Fevereiro 2014 - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

Fevereiro 2014

Notas quase carnavalescas

Por Wanfil em Ceará

28 de Fevereiro de 2014

PIADA DE SALÃO

Delúbio Soares assim profetizou, em 2005: “No futuro, o mensalão vai virar piada de salão”. O que ninguém imaginava era que o salão da piada seria o Supremo Tribunal Federal, palco da manobra jurídica que reduziu as penas de José Dirceu, o próprio Delúbio, José Genoíno e João Paulo Cunha. O porta-bandeira-vermelha no desfile do bloco do jeitinho foi o ministro Luís Roberto Barroso, que chegou para completar a “maioria de circunstância”, expressão utilizada por Joaquim Barbosa para denominar a frente partidária instalada no STF.

CACHAÇA NÃO É ÁGUA

No Ceará, em meio à seca, pegou muito mal a intenção de algumas prefeituras de municípios em situação de emergência, de gastar dinheiro público com festas de Carnaval. Diante da má repercussão e da fiscalização do Tribunal de Contas dos Municípios e do Ministério Público estadual, muitas dessas festas, tradicionais fontes de contratos superfaturados, foram canceladas. Mas outras serão feitas na marra. É que para muitos espertalhões, a gastança com a folia servirá para alimentar, lá adiante, outra festa: a das eleições.

ASA DE ÁGUIA

Um grupo de vereadores da região do Cariri esteve reunido com membros da agremiação unidos da Assembleia Legislativa, para pedir ajuda na reforma de um aeroporto na região. O deputado Zezinho Albuquerque (Pros), presidente da Casa, explicou que apesar de não ter a caneta, irá pleitear junto com o governador Cid Gomes, uma audiência com o ministro da Aviação Civil, Moreira Franco, responsável, vejam só, pelo atraso nos aeroportos para a Copa. Pode ser que não resolva o problema, mas o desfile está garantido.

ETERNOS CONFETES

A Petrobras, na semana que antecedeu o Carnaval, para a alegria da base aliada no Ceará, anunciou nova data para o início das obras da refinaria prometida por Lula e Dilma. Será em… 2018! Esse é o bloco dos aliados, que só desfila em carnavais de ano eleitoral.

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Já que não chove, tome Carnaval!

Por Wanfil em Ceará

26 de Fevereiro de 2014

O Carnaval está chegando, mas a farra deste ano corre o risco de virar escândalo em diversas cidades do Ceará. Uma reportagem do portal Tribuna do Ceará mostra que 176 dos 184 municípios do Estado estão em situação de emergência por causa da grave seca que castiga o semiárido nordestino desde 2012.

O governo estadual já admite que sem medidas de socorro, 10 cidades correm risco iminente de colapso no abastecimento d’água. E mesmo assim, 44 prefeituras pretendem financiar, com dinheiro público, festas de carnaval.

Não vamos ser radicais e dizer que tudo é um absurdo e todos estão errados. Com alguma condescendência, é verdade que alguns municípios realmente conseguem fazer do Carnaval uma oportunidade de incrementar sua economia. Mas é fato que não existem 44 cidades nessa condição. Não no Ceará.

A Tribuna mostrou alguns exemplos. Brejo Santo e Sobral pretendem gastar 260 mil reais cada uma, com os festejos. Santa Quitéria quer torrar 400 mil reais. O caso de Granja é emblemático. A cidade, que tem o 2º pior índice de desenvolvimento humano do Estado e que há dois anos está em situação de emergência, pretende “investir” quase 900 mil reais no Carnaval. Que festa! Teve gente ligada à prefeitura de Granja que não gostou da matéria e, indignada, justificou a disposição para a folia dizendo que ninguém tem culpa se não chove lá.

A questão, claro, não é essa. Existe, pela lógica, grande chance de haver dinheiro público desperdiçado ou desviado em eventos dessa natureza. Tanto é assim que o TCM e o Ministério Público já se anunciaram que irão fiscalizar todos os contratos. No entanto, há também o bom senso e o dever de responsabilidade que a atual situação de emergência exige dos gestores públicos. O momento é crítico, já virando desastre.

Na hora em que o governo estadual corre contra o tempo para construir adutoras emergenciais – buscando assim compensar a própria imprevidência -, é um acinte priorizar festas de carnaval que não darão retorno algum para esses municípios. E se alguns ficam constrangidos com a cobertura da imprensa, é porque, no fundo, sabem que isso é uma irresponsabilidade e um crime contra a população carente de água.

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Quadrilha eleitoral

Por Wanfil em Política

24 de Fevereiro de 2014

O poema Quadrilha, de Carlos Drummond de Andrade, é de uma atualidade e de uma amplitude próprias dos grandes escritores. Em diversas situações podemos fazer alusões e paralelos com o ritmo dos pares que se fazem e se desfazem no texto do poeta:

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

Pedindo desde já perdão por misturar arte com política, especialmente arte de qualidade com política ruim, o poema me fez lembrar as relações estremecidas na imensa base do governo estadual no Ceará. É só trocar o “amor” por “apoio”. Vejamos.

Cid apoiava Luizianne, que apoiava Pimentel, que apoiava Eunício, que apoiava Cid. Juntos, todos apoiavam Lula, que elegeu Dilma, garantindo tratar-se de grande gestora. Cid e Luizianne romperam. Eunício e Pimentel nunca foram mesmo muito próximos e Inácio foi descartado. Cid agora procura um nome que ainda não entrou nessa história.

Na mesma toada, Luizianne avisa que Eunício será traído por Cid. Em resposta, Cid jura que nunca traiu ninguém e sempre cumpriu acordos, que é um modo de dizer que não deve a quem agora lhe cobra.  Guimarães coloca o PT cearense a serviço do candidato que Cid escolher, pois espera, em retribuição, contar com seu apoio para o Senado.

Fisiologismo
O que vale no poema como ponto de apoio para a crônica política é o seguinte: ninguém é de ninguém. Quando um grupo político cresce demais, na base da cooptação, reduzindo assim a oposição a um ou outro nome isolado, a unidade desse grupo passa a correr riscos de implosão quando seu idealizador não pode mais se reeleger, pois o amálgama de sua coesão é o fisiologismo.

Política é assim: sem o perigo da ameaça externa, o caminho que resta para alcançar o poder é a disputa interna. O que está em jogo, para essa turma, é saber quem comandará a banca que distribui cargos e verbas.

Dicionário
No poema, a palavra ‘quadrilha‘ é relacionada à dança caracterizada por grupos de quatro ou mais pares, originária da Europa. O significado de ‘quadrilha’ como  grupo de ladrões ou malfeitores, neste texto, é apenas coincidência.

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Eles votaram contra a redução da maioridade penal

Por Wanfil em Segurança

21 de Fevereiro de 2014

Senadores José Pimentel (PT-CE)) e Inácio Arruda (PCdoB - CE). Fotos: Agência Senado.

Senadores José Pimentel (PT-CE)) e Inácio Arruda (PCdoB – CE). Fotos: Agência Senado.

Por onze votos a oito, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado (CCJ) rejeitou a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 33/2012, que reduz de 18 para 16 anos a maioridade penal em casos de crimes hediondos, tortura, tráfico de drogas e terrorismo. Para os demais crimes continuaria valendo a inimputabilidade penal do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

A decisão foi comemorada por militantes dos direitos humanos.

Bancada cearense
Entre os membros da comissão que foram CONTRA a redução, estão os representantes do Ceará José Pimentel (PT) e Inácio Arruda (PC do B). Para os Excelentíssimos, fica tudo como está: o marmanjo que possui discernimento entre o certo e o errado, que pode votar, estudar e trabalhar, caso cometa um crime e depois ainda o repita reiteradas vezes, será tratado como vítima da sociedade, merecedor das brandas e breves restrições previstas no ECA.

Ônus
Certamente os onze que rejeitaram a proposta o fizeram por convicção. No entanto, ter posição significa, para o bem e para o mal, agradar a uns e desagradar a outros.  Nesse caso, diante da violência que avança e da convocação de adolescentes para o crime (justamente por causa das brechas legais), o risco é grande.

Por aqui, sempre que eleitores cearenses bem informados souberem de um crime hediondo cometido por um sociopata de 16 ou 17 anos, certamente lembrarão que, graças à contribuição de Pimentel e Inácio, os bandidos estarão de volta às ruas em breve, com a certeza de que passarão apenas alguns meses cumprindo medidas socioeducativas ou, como eles mesmos dizem no jargão da malandragem, na “engorda”. Menor não é preso, é apreendido.

Segurança na Copa, insegurança cozinha
Um dia depois da votação da PEC 33/2012, na quinta-feira (20), o governo federal anunciou um corte de 22,5% nos orçamentos de segurança em 2014. Entretanto, manteve a previsão de gastar 1,9 bilhão de reais com segurança destinada à Copa do Mundo, especialmente contra os prováveis protestos que acontecerão.

Fortaleza já é conhecida como uma das cidades mais violentas do mundo. O interior, notadamente nas regiões do Norte e do Nordeste, está entregue à própria sorte. Os presídios se transformaram em centrais de planejamento do crime. Oficialmente, são registrados  no Brasil 50 mil homicídios por ano. Mas o problema, para as autoridades, são os manifestantes (não confundir com os black blocs do PSOL) que protestam contra o desperdício e a corrupção.

Ficamos assim: segurança na Copa e insegurança em nossa própria cozinha, onde a violência, o crime e a impunidade crescem ano após ano. É esse desastre que os líderes governistas no Ceará chamam de aliança vitoriosa.

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‘Coletivo Seguro’ chega com sete anos e sete ônibus incendiados de atraso

Por Wanfil em Segurança

19 de Fevereiro de 2014

Um dos sete ônibus recentemente incendiados em Fortaleza, onde bandidos atacam secretaria e serviço público de transporte. Imagem: Tribuna do Ceará

Um dos ônibus incendiados em Fortaleza, onde bandidos atacam secretaria estadual e o serviço público de transporte. Imagem: Tribuna do Ceará

Entre o último domingo (16) e a terça-feira (18) criminosos promoveram um ataque a balas contra a sede da Secretaria de Justiça e atearam fogo em sete ônibus na capital do Ceará. Ninguém sabe ao certo ainda o motivo para os atentados. Em resposta, foram presos cinco suspeitos e a Secretaria de Segurança deu início a operação Coletivo Seguro.

Desmoralização

De acordo com o secretário Servilho Paiva, nomeado no final do ano passado, os crimes podem estar relacionados a disputas entre traficantes. O que eles ganhariam com isso é impossível dizer. Fica a impressão de que os bandidos estão enviando recados às autoridades ou a outros grupos criminosos. Ou aos dois. Hipótese tanto mais plausível pelo estado de desmoralização do poder público nessa área.

Um dos ônibus foi incendiado nas proximidades do Fórum Clóvis Beviláqua, símbolo do Judiciário. No ano passado, uma testemunha que acabara de prestar depoimento no Fórum foi executada a tiros, no que parece ter sido um acerto de contas. E os disparos contra a Secretaria de Justiça lembram os constantes ataques a delegacias no interior, feitos por quadrilhas de assaltantes de bancos. Ou seja, o crime não teme a Justiça ou o Executivo. Pelo contrário, afronta-os descaradamente.

Atentado é coisa bem diferente de assalto

Servilho Paiva agiu bem ao mostrar que os atentados contra coletivos serão investigados e combatidos, buscando assim impedir que a moda pegue. Mas é bom deixar claro que esses crimes possuem uma natureza distinta dos tradicionais assaltos a ônibus e vans, que segundo números oficiais apresentados pelo secretário, reduziram 39% em Fortaleza, somente em janeiro, repetindo o milagre da redução dos crimes violentos contra o patrimônio, que teriam caído 45%. Nesse ritmo incrível, faço aqui um breve parêntese, daqui a dois meses os assaltos registrados em coletivos terão acabado, por coincidência, bem no ano eleitoral.

Enquanto isso não acontece, volto ao tema central, é bom diferenciar atentados de crimes comuns. Se até o momento não é certo a motivação desses primeiros, o certo é que eles só acontecem em ambientes em que a segurança pública vive avançado estado corrosão. Antes de causar insegurança, são efeitos dela.

Sete anos depois…

Se traficantes pintam e bordam no Ceará, isso é consequência da falta de uma política de segurança eficiente. A ousadia dos criminosos, pois, aumenta à medida que o poder público não consegue contê-los. E assim, o crime agora tenta acuar instituições e serviços públicos, como já fez no Rio de Janeiro.

Por fim, uma observação. Não deixa de ser autoexplicativa a necessidade de se uma operação batizada com o nome Coletivo Seguro, após setes anos de uma gestão eleita justamente com o discurso de promover mais segurança. Mas, como dizem os otimistas, antes tarde do que nunca.

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Diga-me com quem andas…

Por Wanfil em Eleições 2014

17 de Fevereiro de 2014

Acusado pelo Ministério Público Eleitoral de fazer campanha antecipada, Zezinho Albuquerque, presidente da Assembleia Legislativa do Ceará, pré-candidato ao governo estadual pelo PROS, compareceu a mais um evento promovido por órgão do Poder Executivo. Desta vez,pela Prefeitura de Fortaleza, comandada por seu correligionário Roberto Cláudio. Juntos, inauguraram uma UPA, na última sexta-feira (14).

Na ocasião, Zezinho discursou e teceu fartos elogios ao governador Cid Gomes, que em breve poderá decidir quem será o eventual candidato do PROS na disputa pela sucessão ao governo do Estado. A participação do parlamentar no evento tem a gentil divulgação de sua assessoria de imprensa, que para informar a sociedade sobre as ideias e ações dessa liderança emergente, enviou-nos a foto que segue abaixo.

UPA LÁ LÁ

Os bons companheiros: Cid, Carlos Mesquita, Leonelzinho Alencar, Roberto Cláudio, Zezinho Albuquerque, Walter Cavalcante e o ex-professor Evaldo. Foto: divulgação.

 

Pode não ser campanha, mas que parece, parece. Pode não ser palanque, mas que tem cara de palanque, isso tem. Não digo isso apenas pelas devidas semelhanças estéticas. Qualquer inauguração que reúna políticos, a rigor, lembra um palanque. No presente caso, a associação é inevitável e automática por causa das circunstâncias que amplificam o significado do evento: ato custeado com dinheiro público em ano eleitoral, com a presença destacada de pré-candidato, naturalmente levanta suspeições. Que a justiça eleitoral averigue o caso.

Entretanto, para o eleitor, o mais interessante é ver quem é quem nesse jogo. Como diz o ditado, diga-me com quem andas, que te direis quem és. Sendo assim, vamos lá.

Na foto, destacados em vermelho, da esquerda para direita: Cid Gomes (ex-diversos partidos e atualmente PROS), Carlos Mesquita (PMDB, ex-juracista, ex-luiziannista e atual claudista), Leonelzinho Alencar (procurar no Google: Leonelzinho + Bolsa Família + bicicletas + Iprede), Roberto Cláudio (PROS), Zezinho Albuquerque (ex-patrão da Primeira Dama Maria Célia), Walter Cavalcante (PMDB, presidente da Câmara de Fortaleza) e o vereador ex-professor Evaldo (PCdoB, ex-secretário de Esportes de Luizianne e agora líder do governo Roberto Cláudio na Câmara).

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Eleições: Ciro joga ônus de eventual rompimento em Eunício

Por Wanfil em Política

14 de Fevereiro de 2014

Ciro Gomes, atualmente secretário de Saúde do Ceará, disse em entrevista à Tribuna Bandnews FM (101.7), considerar justa a pretensa candidatura do senador Eunício Oliveira (PMDB) ao governo estadual, para em seguida mandar ver a clássica conjunção coordenativa adversativa “agora”, no sentido de “mas”, “contudo”, “porém”. Pois é, sempre tem um “porém” para complicar a história. Assim, reproduzo a oração coordenada que dá sentido estratégico ao raciocínio de Ciro: Agora, nós vamos sentar na mesa (sic) apelando para que o que esteja em jogo não sejam projetos pessoais, nem nosso, nem de ninguém, mas o futuro do Ceará”.

Faço aqui, uma tradução interpretativa dessa sentença política: “O Eunício fez da candidatura um projeto pessoal e por isso não terá o nosso apoio. Portanto, se houver rompimento, a culpa é dele”. Na prática, é o que está dito. Por que raios ele não fala assim logo de uma vez, Wanfil? Ora, porque política é isso, a arte do arrodeio. Entre a imagem de vítima e de carrasco, a primeira é sempre mais simpática aos olhos do público.

Na entrevista, Ciro explicou os critérios pelos quais o PROS tem nada menos do que seis nomes como pré-candidatos ao cargo de Cid: Domingos Filho, Mauro Filho, Leônidas Cristino, Izolda Cela, Zezinho Albuquerque e Roberto Cláudio. Segue a explicação: “Por que eles? Porque são aqueles que têm maior massa de serviços prestados, maior experiência, maior conhecimento da estratégia de desenvolvimento do Ceará, garantia de seriedade de que nenhum deles, ninguém, pode pegar na munheca que não responda muito bem.”

Ficou um pouco confuso no final, mas, evidentemente, uma vez que o PROS não possui dinâmica partidária baseada numa militância genuína, nem sequer mesmo um programa claro, os nomes apresentados são pessoalmente ligados aos irmãos Ciro e Cid. Faço, mais uma vez, a tradução política do que foi dito: onde se lê “garantia de seriedade”, leia-se “garantia de lealdade”. Mais pessoal e menos imparcial, impossível.

Para encerrar, nos bastidores o próprio Eunício não esconde que, na opinião dele, o maior empecilho ao seu inequívoco projeto pessoal de ser governador, é mesmo Ciro Gomes. Cid até toparia, mas Ciro veta. Indagado qual seria o motivo, o senador é incisivo ao dizer que o ex-governador temeria perder espaço. Se isso é verdade ou não, não há tradutor que possa esclarecer. Resta aguardar cenas dos próximos capítulos dessa novelinha.

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Por que o cinegrafista Santiago Andrade virou alvo dos radicais? Quem são os autores intelectuais desse assassinato?

Por Wanfil em Movimentos Sociais

11 de Fevereiro de 2014

Subdesenvolvimento não se improvisa, dizia Nelson Rodrigues. Degradação institucional também não. É preciso tempo e perseverança no erro para descer fundo. A morte do cinegrafista Santiago Andrade, da Rede Bandeirantes, atingido por um rojão durante um protesto contra qualquer coisa, não foi um acidente, nem obra de um ou dois marginais. Foi, antes, uma soma de desacertos. Os autores materiais do crime, apontam as investigações, foram marmanjos brincando de revolucionários, quixotes mimados enfrentando os falsos dragões da ordem burguesa em nome de suas taras ideológicas. Mas são muitos os autores morais e intelectuais desse assassinato, de quem pouco se fala.

Existe, por assim dizer, um ambiente propício para a eclosão de situações dessa natureza, que combina simultaneamente ausência do poder público, desmoralização das instituições e incompetência dos governantes. Ambiente de degradação.

A presidente Dilma Rousseff condenou a morte do cinegrafista e associações profissionais saíram em defesa da liberdade de imprensa. E, no entanto, líderes do Partido dos Trabalhadores, especialmente o ex-presidente Lula, não perdem a oportunidade de criticar o Supremo Tribunal Federal, acusado de ser uma Corte de exceção afeita a julgamentos políticos por ter condenado corruptos filiados à sigla. Justiça degradada. No Ceará, Cid Gomes, líder do Pros, partido de aluguel que abriga sua turma, diz que integrantes do Ministério Público desmoralizam a instituição por fiscalizarem sua gestão, mas, até onde se sabe, não os representa na Justiça por desvio de conduta. Mais degradação institucional. Partidos de esquerda, com apoio de sindicatos de jornalistas, pasmem, não cansam de pedir o controle da imprensa, lançando sobre veículos não alinhados com o governo toda sorte de suspeitas. Tome degradação.

Santiago Andrade não virou alvo por acaso, mas por representar, aos olhos dos baderneiros e de seus mentores, um adversário político. Ali estava a “grande imprensa”, não um trabalhador, pai de família. Suspeito cá com meus botões, constrangido, que se tivesse sido um policial a vítima desse episódio, não haveria indignação como a que se vê agora. Existem categorias institucionalmente mais degradadas do que outras. Muito da justa comoção que toma os noticiários em todo o país não resulta de uma convicção sobre a natureza criminosa dos Black Blocs da vida, mas de um compreensível pesar pelo colega morto e pelo medo de ser o próximo alvo dos radicais.

Recentemente, um deles foi baleado ao atacar um policial com um estilete em São Paulo, apareceu nos jornais como “jovem” e “manifestante”. Em Fortaleza, uma professora Universidade Estadual do Ceará indiciada por participar de um incêndio criminoso contra a sede da Prefeitura de Fortaleza é, na prática, protegida pela instituição de ensino por ela aparelhada. Professora de ética.

Definitivamente, degradação não se improvisa.

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Lobo em pele de cordeiro

Por Wanfil em Corrupção

10 de Fevereiro de 2014

Meu comentário desta segunda na coluna política, da Bandnews FM – 101.7

lobo cordeiro

“Cuidado com os falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas, interiormente, são lobos devoradores” – (Mateus 7:15).

Em palanques, o ex-presidente Lula anda fazendo críticas públicas a ministros do Supremo Tribunal Federal, enquanto defende condenados do PT no julgamento do mensalão. Entres estes está o ex-diretor do Banco do Brasil, o mensaleiro Henrique Pizzolato, foragido preso na Itália por falsidade ideológica. Pizzolato, para se ter uma ideia, é acusado de ter votado nas últimas eleições presidenciais utilizando o título de um irmão morto. O sujeito não dispensa nada.

Aqui no Ceará, na semana passada, o governador Cid Gomes disse que só afastaria um secretário acusado de corrupção depois que o caso estivesse concluído na Justiça, pois o Ministério Público produz, a seu ver, denúncias infundadas. O problema é que assim ele termina cercado de gente investigada, por exemplo, por desvio de verbas públicas no BNB e na Secretaria das Cidades, em casos onde os prejuízos para os contribuintes são indiscutíveis. Como a Justiça é lenta, a gestão acabará antes de uma eventual condenação em qualquer um desses episódios. No fim, com a anuência do chefe, continuam todos perto dos cofres públicos.

Aí fica a dúvida: líderes como Lula e Cid precisam sair em defesa de mensaleiros e de gente envolvida em escândalos comprovados? O que ganham com isso?

Para compreender tamanha solidariedade, é preciso lembrar que esses sujeitos enrolados com a lei não chegaram aos altos cargos da administração pública por conta própria. Nada disso! Eles foram colocados lá por essas lideranças políticas.

A questão então é saber se essas lideranças são ingênuas criaturas enganadas por lobos, ou se os protegem justamente pelo fato de, ao escolhê-los, já saberem perfeitamente se tratar de lobos em pele de cordeiro. No primeiro caso, fica comprovado que o líder é incompetente para escolher sua equipe e otário ao se sujar com a lama de terceiros. No segundo, que é conivente com os desmandos que procura encobrir e esperto para saber que defender o indefensável é, no fundo, ação de autopreservação.

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Faça você também justiça com as próprias mãos: nas urnas!

Por Wanfil em Brasil

07 de Fevereiro de 2014

De uns tempos pra cá, no Brasil, diante da falta de resposta dos poderes públicos para inúmeros problemas, a moda agora é a do protesto violento, eufemisticamente chamado por aí de ativismo. Se um grupo é contra pesquisas com animais, que se quebrem laboratórios; se é contra os transgênicos, que se destruam plantações. E se o sujeito achar que a reforma agrária ainda não foi feita? Ora, é só invadir uma propriedade privada e coitado de quem for obrigado a cumprir uma reintegração de posse. O caseiro fez uma denúncia contra o ministro? É só violar o sigilo bancário dele. Os exemplos são muitos. Basta ter uma causa apresentada em linguagem politicamente correta.

Na verdade, não há diferença conceitual entre grupos de extermínio, Black Blocs, MST, ou a professora de filosofia da UECE que desacatou policiais no Cocó e agora foi indiciada por participação no incêndio criminoso na Prefeitura de Fortaleza: todos querem e agem nome de uma nova ordem, que aos seus olhos, é a mais justa. Variam apenas no grau das ilegalidades que praticam, e ai de quem não concordar.

A ordem e os justiçamentos
Agora assistimos a um debate sobre a ação de “justiceiros” que teriam capturado, espancado e deixado nu, preso a um poste, um adolescente acusado de praticar crimes no Rio de Janeiro. A jornalista Rachel Sherazade, do SBT, fez um comentário dizendo que a ação pode ser compreendida como “legítima defesa” de uma sociedade imersa em inacreditáveis índices de criminalidade. Por ser identificada como uma das porta-vozes da direita brasileira, os progressistas, carentes de alvos agora que são governo, aproveitaram a oportunidade e passaram a criticá-la, não sem razão. Ela pesou o tom. Sherazade é uma espécie de Jair Bolsonaro do jornalismo. Em vez de promover o que deveria ser um pensamento direitista, acaba queimando ainda mais o filme desse ideário pelo exagero com que às vezes aborda temas. Fosse um “rapper” a falar sobre a justiça das ruas, todos deitariam teses sociológicas sobre o negócio.

O fato é que um conservador ou um liberal de verdade se distinguem de ideais revolucionários justamente pela defesa intransigente da legalidade. Apostam em reformas, enquanto os demais acreditam em rupturas violentas. Justiça com as próprias mãos, no sentido de uso da força e da ilegalidade, é o pesadelo do direitista consciente. Só os radicais, por óbvia falta de sensatez e conhecimento de causa, advogam a derrocada da institucionalidade e da autoridade constituída.

Um vídeo divulgado pelo jornal Extra nesta quinta-feira (6) mostrando a execução, em via pública e à luz do dia, de um jovem na Baixada Fluminense, também no Rio, reforçou o alerta contra os chamados “justiçamentos”.

Em defesa do Estado de Direito
Nas redes sociais e portais da internet, os debates opõem a defesa dos direitos humanos contra a necessidade de se fazer algo contra a bandidagem. Poucos falam da ética intrínseca à legalidade, contrária aos julgamentos sumários e arbítrios passionais, por entender que pela própria natureza voluntarista que os anima, esses métodos acabam virando instrumento de perseguição sem distinção. Quem decide o que é crime ou quem é criminoso? Quem determina a pena? Se duas pessoas discordarem sobre algum ponto, quem fará a mediação? Para o legalista, é o Estado de Direito. Se ele é falho, cabe lutar pelo seu aprimoramento, dentro das regras estabelecidas. O parlamento existe para isso. Os tribunais superiores também.

Justiçamentos não são novidade, principalmente em áreas mais pobres das grandes cidades. Na falta de lei, a lei se faz assim, capenga, brutal. Conversava recentemente com um amigo jornalista aqui de Fortaleza, que me revelou o seguinte: sua esposa tem um comércio situado em bairro de periferia. Foi assaltada duas vezes. Depois um traficante da área “ofereceu” serviço de proteção. Evidentemente é caso de extorsão. Mas que vai denunciar algo assim? Os assaltos acabaram… Bandido que ataca comércio protegido por quadrilhas se dá mal. Rotina.

Nas nossas mãos
Os casos que agora chocam a classe média são mais um passo no processo de desmoralização das instituições. Quem ganha com isso? Quem enxerga nelas um obstáculo para o exercício poder. Sempre foi assim. Simples assim. Quem está no poder não se sente impelido a resolver a questão porque conta com esse clima de tensão para vender suas ideias. Em seus discursos, quem atrapalha a vida dos brasileiros é o STF, a imprensa, o Ministério Público, os órgãos de fiscalização e por aí vai.

A única forma real de justiça que um indivíduo pode exercer é justamente a que mais assusta quem tem a obrigação de preservar o aparato legal e institucional da nação: o voto. Esse é o melhor “justiçamento” a ser feito. É lá que esse descontentamento tem força. De resto, qualquer um que defenda ações violentas como forma legítima de reivindicar algo flerta com o perigo e não sabe.

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Faça você também justiça com as próprias mãos: nas urnas!

Por Wanfil em Brasil

07 de Fevereiro de 2014

De uns tempos pra cá, no Brasil, diante da falta de resposta dos poderes públicos para inúmeros problemas, a moda agora é a do protesto violento, eufemisticamente chamado por aí de ativismo. Se um grupo é contra pesquisas com animais, que se quebrem laboratórios; se é contra os transgênicos, que se destruam plantações. E se o sujeito achar que a reforma agrária ainda não foi feita? Ora, é só invadir uma propriedade privada e coitado de quem for obrigado a cumprir uma reintegração de posse. O caseiro fez uma denúncia contra o ministro? É só violar o sigilo bancário dele. Os exemplos são muitos. Basta ter uma causa apresentada em linguagem politicamente correta.

Na verdade, não há diferença conceitual entre grupos de extermínio, Black Blocs, MST, ou a professora de filosofia da UECE que desacatou policiais no Cocó e agora foi indiciada por participação no incêndio criminoso na Prefeitura de Fortaleza: todos querem e agem nome de uma nova ordem, que aos seus olhos, é a mais justa. Variam apenas no grau das ilegalidades que praticam, e ai de quem não concordar.

A ordem e os justiçamentos
Agora assistimos a um debate sobre a ação de “justiceiros” que teriam capturado, espancado e deixado nu, preso a um poste, um adolescente acusado de praticar crimes no Rio de Janeiro. A jornalista Rachel Sherazade, do SBT, fez um comentário dizendo que a ação pode ser compreendida como “legítima defesa” de uma sociedade imersa em inacreditáveis índices de criminalidade. Por ser identificada como uma das porta-vozes da direita brasileira, os progressistas, carentes de alvos agora que são governo, aproveitaram a oportunidade e passaram a criticá-la, não sem razão. Ela pesou o tom. Sherazade é uma espécie de Jair Bolsonaro do jornalismo. Em vez de promover o que deveria ser um pensamento direitista, acaba queimando ainda mais o filme desse ideário pelo exagero com que às vezes aborda temas. Fosse um “rapper” a falar sobre a justiça das ruas, todos deitariam teses sociológicas sobre o negócio.

O fato é que um conservador ou um liberal de verdade se distinguem de ideais revolucionários justamente pela defesa intransigente da legalidade. Apostam em reformas, enquanto os demais acreditam em rupturas violentas. Justiça com as próprias mãos, no sentido de uso da força e da ilegalidade, é o pesadelo do direitista consciente. Só os radicais, por óbvia falta de sensatez e conhecimento de causa, advogam a derrocada da institucionalidade e da autoridade constituída.

Um vídeo divulgado pelo jornal Extra nesta quinta-feira (6) mostrando a execução, em via pública e à luz do dia, de um jovem na Baixada Fluminense, também no Rio, reforçou o alerta contra os chamados “justiçamentos”.

Em defesa do Estado de Direito
Nas redes sociais e portais da internet, os debates opõem a defesa dos direitos humanos contra a necessidade de se fazer algo contra a bandidagem. Poucos falam da ética intrínseca à legalidade, contrária aos julgamentos sumários e arbítrios passionais, por entender que pela própria natureza voluntarista que os anima, esses métodos acabam virando instrumento de perseguição sem distinção. Quem decide o que é crime ou quem é criminoso? Quem determina a pena? Se duas pessoas discordarem sobre algum ponto, quem fará a mediação? Para o legalista, é o Estado de Direito. Se ele é falho, cabe lutar pelo seu aprimoramento, dentro das regras estabelecidas. O parlamento existe para isso. Os tribunais superiores também.

Justiçamentos não são novidade, principalmente em áreas mais pobres das grandes cidades. Na falta de lei, a lei se faz assim, capenga, brutal. Conversava recentemente com um amigo jornalista aqui de Fortaleza, que me revelou o seguinte: sua esposa tem um comércio situado em bairro de periferia. Foi assaltada duas vezes. Depois um traficante da área “ofereceu” serviço de proteção. Evidentemente é caso de extorsão. Mas que vai denunciar algo assim? Os assaltos acabaram… Bandido que ataca comércio protegido por quadrilhas se dá mal. Rotina.

Nas nossas mãos
Os casos que agora chocam a classe média são mais um passo no processo de desmoralização das instituições. Quem ganha com isso? Quem enxerga nelas um obstáculo para o exercício poder. Sempre foi assim. Simples assim. Quem está no poder não se sente impelido a resolver a questão porque conta com esse clima de tensão para vender suas ideias. Em seus discursos, quem atrapalha a vida dos brasileiros é o STF, a imprensa, o Ministério Público, os órgãos de fiscalização e por aí vai.

A única forma real de justiça que um indivíduo pode exercer é justamente a que mais assusta quem tem a obrigação de preservar o aparato legal e institucional da nação: o voto. Esse é o melhor “justiçamento” a ser feito. É lá que esse descontentamento tem força. De resto, qualquer um que defenda ações violentas como forma legítima de reivindicar algo flerta com o perigo e não sabe.