17/06/2014 - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

17/06/2014

Xingamentos, futebol e política: qual a novidade?

Por Wanfil em Brasil

17 de junho de 2014

palavraoA maior emoção da Copa do Mundo até o momento é a discussão nas redes sociais entre militantes, simpatizantes, assessores e inocentes úteis, sobre a natureza dos xingamentos direcionados à presidente da República, Dilma Rousseff, na abertura do evento. Uns querem fazer da candidata à reeleição uma cândida vítima de um ódio injustificado, outros juram que ela apenas colhe o que planta.

No Brasil, futebol, política, vaias e palavrões convivem sem maiores melindres com aplausos. É do jogo. A novidade fica por conta do clima de aversão contra autoridades em geral e, em particular, contra a maior delas: a presidente.

Existe ainda um componente sociológico sobre a liberação de frustrações e instintos primitivos quando indivíduos estão diluídos no anonimato das massas. Fico pensando quantos ali xingariam a presidente olho no olho. Mas esse papo de indivíduo é coisa da direita raivosa, acusam os que dizem amar as massas, constrangidos com a agressividade do povo contra Dilma. Para fugir da contradição, buscam se apegar a uma clivagem de renda, requentando o discurso de Marilena Chauí, que diz odiar a classe média, como se essa não pudesse se manifestar, como se também não fosse povo.

Quando Lula era o líder da oposição, seus recortes de pesquisa mostravam que os mais instruídos e abastados simpatizavam com ele, enquanto os mais pobres formavam o reduto dos governantes. Na época, isso era mostrado como prova de que os governos não melhoravam a educação justamente para melhor poderem manipular a população mais carente. O que mudou de lá pra cá? Só quem está no poder. Quem tem mais estudo continua mais crítico. Mas agora esse descontentamento seria apenas ressentimento por privilégios perdidos. Retórica barata, sempre.

Eu vejo o fenômeno das vaias e xingamentos com naturalidade. Multidões são imprevisíveis e esperar delas somente o consentimento obsequioso é loucura. Por outro lado, é o tipo de pressão que faz acordar quem vive dos sonhos cantados pelas assessorias servis: “Presidenta, a senhora está certa. Genial, presidenta! Que ideia inteligente, doutora Dilma”. Presa na redoma de vidro das adulações, nada como uma pedrada (simbólica) em forma de vaia para arejar o ambiente e despertar a lucidez: abre o olho, que as pessoas estão insatisfeitas.

No mais, um repórter amigo meu disse assim: “Rapaz, política é coisa que interessa a pouca gente. Agora é futebol”. Pensei comigo: “Sabe de nada, inocente!”. Sem o desejo de capitalizar politicamente em ano eleitoral, não haveria Copa do Mundo no Brasil. Pelo mesmo motivo, pouco se fala em esquemas táticos e afins. O grande debate é saber quem é contra ou a favor das vaias e dos xingamentos contra a presidente. Um falso debate, pois foge ao principal: que sentimento é esse? Por que vaiam agora, na festa, se há pouco tempo a presidente era mais popular do que Lula ou FHC? Minha tese é simples e batida: inflação. Mas isso é somente uma hipótese.

Parafraseando Voltaire, encerro: “Posso não concordar com nenhum dos palavrões que você disser, mas defenderei até a morte o seu direito de xingar governantes”. É que a chance de ser uma injustiça é pequena, quase nula.

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Xingamentos, futebol e política: qual a novidade?

Por Wanfil em Brasil

17 de junho de 2014

palavraoA maior emoção da Copa do Mundo até o momento é a discussão nas redes sociais entre militantes, simpatizantes, assessores e inocentes úteis, sobre a natureza dos xingamentos direcionados à presidente da República, Dilma Rousseff, na abertura do evento. Uns querem fazer da candidata à reeleição uma cândida vítima de um ódio injustificado, outros juram que ela apenas colhe o que planta.

No Brasil, futebol, política, vaias e palavrões convivem sem maiores melindres com aplausos. É do jogo. A novidade fica por conta do clima de aversão contra autoridades em geral e, em particular, contra a maior delas: a presidente.

Existe ainda um componente sociológico sobre a liberação de frustrações e instintos primitivos quando indivíduos estão diluídos no anonimato das massas. Fico pensando quantos ali xingariam a presidente olho no olho. Mas esse papo de indivíduo é coisa da direita raivosa, acusam os que dizem amar as massas, constrangidos com a agressividade do povo contra Dilma. Para fugir da contradição, buscam se apegar a uma clivagem de renda, requentando o discurso de Marilena Chauí, que diz odiar a classe média, como se essa não pudesse se manifestar, como se também não fosse povo.

Quando Lula era o líder da oposição, seus recortes de pesquisa mostravam que os mais instruídos e abastados simpatizavam com ele, enquanto os mais pobres formavam o reduto dos governantes. Na época, isso era mostrado como prova de que os governos não melhoravam a educação justamente para melhor poderem manipular a população mais carente. O que mudou de lá pra cá? Só quem está no poder. Quem tem mais estudo continua mais crítico. Mas agora esse descontentamento seria apenas ressentimento por privilégios perdidos. Retórica barata, sempre.

Eu vejo o fenômeno das vaias e xingamentos com naturalidade. Multidões são imprevisíveis e esperar delas somente o consentimento obsequioso é loucura. Por outro lado, é o tipo de pressão que faz acordar quem vive dos sonhos cantados pelas assessorias servis: “Presidenta, a senhora está certa. Genial, presidenta! Que ideia inteligente, doutora Dilma”. Presa na redoma de vidro das adulações, nada como uma pedrada (simbólica) em forma de vaia para arejar o ambiente e despertar a lucidez: abre o olho, que as pessoas estão insatisfeitas.

No mais, um repórter amigo meu disse assim: “Rapaz, política é coisa que interessa a pouca gente. Agora é futebol”. Pensei comigo: “Sabe de nada, inocente!”. Sem o desejo de capitalizar politicamente em ano eleitoral, não haveria Copa do Mundo no Brasil. Pelo mesmo motivo, pouco se fala em esquemas táticos e afins. O grande debate é saber quem é contra ou a favor das vaias e dos xingamentos contra a presidente. Um falso debate, pois foge ao principal: que sentimento é esse? Por que vaiam agora, na festa, se há pouco tempo a presidente era mais popular do que Lula ou FHC? Minha tese é simples e batida: inflação. Mas isso é somente uma hipótese.

Parafraseando Voltaire, encerro: “Posso não concordar com nenhum dos palavrões que você disser, mas defenderei até a morte o seu direito de xingar governantes”. É que a chance de ser uma injustiça é pequena, quase nula.