02/07/2014 - Blog do Wanfil 
Publicidade

Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

02/07/2014

Eleição é igual a caminhão sem freio descendo a ladeira

Por Wanfil em Eleições 2014

02 de julho de 2014

Como explicar que ex-adversários se unam de uma hora para outra e que ex-aliados acabem em lados opostos às vésperas de uma eleição no Brasil? Como é possível uma aliança com vinte partidos? A união entre Lula, Collor e Maluf é certamente hoje a expressão maior de uma prática antiga em nossa política.

A tradição de conciliar incompatibilidades
Para quem quiser estudar mais a fundo esse fenômeno, sempre indico a leitura do livro “A Consciência Conservadora no Brasil”, do historiador Paulo Mercadante, do qual tomei conhecimento por um artigo de Olavo de Carvalho. O conservador do título não faz referência direta à concepção clássica do termo como movimento doutrinário, mas antes, denuncia a deturpação desse conceito, amoldado às nossas práticas e vícios. Conservar aí é reduzido ao desejo espúrio de manter privilégios e vantagens, mesmo que para isso seja preciso mudar de convicções. É uma tradição conciliadora, capaz de acomodar valores teoricamente incompatíveis e assimilar ideais contraditórios em parcerias improváveis; que celebra o pragmatismo amoral como estratégia de perpetuação (a conservação) no poder. Ninguém foi melhor nisso do que José Sarney.

A prática também é reforçada pela fragilidade dos partidos na democracia brasileira, o fisiologismo, o culto ao personalismo e a própria legislação. Tudo converge para a bagunça. É nela que os políticos se entendem. Não que isso justifique toda e qualquer aliança espúria. Mesmo em ambientes degradados, existem limites.

Sabe de nada, inocente!
No Ceará, o governador Cid Gomes e seu irmão Ciro parecem muito surpresos e indignados com o fato de Eunício Oliveira, de quem receberam o apoio nas últimas três eleições (duas para governador e uma para a Prefeitura de Fortaleza), ter lançado candidatura própria ao governo estadual, imaginando poder contar com a reciprocidade dos antigos parceiros. Como não conseguiu apoio, rompeu. E rompido, buscou apoio dos adversários de Cid, com quem mantinha uma relação, digamos, sem atritos.

O problema é que os Gomes há mais de vinte anos mudam de lado ao sabor de eleições. Hoje são aliados objetivos, por exemplo, dos citados Collor, Sarney e Maluf, pela reeleição da presidente Dilma. E nem por isso acusam a candidata de ser incoerente, vejam só. É a velha indignação seletiva: só vale para os outros. Aí, não cola.

Metáfora pragmática
Conversando sobre essas alianças, um amigo me contou nesses dias uma história interessante, que disse ter ouvido pessoalmente de Leonel Brizola. “Eleição é como um caminhão sem freio descendo a ladeira. Na boleia ficam os amigos, os mais próximos. Na parte de trás, sobe quem quiser. Quando o carro chegar lá embaixo (as eleições), quem cair, caiu, quem se segurar, fica. Aí é tocar a primeira e seguir caminho”. É o tal pragmatismo.

Publicidade

Eleição é igual a caminhão sem freio descendo a ladeira

Por Wanfil em Eleições 2014

02 de julho de 2014

Como explicar que ex-adversários se unam de uma hora para outra e que ex-aliados acabem em lados opostos às vésperas de uma eleição no Brasil? Como é possível uma aliança com vinte partidos? A união entre Lula, Collor e Maluf é certamente hoje a expressão maior de uma prática antiga em nossa política.

A tradição de conciliar incompatibilidades
Para quem quiser estudar mais a fundo esse fenômeno, sempre indico a leitura do livro “A Consciência Conservadora no Brasil”, do historiador Paulo Mercadante, do qual tomei conhecimento por um artigo de Olavo de Carvalho. O conservador do título não faz referência direta à concepção clássica do termo como movimento doutrinário, mas antes, denuncia a deturpação desse conceito, amoldado às nossas práticas e vícios. Conservar aí é reduzido ao desejo espúrio de manter privilégios e vantagens, mesmo que para isso seja preciso mudar de convicções. É uma tradição conciliadora, capaz de acomodar valores teoricamente incompatíveis e assimilar ideais contraditórios em parcerias improváveis; que celebra o pragmatismo amoral como estratégia de perpetuação (a conservação) no poder. Ninguém foi melhor nisso do que José Sarney.

A prática também é reforçada pela fragilidade dos partidos na democracia brasileira, o fisiologismo, o culto ao personalismo e a própria legislação. Tudo converge para a bagunça. É nela que os políticos se entendem. Não que isso justifique toda e qualquer aliança espúria. Mesmo em ambientes degradados, existem limites.

Sabe de nada, inocente!
No Ceará, o governador Cid Gomes e seu irmão Ciro parecem muito surpresos e indignados com o fato de Eunício Oliveira, de quem receberam o apoio nas últimas três eleições (duas para governador e uma para a Prefeitura de Fortaleza), ter lançado candidatura própria ao governo estadual, imaginando poder contar com a reciprocidade dos antigos parceiros. Como não conseguiu apoio, rompeu. E rompido, buscou apoio dos adversários de Cid, com quem mantinha uma relação, digamos, sem atritos.

O problema é que os Gomes há mais de vinte anos mudam de lado ao sabor de eleições. Hoje são aliados objetivos, por exemplo, dos citados Collor, Sarney e Maluf, pela reeleição da presidente Dilma. E nem por isso acusam a candidata de ser incoerente, vejam só. É a velha indignação seletiva: só vale para os outros. Aí, não cola.

Metáfora pragmática
Conversando sobre essas alianças, um amigo me contou nesses dias uma história interessante, que disse ter ouvido pessoalmente de Leonel Brizola. “Eleição é como um caminhão sem freio descendo a ladeira. Na boleia ficam os amigos, os mais próximos. Na parte de trás, sobe quem quiser. Quando o carro chegar lá embaixo (as eleições), quem cair, caiu, quem se segurar, fica. Aí é tocar a primeira e seguir caminho”. É o tal pragmatismo.