Abril 2014 - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

Abril 2014

Justiça do Ceará tem ponto facultativo em véspera de feriado

Por Wanfil em Judiciário

30 de Abril de 2014

Nesta quarta-feira os servidores do Tribunal de Justiça do Ceará só trabalham se quiserem. É que presidente do Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE), desembargador Luiz Gerardo de Pontes Brígido, declarou ponto facultativo, conforme consta na na Portaria nº 819/2014 (ver mais no site do TJCE).

Geralmente, no serviço público, que custa caro ao contribuinte mas não tem dono, esses pontos facultativos acontecem após um feriado, para emendar e fazer um feriadão. Por exemplo: nesta quinta-feira, 1º de Maio, é feriado, em comemoração ao Dia do Trabalho. Bastaria decretar ponto facultativo na sexta, para que todos pudessem ter um descanso bacana, de quatro dias. Isso é o de praxe na tradição cartorial brasileira. Há casos de ponto antes de feriado, mas quando estes caem na terça, e não na quinta. De resto, podem ocorrer imprevistos que determinem que algo assim não seja mais do que uma conveniência, mas são raros.

Segundo o TJCE, a medida leva em consideração uma manifestação programada pelos Sindicatos dos Servidores do Poder Judiciário do Ceará (SindJustiça-CE) e dos Oficiais de Justiça (Sindojus-CE), junto com outras entidades, como o Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil, dos Rodoviários, dos Policiais Civis e dos Trabalhadores da UFC.

Em nota, a Presidência do órgão afirma que é seu dever preservar a segurança de magistrados, servidores, advogados e procuradores. Nesse caso, o melhor seria chamar a Tropa de Choque para garantir o atendimento ao público. Imagino também que a manifestação teria maior carga simbólica se realizada justamente no Dia do Trabalho, com sindicalistas abdicando do feriado em nome daquilo que acreditam.

Não obstante a prudência do TJCE e as pautas de reivindicações desses servidores, o fato é que nessa peleja política, o maior prejudicado é quem precisa dos serviços da Justiça. Questões que lidam com o patrimônio e a honra das pessoas, ficam para o próximo dia útil. Alguém acredita que tudo funcionará normalmente da sexta? Melhor esperar para a próxima semana.

Pensam em tudo. Autoridades e manifestantes priorizam suas agendas, interesses e conveniências. É a cultura do desrespeito ao cidadão. O judiciário cearense, segundo o Conselho Nacional de Justiça, é um dos mais lentos do país e suspeitas de corrupção mancham a sua imagem. Mas deixa estar… Depois do feriadão, quem sabe, todos voltam ao trabalho.

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Cid, Eunício e Domingos Filho juntos: aliança ressuscitada ou jogo de cena?

Por Wanfil em Eleições 2014

28 de Abril de 2014

O exercício da política como espetáculo é uma atividade carregada de simbolismos. Seus profissionais capricham nas reticências. O que é dito e o deixou de ser dito, as fotos, os eventos, as amizades, tudo acaba objeto de avaliação.

Partindo dessa premissa, e lembrando que nada é por acaso, reparem nas duas fotos que seguem abaixo, feitas sábado (26), no aniversário do deputado estadual Domingos Neto (Pros), em Tauá. Na primeira, vejam quanta amizade fraternal.

Cid Gomes cumprimenta Eunício Oliveira: aliados à beira de um racha. Foto: Facebook/Eunício Oliveira.

Domingos (centro), ao lado de Eunício e Cid. Foto: Facebook/Eunício Oliveira.

 

Quem vê, pensa: no Ceará, a turma do Pros convive em harmonia com o PMDB. Assim, o anfitrião e vice-governador Domingos Filho (Pros), posa ao centro ao lado do senador peemedebista Eunício Oliveira (de branco), tendo, mais à direita, a companhia do governador Cid Gomes (Pros). Ao fundo, olhando de soslaio, aparecem o senador Inácio Arruda (PCdoB) e o vice-prefeito de Fortaleza, Gaudêncio Lucena (PMDB), sócio de Eunício.

Na imagem, Domingos é o centro gravitacional de atração que reaproxima aliados que andavam distantes. É o poder da articulação do vice, me disse um prefeito ligado a Eunício. Pois é. Nem parece que Cid deixou de renunciar para não entregar o cargo para Domingos, atendendo ao irmão Ciro Gomes, que não compareceu. Muito menos que existe alguma tensão entre Cid e Eunício. Imagem é tudo, dizia uma propaganda de refrigerante. Coisa de marketing… Assim, notem a curiosidade: Inácio aparece na exata posição em que se encontra politicamente: atrás e de escanteio, a esperar pela sorte.

Agora a segunda imagem. 

Cid Eunício

Cid Gomes cumprimenta Eunício Oliveira: aliados à beira de um racha. Foto: Facebook/Eunício Oliveira.


Atenção na imagem. Cid se esforça para mostrar intimidade com Eunício. “Confie em mim”, parece acenar ao aliado em rota de colisão. O governador afirma que não é hora de falar em eleição, que só mais adiante definirá sua decisão sobre quem terá seu apoio na sucessão. Eunício tem pressa e na foto aparenta estar arredio. O corpo fala, dizem por aí. Surpreso, o senador se afasta, compondo involuntariamente uma imagem que combina muito com o ânimo de quem não deseja esperar por ninguém, para não acabar como alguns ex-aliados de Cid, abandonados no meio do caminho aguardando pelo apoio que não veio.

“Cuidado Wanderley, você está vendo coisas demais!” Sim, pode ser. É preciso entender que foi por isso mesmo, para deixar turvo o cenário, que tantos compareceram ao aniversário. Por amor a Domingos Neto é que não foi! Bastou correrem as primeiras notícias e imagens da festa que diversas leituras começaram a circular no mercado da boataria. Será que Cid capitulou e apoiará Eunício? O senador irá recuar da pré-candidatura ao governo estadual para manter palanque único para Dilma no Estado? Ou seria tudo jogo de cena? Ninguém sabe.

O problema desses simbolismos está justamente no caráter dúbio das aparências. Conversei com algumas lideranças partidárias governistas e de oposição no final de semana e a única certeza é que tudo é demasiadamente incerto no Ceará. O clima é de apreensão e, principalmente, de desconfiança generalizada.

Esse quadro pré-eleitoral me fez lembrar de uma outro foto, mais antiga, que mostra como políticos viram atores em frente de câmeras. No início de 2012, Cid Gomes, então no PSB, e a prefeita de Fortaleza Luizianne Lins (PT) na época, acompanharam uma visita de Dilma Rousseff, ocasião em que se deixaram fotografar assim:

Cid e Luizianne em 2012, já próximos de romperem a aliança que os unira. Foto: Kézya Diniz.

Cid e Luizianne em 2012, já próximos de romperem a aliança que os unira. Foto: Kézya Diniz.

 

Meses depois romperam a aliança para lançar, cada um, seu candidato em Fortaleza. Moral da história: quando o assunto é política, especialmente em tempo de eleição, nem tudo é o que se parece ver.

Traição?

Nesse jogo de mensagens cifradas, uma ausência chamou a atenção em Tauá: a do deputado federal José Guimarães, pré-candidato do PT ao Senado. Não teria sido convidado ou, tendo sido, não compareceu de propósito? O petista aguarda uma manifestação pública de Cid ou do Pros sobre o apoio ao seu projeto, mas, até agora, nada. A impressão é que há resistência ao seu nome. Guimarães teria sido rifado? Há um cheiro de fritura no ar…

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Quem muito espera, às vezes alcança, às vezes desespera

Por Wanfil em Eleições 2014

25 de Abril de 2014

No Ceará, exemplos de eleições recentes mostram que esperar demais por matar.

No Ceará, exemplos de eleições recentes mostram que esperar demais pode matar.

Quem espera sempre alcança, diz o ditado popular. A máxima, que enaltece a paciência e o otimismo, não serve de consolo aos partidos da aliança governista no Ceará, imersos em dúvidas e desconfianças que ameaçam rachá-la.

Pros

Enquanto o Pros do governador Cid Gomes deseja empurrar para junho qualquer decisão a respeito de eleições estaduais, PMDB e PT cobram um posicionamento para definirem suas estratégias.

PMDB

O senador Eunício Oliveira, pré-candidato à vaga no Palácio da Abolição, aguarda uma resposta de Cid para saber se o Pros irá com ele ou se lançará candidatura própria. Disse esperar uma resposta até o próximo dia 30. Depois disso, sem o apoio do governador, o PMDB fica livre par articular uma chapa com partidos de oposição. Outra possibilidade que acena no mercado de especulações seria o apio de Eunício à reeleição de Inácio Arruda, do PCdoB.

PSDB e PR

PSDB e PR esperam por uma candidatura de Tasso Jereissati ao Senado, alvo de muita especulação e nenhuma certeza. Se Tasso disputar, as legendas caminham juntas; se não, o PSDB segue sozinho para garantir o palanque do presidenciável da sigla, o mineiro Aécio Neves. Já o PR deve aderir ao projeto de Eunício. PSDB e PMDB não descartam uma conversa mais adiante, a depender do desenrolar dos fatos. O fato é que a oposição não tem motivos para se adiantar aos aliados de Cid. A pressão, nesse momento, está sobre o governo.

PT

O PT, por sua vez, abre mão de apresentar um nome ao governo estadual, para marchar com a candidatura do deputado federal José Guimarães ao Senado. No entanto, o partido vive dias de tensão. Espera uma manifestação explícita de apoio por parte do governador Cid Gomes, uma vez que o Pros desistiu de lançar Ciro Gomes para o Senado. O silêncio já incomoda e gera expectativas.

Guimarães ainda prefere não cogitar uma possível resistência dos Ferreira Gomes para compor com o Pros, afinal, se hoje o PT não faz oposição a Cid, isso se deve, em grande medida, ao trabalho de articulação de Guimarães. A manutenção da parceria com Cid seria, portanto, um gesto de reconhecimento à lealdade e ao esforço feito pelo petista para manter a aliança, mesmo após o rompimento entre o governador e a ex-prefeita Luizianne Lins. Caso o Pros decline, as consequências são imprevisíveis. Uma delas seria Guimarães cruzar os braços e deixar prosperar a sugestão de Luizianne em favor de uma candidatura do PT ao governo, contra o Pros. Nada certo, por enquanto.

Cobrança

É aquela história: boato é fogo de muita luz e pouco calor. Chama a atenção, mas não tem resultado prático. O problema de um emaranhado desses é que, inevitavelmente, e a história recente da política cearense é repleta de exemplos nesse sentido, alguém acabará esperando por quem não veio. E é por saberem que alguém ficará para trás, que os aliados de Cid cobram definições.

Como diz outro ditado popular: quem muito espera, desespera.

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Afinal, Tasso é ou não é candidato?

Por Wanfil em Eleições 2014

23 de Abril de 2014

A respeito de uma possível candidatura de Tasso Jereissati ao Senado, é preciso prestar atenção nas palavras escolhidas pelo ex-governador na reunião da Executiva Nacional do PSDB em Brasília. Tasso afirmou que se fosse “imprescindível”, poderia sair candidato. A chave para compreender esse enigma, portanto, é o adjetivo “imprescindível”, que pode assumir variados sentidos, a depender de como olhamos o cenário.

Seria imprescindível para garantir um palanque ao candidato do partido à Presidência da República, o mineiro Aécio Neves, ou seria imprescindível a presença de um nome forte nesse palanque, capaz de puxar votos? São situações bem diferentes. No primeiro caso, outro candidato que topasse abrir espaço para Aécio eliminaria a necessidade de uma volta de Tasso. No segundo, pelas pesquisas, ele seria indispensável, mesmo com um palanque garantido.

O fato é que se a possível candidatura do ex-senador não é uma realidade, pois está condicionada a circunstâncias externas, ela altera o jogo da sucessão.

Com o Pros do governador Cid Gomes e o PMDB do senador Eunício Oliveira em rota de colisão no Ceará, e com o PT de José Guimarães condicionando seu apoio a quem lhe ceder a candidatura ao Senado, a entrada de um concorrente de peso, de novo segundo as pesquisas, lança mais incertezas nas projeções eleitorais: com Tasso Jereissati na chapa, o PSDB lançaria candidato próprio ao governo estadual ou apoiaria alguém do PR ou do PMDB? Não há definição. E até que ponto essas possibilidades poderiam forçar um segundo turno? Tudo é incógnita.

A forma como essa história vem sendo conduzida por Tasso guarda coerência com o discurso de que uma volta às disputas eleitorais seria concessão a um apelo do PSDB nacional, para dar competitividade ao nome de Aécio no Ceará, contrariando seu desejo pessoal de permanecer afastado da vida pública. Acreditando-se ou não nessa versão, o elemento novo aí é que o líder do PSDB cearense deixou aberta a possibilidade de vir a concorrer em outubro.

Aí você, caro amigo, me pergunta: afinal, Tasso será candidato ou não? E eu respondo: sinceramente, acho que nem ele sabe ainda.

Esse é o texto base de minha coluna desta quarta-feira na Tribuna Band News FM 101,7.

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Vice serve pra quê?

Por Wanfil em Política

21 de Abril de 2014

Sou de uma geração que cresceu, em termos políticos, marcada pela figura do vice. Logo de cara, a volta ao regime democrático foi festejada com a eleição de Tancredo Neves (ainda que de forma indireta), seguida do drama de sua doença e morte. Em seu lugar, assumiu o vice… José Sarney. E a esperança acabou com a decepção do Plano Cruzado. Um trauma. Depois disso, fiquei desconfiado.

Assim, quando Collor sofreu o impeachment, Itamar Franco surgiu e deu início ao Plano Real, junto com Fernando Henrique Cardoso, cujas bases macroeconômicas são mantidas até hoje. Vinte anos depois, o remédio para o repique inflacionário de Dilma será aumento de juros. Se Itamar acertou aí, no resto não tinha liderança própria.

No Ceará, nessa época, quando Ciro Gomes foi assumir o ministério da Fazenda, durante o governo Itamar, Juraci Magalhães assumiu a Prefeitura de Fortaleza, mandando no pedaço enquanto teve saúde.

Isso foi na época em que vice tinha alguma utilidade. Agora… É diferente. O sujeito pode sair do país e permanecer conectado. Tem o celular… Videoconferências… O vice ficou obsoleto e agora, definitivamente, virou mera peça figurativa em chapas eleitorais.

Casos recentes

No Ceará, o vice-governador Domingos Filho, diante do misterioso afastamento do titular Cid Gomes, não aceitou assumir o cargo, dizem, para não ficar inelegível. Antes, um adendo: Oficialmente, o paradeiro e as condições de Cid são desconhecidos. O anúncio que fez pelo Facebook, dizendo que está internado em alguma clínica no Brasil, consternou a muitos, mas não serve como documento. Na prática, tudo é suposição. Voltemos aos vices.

O substituto na Prefeitura de Fortaleza, Gaudêncio Lucena, acabou impedido de assumir porque o titular Roberto Cláudio, mesmo internado para uma cirurgia bariátrica, preferiu não sair. Disse que despacharia de casa. E assim, a cidade ficou uma semana sem prefeito. Na verdade, todos sabem o motivo para esse constrangimento: é que Gaudêncio é sócio do senador Eunício Oliveira (PMDB), que está em vias de romper com Cid, padrinho político do prefeito, por motivos eleitorais.

Agora, tanto o vice-governador do Estado como o vice-prefeito da capital possuem estruturas administrativas caríssimas à disposição de cada um. Ambos recebem, mensalmente, um belo salário pago pelos contribuintes, para caso de eventual necessidade. Se essa necessidade surge e ninguém pode, por um motivo ou outro, exercer o papel que lhes caberia, de que serve então essa figura?

Desconfiança mútua

Esses episódios revelam como funcionam as alianças políticas vigentes no Ceará. Não existe essa história de sintonia programática ou de compartilhamento de valores: existe somente o cálculo eleitoreiro em busca de tempo de televisão e controle de currais eleitorais, onde os interesses particulares pairam acima do interesse público. Por isso não confiam um no outro.

E nas eleições de outubro eles estarão aí de volta, titulares e vices, juntinhos em cartazes e santinhos, sorridentes sobre as letras de algum slogan bacana, para pedir, mais uma vez, o seu voto de confiança.

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Por que o jornalista dinamarquês virou notícia?

Por Wanfil em Crônica

17 de Abril de 2014

Laurence Olivier como o dinamarquês Hammlet: Ser ou não Ser?

Laurence Olivier como o príncipe dinamarquês Hammlet: Ser ou não Ser?

Muitos amigos e leitores me perguntam sobre o que achei da imensa repercussão no caso da matéria com o jornalista dinamarquês Mikkel Keldorf Jensen, publicada em primeira mão pela Tribuna do Ceará, que afirma ter desistido de cobrir a Copa do Mundo no Brasil por estar horrorizado com a violência e a corrupção no país e, em especial, em Fortaleza, a mais perigosa das sedes dos jogos, segundo a ONU.

Puxando pela memória, os poucos dinamarqueses de quem consigo lembrar são o diretor de cinema Lars Von Trier (Dogville), e o escritor Hans Christian Andersen (O Patinho Feio). Mas o único cuja história realmente me interessa é o príncipe Hamlet – o maravilhoso personagem da peça homônima escrita por Shakespeare -, famoso, entre outras, por essas duas falas: “Há algo de podre no reino da Dinamarca” (Ato I, Cena IV); e “Há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio, do que sonha a tua filosofia” (Ato I, Cena V, sem o adjetivo ‘vã’ inserido em algumas traduções: There are more things in heaven and earth, Horatio, Than are dreamt of in your philosophy).

Já o dinamarquês que denuncia a violência e corrupção no Brasil (alguma novidade?) é (ou era) um desconhecido e não atua em veículos de grande importância. Como então conseguiu mobilizar tanta atenção? Pelo que vi, Mikkel Jensen não escreveu para os brasileiros, mas para seus compatriotas. Ocorre que, de algum modo, foram os brasileiros que se deixaram tocar pelo “gringo”. Uns concordam, outros o criticam, mas poucos ficam indiferentes ao caso. Histórias de faxinas improvisadas para causar boa impressão a turistas também foram publicadas por ocasião das Olimpíadas de Pequim e da Copa na África do Sul. A novidade agora é que, segundo Jansen, no Brasil, crianças de rua estariam sendo mortas para esconder a miséria dos visitantes. Não há provas. Nem fotos, nem depoimentos. O que existe é um relato pessoal, em primeira pessoa, e a promessa de um documentário.

Como algo assim ganha a proporção que ganhou, virando notícia em todo o país, ensejando debates e polêmicas? Simples: por associação de verossimilhança. O dinamarquês diz: “Há algo de podre no Brasil”. E nós, brasileiros, cientes disso, endossamos: “Sim!”, sem buscar mais detalhes, porque o cotidiano nos basta para concluir o mesmo. E isso diz muito sobre quem somos, ou melhor, sobre o que vivemos. Quantos de nós, em diálogos despretensiosos, não ouvimos ou dizemos: “Se eu pudesse, iria embora”? Quantos não vimos na conversa de Jansen, nesse “saí por causa da violência”, a expressão de um desejo, ainda que seja um desejo meramente retórico?

Na ficção, Hamlet era passional e confrontava a racionalidade de Horácio, o estudante de filosofia. No Brasil contemporâneo, vivemos, com boa dose de razão, um estado de exacerbação que alimenta sentimentos negativos, tal e qual o dinamarquês de Shakespeare.

Particularmente, não acredito que crianças estejam sendo assassinadas por grupos de extermínio só para não ferir a suscetibilidade de turistas. Faço, entretanto, uma ressalva: se não acredito nessa motivação, infelizmente desconfio que tais crimes aconteçam por outras razões, que vão desde a disputa por territórios do tráfico até o justiçamento financiado por vítimas de gangues juvenis. Quem duvida? Basta ver as estatísticas.

Enquanto isso, a Secretaria de Segurança do Ceará prefere fingir que a história, ainda que estranha, prospera por acaso, sem conexão com o mundo real, e não por estar imersa no contexto de medo e criminalidade recordes em Fortaleza e no Brasil. Não percebe que existem mais coisas entre a violência e a sensação de violência no Ceará, do que supõe o discurso oficial.

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O que não dá pra disfarçar é a insegurança

Por Wanfil em Segurança

11 de Abril de 2014

O governo do Estado lançou na quinta-feira (10) o Programa em Defesa da Vida, que já vinha funcionando em “caráter experimental” desde janeiro. É o conjunto de ações implementadas pelo secretário Servilho Paiva, importado de Pernambuco para tentar estancar a sangria nos índices de violência no Ceará, com destaque para divisão do Estado em 18 áreas de segurança e a remuneração extra para policiais que alcançarem as metas estabelecidas.

Na ocasião, o governador Cid Gomes afirmou, em tom de desabafo, que gostaria de andar disfarçado para ver como funciona a criminalidade. Trata-se, claro, de uma figura de linguagem que não deve ser levada ao pé da letra. Na verdade, o desejo aí expressado é uma forma oblíqua de dizer que a complexidade da insegurança ultrapassa a efetividade das ações empreendidas na área até o momento. Indo mais longe um pouco, não deixa de ser um reconhecimento de que a autoridade constituída não sabe o que fazer. Daí a necessidade de um programa em “caráter experimental” lançado no último ano de sua segunda gestão.

A frustração do governador é compreensível. Certamente, ninguém mais do que ele gostaria de acertar o rumo, mas isso não basta, como atestam os números surreais no setor. E com poucos meses restando para o fim do mandato, é praticamente impossível alguma mudança de impacto ainda na a gestão Cid Gomes. Resta tentar estabilizar o quadro e reduzir os danos de imagem aferidos em pesquisas, já que estamos em ano eleitoral.

Consciente disso, o governo busca um novo discurso para amenizar as inevitáveis críticas de opositores de até de aliados. A conversa batida sobre grandes investimentos, apesar de verdadeira, não cola mais, uma vez que os resultados não apareceram. Aliás, soa mesmo como uma confissão de que os recursos não foram bem utilizados. Por isso agora o reforço de argumentação, com o anúncio de novas metodologias baseadas em análises científicas. A prioridade agora é reunir material para os marqueteiros trabalharem.

Só que aí relatórios de organismos internacionais (até a ONU!) teimam em ofuscar o discurso oficial, classificando o Ceará como um do lugares mais perigosos do mundo. Se o governador quisesse mesmo andar disfarçado, isso seria fácil, porém, perigoso. Difícil mesmo é enxergar uma saída até outubro ou até o final da gestão. Se tem algo que não tem como disfarçar de jeito nenhum, é a nossa insegurança.

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A presepada da renúncia que não aconteceu

Por Wanfil em Eleições 2014

05 de Abril de 2014

Cid renunciou a renúncia que poderia ter sido anunciada, mas não foi. Na imprensa, mobilizou atenções; entre aliados, atiçou ambições e medos. Não comoveu o cidadão comum. Sem problemas. É que apesar de tudo ter se dado em razão de projeções eleitoreiras, o destinatário das mensagens encenadas no teatro político, nesse instante, não foi o eleitor, mas a própria comunidade política, seus partidos e lideranças. Os atos públicos, as declarações dúbias, as evasivas e o suspense serviram para dar dramaticidade aos eventos, conferindo ares de verossimilhança às bravatas da hora.

A semana do “pode ser que eu renuncie/não renuncio mais” entra como presepada no rodapé da História do Ceará. Foram dias perdidos para a administração, que agora segue em modo de piloto automático. Algo muito parecido com um reality show, com direito a indiretas, mal estar do governador, arroubos de seu irmão, palpites de parlamentares subalternos, sem que nada de importante fosse realmente discutido.

Projetos pessoais

O Ceará segue ao sabor de projetos pessoais reunidos numa aliança de conveniência entre Pros, PT e PMDB.

O projeto pessoal de Cid Gomes (que na verdade é um projeto de família) necessita, pelas atuais circunstâncias, de alguém de sobrenome diferente, mas suficientemente submisso para não escapar-lhe ao controle. O plano esbarrou no projeto pessoal do vice-governador Domingos Filho, que se negou a renunciar. Por não ser de confiança dos Ferreira Gomes, a desincompatibilização de Cid ficou impedida, sob pena de perder o comando da máquina para Domingos.

O PMDB é representado pelo projeto pessoal do senador Eunício Oliveira, pré-candidato ao governo estadual, e o PT caminha a reboque do projeto pessoal de José Guimarães, que sonha ser senador. Pros e PMDB querem o tempo de propaganda do PT, fiel da balança na rixa entre Cid e Eunício. O problema é que, nesse feudo vermelho, o senhor dos vassalos é Lula.

O futuro político é incerto, o que significa dizer que o ambiente continua favorável para mais confusões inúteis.

Sem rumo

Infelizmente, no jogo da sucessão, buscar propostas de soluções para os problemas que afligem a população não passa de detalhe a ser contornado mais à frente, com promessas bacanas boladas por marqueteiros caros. O importante é tramar em busca do poder.

Nessa toada, desperdiçamos uma boa oportunidade de falar sobre o Ceará. Qual o melhor rumo para desenvolver suas potencialidades? Ninguém diz. Rigor fiscal, atração de investimentos, políticas compensatórias e universalização da educação primária são conquistas antigas, de 15, 20 anos atrás, constantemente rebatizadas e reformadas para serem vendidas como novidades, mas que já dera o que tinham que dar. Qual o próximo passo? Como atrair novos investimentos? Como depender menos do governo federal? Qual o papel estratégico da educação para aprimorar nossa mão de obra?

São questões sem resposta porque nossas lideranças preferem dedicar tempo, dinheiro e energia em presepadas políticas. Para onde quer que eu olhe, vejo apenas presepeiros.

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Sucessão estadual: o poder em polvorosa e a lição de Maquiavel que Cid ignorou

Por Wanfil em Eleições 2014

04 de Abril de 2014

Maquiavel: Seu amigo gostaria de estar no seu lugar? Sim? Então, cuidado com ele.

Maquiavel: Seu amigo gostaria de estar no seu lugar? Sim? Então, cuidado!

O clima político no Ceará é de tensão, desconfiança e incerteza, enquanto todos esperam a definição sobre a renúncia do governador Cid Gomes, em atendimento as exigências da legislação eleitoral, caso deseje disputar um cargo ou abrir caminho para que seu irmão Ciro possa se candidatar ao Senado.

Para se ter uma ideia sobre a intensidade da pressão exercida por aliados, correligionários e apadrinhados (a patota instalada nos órgãos da administração estadual anda aflita sem saber  o dia de amanhã e angustiada com a possibilidade de ser substituída por uma nova turma), Cid Gomes chegou a passar mal durante discurso na inauguração de uma policlínica em Limoeiro do Norte, na noite de quinta-feira (3). Felizmente não foi nada grave e o governador, socorrido de helicóptero para o Hospital Geral de Fortaleza (HGF), recebeu alta ainda na madrugada.

Peço licença para dois breves comentários: 1) não tinha médico na policlínica? 2) ainda bem que não chovia na capital. Já imaginou o teto do HGF desabando com o governador internado? Pronto, volto ao tema central do post: eleições.

Na última hora

É público que Cid desejava terminar o mandato e depois ir para os EUA. Imagina poder fazer um sucessor de sua confiança. Bem ao seu estilo, não preparou nomes e deixou sua indicação para a última hora. Acabou engolido pelas circunstâncias.

Agora, em meio a um festival de especulações de toda ordem, o futuro político do grupo que hoje comanda o Ceará é um tremendo ponto de interrogação, que nem mesmo uma renúncia é capaz de clarear (afinal, os partidos só irão se posicionar oficialmente em junho, nas convenções). 

Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come

Enquanto outros governadores, como Eduardo Campos, em Pernambuco, ou Antonio Anastasia, em Minas, já renunciaram com relativa tranquilidade, mostrando que possuem inequívoco comando na condução desses processos, no Ceará tudo é incógnita e confusão, sinal de que a liderança age reativamente ao sabor de eventos recentes, na base do improviso e do susto.

Por aqui, os donos do poder estão atônitos, emparedados por aliados. Obcecados em sufocar ameaças externas de uma frágil oposição, não deram a devida importância ao perigo interno representado pelo senador Eunício Oliveira (favorito nas pesquisas) e pelo vice-governador Domingos Filhos (um não cidista que assume o governo caso Cid renuncie).

Maquiavel

No clássico O Príncipe, Nicolau Maquiavel ensinava (citode memória – faz tempo que li…) que o rei deve avaliar até mesmo o mais querido amigo com a seguinte indagação íntima: “Ele gostaria de estar no meu lugar”?  Se o rei, pensando com os próprios botões, entendesse que sim (o amigo sempre negaria e juraria lealdade, claro), seria então bom tomar cuidado com ele, pois a ambição não conhece limites e não respeita ninguém. Ora, se isso vale para quem é próximo, imagine então para aliados unidos pelos laços do fisiologismo. Deu no que deu.

Não deixa de ser surpreendente esse, digamos, descuido. Se não leram Maquiavel, a Cid e Ciro não falta experiência no assunto, adquirida na atuação em diversos partidos, com inúmeros ex-aliados.

Cid Gomes agora luta desesperadamente para não perder o controle do processo eleitoral. Quem diria.

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Súplica cearense

Por Wanfil em Ceará

02 de Abril de 2014

Três dias de chuva em Fortaleza bastaram para expor a fragilidade de ações preventivas no Ceará diante de seu clima semiárido. De um lado, a seca em todo o Estado, com a população cada vez mais dependente do Bolsa-Família. De outro, uma precipitação de 170 milímetros na capital (considerável, mas nenhum dilúvio, diga-se) fez desmancharem hospitais e alagar túneis.

No Ceará, no ano de 2014, um coro silencioso que vai do mais simples sertanejo até as mais graduadas e imponentes autoridades, remete à sina dos antigos retirantes nordestinos que na fé religiosa depositavam a esperança de uma graça ou o perdão dos pecados, como na famosa canção Súplica Cearense, gravada em 1960:

Oh! Deus, perdoe este pobre coitado
Que de joelhos rezou um bocado
Pedindo pra chuva cair sem parar

Oh! Deus, será que o senhor se zangou
E só por isso o sol arretirou
Fazendo cair toda a chuva que há

Questão de fé

Passados 54 anos, os cearenses voltaram à mesma condição, obrigados a olhar para o céu e rezar, esperando por Deus. Não estou aqui desmerecendo o valor da fé, de jeito nenhum! Na verdade, recorro a uma passagem de Jesus para colocar as coisas em seus devidos lugares: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.

Com o conhecimento adquirido pelo homem, no uso da inteligência e do livre arbítrio com os quais Deus o presenteou, os fenômenos da chuva e da estiagem não podem mais ser vistos como bênção ou castigo, meros caprichos ou acidentes que fogem à divina perfeição das leis naturais. Cabe a César, ou aos homens, especialmente aos governantes, conduzir o esforço necessário para convivermos bem com as condições e especificidades da natureza em nossa região.

Isso já é possível. O Ceará possui boas reservas hídricas, mas ainda não conseguiu concluir a interligação desses pontos. A transposição do Rio São Francisco, que deveria ter ficado pronta em 2010, se arrasta aos trancos e barrancos, com apenas metade pronta, pelo dobro do preço previsto inicialmente. Existe tecnologia e recursos, falta competência.

Parece agilidade, mas não é

Recentemente o governador Cid Gomes anunciou que adutoras emergenciais serão feitas para evitar o colapso no abastecimento d’água de alguns municípios. E agora, por causa das chuvas em Fortaleza, a secretaria estadual da Saúde providenciou, em menos de 36 horas, o reparo do teto do HGF, que desabou sobre leitos de pacientes em estado grave. Já o prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio, criou um comitê para especial para acompanhar tudo.

São iniciativas importantes, sem dúvida, que até dão a impressão de agilidade, mas que devem ser vistas pelo que são: paliativos, remédios que aliviam os sintomas, mas que não curam a doença.

Nova súplica

Esses casos são apenas mais algumas amostras de uma concepção administrativa que está na moda no Brasil e no Ceará: as gestões esperam os desastres acontecerem e os problemas se agravarem, para só depois e às pressas (o que implica maiores custos), fazerem o que deveria ter sido feito antes, com calma e mais critério. Atrasadas, agem de uma hora para a outra, sem que nada as impeça. Na bonança, reclamam da burocracia, dos órgãos de fiscalização, do orçamento ou da Lei de Licitações. Na desgraça, sabem agir rápido para conter danos de imagem, especialmente em ano eleitoral.

No fim, a súplica cearense do Século 21 não pode ser a mesma dos anos 60 do século passado. Agora, o que falta mesmo é política pública de qualidade.

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Súplica cearense

Por Wanfil em Ceará

02 de Abril de 2014

Três dias de chuva em Fortaleza bastaram para expor a fragilidade de ações preventivas no Ceará diante de seu clima semiárido. De um lado, a seca em todo o Estado, com a população cada vez mais dependente do Bolsa-Família. De outro, uma precipitação de 170 milímetros na capital (considerável, mas nenhum dilúvio, diga-se) fez desmancharem hospitais e alagar túneis.

No Ceará, no ano de 2014, um coro silencioso que vai do mais simples sertanejo até as mais graduadas e imponentes autoridades, remete à sina dos antigos retirantes nordestinos que na fé religiosa depositavam a esperança de uma graça ou o perdão dos pecados, como na famosa canção Súplica Cearense, gravada em 1960:

Oh! Deus, perdoe este pobre coitado
Que de joelhos rezou um bocado
Pedindo pra chuva cair sem parar

Oh! Deus, será que o senhor se zangou
E só por isso o sol arretirou
Fazendo cair toda a chuva que há

Questão de fé

Passados 54 anos, os cearenses voltaram à mesma condição, obrigados a olhar para o céu e rezar, esperando por Deus. Não estou aqui desmerecendo o valor da fé, de jeito nenhum! Na verdade, recorro a uma passagem de Jesus para colocar as coisas em seus devidos lugares: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.

Com o conhecimento adquirido pelo homem, no uso da inteligência e do livre arbítrio com os quais Deus o presenteou, os fenômenos da chuva e da estiagem não podem mais ser vistos como bênção ou castigo, meros caprichos ou acidentes que fogem à divina perfeição das leis naturais. Cabe a César, ou aos homens, especialmente aos governantes, conduzir o esforço necessário para convivermos bem com as condições e especificidades da natureza em nossa região.

Isso já é possível. O Ceará possui boas reservas hídricas, mas ainda não conseguiu concluir a interligação desses pontos. A transposição do Rio São Francisco, que deveria ter ficado pronta em 2010, se arrasta aos trancos e barrancos, com apenas metade pronta, pelo dobro do preço previsto inicialmente. Existe tecnologia e recursos, falta competência.

Parece agilidade, mas não é

Recentemente o governador Cid Gomes anunciou que adutoras emergenciais serão feitas para evitar o colapso no abastecimento d’água de alguns municípios. E agora, por causa das chuvas em Fortaleza, a secretaria estadual da Saúde providenciou, em menos de 36 horas, o reparo do teto do HGF, que desabou sobre leitos de pacientes em estado grave. Já o prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio, criou um comitê para especial para acompanhar tudo.

São iniciativas importantes, sem dúvida, que até dão a impressão de agilidade, mas que devem ser vistas pelo que são: paliativos, remédios que aliviam os sintomas, mas que não curam a doença.

Nova súplica

Esses casos são apenas mais algumas amostras de uma concepção administrativa que está na moda no Brasil e no Ceará: as gestões esperam os desastres acontecerem e os problemas se agravarem, para só depois e às pressas (o que implica maiores custos), fazerem o que deveria ter sido feito antes, com calma e mais critério. Atrasadas, agem de uma hora para a outra, sem que nada as impeça. Na bonança, reclamam da burocracia, dos órgãos de fiscalização, do orçamento ou da Lei de Licitações. Na desgraça, sabem agir rápido para conter danos de imagem, especialmente em ano eleitoral.

No fim, a súplica cearense do Século 21 não pode ser a mesma dos anos 60 do século passado. Agora, o que falta mesmo é política pública de qualidade.