Maio 2014 - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

Maio 2014

NO – Um belo filme sobre marketing eleitoral (e a luta entre o medo e a esperança)

Por Wanfil em Cinema

31 de Maio de 2014

No (2012) de Pablo Larraín: O marketing eleitoral e as emoções

No (2012) de Pablo Larraín: O marketing eleitoral e as emoções da massa

É a história de uma campanha política baseada na confrontação de duas premissas antagônicas: o medo da volta ao passado, defendido pelo governo vigente, versus a esperança no futuro, mote da oposição. Não estamos falando do Brasil de 2014 (ou de 2006 e 2002), mas do Chile de 1988, habilidosamente retratado em NO, filme de Pablo Larraín, protagonizado por Gael Garcia Bernal, lançado em 2012 e indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2013.

Antes de continuar, um breve comentário. Embora eu não seja especialista em cinema, destaco a fotografia dessa produção, que optou por amenizar a saturação das cores, conferindo um ar de álbum colorido, porém antigo, às imagens. Uma bela forma de ambientar a narrativa em seu tempo.

Agora, voltando ao que interessa, quem considera Duda Mendonça um gênio pelo conceito “a esperança venceu o medo” (e sua adaptação personalizada no “Lulinha Paz a Amor”), ficará surpreso ao descobrir que o baiano não criou a roda, apenas adaptou para o Brasil, uma audaciosa ideia posta em prática no Chile 14 anos antes.

Os chilenos viveram uma das mais violentas ditaduras militares da América Latina por 15 anos, comandada pelo general Augusto Pinochet. Entretanto, acuado pela comunidade internacional, o regime propôs um plebiscito, confiante de que os bons resultados na economia seduziriam os eleitores, que iriam às urnas escolher entre o “SIM”, dando mais oito anos a Pinochet, e o “NÃO”, que ensejaria eleições para a escolha de um novo presidente.

Para a campanha, opositores moderados chamaram publicitários sem vínculos políticos para criar e dirigir a propaganda eleitoral (“um olhar de fora”, argumentaram). Gente de mercado (palavrão para os partidos mais à esquerda, que acabaram vencidos internamente). No filme, esse grupo de profissionais de marketing é unificado no personagem René Saavedra (Gael Bernal). No comando, o publicitário deixou de lado o discurso que parecia mais óbvio (a denúncia das arbitrariedades da ditadura, com ênfase na violência contra civis) para adotar a “alegria” como base da campanha. O raciocínio foi mais ou menos assim: “o medo não vende, assusta. A alegria encoraja”. E assim,m o símbolo escolhido para a propaganda foi um arco-íris, onde todas as cores representavam a união de diferentes partidos em torno de um objetivo comum, altivo e… alegre!

Alguns viram nisso a despolitização das eleições. Em certa medida, concordo. Mas lembro Ortega Y Gasset em A Rebelião das Massas (cito de memória): as administrações ficaram tecnicamente tão complexas, tão distantes da compreensão até de pessoas bem instruídas, que inevitavelmente o debate político será reduzido à manipulação de emoções. No entanto, de volta ao filem, como o objetivo era ganhar, adotou-se o pragmatismo das técnicas de comunicação de massa. Não é o ideal, mas é como o jogo é jogado nos dias de hoje. Uma espécie de xadrez.

A ditadura, arrogante, imaginava que o plebiscito seria um passeio, pois a população estava satisfeita com as “conquistas” da economia. Vale lembrar que o desafio ficava ainda maior pelo fato de que a palavra “sim” possui, naturalmente, um valor positivo, enquanto o “não” carrega consigo uma conotação de negatividade.

Bom, a campanha foi uma espetáculo. Inacreditável. A oposição conseguiu vender alegria ao combater um regime violentíssimo. Críticas eram feitas com humor, para dar leveza (um risco enorme, pois poderia parecer descaso). Os governistas, pegos de surpresa, não souberam reagir e apelaram ao medo da “volta ao passado” de penúria e com acenos contra o terror comunista (que não colou pois a propaganda do NÃO evitou os chavões esquerdistas).

Um ótimo filme que se insere muito bem na atual conjuntura brasileira. Vivemos uma democracia, mas alguns elementos da guerra de propaganda política estão presentes por aqui, sobretudo na confrontação medo versus esperança. Existem as diferenças, claro. Até que ponto candidatos de oposição realmente conseguem convencer o eleitor de que são portadores de uma esperança? E até que ponto os governistas irão persuadir a população de que é possível ficar pior do que está?

Cada eleição é diferente, eu sei. Mas no Brasil de hoje, se eu fosse oposição veria o filme para sacar como se faz crítica propositiva; e se fosse governo, veria para ter noção do risco que é apostar no medo.

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Secretários estaduais participam de encontro partidário na hora do expediente. Pode?

Por Wanfil em Eleições 2014

29 de Maio de 2014

No dia em que a morte de mais um motorista de ônibus durante um assalto em Fortaleza causou comoção na categoria, que em protesto parou o serviço, o secretário de Segurança do Ceará, Servilho Paiva, participou de um encontro entre partidos da base aliada do governo estadual, em horário de expediente (por volta das 15 h). Segundo nota à imprensa divulgada pelo Pros, a reunião tinha por objetivo (grifos meus) “discutir diretrizes que devem guiar o programa de governo da chapa que vai representar o grupo nas próximas eleições.

No mesmo dia em que a Polícia Federal cumpriu um mandado de busca e apreensão na Câmara Municipal de Fortaleza para investigar, a pedido do Ministério Público Eleitoral, denúncia de suposto uso de recursos públicos (inclusive carros alugados) do legislativo municipal para beneficiar a pré-campanha do senador Eunício Oliveira (PMDB) ao governo do Ceará, o secretário da Educação do Estado, Maurício Holanda, participou do mesmo evento partidário organizado pelo Pros, também em horário de expediente e utilizando carros oficiais da secretaria.

Lei eleitoral
A Lei Nº 9.504, que dispões sobre o processo eleitoral no Brasil, assim determina (grifos meus):

Art. 73. São proibidas aos agentes públicos, servidores ou não, as seguintes condutas tendentes a afetar a igualdade de oportunidades entre candidatos nos pleitos eleitorais:
I – ceder ou usar, em benefício de candidato, partido político ou coligação, bens móveis ou imóveis pertencentes à administração direta ou indireta da União, dos Estados, do Distrito Federal, dos Territórios e dos Municípios, ressalvada a realização de convenção partidária;
III – ceder servidor público ou empregado da administração direta ou indireta federal, estadual ou municipal do Poder Executivo, ou usar de seus serviços, para comitês de campanha eleitoral de candidato, partido político ou coligação, durante o horário de expediente normal, salvo se o servidor ou empregado estiver licenciado.

Imagens
Carro oficiais no estacionamento do Marina Park Hotel, utilizados no encontro político-partidário da base governista, evento de caráter privado e com fins declaradamente eleitorais.

Hilux da Seduc no encontro dos partidos governistas:

Hilux da Seduc no encontro dos partidos governistas: “Uso restrito em serviço”. Fotos: Wanfil

Política
Apesar de reunir 22 partidos, a reunião teve como estrelas mesmo os secretários que deixaram seus afazeres para dar uma força aos coligados do governo estadual a que servem. Apenas seis presidentes partidários compareceram, e com exceção de Moroni Torgan (DEM), cada um mais desconhecido do público que o outro: José Vilemar Carneiro Filho (PRTB), Francisco de Assis (PT), Danilo Serpa (Pros), Samuel Braga (PEN) e Reginaldo Moreira (PMN).

De resto, o encontro se deu a portas fechadas, sem acesso para a imprensa. É difícil imaginar, no entanto, as novidades que os secretários poderiam apresentar, afinal, são todos unânimes em dizer que tudo vai muito bem, obrigado.

Dúvida
É permitido o uso de servidores e veículos oficiais em encontros partidários no Ceará? Com a palavra, o Ministério Público Eleitoral.

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Mapa da Violência 2014 mostra desastre na segurança: é assim que a gente faz, um novo Ceará…

Por Wanfil em Segurança

28 de Maio de 2014

Ceará-mapaUma prévia do Mapa da Violência 2014 divulgada nesta terça-feira (27) mostrou o Ceará como o segundo estado brasileiro com maior crescimento em números de homicídios, com uma alta de 37,7% entre 2011 e 2012. Ficou ainda na terceira posição no índice de assassinatos, com uma taxa de 44,6 por grupo de 100 mil habitantes. Ao ler isso, imediatamente me veio à mente aquela canção da propaganda: “é assim que a gente faz, um novo Ceará…” É… O marketing realmente toca fundo nos labirintos da mente.

O estudo foi realizado pela Faculdade Latino-America de Ciências Sociais, a partir de dados consolidados pelo Ministério da Saúde em todo o país, relativos ao ano de 2012. Como em 2013 o quadro degenerou ainda mais no Ceará, conforme estatísticas da própria Secretaria de Segurança, a situação tende a piorar na edição de 2015. Mas o que temos já basta para comprovar a realidade que o cearense vive.

O todo e as partes
De modo geral, a violência cresceu no Brasil como um todo. Pulou de 49 mil homicídios em 2002 para 56 homicídios em 2012. São números estarrecedores, de guerra civil, que servem ainda para dar verossimilhança ao argumento defendido pelo governador Cid Gomes e seus liderados, para explicar a onda de crimes no Ceará. Para as nossas autoridades locais, como o fenômeno é nacional, com especial gravidade no Nordeste, a responsabilidade dos governos estaduais nesses resultados acabaria reduzida. Ocorre que o quadro geral esconde a heterogeneidade da distribuição desses crimes  no território nacional.

Ceará é o pior do NE
O aspecto mais interessante do Mapa da Violência é a oportunidade de comparar dados entre os estados. Assim, enquanto no Ceará a Taxa de Homicídios cresceu 36,5% entre 2011 e 2012, em Pernambuco esse índice caiu 5,1%, na Paraíba recuou 6,2% e em Alagoas despencou 10,4%! Nos demais estados do Nordeste que registraram alta nos assassinatos, todos ficaram abaixo do Ceará. Na região, a segunda maior taxa é de Sergipe, com 18,3%, metade da cearense! Ou seja, se a situação é ruim no Brasil como um todo e no Nordeste em particular, no Ceará é pior ainda. A diferença, nesses casos, é preciso dizer, tem nome: gestão!

Segurança e eleições
O tema segurança pública é o assunto das eleições estaduais neste ano. O governo tem buscado ações de curto prazo, um esforço na comunicação institucional e no campo político, vem procurando rebater com mais energia críticas de adversários.

Recentemente, o próprio governador Cid Gomes acusou de eleitoreiras as propagandas partidárias da oposição que tocaram no tema. O problema é que contra fatos, não há argumentos. Dizer que fez tudo o que era possível não cola mais, pois basta comparar nossa situação com a dos vizinhos. Pior ainda é insistir na conversa de que nunca tantos recursos foram investidos na área. É verdade, mas olhando os resultados obtidos, isso aos mais como uma confissão de incompetência. Pedir mais tempo é ridículo, afinal, lá se vão sete anos e meio de gestão (entre 2002 e 2012, os homicídios no Ceará cresceram 166%).

Eu poderia dar sugestões de como abordar o tema de outra forma. Mas aí seria pretensão demais. Afinal, o que não faltam no governo são equipes de assessores e de consultores de segurança, comunicação e marketing (“é assim que gente faz…”) muito bem pagos para orientar a gestão Cid Gomes como explicar a situação. Sabe como é: sem resultados concretos para apresentar, a saída é apostar na velha e boa lábia.

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Eleições no Ceará: o que reúne 22 partidos numa aliança?

Por Wanfil em Eleições 2014

26 de Maio de 2014

No Ceará, base governista tem 22 partidos aliados, unidos por um vício antigo em dose recorde.

Base aliada com 22 partidos unidos por vícios antigos, em doses recordes.

Numa demonstração de “força persuasiva”, o Pros do Ceará, sigla de aluguel que atualmente abriga Cid Gomes & Cia., reuniu outros 21 partidos na última sexta-feira (23) para falar de eleições. Marcaram presença PEN, PHS, PMN, PP, PPL, PPS, PRP, PRTB, PSC, PSD, PSDC, PSL, PT, PTdoB, DEM, PCdoB, PDT, PTB, PTC, PTN e SDD. É a sopa de letrinhas que abre o apetite de qualquer candidato majoritário disposto a bancar o prato.

O objetivo declarado do encontro foi a necessidade de uma discussão para trabalhar as diretrizes de um programa de governo para o candidato que representará a coalizão situacionista. Na verdade o evento serviu para que os aliados cobrassem do governador a definição de quem será o nome do candidato oficial, e também para mostrar ao PMDB de Eunício Oliveira que a base continua orbitando no centro de gravidade governista.

Por outro lado, o PMDB tem experiência nessas negociações. Sabe que nessas gigantescas alianças partidárias não é bem a fidelidade a princípios programáticos o que conta, mas a expectativa de poder. Assim, fazer reuniões com os partidos da base não significa obrigatoriamente que haja unidade nessa relação. Um exemplo é o próprio PT, que está dividido. Caso confirme apoio ao candidato de Cid, o diretório de Fortaleza já sinalizou que não pede votos para o Pros.

E o resto é o resto. Partidos inexpressivos do ponto de vista ideológico, mas que possuem, cada qual, seu pequeno quinhão de tempo de propaganda para traficar em busca de cargos nos acordos eleitorais.

Por isso, os aliados do governo continuam casados com o governo, mas acenam com piscadelas com outras forças, especialmente o PMDB. Nunca se sabe, né? Vai que o escolhido de Cid não decola…

Aparências
Enquanto isso, o Pros faz o velho jogo de cena que procura dar ares de profundidade conceitual ao acordo entre esses partidos. Na reunião ficou acertado que serão realizados mais três encontros para discutir temas como educação, saúde, segurança pública, etc, etc, etc…

Na verdade, o que todos querem mesmo é saber quem será o candidato oficial, para poder então fazer suas apostas, de olho em espaços em futuros governos. Esse teatro não é exclusividade do Pros. PT, PSB, PSDB e o próprio PMDB já o encenaram em outros momentos. Não falo isso para justificar a frouxidão moral que permeia esses acordões. É justamente para denunciá-la como prática antiga, levada agora à potência máxima no governo Cid Gomes, que quase não tem opositores. O vício não é novo, mas sua intensidade é inédita.

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Consagração do protesto-arruaça revela profunda crise de autoridade

Por Wanfil em Ceará

23 de Maio de 2014

Fortaleza foi mais uma vez vítima de uma ação violenta promovida por “estudantes” e pelo Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil, que tocaram o terror na cidade na tarde desta quinta-feira. As causas? Uns querem passe livre para andar de ônibus, os outros pedem reajuste salarial. Mas grande mesmo foi a ação do sindicato. Os estudantes (queria ver as notas…) foram no embalo.

Qual a diferença entre um sindicato que bloqueia vias públicas, ameaça jornalistas e transeuntes, apedreja carros, ataca prédios e enfrenta a polícia, de uma torcida organizada de futebol que barbariza nos estádios? Apesar dos métodos serem parecidos, há uma diferença que transforma, com razão, “torcedores” arruaceiros em vândalos criminosos, mas que magicamente faz de arruaceiros sindicalizados meros trabalhadores reivindicado melhores dias. Por que isso?

Caldo ideológico
Simples. É que existe uma distinção ideológica segundo a qual tudo o que diz respeito a sindicatos e afins deriva da luta de classes. O Brasil é definitivamente um subproduto cultural do marxismo. Em nome de um entendimento enviesado do que seria a “justiça social”, esses movimentos entendem que estão acima das leis, que são vistas, não raro, como entraves, poias constituídas pelas elites e tal. E assim, o interesse de classe lhes conferiria um senso de justiça telúrico e inquestionável.

Quantas vezes o MST jã não invadiu órgãos públicos cobrando repasse de verbas para assentamentos, sem prestar conta de como gastam esses recurso? E todos acham isso justíssimo. E ninguém toma providência para não parecer – cruz, credo! – de direita! Cotas raciais estabeleceram critérios legais de distinção pela cor e tudo é muito lindo. E como em nome de uma causa justa tudo é permitido, por que não impedir outras pessoas de ir e vir? Por que não apedrejar portas de jornais, como fez esse mesmo sindicato com o Diário do Nordeste em 2012? Aliás, por que não agredir profissionais da imprensa que estão registrando o vandalismo sem endossá-lo?

Quantos desses “manifestantes” foram presos ou pelo menos multados por seus atos de afronta à lei? Nenhum, pois na cabeça da maioria, eles não cometeram crimes, apenas… protestaram. De tanto adular o coitadismo dos movimentos sociais (que não representam a sociedade civil coisa nenhuma, mas sim interesses próprios e particulares), o poder público e a sociedade agora são reféns dessas, digamos, reivindicações truculentas.

Pega fogo, cabaré!
Se por um lado a base para a disseminação da violência desvairada como método válido de protesto para alguns grupos (só para alguns) é o refugo ideológico do marxismo, é preciso reconhecer que as velhas práticas da política brasileira, especialmente a corrupção e a impunidade, também agem para desgastar a tessitura das instituições, das autoridades e da própria ordem legal. Afinal, porque exigir compostura somente de vândalos, sem estender essa cobrança aos governantes? Ora, que se danem então, conclui o sujeito comum. “Pega fogo, cabaré”, diria um cearense mais exaltado.

Sim, é inegável o sentimento generalizado de descontentamento entre os brasileiros com os rumos do país. O cidadão comum saturou, chegou ao seu limite. Tanto que o inimaginável aconteceu: a Copa do Mundo da Fifa, que pretendia ser vitrine de um sucesso de um Brasil que não existe (a tal potência mais rica do que a Inglaterra), acabou virando vidraça. E disso se aproveitam diferentes grupos de arruaceiros, que acreditam que podem impor suas próprias regras aos demais, como se não existissem leis garantindo o direito à greve e a liberdade para protestar. É mais um passo rumo à degradação e não há quem saiba mais aonde poderemos chegar.

Crise de autoridade
Não, leis não faltam. Na verdade, sobram leis. O que falta é autoridade política, moral e institucional de quem deveria zelar pela ordem institucional no país e no Ceará. Como estão todos, ou quase todos, desmoralizados e desacreditados, aos poucos, e às vésperas da Copa, a desordem vai imperando.

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E o escândalo da venda habeas corpus no TJCE? Periculum in mora, senhores juízes…

Por Wanfil em Judiciário

20 de Maio de 2014

No início do último mês de abril, o presidente do Tribunal de Justiça do Ceará, desembargador Luiz Gerardo Brígido, revelou que dois magistrados daquela Corte estavam sob investigação do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), acusados de vender habeas corpus em plantões nos finais de semana. O esquema envolveria também advogados, mas até o momento, nenhum nome foi revelado ao distinto público. Abril acabou, maio já caminhando para o final e nada. Parece não haver urgência (pode ser efeito cultural da famosa morosidade dos processos judiciais). Ocorre que a denúncia do pecado sem a divulgação da identidade dos pecadores e a aplicação das devidas punições, o mal não foi expurgado.

Fica a impressão de que existe um limite de tolerância com a má conduta, mas que o rigor das medidas de correção é brando. Não se está aqui a diminuir o papel do desembargador Brígido. Pelo contrário. É raro ver um órgão de Justiça dar conhecimento de seus problemas internos, especialmente os de corrupção. Brígido prestou um grande favor à sociedade ao dar transparência àquilo o que já era objeto de especulação em diversas esferas sociais e que ainda corrói a autoridade de todo o Judiciário estadual.

Se o cidadão comum não sabe quem são os fraudadores do TJCE, entre os chamados “operadores do Direito” (expressão cafona, mas em voga) muito se fala sobre quem seriam os acusados. Na verdade, comenta-se que poderiam ser mais de dois… E que a venda de liminares não se restringiria, necessariamente, apenas aos plantões judiciários.

Fazer o quê? É o que dá esse clima de suspeição geral. Se a denúncia assustou os envolvidos, o segredo e a demora em dar um fim ao caso alimentam ainda mais os mecanismos da desconfiança generalizada, afinal, como se trata de um colegiado, todos os seus membros, por mais corretos, acabam encobertos, quando menos, pela sombra da omissão. Como diz o ditado, basta uma maçã podre para estragar toda a cestada.

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Pimentel na CPI dos outros é refresco

Por Wanfil em Política

20 de Maio de 2014

Senadores Delcídio Amaral (PT-MS) e José Pimentel (PT-CE). Um presidiu a CPI dos Correios, o outro será relator da CPI da Petrobras.

Senadores Delcídio Amaral (PT-MS) e José Pimentel (PT-CE). Um presidiu a CPI dos Correios, o outro será relator da CPI da Petrobras. Foto: divulgação/assessoria PT

O senador José Pimentel (PT), um dos representantes do Ceará na Casa, é o relator da CPI que investiga lambanças na Petrobras, criada na semana passada. A oposição reluta em indicar nomes, pois pretende criar uma CPI mista, com a participação de deputados federais. Isso é lá com eles.

Por aqui, importa dizer que o senador cearense tem sobre si as luzes da ribalta. Naturalmente, ele diz que terá uma atuação técnica. Mas dado o histórico de causas impopulares que Pimentel já assumiu no passado, como a cobrança de contribuição de aposentados e pensionistas em 2003, o anúncio de seu nome causou desconfianças. Ou, como está no título, a impressão geral é de que Pimentel na CPI dos outros é refresco. Trata-se, claro, de uma especulação que só poderá ser confirmada, ou não, pelos fatos.

Recordo a CPI dos Correios, em 2005, presidida pelo senador Delcídio Amaral, do PT do Mato Grosso do Sul. Um dos raros casos em que uma CPI não acabou em “pizza”. O relatório final da investigação serviu de base para a acusação no julgamento do mensalão. Delcídio revelou depois ter sofrido pressões e ameaças dos próprios companheiros, além de ter sido espionado e abandonado na campanha ao governo de seu estado em 2006. Na ocasião, ficou claro que o senador não sacrificou sua reputação para salvar a turma da Papuda.

De certa forma, com os devidos descontos, essa é mais ou menos a situação que vive hoje o senador José Pimentel. Ainda mais depois que o jornal o Estado de São Paulo revelou que ele recebeu um milhão de reais da empreiteira Camargo Corrêa. A doação foi legal, diga-se, mas é que a construtora é uma das fornecedoras da Petrobras na refinaria de Pernambuco. Uma situação constrangedora, sem dúvida. (Em nota, Pimentel se defendeu e disse ser a favor do financiamento público de campanha, mas que enquanto isso não acontece, ele aceita grana de empreiteiras. Assim: o parlamentar não acha certo, mas devido às circunstâncias, faz…).

Agora é esperar para ver. Pimentel terá coragem de atuar como o companheiro Delcídio ou atuará como pizzaiolo de CPI?

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Oposição no Ceará não decola nem com a ajuda da crise governista

Por Wanfil em Eleições 2014

19 de Maio de 2014

No Ceará, uma combinação de eventos criou o cenário dos sonhos para qualquer oposição: crise na segurança pública, desaprovação na saúde, racha entre Pros e PMDB, luta autofágica entre o comando estadual e a direção nacional do Pros, atrasos nas obras para a Copa, protestos, inflação, queda na popularidade da presidente Dilma e CPI da Petrobras.

É o ambiente perfeito para opositores crescerem no rastro do descontentamento geral. E mesmo assim, no âmbito estadual, o principal risco para o governo são os inimigos internos.

Mais do mesmo
PSDB e PR promovem encontros regionais, sinalizando que a oposição no Ceará começa a se mexer. Antes tarde, do que nunca. É que alguns nomes desses partidos esperavam embarcar na candidatura de Eunício Oliveira (PMDB) para, em caso de vitória, comemorar no palanque alheio.

Convém lembrar que Cid pode até romper com Eunício, mas o peemedebista nunca foi opositor do governador. Pelo contrário, foi fiel aliado nos últimos anos. Se agora ficarem em lados opostos, será somente por causa de conveniências particulares e não de divergências morais ou ideológicas.

Para a oposição, portanto, seria um contrassenso apoiar uma força que representa, no fundo, mais do mesmo.

Estratégia
Por outro lado, a oposição precisam trabalhar com o que têm. E aí não sobra muita coisa. Antes de mais nada, precisam sabe o que realmente querem, para assim definirem suas estratégias eleitorais.

Por enquanto, surge como potencial candidato da oposição o nome do ex-prefeito de Maracanaú, Roberto Pessoa (PR). A seu favor pesa o fato de ter boa aceitação na Região Metropolitana e disposição par fazer o que quase ninguém tem coragem de fazer no Ceará: criticar com veemência Cid e Ciro Gomes. A outra pessoa com essa mesma disposição é a ex-prefeita de Fortaleza, Luizianne Lins (PT), cujo partido, no entanto, serve ao governo estadual.

Essa é uma opção. Seria a melhor? Isso é lá com eles. No mais, tudo é hipótese. Outra opção seria apostar em um nome novo, alguém sem vínculos com a política e de sucesso profissional, com perfil realizador, para tentar um discurso de renovação. Mas quem?

O fato é que, como diz um antigo lugar comum da política, time que não entra em campo, não tem torcida. Nesse sentido, o PT é referência. Quando estava na oposição, a sigla nunca deixava de apresentar candidatos, mesmo sabendo que perderia, só para marcar posição. O resto é história.

Definição
Nas democracias, o papel da oposição nas eleições é fundamental para o debate de ideias e para a alternância no poder. É claro que, para isso, é necessário deixar claro quais são as suas diferenças em relação a quem está no governo.

Espaço para atuar não falta. No Ceará, bastaram algumas propagandas partidárias do PSDB, PR e PSB criticando a segurança pública, para afetar a postura de infalibilidade da atual gestão, que apelou à Justiça e perdeu.

Se pretende ter autoridade para criticar, a oposição não deve mesmo esperar por terceiros e deixar de lado a tentação de pegar carona em candidaturas outras. Caso contrário, acabará como mera espectadora da briga entre os partidos aliados.

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A confissão de Dilma no Ceará

Por Wanfil em Ceará

14 de Maio de 2014

Em rápida passagem por Jati, município no interior cearense, a presidente Dilma Rousseff justificou o atraso na transposição do Rio São Francisco dizendo que a complexidade da obra foi subestimada.

Não se trata de reconhecer o atraso, que é evidente por si mesmo, já que a transposição deveria ter ficado pronta em 2012. O que a presidente tenta construir é uma explicação para o problema, sem esbarrar em suspeitas de incompetência e corrupção.

No Século 17, o aristocrata francês François de La Rochefoucauld, grande aforista e inimigo do cardeal Richelieu, dizia o seguinte: “Apenas confessamos os pequenos defeitos para persuadir os outros de que não temos grandes”. A conversa sobre complexidade subestimada é exatamente isso, uma desculpa. No entanto, mesmo nessa condição, o argumento tropeça em pelo menos três pontos:

Primeiro – como diz o ditado, tempo é dinheiro. O atraso não apenas prejudica as vítimas da seca, que contavam com urgência na execução do projeto, mas causa imensos prejuízos financeiros ao país. Com apenas metade da obra concluída, sua previsão orçamentária dobrou, pulando de quatro para oito bilhões de reais;

Segundo – se a presidente reconhece que o prazo foi subestimado, fica então a pergunta: quem errou? A obra, tal como é hoje, foi planejada ainda no governo Lula, seu padrinho político, mais ou menos na época em que Ciro Gomes, contundente defensor da transposição, foi ministro da Integração Nacional, órgão responsável pelo projeto. Vale lembrar ainda que a própria Dilma foi ministra da Casa Civil, com atribuição de acompanhar as grandes obras federais, função pela qual foi chamada por Lula de “mãe do PAC”. Dizer que tudo foi subestimado corresponde a confessar a própria incapacidade para estabelecer (e cumprir) prazos;

Terceiro – se fosse apenas a transposição que estivesse atrasada, daria para engolir esse papo de complexidade, mas não é isso o que acontece. No Ceará, por exemplo, a reforma do Aeroporto Pinto Martins, obra federal para a Copa, está entre as mais atrasadas do país. De resto, o mesmo acontece por todo o país. A lentidão do empreendimento no São Francisco não é, de forma alguma, um desvio acidental ou um imprevisto, mas simplesmente resultado de um padrão gerencial, de um método administrativo de baixa eficiência e custo elevado.

A ex-prefeita Luizianne Lins, também do PT, diante de igual dificuldade no cumprimento de prazos, chegou a declarar que suas obras não teriam mais data certa de entrega, para que a imprensa não ficasse cobrando. Voltando ao presente, de qualquer forma, a transposição está prevista para 2015, depois, claro, as eleições.

Por falar nisso, Dilma agora percorre o Nordeste tentando criar uma agenda positiva para reverter a recente queda nas pesquisas. E assim, a transposição, dívida eleitoral não quitada, volta a ser vendida, mais uma vez, como promessa. Evidentemente, o projeto é complexo e pode atrasar, mas esse alerta nunca foi comunicado ao público na hora de “vender” a imagem da candidata Dilma como gestora infalível. Quem planta, colhe.

O risco agora é subestimar a paciência e a inteligência do eleitor.

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Questão de reciproCIDade

Por Wanfil em Eleições 2014

12 de Maio de 2014

Durante encontro do PMDB em Crateús, no final de semana, Eunício Oliveira disse que esperava reciprocidade de Cid Gomes. A qualidade de recíproco pressupõe relação de igualdade, desde que haja acordo nos termos da equação. E parece que, no presente caso, não há.

Para o senador, o apoio dado a Cid Gomes (ex-PSB e atual Pros) nas duas vezes em que este foi eleito governador, merece uma retribuição: agora que é pré-candidato ao Palácio da Abolição, a parceria se manteria invertendo posições. A falta de contrapartida corresponderia, portanto, a uma deslealdade.

Já para o governador, o apoio prestado ao peemedebista em sua eleição para o Senado Federal quitou a dívida eleitoral pendente entre os dois.

Toda essa conversa também é um jogo de empurra, com cada uma das partes buscando atribuir para a outra a responsabilidade pelo rompimento. E aí, por falta de provas, resta ao distinto público escolher a versão que mais lhe agrada.

Disso tudo, duas coisas merecem ser pontuadas:

1) a discussão sobre quem deve apoio a quem apenas mostra a natureza real de uma aliança feita da junção ocasional de projetos pessoais que, no fundo, cedo ou tarde se mostrariam mesmo inconciliáveis;

2) as recentes declarações de lado a lado explicitam que o acordo selado entre as principais lideranças do Ceará na atualidade se baseou na velha troca de favores.

Não existe aí um rompimento de fundo moral, administrativo ou ideológico. Dado o padrão ético da política brasileira, nada disso é novidade.

O fato é que, quando lhes foi conveniente, PMDB e Ferreira Gomes (qualquer que seja o partido em que estejam), souberam tirar proveito eleitoral da aliança. Agora que estão separados, Eunício ensaia um discurso moderadamente crítico, o que é legítimo, principalmente quando o desgaste e o choque de visões acontece ao longo da gestão. Caso contrário, quando essas divergências surgem de repente e às vésperas de uma nova eleição, fica parecendo oportunismo.

Assim, por exemplo, quando Eunício afirma que é possível resolver a crise na segurança pública, é preciso lembrar que o conceito reciprocidade em alianças governistas não se resume à distribuição de cargos ou de apoios eleitorais, mas também no compartilhamento de responsabilidades, no que diz respeito ao conjunto da obra. Se a gestão acerta, acertam todos, se falha, falham igualmente todos.

Nessa situação de fiel ex-aliado, a credibilidade de eventuais críticas precisa do apoio de um devido mea culpa. Afinal, acertos e erros devem ser repartidos entre os que endossaram as mesmas promessas. Nada pessoal. É só  uma mera questão de reciprocidade.

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Questão de reciproCIDade

Por Wanfil em Eleições 2014

12 de Maio de 2014

Durante encontro do PMDB em Crateús, no final de semana, Eunício Oliveira disse que esperava reciprocidade de Cid Gomes. A qualidade de recíproco pressupõe relação de igualdade, desde que haja acordo nos termos da equação. E parece que, no presente caso, não há.

Para o senador, o apoio dado a Cid Gomes (ex-PSB e atual Pros) nas duas vezes em que este foi eleito governador, merece uma retribuição: agora que é pré-candidato ao Palácio da Abolição, a parceria se manteria invertendo posições. A falta de contrapartida corresponderia, portanto, a uma deslealdade.

Já para o governador, o apoio prestado ao peemedebista em sua eleição para o Senado Federal quitou a dívida eleitoral pendente entre os dois.

Toda essa conversa também é um jogo de empurra, com cada uma das partes buscando atribuir para a outra a responsabilidade pelo rompimento. E aí, por falta de provas, resta ao distinto público escolher a versão que mais lhe agrada.

Disso tudo, duas coisas merecem ser pontuadas:

1) a discussão sobre quem deve apoio a quem apenas mostra a natureza real de uma aliança feita da junção ocasional de projetos pessoais que, no fundo, cedo ou tarde se mostrariam mesmo inconciliáveis;

2) as recentes declarações de lado a lado explicitam que o acordo selado entre as principais lideranças do Ceará na atualidade se baseou na velha troca de favores.

Não existe aí um rompimento de fundo moral, administrativo ou ideológico. Dado o padrão ético da política brasileira, nada disso é novidade.

O fato é que, quando lhes foi conveniente, PMDB e Ferreira Gomes (qualquer que seja o partido em que estejam), souberam tirar proveito eleitoral da aliança. Agora que estão separados, Eunício ensaia um discurso moderadamente crítico, o que é legítimo, principalmente quando o desgaste e o choque de visões acontece ao longo da gestão. Caso contrário, quando essas divergências surgem de repente e às vésperas de uma nova eleição, fica parecendo oportunismo.

Assim, por exemplo, quando Eunício afirma que é possível resolver a crise na segurança pública, é preciso lembrar que o conceito reciprocidade em alianças governistas não se resume à distribuição de cargos ou de apoios eleitorais, mas também no compartilhamento de responsabilidades, no que diz respeito ao conjunto da obra. Se a gestão acerta, acertam todos, se falha, falham igualmente todos.

Nessa situação de fiel ex-aliado, a credibilidade de eventuais críticas precisa do apoio de um devido mea culpa. Afinal, acertos e erros devem ser repartidos entre os que endossaram as mesmas promessas. Nada pessoal. É só  uma mera questão de reciprocidade.