novembro 2013 - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

novembro 2013

Petrobras amarga déficit, aumenta combustíveis para reduzir prejuízo e Dilma ainda promete refinaria para o Ceará

Por Wanfil em Ceará

30 de novembro de 2013

Prometeram uma vez, duas vezes, três vezes. Fizeram propagandas, divulgaram números, lançaram pedra fundamental… E nada de refinaria da Petrobras no Ceará! A obra nem ao menos está na planilha de investimentos da empresa. Já culparam a burocracia, os índios e os coreanos. Estes, chamados para atuar em parceria com a estatal brasileira, pularam fora. Mas com a aproximação do ano eleitoral, a promessa voltou com ares de grande salto, de “agora vai”, de “deixa comigo”, de “fiquem felizes”.

O presidente da Assembleia Legislativa, o deputado Zezinho Albuquerque, pré-candidato a uma indicação de Cid para disputar o governo estadual pela sigla de aluguel Pros, visita municípios do interior acompanhado de uma animada comitiva,  tudo custeado com dinheiro público, para “esclarecer” a população sobre a importância da refinaria para a economia do Ceará. Até concurso de redação fizeram, vejam que genial!

Nos discursos, alguns ensaios de cobranças ao governo federal dão o tom de “nos respeitem” aos eventos, divulgados pelos órgãos de comunicação da Assembleia. Mas quando a oportunidade de cobrar os responsáveis pela promessa não cumprida aparece, as críticas são substituídas por efusivos aplausos.

Politicagem

Foi o que aconteceu quando a presidente Dilma esteve no Cerá, no último dia 22. Quem foi lá dizer que a refinaria tem “cheiro de enrolação”, como já disse Ciro Gomes? Quem ousou lembrar que dívida não quitada não pode servir de garantia para novos empréstimos? Ninguém! Todos ficaram mesmo foi felizes, com um misto de exultação e alívio, diante da imperial garantia de Dilma de que a decisão de construir a refinaria é irreversível, porém (sempre tem um porém), sem data para começar. É uma fala que, a rigor, não significa nada, mas que rapidamente foi tomada como sinal de que “agora vai”.

É claro que, tirando o eleitor, não existe otário nessa história. Os profissionais da política sabem que a refinaria não vem, mas se empenham para dar alguma verossimilhança às desculpas oficiais, preparando o terreno para 1) não confessar que os cearenses foram tapeados, 2) repetir, mais uma vez, a promessa, como se fosse generosidade do governo e, claro, dos governistas locais.

Prejuízos

Vejamos agora como essa disposição de voltar a prometer a mesma obra se casa com as notícias da semana.

A balança comercial da Petrobras amargou prejuízo de 14, 4 BILHÕES de DÓLARES, um aumento de 157% em relação ao ano anterior. Quase o custo estimado para a refinaria no Ceará. E agora, o preço dos combustíveis foi reajustado para reduzir o prejuízo 1,8 bilhão de reais MENSAIS, causado pelo uso político (e também numa tentativa desastrada de segurar a inflação) da empresa.

Acredite se quiser

Se na época das vacas gordas, quando o Brasil crescia alguma coisa, sempre em ritmo menor do que os demais emergentes, mas crescia, o empreendimento não saiu do papel; se quando o barril do petróleo era mais valorizado nada se concretizou; se quando a Petrobras não estava com os graves problemas financeiros que agora são de conhecimento geral coisa alguma aconteceu, imagine agora.

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Contribuição de melhoria? Ai, meu Jesus Cristinho…

Por Wanfil em Ceará

28 de novembro de 2013

“Ai, meu Jesus Cristinho, já me descobriu eu aqui de novo! Será impossíverrr? Larga d’eu, sô!”. Esse era o bordão do personagem Joselino Barbacena (Antônio Carlos), na Escolinha do Professor Raimundo, programa humorístico de Chico Anysio na Rede Globo. Mas poderia muito bem servir para expressar a surpresa dos contribuintes cearenses diante do projeto enviado pelo governo do Estado para regulamentar a cobrança de uma nova taxa, chamada de Contribuição de Melhoria, que incide sobre imóveis que eventualmente tenham se valorizado por causa de alguma obra ou serviço feito pelo poder público.

A taxa, avisam seus defensores, está prevista na Constituição. É verdade, mas também é certo dizer que sua cobrança não é obrigatória. Os governistas, de olho no meu, no seu, no nosso dinheirinho, alegam as mais angelicais intenções, como sempre acontece nesses casos. Foi a mesma coisa com a CPMF (criado no governo FHC e depois defendido pelo governo Lula) e a famigerada “Taxa do Lixo” (implementada na gestão de Juraci Magalhães em Fortaleza).

Contradições

Mesmo sendo legal, a eventual opção pela cobrança da taxa precisa encarar uma série de contradições para que venha a ser colocada em prática. Vejamos algumas:

Redundância: Será que já não existem impostos suficientes pesando na apertada renda dos brasileiros? Ou já não existe uma penca de cobranças que incidem sobre negociações imobiliárias? ITBI, registro do imóvel, escritura pública, certidões negativa e de débitos, fora a comissão do corretor e o IPTU anual. É pouco?. Para a gestão Cid Gomes, que não cansa de comemorar recordes de arrecadação, parece que sim.

Ineficiência administrativa: Com uma carga tributária de 36% do PIB, será que falta dinheiro aos gestores públicos ou será que essa grana é 1) mal gasta, 2) desperdiçada, 3) desviada ou 4) todas as opções anteriores? Melhor seria o governo anunciar medidas para reduzir despesas com viagens (passagens e hospedagens), promoção de festas e shows, aluguel de carros e gastos com combustível, compra de carros luxuosos e por aí vai, sem esquecer o combate à corrupção (cadê o dinheiro dos “banheiros fantasmas”?) . Para ter moral na hora de cobrar impostos, é preciso mostrar rigor no uso do que já recebe.

Falta de transparência com o eleitor: Pois é. Na hora de prometer mundos e fundos, os candidatos sempre dizem que não falta dinheiro, que o que falta mesmo é competência dos adversários. Aí, depois de eleitos, lançam mão de expedientes para espremer ainda mais quem investe, produz e trabalha. Fica a lição: No Ceará, o candidato da situação será alguém que defende essa prática (tanto é assim que o prefeito Roberto Cláudio já pretende imitar o governado e estuda cobrar a taxa para as obras da Prefeitura de Fortaleza).

Inexistência de contrapartida: Impostos e taxas fazem parte do nosso modelo político-administrativo. Governos não produzem riqueza, eles precisam de quem os financie. Ninguém questiona essa necessidade. Mas quando a contrapartida, na forma de serviços de qualidade, não é cumprida, obrigando o contribuinte a pagar no setor privado para ter atendimento médico e educação para seus filhos, aí o aceno com mais cobranças é imoral e abusivo.

Dúvidas

Existem ainda as questões técnicas. Como saber exatamente quanto da valorização se deve à obra pública, caso o proprietário tenha feito benfeitorias no imóvel? Qualquer obra ou serviço (manutenção, arborização, recapeamento de vias), podem ser classificadas como ação de melhoria? E se o imóvel desvalorizar? (Por exemplo, no caso da construção de um presídio nas imediações da propriedade). Haverá ressarcimento?

Por tudo o que foi dito acima, por tudo o que já nos é cobrado, eu é que não confio em autoridades dizendo que preciso reservar mais do meu dinheiro para deixar aos cuidados deles.

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PT do Ceará sai em defesa de corruptos condenados e comemora fuga de bandido

Por Wanfil em Partidos

26 de novembro de 2013

O PT do Ceará se reuniu nesta segunda-feira na Assembleia Legislativa em ato de solidariedade a José Dirceu, José Genoino e Delubio Soares, condenados pelo Supremo Tribunal Federal e presos pelos crimes de formação de quadrilha e corrupção ativa. O desagravo também incluiu Henrique Pizzolato, outro petista e ex-diretor do Banco do Brasil condenado no mensalão, mas que fugiu para a Itália.

Distorções e imposturas

É perfeitamente compreensível que lideranças trabalhem para amenizar os efeitos negativos que do mensalão, mas daí a criar uma fantasia conspiratória, vai um longo caminho.

A essa altura, não reconhecer minimamente alguns dos próprios erros soa algo esquizofrênico. Especialmente no Ceará, onde parte do dinheiro movimentado no esquema operado por Marcos Valério e Delúbio Soares para desviar recursos públicos abasteceu a campanha de José Airton Cirilo ao governo estadual em 2002, crime pelo qual ninguém nunca pagou.

Pelas declarações veiculadas em jornais, a ordem no PT é negar os fatos e ignorar o acontecido, para manter em seus quadros os criminosos condenados. Desde logo, é bom desmontar o argumento de que busca focar atenção em Joaquim Barbosa, como se a condenação dos mensaleiros fosse decisão monocrática e resultasse de uma má vontade pessoal do ministro. O processo foi conduzido e finalizado por um COLEGIADO de onze ministros, oito dos quais indicados durante governos do PT.

Vergonha alheia

O deputado estadual Professor Pinheiro disse que o julgamento foi um “processo apenas político”. É a senha para justificar a tese de que os corruptos do mensalão são “presos políticos”. Trata-se de uma agressão à inteligência, pois a condição sine qua non para classificar alguém como perseguido político é esse indivíduo ser oposição ao regime em vigor. Não existe na história da humanidade a figura do preso político de situação. Pinheiro é professor do curso de História da UFC, condição que agrava a impostura por não conceder ao parlamentar a desculpa da ignorância. Resta sentir vergonha pelo intelectual que ele foi.

Para o deputado Camilo Santana, o revoltante mesmo é ver que “muitos outros soltos por aí”. Nesse ponto, é impossível discordar. Vejamos, por exemplo, os responsáveis pelo infame “escândalo dos banheiros fantasmas”, aqui no Ceará, que estourou quando Santana era secretário estadual das Cidades. Estão aí soltos… Mas Camilo exagera quando recrimina a oposição, acusando-a de tenta “macular” a imagem do PT. Ora, opositores não obrigaram Genoino a fraudar documentos e nem mesmo denunciaram nada. Quem detonou o esquema foi um aliado: Roberto Jefferson. E quem manchou a imagem do PT foram os presos que, ironicamente, ganham homenagens do partido. Vai entender…

Já o deputado Antônio Carlos acredita que o STF “excedeu seus limites”. É o tipo de pensamento perigoso e inapropriado para um democrata, pois sugere que alguém precisa dar limites ao Judiciário. Além do mais, resta saber: que limites seriam esses? Outra conclusão, mais divertida, é imaginar que os magistrados do Supremo precisem de aulas com Antônio Carlos.

Segundo Ilário Marques, a culpa é da “mídia” que intimida o Congresso Nacional. Talvez se a imprensa não noticiasse sobre o caso, fosse elogiada. Sempre sobra para a imprensa…

Para Diassis Diniz, presidente eleito da executiva estadual, parlamentares do PT não agem para se “locupletar”, como se desviar dinheiro público para comprar parlamentares de outros partidos ou abastecer caixa dois fosse altruísmo. Pelo visto, a diferença entre Maluf e Genoino é o destino dado ao dinheiro surrupiado, o que faria do segundo, no entender de alguns petistas, um herói. Sem esquecer o fato de que Maluf é aliado.

Cumplicidade pública

O momento mais constrangedor do encontro ficaram por conta dos comentários sobre o fugitivo da Justiça Henrique Pizzolato, conforme relato da repórter Jéssica Welma para o jornal O Povo. A ação, de acordo com Joaquim Cartaxo, vice-presidente estadual do PT, foi nada menos que “genial”.

O vereador Deodato Ramalho, por sua vez, vê a fuga com bons olhos. Seria uma segunda chance para os criminosos provarem sua inocência. Isso mesmo, o advogado Ramalho entende que a Justiça no estrangeiro deve ser sobrepor à do Brasil, desde que, resta claro, se confirme a tese dos condenados. Se eu fosse advogado e não acreditasse mais o mínimo na Justiça brasileira, mesmo com todos os seus defeitos e limitações, a ponto de ver vantagem em fugas, faria outra coisa. Talvez me candidatasse a vereador.

Petistas de bem

Os petistas de bem, aqueles que ainda acreditam nos ideais defendidos pelo partido no passado, não merecem essas lideranças comprometidas com a defesa cega de corruptos, alicerçados na crença de que os fins justificam os meios. Conheço alguns assim. Gente boa que, talvez por isso, não consiga subir na hierarquia do partido.

Pela capacidade de organização e articulação que possui, o PT poderia enfrentar esse momento com dignidade, expulsando os condenados e se desculpando com seus filiados e eleitores. Mas parece os que não comungam com a solidariedade aos mensaleiros são minoria.

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Rainha do camarote: visita de Dilma não agrega valor ao Ceará

Por Wanfil em Ceará

22 de novembro de 2013

Nada mais parecido do que um camarote e um palanque. A diferença é quem paga a conta. Imagem: Montagem sobre fotos.

Nada mais parecido do que um camarote e um palanque. A diferença é quem paga a conta. Imagem: Montagem sobre fotos.

Muita encenação e pouca realização. Esse é o legado da quarta passagem da presidente Dilma Rousseff pelo Ceará, em visita realizada nesta sexta-feira (22). Boas intenções podem até sobrar, mas inaugurações de grandes obras que é bom…

Oficialmente, a presidente veio ao estado para anunciar novos investimentos em mobilidade urbana, assinar uma ordem de serviço para a Linha Leste do metrô de Fortaleza e um protocolo de intenções para a criação de uma reserva que deverá receber os índios que vivem no local onde – dizem… – será construída a refinaria da Petrobras, aquela que Lula já inaugurou mas que nunca saiu do papel.

Para se ter uma ideia do valor real dessa agenda, basta ver um notícia do dia 27 de fevereiro de 2012, publicada no site da Agência Brasil, órgão de comunicação do governo federal (grifo meu):

Dilma visita obras no Ceará e anuncia investimentos em projetos urbanos – A presidenta Dilma Rousseff viaja hoje (27) para o Ceará, onde vai anunciar investimentos e visitar obras de mobilidade urbana e saneamento. O primeiro compromisso da presidenta é o anúncio de mais recursos para o metrô de Fortaleza, que deverão ser investidos na Linha Leste, que liga a capital a cidades da região metropolitana.

Um ano e nove meses depois, qualquer coincidência com a visita de hoje  não é mera coincidência. É repetição intencional para dar a impressão de que algo está sendo feito. Para a conversa colar, Dilma conta com o apoio de toda a base governista no Ceará, com a fraqueza da oposição e com a disposição da imprensa de dar manchete para os números prometidos. A refinaria da Petrobras a curto ou médio prazo é uma MENTIRA eleitoreira cuja assinatura do tal protocolo de intenções servirá para dar verossimilhança à cascata de que em um eventual segundo mandato da presidente, a promessa será finalmente cumprida.

O truque consiste em agregar valor ao evento, para usar uma expressão da moda, com penduricalhos e simbolismos.

Do camarote para o palanque

Como agregar valor a um evento político sem substância no mundo real? Basta transpor para a política os mandamentos do famoso Rei do Camarote, afinal, eventos oficiais cuidadosamente pensados para funcionar como palanques de campanha eleitoral antecipada são uma espécie de camarote político. Na essência, a coisa não muda muito. Vejamos como ficariam quatro pontos colocados pelo tal Rei do Camarote:

1) No camarote: vestir as melhores grifes.
No palanque: grife pega bem em eventos fechados, mas em aparições públicas, é melhor evitar a ostentação, que não combina com populismo. De qualquer forma, imagem é tudo e fica a cargo de profissionais caríssimos (o custo com cabelo e maquiagem da presidente, por exemplo, pode chegar a 3 mil reais);

2) No camarote: convidar celebridades e mulheres bonitas para agregar valor.
No palanque: essas figuras são substituídas por políticos locais de maior visibilidade, lideranças empresariais e da sociedade civil organizada;

3) No camarote: divulgar fotos e vídeos na internet.
No palanque: vale a mesma regra, com a vantagem de que a presidente tem  equipes próprias para fazer o serviço, além de de poder contar com veículos e jornalistas alinhados com o seu, digamos, projeto;

4) No camarote: ter a melhor champanhe.
No palanque: o apelo lúdico da balada política fica por conta de alguma inauguração qualquer, coisa de prefeito mesmo, para fazer aquela foto bacana (na agenda presidencial no Ceará consta a inauguração de uma simples Unidade de Pronto Atendimento (UPA) no município de Horizonte).

Pronto! A diferença entre o rei e a rainha do camarote é quem paga a conta de cada um.

Mundo real

No universo dos fatos concretos, as obras do aeroporto de Fortaleza e a transposição do Rio São Francisco (que deveria ter sido concluída no ano passado) continuam atrasadíssimas.

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O Sermão do Bom Ladrão e os sermões dos mensaleiros

Por Wanfil em Política

21 de novembro de 2013

Escrito no Século 17, atual como nunca.

Escrito no Século 17, atual como nunca.

Encerrada a batalha dos tribunais no caso do mensalão, segue a guerra com a batalha das versões, já de olho na batalha eleitoral de 2014. A questão agora é saber até que ponto a condenação de José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares por crime de corrupção ativa poderá influenciar o eleitorado, ou parte dele pelo menos. Assim, governistas e opositores buscam dar luz as suas interpretações, cada um buscando adaptar os fatos para cunhar a História ao sabor dos seus interesses.

A oposição não tem força para transformar o episódio numa campanha pela ética na política. Para isso seria preciso o controle ou o mínimo de ascendência sobre as máquinas sindicais, a produção universitária, as Ong’s, ou mesmo sobre categorias profissionais estratégicas como jornalistas e professores. Na prática, os adversários do governo se valem apenas de propaganda partidária ou eleitoral ou de algum espaço em colunas de jornal.

Quem tem poder de influência e articulação sobre essas entidades mesmo é o PT, que naturalmente faz uso dele. Por isso, já escalou lideranças de segundo escalão (os principais estão presos ou em postos no governo – com Lula protegido como símbolo do partido), para a missão de pregar o sermão da inocência e do vitimismo dos companheiros, e espalhar aos seus simpatizantes as seguintes ideias, doravante replicadas em todo o país por seus agentes de influência: 1) O julgamento teria sido uma farsa e os petistas condenados pelo desvio de pelo menos 150 milhões de reais dos cofres públicos seriam presos políticos; 2) não haveria provas dos crimes, muito embora os condenados tenham contado com a defesa dos mais caros advogados do país, o que faria de qualquer erro técnico um escândalo histórico; 3) a resposta do PT será dada nas urnas no ano que vem. A ideia é dizer que as eleições seriam uma espécie de tribunal popular, como se no Brasil não fosse comum corruptos contumazes serem eleitos seguidamente.

E vejam só quem é o mais destacado pregador do sermão dos mensaleiros: o líder do PT na Câmara dos Deputados e parlamentar cearense José Guimarães, irmão de Genoino e nacionalmente conhecido pela prisão do assessor com dólares na cueca em 2005. Em âmbito estadual, a tese da redenção pelas urnas foi apregoada na Assembleia Legislativa do Ceará esta semana pelo deputado Camilo Santana, conhecido localmente pelo escândalo dos “banheiros fantasmas”. A dupla garante que os corruptos condenados são pessoas honestas, heróis mesmo, injustiçados pelos homens.

Para fugir dessa guerra de versões, busquei um personagem distante no tempo: padre Antonio Vieira, autor do célebre e antológico o Sermão do Bom Ladrão. Reproduzo abaixo três trechos da obra, escrita em 1655 (os grifos são meus), que podem nos ajudar a refletir sobre o caso. Deixo com o leitor a interpretação deles para o presente que vivemos.

Capítulo IV

“É o que disse o outro pirata a Alexandre Magno. Navegava Alexandre em uma poderosa armada pelo Mar Eritreu a conquistar a Índia, e como fosse trazido à sua presença um pirata que por ali andava roubando os pescadores, repreendeu-o muito Alexandre de andar em tão mau ofício; porém, ele, que não era medroso nem lerdo, respondeu assim. — Basta, senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador? — Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza; o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres. Mas Sêneca, que sabia bem distinguir as qualidades e interpretar as significações, a uns e outros definiu com o mesmo nome: Se o Rei de Macedônia, ou qualquer outro, fizer o que faz o ladrão e o pirata, o ladrão, o pirata e o rei, todos têm o mesmo lugar, e merecem o mesmo nome.”

Capítulo V

“O ladrão que furta para comer, não vai, nem leva ao inferno; os que não só vão, mas levam, de que eu trato, são outros ladrões, de maior calibre e de mais alta esfera, os quais debaixo do mesmo nome e do mesmo predicamento, distingue muito bem S. Basílio Magno: Não são só ladrões os que cortam bolsas ou espreitam os que se vão banhar, para lhes colher a roupa: os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos. — Os outros ladrões roubam um homem: estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo do seu risco: estes sem temor, nem perigo; os outros, se furtam, são enforcados: estes furtam e enforcam.”

Capítulo VI

“Vai o texto [cita Santo Tomás de Aquino]: Aquele que tem obrigação de impedir que se não furte, se o não impediu, fica obrigado a restituir o que se furtou. E até os príncipes, que por sua culpa deixarem crescer os ladrões, são obrigados à restituição, porquanto as rendas, com que os povos os servem e assistem, são como estipêndios instituídos e consignados por eles, para que os príncipes os guardem e mantenham em justiça.”

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Cid na Veja mostra que MP e oposição acertam ao desconfiar de licitações

Por Wanfil em Política

19 de novembro de 2013

Trechos da entrevista de Cid Gomes, governador do Ceará, à revista Veja.

O crime: “Os cabras juntam quatro ou cinco construtoras grandes e se acertam no Brasil inteiro: ‘Você fica com o metrô de São Paulo, eu fico com o de Brasília e eu com o de Fortaleza‘. Chegam aqui na cara de pau para dizer o resultado da licitação que você ainda vai fazer. Aí, o governo tem que lutar para ter gente interessada, atrair concorrentes. (…) O projetista se junta com a construtora para acertar sobrepreços.”

Os criminosos: Não há menção aos autores das práticas criminosas denunciadas.

A providência: “Aí, o governo tem que lutar para ter gente interessada, atrair concorrentes (…) sempre querendo o maior número de participantes”.

Generalização

A denúncia merece toda credibilidade, afinal, Cid Gomes tem larga experiência como gestor público. No entanto, sem definir quem seriam os que buscam fraudar contratos celebrados entre empresas privadas e o poder público, a generalização se sobrepõe, inclusive em relação aos que estão em vigência. Se ninguém é culpado, todos são suspeitos.

Ficando o dito pela não dito, tudo é vago e as versões se acumulam. Corre por aí a lenda de que certas licitações são direcionadas para beneficiar grupos ligados a gestores públicos. A diferença é que ninguém diz isso em entrevista. Agora fica a dúvida: Quem tentou impor preços na obra do metrô de Fortaleza?

Não precisa fiscalizar?

Diante das palavras de Cid, fica difícil compreender a postura negativa dos governistas cearenses quando opositores, especialmente o deputado estadual Heitor Férrer (PDT), pedem detalhes sobre gastos do governo, como nos casos do buffet, de diversas viagens internacionais do governador, da contratação de artistas para shows, da compra das Hilux. Até dispensas de licitação ficam sob suspeita, vide a obra do aquário em Fortaleza ou a compra de helicópteros para a Secretaria de Ciência e Tecnologia (cedidos depois à Secretaria de Segurança). Aliás, dispensa de licitação não combina com o empenho declarado na entrevista de ter muitos concorrentes nessas disputas, justamente para evitar arranjos mal intencionados…

Essa disposição de agentes externos de cobrar e fiscalizar os contratos públicos deveria ser vista com bons olhos, uma vez que, segundo o governador, “todo mundo quer pegar dinheiro do Estado” (assim mesmo, com pronome indefinido). Na verdade, levando-se em conta as revelações do governador, o correto mesmo é desconfiar de tudo.

Qual a garantia?

Ocorre que não é de hoje que pedidos de prestação de contas são tomados como ofensa pessoal, classificados de “oportunismo” ou “desonestidade”. Às vezes as críticas sobram também para a imprensa e para o Ministério Público. Ficamos assim na inusitada condição de saber que todos querem levar dinheiro público de forma desonesta, conforme explicou Cid, mas precisamos confiar cegamente na boa fé e na capacidade do governo do Estado se autofiscalizar.

Na próxima vez que a oposição ou o MP solicitarem informações sobre gastos, contratos ou licitações, deveriam anexar a entrevista de Cid na Veja.

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“Viva o PT” de Genoino e “consciência livre” de Dirceu equivalem a dizer: “Eu não me arrependo e faria de novo”

Por Wanfil em Brasil

15 de novembro de 2013

A prisão dos condenados pelo STF no caso do mensalão deve ser comemorada como uma batalha surpreendentemente vencida na guerra contra a corrupção. Nada de hastear a bandeira da paz, pois os inimigos são muitos e poderosos. Não apenas no PT, como tentam justificar o petismo, é verdade. Mas estando no poder e tendo crescido com a promessa de romper com o que depois aderiu, seu vexame moral é tanto mais ressonante.

Corruptos se alimentem do mesmo expediente, que é o roubo aos cofres públicos. Mas é fundamental discernir as nuances e distinções que separam, por exemplo, José Dirceu e José Genoino de Paulo Maluf e Roberto Jefferson.

Nem todo corrupto é igual

José Genoino, criminoso condenado pelo Supremo a seis anos e 11 meses de cadeia pelos crimes de formação de quadrilha e corrupção ativa, ao ser entregar para a Polícia Federal, gritou: “Viva o PT”. José Dirceu, condenado pelos mesmo crimes a dez anos e dez meses de cadeia, declarou à jornalista Mônica Bergamo, da Folha de São Paulo: “Nenhuma prisão vai prender a minha consciência”.

As declarações são essenciais para uma compreensão acerca da atualidade na política brasileira. O PT tem história, híbrido do sindicalismo de resultados (de onde veio Lula), comunismo (escola de Dirceu) e da Teologia da Libertação (berço de Genoino). Maluf e tantos outros representam a corrupção que tem no enriquecimento ilegal do próprio corrupto seu maior e único fim. O corrupto com pedigree ideológico tem uma causa a justificar-lhe os atos. Esses podem ser mais perigosos justamente por entenderem que agem em nome de algo superior: o partido, que passa a ser o seu ente de razão. Existe aí uma ética torta, mas aos seus olhos, uma ética justa.

Uma ética diferente

O princípio básico dessa ética é moldável de acordo com as circunstâncias. Assaltar bancos, por exemplo, como fazia Dilma Rousseff, pode ser uma atividade edificante desde que seja para financiar sua causa política. Matar alguém, ou uma classe social inteira, é prova de virtude, desde que seja para pavimentar a ascensão do partido. Foi assim na Rússia de Stálin ou na China de Mao. É História.

Portanto, superfaturar uma obra ou falsificar uma operação financeira para comprar a base de sustentação de um governo com o dinheiro roubado é um mal necessário, no entendimento dessa turma.

Ao dizer que sua consciência é livre, Dirceu reafirma essa condição de militante que sabe o que faz e pelo que faz. É uma forma de dizer que não traiu a causa que, por imposição tática, fez uso da corrupção para consolidar um projeto político contra o que eles chamam de elite burguesa. O “Viva o PT” de Genoino é um recado claro: “Não me arrependo do que fiz para o partido”. Esses sujeitos trabalharam para fazer de sua sigla a agremiação mais rica e poderosa do país. Ajudaram a eleger presidentes em campanhas milionárias.  “Não fiquei rico” é o argumento inicial de suas defesas. Isso sim poderia ferir o senso ético deles. Quem não destina os recursos desviados para o partido (pesquisar caso Celso Daniel) merece o desprezo ou algo pior. Roubar para si é pecado. Roubar para o partido é heroísmo.

A “luta” continua

Esse projeto continua em curso, levado pelos companheiros que são a) blindados e b) operam em outras atividades. A turma do financiamento de campanha continua firme, claro. Defende agora o financiamento público de campanha, que é uma forma de deslocar o debate para a esfera da institucionalidade. O crime existe por causa forças externas e não por empenho de convicções internas. É cortina de fumaça.

Os mensaleiros foram presos, mas sua missão, ao final, foi bem sucedida.

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Luizianne Lins e Ciro Gomes unidos por uma causa comum

Por Wanfil em Política

13 de novembro de 2013

Dilma ao lado de Cid Gomes, Luizianne Lins  e Ciro Gomes, em 2010 - Imagem: Efeito sobre foto de Roberto Stuckert Filho/Divulgação.

Dilma ao lado de Cid Gomes, Luizianne Lins e Ciro Gomes, em 2010 – Imagem: Efeito sobre foto de Roberto Stuckert Filho/Divulgação.

Alguns amigos me perguntam o que achei da nomeação da ex-prefeita Luizianne Lins para o cargo de conselheira do BNDES. Ora, acho normal, o que não quer dizer que ache uma boa escolha. É normal porque o padrão vigente para a distribuição de cargos é o loteamento político.

Num país onde Edson Lobão é ministro das Minas e Energia (preenchendo a cota para garantir o apoio de José Sarney ao governo), José Eduardo Cardozo e Marta Suplicy comandam as pastas da Justiça e da Cultura (cotas do Lula), Aldo Rebelo se entrincheira no Esporte (feudo do PCdoB), Marcelo Crivella reza na Pesca (paraíso de Edir Macedo), entre outros, a nomeação de Luizianne tem até menor potencial de causar prejuízos à nação do que outras. No fundo, a boquinha visa mesmo é acomodar a ex-prefeita, de modo a evitar rachas na base subirá no palanque de Dilma no Ceará.

Esse não é o primeiro caso envolvendo políticos cearenses ultimamente. Quem não lembra que até pouco tempo Leônidas Cristino, com a autoridade e a expertise de quem já foi prefeito de Sobral (município incrustado no semiárido), ocupava a Secretaria dos Portos, com status de ministro? Estava a preencher os cargos doados ao então PSB ligado ao governador Cid Gomes. Não entender nada, absolutamente nada, da área em que vai atuar não é nenhuma exceção ou anomalia na gestão Dilma, pelo contrário. É normal.

Tanto é assim que ninguém nem disfarça mais. Ciro Gomes, por exemplo, é apontado como indicação do recém-criado Pros, uma mera sigla de aluguel, para ocupar algum ministério. Isso mesmo, o quinhão do partido é qualificado por um pronome indefinido, e o nome do possível donatário é lançados antes de mesmo de saberem qual área lhes será entregue. O líder do Pros na Câmara Federal, um certo Givaldo Carimbão (AL), explica que “Ciro tem capacidade para tudo”. Por mais que Ciro seja mesmo um nome experimentado, tudo é muita coisa. Mesmo que Ciro recuse a indicação – ele declara não ter esse desejo -, o que fica patente nisso tudo é o método vigente, baseado no princípio da distribuição de cargos para contemplar arranjos eleitoreiros.

Isso não é invenção de Dilma Rousseff, uma novata em mandatos eletivos. Mas em seu governo, a prática ultrapassa qualquer limite, especialmente agora com a aproximação do ano eleitoral. Tanto que existem nada menos do que inacreditáveis 39 ministérios. E é exatamente isso o que une adversários declarados como Luizianne Lins e Ciro Gomes. Por mais que se imaginem distantes um do outro, estão aí sob a tutela desses manejos e conveniências. São, queiram ou não, e ainda que por força das circunstâncias, aliados no desejo de compor esse time de notáveis escalado pela presidente.

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Quem manda no Ceará é o Pros. Quem?!?

Por Wanfil em Partidos

11 de novembro de 2013

O Partido Republicano da Ordem Social (Pros) tem a maior bancada na Assembleia Legislativa do Ceará e comanda 66 prefeituras no Estado, entre as quais a de Fortaleza. É a maior força política local. Mas todos sabem que o grande “mérito” da sigla para esse sucesso se resume a servir de abrigo para o grupo político que hoje comanda o governo estadual, liderado pelos irmãos Ciro e Cid Gomes, após a tumultuada saída do PSB. Em outras palavras, o Pros nasceu para atender contingências de momento, feitas por uma soma de conveniências que fazem do partidarismo brasileiro uma piada.

O próprio PSB e o PSDB já experimentaram aqui o gosto da ascensão e da queda: cresceram enquanto governo, minguaram na oposição. Mas são siglas, goste-se ou não delas, com algum estofo ideológico, conteúdo programático e história. Também o PT cearense tem uma marca própria, apesar de se contentar, atualmente, a orbitar no entorno do governo Cid como força de apoio em busca de migalhas. De todo modo, dos quadros desses três partidos já surgiram lideranças nacionais. E o Pros? O que é o Pros?

O partido foi criado recentemente por um tal de Eurípedes Júnior, que é seu presidente nacional. Vazio por dentro, a sigla se vale de lugares comuns e generalidades como a “consolidação dos direitos individuais e coletivos, o exercício democrático participativo e representativo, a soberania nacional“, blá, blá blá. A indefinição o define como espaço para qualquer um. Nada mais natural para de um partido de aluguel.

O presidente da sigla no Ceará é Danilo Serpa. Até onde me é dado saber, é pessoa de confiança do governador, de quem é chefe de gabinete. Alguns amigos em comum me garantem: é gente boa, jovem trabalhador e leal ao chefe. Falsos companheiros criticam-no pelas costas, acusando-o de ser inacessível (característica que, a meu ver, depõe a seu favor, por revelar pouca disposição para tratar com políticos). No conjunto, parece um perfil mais apropriado a um gerente de loja de departamento ou um a executivo de empresa privada, do que a um líder partidário. Com efeito, não se trata de uma liderança com brilho próprio, mas de um mero arranjo, como tudo mais no Pros.

A sigla fez um jantar de adesão (e quem não aderir considere-se fora do governo) na última sexta-feira (8), cujo convite custava mil reais. Foram tantos os abnegados filiados empolgados abrindo o bolso que ao final foi anunciada uma arrecadação de R$ 1,2 milhão.Na ocasião, Ciro Gomes discursou para os correligionários enfatizando que é preciso defender as conquistas do governo. Disso eu não duvido. Defender conquistas é um ideal bem arraigado nesse pessoal que muda de partido dia sim, dia não.

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Cid critica Tasso e repercute propaganda da oposição

Por Wanfil em Política

07 de novembro de 2013

Na última segunda-feira (4), na propaganda partidária do PSDB cearense veiculada em rádio e televisão, o ex-senador Tasso Jereissati, sem citar nomes, deu o mote da crítica que a sigla deverá explorar em 2014: “Não dá pra ficar brincando de política. O Ceará merece respeito”. Dois dias depois, o governador Cid Gomes respondeu em sua página no Facebook: “Penso, sinceramente, e é o que farei até o final do meu governo, que alguém na condição de ex-Governador (sic) como Tasso deveria se dar ao respeito”. Por fim, o governador fez alusão depreciativa às privatizações da Coelce e do BEC (que, na verdade, foi privatizado por Lula e Antônio Palocci).

Não fica claro por qual motivo Tasso estaria impedido de criticar a atual gestão, coisa natural nas democracias. Também não se sabe porque isso seria falta de respeito. Aliás, os questionamentos na propaganda do PSDB focam temas administrativos, sem enveredar nas searas dos escândalos, das questões particulares ou das acusações de corrupção. Se fosse com o PT na oposição, aí sim o negócio seria pesado, com direito a adjetivações contundentes.

Pois bem, em sua resposta aparentemente intempestiva, Cid interpreta essa oposição comedida como agressão, o que é uma forma pouco tolerante de enxergar as divergências. Entre pedir respeito ao Ceará e mandar alguém se dar ao respeito, onde está a agressão?

O governador também desafiou Tasso a comparar suas respectivas gestões: “O desafio vale para qualquer área: Educação, Saúde, Emprego, Estradas, Habitação, Saneamento, Aeroportos, Recursos Hídricos, etc.”. Ainda que tenha feito mais – e não estou concordando ou discordando, pois essas comparações são arriscadas porque tratam de conjunturas distintas –, isso não invalida os questionamentos de opositores sobre, por exemplo, segurança pública, item que não foi relacionado por Cid no texto.

Tiro no pé ou esperteza?

No que tange às consequências desse, digamos assim, desabafo, com as informações disponíveis até o momento, tanto é possível dizer que a abordagem foi um tiro no pé, na medida em que jogou uma lente de aumento nas críticas do PSDB, como também é permitido suspeitar que existam outras motivações nas declarações, como a intenção de pautar o debate eleitoral na área de infra-estrutura, evitando, naturalmente, questões espinhosas, como a explosão da criminalidade no Ceará. Na prática, a oposição quer discutir resultados, o governo quer falar de investimentos. Se a intenção é mudar o foco do debate, a isca foi lançada.

O fato é que a propaganda eleitoral do PSDB cearense dispõe de apenas 10 minutos de inserção, diluídos em 20 comerciais de 30 segundos a serem exibidos no mês de novembro. Sem deputados estaduais ou vereadores para repercutirem seu conteúdo, faltava aos tucanos alguém que pudesse chamar a atenção geral para o seu discurso. Foi exatamente o que Cid Gomes fez: jogou luz no que carecia de iluminação própria. O resultado da estratégia do governador é de difícil avaliação, pois o fato é recente, mas já é considerável a quantidade de comentários negativos no Facebook do governador com referências aos problemas da administração.

Especulações

É preciso ainda considerar subjetividades no episódio. Não é do estilo de Cid agir ou reagir de forma açodada. Assim, o tom de orgulho ferido da resposta deixa transparecer o que parece ser uma contrariedade de caráter pessoal. São as emoções que fazem da política uma atividade imprevisível.

Outra frente de interpretações nos bastidores sugere que a reação desproporcional não se resume a uma resposta ao programa do PSDB, mas a uma articulação de várias frentes contra o governo estadual, que envolveria, além de Tasso, Eduardo Campos (governador de Pernambuco), os senadores Aécio Neves (PSDB) e  Eunício Oliveira (PMDB), e membros do Centro Industrial do Ceará (CIC). Nada confirmado. Tudo ao sabor das especulações da hora, de olho nas eleições do ano que vem.

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Cid critica Tasso e repercute propaganda da oposição

Por Wanfil em Política

07 de novembro de 2013

Na última segunda-feira (4), na propaganda partidária do PSDB cearense veiculada em rádio e televisão, o ex-senador Tasso Jereissati, sem citar nomes, deu o mote da crítica que a sigla deverá explorar em 2014: “Não dá pra ficar brincando de política. O Ceará merece respeito”. Dois dias depois, o governador Cid Gomes respondeu em sua página no Facebook: “Penso, sinceramente, e é o que farei até o final do meu governo, que alguém na condição de ex-Governador (sic) como Tasso deveria se dar ao respeito”. Por fim, o governador fez alusão depreciativa às privatizações da Coelce e do BEC (que, na verdade, foi privatizado por Lula e Antônio Palocci).

Não fica claro por qual motivo Tasso estaria impedido de criticar a atual gestão, coisa natural nas democracias. Também não se sabe porque isso seria falta de respeito. Aliás, os questionamentos na propaganda do PSDB focam temas administrativos, sem enveredar nas searas dos escândalos, das questões particulares ou das acusações de corrupção. Se fosse com o PT na oposição, aí sim o negócio seria pesado, com direito a adjetivações contundentes.

Pois bem, em sua resposta aparentemente intempestiva, Cid interpreta essa oposição comedida como agressão, o que é uma forma pouco tolerante de enxergar as divergências. Entre pedir respeito ao Ceará e mandar alguém se dar ao respeito, onde está a agressão?

O governador também desafiou Tasso a comparar suas respectivas gestões: “O desafio vale para qualquer área: Educação, Saúde, Emprego, Estradas, Habitação, Saneamento, Aeroportos, Recursos Hídricos, etc.”. Ainda que tenha feito mais – e não estou concordando ou discordando, pois essas comparações são arriscadas porque tratam de conjunturas distintas –, isso não invalida os questionamentos de opositores sobre, por exemplo, segurança pública, item que não foi relacionado por Cid no texto.

Tiro no pé ou esperteza?

No que tange às consequências desse, digamos assim, desabafo, com as informações disponíveis até o momento, tanto é possível dizer que a abordagem foi um tiro no pé, na medida em que jogou uma lente de aumento nas críticas do PSDB, como também é permitido suspeitar que existam outras motivações nas declarações, como a intenção de pautar o debate eleitoral na área de infra-estrutura, evitando, naturalmente, questões espinhosas, como a explosão da criminalidade no Ceará. Na prática, a oposição quer discutir resultados, o governo quer falar de investimentos. Se a intenção é mudar o foco do debate, a isca foi lançada.

O fato é que a propaganda eleitoral do PSDB cearense dispõe de apenas 10 minutos de inserção, diluídos em 20 comerciais de 30 segundos a serem exibidos no mês de novembro. Sem deputados estaduais ou vereadores para repercutirem seu conteúdo, faltava aos tucanos alguém que pudesse chamar a atenção geral para o seu discurso. Foi exatamente o que Cid Gomes fez: jogou luz no que carecia de iluminação própria. O resultado da estratégia do governador é de difícil avaliação, pois o fato é recente, mas já é considerável a quantidade de comentários negativos no Facebook do governador com referências aos problemas da administração.

Especulações

É preciso ainda considerar subjetividades no episódio. Não é do estilo de Cid agir ou reagir de forma açodada. Assim, o tom de orgulho ferido da resposta deixa transparecer o que parece ser uma contrariedade de caráter pessoal. São as emoções que fazem da política uma atividade imprevisível.

Outra frente de interpretações nos bastidores sugere que a reação desproporcional não se resume a uma resposta ao programa do PSDB, mas a uma articulação de várias frentes contra o governo estadual, que envolveria, além de Tasso, Eduardo Campos (governador de Pernambuco), os senadores Aécio Neves (PSDB) e  Eunício Oliveira (PMDB), e membros do Centro Industrial do Ceará (CIC). Nada confirmado. Tudo ao sabor das especulações da hora, de olho nas eleições do ano que vem.