junho 2014 - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

junho 2014

E o candidato do Pros é… do PT!

Por Wanfil em Eleições 2014

30 de junho de 2014

Em convenção realizada neste domingo (29), filiados do Pros e aliados finalmente souberam quem foi o candidato escolhido pelo governador Cid Gomes para disputar a sucessão estadual: será Camilo Santana, um nome do… PT! Pois é. Depois de tanto suspense, de uma disputa interna entre dedicados seguidores de Cid no Pros, a decisão acabou contemplando outra sigla.

A ironia é que durante a pré-campanha, lideranças do Pros justificaram o rompimento com o PMDB de Eunício Oliveira com o argumento de que o partido tinha o direito natural a indicação da cabeça de chapa. No fim, o Pros acabou no colo do PT. O objetivo, claro, foi trazer de fato Dilma e Lula para o palanque governista.

Também no domingo o PMDB confirmou o que todos já sabiam: Eunício Oliveira será seu candidato ao governo do Ceará. A convenção do partido contou com a presença de Tasso Jereissati, selando a aliança com o PSDB, que buscava um palanque forte para Aécio Neves no Ceará.

O ânimo nas convenções
Estive rapidamente nos dois eventos para sentir o ânimo das forças comandadas pelos ex-aliados Cid e Eunício. Nos dois eventos, muita gente, caravanas do interior e militantes. Os ginásios onde foram realizados estavam igualmente lotados. Mas havia uma diferença bastante reveladora dos processo políticos que culminaram na formalização das candidaturas.

Pros
Na convenção do Pros, Perguntei aos “militantes” do Pros que balançavam bandeiras na Av. Heráclito Graça quem era o candidato. A maioria ou não sabia, ou ignorava qual o partido de Camilo. Em compensação, havia um clima de confiança no poder da máquina.

No ginásio da Faculdade Farias Brito, faixas alardeavam apoio ao candidato de Cid, sem citar nome algum. Provavelmente haviam sido confeccionadas antes da definição. De qualquer forma, eram significativas: não importa o nome, importa que seja o candidato oficial.

PMDB
Na convenção do PMDB, o clima era de quase euforia com a presença do candidato Eunício, enquanto o som tocava jingles de campanha exaltando seu nome. Ali, todos sabiam quem era o candidato, afinal, não é de hoje que Eunício se apresenta nessa condição.

Além disso, o peemedebista já protagonizou uma disputa majoritária, quando foi eleito senador em 2010.

Nada disso garante vitória ou derrota a ninguém. O jogo está começando e cada um larga com seus trunfos. Camilo se vale do padrinho Cid, Eunício de um projeto trabalhado há mais tempo.

O escolhido de Cid
Camilo é uma aposta que se pode dizer supreendente. Não era o favorito entre os postulantes, até porque não é do Pros e o PT trabalhava para dar a vaga ao Senado para José Guimarães, que acabou, como eu alertei várias vezes, rifado na hora H.

De todos os pré-candidatos que circularam no noticiário nas últimas semanas, Camilo era um dos menos comentados. Além das questões partidárias, o petista está associado ao maior caso de corrupção que atingiu a gestão de Cid Gomes: o escândalo dos banheiros fantasmas, em 2010, revelado pelo Ministério Público. Camilo, ex-secretário da Cidades, foi um dos responsáveis pela liberação dos recursos desviados por falsas associações comunitárias. O caso culminou na queda do então presidente do Tribunal de Contas do Estado, Teodorico Menezes. Camilo não foi condenado, mas sua imagem de gestor está diretamente ligada ao episódio.

Se isso será explorado pelos adversários, aí é outra conversa. Pelo tom dos discursos de Cid e Ciro Gomes, a campanha será agressiva. É aguardar para ver.

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A tensão pré-convenções e as falsas notícias

Por Wanfil em Eleições 2014

27 de junho de 2014

No próximo domingo (29) finalmente o Pros e o PT anunciam em convenção conjunta quem serão seus candidatos para as eleições de outubro. No mesmo dia e na mesma hora, o PMDB confirmará a candidatura de Eunício Oliveira ao governo estadual. Na segunda (30), prazo final determinado pela Lei Eleitoral, será a vez do PSDB formalizar sua posição.

Por enquanto, sobram especulações. Jornais, sites, blogs e colunas buscam antecipar supostas decisões, e quadros diferentes surgem de um dia para o outro. Um festival de chutes imprecisos.

Uma hora Zezinho Albuquerque aparece como o preferido de Cid Gomes. O mesmo acontece com Leônidas Cristino. Logo depois o comentário de bastidor garante que Domingos Filho é o queridinho das bases, e que por isso pode ser o candidato do Pros, mesmo sem a inteira confiança do governador. A última conta que Isolda Cela ainda tem chances por contemplar o perfil desenhado nas pesquisas, mas ninguém diz que perfil seria esse.

De manhã, Eunício Oliveira (PMDB) é fiel aliado da presidente Dilma Rousseff (PT), à tarde já teria acertado com Aécio Neves (PSDB).

Em certo momento dá-se por certo a candidatura de José Guimarães (PT) ao Senado. Mas rumores sempre dão conta de o Pros resiste ao seu nome por receio de uma associação com o escândalo dos dólares na cueca. Todos negam, mas nesse ambiente de desconfiança geral, a negativa é lida como desfaçatez.

Segundo o noticiário, Tasso Jereissati pode tanto ser candidato a vice-presidente como ao Senado, em parceria com Eunício, ou ainda continuar tocando suas empresas, longe da disputa. Pode acontecer tudo, ou nada.

O certo mesmo é que os principais nomes nada dizem de concreto. Em silêncio, jogam o xadrez da política, enquanto suas equipes atuam na guerra de informações. Por isso, até domingo ou segunda, cuidado com o que você lê. Pode ser apenas uma cortina de fumaça, um balão de ensaio, uma fofoca, uma maledicência, um interesse oculto, disfarçado de notícia.

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O recado de Ciro Gomes

Por Wanfil em Eleições 2014

26 de junho de 2014

Ciro Gomes (Pros) passou a atacar o ex-aliado Eunício Oliveira (PMDB). Chama agora o novo adversário de “biruta de aeroporto”, “lambanceiro” e “riquinho”, além de fazer insinuações sobre suposta prática de suborno (crime tipificado) e ilações desabonadoras sobre as atividades empresarias do senador pelo PMDB.

Sem entrar no mérito desse, digamos assim, estilo retórico carente de provas, cabe observar que o expediente já se tornou um padrão que não surpreende ninguém, afinal, nada mais previsível do que Ciro batendo em alguém, enquanto seu irmão Cid opta por uma atuação mais discreta. A estratégia já perdeu a capacidade de atingir seus alvos com impacto. As falas dos irmãos parecem formas opostas de lidar com a situação, mas são ações sincronizadas e complementares. Tanto é assim que Ciro nunca é desautorizado, muito menos convidado a calar-se. É um porta-voz informal a passar recados que não cairiam bem se pronunciados pelo governador.

E que recados são esses? Tolices, na maioria. Indiretas que revelam o estado de espírito no Palácio da Abolição. Juras de inimizade. Sugestões de que segredos podem ser revelados. Ameaças veladas. Um conjunto de declarações que acabam revelando que há um nervosismo no ar, misto de mágoa, raiva e medo.

Se no passado a palavra de Ciro tinha o peso de um potencial candidato competitivo à Presidência da República, no presente guarda a autoridade limitada de um secretário estadual. Daí que Eunício, líder do PMDB no Senado Federal, nem se deu ao trabalho de responder-lhe as críticas, como quem dissesse ter mais o que fazer. Fosse o governador a fazê-las, seria outra a reação.

Por fim, Ciro cobra lealdade e coerência ideológica do peemedebista. Não deixa de ter razão, uma vez que Eunício foi governista até um dia desses, mas o problema é que o próprio Ciro nunca criou raízes em partido político algum e leva consigo um histórico de ex-aliados deixados de lado em períodos eleitorais. Ciro, aliás, generaliza dizendo que o PMDB é um ajuntamento de assaltantes, mas nunca viu problema em se aliar com o partido que ele mesmo desqualifica. Assim, fica difícil ser levado a sério nesses quesitos.

Ao final, o recado de Ciro Gomes não altera nada, não repercute como outrora, não gera ansiedade nos adversários e talvez nem anime os aliados. É  mais do mesmo.

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Queda na pressão de Cid faz subir pressão de cidistas

Por Wanfil em Política

23 de junho de 2014

Cid Gomes passa mal em convenção do PDT e é amparado por aliados - Foto: Tribuna do Ceará

Cid Gomes passa mal em convenção do PDT e é amparado por aliados – Foto: Tribuna do Ceará

O governador Cid Gomes passou mal e chegou a desmaiar durante convenção estadual do PDT, realizada em Fortaleza neste domingo (22). Segundo boletim médico do HGF, a causa foi uma “hipotensão postural”. Felizmente, apesar do susto, o governador recebeu alta no mesmo dia e se recupera em casa.

No entanto, a pressão política entre os liderados do governador só aumenta. É que acaba no próximo dia 30 de junho o prazo para que os partidos definam seus candidatos. E nesse momento, o grupo político liderado por Cid vive a tensão de ainda não saber quem será o candidato oficial à sucessão. Tempo é que não faltou, mas após duas gestões, a indefinição acaba sugerindo duas possibilidades: a) um erro de estratégia; b) uma crise que se prolonga por ainda haver arestas a serem aparadas entre os próprios aliados. Mas esse não é o único problema que faz subir a pressão dos governistas no Ceará.

Estresse
Recentemente, Cid viveu dias de muito estresse por causa de divergências com a direção nacional do Pros, seu atual partido. Isso lhe consumiu energia, capital político e tempo. Tem ainda a pré-candidatura de Eunício Oliveira (PMDB) ao governo estadual. A movimentação junto à base aliada no Estado e a desenvoltura nas articulações com o comando do PMDB e do PT em Brasília, fazem do ex-aliado o maior risco ao projeto de poder dos Ferreira Gomes.

Outro fator de risco para a pressão política entre os cidistas é que apesar da agenda de inaugurações e dos investimentos em publicidade, o governo se ressente com a falta de bons indicadores na área da segurança pública, fato que naturalmente vem sendo explorado por adversários e mina a credibilidade da gestão, como indicam as pesquisas.

E, para completar, não é de hoje que o governador apresenta problemas de saúde em público. Em abril, ele chegou a se licenciar do cargo para um tratamento misterioso, após ter passado mal em Limoeiro do Norte. Também com problemas de pressão arterial, Cid já havia sido internado em 2012.

Doença não tem hora
De tudo isso, fica a impressão de que a rotina crescente de cobranças, dificuldades, intrigas, indefinições e disputas, acabam somatizando fisicamente e o corpo pede assim uma pausa. No entanto, por causa do calendário eleitoral e da opção por deixar tudo para última hora, isso não poderá acontecer nesta semana, quando a demanda pela liderança política do governador é intensamente exigida para costurar apoios e segurar descontentamentos. Qualquer repouso para convalescer que seja indicado a Cid terá esperar para depois, a não ser que a situação seja mais grave e exija cuidados maiores.

O fato é que as condições de saúde de Cid entram agora como um elemento a mais de suspense na reta final para a consolidação das chapas que disputarão as eleições e para o cenário político do Ceará.

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Faxina social em Fortaleza na Copa do Mundo tem o selo Padrão Brasil

Por Wanfil em Ceará

19 de junho de 2014

Escola municipal Alba Frota é um dos abrigos improvisados durante a Copa do Mundo em Fortaleza (foto: Pedro Alves/Tribuna do Ceará)

Escola municipal Alba Frota é um dos abrigos improvisados durante a Copa do Mundo em Fortaleza (foto: Pedro Alves/Tribuna do Ceará)

Desde o último dia 12 de junho, data de abertura da Copa do Mundo do Brasil, agentes da Prefeitura de Fortaleza e do governo do Ceará atuam em conjunto no projeto batizado de Agência de Convergência, para retirar das ruas crianças, adolescentes e adultos em situação de rua ou de mendicância, oferecendo-lhes alimentação em abrigos improvisados.

O caso foi divulgado pelo portal Tribuna do Ceará. A oposição na Câmara Municipal classificou a iniciativa de “faxina social”. Governo e prefeitura lembram que medidas assim foram adotadas em todas as cidades sedes da Copa e que não existe internação compulsória. Só vai para o abrigo quem quer, e menores, somente com autorização dos pais. Em suma, trata-se de uma “ajuda”. O fato de o projeto ter começado somente agora, atuando no entorno dos pontos principais relacionados ao evento, especialmente em dia de jogos, é somente coincidência.

Conversa… É claro que ser o foco da atenção mundial durante a Copa é a razão de ser do projeto Agência de Convergência. Isso nem sequer é novidade. Já aconteceu em outros países, como a China nas Olimpíadas e na África do Sul, na Copa de 2010. Como o Brasil, são países em desenvolvimento, de contrastes difíceis de esconder.

Em entrevista coletiva concedida na quarta-feira, técnicos do governo e da prefeitura negaram com firmeza a ideia de “higienização” social. O constrangimento é compreensível, pois os fatos falam por si. Fossem políticas permanentes, de amplo alcance, de longa data, aí estaríamos falando de uma política pública efetiva. Mas não é o caso. São ações provisórias evidentemente ligadas ao calendário da Copa. Poderia ser o grande legado do torneio, caso se tornasse algo permanente, funcionando em ano sem eleições.

Gambiarra social

Pobres e mendigos perambulados sujos pelas ruas, especialmente crianças, muitas drogadas, não combinam com a suntuosidade dos estádios e das propagandas oficiais. E aí, como sempre, faz-se uma gambiarra. Nos estádios, tem-se o Padrão Fifa. Fora deles, reina o Padrão Brasil, privilegia o truque, o arranjo de última hora. É a mesma lógica que culminou no puxadinho no Aeroporto Pinto Martins, em Fortaleza. Ou nos metrôs inaugurados a cada seis meses, custaram horrores, mas que na Copa não funcionaram.

O projeto Agência de Convergência é só mais um jeitinho improvisado, para dar a impressão de que o problema não existe.

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Xingamentos, futebol e política: qual a novidade?

Por Wanfil em Brasil

17 de junho de 2014

palavraoA maior emoção da Copa do Mundo até o momento é a discussão nas redes sociais entre militantes, simpatizantes, assessores e inocentes úteis, sobre a natureza dos xingamentos direcionados à presidente da República, Dilma Rousseff, na abertura do evento. Uns querem fazer da candidata à reeleição uma cândida vítima de um ódio injustificado, outros juram que ela apenas colhe o que planta.

No Brasil, futebol, política, vaias e palavrões convivem sem maiores melindres com aplausos. É do jogo. A novidade fica por conta do clima de aversão contra autoridades em geral e, em particular, contra a maior delas: a presidente.

Existe ainda um componente sociológico sobre a liberação de frustrações e instintos primitivos quando indivíduos estão diluídos no anonimato das massas. Fico pensando quantos ali xingariam a presidente olho no olho. Mas esse papo de indivíduo é coisa da direita raivosa, acusam os que dizem amar as massas, constrangidos com a agressividade do povo contra Dilma. Para fugir da contradição, buscam se apegar a uma clivagem de renda, requentando o discurso de Marilena Chauí, que diz odiar a classe média, como se essa não pudesse se manifestar, como se também não fosse povo.

Quando Lula era o líder da oposição, seus recortes de pesquisa mostravam que os mais instruídos e abastados simpatizavam com ele, enquanto os mais pobres formavam o reduto dos governantes. Na época, isso era mostrado como prova de que os governos não melhoravam a educação justamente para melhor poderem manipular a população mais carente. O que mudou de lá pra cá? Só quem está no poder. Quem tem mais estudo continua mais crítico. Mas agora esse descontentamento seria apenas ressentimento por privilégios perdidos. Retórica barata, sempre.

Eu vejo o fenômeno das vaias e xingamentos com naturalidade. Multidões são imprevisíveis e esperar delas somente o consentimento obsequioso é loucura. Por outro lado, é o tipo de pressão que faz acordar quem vive dos sonhos cantados pelas assessorias servis: “Presidenta, a senhora está certa. Genial, presidenta! Que ideia inteligente, doutora Dilma”. Presa na redoma de vidro das adulações, nada como uma pedrada (simbólica) em forma de vaia para arejar o ambiente e despertar a lucidez: abre o olho, que as pessoas estão insatisfeitas.

No mais, um repórter amigo meu disse assim: “Rapaz, política é coisa que interessa a pouca gente. Agora é futebol”. Pensei comigo: “Sabe de nada, inocente!”. Sem o desejo de capitalizar politicamente em ano eleitoral, não haveria Copa do Mundo no Brasil. Pelo mesmo motivo, pouco se fala em esquemas táticos e afins. O grande debate é saber quem é contra ou a favor das vaias e dos xingamentos contra a presidente. Um falso debate, pois foge ao principal: que sentimento é esse? Por que vaiam agora, na festa, se há pouco tempo a presidente era mais popular do que Lula ou FHC? Minha tese é simples e batida: inflação. Mas isso é somente uma hipótese.

Parafraseando Voltaire, encerro: “Posso não concordar com nenhum dos palavrões que você disser, mas defenderei até a morte o seu direito de xingar governantes”. É que a chance de ser uma injustiça é pequena, quase nula.

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Os black blocs amarelaram e os vermelhos esverdearam

Por Wanfil em Brasil

13 de junho de 2014

A Copa do Mundo do começou e dentro de campo a seleção brasileira fez a sua parte, estreando com vitória. Do lado de fora, a expectativa ficou por conta dos protestos organizados pelos chamados black blocs, radicais que atacam prédios, policiais, jornalistas e interditam ruas, em nome de causas anticapitalistas e anti-sistema, essas coisas. E o que se viu, no entanto, foi o yellow da torcida brasileira ofuscar as cores de grupinhos que andavam se achando.

Fora dos estádios foram registrados alguns protestos violentos, inclusive aqui em Fortaleza, mas com muito menos gente e impacto do que nas manifestações ocorridas durante a Copa das Confederações, no ano passado. O povo deixou os radicais patetas sozinhos nas ruas, brincando de revolução. Sem um movimento alheio para se infiltrarem, os black blocs não passam de um refugo ideológico insignificante. Logo eles, que se imaginavam a vanguarda de um novo tempo. É que nas suas cabeças perturbadas, o rabo é que balança o cachorro.

Aplausos e vaias

Isso não significa que os brasileiros tenham esquecido a desconfiança em relação aos seus representantes políticos, deslumbrados com o torneio. Pelo contrário. Como eu disse no post anterior, para desgosto do governo, a Copa se tornou um potente catalisador das insatisfações populares que ensejam um desejo por mudanças, devidamente captado por recentes pesquisas eleitorais. Assim, no estádio Itaquerão (horrível, se comparado ao Castelão, diga-se), a mesma torcida que cantou o Hino Nacional com paixão emocionante, por diversas vezes ecoou uníssona palavrões contra a Fifa e contra a presidente Dilma Rousseff (PT) que disputará a reeleição em outubro próximo. Há, portanto, discernimento nessas manifestações que demarca claramente uma hora para aplaudir e outra para vaiar.

Quebrando a tradição, a presidente da República não discursou, prevendo, com acerto, a monumental vaia que tomaria. Na partida entre Brasil e Croácia, assim como no pronunciamento que fez à nação na terça, Dilma trocou o vermelho característico dos partidos de esquerda pelo verde. Assim como o preto dos radicais, o vermelho das esquerdas anda desbotando nos dias atuais. Quem não se lembra das bandeiras vermelhas sendo expulsas das manifestações de junho do ano passado? Como a eleição está chegando, ele agora dá lugar ao verde (cor utilizada, veja só, pelo matreiro PMDB).

O modo e a hora

Faço aqui um breve desvio. Alguns amigos, sensíveis que são, desaprovaram as ofensas dirigidas à presidente Dilma, por deselegantes e inoportunas. Para eles, nem o modo, nem a hora, foram adequadas, passando uma má impressão para o exterior. Ocorre que esse é um fenômeno sobre o qual não há muito o que se fazer, pois não existe um centro de irradiação. Antes, é um sentimento difuso e generalizado que se manifesta espontaneamente, sem líderes. Nem a oposição ousa tentar conseguir algum proveito direto, sob pena de serem os seus expoentes também vaiados. No fim, vergonha mesmo é roubar, e isso atualmente tem constrangido pouca gente. Ponto. Volto ao tema inicial.

Mais do que uma cor

Nesse jogo de cores e símbolos, sobressaiu-se o amarelo canário da Seleção e da torcida brasileira. Pelo que se viu na abertura da Copa, muito mais do que os tais black blocs ou os vermelhos sustentados com verba pública (tipo MST), serão os torcedores comuns vestidos de amarelo os mais temidos por aqueles que sabem o peso de uma vaia em ano eleitoral. É mais do que uma cor, é um sentimento em evolução.

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A Copa das copas…

Por Wanfil em Brasil

12 de junho de 2014

Copa-das-CopasComeça hoje a Copa do Mundo de Futebol. E o que deveria ser a Copa das Copas – a apoteose do ufanismo tupiniquim, do Brasil potência alardeado pelo PT, mais rico do que a Inglaterra e mais justo do que a Suécia -, virou um problema para o governo.

A propaganda que vendeu a “Copa das Copas” se tornou profecia, mas com sinal invertido. Sim, esta será a Copa das Copas, mas não pelos motivos imaginados pelo governo, com a construção de uma nova identidade nacional vinculada a um projeto político-partidário. Será, ao contrário, a Copa da contestação ao discurso oficial e do repúdio à cultura política nacional.

Por isso agora todo o esforço de comunicação do governo federal e de seus defensores busca descontextualizar as críticas relacionadas aos atrasos, sobrepreços e promessas vazias que marcaram a preparação para o evento. Não por acaso, a presidente Dilma buscou associar, no texto que leu em cadeia nacional de rádio e televisão na última terça (10), as opiniões desfavoráveis à sua gestão com a adjetivação “pessimista”. Sua equipe sabe que torcida precisa ser otimista. Logo,  ideia é ligar as cobranças por mais eficiência e menos corrupção (o tal pessimismo) ao derrotismo de “quem é do contra”. O truque é velho, mas não cola agora. Tanto que a presidente não irá discursar na abertura da Copa.

Apesar de você

Os brasileiros, naturalmente, irão torcer e vibrar. Muitos dizem que uma vitória do Brasil beneficiaria Dilma nas eleições. Não sei, não. A realidade do presente é demasiadamente complexa para caber nessa equação simples. A conquista da Copa das Confederações no ano passado, por exemplo, não estancou o sentimento crítico da população. Em 1998, o Brasil perdeu a Copa para a França, e mesmo assim o então presidente Fernando Henrique Cardoso foi reeleito em primeiro turno. Isso mostra que uma eventual ligação de causa e efeito entre Copa e eleição não é assim uma regra fixa, mas algo que varia conforme a época e a conjuntura. Para 2014, tentaram fazer da Copa um ativo eleitoral para a continuidade, mas acabaram criando um potente catalisador de insatisfações que propulsiona o desejo de mudança, como atestam pesquisas de opinião.

É claro que governos apostam em torneios como a Copa pensando em ganhos de imagem e popularidade. Mas isso demanda um trabalho bem feito que possa casar as ações governamentais com a expectativa do público. Não foi o que aconteceu agora. Pelo contrário. O descompasso entre o que foi prometido e o que foi entregue, além dos custos, desagradou a população. A situação chegou a um ponto que, caso o Brasil conquiste o hexa, qualquer tentativa mais explícita de buscar tirar proveito político disso pode virar um tiro no pé, causando indignação geral e derrubando ainda mais a aprovação do governo.

Para o brasileiro, Copa é Copa, apesar do governo, ou dos governos. E que vença o melhor.

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O atraso do VLT e uma questão de lógica – Ou: Tem culpa eu?

Por Wanfil em Ceará

10 de junho de 2014

O governador Cid Gomes anunciou na semana passada que pretende romper o contrato com o consórcio responsável pela construção do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), promessa não cumprida para a Copa do Mundo. A mensagem é clara: a exclusividade da culpa pelo atraso na obra é do agente privado que presta serviço ao agente público. Por esse raciocínio, o contratante é vítima da incompetência do contratado.

As empresas do consórcio negam a acusação, dizendo que o problema está no projeto original. Não entro no mérito técnico-jurídico dessa pendenga. Interessa aqui a lógica da argumentação oficial, que revela, naturalmente, uma forma de ver o mundo, uma moral aplicada à administração pública.

O filósofo alemão Immanuel Kant ensinava que só é ético o que pode ser universalizado. Dizendo de outra forma: para ser justo, não é possível ter dois pesos e duas medidas. Pois, bem. Sendo a divisão de responsabilidades um princípio administrativo lógico e transparente, é lícito concluir que, por inversão, quando uma obra é feita a tempo e dentro dos critérios estabelecidos previamente entre as partes, o mérito cabe exclusivamente às empresas responsáveis pela obra. O Castelão, por exemplo, devemos às empresas que o construíram, cabendo ao governo o papel de fiel intermediário entre o dinheiro do contribuinte e o serviço prestado. É ou não é lógico?

Assim, se para o governo Cid não é o culpado pelos atrasos nas obras do seu próprio governo, da mesma forma o secretário da Copa, Ferrucio Feitosa, não pode posar de gestor competente pelo prazo cumprido na reforma do estádio, pois sua responsabilidade não é fazer ou deixar de fazer, mas só pagar quem faz. Aparecer como executivo realizador não passaria, portanto, de uma falsa propaganda feita em cima de um mero burocrata. Não estou dizendo isso, apenas deduzo o cenário a partir de uma premissa colocada pelo próprio governo. O mesmo peso, a mesma medida.

É claro que as coisas não funcionam assim. Quando dão certo, e isso vale para a maioria dos governos e governantes, aparece um monte de gente disposta a surfar na onda da bonança. Quando dão errado, todos correm para culpar terceiros. Raros são os que assumem seus erros e vacilações, ou que tomam providências antes do prejuízo.

O caso do VLT lembra o da adutora de Itapipoca, no final do ano passado, quando Cid Gomes mergulhou para reparar um tanque de água. O governo culpou a empresa e um inquérito foi instaurado. Nenhum dos técnicos responsáveis pelo projeto foi demitido. Resultado: dinheiro perdido. Nosso dinheiro. Sumiu e a obra de 19 milhões precisou ser remendada.

Assim, quando o governo diz que o culpado pelo atraso do VLT é exclusivamente o consórcio, sem assumir nem um pouquinho da responsabilidade, quer apenas esconder a malícia se fazendo de bobo, igual na brincadeira popular que finge haver inocência na pergunta carregada de duplo sentido: Tem culpa eu?

PS. O atraso de uma semana para falar sobre esse tema é de minha inteira e intransferível responsabilidade.

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Afinal, o que você quer da vida? – resenha de Vozes da Rua, de Philip K. Dick

Por Wanfil em Livros

07 de junho de 2014

Philip K. Dick: Em Vozes da Rua, a depressão psicológica como um mal à espreita do mundo.

Philip K. Dick: em Vozes da Rua, a depressão psicológica como um mal à espreita do mundo.

O escritor norte-americano Philip K. Dick (1928 – 1982) é referência mundial em ficção científica. Seus livros deram origem a grandes sucessos do cinema como Blade Runner, Minority Report, Total Recall (que no Brasil é ficou conhecido com o tosco nome de O Vingador do Futuro), O Homem Duplo, Os Agentes do Destino, entre outros.

O que poucos sabem é que os primeiros livros de Dick não eram sobre ficção científica, gênero que, assim como o policial, não tem grande reconhecimento na crítica literária, salvo algumas exceções, claro. Estudante de filosofia, Philip aspirava a algo mais, digamos, clássico.

Dizem seus biógrafos que seu início de carreira é marcado por um pendor autobiográfico, mas nunca procurei saber mais. Assim como a maioria, o que me interessava mais eram seus escritos famosos. Até que um dia, não faz muito tempo, esbarrei numa livraria com Vozes da Rua, oferecido numa promoção por R$10,00, dessa fase pré-ficção científica de Dick. Não resisti, arrisquei e consegui uma bela surpresa ao conhecer a história de Stuart Hadley, um jovem bonito, bem casado e com um filho recém nascido, com carreira promissora no comércio, morador de um bairro típico de classe média dos EUA nos anos 1950. Mas algo o angustiava e nada preenchia sua busca por um sentido para a vida. Stuart encarna à perfeição o lamento de Vinícius de Morais: “É claro que te amo/E tenho tudo para ser feliz/Mas acontece que eu sou triste…”.

Em busca de uma razão maior, aspirando a grandes feitos, o personagem procura dar vazão às suas frustrações na bebida, em outra mulher, na religião e no trabalho. Nada o satisfaz como deveria. Fica claro que a doença da moda no século XXI, a depressão, cercava o Stuart de meados do século XX.

Vozes-da-Rua-Philip-K-DickA narrativa alterna momentos intensos com outros mais arrastados. Provavelmente a intenção do autor foi contrastar o tédio de uma existência programada com o desejo por novidades. A linguagem é direta e os personagens são poucos. O final, adianto sem prejuízo a leitura, não é feliz, mas também não é trágico. Não há grandes lições de moral, muito menos a pretensão arrogante de deixar ao leitor um ensinamento edificante, no estilo autoajuda. Nada. A mensagem é seca, dura, e nos faz pensar sobre nossa relação com o cotidiano, com o que somos e o que queremos. Convida o leitor a um exercício de autopercepção, o que não é nada fácil para quem deseja ouvir apenas elogios ou conselhos baratos.

A meu ver – e isso é uma impressão particular, depreendida da leitura e adaptada às minhas vicissitudes -, Vozes da Rua fala sobre o desencontro entre vocação e trabalho, entre a realidade e os devaneios que podemos alimentar. Principalmente, um desequilíbrio profundo entre altruísmo e egoísmo. Você faz o gosta ou apenas busca a segurança de um trabalho sem sentido para você? Sabe pelo menos o que deseja fazer? Vive com quem lhe faz bem ou procura companhias que podem levá-lo a um espiral de autodestruição? Se conforma com tudo por vontade própria ou por sugestão/imposição das “vozes da rua”? Pensar nos outros lhe parece um fardo ou um alívio? As respostas para essas indagações podem ser fáceis de dizer em público, quando todos procuram se mostrar felizes e adaptados. Mas no íntimo de cada um, são questões que se colocam diariamente e sobre as quais podemos mudar de opinião, dependendo do período.

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Afinal, o que você quer da vida? – resenha de Vozes da Rua, de Philip K. Dick

Por Wanfil em Livros

07 de junho de 2014

Philip K. Dick: Em Vozes da Rua, a depressão psicológica como um mal à espreita do mundo.

Philip K. Dick: em Vozes da Rua, a depressão psicológica como um mal à espreita do mundo.

O escritor norte-americano Philip K. Dick (1928 – 1982) é referência mundial em ficção científica. Seus livros deram origem a grandes sucessos do cinema como Blade Runner, Minority Report, Total Recall (que no Brasil é ficou conhecido com o tosco nome de O Vingador do Futuro), O Homem Duplo, Os Agentes do Destino, entre outros.

O que poucos sabem é que os primeiros livros de Dick não eram sobre ficção científica, gênero que, assim como o policial, não tem grande reconhecimento na crítica literária, salvo algumas exceções, claro. Estudante de filosofia, Philip aspirava a algo mais, digamos, clássico.

Dizem seus biógrafos que seu início de carreira é marcado por um pendor autobiográfico, mas nunca procurei saber mais. Assim como a maioria, o que me interessava mais eram seus escritos famosos. Até que um dia, não faz muito tempo, esbarrei numa livraria com Vozes da Rua, oferecido numa promoção por R$10,00, dessa fase pré-ficção científica de Dick. Não resisti, arrisquei e consegui uma bela surpresa ao conhecer a história de Stuart Hadley, um jovem bonito, bem casado e com um filho recém nascido, com carreira promissora no comércio, morador de um bairro típico de classe média dos EUA nos anos 1950. Mas algo o angustiava e nada preenchia sua busca por um sentido para a vida. Stuart encarna à perfeição o lamento de Vinícius de Morais: “É claro que te amo/E tenho tudo para ser feliz/Mas acontece que eu sou triste…”.

Em busca de uma razão maior, aspirando a grandes feitos, o personagem procura dar vazão às suas frustrações na bebida, em outra mulher, na religião e no trabalho. Nada o satisfaz como deveria. Fica claro que a doença da moda no século XXI, a depressão, cercava o Stuart de meados do século XX.

Vozes-da-Rua-Philip-K-DickA narrativa alterna momentos intensos com outros mais arrastados. Provavelmente a intenção do autor foi contrastar o tédio de uma existência programada com o desejo por novidades. A linguagem é direta e os personagens são poucos. O final, adianto sem prejuízo a leitura, não é feliz, mas também não é trágico. Não há grandes lições de moral, muito menos a pretensão arrogante de deixar ao leitor um ensinamento edificante, no estilo autoajuda. Nada. A mensagem é seca, dura, e nos faz pensar sobre nossa relação com o cotidiano, com o que somos e o que queremos. Convida o leitor a um exercício de autopercepção, o que não é nada fácil para quem deseja ouvir apenas elogios ou conselhos baratos.

A meu ver – e isso é uma impressão particular, depreendida da leitura e adaptada às minhas vicissitudes -, Vozes da Rua fala sobre o desencontro entre vocação e trabalho, entre a realidade e os devaneios que podemos alimentar. Principalmente, um desequilíbrio profundo entre altruísmo e egoísmo. Você faz o gosta ou apenas busca a segurança de um trabalho sem sentido para você? Sabe pelo menos o que deseja fazer? Vive com quem lhe faz bem ou procura companhias que podem levá-lo a um espiral de autodestruição? Se conforma com tudo por vontade própria ou por sugestão/imposição das “vozes da rua”? Pensar nos outros lhe parece um fardo ou um alívio? As respostas para essas indagações podem ser fáceis de dizer em público, quando todos procuram se mostrar felizes e adaptados. Mas no íntimo de cada um, são questões que se colocam diariamente e sobre as quais podemos mudar de opinião, dependendo do período.