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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

julho 2014

A decepção na Copa pode interferir no jogo eleitoral?

Por Wanfil em Eleições 2014

09 de julho de 2014

A “Copa das copas” fica marcada pela humilhantemente goleada imposta ao Brasil pela seleção da Alemanha. Desde o início o evento foi apresentado como conquista do governo federal, uma oportunidade de alavancar ações de turismo e infraestrutura. E como logo após o seu término tem início uma campanha eleitoral, sua associação com a política foi inevitável.

Durante um bom tempo analistas buscaram compreender se e como essa relação poderia interferir no resultado das eleições. É um exercício complicado, projeção de cenário futuro baseado em premissas incertas.

Propaganda e conjuntura
A história mostra que governos procuram fazer de grandes eventos peças de propaganda oficial disfarçadas, no embalo da comoção geral. Mas para isso acontecer é preciso uma atmosfera favorável, com razoável satisfação com as conjunturas sociais, econômicas e morais no país. Quando a Copa foi anunciada, ainda no governo do ex-presidente Lula, esse era o cenário. No entanto, a insatisfação com o baixo crescimento, obras atrasadas e a corrupção inverteu o cenário.

Por isso políticos evitaram exposição nos jogos. Quando arriscou, Dilma foi duramente vaiada. Governadores e prefeitos foram cuidadosamente evitados pelos telões nos estádios, quase escondidos.

Mas com o avanço da Seleção Brasileira na competição, percebendo a vibração da torcida, o governo viu a oportunidade de faturar e começou a atacar os “pessimistas”. A presidente recuperou um pouco da popularidade perdida. A oposição rapidamente passou a sinalizar que torcia pela vitória brasileira, apesar dos problemas fora do campo.

A impressão era a de que chegando a uma semifinal, ainda que perdesse, o time teria feito bonito. A ordem nas campanhas foi a de buscar alinhamento com o sentimento da torcida. Mas aí veio a maior derrota, a humilhação, o vexame. E a população, que havia sublimado o descontentamento com os atrasos e superfaturamentos das obras para a Copa, acabou decepcionada com seu principal motivo de orgulho: a Seleção. Agora as equipes de comunicação dos candidatos estudam como se comportar.

Inflação goleia salários
Não é possível dizer se isso irá interferir nas eleições. A festa pelo hexa poderia criar uma onda de otimismo capaz de eclipsar a desconfiança com o governo? Talvez. Com a derrota, e com a forma como ela aconteceu, há uma tristeza pungente no ar. Isso beneficia a oposição? É cedo para dizer.

Em minha modesta opinião, o que tem mesmo poder de influenciar com peso as eleições é a inflação. Na mesma terça-feira em que o Brasil foi goleado, outra notícia ruim foi timidamente registrada na imprensa: a alta de preços acumulada nos últimos 12 meses estourou o teto da meta de inflação. A meta é de 4,5% e o teto é de 6,5%. O IPCA está em 6,52%. Todos percebem o impacto desses números quando vão ao supermercado fazer as compras do mês.

Uma vitória poderia amenizar as críticas ao governo, mas ela não veio. De resto, não é de olho em partidas de futebol que o eleitor decidirá em quem votar, mas sentindo o bolso. Quando a carestia goleia os salários, aí sim o jogo eleitoral pode virar.

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Segurança Pública: o que dizem os programas de governo dos candidatos

Por Wanfil em Eleições 2014

07 de julho de 2014

Os partidos e as coligações que disputarão o governo do Ceará nas eleições de outubro entregaram à Justiça Eleitoral suas propostas de governo. No geral, são textos de pouca informação técnica, repletos de clichês, mas que servem para indicar mais ou menos o tom da abordagens de cada um sobre diversas áreas.

Para ler na íntegra as quatro propostas registradas, basta ir ao site do Tribuna Superior Eleitoral. Aqui no blog selecionei trechos referentes ao tema Segurança Pública, área que promete ser um dos temas centrais das campanhas. Seguem abaixo, reproduzidos na cor azul, tópicos de cada candidatura a respeito do assunto, acompanhados de breves comentários meus.

Camilo Santana – PT – Coligação Para o Ceará Seguir Mudando

– Definir a atuação da política de segurança pública de forma integrada com as demais políticas públicas atuando de forma sistêmica no território, criando nos locais mais vulneráveis ações relacionadas à segurança, saúde, educação, emprego e infraestrutura pública, envolvendo as Secretarias de Governo;
– Estudar o fortalecimento do Programa Ronda do Quarteirão, baseado na cultura da paz e não violência;
– Estabelecer parcerias permanentes com o Governo Federal, através do Programa “Crack é possível vencer” e com os governos municipais;
– Desenvolvimento de um SISTEMA GESTOR OPERACIONAL DE SEGURANÇA PÚBLICA. Esse sistema deverá ter a capacidade de saber “quantos e onde estão posicionados cada PM e PC, carros, motos, equipamentos em qualquer dia do ano, bem como todas as operações realizadas no estado do Ceará com acompanhamento de resultados, além de acompanhar, monitorar e avaliar a performance das Áreas Integradas de Segurança.

É visível o constrangimento no texto da coligação governista, que procura passar uma mensagem de mudança ao mesmo tempo em que precisa dizer que as escolhas do atual governo foram corretas. A primeira proposta é simplesmente uma cópia do programa Pacto pela Vida, implantado em Pernambuco pelo ex-governador Eduardo Campos (PSB), desafeto de Cid e Ciro Gomes, padrinhos de Camilo Santana. Talvez por isso o devido crédito não tenha sido dado, o que é uma desonestidade intelectual.

Manter o Ronda do Quarteirão e uma cultura de não violência é uma homenagem forçada ao que não deu certo na gestão Cid. Dizer que fará parcerias com o governo federal é discurso velho: essa aliança já existe há oito anos e não deu resultados na área. Por fim, dizer que será desenvolvido um sistema de gestão operacional implica em reconhecer que passados dois governos, esse sistema não existe ou não funciona adequadamente. É mais um confissão de má administração do que uma promessa.

Eunício Oliveira –PMDB – Coligação Ceará de Todos

– Basear os esforços pela segurança pública no binômio gente e gestão;
– Aperfeiçoar a inteligência e eficácia da investigação científica;
– Qualificar a gestão da segurança pública;
– Valorizar os profissionais de segurança;
– Aumentar a mobilidade e a presença dos policiais nas ruas.

Por enquanto, são generalidades sem efeito prático. Quem pode dizer que é contra o aperfeiçoamento da segurança e a valorização de seus agentes? De boas intenções, como sabemos, o inferno está cheio. O último tópico é o que mais se parece com uma proposta efetiva: para aumentar a presença da polícia, é presumível um aumento do contingente.

No programa de governo apresentado pela coligação que apoia Eunício Oliveira faz um bom diagnóstico do problema, mas ainda precisa melhorar suas proposições se quiser convencer o eleitor de que pode resolvê-lo.

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Quem ganha mais com a saída de Neymar da Copa?

Por Wanfil em Crônica

06 de julho de 2014

Não especialista em futebol, embora aprecie bons jogos. A paixão pelo esporte nacional é comedida, desde que a seleção de 82 foi eliminada pela Itália. Criança vi ruir todo um conceito dividido em duas convicções: 1) não basta fazer gol, é preciso jogar bonito;  2) não vale ganhar a qualquer custo, mas com ética (sem apelar à violência e uma vez vítima dela, não devolver na mesma moeda, pois o craque responde é com futebol). Assim, como o escritor uruguaio Eduardo Galeano, tornei-me um “mendigo do futebol”, procurando bons jogos para torcer sem grande compromisso emocional.

Pois bem, conversando com o jornalista Rafael Luis Azevedo, colega na Tribuna do Ceará, eu disse que Neymar tinha sorte, pois sai como ídolo e livre da obrigação de fazer a diferença no momento decisivo. Rafael discordou. “O jogador quer jogar. Quem ganha é o Felipão. Se o Brasil ganhar, o mérito de superar a perda do craque é dele, se perder, a culpa terá sido do Zuñiga”, o colombiano que atingiu Neymar. Faz sentido.

A partir daí é lícito concluir que o maior lucro com a saída de Neymar foi mesmo da torcida.  Na Copa de 1950, o culpado (injustamente) pela perda do título foi o goleiro Barbosa. Como o brasileiro, quando o assunto é futebol, tem notória dificuldade de reconhecer méritos nos adversários da seleção, dessa vez pelo menos já temos uma boa desculpa caso o Brasil não conquiste o título: o culpado será um rival (alívio para os demais jogadores). Melhor do que isso, pelo que vejo da crônica esportiva, só se Zuñiga fosse argentino, o que poderia dar ares de complô internacional à agressão, mas aí seria querer demais. Como não sou especialista e não passo de um torcedor amargurado com o fracasso de 1982, fico por aqui.

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Eleição é igual a caminhão sem freio descendo a ladeira

Por Wanfil em Eleições 2014

02 de julho de 2014

Como explicar que ex-adversários se unam de uma hora para outra e que ex-aliados acabem em lados opostos às vésperas de uma eleição no Brasil? Como é possível uma aliança com vinte partidos? A união entre Lula, Collor e Maluf é certamente hoje a expressão maior de uma prática antiga em nossa política.

A tradição de conciliar incompatibilidades
Para quem quiser estudar mais a fundo esse fenômeno, sempre indico a leitura do livro “A Consciência Conservadora no Brasil”, do historiador Paulo Mercadante, do qual tomei conhecimento por um artigo de Olavo de Carvalho. O conservador do título não faz referência direta à concepção clássica do termo como movimento doutrinário, mas antes, denuncia a deturpação desse conceito, amoldado às nossas práticas e vícios. Conservar aí é reduzido ao desejo espúrio de manter privilégios e vantagens, mesmo que para isso seja preciso mudar de convicções. É uma tradição conciliadora, capaz de acomodar valores teoricamente incompatíveis e assimilar ideais contraditórios em parcerias improváveis; que celebra o pragmatismo amoral como estratégia de perpetuação (a conservação) no poder. Ninguém foi melhor nisso do que José Sarney.

A prática também é reforçada pela fragilidade dos partidos na democracia brasileira, o fisiologismo, o culto ao personalismo e a própria legislação. Tudo converge para a bagunça. É nela que os políticos se entendem. Não que isso justifique toda e qualquer aliança espúria. Mesmo em ambientes degradados, existem limites.

Sabe de nada, inocente!
No Ceará, o governador Cid Gomes e seu irmão Ciro parecem muito surpresos e indignados com o fato de Eunício Oliveira, de quem receberam o apoio nas últimas três eleições (duas para governador e uma para a Prefeitura de Fortaleza), ter lançado candidatura própria ao governo estadual, imaginando poder contar com a reciprocidade dos antigos parceiros. Como não conseguiu apoio, rompeu. E rompido, buscou apoio dos adversários de Cid, com quem mantinha uma relação, digamos, sem atritos.

O problema é que os Gomes há mais de vinte anos mudam de lado ao sabor de eleições. Hoje são aliados objetivos, por exemplo, dos citados Collor, Sarney e Maluf, pela reeleição da presidente Dilma. E nem por isso acusam a candidata de ser incoerente, vejam só. É a velha indignação seletiva: só vale para os outros. Aí, não cola.

Metáfora pragmática
Conversando sobre essas alianças, um amigo me contou nesses dias uma história interessante, que disse ter ouvido pessoalmente de Leonel Brizola. “Eleição é como um caminhão sem freio descendo a ladeira. Na boleia ficam os amigos, os mais próximos. Na parte de trás, sobe quem quiser. Quando o carro chegar lá embaixo (as eleições), quem cair, caiu, quem se segurar, fica. Aí é tocar a primeira e seguir caminho”. É o tal pragmatismo.

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Eleição é igual a caminhão sem freio descendo a ladeira

Por Wanfil em Eleições 2014

02 de julho de 2014

Como explicar que ex-adversários se unam de uma hora para outra e que ex-aliados acabem em lados opostos às vésperas de uma eleição no Brasil? Como é possível uma aliança com vinte partidos? A união entre Lula, Collor e Maluf é certamente hoje a expressão maior de uma prática antiga em nossa política.

A tradição de conciliar incompatibilidades
Para quem quiser estudar mais a fundo esse fenômeno, sempre indico a leitura do livro “A Consciência Conservadora no Brasil”, do historiador Paulo Mercadante, do qual tomei conhecimento por um artigo de Olavo de Carvalho. O conservador do título não faz referência direta à concepção clássica do termo como movimento doutrinário, mas antes, denuncia a deturpação desse conceito, amoldado às nossas práticas e vícios. Conservar aí é reduzido ao desejo espúrio de manter privilégios e vantagens, mesmo que para isso seja preciso mudar de convicções. É uma tradição conciliadora, capaz de acomodar valores teoricamente incompatíveis e assimilar ideais contraditórios em parcerias improváveis; que celebra o pragmatismo amoral como estratégia de perpetuação (a conservação) no poder. Ninguém foi melhor nisso do que José Sarney.

A prática também é reforçada pela fragilidade dos partidos na democracia brasileira, o fisiologismo, o culto ao personalismo e a própria legislação. Tudo converge para a bagunça. É nela que os políticos se entendem. Não que isso justifique toda e qualquer aliança espúria. Mesmo em ambientes degradados, existem limites.

Sabe de nada, inocente!
No Ceará, o governador Cid Gomes e seu irmão Ciro parecem muito surpresos e indignados com o fato de Eunício Oliveira, de quem receberam o apoio nas últimas três eleições (duas para governador e uma para a Prefeitura de Fortaleza), ter lançado candidatura própria ao governo estadual, imaginando poder contar com a reciprocidade dos antigos parceiros. Como não conseguiu apoio, rompeu. E rompido, buscou apoio dos adversários de Cid, com quem mantinha uma relação, digamos, sem atritos.

O problema é que os Gomes há mais de vinte anos mudam de lado ao sabor de eleições. Hoje são aliados objetivos, por exemplo, dos citados Collor, Sarney e Maluf, pela reeleição da presidente Dilma. E nem por isso acusam a candidata de ser incoerente, vejam só. É a velha indignação seletiva: só vale para os outros. Aí, não cola.

Metáfora pragmática
Conversando sobre essas alianças, um amigo me contou nesses dias uma história interessante, que disse ter ouvido pessoalmente de Leonel Brizola. “Eleição é como um caminhão sem freio descendo a ladeira. Na boleia ficam os amigos, os mais próximos. Na parte de trás, sobe quem quiser. Quando o carro chegar lá embaixo (as eleições), quem cair, caiu, quem se segurar, fica. Aí é tocar a primeira e seguir caminho”. É o tal pragmatismo.