Maio 2013 - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

Maio 2013

Por que todos temem cobrar do governador uma solução para a segurança?

Por Wanfil em Segurança

31 de Maio de 2013

Conversei recentemente com um grupo de jovens do bairro Vila Velha, em Fortaleza, e perguntei-lhes sobre a violência na cidade. Naturalmente, como acontece em todo o Ceará, eles relataram um clima de medo constante e da experiência que é conviver com a criminalidade em alta. A respeito do comportamento da população diante desse quadro, um deles assim resumiu a situação: “Todo mundo reclama dos políticos, mas basta chegar um vereador lá, para que essas mesmas pessoas façam festa e os tratem como celebridades”.

Pois é. Nesse ponto, Vila Velha sintetiza uma cultura política antiga e ainda muito presente no Ceará, que pode ser identificada como uma mentalidade clientelista (no que concerne à relação de dependência). As pessoas sabem que o acesso aos serviços (em alguns, casos, às benesses) do poder público é reservado aos “clientes” de alguma liderança política. Essa clientela enxerga no político o atravessador que pode atender ou encaminhar seus pedidos, pedindo em troca, pagamento na forma de votos.

E o que isso tem a ver com segurança? A resposta está na fala do jovem do Vila Velha. Por aqui, todos reclamam da violência de forma genérica, mas ninguém cobra das autoridades uma ação ou mesmo uma explicação, diferentemente do que ocorre em outros estados.

De alguma forma, a conexão entre insatisfação generalizada e rejeição ao governo não se realiza, ou pelo menos, não se alastra. Por muito menos, todo cearense com mais de 30 anos já testemunhou protestos com faixas dizendo “Fora Luizianne”, “Fora Lúcio”, “Fora Tasso” ou “Fora Juraci”. Não defendo manifestações desse tipo, por entender que são desrespeitosas (com os eleitores) e inúteis, mas não deixa de ser sintomático o fato de que até os radicais de outrora estejam sumidos.

Todos criticam em privado, mas temem externar o que pensam para além das fronteiras dos grupos de amigos, por receio de incomodar ou de entrar em conflito com o poder da máquina. Se nem os deputados, que possuem imunidade parlamentar, fogem a essa realidade, que dirá o cidadão comum.

Tanto é assim que, até o momento, o governador Cid Gomes não sentiu, até o momento, a necessidade de prestar maiores explicações sobre a surreal onda de crimes que varre o Ceará. Por quê? Simplesmente, porque a inconformidade do público não liga o efeito do fracasso da política pública de segurança ao governo que o implantou.

Apatia geral e de longa data

É claro que Cid não pretende se expor desnecessariamente. Isso obedece ao mais elementar instinto de sobrevivência política. Também é injusto responsabilizá-lo inteiramente pela apatia geral, pois esse autismo político é uma construção coletiva. Quantos de nós realmente estamos preocupados em saber das condições de trabalho de um policial militar? Onde estavam os professores, os opositores, os letrados, os empresários, os artistas, as lideranças religiosas e sindicais, que nada disseram enquanto a degenerescência se consumava? Quantos foram o que vieram a público alertar para o fato de que o Ronda do Quarteirão, uma pegadinha eleitoral que depois se transformou em programa que, nunca conseguiu reduzir a criminalidade no Estado? Os que ainda se animaram a fazer algo assim foram apontados como cegos que torciam pelo pior. Deu no que deu.

Nas redes sociais, muitos falam em protestar contra a violência, como se esta fosse um ente consciente e não o resultado de múltiplas omissões, especialmente a do governo. Poucos cobram do governador – não falo da pessoa física, mas da autoridade constituída -, uma providência, uma palavra que seja. Enquanto isso, tome Copa das Confederações! (quem está mais preocupado com esse torneio do que em chegar vivo em casa, levante a mão). Por que não dizem claramente “Faça alguma coisa, senhor governador!”?

Não estou dizendo aqui que a culpa pela violência é antes de tudo das vítimas dela. Não, não é isso. Digo apenas que nos habituamos a ser passivos, a acreditar em propagandas oficiais, a não criticar, a procurar relações de clientela; nos afeiçoamos à ideia de um dia precisarmos de um contato no governo. E esse hábito se tornou vício, a ponto de conter nossas indignações diante da presença de qualquer autoridade. Tal como no Vila Velha, basta que um vereador apareça e todos nos desfazemos em sorrisos, para depois chorarmos com os amigos, lamentando tanta violência.

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O preço do Bilhete Único em Fortaleza: um Legislativo amarrado

Por Wanfil em Entre poderes, Fortaleza

29 de Maio de 2013

Recentemente o ministro do STF Joaquim Barbosa causou polêmica ao dizer que o Congresso Nacional é dominado pelo Executivo e que os partidos políticos são de ‘mentirinha’. Parlamentares e líderes partidários ensaiaram alguma indignação, com o devido cuidado de não exagerarem para não prolongar o assunto.

Evitar o debate aberto não significa, entretanto, que o problema tenha sido resolvido ou deixado de existir. Pelo contrário, o fortalece a ponto de virar uma prática generalizada. É o que vemos, por exemplo, no caso do projeto que prevê a criação do bilhete único no transporte público de Fortaleza, promessa de campanha do prefeito Roberto Cláudio.

O ovo e a galinha

É importante e salutar que gestores atuem para honrar os compromissos assumidos com o eleitorado. Ninguém questiona o mérito da proposta do bilhete único. Mas existe nesse caso uma questão correlata que preocupa e que remete à fala de Joaquim Barbosa. É que a Prefeitura realizou o cadastramento e deu início a uma campanha publicitária sobre o projeto antes mesmo dele ser encaminhado à Câmara Municipal, o que só foi feito nessa semana. Mais ainda: a implantação do bilhete já está programada para  o próximo dia 15 de junho. Sem tempo para debater a matéria, os vereadores se viram obrigados a votá-la em sessão extraordinária nesta quarta-feira (29). Ninguém duvida que o projeto será aprovado.

É o que a sabedoria popular chama de “contar com o ovo antes que a galinha o ponha”, numa adaptação mais comportada do ditado. Essa forma de tramitação apenas comprova o que disse o ministro: o Legislativo é dominado pelo Executivo. Os parlamentos, por sujeição, se transformam em meros cartórios aptos a chancelar a vontade dos governos. E como os partidos são mesmo de ‘mentirinha’, o que vale aí é o poder de persuasão da máquina pública agindo sobre os parlamentares individualmente. Leia mais

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Marcha da Maconha? Mas se a maconha não marcha, quem marcha então?

Por Wanfil em Ceará

27 de Maio de 2013

Maconha em formato "recreativo", segundo os defensores da legalização, popularmente conhecido como "baseado"

Maconha em formato “recreativo”, segundo os defensores da legalização, popularmente conhecido como “baseado”

Cerca de 300 pessoas participaram, no domingo (26), da terceira Marcha da Maconha em Fortaleza. A estimativa é da Polícia Militar. Nada tenho contra esses manifestante, que apenas exercem o direito à livre expressão, conforme entendimento do STF, desde que não incitem o consumo da droga, o que seria crime, conforme o artigo 33, § 2º da Lei 11.343.

Preocupados com a saúde e o bem-estar geral da humanidade, esses abnegados entusiastas da causa lutam pela legalização da maconha para uso medicinal e recreativo. Alguns certamente militam em causa própria, mas até onde se sabe, durante a passeata não deram efeito às suas, digamos, convicções. Os argumentos a favor e contra são muitos e estão aí na internet para quem quiser pesquisar.

Marcha dos inocentes admiradores da maconha

Todavia, faço aqui meu protesto contra o nome do evento: Marcha da Maconha. Maconha marcha? Não, quem marcha são as pessoas. Não gosto de nada que projete em coisas inanimadas comportamentos humanizados. O pessoal de marketing é craque nisso, mas é algo feito para induzir um comportamento, no caso, a compra de um produto, o que não combina com a intenção cívica dos manifestantes de “conscientizar” as pessoas.

Por isso, reproduzo trecho de post que escrevi no ano passado:

“Pessoalmente, prefiro chamar a marcha da maconha de “Marcha dos Maconheiros”,  não por provocação gratuita, mas por um motivo simples: maconha – a planta natural ou sua forma recreativa batizada de “baseado” – não marcha. Poderia chamá-la de Marcha dos Maconhados, mas aí estaria dizendo que os participantes estariam sob efeito da droga. Talvez de “Marcha dos Apologistas da Maconha”, o que seria arriscado, pois a apologia é crime. Portanto, com todo o respeito, opto pelo substantivo ‘maconheiro’ para me referir aos defensores da liberação desse entorpecente.”

Voltando ao presente, pensei melhor e percebi que os engajados defensores da maconha acreditam lutar por um mundo melhor. Pelo menos é o que afirmam. Mesmo não concordando com eles, lhes devo o crédito da boa intenção. Até dizem que legalizar a maconha é uma forma de acabar com o tráfico de drogas, coisa que não aconteceu em nenhum lugar onde o consumo dela tenha sido liberado. De qualquer forma, como por algum motivo a palavra “maconheiro” carrega uma conotação pejorativa, pensei em uma nova denominação: Marcha dos Inocentes Admiradores da Maconha. A expressão ainda tem o conveniente de não admitir uma relação mais íntima dos manifestantes com o mundo das drogas.

De todo modo, é uma sugestão despretensiosa, de caráter meramente restrito o campo da comunicação. É o meu direito ao uso da liberdade de expressão defendida pelos… andarilhos da Marcha da Maconha. Leia mais

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Ah, se o problema da segurança no Ceará fosse apenas denúncias de milícias…

Por Wanfil em Segurança, Tribuna Band News FM

25 de Maio de 2013

Meu comentário deste sábado na rádio Tribuna BandNews FM 101.7

Durante toda esta semana falamos sobre a questão da segurança pública, como parte da série especial Por um Ceará mais Seguro, do Sistema Jangadeiro.

As matérias mostraram que as autoridades da área estão cientes da gravidade da situação. Vimos ainda que outros estados conseguiram, com razoável sucesso, mobilizar a sociedade na tarefa de reduzir a criminalidade.

Mas, diante disso, fica a pergunta: O que falta então para fazer recuar a violência no Ceará?

Acusei aqui na coluna para a politização negativa desse debate, que acaba se perdendo em discussões sem efeito prático. Agora os responsáveis por garantir a segurança no estado pautam o problema a partir de denúncias de supostas milícias formadas por policiais militares, como se essa fosse a causa dos absurdos índices criminalísticos no estado.

Se existem milícias, que sejam investigadas, claro, e que seus membros sejam punidos, mas a verdade é que nem de longe essa será a solução para o descontrole que se vê nas ruas.

Em entrevista exibida aqui na Tribuna BandNews, o promotor de Justiça José Filho revelou que 92% dos assassinatos cometidos no estado não tem seus autores identificados. Ou seja, existe uma grave deficiência nos setores investigativos da polícia, falha que resulta em mais impunidade, em mais estímulo para os criminosos.

Esse é apenas um exemplo, entre tantos outros, de erros que podem ser estudados e devidamente corrigidos. Os desafios são grandes e se acumulam. As medidas adotadas até o momento não surtem efeito. E o pior é que, diante do agravamento da situação, boa parte das lideranças políticas do Ceará fecha os olhos para a realidade que os desafia e que assusta a população. Preferem acreditar que a gestão vai bem e que tudo não passa de intriga de adversários. Como diz o ditado, o pior cego é o que não quer ver.

Todas as matérias da série por um ceará mais seguro podem ser conferidas no site Tribuna do Ceará.

Para ouvir o comentário:

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Segurança Pública: bons exemplos não faltam

Por Wanfil em Segurança

23 de Maio de 2013

Aconteceu o indesejável, o tosco, o deplorável: o debate sobre a onda de criminalidade no Ceará perdeu qualquer sentido prático e descambou em baixaria infrutífera. No lugar da lógica, a confusão que turva a realidade. Autoridades, deputados e vereadores, abordam o tema, mas não como objeto de políticas públicas e sim como espetáculo de intrigas, sem que nada seja produzido ajuda para amenizar o problema.

Tudo isso apesar do clamor geral da população, do medo generalizado, das mortes e dos assaltos. O ex-governador Ciro Gomes e a deputada Patrícia Saboya se valem de xingamentos para criticar o vereador Capitão Wagner. Opositores do governo retrucam em linguagem parecida. É um festival de “picareta”, “marginal”, “desocupado”, entre outros adjetivos de igual qualidade. Produz-se assim um fogo sem calor e sem luz, mas que basta para encobrir a realidade e mudar o foco das discussões, enquanto o cidadão continua aí refém dos bandidos.

Direto ao ponto

As brigas que tomam o noticiário, fortes nas aparências mas vazias de conteúdo, contribuem para misturar alhos com bugalhos e diluir responsabilidades. E aí é preciso voltar à realidade: é dever do governo, nesse momento crítico, resgatar a razão e colocar o interesse público de volta no centro do debate. Nesse sentido, esse papel cabe ao próprio governador Cid Gomes. É dele que se espera um sonoro “por que não te calas?” dirigido aos que atrapalham a condução de uma saída para a situação que constrange seu governo e a sociedade.

Apesar de ver equívocos de lado a lado, não tomo partido, nem digo que o governo deva agir contra suas convicções ou que policiais esqueçam suas reivindicações. Agir assim seria repetir a tática dos brigões. Ressalto apenas que uma trégua temporária é uma necessidade diante do quadro crítico na segurança.

Bons exemplos de civilidade e eficácia

O tempo e a energia desperdiçados até agora poderiam ser utilizados na mobilização de uma ampla frente de combate ao crime. Exemplos não faltam, como mostra a série especial Por um Ceará mais Seguro, do Sistema Jangadeiro.

No Rio de Janeiro as Unidades de Polícia Pacificadora ocuparam territórios dominados por traficantes e implantaram um policiamento mais próximo da comunidade. Em entrevista à rádio Tribuna BandNews, o secretário de Segurança do Rio, José Beltrame, explicou que a operação envolveu o Ministério Público, o Judiciário, ONGs e associações de moradores.

Em Pernambuco os elevados índices de homicídios recuaram após uma ação que reuniu governo, Legislativo, Judiciário e sociedade civil. As forças policiais mapearam as regiões mais violentas de Recife e tiraram de circulação os elementos mais perigosos. Depois uma força-tarefa de 14 secretarias atuaram em cima de problemas sociais que fragilizavam essas regiões. (Sobre isso, recomendo o artigo Oito das tantas perguntas sobre a insegurança em Fortaleza, do jornalista Hélcio Brasileiro).

Em São Paulo o governo anunciou um plano de metas vinculado ao pagamento de prêmios aos policiais que conseguirem cumpri-las. Se vai dar certo ou não, isso é uma incógnita, e há quem o critique. Mas o fato é que lá, onde os índices são bem inferiores aos registrados no Ceará, as autoridades vieram a público dar algum encaminhamento à questão.

Trabalho conjunto

Em todos esses casos, o que fica evidente é que os esforços foram coordenados por seus governos estaduais e contaram com a consciência de que algumas situações exigem o pragmatismo da união de competências.

No Ceará, perde-se tempo, perdem-se vidas, perde-se paz. Bem vistos os exemplos acima, o governo cearense e seus aliados tem nas mãos carta branca da sociedade para agir, mas não sabe o que fazer com ela, ocupados que estão em brigas de comadres.

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Debate sobre segurança no Ceará não pode virar briga pessoal entre Ciro e Capitão Wagner

Por Wanfil em Segurança

21 de Maio de 2013

As acusações do ex-governador Ciro Gomes contra o vereador Capitão Wagner, pelas quais o parlamentar seria chefe de uma milícia criminosa, ofuscaram a notícia de que Fortaleza, segundo avaliação de risco divulgada pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin), é a cidade-sede mais perigosa para turistas na Copa das Confederações, no mês que vem.

Eis o único efeito prático da acalorada discussão entre essas duas figuras públicas: mudar o foco do noticiário. Se para os turistas a coisa não é boa, imagine para quem vive no local…

Não é impulso, é cálculo

Ciro é conhecido pelas declarações polêmicas e impulsivas, no entanto, essas últimas estão em perfeita sintonia com as recentes manifestações de outras autoridades do governo estadual, todas convergindo para a denúncia de supostos interesses políticos na área de segurança, numa sincronia que não pode ser creditada ao acaso, mas que antes revela método e cálculo nessas abordagens.

O próprio governador Cid Gomes e o secretário de Planejamento Eduardo Diogo já disseram que uma greve de policiais militares será punida com a prisão dos envolvidos, no que agora são repetidos por Ciro, com o seu peculiar estilo de sempre: “cabeças rolarão”.

Diogo estreitou o alvo para “meia dúzia” de líderes. Ciro agora aponta Wagner como a cabeça por trás de uma espécie de complô contra o governo estadual, mas não apresenta provas para os crimes que denuncia. Assim, além de mudar o enfoque e de colocar em pauta a versão do governo para os problemas de segurança, as intervenções de Ciro ainda possuem a vantagem adicional de preservar a imagem de Cid, principal autoridade responsável por dar respostas a eles.

Em resposta, Wagner afirma que irá acionar a Justiça e chama Ciro, nas redes sociais, de “comentarista esportivo” e de “desequilibrado”, na intenção de desqualificá-lo para o debate, sem atentar para o fato de que o ex-ministro não possui cargo no governo, o que bastaria para evitá-lo como interlocutor.

De tudo isso, temos os seguintes resultados:

a) a impressão de que o problema da explosão de criminalidade no Ceará não passa de uma briga entre policiais e o irmão do governador, ou seja, uma questão meramente pessoal, destituída de qualquer conteúdo mais profundo;

b) a fuga do que realmente interessa tratar: formas de recuar os índices de violência que avançam e que já colocam o Ceará como o estado mais violento do Nordeste;

c) a decomposição da autoridade do secretário efetivo de Segurança, coronel Francisco Bezerra, diante do protagonismo de Ciro, que passa a atuar como um secretário informal da pasta.

Enquanto eles brigam, perdemos a guerra

Não quero menosprezar os riscos desse impasse entre a cúpula do governo e os policiais militares. Nem sequer entro no mérito da questão, pois, a essa altura, pouco importa ao cidadão quem tem razão. Parece estranho dizer isso, mas é a verdade. Seria como ver o país ser invadido por um exército inimigo enquanto lideranças civis e militares permanecessem inertes, ocupadas demais em trocar acusações entre si.

Os gravíssimos problemas de segurança pública no Ceará e a falta de eficácia das medidas adotadas nos últimos anos não podem ser resolvidos a partir das premissas colocadas na briga entre Ciro Gomes e Capitão Wagner. Nada disso mudará a constatação de que a situação aqui é crítica, fato, inclusive, que já ultrapassa as fronteiras do Estado, tornada pública até pela Abin.

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A eterna dependência dos ‘viciados’ no Bolsa Família

Por Wanfil em Brasil

20 de Maio de 2013

"Mas doutô uma esmola a um homem qui é são, ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão". Luís Gonzaga - Vozes da Seca

“Mas doutô uma esmola a um homem qui é são, ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão”. Luíz Gonzaga – Vozes da Seca

Assim como viciados que temem perder os psicotrópicos dos quais dependem entram em estado de pânico, miseráveis cadastrados no programa Bolsa Família se desesperaram com os boatos de que os repasses desses recursos seriam suspensos. A analogia com as drogas não é literal e possui limites: não se trata da dependência química que escraviza o corpo, mas da sujeição psicológica que limita a autonomia dos indivíduos.

A reação dos beneficiários do programa (foram registrados tumultos em 34 agências somente no Ceará) revela o nível de subordinação desses grupos em relação ao Estado brasileiro. Sem a benesse, o desespero vigora, não sem razão, especialmente no Nordeste, onde a pobreza é maior e a seca castiga a região.

Se a pobreza diminui, por que o Bolsa Família cresce tanto?

Mas por que tanto receio, se uma sucessão de governos, desde Fernando Henrique, passando por Lula e chegando à Dilma, não cansa de comemorar recordes na geração de empregos e na redução da pobreza? Se tudo melhorou, como explicar que o número de pessoas assistidas pelo Bolsa Família não para de crescer? Em 2013, serão 50 milhões de pessoas. Vamos às respostas.

Em primeiro lugar, se por um lado o Bolsa Família é indiscutivelmente importante para mitigar o estado de pobreza de milhões de famílias, por outro é um poderoso instrumento eleitoreiro. Voltando à analogia com as drogas, assim como um traficante oferece seu produto gratuitamente no início para viciar seu cliente e só então lhe impor preços cada vez maiores, os governantes oferecem dinheiro de graça para as pessoas para depois cobrar-lhes a ‘caridade’ com pedidos de votos, sob a insinuação de que sem isso a ajuda acaba. Para completar, como dizia o jornalista Themístocles de Castro, quem distribui dinheiro será sempre popular. Nessa equação, o medo e a gratidão se convertem em votos.

Deriva disso, em segundo lugar, que se essa relação de dependência é benéfica aos governos, interessa pois mantê-la pelo maior tempo possível. É melhor um eleitor grato e temeroso de perder a ajuda oficial do que um que consiga viver do próprio trabalho. Em resumo, o que vendem como solução para a pobreza não passa de um paliativo que ameniza os seus efeitos mais imediatos, sem atingir-lhe as causas principais.

Cultura paternalista

Teoricamente, o Bolsa Família e outros programas de mesma inspiração deveriam servir como compensação para as vítimas de uma exclusão social histórica, enquanto as gerações seguintes são preparadas para ter, finalmente, a sonhada autonomia financeira. Mas no Brasil essa lógica foi invertida e criamos uma legião de dependentes da ajuda do papai-estado que já acredita serem credora de um direito natural e não beneficiária de uma ajuda temporária. E uma vez eliminada a gratidão das primeiras gerações, seus descendentes, estagnados na condição de pedintes reféns dos governos, cultivarão ressentimentos profundos que podem muito bem ser canalizados em espasmos de violência gratuita. Aliás, já estamos observando esse fenômeno, basta ver o crescimento da criminalidade juvenil.

Essa condição avilta o espírito porque, como eu disse, escraviza a vontade. O governo rapidamente veio a público garantir que os benefícios estão mantidos, com aquele tom de benfeitor infalível típico de uma cultura política paternalista como a brasileira.

O Bolsa Família não vai acabar porque é instrumento útil nas eleições. Porque é solução simples e barata. Porque vicia o cidadão e os governantes. Os efeitos dessa adulteração podem ser camuflados por um tempo, mas não para sempre.

PS. O governo afirmar que investigará de onde partiram os boatos. Muitas são as possibilidades. Nesses casos, sempre me pergunto: quem se beneficia com o medo que se espalhou? E depois completo: Quem aparece como fiador da estabilidade?

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Governador, os inimigos não são os policiais, são os bandidos! Ou: Contando os mortos

Por Wanfil em Segurança, Tribuna Band News FM

16 de Maio de 2013

Meu comentário desta quinta na rádio Tribuna BandNews FM 101.7

Na noite da última segunda-feira (13) um estudante universitário foi assassinado vítima de uma tentativa de assalto no bairro Luciano Cavalcante, em Fortaleza.

Diariamente, assistimos impotentes a escalada da violência no Ceará.  Cada vez mais novas tragédias são registradas, mais vidas são interrompidas, de tal modo que nos resta somente conferir, incrédulos, a contagem de mortos subir assustadoramente, como só se vê nas guerras.

De acordo com dados divulgados ontem (15) pela Secretaria de Segurança, 1.356 pessoas foram assassinadas no Ceará somente nos quatro primeiros meses do ano. Na capital, foram registrados 661 homicídios, o que corresponde a um aumento de 30% na comparação com o ano passado.

Enquanto isso, o Governo do Estado anuncia as negociações com as associações de policiais militares estão encerradas, criando um impasse de consequências imprevisíveis, entre as quais, uma nova greve da PM.

Pior ainda é ver as autoridades responsáveis pela área dizerem que o descontentamento da corporação inteira é obra de apenas meia dúzia de líderes que agem para atingir politicamente o governo.

A essa altura, fechar os olhos e os ouvidos para as reivindicações dos policiais e subestimar a insatisfação generalizada que os motiva apenas revela que o comando não sabe o que fazer para resolver o problema, deixando no ar, de quebra, a suspeita de que o que está ruim pode piorar.

O momento deveria ser de apaziguamento, de diálogo, de humildade para reconhecer falhas, de revisão de estratégias e de novas propostas! É preciso lembrar o governo de que o seu verdadeiro inimigo não são os policiais, mas os bandidos! Eles é que precisam “sentir o braço firme da lei”.

Portanto, agir para criar mais impasses e constrangimentos, desmotivando ainda mais as forças de seguranças, e justo quando a criminalidade explode, é de uma irresponsabilidade que somente poderá ser medida na macabra contagem de mortos que não para de subir. Mas aí poderá ser tarde demais para qualquer um de nós ou de nossos amigos e familiares.

Para ouvir o comentário:

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Deputados estaduais querem mobilização por refinaria no Ceará: ora senhores, cobrem Lula e Dilma!

Por Wanfil em Ceará

14 de Maio de 2013

É perfeitamente natural e desejável um governo ter a aspiração de ter uma refinaria de petróleo no Ceará. Foi com esse objetivo que muitas obras de infraestrutura foram desenvolvidas, a começar pelo Porto do Pecém.

Dadas as condições básicas para tocar o projeto e após idas e vindas, o ex-presidente Lula, ainda na gestão do ex-governador Lúcio Alcântara, veio ao Ceará garantir que a Petrobras materializaria o sonho. O tempo passou e, com todos sabem, o projeto é cronicamente adiado, muito embora em períodos eleitorais a refinaria apareça como realidade inquestionável, favas contadas e, pasmem!, promessa que está sendo cumprida dentro de um cronograma malandro e elástico o suficiente para fazer de uma pedra fundamental (pois é, lançaram a pedra fundamental de uma obra que não existe) a prova máxima de confiança da qual ninguém pode duvidar.

Já escrevi em artigos de jornal que a diferença entre Lula e Zé do Burro, personagem da peça O Pagador de Promessas, é que este levava a sério a palavra empenhada, ainda que isso lhe custasse a vida, enquanto aquele sabe que não precisa se comprometer com as esperanças que vende para ter assegurado a grande maioria dos votos no Ceará.

Tapeação

Diante de todas as provas e evidências de que os cearenses foram tapeados no caso da refinaria, o deputado Zezinho Albuquerque, presidente da Assembleia Legislativa, anunciou a criação de uma campanha em defesa da refinaria da Petrobras no Ceará.

Desde já, sinto dizer que tudo não passa de encenação para consumo interno, com o objetivo de passar a impressão de que nossos representantes são altivos defensores dos interesses do estado. Tanto é que o objetivo declarado da campanha não é de cobrar que fez a promessa, mas de “mobilizar” a sociedade cearense para a importância do petróleo. Quem precisa disso? Acaso alguém imagina que petróleo é supérfluo?

Sem contar ainda que o assunto não é da esfera do legislativo estadual. Mesmo assim, levando em consideração que o parlamento não faria movimentações como essas sem o aval do governador Cid Gomes, se quisessem mesmo pressionar o governo federal a agir, os representantes cearenses poderiam agir em conjunto e optar por ações mais contundentes. Segue, abaixo, algumas sugestões do blog que certamente teriam muito mais impacto do que conversas comportadas e recados velados:

1) Os deputados estaduais viriam a público dizer em alto e bom som que Lula e Dilma sabem vir ao Ceará pedir votos, mas não cumprem o que prometeram aos cearenses;

2) a bancada federal passaria a votar sistematicamente contra o governo até que a promessa fosse atendida;

3) aliados do governo federal no estado entregariam todos os cargos e;

4) com uma dose extra de maquiavelismo o próprio governador Cid Gomes começaria a elogiar o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, estado que aliás tem uma refinaria da Petrobras.

Sem dar nome aos bois, sem cobrar responsabilidades, sem demonstrar que o Ceará tem orgulho e que não aceita ser tratado como pedinte, campanhas como essa da Assembleia Legislativa não passam de factóides destinados a manter as aparências para deixar tudo como está.

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A desconfiança mútua entre comandantes e comandados só piora a crise de segurança no Ceará

Por Wanfil em Segurança

13 de Maio de 2013

Os problemas atualmente constatados na área de Segurança Pública no Ceará já configuram, para análises futuras de historiadores, uma página de constrangedora ironia para um governo que ascendeu ao poder justamente prometendo um policiamento mais eficaz e humano, o que pressupõe uma relação harmônica entre o Estado e as suas forças policiais. Apesar dos investimentos e das boas intenções, aconteceu o contrário: as relações entre as partes degeneraram a ponto de não haver mais tempo hábil para uma conciliação até o final da atual gestão, isso num ambiente onde os índices de criminalidade registram inédito aumento na criminalidade.

Canais obstruídos

A situação é de tal maneira inusitada que o governador Cid Gomes se comprometeu a receber um grupo formado por esposas de policiais militares para uma audiência de reivindicações, após elas terem realizado mais um protesto em Fortaleza. Cid as receberá, contudo, desde que novas manifestações não aconteçam e com a ressalva de que qualquer menção a uma nova greve da polícia será devidamente tratada como motim, o que me parece lógico.

Por outro lado, e em sentido contrário, o deputado Capitão Wagner, eleito após se notabilizar na greve da PM em 2012, diz que os militares não são recebidos pelo secretário Francisco Bezerra e já fala em possibilidade de nova paralisação, o que soa, por mais que ele negue, uma ameaça.

É evidente que o canal de diálogo entre comandados e comandantes está obstruído, de tal modo que é preciso se valer das esposas dos membros da categoria para tentar alguma conversação. Ora, elas não constam dos quadros das forças policiais e não são servidoras do Estado, portanto, qualquer acordo fechado com elas necessita não possuirá validade legal. Mais do que isso, a situação revela que a autoridade do governo sobre as forças policiais não existe mais, o que abre as portas para o imprevisível.

O preceito do interesse público

Nesse imbróglio, existem questões pertinentes que devem ser observadas, mas que demandariam um texto mais longo, o que não é o caso agora. Temas como hierarquia militar, planejamento orçamentário, eficácia gerencial, doutrina de segurança estabelecida em metas, legislação, condições de trabalho para o efetivo policial, entre outros. Tudo, no entanto, é bom lembrar, deve estar subordinado a um preceito elementar: o interesse público na preservação da ordem e da segurança da população.

O governo deveria desobstruir os canais de diálogos e se mostrar aberto a ouvir críticas e sugestões, mas se fecha desconfiado. Da mesma forma, policiais deveriam ir para a mesa de negociação desarmados (no sentido figurado), dispostos a entender eventuais limitações do poder público, cientes ainda de que, na condição de militares, existem limites legais para suas formas de reivindicação. Sobretudo, as partes precisam se respeitar para que a situação da segurança pública, que é responsabilidade de ambos, não deteriore ainda mais.

O inaceitável é a aposta, dos dois lados, de que o medo das pessoas possa servir de instrumento de pressão política.

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A desconfiança mútua entre comandantes e comandados só piora a crise de segurança no Ceará

Por Wanfil em Segurança

13 de Maio de 2013

Os problemas atualmente constatados na área de Segurança Pública no Ceará já configuram, para análises futuras de historiadores, uma página de constrangedora ironia para um governo que ascendeu ao poder justamente prometendo um policiamento mais eficaz e humano, o que pressupõe uma relação harmônica entre o Estado e as suas forças policiais. Apesar dos investimentos e das boas intenções, aconteceu o contrário: as relações entre as partes degeneraram a ponto de não haver mais tempo hábil para uma conciliação até o final da atual gestão, isso num ambiente onde os índices de criminalidade registram inédito aumento na criminalidade.

Canais obstruídos

A situação é de tal maneira inusitada que o governador Cid Gomes se comprometeu a receber um grupo formado por esposas de policiais militares para uma audiência de reivindicações, após elas terem realizado mais um protesto em Fortaleza. Cid as receberá, contudo, desde que novas manifestações não aconteçam e com a ressalva de que qualquer menção a uma nova greve da polícia será devidamente tratada como motim, o que me parece lógico.

Por outro lado, e em sentido contrário, o deputado Capitão Wagner, eleito após se notabilizar na greve da PM em 2012, diz que os militares não são recebidos pelo secretário Francisco Bezerra e já fala em possibilidade de nova paralisação, o que soa, por mais que ele negue, uma ameaça.

É evidente que o canal de diálogo entre comandados e comandantes está obstruído, de tal modo que é preciso se valer das esposas dos membros da categoria para tentar alguma conversação. Ora, elas não constam dos quadros das forças policiais e não são servidoras do Estado, portanto, qualquer acordo fechado com elas necessita não possuirá validade legal. Mais do que isso, a situação revela que a autoridade do governo sobre as forças policiais não existe mais, o que abre as portas para o imprevisível.

O preceito do interesse público

Nesse imbróglio, existem questões pertinentes que devem ser observadas, mas que demandariam um texto mais longo, o que não é o caso agora. Temas como hierarquia militar, planejamento orçamentário, eficácia gerencial, doutrina de segurança estabelecida em metas, legislação, condições de trabalho para o efetivo policial, entre outros. Tudo, no entanto, é bom lembrar, deve estar subordinado a um preceito elementar: o interesse público na preservação da ordem e da segurança da população.

O governo deveria desobstruir os canais de diálogos e se mostrar aberto a ouvir críticas e sugestões, mas se fecha desconfiado. Da mesma forma, policiais deveriam ir para a mesa de negociação desarmados (no sentido figurado), dispostos a entender eventuais limitações do poder público, cientes ainda de que, na condição de militares, existem limites legais para suas formas de reivindicação. Sobretudo, as partes precisam se respeitar para que a situação da segurança pública, que é responsabilidade de ambos, não deteriore ainda mais.

O inaceitável é a aposta, dos dois lados, de que o medo das pessoas possa servir de instrumento de pressão política.