Janeiro 2014 - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

Janeiro 2014

Roberto Cláudio ou Luizianne Lins: quem é o verdadeiro culpado pelo atraso nas obras da Copa?

Por Wanfil em Partidos

29 de Janeiro de 2014

O prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio (Pros), admitiu o que todos já sabiam desde antes das eleições: parte das obras de responsabilidade do município para a Copa do Mundo não ficará pronta a tempo para o evento. E justificou: “Nós tivemos um ano e meio pra fazer o que deveria ter sido feito em quatro anos”. Trocando em miúdos, a culpa pelo fracasso seria exclusivamente da gestão passada, não obstante o esforço da atual na tentativa de recuperar o tempo perdido.

Com todo respeito, não é bem assim. Se por um lado é verdade que Roberto Cláudio assumiu a administração com cronogramas bem atrasados, o rompimento entre seu padrinho Cid Gomes a ex-prefeita Luizianne Lins (PT) é coisa recente, bem posterior ao anúncio de Fortaleza como sede para os jogos da Copa. O racha resultou de divergência internas na aliança, não de confrontos ideológicos ou programáticos.

Tanto é assim que o PROS e o PT, sigla que comandou a capital por oito anos, continuam aliados no Ceará, por partilharem, digamos assim, uma mesma visão. Essa parceria, desde o tempo em que Cid G0mes e Roberto Cláudio estavam no PSB, foi cantada em verso e prosa desde o primeiro mandato da petista. Não seria essa comunhão a razão maior para o eleitor mantê-los no poder?

Portanto, se existe um culpado pelo atraso, é a aliança política da qual souberam se beneficiar eleitoralmente PT e Pros, cada um a seu tempo.

Não é o caso de isentar a gestão passada. Pelo contrário. O prefeito tem razão quando deixa a entender que Luizianne tem grande parcela de culpa por essa situação vexatória. Mas não pode, de maneira alguma, descolar seu grupo político de uma gestão que foi eleita e reeleita com apoio de seu grupo político.

Padrão Fifa…

Na Matriz de Responsabilidades para as obras da Copa no Ceará, não apenas as que estão a cargo do município estão atrasadas. As federais também estão (a reforma do aeroporto, por exemplo). E as estaduais não estão garantidas.

O Castelão, em Fortaleza, foi o primeiro estádio para a competição a ficar pronto, antes mesmo do prazo previsto. Na ocasião, os responsáveis não cansaram de celebrar a própria competência.

Infelizmente, o que foi vendido como um modelo administrativo “padrão Fifa” não passou de um ponto fora da curva. O que tem predominado é a constante corrida contra o tempo, algo que não combina com a conversa de planejamento, eficiência, compromisso etc., etc.

Na hora de assumir a responsabilidade por esses atrasos, ninguém aparece. A Copa nem começou, mas o jogo de empurra está em pleno andamento.

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Olha a refinaria do Ceará! Onde? Ali, naquele factoide de ano eleitoral!

Por Wanfil em Ceará

27 de Janeiro de 2014

Há pouco mais de três anos, no final de dezembro de 2010, o ex-presidente Lula veio ao Ceará lançar a pedra fundamental de uma refinaria da Petrobras. Os mais entusiasmados viram no episódio a materialização de um sonho antigo que virou promessa de destaque na campanha nas eleições do próprio Lula e de Dilma Rousseff. Na ocasião, não faltaram pompas e circunstâncias, palanques e aplausos, além das matérias de sempre, dando conta dos bilhões que seriam investidos na construção de uma das maiores siderúrgicas do mundo.

Enquanto esse porvir radiante não chega, nada, nadinha mesmo que se pareça com uma refinaria, aconteceu. Certo mesmo, somente a reedição sistemática da mesma promessa em períodos eleitorais.

Agora… não vai!

Agora o governo do Estado anunciou que a Petrobras deu entrada no pedido de Licença de Instalação para o empreendimento junto à Secretaria do Meio Ambiente. Fica a impressão, portanto, de que agora finalmente a coisa vai, ou como diz o governo estadual, “mais um passo foi dado”. E tome de novo a conversa de que serão tantos bilhões, milhares de empregos, um novo amanhecer…

No mundo real, é o seguinte: o governo federal não consegue nem sequer fazer uma reforma no Aeroporto Pinto Martins. Faltando pouco mais de quatros meses para a Copa do Mundo, o ministro Valmir Lopes, do Tribunal de Contas da União, veio ao Ceará dizer que em virtude disso, os gestores responsáveis poderão ser multados. Ora, esqueceram de avisar ao ministro de que, a essa altura, o próprio TCU está atrasado na fiscalização. Já era! Teremos um puxadinho de lona para receber turistas. Quem multa os aplicadores de multa?

Aliás, aproveitando a deixa, lembro ao distinto TCU que atraso por atraso, existem outros bem mais graves, como a Transposição do Rio São Francisco, que deveria ter sido concluída em 2010 e que ainda está pela metade, custando (ó surpresa!) o dobro da previsão de custos inicial. Mais do que prejuízos financeiros, o problema maior é ver o futuro do Estado comprometido.

Já me comprometi na Tribuna Bandnews, onde tenho uma coluna diária, que toda vez que o governo federal e seus amedrontados parceiros estaduais tentassem emplacar um factoide sobre a refinaria, eu denunciaria a conversa fiada.

Então é o seguinte: se demoraram 12 anos para conseguir uma simples licença ambiental – e dado o perfil de inoperância da gestão Dilma, sobretudo em relação ao Ceará –, não será agora, nem nos próximos quatro anos, em caso de reeleição, que essa dívida será quitada.

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No Brasil, preso ganha auxílio-reclusão; já na Europa, paga por dia de prisão

Por Wanfil em Legislação

23 de Janeiro de 2014

Meu colega Nonato Albuquerque abordou em seu blog o polêmico auxílio-reclusão, também conhecido como bolsa bandido, que é uma pensão mensal que pode chegar a R$ 971, paga às famílias de presos no Brasil. Assim, o sujeito que, por exemplo, matou uma pessoa, pode ficar mais tranquilo enquanto cumpre sua pena.

Essa é uma daquelas ideias que nascem do casamento entre a estupidez politicamente correta e nosso marxismo de terceira categoria. Assim, o criminoso (agente de instabilidade da ordem burguesa) acaba rotulado como vítima do sistema capitalista, destituído de individualidade (e, portanto, de livre arbítrio), transformado no tal oprimido, categoria sociológica sem identidade, diluída no conceito de classe social.

Nessa condição, esse grupo (os oprimidos) não merece ser punido, mas “recuperado” pela sociedade que, afinal, lhe deve desculpas. Se o marmanjo usa de violência para roubar um tênis de marca, de quem é a culpa? Ora, do sistema que excita o consumo e do dono do tênis, que ostentou sua posição social, constrangendo o bandido.

No final, a inversão de valores acaba assimilada pela legislação brasileira, com as famílias das verdadeiras vítimas desses criminosos, desamparadas. Até existe uma PEC do senador Alfredo Nascimento pedindo o fim do auxílio-reclusão, mas está parada à espera de um relator.

Na contramão da visão defendida pelas autoridades brasileiras, a Holanda estuda a possibilidade de seguir o exemplo da Dinamarca e da Alemanha, e pode estabelecer a cobrança de uma taxa de 16 euros por dia para seus presidiários. A medida deverá ser votada no parlamento holandês ainda este ano.

Segundo o porta-voz de Justiça da Holanda, Johan van Opstel, a dívida não poderá ser perdoada, mas se o preso não tiver dinheiro, quando voltar a ter salário poderá quitá-la em parcelas, para não atrapalhar sua reinserção social. O valor cobrado não cobre o custo dos presídios, que em alguns casos pode chegar a 200 euros diários per capta, e o valor total da dívida não poderá ultrapassar ao equivalente a dois anos de reclusão, mesmo que a pena seja maior. Mais do que financeira, a questão é também pedagógica. Parte dos recursos advindos dessa cobrança deverá ser destinada ao custeio das investigações criminais, dos processo judiciais e – atenção! – assistência às vítimas.

Adivinhem agora, onde a criminalidade aumenta e onde ela diminui?

Quem está em dívida com quem?

Digo e repito que em grande medida os índices absurdos de violência no Brasil guardam relação direta com a forma como entendemos o crime. Bandido não faz resistência social, não é herói, não tira dos ricos para dar ao pobres, muito menos tem que ser pobre.

Bandido, em que pese possíveis atenuantes em certos casos, é o sujeito que não tem condições de conviver em harmonia com as leis e com os outros. Não precisa ser adulado. Tem é que ser punido, de forma correta, mas sem regalias. Tem é que ter a certeza de que se voltar a delinquir, não terá moleza. E tem que saber que ele é que está em dívida com a sociedade e não o contrário.

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Senhores passageiros, com vocês ali no puxadinho, o novo Ceará!

Por Wanfil em Ceará

21 de Janeiro de 2014

A ampliação do Aeroporto Internacional Pinto Martins não será concluída antes da Copa do Mundo, em junho próximo, como previsto inicialmente em seu cronograma. Aliás, poucos aeroportos estarão em condições de receber o fluxo de turistas e passageiros que desembarcarão no Brasil, coitados, para o torneio.

Puxadinho

A situação da unidade de Fortaleza, entretanto, é especial: de todos, é local onde a obra estará mais atrasada. Mas o melhor (pior) ainda está por vir: para cumprir a palavra empenhada e não deixar os usuários do transporte aéreo na mão, o governo federal fará um “puxadinho” para receber a galera. “Brasil, zil, zil,zil…”, ouço em minha mente ufanista.

Tudo bem que o cearense está acostumado a ouvir promessas e deixar por isso mesmo. Mas na Copa é diferente, está todo mundo olhando e a Fifa reclama… Como não dá para prometer para fazer no próximo governo, apresentando a obra em maquete eletrônica na propaganda eleitoral, como nos casos da Refinaria da Petrobras e da Transposição do São Francisco, o jeito é improvisar uma gambiarra e chamar o troço de “criatividade”.

E olha que a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) autorizou um aumento de 1.973 novos voos durante a Copa do Mundo, – aumento de 40% no tráfego – “com objetivo de reforçar a malha aérea e diminuir os preços das passagens”. É isso aí! Em Fortaleza, serão 205 voos a mais. Ainda bem que, precavidos, teremos o puxadinho.

Uma vez na capital do Ceará, o torcedor animado poderá conhecer a 7ª cidade mais violenta do mundo utilizando um sistema de transporte público que enche de orgulho o pessoal da Esplanada dos Ministérios.

Novo Ceará

Minha sugestão para causar mais impacto ainda é colocar no puxadinho esse trecho do novo jingle do governo do Estado: “é assim que a gente quer, é assim que a gente faz, o novo Ceará”.

“Peraí, Wanfil! A obra é federal, não misture as coisas!”. Eu sei, eu sei. Mas a Copa é um evento nacional e o espírito que anima a política no Ceará há alguns anos é o que apregoa a sinergia entre as administrações locais e nacional, irmanadas em um mesmo projeto administrativo. Por isso, ninguém pode reclamar do atraso da obra no aeroporto ou de qualquer outra, porquanto todos foram e são solidários nas promessas feitas.

Unidos por um legado

Na verdade, a admiração incondicional pela gestão, digamos assim, operosa da presidente Dilma Rousseff, é o elo comum entre Cid Gomes, Eunício Oliveira, José Guimarães e Luizianne Lins, que neste ano, apesar das divergências, pedirão mais quatro anos para ela mostrar como é que se faz.

Uma vez unidos pelas promessas que fizeram, unidos também pelo legado que deixam, entre eles, o puxadinho da Copa no Pinto Martins.

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A prisão de Tony Félix muda alguma coisa?

Por Wanfil em Segurança

17 de Janeiro de 2014

Anderson Tony Vinicius Weyne Félix – o Tony Félix –, natural de Fortaleza, tem 22 anos de idade e até o início da semana já havia sido preso seis vezes. Em três ocasiões, foi acusado de ser traficante de drogas, em outras duas, de ser assaltante, e uma de ser usuário de drogas.

Apesar da ficha, Tony Félix estava solto. Em um dos casos, foi agraciado com o benefício da pena progressiva. Em outro, a Justiça considerou que o acusado não era traficante porque portava apenas 12 gramas de maconha. Seria então apenas maconheiro. Se fosse traficante, imagino, melhor seria prendê-lo recebendo a droga diretamente (e em maior quantidade) de seus fornecedores. Aí sim, não haveria como alegar mero consumo.

O fato é que a ausência de provas contundentes acaba facilitando a vida de bandidos. Traficante sabe que ser preso com pouca droga não dá em nada. E por isso mesmo tratam de andar com pequenas quantidades. Sabem também que juízes temem ser vistos como reacionários, e que para certas esferas influentes do progressismo, maconheiro é defensor do amor e das liberdades, obrigado a buscar o auxílio de quadrilhas organizadas… Quem haverá de prendê-los? A combinação de incompetência investigativa e ideologização judiciária é o paraíso da bandidagem.

Tony Félix foi preso pela sétima vez, acusado de ser um dos bandidos que assaltaram motoristas na Avenida Padre Antônio Tomás, em Fortaleza, na última terça-feira (14).

É certo que Tony Félix é suspeito em qualquer crimes cometido naquelas imediações porque, com efeito,vive em “conflito com a lei”, como dizem os bacanas. Eu não confio em Tony quando ele alega inocência. Mas também guardo reservas em relação a qualidade de algumas operações policiais, sobretudo quando há pressão da opinião pública.

O caso ganhou as redes sociais e constrangeu as autoridades de Segurança, que buscam desesperadamente reverter os crescentes índices de criminalidade, inédita no Ceará. As vítimas do assalto podem ajudar a identificar se Tony Félix está envolvido nesse episódio.

O problema é que, sendo culpado, alguém acredita que Tony Félix estará solto em breve? Alguém anda pela Avenida Padre Antônio Tomás sem medo e sobressaltos? Tony Félix e um espectro que ronda nossas mentes, não é só um indivíduo, é legião. Salve-se quem puder.

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No Ceará é assim: trabalho de “Inteligência” da bandidagem surpreende “Inteligência” da polícia!

Por Wanfil em Segurança

15 de Janeiro de 2014

Um imagem vale por mil palavras, diz o ditado. A foto abaixo, com um assalto à mão armada na Av. Padre Antônio Tomás, em Fortaleza, ganhou as redes sociais.

Bandidos agem e "surpreendem" a polícia em Fortaleza. Violência crescente, poder público desmoralizado e cidadãos reféns do crime.

Bandidos “surpreendem” em Fortaleza. Violência crescente, poder público desmoralizado e cidadãos reféns do crime. Imagem: reprodução/internet


A área do flagrante é de trânsito intenso, com bastante congestionamentos, especialmente agora que a avenida está parcialmente bloqueada por causa de uma obra viária. É também conhecida pelo risco de assaltos. Perto dali há um posto da polícia no anfiteatro do Parque do Cocó. Nada que atrapalhe a bandidagem, a ponto de roubos a carros serem praticados em pleno engarrafamento!

Em resposta ao portal Tribuna do Ceará, o comandante do policiamento na região disse que a ação “causou surpresa“, pois “fazia muito tempo que assaltos não aconteciam naquela região”. Por isso mesmo, explicou, o policiamento se concentra em outros três cruzamentos de grandes avenidas com a Via Expressa: Santos Dumont, Dom Luís e Alberto Sá.

Eu não sou especialista em segurança pública, mas como aluno involuntário do curso intensivo de insegurança no Ceará, evito o quanto posso passar por essas vias. Quando não tem jeito, aí estou preparado: poucos documentos, um cartão apenas, carro com seguro e confiança na sorte.

Certa vez li um artigo do professor e pesquisador Leonardo Sá, intitulado A racionalidade do assaltante e a incompetência do policiamento: uma relação a ser pesquisada e debatida, que falava justamente sobre os “furos” que assaltantes percebem no patrulhamento policial em determinadas áreas. A seguir, reproduzo um trecho, em azul. Volto depois.

Em uma pesquisa que realizei na Praia do Futuro, entrevistei um jovem que já havia praticado assalto na praia, um jovem em conflito com a lei, e ele me explicou que os assaltos tornavam-se mais frequentes quando os praticantes de assalto percebiam “furos” na organização do policiamento cotidiano. O ato de observar e avaliar se o policiamento está sendo realizado de modo competente foi um ato apontado por ele como sendo central para as práticas criminais, e o jovem que eu entrevistei falou diretamente na “incompetência da polícia” em realizar a segurança na área, sendo ele próprio um ex-praticante de assaltos, como ele se definiu na ocasião em que o entrevistei. A racionalidade dos assaltantes está monitorando e avaliando as competências do policiamento para vislumbrar oportunidades de realização de assaltos e para mensurar chances de sucesso. Há uma racionalidade do crime que se exerce avaliando o funcionamento da racionalidade da polícia. As falhas desta são celebradas pela astúcia daquela.

Em que pese, a meu  ver, certa terminologia politicamente correta, é isso mesmo. A surpresa da polícia com o assalto na Avenida Padre Antônio Tomás cabe como uma luva nessa interpretação. A ausência de crimes em um determinado ponto da cidade não é mérito do combate ao crime, mas estratégia de despiste dos bandidos, que estudam a rotina de patrulhamento. Sabem os horários das rondas, registram os veículos, verificam periodicidade de ações policiais e, a partir disso, planejam e executam seus crimes, numa absurda inversão de papéis.

Perguntar não ofende

Quando a adutora de Itapipoca estourou, o governador Cid Gomes foi ao local, arregaçou as mangas, pegou na enxada e mergulhou em um tanque, sob alegação de motivar operários e, de quebra, mostrar que a resolução imediata do problema era sua maior prioridade no momento. Sendo assim, dado o precedente e diante do medo generalizado dos cidadãos, não seria então o caso de o governador ir pessoalmente patrulhar a Via Expressa?

Obs. O caso da adutora, engolido por factoides, não deu em nada até o momento.

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Segurança Pública é problema só de governadores?

Por Wanfil em Segurança

13 de Janeiro de 2014

Trecho do Ex-blog do César Maia, nesta segunda:

“Depois de várias eleições para governador, a segurança pública volta a ser tema eleitoral em 2014. A transferência do corredor de exportação do sudeste para o nordeste (ligação com a África Ocidental) e daí com a Europa, aumentou muito os índices de homicídios no nordeste e reduziu no sudeste. Na medida em que a mídia nacional está no sudeste, criou-se uma sensação de que a segurança pública avançava.”

De fato, se compararmos, houve sim um deslocamento da criminalidade, facilmente observável no Mapa da Violência, no sentido sul/norte. Nesse processo, o Nordeste disparou em todos os índices de mortes violentas. Na região, o Ceará se destaca atualmente como o Estado onde a curva crescente do crime é mais acentuada.

Os governadores, Cid Gomes entre os quais, não cansam, com razão, de associar esse fenômeno ao tráfico. Além do atrativo geográfico, há também um ambiente propício aos “negócios” do crime organizado. Como a “oferta” de violência passa a ser maior do que a capacidade do aparato institucional para refreá-la (especialmente no Judiciário), a explosão de banditismo toma conta da região, com a consolidação de um poder paralelo atuando de dentro dos presídios.

De certa forma, nesse cenário, o papel dos governos estaduais se resume à luta para ver quem é o menor pior – campeonato em que a gestão cearense fica entre os últimos.

E aí vem a questão: Se o problema se apresenta em locais diferentes do território nacional, variando a intensidade conforme as circunstâncias, fica evidente a existência de uma articulação organizada a partir de um ou mais centros de comando (são várias as facções atuando: PCC, ADA, Comando Vermelho e Terceiro Comando).

Como a legislação determina que a atividade policial fica a cargo dos governos estaduais, o pepino sobra para os governadores, enquanto o governo federal posa de instância superior pairando acima da incompetência deste ou daquele gestor. Não raro, usa essa condição para desgastar adversários (caso de São Paulo) ou para acudir aliados (caso do Maranhão).

Mais estranho ainda é ver que nenhum desses governadores abre a boca para falar sobre isso. Todos aceitam calados o açoite da opinião pública e da imprensa e do próprio ministro da Justiça, além de parlamentares que, atuando como meros espectadores do desastre, não buscam debater a situação a fundo, justamente para não assumir responsabilidades.

Em outubro, nas eleições presidenciais, a criminalidade que faz 50 mil vítimas fatais por ano no Brasil será apenas tema periférico na campanha presidencial. É possível que, mais uma vez, o centro das discussões seja as privatizações, assunto de impacto irrelevante para a vida das pessoas. Mas nas eleições estaduais, candidatos a governador estão afiados para prometer tempos de paz, projetando imagens que convença os eleitores de eles têm o perfil ideal para combater a violência com energia inédita, mesmo sabendo, desde já, que não resolverão coisa alguma. Quando muito, tentarão ser menos ruins que os antecessores e os vizinhos.

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“Cafajeste Music”: mais do que forró ruim, um estilo de vida

Por Wanfil em Cultura

10 de Janeiro de 2014

Forró Real - Reprodução: Facebook. Homens e mulheres reduzidos a estereótipos desprezíveis.

Forró Real – Reprodução: Facebook. Homens e mulheres reduzidos a estereótipos desprezíveis.

O cantor e compositor David Duarte cunhou a expressão “Cafajeste Music” para definir o forró pasteurizado da atualidade, carregado de exaltações ao consumo de álcool, à misoginia, ao sexo irresponsável e à egolatria. Segundo Duarte, não se trata de uma questão restrita ao campo musical, mas de um fenômeno de amplitude muito maior, que permeia as relações sociais do cotidiano.

Essas considerações foram feitas em dois vídeos onde o cantor, autor de músicas como a belíssima Bússola (uma das minhas preferidas, com participação de Manassés), aborda o tema: “Idiotas Orgânicos” (Hegemonia do Mau Gosto) e “Cafajeste Music” (Muito mais que uma mera disfunção estética). Com efeito, é uma das melhores leituras que já vi sobre a nossa realidade cultural.

A partir dela, cheguei à seguinte pergunta: Como chegamos a tal estado de indigência? Afinal, do Ceará brotaram talentos como Fagner, Belchior, Ednardo, Amelinha, Fausto Nilo e Humberto Teixeira (parceiro de Luiz Gonzaga), autores e intérpretes de canções belíssimas.

Desde o final dos anos 70 e início dos 80 do século passado, portanto, desde a redemocratização do país, os grandes talentos sumiram. Talvez só o sanfoneiro Waldonys, na condição de instrumentista. Depois quase tudo se dissipou na padronização de um modelo que promove a exaltação de uma falsa alegria que tem um quê de histeria. Com o tempo, essa música descartável feita para consumo imediato tornou-se o padrão.

Mesmo os grupos mais famosos desse meio, repaginados com roupas de grife, não escapam da pobreza estética, técnica e moral da “Cafajeste Music”. Exagero? Não, nada disso. Que dizer de uma sociedade que tem referência de sucesso artístico e comercial, e ainda com ares de celebridade fina, algo assim:

Dá um arrepio quando ela sai pedalando
Mas tem uma mão na frente que tá sempre atrapalhando
Acho que ela tem medo do periquito voar
Por isso que ela não para de tampar
(Bicicletinha – Aviões do Forró )

E de mulheres – muitas com formação de nível superior – que vibram de emoção ao ouvir o ídolo dizer isso:

Hoje eu pego uma fulera
Em cima da mesa faço ela dançar
Eu tiro tiro a calcinha da boneca
Faço como peteca jogo pra lá e pra cá
(Levante o dedo quem gosta de rapariga- Garota Safada )

Ou de rapazes que têm por modelo de masculinidade quem fala assim:

Sou cabra raparigueiro, gosto de raparigar,
Raparigar é minha sina, nasci pra raparigar.
A festa só fica boa quando chega a rapariga,
E no forró da rapariga todo mundo vai dançar!
(Trenzinho da sacanagem – Forró Real)

Vítimas

Esses foram exemplos colhidos aleatoriamente. Evito o quanto posso essas produções, porque sou atento ao que ouço. Mas não vai aqui nenhum recalque moralista. Pelo contrário. A rebeldia, a sensualidade e o erotismo são estímulos que podem ser encontrados em criações de grande valor na arte, sem vulgaridade ou depreciação de gênero.

Como disse David Duarte em seu vídeo, a questão é que a má qualidade dessas produções (gosto se discute, defende o cantor, no que concordo plenamente) reflete um ambiente social degradado, focado na satisfação pessoal superficial, na arrogância e no desprezo às mulheres. Seu conteúdo não tem nada que sugira alguma elevação espiritual. Nelas, a dor não ensina e o amor não constrói, ficando tudo resumido a álcool e sexo vazio.

Acima, pergunto o que esperar de pessoas que consomem esse material sem filtros. A resposta é simples: não espero nada. Nem cobro. São, em boa medida, vítimas de um cartel de produção musical que aposta nos baixos instintos para ganhar dinheiro. De artistas e intelectuais que se omitem, que evitam debater cultura, em dizer que isso ou aquilo é ruim, por receio de não parecer relativista. E de pais que evitam (ou não querem, ou não sabem) conhecer e conversar sobre o que seus filhos andam vendo, ouvindo e assimilando. A deseducação acaba em noções como as ideias de que a “fuleira” trai por vingança e o “cachaceiro” não perdoa as “raparigas”.

Não é o caso de pregar a censura, que isso é mascarar o problema em vez de enfrentá-lo. Nem de ser contra o forró, ritmo que nos toca por fazer parte da nossa história. Aliás, é uma defesa do forró. Esse modelo que critico aqui me parece algo importado do RAP americano e do Funk carioca, com seus ressentimentos, ostentação e misoginia. Mas isso fica para outro texto.

Também não é nada contra a diversão despretensiosa. Nem tudo pode ser arte de alto nível.  Mas essa condição não pode servir de justificativa para que o culto ao chulo e a hegemonia da mediocridade ocupem todos os espaços da produção cultural, a ponto de matar, por inanição, as manifestações de valor construtivo.

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O IPTU e a guerrinha dos fantoches

Por Wanfil em Política

08 de Janeiro de 2014

A vontade dos fantoche está na mão que o sustenta e conduz.

A vontade de um fantoche está na mão de quem o conduz. Qualquer semelhança com o impasse sobre o IPTU de Fortaleza, não é mera coincidência.

O aumento do IPTU em Fortaleza continua dando o que falar. Com os ânimos exaltados, o presidente do PT municipal, Elmano de Freitas, e o prefeito Roberto Cláudio (PROS), andaram trocando farpas pela imprensa. Na verdade – e isso não é segredo –, o caso é mais um capítulo do novelesco rompimento entre a ex-prefeita Luizianne Lins e o governador Cid Gomes. É pessoal, nada mais. Os comandados apenas refletem o comando.

Não existem aí questões de fundo norteando um debate mais profundo sobre a cidade, muito menos alguma incompatibilidade programática, ética ou ideológica entre as partes. Tanto é que o PT e o Pros são aliados nos governos estadual e federal.

A questão do IPTU pode ser reveladora sobre a natureza de um projeto político-administrativo para um município. Mas aqui, infelizmente, é reduzida às conveniências de cada um. Para a gestão, é instrumento de financiamento da máquina e de promessas feitas nas eleições passadas (a promessa de hoje é o imposto de amanhã, diz o ditado); para os opositores da hora, não passa de oportunidade para desgastar o governo.

Assim, esses grupos mobilizam suas forças – e agora a Justiça –, em razão de antipatias e ressentimentos entre Cid e Luizianne.

O episódio serve, desde já, para ilustrar como seria um eventual rompimento entre o Pros e o PMDB de Eunício Oliveira, que afirma ser candidato ao governo estadual queira Cid ou não, apesar de ter apadrinhados na gestão. Os aliados de hoje queimariam então suas juras de lealdade na fogueira das vaidades e no calor da disputa do poder pelo poder.

Essas divergências mostram a falta que faz uma oposição forte, pois sem alternativas para o eleitor, os que estão no poder se acomodam e terminam consumidos por disputas internas, mas que em nada divergem substancialmente. Desnudam também uma realidade em que projetos  pessoais acabam prevalecendo sobre a discussão de ideias e a definição de rumos para o Ceará.

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Governo compra salas sem licitação em Sobral. Daqui pra frente, nada vai ser diferente

Por Wanfil em Ceará

03 de Janeiro de 2014

No que concerne à política, dois fatos fazem 2014 no Ceará parecer velho, quase um “cadáver adiado que procria”, como dizia Fernando Pessoa. São eles a adutora de Itapipoca que não funcionou e agora a compra de um andar inteiro de um prédio de salas comerciais em Sobral, sem licitação. Vistos com atenção, os casos trazem à tona um deja vu de patrimonialismo e compadrio político seculares.

A adutora arruinada

Como todos sabem, 2013 acabou marcado pelo fiasco do vazamento na adutora de Itapipoca. A obra, que custou 18 milhões de reais aos cofres públicos, após reparos de emergência, funciona distante da vazão prevista. O projeto, importante para amenizar os efeitos da seca, virou, literalmente, uma grande e cara gambiarra.

O pior é que, administrativamente, nenhuma providência foi tomada até o momento. Não adianta o governador mergulhar em tanques ou pedir investigação policial para as empresas envolvidas, se simultaneamente optar por passar a mão nas cabeças dos gestores responsáveis pela fiscalização e pelos pagamentos da obra que virou sucata antes de funcionar.

Procura-se para explicações

O secretário de Recursos Hídricos do Ceará, César pinheiro, indicado ao cargo por Eunício Oliveira, e o superintendente da Sohidra, senhor Leão Montezuma, que tem relações estreitíssimas com o ex-prefeito de Sobral, Leônidas Cristino, até agora não se pronunciaram. Por algum bom motivo, Cid Gomes não cobra a dupla publicamente. E assim, apesar de serem legalmente os responsáveis pelo contrato da adutora, continuam firmes em seus cargos, gerenciando obras e recursos públicos. Procurados pela TV Jangadeiro, os dois evitam falar sobre o assunto.

 

César Pinheiro, da SRH,  e Leão Montezuma, da Sohidra. Foto: Governo do Estado

César Pinheiro, da SRH, e Leão Montezuma, da Sohidra . Fotos: Governo do Estado


Desse jeito, fica a impressão de que o governo do Ceará procura, por conveniência, preservar arranjos políticos eleitoreiros em detrimento da competência administrativa.

Um luxo

Como se não bastasse isso, o ano novo já começa com a notícia de que o governo estadual comprou um andar inteiro de um prédio em Sobral para abrigar uma sede regional. Aí, dois detalhes chamam a atenção: primeiro, inexplicavelmente, houve dispensa de licitação; segundo, a obra só ficará pronta no final de 2015, um ano depois de encerrada a gestão Cid Gomes.

Não há como alegar urgência para justificar a compra, que custou R$ 2 milhões ao contribuinte. Fora o condomínio das 18 salas adquiridas numa obra de luxo diretamente junto a uma construtora às vésperas do ano eleitoral. Em entrevista à Veja, em novembro do ano passado, o próprio governador Cid Gomes disse que quantos mais concorrentes em uma licitação, melhor para evitar direcionamentos e sobrevalorizações.

Pois é. Falar é fácil. Nomear apadrinhados políticos de partidos aliados e torrar dinheiro do contribuinte também. Dar explicações e cobrar competência técnica é que parece difícil.

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Governo compra salas sem licitação em Sobral. Daqui pra frente, nada vai ser diferente

Por Wanfil em Ceará

03 de Janeiro de 2014

No que concerne à política, dois fatos fazem 2014 no Ceará parecer velho, quase um “cadáver adiado que procria”, como dizia Fernando Pessoa. São eles a adutora de Itapipoca que não funcionou e agora a compra de um andar inteiro de um prédio de salas comerciais em Sobral, sem licitação. Vistos com atenção, os casos trazem à tona um deja vu de patrimonialismo e compadrio político seculares.

A adutora arruinada

Como todos sabem, 2013 acabou marcado pelo fiasco do vazamento na adutora de Itapipoca. A obra, que custou 18 milhões de reais aos cofres públicos, após reparos de emergência, funciona distante da vazão prevista. O projeto, importante para amenizar os efeitos da seca, virou, literalmente, uma grande e cara gambiarra.

O pior é que, administrativamente, nenhuma providência foi tomada até o momento. Não adianta o governador mergulhar em tanques ou pedir investigação policial para as empresas envolvidas, se simultaneamente optar por passar a mão nas cabeças dos gestores responsáveis pela fiscalização e pelos pagamentos da obra que virou sucata antes de funcionar.

Procura-se para explicações

O secretário de Recursos Hídricos do Ceará, César pinheiro, indicado ao cargo por Eunício Oliveira, e o superintendente da Sohidra, senhor Leão Montezuma, que tem relações estreitíssimas com o ex-prefeito de Sobral, Leônidas Cristino, até agora não se pronunciaram. Por algum bom motivo, Cid Gomes não cobra a dupla publicamente. E assim, apesar de serem legalmente os responsáveis pelo contrato da adutora, continuam firmes em seus cargos, gerenciando obras e recursos públicos. Procurados pela TV Jangadeiro, os dois evitam falar sobre o assunto.

 

César Pinheiro, da SRH,  e Leão Montezuma, da Sohidra. Foto: Governo do Estado

César Pinheiro, da SRH, e Leão Montezuma, da Sohidra . Fotos: Governo do Estado


Desse jeito, fica a impressão de que o governo do Ceará procura, por conveniência, preservar arranjos políticos eleitoreiros em detrimento da competência administrativa.

Um luxo

Como se não bastasse isso, o ano novo já começa com a notícia de que o governo estadual comprou um andar inteiro de um prédio em Sobral para abrigar uma sede regional. Aí, dois detalhes chamam a atenção: primeiro, inexplicavelmente, houve dispensa de licitação; segundo, a obra só ficará pronta no final de 2015, um ano depois de encerrada a gestão Cid Gomes.

Não há como alegar urgência para justificar a compra, que custou R$ 2 milhões ao contribuinte. Fora o condomínio das 18 salas adquiridas numa obra de luxo diretamente junto a uma construtora às vésperas do ano eleitoral. Em entrevista à Veja, em novembro do ano passado, o próprio governador Cid Gomes disse que quantos mais concorrentes em uma licitação, melhor para evitar direcionamentos e sobrevalorizações.

Pois é. Falar é fácil. Nomear apadrinhados políticos de partidos aliados e torrar dinheiro do contribuinte também. Dar explicações e cobrar competência técnica é que parece difícil.