01/03/2013 - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

01/03/2013

Um amálgama chamado Lula

Por Wanfil em Política

01 de Março de 2013

Lula é a nova síntese de uma tradição política capaz de conciliar o que parece inconciliável. É o Sarney do século 21. Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula

Lula é a nova síntese de uma tradição política capaz de conciliar o que parece inconciliável. É o Sarney do século 21. Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula

Dicionário Priberam: Amálgama [Figurado] – Junção de vários elementos.

Durante evento realizado pelo Partido dos Trabalhadores em Fortaleza na quinta-feira, a ex-prefeita Luizianne Lins (PT) declarou, diante do ex-presidente Lula, que seu maior erro político foi ter um dia confiado no ex-aliado Cid Gomes, do PSB.

O arroubo não teve efeito prático maior do que uma automassagem no ego dos que perderam as últimas eleições na capital cearense. Na prática, Cid e Luizianne, ainda que constrangidos, continuam no mesmo time: a base aliada do projeto de poder capitaneado por Lula.

Aliados circunstanciais

Chega a ser aborrecido falar sobre essas constantes e recentes trocas de farpas. Se existe uma aliança que nasceu condenada foi essa. Um lado nunca confiou no outro.

Descontadas as devidas diferenças de importância histórica, por mais de uma vez comparei essa parceria com o pacto Molotov-Ribbentrop, celebrado entre nazistas e comunistas no início da Segunda Guerra Mundial. Os dois lados tinham  inimigos e pontos comuns, mas o desejo de conquista de ambos fatalmente os faria romper. A questão sempre foi saber quem seria o primeiro a trair o aliado.

A eterna conciliação

No entanto, é preciso considerar um elemento intrinsecamente brasileiro nessa história. É a tradição de não levar um rompimento às últimas consequências, a eterna busca pelo consenso, deixando de lado qualquer princípio ou convicção. Essa é a nossa tradição política mais duradoura (essa tese é bem desenvolvida por Paulo Mercadante em A consciência conservadora no Brasil).

No século 20, talvez o maior expoente dessa característica nacional tenha sido o ex-presidente José Sarney. Nesse início do século 21, já é possível dizer que o ex-presidente Lula figura como síntese e emblema personificado desse modelo político, capaz de seduzir e reunir todo o tipo de gente, desde que isso sirva à manutenção do poder.

Isso não é criação ou exclusividade de Lula. Collor não quis dividir as benesses do poder com os donos do poder. Terminou expulso. Fernando Henrique Cardoso surgiu como uma inteligência capaz de enfraquecer esse processo histórico, mas fracassou. Sua base de apoio é a mesma de Dilma, descontada os partidos de esquerda. Lula então prometia um rompimento com as forças tradicionais da política que nunca aconteceu.

O novo que é o velho

A visita de Lula ao Ceará ressalta nossa infinita capacidade de conciliar o que parece inconciliável. Cid e Luizianne apenas repetem uma cena comum nos últimos anos: inimigos que engolem o próprio orgulho para se unirem em reverência ao líder do momento. Assim é que, divergências pontuais à parte, a base de Lula no Ceará é aliada direta de Renan Calheiros, Paulo Maluf, Carlos Lupi, José Dirceu, Collor de Mello, Jáder Barbalho, Romero Jucá, entre outros menos notórios. Podem até criticá-los, mas estão juntos.

Lula é o Sarney do século 21, com a força adicional do engajamento de setores ideologizados da sociedade civil.

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Ação quer impedir construção de estátua de santa no Crato. Sou contra.

Por Wanfil em Ceará

01 de Março de 2013

Parece fácil traçar uma linha separando completamente Estado e religião. A moral religiosa está inserida até nas leis, e isso não é ruim.

Parece fácil traçar uma linha separando completamente Estado e religião, mas isso é uma ilusão. É que não existe sociedade laica.

Pelo Twitter perguntam o que penso da seguinte notícia: Ministério Público tenta impedir construção de monumento religioso com dinheiro público no Crato. Para quem é de fora, Crato fica na região sul do Ceará, conhecida como Cariri, e é vizinha à cidade de Juazeiro do Norte, conhecida pela romaria de devotos do padre Cícero, que nem santo é, mas que tem uma estátua de grande estatura.

Religião X Estado laico

Não vou me ater a questões de cunho jurídico ou administrativo eventualmente presentes no caso. Se existem pendências ou desconfianças sobre a lisura do empreendimento, que se faça rigorosa investigação. No entanto, a Procuradoria de Justiça, de acordo com notícia publicada no blog Polítika, entende que “o fato de ser utilizado recurso público para a construção de monumento com cunho religioso ‘lesa frontalmente’ o Estado Democrático de Direito”. Esse é o ponto que me interessa: a interpretação sobre o caráter do Estado laico. É uma questão delicada. Não faz muito tempo, quando um procurador quis retirar a expressão “Deus seja louvado” das cédulas de real, escrevi o post Estado laico é diferente de ateísmo oficial, cujo trecho reproduzo:

Com efeito, Estado laico é aquele que não permite que perseguições sejam feitas em nome de uma religião ou de uma crença. Essa concepção não corresponde a um suposto Estado ateu ou agnóstico, que nega, prescinde ou mesmo despreza a dimensão espiritual de seu povo. (…)  Sim, o Estado brasileiro é laico, não tem religião oficial, mas não renega a importância da religiosidade como traço inerente à cultura nacional.

Indo um pouco mais além, o Estado nem sequer obriga que as pessoas tenham religião, como já aconteceu no passado ou como acontece hoje em algumas teocracias orientais. A rigor, é impossível imaginar uma separação completa entre religião e o aparelho secular, pois estes estão umbilicalmente ligados. Praticamente todos os preceitos morais que norteiam a legislação possuem gênese nos códigos religiosos. Seria o caso de revogar a pretensão igualitária, conceito de inspiração cristã, de nossa Constituição?

Aspectos históricos, sócio-culturais e econômicos

Mas Wanfil, você está exagerando. Uma coisa é o aspecto filosófico de uma lei, outra é gastar dinheiro público com uma estátua de Nossa Senhora de Fátima. Certo, Vamos lá. Ninguém gosta de ver seus impostos aplicados em obras cujas justificativas que não lhes dizem respeito. Eu, por exemplo, não concordo com a realização da Copa no Brasil e não ando em estádios, mas mesmo assim patrocinei a construção do novo Castelão, em Fortaleza. Prevaleceram a vontade da maioria, o interesse econômico, incluindo aí o incremento do  fluxo turístico, e a questão cultural: futebol é a maior religião pagã do Brasil.

No Carnaval (festa da qual não gosto), dinheiro público financia desfiles que celebram personagens e crenças de religiões de origem africana. Seria o caso de vigiar o conteúdo dos enredos? O mesmo se dá com o Natal, quando as cidades se enfeitam. O que parece simples, como vemos, vai se complicando. O que vale, nessas ocasiões, é fazer do evento algo que seja de interesse geral, dentro das melhores práticas econômicas, sociais e administrativas. Leia mais

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Ação quer impedir construção de estátua de santa no Crato. Sou contra.

Por Wanfil em Ceará

01 de Março de 2013

Parece fácil traçar uma linha separando completamente Estado e religião. A moral religiosa está inserida até nas leis, e isso não é ruim.

Parece fácil traçar uma linha separando completamente Estado e religião, mas isso é uma ilusão. É que não existe sociedade laica.

Pelo Twitter perguntam o que penso da seguinte notícia: Ministério Público tenta impedir construção de monumento religioso com dinheiro público no Crato. Para quem é de fora, Crato fica na região sul do Ceará, conhecida como Cariri, e é vizinha à cidade de Juazeiro do Norte, conhecida pela romaria de devotos do padre Cícero, que nem santo é, mas que tem uma estátua de grande estatura.

Religião X Estado laico

Não vou me ater a questões de cunho jurídico ou administrativo eventualmente presentes no caso. Se existem pendências ou desconfianças sobre a lisura do empreendimento, que se faça rigorosa investigação. No entanto, a Procuradoria de Justiça, de acordo com notícia publicada no blog Polítika, entende que “o fato de ser utilizado recurso público para a construção de monumento com cunho religioso ‘lesa frontalmente’ o Estado Democrático de Direito”. Esse é o ponto que me interessa: a interpretação sobre o caráter do Estado laico. É uma questão delicada. Não faz muito tempo, quando um procurador quis retirar a expressão “Deus seja louvado” das cédulas de real, escrevi o post Estado laico é diferente de ateísmo oficial, cujo trecho reproduzo:

Com efeito, Estado laico é aquele que não permite que perseguições sejam feitas em nome de uma religião ou de uma crença. Essa concepção não corresponde a um suposto Estado ateu ou agnóstico, que nega, prescinde ou mesmo despreza a dimensão espiritual de seu povo. (…)  Sim, o Estado brasileiro é laico, não tem religião oficial, mas não renega a importância da religiosidade como traço inerente à cultura nacional.

Indo um pouco mais além, o Estado nem sequer obriga que as pessoas tenham religião, como já aconteceu no passado ou como acontece hoje em algumas teocracias orientais. A rigor, é impossível imaginar uma separação completa entre religião e o aparelho secular, pois estes estão umbilicalmente ligados. Praticamente todos os preceitos morais que norteiam a legislação possuem gênese nos códigos religiosos. Seria o caso de revogar a pretensão igualitária, conceito de inspiração cristã, de nossa Constituição?

Aspectos históricos, sócio-culturais e econômicos

Mas Wanfil, você está exagerando. Uma coisa é o aspecto filosófico de uma lei, outra é gastar dinheiro público com uma estátua de Nossa Senhora de Fátima. Certo, Vamos lá. Ninguém gosta de ver seus impostos aplicados em obras cujas justificativas que não lhes dizem respeito. Eu, por exemplo, não concordo com a realização da Copa no Brasil e não ando em estádios, mas mesmo assim patrocinei a construção do novo Castelão, em Fortaleza. Prevaleceram a vontade da maioria, o interesse econômico, incluindo aí o incremento do  fluxo turístico, e a questão cultural: futebol é a maior religião pagã do Brasil.

No Carnaval (festa da qual não gosto), dinheiro público financia desfiles que celebram personagens e crenças de religiões de origem africana. Seria o caso de vigiar o conteúdo dos enredos? O mesmo se dá com o Natal, quando as cidades se enfeitam. O que parece simples, como vemos, vai se complicando. O que vale, nessas ocasiões, é fazer do evento algo que seja de interesse geral, dentro das melhores práticas econômicas, sociais e administrativas. (mais…)