Março 2014 - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

Março 2014

Depois da chuva: entrevistas imaginárias sobre dramas reais

Por Wanfil em Ceará

31 de Março de 2014

Parte do Hospital Geral de Fortaleza destruída por uma chuva. Nada muda.

Parte do Hospital Geral de Fortaleza destruída por uma chuva. Nada muda.

No livro A Cabra Vadia, Nelson Rodrigues publicou, em 1968, uma crônica com entrevistas imaginárias feitas com figuras importantes num terreno baldio, que tinham por única testemunha uma cabra.

De certa forma, Rodrigues fez uma espécie de “jornalismo fantástico”, onde a fantasia dos diálogos fictícios desnudava as desgastadas respostas padronizadas do famoso entrevistado. O tempo passa e o que sempre me chama a atenção é a imutabilidade dessa propensão de políticos às respostas previsíveis, só para fazer tipo.

Pensando nisso e vendo os problemas causados pela chuva que caiu sobre Fortaleza na madrugada desta segunda (31), pensei como uma simples pergunta seria respondida oficialmente por algumas das nossas principais autoridades:

A pergunta

– O que o senhor faria para evitar casos como o desabamento do teto do Hospital Geral de Fortaleza, a invasão de baratas no Gonzaguinha do José Walter, ou a inundação do túnel do Metrofor no Mondubim?

As respostas

Cid Gomes (PROS), governador do Ceará
– Ah… Se você comparar com gestões anteriores, verá que nunca foram investidos tantos recursos para evitar problemas com chuvas ou com falta de chuvas, pode escolher. Estamos mais bem equipados do que os Estados Unidos em matéria de planejamento contra desastres naturais.

Roberto Cláudio (PROS), prefeito de Fortaleza
– Primeiramente, vamos fazer um viaduto no lugar do túnel. E fazer uma discussão com a sociedade civil para ver como fazer com os hospitais. Vou pessoalmente acompanhar essa questão.

Eunício Oliveira (PMDB), senador
– Pela minha proximidade com a presidenta Dilma, eu conversaria junto com os demais partidos da base governista no Ceará, para conseguir mais recursos e resolver o problema até o período das eleições, deixando bem claro que ainda não é hora de falar em eleições.

Zezinho Albuquerque (PROS), presidente da Assembleia Legislativa
– Eu faria uma campanha de conscientização em todo o Estado explicando a importância de evitarmos inundações.

Luizianne Lins (PT), ex-prefeita de Fortaleza
– Eu investiria todos os recursos que deixei para o meu sucessor.

Ciro Gomes (PROS), secretário de Saúde do Ceará
– Isso tudo [as denúncias] é coisa de gente movida pelo ódio. Essas filmagens foram feitas por médicos. Por que não retiraram os pacientes antes?

Roberto Pessoa (PR), ex-prefeito de Maracanaú
– Primeiro eu conferiria uns emails ali.

João Alfredo (PSOL), vereador de Fortaleza
– Eu impediria a especulação imobiliária fundada no axioma capitalista que deseja lucrar com os espaços coletivos, financiando gestões que não respeitam a cidade.

José Guimarães (PT), deputado federal
– É preciso ter muita calma antes de sair acusando as pessoas. A quem interessa o sofrimento dos pacientes? Ao governo que não é. Portanto, nós do PT estamos aqui para apoiar medidas construtivas.

Heitor Férrer (PDT), deputado estadual
– Eu faria um auditoria. Quantos milhões dos contribuintes cearenses não foram gastos em reformas de hospitais que agora não resistem a uma chuva?

Fernando Hugo (SDD), deputado estadual
– Eu continuaria a confiar no governo do Estado. Não serão esses percalços diluvianos de magnitude bíblicas que irão abalar minha confiança no trabalho hercúleo feito até agora. Da minha boca jamais sairão manifestações labiofonéticas de pessimismo agourento.

Esses nomes me vieram à mente. Será que esqueci alguém que mereceria uma entrevista imaginária?

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O golpe de 31 de março de 64: para fugir da guerra de versões

Por Wanfil em História

31 de Março de 2014

Um breve comentário sobre os 50 anos do Golpe de 64, completados neste 31 de março de 2014.

Boa parte das reportagens que vi nos grandes veículos limitaram-se a reproduzir lugares comuns e mistificações. Na disputa pelo espólio da História, militares e simpatizantes alegam que salvaram o país de uma possível ditadura comunista. Por outro lado, revolucionários de esquerda, uma vez impedidos de instalar no Brasil um regime comunista, afirmam que lutavam pela democracia. Em comum, ambos se valem da mesma contradição: em nome da liberdade, defendiam regimes de força que eram, em si mesmos, a negação da liberdade. Leia mais

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Dilma despenca e oposição cria CPI da Petrobras: bom para Eunício e ruim para Cid

Por Wanfil em Ao leitor

28 de Março de 2014

Amigos, por razão de viagem, ficarei sem postar até a próxima segunda, quando volto para falar a respeito da novela “Cid e Eunício na sucessão estadual”. Adianto apenas que ninguém é de ninguém até junho, quando serão feitas as convenções partidárias. E, só para lembrar, a CPI da Petrobras aprovada no Senado enfraquece o PT e fortalece o PMDB, que passa a ser o fiel da balança para blindar Dilma. Dito de outra forma: onde for obrigado a escolher entre o PROS e o PMDB, o PT ficará com o segundo, que é sua proteção na CPI. Já o PROS não é nada. Sigla de aluguel sem expressão. Portanto, entre o projeto de Eunício Oliveira e o dos Ferreira Gomes, Dilma estará forçada a não desagradar a cúpula peemedebista. Como dizia Nelson Rodrigues, não se faz política e futebol só com bons sentimentos.

Além disso, o governo Dilma também despencou nas pesquisas, o que reduz o peso de seu apoio pessoal a candidatos regionais. Segundo o Ibope, em levantamento divulgado na quinta, entre março de 2013 e março de 2014, a aprovação ao governo federal caiu de 63% para 36%. Queda livre. Só para efeito de comparação, quando Lula disputou a reeleição (definida no segundo turno), seu governo tinha, faltando sete meses para a disputa, 75% de aprovação. Do jeito que a coisa vai, os candidatos aos governos estaduais precisam calcular bem os riscos de vinculação de imagem com Dilma. Dito de outra forma: adversários e aliados que pretendem lançar candidaturas sem as bênçãos do Planalto estão mais animados.

O ambiente econômico nacional deteriorou e o Brasil foi rebaixado por agências internacionais. No empresariado, inclusive aqui no Ceará, há muita desconfiança e boatos de fuga de capitais. O crescimento é pequeno e a inflação está aí. Bancos anunciam ais investidores sobre a necessidade de um intenso ajuste fiscal em 2015 nas contas públicas.

Como a oposição é fraca em todos os níveis, resta concluir que as alianças governistas têm como maiores adversários suas próprias vicissitudes. Na raiz de todo o desgosto e instabilidade dessas relações estão os nossos velhos conhecidos: o clientelismo e o fisiologismo, os melhores caminhos para a incompetência administrativa.

É isso. Abraço e até segunda.

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Terra sem lei: morticínio no Ceará ultrapassa muito tragédias da Malaysia Airlines e Boate Kiss

Por Wanfil em Segurança

25 de Março de 2014

O Ceará está de joelhos, rendido, humilhado, sem forças, pasmo, frouxo, lerdo, atônito e inerte diante da brutal escalada do crime em seu território. Somente em 2014, já foram registrados algo em torno de 800 assassinatos em Fortaleza e região metropolitana. Isso equivale aproximadamente a 3,3 incêndios da Boate Kiss (242 mortos), que causou comoção e indignação nacional no início de 2013; ou ao mesmo número de acidentes como o do avião da Malaysia Airlines (239 passageiros), que desde o início de março deste ano mobiliza atenções do mundo inteiro.

Outro caso de grande repercussão nacional foi a onda de execuções de detentos que em um ano fez 62 vítimas no Complexo Penitenciário de Pedrinhas, no Maranhão, entre 2013 e 2014. A Procuradoria Geral da República cogitou pedir intervenção federal lá, como já havia feito em Rondônia, em 2008, por violação dos direitos humanos. No entanto, a governadora Roseana Sarney (PMDB), com a proteção política do Planalto, conseguiu contornar a situação ao apresentar um plano emergencial.

O morticínio verificado nas ruas da Grande Fortaleza nos três primeiros meses deste ano corresponde a 12,5 anos de execuções em Pedrinhas. Trata-se, com efeito, de um grave atentado contra os direitos humanos, principalmente por ser ação rotineira e de grande escala.

Tragédias do cotidiano

Existem as tragédias que chocam por quebrarem a rotina e existem as tragédias que estão inseridas na rotina. Esse é o caso da insegurança no Ceará. O desastre no Ceará não causa clamor nacional porque é diluída no dia a dia. Sem barreiras, a violência cresceu de modo que não pode mais ser disfarçada ou negada. Seja qual for a fonte escolhida, boletins da Secretaria de Segurança do Ceará, o Mapa da Violência do Instituto Sangari ou o relatório da ONG mexicana Conselho Cidadão para a Segurança Pública e Justiça Penal (que aponta Fortaleza como a 7ª cidade mais violenta do mundo), a realidade incontornável é que os homicídios cresceram e avançam assustadoramente no Ceará.

Urgência

Já não se trata mais de discutir as causas desse fenômeno ou de procurar culpados. Isso é importante, mas a situação se degradou de tal forma, que a questão agora é saber como debelar essa onda no curto prazo, estancar a sangria. É preciso ser objetivo. Dizer que a gestão Cid Gomes fracassou nessa área, a ponto de ofuscar eventuais méritos em outros setores, não é fazer juízo de valor, é apenas a constatação empírica de uma situação. Nem o governo nega o problema, sob o risco de parecer esquizofrênico. Mais do que isso, na atual administração, seja pelo motivo que for, a coisa desandou de vez.

Do jeito que está, cada dia a mais corresponde a dezenas de vidas perdidas para o crime. Mas, o que fazer? Ainda que Cid renunciasse por conveniências eleitorais, o que prevaleceria é a sua, digamos assim, concepção particular de política pública para a segurança, com investimentos que não geram resultados.

Alternativas

Uma possibilidade é a fazer como no Maranhão: pressão. Muita pressão. Lá, pelo menos, as mortes reduziram de ritmo. Olha a que ponto chegamos. Assim, por que não uma intervenção federal no Ceará? Exagero? Não, senhores, exagero são os índices da criminalidade na Terra do Sol, já chamada por internautas de Terra do Sangue. O Art. 34 do Capítulo VI da Constituição Federal diz:

Art. 34. A União não intervirá nos Estados nem no Distrito Federal, exceto para:
III – pôr termo a grave comprometimento da ordem pública;
VII – assegurar a observância dos seguintes princípios constitucionais:
b) direitos da pessoa humana.

A ordem pública não está comprometida? Ir ao banco é operação de risco elevadíssimo. Andar de ônibus também. Viver na periferia é quase uma condenação à morte. E viver em paz, ou com uma sensação mínima de paz, não é direito da pessoa humana?

Especialista

Não sou especialista em segurança. Se eles existem no Ceará, estão calados. Ninguém cobra o governo. Todos falam genericamente do problema, como se fosse um fenômeno meteorológico e não obra dos homens. Arrisco falar, portanto, na condição de refém da violência. Minha família (mulher e duas crianças) já foi atacada por bandidos no bairro Cidade dos Funcionários, na capital. Fugi recentemente de um arrastão na Igreja das Dunas ao sair de uma missa (crianças deitadas no piso do carro). Vou para o trabalho pelo caminho mais longo, pois o outro é ponto de bandidos. Tenho, como todo morador do Ceará, uma penca de amigos e colegas que foram assaltados. Portanto, sou especialista em andar assustado, vendo perigo em cada esquina, em cada evento, todos os dias.

Que chamem o Exército e a Força de Segurança Nacional, que alguém possa intermediar um acordo entre policiais e o comando da segurança, que mobilizem instituições de fora para cobrar soluções (os fiscalizadores locais parecem indispostos com a possibilidade de melindrar o Executivo estadual), que façam seja lá o que for. O que não dá mais é fingir que não estamos em guerra civil aberta, abandonados, enquanto nossas autoridades se ocupam de conchavos políticos pensando nas próximas eleições.

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Dilma e Cid na Ilha da Fantasia

Por Wanfil em Ceará

20 de Março de 2014

No seriado "Ilha da Fantasia" o truque consistia na doce ilusão de que os problemas não existiam, só as soluções.

Ilha da Fantasia: o paraíso onde os problemas. como mágicas, pareciam não mais existir.

A visita da presidente Dilma Rousseff ao Ceará, nesta quarta-feira (19) – dia de São José! –, foi marcada pelo otimismo desenfreado e pelos anúncios maravilhosos de sempre.

O governador Cid Gomes disse que a construção de adutoras emergenciais de engate rápido feitas com aço importado (ufa!), mostra que o governo estadual agiu de forma preventiva contra a seca, embora a lógica mais elementar sugira que ações de prevenção servem justamente para evitar ações emergenciais. Tivessem ficado prontas antes, as tais adutoras não precisariam agora ser feitas às carreiras, não é? Mas vamos em frente.

Dilma não ficou por baixo, é claro, que chefe é chefe. Entregou algumas máquinas para prefeituras e prometeu verbas, igualzinho ao que já havia feito em abril do ano passado, sem que nada tenha mudado de lá para cá. E “inaugurou” mais um trecho do Eixão das Águas. Não, a obra não foi concluída. Para efeito de comparação, se fosse um prédio, teria sido a inauguração de um andar. Que importa isso? O que vale mesmo é a festa.

No fim, foi tudo supimpa! Os cearenses ficaram sabendo que a seca já não é mais um problema grave e urgente, pois graças aos programas dos governos federal e estadual, não há mais com o que se preocupar. Pelo menos isso é o que o eleitor mais desavisado pode ter entendido ao ouvir discursos tão bacanas. E com tantos seguranças protegendo nossas autoridades, ninguém lembrou que o Ceará se tornou um dos estados mais violentos do Brasil nessa quadra administrada pela parceria Dilma/Cid. Mas esse é outro assunto, deixa pra lá.

Nos momentos de maior ternura, por assim dizer, o presidente da Associação dos Prefeitos e Prefeituras do Ceará, Expedito Leite, empolgado com tantas maravilhas, disse que Cid é o maior gestor da história do Estado. Este retribuiu o elogio com um gracejo, afirmando que realmente é o governador mais alto em estatura física que já houve. E nesse clima de “missão cumprida” e afeto, Dilma disse – sem errar o nome – que o prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio, é a pessoa mais alegre que ela já conhecera.

Fantasy Island

Olha, tanta alegria assim me fez lembrar de um antigo seriado de televisão dos anos 80 chamado “Ilha da Fantasia” (Fantasy Island). Lá, o Sr. Roarke (Ricardo Montalban) e seu amigo Tattoo (Hervé Villachaize) recebiam convidados endinheirados num resort de luxo, onde a ilusão se confundia com a realidade. Mas, mesmo na ficção, no final de cada episódio a realidade sempre prevalecia sobre a ilusão. A moral da história era simples. Todo truque, por mais que dure, um dia acaba.

O Ceará desta quarta-feira mais pareceu uma ilha repleta de soluções do que um Estado em dificuldades, com quase todos os seus municípios em estado de emergência. Ocorre que apesar dos discursos fantasiosos que marcaram a visita presidencial, longe dos palanques e das comitivas, a realidade prevalece implacável: nada pode mudar o fato de que a seca castiga como nunca o Ceará e que Dilma não cumpriu a promessa de concluir a transposição do Rio São Francisco. Pelo contrário! Atrasou a obra como ninguém. O resto é papo furado! E ninguém pode se dizer mais surpreso com a lentidão desse padrão gerencial, pois nem sequer uma reforma no aeroporto de Fortaleza para a Copa do Mundo o governo federal conseguiu fazer.

Nada muda a verdade de que a segurança hídrica do Ceará, ou seja, sua capacidade de armazenamento d’água, da qual se vangloriaram a presidente e o governador, atende mesmo pelo nome de Açude Castanhão, obra feita por gestões passadas.

No mundo real, a turma da Dilma mais uma vez veio ao Ceará dourar a pílula, buscando fazer de atos pequenos, como a entrega de equipamentos agrícolas e cisternas apelidados de kit seca, coisa grandiosa digna de uma estadista. No mundo real, a visita de Dilma mais pareceu campanha eleitoral.

Vergonha agora não é mais acreditar nessa conversa fiada. Vergonha é ainda ter quem se dê ao ridículo de aplaudir a fantasia. Leia mais

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O desafio de criar candidaturas contra a insegurança no Ceará

Por Wanfil em Eleições 2014

18 de Março de 2014

O frisson acerca dos nomes que poderão disputar o governo do Ceará nas eleições de outubro próximo acaba encobrindo uma questão elementar: tão importante quanto o nome é saber qual o perfil ideal para esse candidato. É preciso identificar as demandas do “mercado” para depois oferecer o “produto”, ou seja, saber quais são os problemas que mais mobilizam a opinião pública e a partir dessa informação, moldar discursos e personagens.

Não é chute, é cálculo

Por exemplo: em 2006, a vitoriosa campanha de Cid Gomes tinha o seguinte slogan: “Um grande salto. O Ceará merece”. Como principal promessa, brilhou o “Ronda do Quarteirão”. Esses “produtos” não foram chutes, mas propostas elaboradas a partir da constatação, junto ao eleitorado, de uma insatisfação geral com a segurança pública, e do desejo por um gestor com mais capacidade de ação.

Claro que outros componentes atuaram na eleição, como o racha do PSDB e o apoio do PT ao ex-adversário da família Ferreira Gomes, mas o perfil desejado pelos eleitores é um dado que teve considerável peso nessa equação.

Insegurança: fardo para o governo, oportunidade para a oposição

Passados dois mandatos de Cid, temos hoje a seguinte situação: os índices na área de segurança pública se deterioraram vertiginosamente, apesar dos investimentos feitos, com o Ceará figurando entre os estados mais violentos do Brasil.

Não bastasse isso, a autoridade da gestão no setor foi duramente atingida com a greve dos policiais militares em 2011, quando o governador simplesmente sumiu. Para piorar, o fantasma da inoperância diante de uma crise volta a assombrar o cidadão, com a possibilidade de uma paralisação dos policiais civis durante a Copa do Mundo.

Sendo impossível evitar o tema da insegurança, o governo, presumivelmente, tentará conter o dano mudando o foco do debate eleitoral para outras questões ou apresentando uma versão dourada do problema. Se conseguirá convencer, ou se terá adversários capazes de explorar essa fragilidade, aí é outra conversa.

Quem poderá representar uma solução?

Diante desse cenário, pelo andar da carruagem e pelas especulações da hora, dois tipos de candidatura estão sendo preparadas.

Tem o caso o específico do senador Eunício Oliveira (PMDB), aliado do governo estadual que pretende lançar candidatura própria. Em relação a esse tema, sua estratégia deve contemplar o reconhecimento dos investimentos que foram feitos para, em seguida, lamentar a falta de resultados e, por fim, se apresentar como alguém com mais capacidade de diálogo e mobilização para reverter a situação. Eunício, vale lembrar, é empresário do ramo de segurança privada.

Já o candidato oficial, seja quem for, deverá enfatizar esses investimentos, lembrando é preciso tempo para que os resultados apareçam. Outro caminho será associar o aumento da violência a outros fatores. Não por acaso o deputado Zezinho Albuquerque, atual presidente da AL e um dos pré-candidatos do PROS, tem rodado o Estado fazendo uma campanha inócua contra as drogas, colando sua figura no discurso do governo, pelo qual o crescimento tráfico – resultado direto do deslocamento de quadrilhas do Sudeste para o Nordeste – seria o grande motor do aumento da criminalidade no Ceará. Leia mais

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Bons textos não envelhecem: Ser Poeta – Florbela Espanca

Por Wanfil em Textos escolhidos

17 de Março de 2014

Flor Bela de Alma da Conceição Espanca. OU simplesmente Florbela Espanca. Para arejar o blog.

Flor Bela de Alma da Conceição Espanca. OU simplesmente Florbela Espanca. Para arejar o blog.

Retomo o blog após uma pausa forçada, com mais um post da série “Bons textos não envelhecem”, com a qual, vez por outra, procuro arejar o blog. Lufadas de inteligência para limpar os miasmas da pesada atmosfera dos vícios da política e dos problemas do cotidiano. A vida é mais do que truques e armadilhas, é paixão, é também entrega, é buscar a nossa própria essência individual.

Abaixo, reproduzo um texto da poetisa Florbela Espanca, cujo nome de batismo já era em si uma poesia: Flor Bela de Alma da Conceição Espanca. Portuguesa de vida e texto audaciosos, marcada pelo temperamento depressivo. Apesar dos infortúnios de Florbela (quem não os tem?), aprendi com meu saudoso pai a admirá-la em seu ofício: as letras. Escritora de técnica precisa, mestre das regras e das métricas poéticas, intensa, sonetista como poucos na língua portuguesa. No domínio de sua lira, a mulher foi maior do que as angústias que lhes abreviou a vida (matou-se aos 36 anos, em 1930).

Ser poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim…
é condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

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Um adjetivo para Wanderley Pereira

Por Wanfil em Crônica

10 de Março de 2014

Coluna Política desta segunda-feira, na Tribuna Bandnews 101,7

[haiku url=”http://tribunadoceara.uol.com.br/blogs/wanderley-filho/files/2014/03/POLITICA-WANDERLEY-FILHO_-1003_-UM-ADJETIVO-PARA-WANDERLEY-PEREIRA_209¨.mp3“]

Peço licença a você que me ouve para tratar de outro assunto neste espaço dedicado – como o próprio nome diz – à política.

É que no último sábado o Sistema Jangadeiro perdeu um de seus idealizadores e seu grande entusiasta, o jornalista Wanderley Pereira, que após 71 anos, deixou o mundo material para voltar à sua forma espiritual.

De Wanderley Pereira herdei o nome, o sangue e a paixão pelas palavras. E tive, pela graça de Deus, a satisfação de poder trabalhar com ele aqui, no Sistema Jangadeiro, por cinco anos. Esse é um privilégio que poucas pessoas podem desfrutar: ter na pessoa do pai um amigo e um colega de trabalho que, na verdade, sempre foi uma luz a me guiar. E uma luz rara, preocupada em não ofuscar ninguém, só em clarear caminhos.

Em minhas lembranças de menino, recordo-me das redações do Jornal do Brasil e da revista Veja, onde Wanderley Pereira – que nasceu na pacata Uruburetama, um legítimo pau de arara, como ele se definia – brilhou como um dos grandes jornalistas do Brasil. Dos tempos de Brasília, lembro-me de suas conversas animadas com colegas como Alexandre Garcia, Dora Kramer, Paulo Henrique Amorim, Antônio Brito, José Nêumane Pinto, Elio Gaspari, entre outros.

Trabalhou também com os melhores do Ceará, que de tantos, não arrisco citar nomes para não cometer injustiças, caso esqueça algum.

E apesar desse currículo, Wanderley Pereira era simples. Muito simples. Hoje uso o computador que foi dele aqui na Jangadeiro, a sua segunda casa. Sei que é impossível superá-lo ou mesmo igualá-lo, mas levarei para sempre comigo o seu conselho fraternal: “Meu filho, seja ponderado e tenha cuidado com os adjetivos, muito cuidado com os adjetivos”.

Assim, me despeço de Wanderley Pereira ponderando bem para escolher um adjetivo que lhe faça justiça e ainda expresse minha gratidão por tudo: pai, você foi, simplesmente… extraordinário!

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Vox Populi é voadora de Eunício (PMDB) na pleura de Cid (PROS)

Por Wanfil em Pesquisa

07 de Março de 2014

"Voadora na pleura" - Expressão popularizada no filme Cine Holliúdy. Golpe aplicado em luta do "astista contra co cabra do mal".

“Voadora na pleura” – Expressão popularizada no filme Cine Holliúdy. Golpe aplicado em luta do “astista contra o cabra do mal”.

No filme Cine Holliúdy, do cearense Halder Gomes, alguns personagens usam a expressão “voadora na pleura”, em alusão a golpes de artes marciais, para dizer que determinada pessoa usou toda força (física ou retórica) para derrotar um adversário.

CNT e PMDB: tudo a ver
Pois bem. O instituto Vox Populi fez uma pesquisa eleitoral no Ceará, a pedido da Confederação Nacional dos Transportes (CNT), cujo resultado equivale, no contexto de briga na base aliada no Estado, a um golpe de kung fu desferido pelo PMDB de Eunício Oliveira no PROS de Cid Gomes.

Alguém mais distraído pode perguntar: mas o que o PMDB tem a ver com a pesquisa? Não foi a CNT que a encomendou? Sim, foi. No entanto, a entidade é presidida pelo senador Clésio Andrade, filiado ao… – surpresa! – PMDB de Minas Gerais!

Trata-se, portanto, de um correligionário do senador Eunício Oliveira, pré-candidato do partido no Ceará. Se eu fosse ministro do STF, diria que todas essas ligações não passam de coincidência, mas sendo quem sou, digo que a pesquisa, que custou R$ 112.530,00 e me parece tecnicamente idônea, cabe como uma luva nos interesses do PMDB local. Quando menos, é evidente instrumento de pressão sobre o PROS.

A voadora
Os números do Vox Populi mostram que Eunício cearense parte com larga vantagem em relação aos possíveis candidatos do PROS. E para complicar ainda mais a situação, com requintes de sadismo, mostra a turma do PROS bem atrás da ex-prefeita Luizianne Lins, desafeto pessoal do governador e defensora de uma candidatura própria do PT no Estado. Assim, configuram também munição para atiçar divergências internas no petismo.

No fim, fica difícil para Cid justificar o rompimento com um aliado que lidera com folga as primeiras pesquisas e que demonstra desejo de se candidatar. Afinal, em tese, não estariam unidos por um projeto comum?

Provavelmente o governo vai alegar que prefere um candidato com experiência no Executivo, ou algo assim. E seja quem for o escolhido, o esperado é que suba amparado pelo apoio da máquina, da propaganda eleitoral e parte da estrutura política comandada por Cid Gomes. Mas para o governador, o problema agora é de outra natureza. Sua imagem e sua palavra estão em jogo.

Traições
Cid tem sido acusado por adversários de ter o mal hábito da traição política, qualidade nada atraente para uma liderança. Tanto que já se manifestou em público sobre isso, negando tudo. Luizianne Lins, por exemplo, diz abertamente que o governador teria traído o ex-governador Tasso Jereissati (padrinho político de Ciro e Cid), depois a ela mesma, e que agora trairá Eunício, que apoiou Cid nas duas últimas duas ao governo do Estado. Nos bastidores, gente do PC do B reclama nessa linha sobre a falta de apoio de Cid à reeleição de Inácio Arruda ao Senado.

Traições fazem parte da política, mas quando a prática é contumaz, acaba por isolar o desleal. É aquela história, se a pecha pega, quem confiará nele? Cid diz que quitou todos os acordos com seus ex-aliados. Time que, tudo indica, será reforçado por Eunício.

Voltando ao Cine Holliúdy para encerrar, lembro de outra expressão: “o astista contra o cabra do mal”. É um jeito rudimentar de dizer que a plateia procura discernir entre os mocinhos e os bandidos nos filmes de luta. Nas guerras eleitorais, todo “astista” pode muito bem ser um “cabra da peste”.

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Homicídios no Carnaval do Ceará: desastre anunciado

Por Wanfil em Segurança

05 de Março de 2014

Qualquer festa popular no mundo que acabe com dezenas de pessoas assassinadas é imediatamente classificada, com toda razão, de tragédia, consternando sua população e autoridades. A não ser que isso ocorra em ambientes de degradação da ordem e degeneração quase completa da autoridade constituída, onde o impacto do desastre se dilui no torpor anestesiado de uma sociedade já sem forças para reagir.

No Ceará, a discussão do momento é saber se o número de homicídios no Estado durante o Carnaval foi maior do que o registrado no ano anterior, ou se constitui ou não, uma curva ascendente que destoa dos outros finais de semana. Fala-se em 70 homicídios no período, o governo, reservadamente, nega. O balanço final deve ser divulgado pela Secretaria de Segurança nesta quinta.

Qualquer que sejam esses números, a simples expectativa de que tudo piorou, sentimento que nasce da percepção sensível e da famosa sensação de insegurança, já basta para mostrar que a coisa desandou de vez. Some-se a isso o avanço absurdo dos números da violência no Ceará, para que o quadro pós-carnaval se configure em morticínio anunciado, de certa forma, pela própria dinâmica do crime.

Publico abaixo uma foto que tirei na terça-feira de Carnaval, em Fortaleza, de um outdoor na Avenida Desembargador Gonzaga, no bairro Cidade dos Funcionários, que considero significativa dos dias atuais:

 

Outdoor Sindipol CE - Foto - Wanfil

Outdoor do Sindicato dos Policiais Civis do Ceará. Foto: Wanderley Filho

 

Trata-se de uma campanha movida pelo Sindicato dos Policiais Civis de Carreira do Estado do Ceará, com um retumbante alerta aos cidadãos: CUIDADO! Para dar credibilidade ao recado, a peça se vale do descrédito do governo estadual na área e manda ver: SEIS PESSOAS SÃO ASSALTADAS A CADA HORA NO CEARÁ.

O que esperar de um Estado onde policiais civis e militares vivem a denunciar a violência?

A resposta nos remete ao início do texto: vivemos o ápice de um processo de degeneração. Agora, resta-nos esperar a mórbida contagem oficial dos cadáveres do Carnaval. Restou-nos a contagem fria dos mortos. E resta-nos ainda rezar para que novos gestores apareçam o quanto antes.

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Homicídios no Carnaval do Ceará: desastre anunciado

Por Wanfil em Segurança

05 de Março de 2014

Qualquer festa popular no mundo que acabe com dezenas de pessoas assassinadas é imediatamente classificada, com toda razão, de tragédia, consternando sua população e autoridades. A não ser que isso ocorra em ambientes de degradação da ordem e degeneração quase completa da autoridade constituída, onde o impacto do desastre se dilui no torpor anestesiado de uma sociedade já sem forças para reagir.

No Ceará, a discussão do momento é saber se o número de homicídios no Estado durante o Carnaval foi maior do que o registrado no ano anterior, ou se constitui ou não, uma curva ascendente que destoa dos outros finais de semana. Fala-se em 70 homicídios no período, o governo, reservadamente, nega. O balanço final deve ser divulgado pela Secretaria de Segurança nesta quinta.

Qualquer que sejam esses números, a simples expectativa de que tudo piorou, sentimento que nasce da percepção sensível e da famosa sensação de insegurança, já basta para mostrar que a coisa desandou de vez. Some-se a isso o avanço absurdo dos números da violência no Ceará, para que o quadro pós-carnaval se configure em morticínio anunciado, de certa forma, pela própria dinâmica do crime.

Publico abaixo uma foto que tirei na terça-feira de Carnaval, em Fortaleza, de um outdoor na Avenida Desembargador Gonzaga, no bairro Cidade dos Funcionários, que considero significativa dos dias atuais:

 

Outdoor Sindipol CE - Foto - Wanfil

Outdoor do Sindicato dos Policiais Civis do Ceará. Foto: Wanderley Filho

 

Trata-se de uma campanha movida pelo Sindicato dos Policiais Civis de Carreira do Estado do Ceará, com um retumbante alerta aos cidadãos: CUIDADO! Para dar credibilidade ao recado, a peça se vale do descrédito do governo estadual na área e manda ver: SEIS PESSOAS SÃO ASSALTADAS A CADA HORA NO CEARÁ.

O que esperar de um Estado onde policiais civis e militares vivem a denunciar a violência?

A resposta nos remete ao início do texto: vivemos o ápice de um processo de degeneração. Agora, resta-nos esperar a mórbida contagem oficial dos cadáveres do Carnaval. Restou-nos a contagem fria dos mortos. E resta-nos ainda rezar para que novos gestores apareçam o quanto antes.