outubro 2013 - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

outubro 2013

Enquanto isso, no Ceará…

Por Wanfil em Ceará

30 de outubro de 2013

Em sua página pessoal na rede social Facebook, o governador Cid Gomes apresentou, na última terça-feira (29), imagens de obras e projetos no Ceará. Uma maquete eletrônica dá uma ideia de como deverá ficar o antigo Centro de Convenções após reforma feita em parceria com uma universidade privada; e fotos mostram parte das obras do VLT da Avenida Aguanambi, também na capital, e o início do 1º trecho do Cinturão das Águas.

Veja as fotos:

VLT Fortaleza - Divulgação
Cinturão das Águas - Divulgação
Centro de Convenções Maquete - Divulgação
Maquete do Centro de Convenções 2 - Divulgação

Enquanto isso…

Algumas horas antes, no mesmo dia, cerca de 10 homens fortemente armados assaltaram uma agência do Bradesco em Paraípaba, no litoral oeste do Estado. Na ação, renderam a delegacia da cidade, metralharam a viatura e fizeram um policial de refém. Humilhante.

De acordo com o Sindicato dos Bancários, este foi o o 123º ataque a banco no Ceará somente em 2013 (levando-se em conta casos de saidinhas e chegadinhas bancárias, quando são registrados). Na última sexta-feira (25), um grupo de 15 homens explodiu um caixa eletrônico do Banco do Brasil em Penaforte. No início do mês, uma ação semelhante aconteceu em Frecheirinha.

Informalmente, agente estaduais afirmam que os criminosos não assaltam agências da Caixa Econômica para evitar confronto com a Polícia Federal.

Confira as imagens:

Assalto ao Bradesco de Paraipaba (CE)
Assalto ao Banco do Brasil em Penaforte - Foto Carlinhos
Assalto ao BB de Frecheirinha FOTO Marcos Mesquita
Assalto ao BB de Frecheirinha 2 - FOTO Marcos Mesquita

Contraste

Nada pode expressar melhor a nossa realidade do que esse descompasso: enquanto o governador mostra, de boa fé e com visível entusiasmo, obras e maquetes, literalmente o pau canta no Ceará, com o estabelecimento desse “novo cangaço”.

Ninguém em sã consciência é contra obras, desde que estas sejam feitas de forma transparente e casem com as necessidades da população. Eu poderia aplaudi-las e fechar os olhos para isso ou aquilo, só para mostrar otimismo. É fácil, gera simpatia e amigos no governo. Mas ocorre que as pessoas comuns, essas que não possuem cargo comissionado em secretarias ou prefeituras, estão mesmo aflitas é com a insegurança no Ceará. Esse é o ponto.

Reconhecer o que se faz não resolve o que se falta fazer

As ações mostradas no Facebook do governador são boas notícias, sem dúvida. Nos últimos dias, aliados do governo e o próprio Cid passaram a ironizar os que supostamente “não deixam fazer” ou “reclamam quando se faz”. É uma boçalidade compreensível, pois todo governo tem algo para mostrar e fica ansioso com isso. Mas fazer é obrigação e cobrar que seja bem feito não é reclamar, é fiscalizar. Não se trata de um jogo entre contentes e descontentes, mas de definição de prioridades, o que gera, naturalmente, debates.

No fim, fazer é melhor do que não fazer, e eu quero mesmo é que se faça mais. Sou sincero quando parabenizo a iniciativa do Cinturão das Águas, ainda que a promessa comece a ser cumprida somente no penúltimo ano da atual gestão. (A obra será concluída somente para a próxima seca, mas coincide com o calendário eleitoral. Olha aí eu reclamando quando fazem, ô coisa).

O fato é que por mais que muito seja feito ou sonhado, a impotência do governo na área de segurança pública é uma realidade que embaça qualquer outra ação. Que venha agora, portanto, o cinturão da paz. E urgente!

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Enquanto isso, em Brasília…

Por Wanfil em Brasil

29 de outubro de 2013

Algumas fotos valem por teses acadêmicas ou por matérias especiais, pelas informações que oferecem. Como toda imagem, podem ser interpretadas, mas o fato registrado é, por si, pode servir de enunciado para uma determinada conjuntura política.

Quem não lembra da foto em que Lula e Maluf apertam mãos em apoio à candidatura de Fernando Haddad à prefeitura de São Paulo? Ou de Fernando Henrique montando num jegue durante campanha eleitoral? No primeiro caso, é a negação categórica do passado; no segundo, a tentativa de construir uma imagem publicitário. São imagens que revelam disposições de seus personagens e passam recados a aliados.

Em cerimônia de comemoração dos 25 anos da Constituição de 1988, realizada nesta terça (29) no Congresso Nacional, ex-presidentes e ex-constituintes foram homenageados. A foto abaixo, registro de Antonio Cruz para a Agência Brasil, mostra o espírito de confraternização e camaradagem entre o ex-presidente Lula e o comando do PMDB, ex-adversários que hoje são aliados.

 

Homenagem aos 25 anos da Constituição, em Brasília: Antonio Cruz/Agência Brasil

Homenagem aos 25 anos da Constituição, em Brasília: Antonio Cruz/Agência Brasil

 

A imagem exprime apenas as boas maneiras de pessoas reunidas pelo sentido cívico do evento, livre de segundas intenções, ou é a personificação de uma mensagem para aliados e adversário? Em política, nada é gratuito. É o PT de Lula de bem com o velho PMDB de Sarney, Henrique Eduardo Alves, Renan Calheiros e Michel Temer, todos confiantes, alegres, cheios de si. Ah, o poder…

Para não deixar dúvida sobre esse clima de união, Lula discursou no Senado e fez um desagravo ao ex-presidente Sarney (na época o PT era o seu maior adversário), e acusou a imprensa de “avacalhar” a política, como se não fossem coisas como atos secretos de Sarney ou os vários escândalos de Renan Calheiros que a desmoralizassem. Ah, o poder…

Para a oposição, o sonho de atrair o PMDB, usando os argumentos de sedução que todos conhecem: a promessa de cargos e verbas, fica mais distante. Sarney e companhia sabem que o próximo presidente, seja quem for, lhe fará acenos nesse sentido. A diferença com Dilma é que ela já dispõe desse poder. A estratégia é mostrar dubiedade, com se estivesse vacilante, com dificuldades de controlar a base, para conseguir ainda mais espaços no atual governo.

Eles brigam, mas eles se entendem, sempre se entendem.

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Lição de como viver em contradição e ainda posar de coerente

Por Wanfil em Ideologia

25 de outubro de 2013

Impressiona como aqui no Brasil, como uma das maiores taxas de homicídios do mundo e metade da população sem saneamento básico, entre outras calamidades, a principal discussão em períodos eleitorais seja a privatização de serviços ou empresas públicas. O assunto voltou à tona agora que a presidente Dilma é acusada (até pela oposição!) de privatizar a exploração do pré-sal ao leiloar o Campo de Libra para empresas privadas buscarem – oh, santo Marxs, o lucro! Segundo a presidente, tudo não passa de “xenofobia”!, em referência ao fato das companhias que “alugaram” o pré-sal serem estrangeiras e misturando alhos com bugalhos.

Como é possível alguém ser eleito denunciando como crime o CONCEITO de privatização, e depois de eleito, privatizar seguidamente, não apenas negando o que se faz com o uso de malabarismos retóricos, mas jurando ainda que não há contradição entre discurso e ação? E não é só Dilma não. O ex-presidente Lula, que já definiu a si mesmo, acertadamente, de “metamorfose ambulante”, mudando de convicções ao sabor das circunstâncias, somente na área financeira, privatizou vários bancos estaduais federalizados na gestão de FHC, sempre acusado de… privatizar isso ou aquilo! Vai eleição, volta eleição, lá vai a ladainha.

O problema é que aqueles que condenam as privatizações como pecado capital, privatizam. Mas como fazer isso e não sair desmoralizado? Simples: acreditando na própria mentira. Nesse ponto, transcrevo um trecho da distopia 1984, em que o autor George Orwell, explica direitinho como funciona esse método, que consiste na arte de enganar a própria memória para que se possa viver em contradição sem nunca precisar reconhecer erros, técnica que ele chamou de “duplipensar”:

Saber e não saber, ter consciência de completa veracidade ao exprimir mentiras cuidadosamente arquitetadas, DEFENDER SIMULTANEAMENTE DUAS OPINIÕES OPOSTAS, SABENDO-AS CONTRADITÓRIAS E AINDA ASSIM ACREDITANDO EM AMBAS; usar a lógica contra a lógica, repudiar a moralidade em nome da moralidade, crer na impossibilidade da democracia e que o Partido era o guardião da democracia; ESQUECER TUDO QUANTO FOSSE NECESSÁRIO ESQUECER, TRAZÊ-LO À MEMÓRIA PRONTAMENTE NO MOMENTO PRECISO, E DEPOIS TORNÁ-LO A ESQUECER; e acima de tudo, aplicar o próprio processo ao processo. Essa era a sutileza derradeira: induzir conscientemente a inconsciência, e então, tornar-se inconsciente do ato de hipnose que se acabava de realizar. Até para compreender a palavra “duplipensar” era necessário usar o duplipensar.

Nas eleições do ano que vem, o tema voltará com o mesmo viés de sempre. Que militantes doutrinados enveredem por esse caminho, ´re compreensível. Tomam o partido (em substituição da moral judaico-cristã) por um novo “imperativo categórico”, expressão de Kant utilizada por Gramsci para justificar esse tipo de conduta. O que impressiona mesmo é ver tanta gente com formação superior cair no truque por tanto tempo.

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Dilma pediu desculpas a médico cubano. Falta se desculpar com médicos brasileiros, pacientes, eleitores…

Por Wanfil em Brasil

23 de outubro de 2013

Durante cerimônia realizada na terça-feira (22), a presidente Dilma Rousseff pediu desculpas, em nome do povo brasileiro, ao médico cubano vaiado em Fortaleza durante protesto contra o polêmico programa Mais Médicos.

Pedir desculpas em solidariedade a uma pessoa vítima de constrangimento tem o seu mérito. Mas quando vira ato público para acusar terceiros, no caso, os críticos do programa, aí vira demagogia. Difícil mesmo é pedir desculpas pelos próprios erros, em sinal de sincera humildade. Isso, meus caros, vocês não verão, embora motivos não faltem.

Também merecem pedidos de desculpas os médicos brasileiros, apontados por governistas como vilões da saúde, quando esses profissionais sofrem nos hospitais sem as mínimas condições de trabalho. Como tratar um paciente no interior sem poder realizar exames?

Na verdade, a presidente deveria pedir desculpas aos pacientes obrigados a esperar meses ou anos por uma cirurgia eletiva, ou a ficar nos corredores superlotados das emergências. Ou aos familiares dos que morrem sem atendimento. Entre janeiro de 2010 e julho de 2013, quase 13 mil leitos do Sistema Único de Saúde (SUS) foram desativados, segundo levantamento do Conselho Federal de Medicina (CFM). Desde 2005, a redução é de 26 mil leitos!

Deveria pedir desculpas ainda aos cidadãos que ficam doentes porque vivem sem saneamento básico (52% da população não tem esse serviço), sem água tratada (18% dos brasileiros não são atendidos), em regiões de baixa escolaridade, o que aumenta proliferação de doenças.

Saindo da área da saúde, é devido aos cearenses pedidos de desculpas pelo não cumprimento da promessa de transposição do Rio São Francisco e da construção de uma refinaria da Petrobras, a primeira por causa de incompetência e corrupção, a segunda por ser mero truque eleitoreiro.

Agora que a exploração do pré-sal foi privatizada, sem entrar no mérito da questão (sou contra a presença do Estado nessa atividade), a presidente poderia pedir desculpas aos eleitores que votaram nela acreditando no discurso fantasioso contra as privatizações.

É verdade que muitos outros políticos devem desculpas ao povo brasileiro. Mas Dilma simboliza a classe pelo cargo que ocupa. Além do mais, foi quem usou o artifício da desculpa para fazer populismo barato. Merece ser cobrada.

A verdadeira paz de consciência só pode ser alcançada com o pedido de desculpas sincero, acompanhado de suas devidas penitências. O resto é conversa mole.

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Depois do leilão do Campo de Libra, nova promessa de refinaria no Ceará não passará de insulto

Por Wanfil em Ceará, Economia

22 de outubro de 2013

Em rede nacional de rádio e televisão, a presidente Dilma informou que o leilão do Campo de Libra foi um sucesso e não foi privatização. O discurso não poderia ser outro, mas a necessidade de falar à nação revela desde logo uma postura defensiva, uma vez que há vários questionamentos sobre o modelo adotado para atrair o capital privado para a exploração da maior reserva de petróleo do país.

Tecnicamente, a substituição do antigo modelo de concessão (não é venda, é concessão), que o partido da presidente apelidou de privatização, pelo de partilha (uma concessão – privatização, no passado – dividida com a Petrobras, que entra na exploração sem precisar pagar), não atraiu muitos investidores. Na verdade, dos 40 possíveis, somente cinco fizeram propostas.

Aí o negócio fica estranho. A Petrobras já tinha direito a 30% do Campo de Libra. Só que as ofertas feitas no leilão cobriam a exploração de 90% da área. Para não pagar mico, a Petrobras comprar os 10% restantes. E aí o que deveria sair de graça para a empresa orgulho nacional, ficou caro.

Agora, mesmo com problemas de caixa e uma dívida de US$ 112,7 bilhões no fim do segundo trimestre (a maior do mundo entre as companhias abertas não financeiras, de acordo com o Bank of America), a Petrobras terá que pagar um bônus de R$ 6 bilhões pela parte que lhe cabe no negócio. Fora o investimento na exploração propriamente dita.

E o que isso tem a ver com o Ceará?

Bom, só a grana do bônus daria para cobrir, na atual cotação do dólar, aproximadamente 25% do investimento previsto para a Refinaria Premium II, prometida aos cearenses por Lula e Dilma. Mas promessa só é dívida para quem é honesto.

Se for prometida novamente nas eleições do ano que vem, a refinaria, que já não viria mesmo nesse governo, deixa de ser um factoide eleitoral para se transformar de uma vez por todas em escárnio e insulto.

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Descrente. Ou: Já nasce velho o novo que nos chega para 2014

Por Wanfil em Partidos

21 de outubro de 2013

Durante muito tempo acreditei que o tempo e a experiência acumulada poderiam melhorar a cultura política no Brasil. Somos uma democracia jovem e tal, ainda com a primeira geração de líderes que despontou após a ditadura atuando sob as luzes da ribalta.

Acontece que é difícil manter a esperança quando as “novidades” que aparecem não conseguem inspirar inovações, ainda que fosse um leve sopro de modernização técnica na gestão pública ou no estabelecimento de alguns limites legais, morais e éticos, para negociações políticas. É velho o novo que nos chega. Basta ver a movimentação recente dos partidos e de alguns dos seus possíveis pré-candidatos ao governo do Ceará.

PMDB

O senador Eunício Oliveira, do condomínio viciado em poder chamado PMDB, faz campanha aberta, e cara, dizem, para o governo. A assessoria de Eunício gosta de trabalhar a imagem de “self-made man” como homem  de negócios, mas ingressou na política pelas mãos de seu sogro, Paes de Andrade, que no passado foi influente no PMDB e nos bastidores de Brasília, onde coincidentemente atuam algumas das empresas do genro empresário.

Que novidade ele representa para a política? Nenhuma. É mais do mesmo, é o PMDB de sempre, entoando a promessa surrada de “continuar avançando no projeto”.

PROS

O PROS é um dos mais novos partidos de aluguel do Brasil, casa do governador Cid Gomes e sua turma depois que foram colocados para correr do PSB. Existe apenas como mero instrumento de acesso ao poder.

Em encontro realizado em Sobral no último final de semana, o prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio, um dos vários nomes do partido que constam no menu de pré-candidatos de Cid Gomes, jovem promessa da política local, agradeceu ao “arrastão” nas eleições que venceu na capital e tascou:  “Não tinha uma sessão eleitoral que não tivesse um sobralense empunhando uma bandeira”. Foi aplaudido. Agradecer gente de uma cidade por ter sido eleito em outra cidade não é bem uma renovação de costumes…

PT

Adotou no poder, em nome de um pragmatismo realista, práticas que prometia combater. No Brasil, se aliou a Sarney, Collor e Renan. No Ceará, compõe a base de Cid, junto com Eunício, abdicando de um projeto estadual próprio. Mesmo que a ex-prefeita Luizianne Lins consiga emplacar uma candidatura própria do PT à sucessão local, ainda assim, de um ponto de vista mais amplo, isso não seria uma ruptura, mas só um rearranjo, afinal, se ela e o governador hoje estão rompidos, foram parceiros durante sete anos.

PSDB

A sigla entra aqui como registro simbólico. Foi grande enquanto esteve no poder. Fora dele, esgotou-se. Leia mais

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Cem anos de Vinicius de Moraes. Poetinha?

Por Wanfil em Cultura

19 de outubro de 2013

Vinicius de Moraes completaria cem anos, se estivesse vivo, neste 19 de outubro sem música nem poesia.

Vinicius de Moraes completaria cem anos, se estivesse vivo, neste 19 de outubro sem música nem poesia.

Sempre que ouço falar de Vinicius de Moraes lembro do boêmio a bebericar uísque rodeado de mulheres (casou-se nove vezes) e tenho calafrios depressivos ao lembrar da chatíssima bossa nova, estilo musical enfadonho ao extremo que adornou algumas de suas letras. Completaria hoje 100 anos se estivesse vivo (morreu aos 66 anos em 1980). Foi mais poeta do que letrista, mas o letrista foi sua persona pública de maior sucesso, o que acabou relegando a um segundo plano sua produção mais visceral. Ficou conhecido pelo carinhoso apelido de “poetinha”, o que, diante de algumas de suas poesias, é uma injustiça.

O Vinicius pop star ofuscou o Vinicius mais profundo, embora alguma de suas letras sejam magníficas, como O Filho que Eu quero Ter (belíssima canção de Toquinho, uma exceção ao tédio da bossa nova). Sua poesia, pelo que li, me parece irregular. Alterna grandes momentos com outros de menor impacto, mas suspeito que isso aconteça ao lermos qualquer poeta de maior estatura. O que nos toca é também um pouco de nós, e o que não comove a gente é aquilo o que nos é alheio ao sentimento pessoal. Ler poesia é buscar um espelho para a alma.

De todo modo, nesses dias de aridez incomparável, seja na poesia ou nas letras das músicas, é possível dizer que a ausência de Vinicius nos remete a um estado melancólico, diante da constatação de que não temos mais a quem recorrer, só aos que já se foram. Dos vivos, arrisco ainda a poesia de um Affonso Romano de Sant’Anna, embora o melhor da sua produção seja do século passado.

Conversava dia desses com um amigo sobre o ocaso da poesia como forma literária no Brasil e talvez no mundo. Onde estão os grandes poetas da atualidade? A superficialidade dos debates, a emergência de um modo de viver acelerado demais, as preocupações com as boas condutas (o que comer, quantas horas dormir, quantos quilômetros correr, quantos check ups fazer, essas coisas), a performance profissional cada vez mais automatizada, tudo isso pode concorrer para o fim da poesia. Não sei. Pode ser apenas o que Gasset chamava de azar, viver um tempo sem talentos, mal que vez por outra atinge algumas gerações.

Arte

Para encerrar, do Vinicius poeta, muito cedo (na adolescência ainda) impressionou-me este poema:

DIALÉTICA

É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste…

E do Vinicius letrista, a canção que citei acima, aqui interpretada por Paulinho da Viola, é memorável:

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Comissões fantasmas na Câmara e as desculpas esfarrapadas de sempre

Por Wanfil em Tribuna Band News FM

17 de outubro de 2013

Meu comentário na Coluna Política desta quinta-feira, na rádio Tribuna Bandnews 101.7 FM, sobre a denúncia de comissões fantasmas na Câmara Municipal de Fortaleza.

Trecho

“Infelizmente, casos assim se multiplicam Brasil afora e Ceará adentro. Esses cabides de emprego para acomodar indicações políticas são vistos como coisa natural nos parlamentos. Tem funcionário fantasma na Câmara que recebe sem trabalhar há pelo menos 20 anos. Jornalista fantasma então, nem se fala…”.

Para ouvir a íntegra:

[haiku url=”http://tribunadoceara.uol.com.br/blogs/wanderley-filho/files/2013/10/POLÍTICA-WANDERLEY-FILHO-Comissões-fantasmas-e-desculpas-esfarrapadas.mp3″]

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Ceará: sucesso como fornecedor e fracasso como empregador de talentos do ITA

Por Wanfil em Artigo, Educação

17 de outubro de 2013

Em 2008 assisti a uma palestra do economista israelense Raphael Bar-El, da Universidade de Bem Gurion (e de várias outras na Europa e EUA), proferida no auditório da Fiec, em Fortaleza. Na ocasião, o professor foi preciso ao afirmar que sem uma educação para formar profissionais de ponta e operários versáteis, o Ceará continuaria a atrair investimentos que demandam somente mão de obra barata e de pouca escolaridade. A saída: educação, educação e educação, como compensação à falta de recursos naturais valiosos. Educação como estratégia de desenvolvimento, não como mera obrigação constitucional e burocrática. Só assim, o Ceará ficaria atraente para os investimentos de alto valor agregado.

Estamos em 2013 e essa avaliação continua atualíssima. Mas há um aspecto que agrava ainda mais esse cenário de falta de visão estratégica para a educação, até mesmo, ou especialmente, em nível superior, como mostra reportagem especial do portal Tribuna do Ceará sobre o sucesso dos alunos cearenses no ITA, referência quando o assunto é engenharia. São jovens que precisam sair do Ceará para buscar um formação melhor e que não conseguem voltar para atuar no mercado local, por falta de vagas para profissionais com essa qualificação. Ou seja, existe matéria-prima de altíssimo nível, estudantes formados em escolas cearenses, a maioria particular, claro, mas prata da casa.

Esse colégios, aliás, bem administrados que são, perceberam a demanda e criaram turmas que reúnem esses alunos mais talentosos para esse tipo de exame. É estratégia. Leia mais

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Pesquisa diz que brasileiro é de direita – Cadê esse povo?

Por Wanfil em Ideologia

15 de outubro de 2013

Um texto um pouco maior, mas que considero importante por tratar de um dos temas mais vilipendiados por palpiteiros em geral.

Uma pesquisa do instituto Datafolha divulgada ontem mostrou que a maioria dos brasileiros simpatiza com valores tidos como de direita. Algumas das premissas utilizadas para definir o que viria a ser esquerda e direita são bastante questionáveis, mas esse não é o objeto deste texto.

O fato que interessa aqui é a leitura pela qual, segundo essa e outras pesquisas, o brasileiro médio teria um perfil mais conservador. Isso explicaria, por exemplo, o não ao referendo sobre a proibição da venda de armas em 2005 e a famosa Carta aos Brasileiros assinada por Lula nas eleições de 2002, quando o então candidato aderiu ao que antes chamava de neoliberalismo, para agradar ao eleitorado.

É por instinto, não por consciência

Faz algum sentido, mas essa propensão não deve ser superestimada, pois se fosse assim, a esquerda não estaria no poder, sem a direita conseguir ter pelo menos uma candidatura genuinamente de direita. O brasileiro tem sim certo perfil mais sintonizado com alguns pontos do que poderia ser chamado de direita conservadora, mas não por escolha consciente, mas antes por um compreensível instinto de sobrevivência. Como nossa história é marcada sobretudo pelas rupturas, com sucessivos governos autoritários agindo entre breves intervalos democráticos, o desejo de ter alguma estabilidade se consolidou na população. Mudanças, só por reformas, não mais por golpes ou revoluções.

No livro Esquerda e direita no eleitorado brasileiro: a identificação ideológica nas disputas presidenciais de 1989 e 1994, de 2002, o jornalista e cientista político André Singer, ex-porta-voz de Lula e sujeito que considero inteligente, afirma, em linhas gerais, que a massa  não domina conceitualmente as distinções entre os conceitos de direita e esquerda, mas que, entretanto, é capaz de subentendê-los por expressões colocadas nos discursos políticos. “Mudar tudo isso que está aí”, por exemplo, é identificado com a esquerda e com a ideia de alteração abrupta da ordem social, algo que a assusta. Já “melhorar o que precisa ser melhorado”, por sua vez, identificado como postura de centro-direita, agrada mais por sugerir um processo sem sobressaltos. Daí, segundo Singer, o sucesso dos adversários do PT naqueles anos.

Sem distinção de classe

O problema da tese de Singer é atribuir essa limitação aos estratos mais pobres da população. Na verdade, os setores com formação universitária, no Brasil, também não possui mais do que uma ideia vaga e rudimentar sobre o que venha a ser direita. Aprendem nas escolas e no ensino superior apenas o que a esquerda diz o que a direita é. Na verdade, a maioria dos esquerdistas que conheço é incapaz de dizer porque Marx não conseguiu concluir a tempo o terceiro volume de O Capital antes de morrer (v. As Etapas do Pensamento Sociológico, de Raymond Aron). Que dirá ter estudado – entenda-se aí ler as obras originais – de conservadores e direitistas.

Pior ainda quando falamos de professores e jornalistas. Esses aí, doutrinados desde o momento em que pisam no colégio pela primeira vez e acompanhados de perto em seus cursos, com raríssimas exceções (até conheço dois jornalistas cujos nomes não cito para evitar isolá-los socialmente por serem simpatizantes da – oh, Deus! – direita!), nunca leram na fonte Toynbee, Hayek, Gasset, Bastiat, Mises ou Tocqueville.  Gustavo Corção, José Guilherme Merquior e Paulo Mercadante então… Que o resto não saiba quem sejam, vá lá, mas quando essa deficiência é verificada em formadores de opinião, aí a coisa complica. Leia mais

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Pesquisa diz que brasileiro é de direita – Cadê esse povo?

Por Wanfil em Ideologia

15 de outubro de 2013

Um texto um pouco maior, mas que considero importante por tratar de um dos temas mais vilipendiados por palpiteiros em geral.

Uma pesquisa do instituto Datafolha divulgada ontem mostrou que a maioria dos brasileiros simpatiza com valores tidos como de direita. Algumas das premissas utilizadas para definir o que viria a ser esquerda e direita são bastante questionáveis, mas esse não é o objeto deste texto.

O fato que interessa aqui é a leitura pela qual, segundo essa e outras pesquisas, o brasileiro médio teria um perfil mais conservador. Isso explicaria, por exemplo, o não ao referendo sobre a proibição da venda de armas em 2005 e a famosa Carta aos Brasileiros assinada por Lula nas eleições de 2002, quando o então candidato aderiu ao que antes chamava de neoliberalismo, para agradar ao eleitorado.

É por instinto, não por consciência

Faz algum sentido, mas essa propensão não deve ser superestimada, pois se fosse assim, a esquerda não estaria no poder, sem a direita conseguir ter pelo menos uma candidatura genuinamente de direita. O brasileiro tem sim certo perfil mais sintonizado com alguns pontos do que poderia ser chamado de direita conservadora, mas não por escolha consciente, mas antes por um compreensível instinto de sobrevivência. Como nossa história é marcada sobretudo pelas rupturas, com sucessivos governos autoritários agindo entre breves intervalos democráticos, o desejo de ter alguma estabilidade se consolidou na população. Mudanças, só por reformas, não mais por golpes ou revoluções.

No livro Esquerda e direita no eleitorado brasileiro: a identificação ideológica nas disputas presidenciais de 1989 e 1994, de 2002, o jornalista e cientista político André Singer, ex-porta-voz de Lula e sujeito que considero inteligente, afirma, em linhas gerais, que a massa  não domina conceitualmente as distinções entre os conceitos de direita e esquerda, mas que, entretanto, é capaz de subentendê-los por expressões colocadas nos discursos políticos. “Mudar tudo isso que está aí”, por exemplo, é identificado com a esquerda e com a ideia de alteração abrupta da ordem social, algo que a assusta. Já “melhorar o que precisa ser melhorado”, por sua vez, identificado como postura de centro-direita, agrada mais por sugerir um processo sem sobressaltos. Daí, segundo Singer, o sucesso dos adversários do PT naqueles anos.

Sem distinção de classe

O problema da tese de Singer é atribuir essa limitação aos estratos mais pobres da população. Na verdade, os setores com formação universitária, no Brasil, também não possui mais do que uma ideia vaga e rudimentar sobre o que venha a ser direita. Aprendem nas escolas e no ensino superior apenas o que a esquerda diz o que a direita é. Na verdade, a maioria dos esquerdistas que conheço é incapaz de dizer porque Marx não conseguiu concluir a tempo o terceiro volume de O Capital antes de morrer (v. As Etapas do Pensamento Sociológico, de Raymond Aron). Que dirá ter estudado – entenda-se aí ler as obras originais – de conservadores e direitistas.

Pior ainda quando falamos de professores e jornalistas. Esses aí, doutrinados desde o momento em que pisam no colégio pela primeira vez e acompanhados de perto em seus cursos, com raríssimas exceções (até conheço dois jornalistas cujos nomes não cito para evitar isolá-los socialmente por serem simpatizantes da – oh, Deus! – direita!), nunca leram na fonte Toynbee, Hayek, Gasset, Bastiat, Mises ou Tocqueville.  Gustavo Corção, José Guilherme Merquior e Paulo Mercadante então… Que o resto não saiba quem sejam, vá lá, mas quando essa deficiência é verificada em formadores de opinião, aí a coisa complica. (mais…)