva e celebram o controle do Estado como realização máxima. Gente que vê nas leis, no Congresso e nas instituições democráticas, entraves para a evolução de seus projetos. Basta ficar atento, que tudo está acontecendo agora, neste instante.

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“Só estoura quando tem água”, diz Cid sobre adutora. Ah, bom!

Por Wanfil em Ceará

11 de setembro de 2014

Indagado por um repórter da FM Jangadeiro de Iguatu, o governador Cid Gomes comentou a respeito de novos vazamentos na adutora de Itapipoca: “Agora deve ter sido um problema casual, isso acontece em todo lugar. É sinal de que tem água, ela só estoura quando tem água”.

Para quem não se lembra, trata-se da mesma adutora que custou R$ 18 milhões de reais aos cearenses e que rompeu antes de ser inaugurada no final de dezembro do ano passado. O episódio ficou marcado pelas imagens do próprio governador trabalhando para reparar o equipamento, com direito a mergulho em tanque. Pois bem, o que parecia passado, é presente vivo. Reportagem do Jornal Jangadeiro (ver abaixo) mostra que, desde aquele dia, a adutora já precisou ser consertada 83 vezes. Nesse último rompimento, 15 mil pessoas ficaram sem água.

Confira o áudio:


Contexto
Cid não esperava por essa pergunta, pois estava em Iguatu na condição de militante partidário e cabo eleitoral, empenhado em tecer elogios ao seu candidato à sucessão. Assim, uma vez provocado a falar sobre um problema técnico de seu governo, procurou, naturalmente, minimizar o caso e depois mudou de assunto. No entanto, nesse breve instante, o que foi dito ficou gravado. E aí, a necessidade de adaptar o discurso de eficiência administrativa a fatos que constrangem ou desmentem essa imagem, acaba, vez por outra, criando armadilhas, ou gerando atos falhos, como diria a jornalista Dora Kramer.

Auto indulgência e falta de decoro
Se repararmos bem, ao dizer que o problema é “casual” e “acontece em todo lugar”, Cid revela uma inesgotável capacidade de relevar os próprios erros do governo. Por essa lógica, tudo é permitido. É nesse sentido que  Dilma se defende dos escândalos de sua gestão alegando que a corrupção existe em todos os países. É uma forma de diluir responsabilidades e de insinuar que casos assim não passam de miudezas. De onde se conclui que só reclama que é mesquinho ou ranzinza.

A outra metade da fala chega a ser indecorosa. Dizer que uma adutora de R$ 18 milhões, feitas por um Estado pobre e que vive um seca gravíssima, só estoura porque tem água, para tentar fazer passar por bom o que é ruim, é, no mínimo, prova de completa de dissociação entre a realidade e a imaginação. Por esse princípio administrativo, o vereador “Aonde É”, de Fortaleza, poderia justificar as acusações de que desvia parte dos salários de assessores alegando que isso é prova de que eles recebem em dia e de que o vereador é bom patrão. Graça Foster, presidente da Petrobras, poderia dizer que o prejuízo de Pasadena é sinal de dinheiro em caixa, afinal, só desperdiça assim quem tem sobrando.

Realidade
Num universo político onde impera o desejo de ficar na história como um marco, um advento, uma era, um novo começo para o Ceará, obras grandes podem chamar a atenção, outras podem ser úteis mesmo e algumas não passam de mero devaneio. No entanto, o mais preocupante é quando a ilusão de que se é portador de uma excelência inigualável, quase infalível, com o providencial endosso de adulares profissionais, excita a vaidade a ponto de esconder, aos olhos do governante, seus eventuais erros e as devidas soluções para eles.

Para quem quiser ver a realidade sobre a seca e a situação de quem sofre com ela no Ceará, sugiro as seguintes matérias:

População volta a ficar sem água em Itapipoca;

Enquanto Acquário é concluído, municípios cearenses sofrem com a falta d’água;

Canindé vive em situação dramática de seca e adutora ainda está em obras.

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Gastos de campanha no Ceará: o jogo do milhão

Por Wanfil em Eleições 2014

08 de setembro de 2014

A justiça eleitoral liberou consulta pública para a nova parcial da prestação de contas dos candidatos no Ceará, com valores da arrecadação e dos gastos de cada coligação e partido. Não se trata de fiscalização ou auditoria, mas de simples informação. Como é de conhecimento geral, os dados oficiais nem sempre correspondem aos custos reais declarados, configurando aqui o que Marcos Valério eufemisticamente batizou de “recursos não contabilizados”, também conhecido como “caixa 2”.

Indicativos
De todo modo, apesar de eventuais dúvidas, essas informações são importantes porque mostram o potencial de cada candidatura. É que grandes doadores costumam a irrigar as campanhas conforme o desempenho nas pesquisas. A captação de recursos varia em função da perspectiva de poder das chapas. Aécio Neves, candidato do PSDB à Presidência da República, era o que mais recebeu doações no início da corrida eleitoral, mas agora, em terceiro, vê secar a fonte, enquanto Marina, em ascensão, passa a ser depositária mais segura.

Outra informação útil dessas prestações de conta diz respeito as estratégias de campanha. Existem candidaturas que precisam gastar muito no início, correndo o risco de ficar sem fôlego na reta final. Outras esperam para concentrar recursos nas últimas semanas, para o sprint final. É como uma corrida de fundo: vence quem souber dosar melhor suas energias.

No Ceará, Camilo Santana foi o que mais arrecadou e também o que mais gastou. Aliás, gastou mais do que arrecadou. A campanha do petista captou cerca de R$ 9 milhões, mas consumiu algo perto dos R$ 11 milhões. É o custo de viabilizar um nome escolhido de última hora. O improviso sempre sai mais caro.

Eunício Oliveira, do PMDB, segue com a segunda campanha mais cara, com aproximadamente R$ 6 milhões e meio arrecadados e gastos de igual valor. Esse compasso, digamos assim, mais equilibrado entre custo e receita, reflete justamente uma campanha planejada há mais tempo.

Tostão contra o milhão? Conta outra…
É natural que candidaturas governistas exerçam grande atração entre alguns doadores, especialmente aqueles que possuem contratos com o governo. Estes precisam manter boa relação com o governante até o final do mandato. No entanto, quando a oposição consegue acompanhar de perto essa arrecadação, e mesmo gastando menos mostra bom desempenho nas pesquisas, é sinal de que as apostas estão divididas também entre as forças econômicas do estado.

Uma coisa é certa: não existe essa história de campanha do tostão contra o milhão, dos humildes contra os ricos. Isso é conversa fiada, refugo ideológico utilizado por quem não tem respaldo ideológico. Quem poderia dizer algo assim é o candidato do Psol, afinal, Ailton Lopes arrecadou R$ 37 mil reais. Primeiro, por ser mesmo uma candidatura sem recursos; segundo, por realmente acreditar numa espécie de luta de classes.

Quanto mais disputado, mais caro é o jogo. O resto é cinismo de campanha.

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Gastos de campanha no Ceará: o jogo do milhão

Por Wanfil em Eleições 2014

08 de setembro de 2014

A justiça eleitoral liberou consulta pública para a nova parcial da prestação de contas dos candidatos no Ceará, com valores da arrecadação e dos gastos de cada coligação e partido. Não se trata de fiscalização ou auditoria, mas de simples informação. Como é de conhecimento geral, os dados oficiais nem sempre correspondem aos custos reais declarados, configurando aqui o que Marcos Valério eufemisticamente batizou de “recursos não contabilizados”, também conhecido como “caixa 2”.

Indicativos
De todo modo, apesar de eventuais dúvidas, essas informações são importantes porque mostram o potencial de cada candidatura. É que grandes doadores costumam a irrigar as campanhas conforme o desempenho nas pesquisas. A captação de recursos varia em função da perspectiva de poder das chapas. Aécio Neves, candidato do PSDB à Presidência da República, era o que mais recebeu doações no início da corrida eleitoral, mas agora, em terceiro, vê secar a fonte, enquanto Marina, em ascensão, passa a ser depositária mais segura.

Outra informação útil dessas prestações de conta diz respeito as estratégias de campanha. Existem candidaturas que precisam gastar muito no início, correndo o risco de ficar sem fôlego na reta final. Outras esperam para concentrar recursos nas últimas semanas, para o sprint final. É como uma corrida de fundo: vence quem souber dosar melhor suas energias.

No Ceará, Camilo Santana foi o que mais arrecadou e também o que mais gastou. Aliás, gastou mais do que arrecadou. A campanha do petista captou cerca de R$ 9 milhões, mas consumiu algo perto dos R$ 11 milhões. É o custo de viabilizar um nome escolhido de última hora. O improviso sempre sai mais caro.

Eunício Oliveira, do PMDB, segue com a segunda campanha mais cara, com aproximadamente R$ 6 milhões e meio arrecadados e gastos de igual valor. Esse compasso, digamos assim, mais equilibrado entre custo e receita, reflete justamente uma campanha planejada há mais tempo.

Tostão contra o milhão? Conta outra…
É natural que candidaturas governistas exerçam grande atração entre alguns doadores, especialmente aqueles que possuem contratos com o governo. Estes precisam manter boa relação com o governante até o final do mandato. No entanto, quando a oposição consegue acompanhar de perto essa arrecadação, e mesmo gastando menos mostra bom desempenho nas pesquisas, é sinal de que as apostas estão divididas também entre as forças econômicas do estado.

Uma coisa é certa: não existe essa história de campanha do tostão contra o milhão, dos humildes contra os ricos. Isso é conversa fiada, refugo ideológico utilizado por quem não tem respaldo ideológico. Quem poderia dizer algo assim é o candidato do Psol, afinal, Ailton Lopes arrecadou R$ 37 mil reais. Primeiro, por ser mesmo uma candidatura sem recursos; segundo, por realmente acreditar numa espécie de luta de classes.

Quanto mais disputado, mais caro é o jogo. O resto é cinismo de campanha.