09/09/2013 - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

09/09/2013

Nepotismo esclarecido

Por Wanfil em Ceará

09 de setembro de 2013

Ciro Gomes é o novo secretário de Saúde do Ceará. Apesar de ser irmão do governador Cid Gomes, o caso não configura nepotismo. É algo estranho, pois a nomeação de parentes de um governante para cargos públicos é crime, como disposto na Súmula Vinculante 13 do Supremo Tribunal Federal.

Acontece que o próprio STF entendeu que, no caso de funções eminentemente políticas, a contratação de parentes é permitida. A questão foi definida em 2009, justamente por causa da nomeação de Ivo Gomes, outro irmão do governador do Ceará, para cargo de confiança. Família unida é assim mesmo, reza a tradição brasileira.

O precedente

Ninguém questiona a competência dos irmãos do governador. O problema é o precedente que brecha cria, já que, na prática, dá margem para que prefeitos nomeiem seus parentes, valendo-se exatamente desses cargos políticos, mais precisamente, de secretários. Até em Fortaleza isso acontece, com o prefeito Roberto Cláudio também indicando um irmão para a sua equipe. Tudo legal, evidentemente. É impressionante como sempre se dá um jeitinho para que tudo permaneça como sempre foi.

Na Europa do Século XVIII, o modelo que mesclava o poder absoluto dos reis com algumas ideias reformistas ficou conhecido como despotismo esclarecido. No Brasil, com a ajuda do nosso querido Ceará, criou-se, em pleno Século XXI, o nepotismo esclarecido. O sujeito nomeia a parentada, mas com a devida ressalva de que é tudo gente boa e da mais alta competência.

Pouco tempo e muita cobrança

Deixando essa questão um pouco de lado e olhando para a conveniência política da escolha de Ciro para a Saúde, trata-se uma opção arriscada, dado o perfil polêmico do ex-governador. É o tipo de aliado normalmente escalado para atuar na linha de frente em casos de crises, para o confronto de ideias.

De todo modo, é possível dizer que durante dois dias a nomeação de Ciro ofuscou a troca de comando em outra pasta, a da Segurança, a mais desgastada da atual gestão. No lugar de Francisco Bezerra, assume Servilho Paiva, que já atuava como coordenador geral de disciplina na própria Secretaria de Segurança.

Essa troca de nomes, por si só, não resolve problemas, claro, mas abre espaço para possíveis ajustes, o que gera mais expectativas. Resta agora torcer para que os novos secretários tenham autonomia para resolver ou pelo menos amenizar os efeitos daquilo o que deu errado. O tempo de que eles dispõem é pequeno, mas a cobrança será grande como nunca.

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Protestos violentos e reforma de secretariado no Ceará: em comum, a decepção popular

Por Wanfil em Brasil, Ceará

09 de setembro de 2013

O final de semana no Ceará foi marcado por dois fatos que, aparentemente, não guardam relação entre si, mas que no fundo estão vinculados a um sentimento que prospera na sociedade brasileira: a insatisfação crônica das pessoas com a falta de qualidade nos serviços públicos e com os rumos da política no país.

Via internet

De forma inusitada, pela internet, o governador Cid Gomes anunciou uma reforma no seu secretariado, que serviu de mote para a exoneração do secretário de Segurança, área que é alvo da mais profunda e justa reprovação dos cearenses.

A escolha da rede social Facebook como canal de comunicação para uma decisão oficial forma do anúncio e as negociações para ainda definir os substitutos nas secretarias, são indicativos de uma decisão tomada sob pressão. Mas quem poderia pressionar um governo praticamente sem opositores? Ora, a opinião pública, devidamente medida por pesquisas, o que não seria nem mesmo necessário, afinal, todos sabem que nem o mais otimista dos cearenses pode dizer que a gestão é um sucesso, quando todos vivem sob o signo do medo e da violência.

Soma de descontentamentos

Todavia, essa mudança aconteceu em função de um descontentamento específico, com causa determinada. É diferente do que vimos nos episódios que marcaram o feriado de Sete de Setembro, quando uma série de conflitos entre manifestantes e a polícia foram registrados diversas cidades do país, inclusive Fortaleza. Aí a insatisfação se mostra difusa, sem causa específica, como espasmo de repúdio generalizado à política.

Nos dois casos, a reprovação dos cidadãos em relação aos governos é o ponto em comum que os une.

Descaso

Entretanto, é bom lembrar que para a maioria silenciosa, essa que não tem tempo de ir a protestos, a política está profundamente associada, não por acaso, com a corrupção e a impunidade, cujo noticiário assemelha-se a um cansativo filme de roteiro previsível. Como resposta, esse público prefere mudar de canal para ver partidas de futebol, programas de auditório ou telenovelas. Em outras palavras, boa parte da população opta pelo descaso.

Essa mesma maioria – esse é o ponto – também não se mostra incomodada com os protestos violentos promovidos por arruaceiros. Por que deveriam se preocupar, uma vez que ninguém se preocupa com o povo? E aí é que os governantes pressentem o perigo e tentam dar as mesmas respostas de sempre para velhos problemas. Troca de secretários e tropa de choque nas ruas.

Um espectro de inquietação ronda o Brasil.

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Protestos violentos e reforma de secretariado no Ceará: em comum, a decepção popular

Por Wanfil em Brasil, Ceará

09 de setembro de 2013

O final de semana no Ceará foi marcado por dois fatos que, aparentemente, não guardam relação entre si, mas que no fundo estão vinculados a um sentimento que prospera na sociedade brasileira: a insatisfação crônica das pessoas com a falta de qualidade nos serviços públicos e com os rumos da política no país.

Via internet

De forma inusitada, pela internet, o governador Cid Gomes anunciou uma reforma no seu secretariado, que serviu de mote para a exoneração do secretário de Segurança, área que é alvo da mais profunda e justa reprovação dos cearenses.

A escolha da rede social Facebook como canal de comunicação para uma decisão oficial forma do anúncio e as negociações para ainda definir os substitutos nas secretarias, são indicativos de uma decisão tomada sob pressão. Mas quem poderia pressionar um governo praticamente sem opositores? Ora, a opinião pública, devidamente medida por pesquisas, o que não seria nem mesmo necessário, afinal, todos sabem que nem o mais otimista dos cearenses pode dizer que a gestão é um sucesso, quando todos vivem sob o signo do medo e da violência.

Soma de descontentamentos

Todavia, essa mudança aconteceu em função de um descontentamento específico, com causa determinada. É diferente do que vimos nos episódios que marcaram o feriado de Sete de Setembro, quando uma série de conflitos entre manifestantes e a polícia foram registrados diversas cidades do país, inclusive Fortaleza. Aí a insatisfação se mostra difusa, sem causa específica, como espasmo de repúdio generalizado à política.

Nos dois casos, a reprovação dos cidadãos em relação aos governos é o ponto em comum que os une.

Descaso

Entretanto, é bom lembrar que para a maioria silenciosa, essa que não tem tempo de ir a protestos, a política está profundamente associada, não por acaso, com a corrupção e a impunidade, cujo noticiário assemelha-se a um cansativo filme de roteiro previsível. Como resposta, esse público prefere mudar de canal para ver partidas de futebol, programas de auditório ou telenovelas. Em outras palavras, boa parte da população opta pelo descaso.

Essa mesma maioria – esse é o ponto – também não se mostra incomodada com os protestos violentos promovidos por arruaceiros. Por que deveriam se preocupar, uma vez que ninguém se preocupa com o povo? E aí é que os governantes pressentem o perigo e tentam dar as mesmas respostas de sempre para velhos problemas. Troca de secretários e tropa de choque nas ruas.

Um espectro de inquietação ronda o Brasil.