junho 2013 - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

junho 2013

Popularidade de Dilma desaba após protestos e cai 27 pontos em 21 dias

Por Wanfil em Brasil

29 de junho de 2013

O tsunami de protestos que varreu as ruas e o cenário político no Brasil derrubou o que parecia ser a mais sólida aprovação de um governo: a gestão presidente Dilma Rousseff viu seu recorde de popularidade desabar 27 pontos, segundo pesquisa Datafolha realizada na sexta-feira e publicada neste sábado (29). A pesquisa anterior, que serve de base de comparação, foi realizada há 21 dias, no início do mês.

Os 57% que consideravam a administração boa ou ótima até a primeira semana de junho agora somam 30%. Já o grupo que considera o governo ruim ou péssimo subiu de 9% para 25%.

De acordo com o jornal Folha de São Paulo, esta é a maior queda na aprovação de um governo desde 1990, quando o ex-presidente Fernando Collor de Mello, hoje aliado de Dilma, confiscou a poupança dos brasileiros e viu a popularidade da gestão cair de 71% para 36%.

Nordeste

Na região Nordeste a queda entre os que aprovam a gestão foi de 24 pontos em apenas 21 dias: de 64% para 40%. O percentual dos que a consideram regular subiu de 27% para 44%. A desaprovação ao governo na região cresceu 10 pontos, de 6% para 16%.

Nota

É cedo ainda para dizer se a queda acentuada é um fenômeno irreversível. Ainda falta mais de um ano para as eleições do ano que vem e o descontentamento geral pode ter encontrado no governo federal o símbolo que reúne tudo o que tem sido repudiado nos protestos. Mas nem isso é certo.

O que mais impressiona é que a desaprovação ocorre num ambiente em que a oposição tem força nula. A convulsão política que derrubou a popularidade do governo aconteceu a despeito do que pensa ou propõe seus adversários. E isso, longe de ser um fator de alívio, é fonte de preocupação para o Planalto, já que não é possível culpar ninguém de fora pelo desabamento da popularidade que lhe servia de lastro. Nesses casos, o poder geralmente volta sua frustração contra a imprensa, que teima em mostrar os fatos que o constrangem.

Charge

O traço certeiro do Moesio Fiúza

charge

O que importa agora, de todo o modo, é que o governo e a presidente Dilma se mantenham firmes para evitar a tentação de medidas econômicas populistas num momento em que a necessidade de mais rigor fiscal é fundamental para debelar o repique inflacionário. Nem que isso signifique mais descontentamento popular. Ser um estadista não é a busca por aplausos, mas ter convicções.

Nota 2

Dilma desistiu de participar do encerramento da Copa das Confederações, no Rio de Janeiro. Do jeito que a coisa vai, um plebiscito agora pode ser um tiro no pé.

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Confrontos visam a desmoralização das manifestações – Ou: A quem servem os violentos?

Por Wanfil em Movimentos Sociais, Política

28 de junho de 2013

Radical se arma de pedras para distorcer manifestações pacíficas. Eles cobrem o rosto e estão de mochila. Foto: Jackson Pereira/Tribuna do Ceará

Radical se arma de pedras para distorcer manifestações pacíficas. Eles cobrem o rosto e estão de mochila. Clique na imagem para ampliá-la. Foto: Jackson Pereira/Tribuna do Ceará

Os protestos cívicos que tomaram conta do Brasil descambaram, em Fortaleza, para o vandalismo explícito, aparentemente sem propósito. O mesmo aconteceu em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.

Não é que a violência seja o elemento predominante nas manifestações de rua, pois o que as fez temidas pelas autoridades foi a mobilização de gente pacífica, mas a violência está presente nesses eventos como ponto destoante, porém, de destaque, em função do seu impacto. São ações dispersas promovidas por pequenos grupos infiltrados em meio à multidão. A maioria pacífica acaba servindo de escudo para uma minoria radical.

É possível observar um método comum nos confrontos: uma espécie de infantaria armada de pedras se posiciona diante do policiamento, fazem barricadas de fogo, tudo para alimentar um clima de tensão, apostando, sobretudo, no despreparo das tropas, que uma vez acionadas, não conseguem distinguir o joio do trigo. As bombas de gás lacrimogêneo atingem, na confusão instalada, os mascarados e os que participam de cara limpa.

O resultado dessa violência é uma mistura de medo e de indignação que acaba por desestimular justamente os cidadãos que protestam pacificamente.

Outro ponto de semelhança nos confrontos é a hostilidade desses radicais contra a imprensa, que é atacada por ter deixado claro, desde o início, que a imensa maioria não concorda com a violência. É a isso que os violentos chamam de manipulação da mídia, no que devem ser aplaudidos por mensaleiros e corruptos de todo o Brasil.

Quem ganha com a aposta na confusão?

Fogo e criança usada como escudo. Radicais misturados à população atiçam o confronto. Foto: Jackson Pereira/Tribuna do Ceará

Fogo e criança usada como escudo. Radicais misturados à população atiçam o confronto. Clique na imagem para ampliá-la. Foto: Jackson Pereira/Tribuna do Ceará

A questão que pode explicar os objetivos desses manifestantes radicais é óbvia: Quem são os que se beneficiam com a desmoralização das manifestações?

Como os protestos originalmente não possuem liderança, podem servir de oportunidade para a imposição de diversas agendas políticas. Grupos descontentes com o governo podem atiçar a bagunça na esperança de desgastar a gestão. O próprio governo, por sua vez, tem meios de se colocar nas manifestações com a turma dos movimentos e partidos que foram expulsos das manifestações. Seus radicais enrolaram as bandeiras vermelhas que todos conhecem, mas continuam lá, agindo disfarçados. Muitas vezes, nem tão disfarçados. Quem for mais organizado, tira melhor proveito da situação.

Aparelhamento

O fato é que a desmoralização das manifestações é a desmoralização de um movimento caracterizado pela repulsa aos partidos e às entidades pelegas, além de representar uma folga para o governo acuado.

Na última terça-feira (25), o ex-presidente Lula se reuniu com representantes de grupos pró-governo, como o MST, a União da Juventude Socialista (UJS), o Levante Popular da Juventude e o Conselho Nacional da Juventude (Conjuve), Juventude PT e Marcha Mundial das Mulheres. Um dos participantes relatou o seguinte: “Lula disse que é hora de trabalhador e juventude irem para a rua para aprofundar as mudanças. Enfrentar a direita e empurrar o governo para a esquerda. Ele agiu muito mais como um líder de massa do que como governo.” Traduzindo: as manifestações estão sendo aparelhadas.

E o serviço de inteligência?

Ao fim do dia, em Fortaleza, 92 pessoas haviam sido presas. Muitos entram nos confrontos no calor do momento, instigados pelos profissionais de passeata. Outros são idiotas úteis, que imaginam estar numa revolução. Mas são prisões feitas durante o trabalho de contingenciamento ostensivo e não pelo serviço de inteligência.

Quem são os líderes dos arruaceiros? A que grupos eles pertencem? As respostas a essas perguntas podem reduzir muito os riscos que as pessoas de bem correm nas manifestações.

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A PEC 37 e a moral que nasce do medo das ruas

Por Wanfil em Política

26 de junho de 2013

“O medo é o pai da moralidade”, pregava Friedrich Nietzsche, numa crítica à moral que, segundo o filósofo, oprime o espírito livre. Descontextualizando a frase e invertento o seu sentido original, ou seja, usando-a como elogio à moral, ela bem que pode servir de emblema para a noite de terça-feira (25) no Congresso Nacional, onde parlamentares rejeitaram a PEC 37.

Afinal, foi por medo que os exceletíssimos representantes do povo fizeram o que pedia o povo nas ruas. Medo de arriscar seus projetos eleitorais, medo de ser apontado nos protestos como inimigo do anseio popular por ética na política. Medo de perder privilégios, claro. E por uma esperança: a de que tudo volta a ser como era antes, quando projetos podiam ser votados ao sabor das conveniências particulares e ao preço das barganhas de sempre, longe das incômodas passeatas.

Ter um Congresso que teme a sua gente, que precisa se ver acuado para votar o que interessa, é sintoma de grave apatia, estado no qual tudo se acomoda, especialmente os vícios. Mas a apatia foi quebrada, para o lamento daqueles que antse contavam com ela.

As manifestações atemorizam não por causa de reivindicações por melhores serviços, mas por também sinalizarem um repúdio contra os que aviltam a política. E assim, todos agora se esmeram em agradar, em dizer que estão em sintonia com os movimentos das ruas. De repente, ninguém queria inibir ou retaliar o Ministério Público, para afrouxar o combate à corrupção. Ninguém ali saber nem mesmo explicar como surgiu a PEC 37. É, o medo também pode levar ao ridículo.

Tortura psicológica

No Brasil, virou clichê a expressão “presidencialismo de coalisão”, para definir a relação promíscua entre o Executivo e o Legislativo, o balcão de negócios da política que engedrou o mensalão. “Não tem mais jeito”, vaticinavam os pessimistas; “é do jogo”, diziam os cínicos. Nada como o medo de milhões de pessoas dizendo que desaprova essa prática para fazer tudo funcionar rápidinho. E assim, a polêmica PEC 37, que dividia opiniões, que demandava grande esforço de negociação e diálogo, num instante foi rejeitada. Mas poucos a condenavam abertamente até duas semanas atrás.

O medo pode fazer recuar os covardes, mas não os transforma pelo livre arbítrio. As más consciências continuarão lá, esprando um chance, uma brecha, um descuido, para se locupletarem novamente. Os que estão lá tiveram a sua chance e se hoje fazem o que lhe cobram, é por fingimento. Que sejam devidamente dispensados de tamanha tortura psicológica nas próximas eleições.

Política e Moral

Para Nietzsche, a moral era uma prisão e somente os que não a temam podem ser felizes. De certa forma, essa é a lógica que alimenta o pragmatismo político da classe política brasileira, algo que transita entre a amoralidade e a imoralidade. Para os que se mostraram indignados contra essa, digamos, ética torta, a moralidade que preza pela honestidade é que liberta.

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Dilma para Roberto Cláudio: “Olha aqui, meu filho!”

Por Wanfil em Brasil, Política

25 de junho de 2013

Governadores e prefeitos reunidos com a presidente. Muita pose e pouca ação. Divulgação.

Governadores e prefeitos reunidos com a presidente. Muita pose e pouca ação. Divulgação.

O jornal O Globo publicou matéria sobre os bastidores da reunião entre a presidente Dilma, governadores e prefeitos, realizada na segunda-feira, por um pacto de melhoria dos serviços público. Segue em azul reprodução de trecho em que o prefeito de Fortaleza é citado (grifos meus):

Quando o prefeito de Fortaleza, Roberto Claudio (PSB), reclamou da dificuldade de os municípios reduzirem as tarifas de ônibus, foi enquadrado com muita irritação por Dilma.

Olha aqui, meu filho! Eu conheço muito bem todos esses números! — interrompeu a presidente, de dedo em riste na direção do prefeito.

Comentário

Que dias confusos. Um pacto não pode ser imposto com irritação, apesar da gravidade do momento. Trata-se, pois, de um acordo. Roberto Cláudio não merecia ser tratado, pelo que se lê, como um subalterno inconveniente, um intrometido que não sabe o próprio lugar.

Além de sujeito cordado e educado, o prefeito é também uma figura institucional. Não pode ser levado na base do “meu filho”, especialmente em encontro oficial. Ali, na condição de autoridade constituída, Roberto Cláudio representa não um aliado qualquer, mas o povo de Fortaleza. Respeito no trato é o mínimo que se espera de outra autoridade, especialmente de uma que está em apuros. Ainda que as circunstâncias do momento possam servir de atenuante, não justificam a deselegância.

Dilma merecia ouvir, em resposta, a seguinte constatação: “Presidente, se a senhora sabe de tudo, não precisamos estar aqui. Com todo o respeito, tenho muito trabalho a fazer na minha cidade”. Mas isso falo eu, que não devo nada a Sua Excelência, que escrevo movido pelo orgulho ferido de cidadão indignado com o descaso e o desdém com os quais o Ceará vem sendo tratado nos últimos anos, na base de promessas que nunca são cumpridas, como a refinaria, afinal, o voto aqui é fácil.

Por outro lado, é bem verdade que quem muito se sujeita, acaba menosprezado. E isso explica, em parte, a postura da presidente. Como se diz por aí, é o encontro da fome com a vontade de comer.

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Sobre os protestos: Se você não pode com eles, junte-se a eles!

Por Wanfil em Tribuna Band News FM

22 de junho de 2013

Transcrição do meu comentário deste sábado na Tribuna BandNews FM 101.7

Governantes elogiam os protestos porque não têm alternativa. Não há como respondê-los, pois eles querem uma nova cultura política. Foto: Tribuna do Ceará

Governantes elogiam os protestos porque não têm alternativa. Não há como respondê-los, pois eles querem uma nova cultura política. Foto: Tribuna do Ceará

Cid Gomes falou sobre as mobilizações populares que marcaram a semana no Brasil e no Ceará, especialmente em Fortaleza. Segundo o governador, os manifestantes estão cobrando que a capacidade demonstrada na construção dos estádios para a Copa do Mundo seja a mesma para ações de educação, saúde e segurança pública.

Olha, é isso mesmo! Embora a fala do governador obviamente procure amenizar o tom crítico das manifestações, o fato é que elas estão longe de ser um elogio às poucas obras que foram feitas para a competição: o que elas enfatizam mesmo é a desaprovação em relação a tudo o que NÃO é feito.

A questão é que a prioridade verificada nos compromissos dos governos com a Fifa contrasta com a falta de resultados observada nos compromissos assumidos com o eleitor em diversas outras áreas. Esse é o ponto.

As declarações foram dadas em entrevista após um evento no Centro de Convenções. Em seguida, Cid foi à Assembleia Legislativa, onde participou de uma reunião com um grupo de manifestantes. Na ocasião, ele afirmou que irá investigar possíveis excessos cometidos pela polícia e revelou que pode fazer um plebiscito sobre a construção do aquário na Praia de Iracema, que é um dos pontos criticados em diversas várias manifestações.

É o seguinte: pela natureza de suas atividades, políticos utilizam técnicas de comunicação com a destreza de profissionais. Assim, com serenidade, o governador elogia os protestos e minimiza a participação de vândalos nos eventos para ganhar a simpatia do público e tentar, de quebra, descolar a imagem da sua gestão das críticas feitas nas ruas. Ele consegue enaltecer seus próprios feitos ao mesmo tempo em que diz concordar com a essência dos protestos, que condenam justamente os gestores públicos. É a velha estratégia do famoso ditado: se você não pode com o inimigo, junte-se a ele.

Tudo isso faz parte do jogo. Mas é bom lembrar que esse sentimento que tomou conta do Brasil não se resume uma pontual exigência por mais competência gerencial. É isso, mas também é um grito de basta contra uma cultura política que se caracteriza, sobretudo, pelas alianças de conveniência, os escândalos e os favorecimentos, em detrimento das convicções, da ética e do respeito aos cidadãos.

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Os manifestantes podem não saber, mas o que eles querem tem nome: reforma política!

Por Wanfil em Brasil

20 de junho de 2013

É no Congresso Nacional que as insatisfações que mobilizaram os brasileiros podem ser levadas a efeito, com uma reforma política.  Foto: Agência Câmara

Congresso Nacional: É lá que as insatisfações levadas às ruas por milhares de brasileiros podem surtir efeito, com uma reforma política. Foto: Agência Câmara

Sobre as manifestações que acontecem em diversas cidades brasileiras, a essa altura dos acontecimentos já é possível identificar alguns consensos.

É ponto comum que as passeatas não possuem lideranças e de tema determinado. Sem uma coordenação central identificável, abertas para cidadãos sem filiação a grupos de qualquer natureza, não há como o poder público realizar negociações, muito menos operar os esquemas clássicos de repressão, restando-lhe observar atônito os acontecimentos.

Os protestos variam de mote, mas todos deságuam na crítica genérica contra a corrupção e a ineficiência dos serviços público, sem, no entanto, especificar quem são esses corruptos e incompetentes. Diante disso, há uma concordância mais ou menos estabelecida entre analistas que enxergam nas manifestações a expressão de uma insatisfação sem restrições contra o sistema político de representação brasileiro. Dizendo de forma mais clara, é uma desaprovação popular à classe política inteira.

As passeatas revelam, sobretudo, que o cidadão não se sente representado e não confia nos políticos (sejam governistas ou de oposição), nos partidos e nas instituições democráticas. No fundo, a população compreendeu que os vícios da política brasileira não possuem ideologia: quem chega ao poder adere sem cerimônia ao toma lá, dá cá e fica tudo por isso mesmo.

Ao ler o artigo Seu voto pode valer muito mais, do jornalista Hélcio Brasileiro, me dei conta que essa conjuntura, aparentemente amorfa, aponta sim para um rumo: ainda que não saiba traduzir essa insatisfação em proposição clara, o que o povo quer é uma reforma política.

A questão é saber quem poderia canalizar esse sentimento e direcioná-lo a uma propositura dessas, com especial enfoque ao voto distrital misto (que fortaleceria os partidos e o papel vigilante do eleitor). A oposição carece de legitimidade para isso, pois quando governou, não fez. Já a atual gestão e seus aliados de conveniência é que não querem mesmo, uma vez que eles têm no atual sistema a chave do seus sucesso.

Talvez uma frente suprapartidária, com gente livre de escândalos de corrupção, como Cristovam Buarque, Marina Silva, Kátia Abreu, Fernando Gabeira e Pedro Simon, entre outros, pudessem levantar essa bandeira. Talvez uma pressão geral sobre os congressistas produzisse resultado. O certo é que se ninguém fizer isso, dentro de pouco tempo as manifestações arrefecer, sem que nada tenha objetivamente mudado.

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Protestos no Brasil: Você tem sede de quê?

Por Wanfil em Brasil

17 de junho de 2013

O jornal americano New York Times pesquisou um pouco e comparou os protestos que acontecem diariamente em diversas capitais brasileiras com a Revolta do Vintém, ocorrida no Rio de Janeiro em 1879 contra o aumento de 20 réis, ou um vintém, nas passagens dos bondes, e que foi reprimida pelo Exército à bala (de chumbo, não de borracha). No presente, as manifestações começaram em São Paulo, justamente por causa do aumento de 20 centavos nas passagens de ônibus (ver charge abaixo).

As semelhanças param por aí. É que as novas mobilizações se espalham por diversas capitais, inclusive em Fortaleza, onde manifestantes fizeram uma “caminhada anticapitalista de repúdio à repressão policial“. Essa dispersão espacial se faz acompanhar de uma variedade de causas. Podem ser, dependendo da cidade, contra os aumentos nas passagens ou contra os gastos com as obras para a Copa do Mundo, em defesa da qualidade da saúde e da educação, ou de repúdio ao uso da força policial para dispersar esses mesmos protestos.

Em 1879 a revolta foi utilizada por republicanos para desgastar as imagens de Dom Pedro II e do império. Atualmente, não é possível saber ainda que rumo político essas manifestações estão tomando, mas é claro que, por se alimentarem de uma insatisfação genérica, e a meu ver justa, elas acabam expostas a eventuais manipulações de grupos interessados em colar nelas, suas bandeiras particulares. Isso, no entanto, não reduz o impacto de um fenômeno de ordem social mais profundo, que se fez notar apesar do frágil sistema de representação brasileiro, onde as lideranças tradicionais parecem não mais falar em nome do povo.

Não adianta classificar essas manifestações de vandalismo, pois isso é fechar os olhos para uma disposição geral ao descontentamento popular. Também é arriscado ver nelas um novo começo para o Brasil, pois as reivindicações carecem de argumentos de ordem prática. Todos são contra a corrupção, claro, mas nem de longe todos são militantes dispostos a revogar o capitalismo em nome do que quer que seja.

De qualquer forma, o recado está sendo dado. As pessoas comuns estão no limite com tanto descaso, com tanta corrupção, com tanta ineficiência na gestão pública. A Revolta do Vintém não derrubou ninguém, mas foi, dentro do contexto em que nasceu, um passo a mais para a substituição do Império pela República. Para os governos de hoje, o perigo não é uma revolução ou um golpe, mas a manutenção desse sentimento agudo de insatisfação até o dia das eleições.

Para encerrar, reproduzo uma tira do Jonas Faga Jr., que mostra bem como o legítimo sentimento de indignação que move as pessoas ainda necessita de uma forma inteligente de se apresentar (clique na imagem para ampliá-la):

Por Jonas Jr.

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Ainda Fortaleza Apavorada: Por que o movimento incomoda tanto?

Por Wanfil em Ideologia, Segurança

15 de junho de 2013

Como tudo o que aparece e chama a atenção do público, o movimento Fortaleza Apavorada, criado para manifestar a insatisfação de alguns moradores da capital cearense contra a inegável e crescente onda de violência na cidade, ganhou críticos, a ponto de virar tema de acalorados debates na internet e de artigos de jornal. Curiosamente, no entanto, o debate foi deslocado da área de segurança para uma inócua discussão sobre a origem social do movimento, que ousou se manifestar sem a chancela de algum grupo carente, ONG progressista ou governo.

Basicamente, o movimento é acusado de:

1- Elitismo – Por serem pessoas de classe média que nunca foram às ruas protestar contra os problemas de cidadãos de outras classes, os apavorados não passariam de hipócritas desprovidos de legitimidade para falar sobre uma causa social. O argumento é estúpido, claro, uma vez que a posição social de um indivíduo não o impede de ser crítico a um governo ou a um estado de coisas (pelo contrário, a condição de grupo costuma a anestesiar a consciência individual), muito menos de se reunir em grupo para protestar contra o que quer que seja;

2 – Sensacionalismo – A estratégia do grupo reforçaria a insegurança, uma vez que aposta no medo como propaganda. Há uma crença entre os mais sensíveis de que a expressão é “apavorada” é apelativa. Queriam que o movimento alheio fosse batizado com algo mais construtivo, como paz ou harmonia,  coisas sublimes que não os fizessem lembrar a escalada da criminalidade no Estado, o que seria ilógico, pois descaracterizaria o ponto de convergência de seus membros;

3 – Oportunismo – Por não apresentar propostas para solucionar o problema da insegurança, o movimento serviria apenas para abrir espaço a críticas oportunistas. Como se o sujeito, para abrir um processo contra uma operadora de telefonia tivesse que estudar engenharia de telecomunicações, de forma a sugerir soluções para obter um serviço de qualidade. Não me parece uma ideia prática. Ademais, cobrar do paciente a cura que o médico não providencia por negligência ou incompetência é que oportunismo.

As críticas não partem de um centro, mas ganharam certa relevância entre pessoas de classe média, unidas por uma concepção sobre a natureza dos movimentos sociais que possui, ainda que eles não saibam, um DNA ideológico evidente.

Movimentos sociais, ideologia e partidos políticos

O filósofo italiano Antonio Gramsci cunhou no início do século XX a expressão “sociedade civil organizada” para definir entidades que controladas para servirem de apêndice ao Partido (no caso dele, o comunista), noção incorporada posteriormente por quase todas as agremiações de esquerda (menos os anarquistas).

No Brasil, com a predominância do marxismo no sistema educacional desde os anos 60 e 70, desde o ensino infantil até o superior, os movimentos sociais mais atuantes e – atenção! – ricos, passaram a incorporar o discurso que, invariavelmente, prega contra o capitalismo (transformando qualquer empreendedor em explorador, o lucro em pecado, o sucesso em culpa e as empresas entidades maléficas), o americanismo (com a exaltação de ditaduras como a cubana ou norte-coreana), a injustiça social (definida dentro dos parâmetros esquerdistas) e a desigualdade (como forma de manter aceso o ódio que alimente a aposta na luta de classes).

Estão aí o MST, a Cufa, a CUT e a UNE para comprovar o que digo, todos recebendo dinheiro público direta ou indiretamente, a serviço de governos com possuam ligação ideológica. Mobilizam-se apenas contra o agronegócio ou para desgastar gestões de adversários.

Órfãos 

A ideia de um grupo formado por indivíduos que dispensam as antigas estruturas dos movimentos sociais controlados por partidos políticos é inconcebível para os barões do ativismo social. Pior ainda se esse grupo assume uma bandeira que não guarda relação com o arquétipo maniqueísta da luta entre o bem e o mal que interessa à propaganda esquerdista. O Fortaleza Apavorada não prega a revolução, não grita o “fora Cid”, não culpa o sistema. Ele pede eficiência administrativa observada em outros estados. Pede paz para que os indivíduos, e não as classes, possam trabalhar. E isso gera desconfiança.

“Afinal, a quem eles servem?” Essa é a indagação que perturba os que se sentem é órfãos de uma noção de justiça social atrelada a velhos cacoetes ideológicos.

O Fortaleza Apavorada incomoda porque surgiu ao largo da estrutura profissionalizada do ativismo social no Brasil, distante do monitoramento e do assédio de forças político partidárias. Pelo menos até agora. Quanto as críticas ou dúvidas, elas devem existir, claro, mas não com argumentos alheios ao cerne da questão: a obscena insegurança no Ceará.

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O que eu vi na manifestação do Fortaleza Apavorada

Por Wanfil em Segurança

13 de junho de 2013

Grupo Fortaleza Apavorada mobiliza multidão em frente ao Palácio da Abolição. Foto: Wanderley Filho

Grupo Fortaleza Apavorada mobiliza multidão em frente ao Palácio da Abolição. Foto: Wanderley Filho

O movimento Fortaleza Apavorada, criado no mundo virtual da internet, se materializou em protesto que reuniu milhares de pessoas contra a onda de violência no Ceará, realizado em frente ao Palácio da Abolição, sede do governo estadual, em Fortaleza.

Horas antes, o secretário de segurança, Francisco Bezerra, havia dito em entrevista coletiva que o grupo poderia estar sendo usado com fins políticos, tese que o governo insiste em repetir. Afirmou ainda que tanto ele como o governador Cid Gomes apoiariam o movimento se fosse algo bem intencionado.

Bom, eu estive presente no local e o que vi foi uma manifestação ordeira e pacífica, destituída de intenções que não as anunciadas desde o início. As pessoas lá reunidas estavam sintonizadas no desejo de anunciar o legítimo descontentamento com os alarmantes índices de violência do estado. Não havia bandeiras ideológicas ou partidárias, tão comuns em manifestações organizadas por governos, sindicatos e outras entidades. Aliás, supreende como uma ação feita sem o apoio dessas estruturas tenha conseguido mobilizar tanta gente e gerar tamanha repercussão.

Não conheço os organizadores do movimento e não falo em nome de ninguém. Falo apenas do que vi: homens, mulheres, jovens, velhos, professores, alunos, artistas, gente comum que se dispôs a comparecer ao protesto num dia de semana, doando seu próprio tempo em nome de uma causa coletiva.

Naturalmente,  o direito à critica foi exercido. Palavras de ordem e faixas cobraram respostas do governador do Estado para o problema da insegurança, mas sem agressões ou ofensas. Uma veradeira aula de cidadania.

Infelizmente, nenhuma autoridade se ofereceu para receber representantes do fortaleza apavorada. O máximo que se viu foram agentes do governo filmando os manifestantes. Cid gomes não estava no palácio em função de outros compromissos marcados, quanta coincidência!, para o momento do protesto. Mas o recado foi dado.

Agora, resta torcer para prevalecer o bom senso. Que o alardeado receio do governo de que o movimento seja aparelhado por grupos políticos siva alerta aos seus organizadores. E que o governo, por sua vez, possa refletir sobre o protesto de forma serena, sem rancor ou arrogância. É hora de desarmar os espíritos em nome de uma solução ou pelo menos de novas propostas para a área de segurança. A disposição para o diálogo pode gerar resultados construtivos, sintonizando finalmente a gestão com o anseios populares.

É revigorante ver que ainda existem pessoas dispostas a agir, dentro da lei e da ordem, pelo bem comum.

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Refinaria no Ceará: novas formas para uma velha promessa

Por Wanfil em Ceará, Política

13 de junho de 2013

O desejo de ver instalada uma refinaria no Ceará é uma aspiração legítima, oportuna e viável, todos sabem. Especialmente quando o Estado fez investimentos que o colocam em condições de recebê-la, como, por exemplo, na área portuária. E mais ainda quando essa aspiração se torna promessa de campanha dos vencedores da eleição presidencial, casos de Lula e Dilma. Nesse processo, a obra se torna uma dívida para o governo que assume, com o povo cearense no papel de credor.

Ocorre que essa promessa tem sido devidamente renovada eleição após eleição e nada de refinaria. A fiadora da obra é a Petrobras, empresa mista controlada pelo governo, e que endossou as promessas de Lula e Dilma. No entanto, o início da construção é permanentemente adiado, de forma que fica cada vez mais difícil convencer o mais ingênuo e crédulo eleitor de que ele não foi enganado e de que ainda deve acreditar em novas promessas feitas por quem não cumpriu a palavra.

Factóides

Assim, aos que se beneficiaram dessa promissão com votações recordes, e diante da constatação de que o empreendimento até agora não passa de conversa, resta o seguinte desfio: Como salvar as aparências e ainda renovar as esperanças no compromisso de construir a refinaria? A resposta é  simples: criando factóides que tenham um mínimo de verossimilhança com o que possa parecer uma solução, ainda que nada seja resolvido. No caso em questão, duas ações simultâneas cumprem essa tarefa.

Primeiro, aliados do governo federal no estado montam uma campanha devidamente custeada com dinheiro público para “pressionar” a presidente Dilma. Os sócios locais da promessa não cumprida então reaparecem como valentes defensores dos interesses do Estado.

Em seguida, a Petrobras anuncia a parceria com uma empresa sul-coreana para viabilizar a construção da refinaria. Na verdade, não é mais do que uma carta de intenções para a realização de estudos sobre uma possível parceria, com vistas a um empreendimento de menor capacidade produtiva ao que foi anunciado no passado. Leia mais

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Refinaria no Ceará: novas formas para uma velha promessa

Por Wanfil em Ceará, Política

13 de junho de 2013

O desejo de ver instalada uma refinaria no Ceará é uma aspiração legítima, oportuna e viável, todos sabem. Especialmente quando o Estado fez investimentos que o colocam em condições de recebê-la, como, por exemplo, na área portuária. E mais ainda quando essa aspiração se torna promessa de campanha dos vencedores da eleição presidencial, casos de Lula e Dilma. Nesse processo, a obra se torna uma dívida para o governo que assume, com o povo cearense no papel de credor.

Ocorre que essa promessa tem sido devidamente renovada eleição após eleição e nada de refinaria. A fiadora da obra é a Petrobras, empresa mista controlada pelo governo, e que endossou as promessas de Lula e Dilma. No entanto, o início da construção é permanentemente adiado, de forma que fica cada vez mais difícil convencer o mais ingênuo e crédulo eleitor de que ele não foi enganado e de que ainda deve acreditar em novas promessas feitas por quem não cumpriu a palavra.

Factóides

Assim, aos que se beneficiaram dessa promissão com votações recordes, e diante da constatação de que o empreendimento até agora não passa de conversa, resta o seguinte desfio: Como salvar as aparências e ainda renovar as esperanças no compromisso de construir a refinaria? A resposta é  simples: criando factóides que tenham um mínimo de verossimilhança com o que possa parecer uma solução, ainda que nada seja resolvido. No caso em questão, duas ações simultâneas cumprem essa tarefa.

Primeiro, aliados do governo federal no estado montam uma campanha devidamente custeada com dinheiro público para “pressionar” a presidente Dilma. Os sócios locais da promessa não cumprida então reaparecem como valentes defensores dos interesses do Estado.

Em seguida, a Petrobras anuncia a parceria com uma empresa sul-coreana para viabilizar a construção da refinaria. Na verdade, não é mais do que uma carta de intenções para a realização de estudos sobre uma possível parceria, com vistas a um empreendimento de menor capacidade produtiva ao que foi anunciado no passado. (mais…)