Março 2013 - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

Março 2013

Sobre Judas e o preço da traição nos dias de hoje

Por Wanfil em Crônica

30 de Março de 2013

A captura de Cristo - por Caravaggio (1602). O Beijo de Judas durante a Prisão de Jesus. No passado, a traição como crime imperdoável, no presente da política nacional, é garantia de sucesso.

A captura de Cristo – pintura de Caravaggio (1602). O beijo de Judas durante a prisão de Jesus. No passado, a traição vista como crime imperdoável, no presente da política nacional, é garantia de sucesso.

A Semana Santa é uma celebração que, a exemplo do Natal, tem Jesus Cristo por figura principal. No entanto, nesse feriado, o protagonismo do enredo religioso é dividido, por contraste, com o vilão Judas Iscariotes, o apóstolo que traiu Cristo por 30 dinheiros e que por isso há dois mil anos é queimado pelos cristãos.

Desvio rápido

Faço aqui um breve desvio. Na perspectiva formal da técnica narrativa da história de Jesus, Judas cumpre uma missão singular e fundamental, que é a de conferir uma carga dramática adicional e um sentido aos eventos finais da vida do Salvador.  Sem a fraqueza de Judas não haveria o a paixão e o sacrifício de Cristo, peças fundamentais para a estruturação da liturgia e teologia católica. Sem o episódio da traição, Jesus não teria como oferecer a Deus o seu martírio pela salvação dos homens.

Judas poderia ter escolhido a lealdade e o caminho da fé? Pelo princípio do livre arbítrio, sim. Mas se o fizesse, como ficaria a previsão de Jesus, pela qual um dos seus que ali estavam o entregaria aos romanos? De qualquer forma, coube a Judas realizar a profecia, para depois então, atormentado, cometer o suicídio. No fim, não deixa de ser paradoxal: sem Judas não haveria Semana Santa.

A simbologia da traição

Deixando essas ponderações de lado e voltando ao roteiro inicial do raciocínio que me fez escrever este post, fico a pensar no valor simbólico de Judas em nossa cultura atual, especialmente no campo da política, onde a traição é quase uma regra.

Se no plano religioso Judas encarna o repúdio ao que é vil e desonesto, no plano material da vida secular essa aversão não se incorporou, pelo menos entre nós brasileiros, como um valor moral de amplo espectro, capaz de atuar ativamente sobre outras esferas da vida comum. Na verdade, costumamos a ser bem tolerantes com certos vícios, alguns dos quais apelidamos carinhosamente de “jeitinho”.

Quantos traidores não estão por aí alegres e faceiros, muito bem colocados nos mais altos postos da República e do Estado, vendendo diariamente a confiança que lhes fora depositada pelos eleitores? Na Assembleia Legislativa do Ceará, por exemplo, deputados diretamente envolvidos em escândalos de fraudes e desvios de verbas destinadas à população mais pobre não apenas continuam a ser eleitos e reeleitos, mas gozam de prestígio incomum. Em Brasília, uma figura basta para personalizar, como síntese, a apoteose de crimes que prospera na vida pública nacional: Renan Calheiros. Não é o único, mas é o mais bem sucedido.

Existem ainda as traições de valor intelectual e ideológico, perfeitamente representadas na pessoa do ex-presidente Lula da Silva, o socialista (construção forçada) que, uma vez eleito, aderiu a tudo quanto criticava, de questões econômicas a condutas éticas. Ao contrário da saga cristã, a traição faz bem aos políticos brasileiros

Judas e os traidores do presente

Não podemos generalizar, claro, mas são muitos os que agem assim sem que nada façamos para queimá-los na fogueira do repúdio ao que é imoral. Pelo contrário, não é incomum a crucificação dos mais honestos, nessa terra de traidores, romanos e os fariseus.

Comentei na rádio Tribuna BandNews sobre os muitos Judas que atuam no presente. Mas agora, ao traçar estas linhas, mudei de ideia. A comparação entre o apóstolo caído e os farsantes de hoje é uma injustiça com o primeiro. É que com seu ato deplorável, Judas Iscariotes acabou por contribuir, ainda que por caminhos tortos, com a consolidação da doutrina cristã, e uma vez arrependido do mal que praticou, penitenciou a si mesmo com a mais dura das penas. Já da roubalheira de verbas públicas que se fez cultura nacional, nada de positivo se aproveita ou se levanta, nem mesmo a indignação de quem é roubado. Não há arrependimentos e muito menos punições exemplares. Entre nós, não há redentores.

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Dona Maria da Conceição: “Eu acho que nós vamos morrer de sede ou de fome”

Por Wanfil em Ceará

27 de Março de 2013

Senso de urgência: As vítimas da seca são prioridade somente em tempo de eleição.

Senso de urgência: As vítimas da seca são prioridade somente em tempo de eleição.

Dia 2 de setembro de 2010 – A propaganda eleitoral da candidata Dilma Rousseff apresenta, a partir dos seis minutos de exibição, o testemunho do operário Ivanilson Torres, direto da transposição do Rio São Francisco: Com essa obra aqui, a gente vai ter água pros animais, vai ter água pra beber, água pra tomar banho, e também poder plantar alguma coisa. Eu quero parabenizar o nosso presidente… né? E quero dizer que Deus continue abençoando ele, dando força, porque é um orgulho. É um orgulho… [começa a chorar] É um orgulho pra nós aqui! Senhor Presidente, que Deus te abençoe e lhe dê graça pro senhor continuar trabalhando, porque o teu povo precisa disso, essa obra”. Para conferir o vídeo original, clique aqui.

A obra, que promete levar água para 12 milhões de pessoas, como todos sabem, não ficou pronta. Aliás, está mais do que atrasada, dobrou de valor e é alvo de investigações de desvios de verba. Dilma foi eleita.

Dia 26 de março de 2013 – O Jornal Jangadeiro exibe a série especial Vidas Secas. Na matéria do dia, duas senhoras que vivem no semi-árido cearense são ouvidas. A dona de casa Josilene Duarte relata, aos 38 segundos de vídeo, a realidade que vive: “Está sendo difícil, viu. Porque nós estamos praticamente tirando [comida] da boca pra poder comprar água pra nós, fora essa água aqui [do carro-pipa].

No final, a partir de 1 minuto e 56 segundos, a aposentada Maria da Conceição lamenta: “Eu era moça, bem novinha. Aí nós viemos da Itapipoca pra cá, pra nós não morrer de sede e de fome. E agora tamo aqui… Eu acho que nós vamos morrer de sede ou de fome.

Confira a matéria:

 

O contraste entre o testemunho da propaganda eleitoral, peça de tom paternalista na qual o choro do operário sugere um dever de subserviente gratidão, e as entrevistadas da matéria jornalística que revela as agruras da seca no Nordeste, não pode ser mais revelador. De um lado, o anúncio de novos amanhãs retumbantes, do outro, a velha realidade de descaso e abandono.

A diferença entre pedir favor e cobrar dívidas

O governador Cid Gomes pretende tratar com a presidente Dilma sobre ações de combate aos efeitos da estiagem. Há o risco iminente de colapso no abastecimento de água em grandes cidades do interior. Apesar da urgência do problema, Dilma conversará com o governador somente depois do feriado da Semana Santa, como se aquelas senhoras que temem a ameaça da sede e da fome pudessem esperar. Como se milhões não estivessem na mesma situação delas.

É o seguinte: catástrofes naturais costumam a causar comoção pública porque são repentinas e impactantes. Já a seca mata lenta e silenciosamente, característica incapaz de fazer brotar em nossos digníssimos gestores o sentimento de urgência que deveria angustiá-los nesse momento. Como isso não acontece, as pessoas sofrem e morrem longe, sem direito a vez e voz.

Não falo de obras de prevenção, que isso é outro assunto, mas de ações imediatas. Em Itapajé, cidade onde a reportagem foi feita, há um açude cuja construção foi concluída em janeiro passado, mas está vazio, pois o rio que o abasteceria secou. Portanto, não adianta prometer barragens, cisternas e coisas do tipo. É preciso água!

Seca de coragem

É bom lembrar que  Cid não tem que pedir favor à presidente Dilma, que em 2010 soube vir ao Ceará pedir votos. Trata-se de COBRAR medidas de curto prazo, uma vez que as promessas feitas não foram cumpridas. O velho ACM era assim, um aliado útil, desde que a sua Bahia não ficasse em segundo plano. Portanto, é hora do governador esquecer os salamaleques eleitorais e falar grosso com a presidente.

Mas Cid não tem que fazer isso sozinho. Onde estão os senadores do Ceará? Por que não denunciam tamanho descaso? E os deputados federais, por que não cobram o governo federal? Porque não param de votar qualquer medida, especialmente as de interesse da presidente, até que algo de efetivo seja feito? Se pelo menos houvesse uma oposição para denunciar essa pasmaceira… Não é de admirar que a mulher seja popular: falta brio para cobrarem as obrigações inerentes ao cargo e as promessas que ela fez.

Como eu disse em minha coluna na rádio Tribuna Band News, a seca é um fenômeno natural e previsível, mas a falta de ações concretas e emergenciais é falha dos governantes e das autoridades que nos representam.

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A abolição no Ceará e as novas formas de escravidão do presente

Por Wanfil em Ceará, História

25 de Março de 2013

Comentário que fiz para a minha coluna na Tribuna BandNews FM 101.7 sobre o dia da abolição no Ceará.

São fortes as correntes do atraso, da miséria, das drogas e da corrução, que escravizam milhões de cearenses, ansiosos pela liberdade celebrada neste 25 de março.

São fortes as correntes do atraso, da miséria, das drogas e da corrupção, que escravizam milhões de cearenses, ansiosos pela liberdade celebrada neste 25 de março.

No dia 25 de março de 1884 o Ceará se tornou a primeira província brasileira a abolir a escravatura. A importância do feito pode ser medida comparando-o com a própria Lei Áurea, que libertaria os escravos no resto do país somente 4 anos depois, no dia 13 de maio de 1888.

Além de ser feriado estadual, a lembrança deste 25 de março pode ainda servir para reforçar a noção do princípio da igualdade racial na legislação brasileira, que recentemente sofreu um retrocesso por causa da criação de cotas nas universidades federais atendidas, justamente, pelo critério da cor da pele.

A data pode ainda ajudar a lembrar que o Ceará tem uma tradição liberal e pioneira na cultura política nacional, fruto de um certo espírito irrequieto do seu povo. O feriado da abolição no estado abre ainda a oportunidade para refletirmos sobre o nosso presente. Será que realmente estamos livres da escravidão ou será que ela sobrevive entre nós com outros formatos?

Os escravos do presente

Não são escravos os jovens viciados no crack, essa droga que toma de conta de fortaleza e das cidades do interior?

Não vivem na escravidão aqueles que vivem não conseguem ter trabalho digno para conquistar sua emancipação financeira e sair da lista do Bolsa Família?

Quantos ainda não estão presos, em pleno século 21, ao velho drama da seca, dependentes de carros pipa e da caridade alheia, enquanto verbas para obras de abastecimento d’água são desviadas?

Temos ainda os escravos do medo, que vivem trancados em suas casas cercadas por muros eletrificados e que sonham com carros blindados, acuados pela violência crescente.

Alforria

Assim como no passado, cada escravidão tem seus patrocinadores, ou seja, aqueles que se beneficiam da indigência alheia. Hoje, os senhores de escravos são os corruptos e os chefes do crime organizado, que não querem mudar nada porque é nesse ambiente que eles prosperam.

Portanto, que a comemoração deste dia possa servir de reflexão e de inspiração para que novos movimentos abolicionistas aconteçam no Ceará. São muitos ainda os que precisam de alforria.

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Gestão Roberto Cláudio em Fortaleza: governar é diferente de fazer campanha

Por Wanfil em Fortaleza

23 de Março de 2013

Hora de guardar o megafone - O marketing eleitoral não deve contaminar a comunicação governamental: a realidade agora é outra

Hora de guardar o megafone – O marketing eleitoral não deve contaminar a comunicação governamental: a realidade agora é outra.

Faltando praticamente uma semana para o prefeito Roberto Cláudio (PSB) completar três meses de governo em Fortaleza, já possível dizer que o ímpeto midiático dos primeiros dias da nova gestão arrefeceu.

Contraste de estilos

Ao ser empossad0, o novo prefeito fez uma série de visitas a postos de saúde, com ampla cobertura da imprensa, para ver a situação dos pacientes que buscam atendimento no serviço municipal.

A postura contrastava com o estilo da ex-prefeita Luizianne Lins, que nos últimos anos se caracterizou pelo isolamento dos gabinetes, talvez por causa da baixa popularidade. Enfim, a construção da imagem de gestor ativo que vai ao encontro das pessoas e não tem medo de encarar problemas parecia a todo vapor.

Ainda na área da saúde, o começo da gestão deu sinais de caminhar para um corajoso acerto de contas: a secretária Socorro martins acusou o desvio de aproximadamente 30 milhões de reais no repasse de recursos do Ministério da Saúde na gestão anterior. Esse seria outro ponto da imagem a ser destacado: a honestidade do líder refletida numa gestão transparente e sem rabo preso.

No entanto, passados mais alguns dias, esse furor midiático e voluntarista do início foi cedendo espaço para a cautela. O prefeito não visita mais postos com seu séquito de vereadores ávidos por fotografias. A secretária não tocou mais no assunto do suposto desvio, como se nada houvesse acontecido.

Nem tudo é imagem

Gestores públicos de primeira viagem, via de regra, assumem mandatos no Poder Executivo preocupados em criar uma marca administrativa que os singularize, especialmente nos casos em que paira no ar a sombra de um padrinho político. MAis do que uma marca, é preciso provar que o gestor tem uma identidade própria.

O perigo é deixar o clima do marketing eleitoral, onde a regra é prometer fervorosamente novos amanhãs, contaminar a rotina administrativa. Se a disputa nas urnas tiver sido dura, como foi em Fortaleza, há o risco de incorrer em contradição na mensagem que se quer passar ao público, como a manutenção de um discurso de ruptura facilmente desmentido pela cooptação da base parlamentar que serviu a gestão anterior.

O risco de cair nessas armadilhas é justamente o de gerar mais expectativas, quando o momento é o de baixá-las, mostrando que as promessas demandam tempo para serem cumpridas. Estrategicamente, eventuais dados podem ser divulgados, sem alarde justiceiro, como prova de que o desafio exigirá grandes sacrifícios e tal, mas nada que comprometa alianças ou que exija ações imediatas de reparação.

Choque de realidade

Tudo ainda é muito novo em relação ao governo Roberto Cláudio. A mudança de postura verificada não significa necessariamente um recuo, mas pode ser um ajuste. O choque de realidade, onde as contas não fecham, o caixa é insuficiente, os custos são elevados e os problemas se multiplicam em velocidade alucinante, parece ter sido o suficiente para conter qualquer propensão ao discurso fácil.

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Por que devemos tratar bem os presos?

Por Wanfil em Segurança

21 de Março de 2013

Em menos de duas semanas, 14 detentos foram assassinados em prisões do Ceará. Desse total, dez foram mortos por causa de um motim iniciado após o descumprimento de regras de convivência estabelecidas pelos próprios presos, dentro de uma penitenciária, que é um órgão público. Como se sabe, bandidos impõem códigos de ética bem inflexíveis nas cadeias. Em contrapartida, os códigos do sistema carcerários são absurdamente frouxos. Essa inversão, por si mesma, já diz muito.

Particularmente, não fico nem um pouco sensibilizado com o infortúnio dos que enveredaram pela seara do crime. No máximo, lamento o potencial humano perdido. Fico mesmo chateado é com o destino das vítimas desses que agem à margem da lei. Isso não significa, entretanto, que eu defenda a selvageria que impera nos presídios brasileiros em geral e nos cearenses em particular.

Acerto de contas entre bandidos é algo previsível de acontecer entre aqueles que se associam para viver sob o signo da violência, mas é inaceitável que isso ocorra dentro de um presídio, onde o que tem que valer é as leis do país e não a lei dos bandidos. Aceitar que presídios funcionem com códigos particulares de justiça é admitir a superioridade dos presos na execução de sentenças.

É exatamente isso o que está em jogo: Quem manda nos presídios? A Constituição e o Código Penal ou as regras impostas por criminosos em um local sob os cuidados do Estado? Em outras palavras: se o governo não consegue fazer valer o Estado de Direito dentro de um espaço limitado, o que dirá fora, nas ruas. Por esse ângulo, preservar a ordem nas prisões é, sobretudo, um ato de auto-preservação social.

Quando a Secretaria de Justiça do Ceará afirma que é “praticamente impossível” coibir crimes dentro das penitenciárias, está apenas reforçando a ousadia dos criminosos, admitindo um vácuo que será preenchido pelos líderes dos detentos.

Se as prisões viraram “escolas do crime”, a maior lição que um preso pode aprender na cadeia é que a autoridade devidamente constituída é impotente e omissa. Quando ele sai, ou quando entra em contato com seus comparsas soltos, essa é a mensagem que prevalece. A falta de controle nas prisões é irmã siamesa da impunidade. Não é por acaso que detentos conseguem comandar quadrilhas que agem do lado de fora das prisões. Isso decorre de uma degradação institucional que começa com os justiçamentos entre presos.

Tratar bem os bandidos não é adulá-los como coitados, como fazem certas ONGs, pastorais e humanistas do miolo mole. Também não é defender leis mais brandas, nem esperar que magistrados façam “justiça social”. É fazê-los entender que é que manda ali dentro, que eles, querendo ou não, serão obrigados a viver conforme determina a lei da civilização. E cabe aos gestores dessas instituições a sua correta aplicação. Caso contrário, que saiam de onde estão.

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Dilma bate recorde de aprovação? Agora é que o Ceará fica sem nada mesmo

Por Wanfil em Ceará

20 de Março de 2013

Diante de um governo federal com popularidade recorde, a maioria das forças estaduais se rende ao pragmatismo da subserviência.

Diante de um governo federal com popularidade recorde, a maioria das forças estaduais se rende ao pragmatismo da subserviência.

O Ibope divulgou nova pesquisa mostrando que o governo da presidente Dilma é aprovado por 63% dos brasileiros. No nordeste, esse número sobe para 85%. É um recorde que explica muito sobre a dinâmica da política feita no Ceará nos últimos anos.

Governismo profissional

Um dos efeitos mais evidentes é o fato de que todos por aqui, com raríssimas exceções, querem ser aliados do governo federal, independente de eventuais diferenças locais, de escrúpulos morais ou ideológicos. Aliás, o segredo é ser, quando menos, amoral e apartidário. De resto, no Brasil, é muito mais fácil e cômodo ser eleito a qualquer cargo quando se está nas fileiras do governismo.

Como consequência dessa disposição adesista, a nova oposição, sem o esteio de estratégias de ocupação de espaços na sociedade civil e longe das benesses oficiais, enfraqueceu a ponto de virar espécie em risco de extinção. E assim nessa toada, conseguimos a proeza de ter uma das bancadas federais mais obedientes vontades do poder central, sem que isso se traduza em prestígio político. Pelo contrário, quanto mais se mostram servis, mais são desprezados.

Cadê a refinaria, senhores governistas?

Prova disso é a surrada promessa da refinaria que a Petrobras construiria no Ceará. Trata-se do mais acintoso estelionato eleitoral já visto no estado, sobre o qual não se ouve uma miserável crítica das nossas autoridades, que teimam em citar a obra inexistente como prova de compromisso e de força política.

Aliás, por falar nisso, a Petrobras divulgou seu plano de negócios até 2017. Sobre novas refinarias, está lá o seguinte (grifos meus):

A carteira em implantação prevê investimentos de US$ 43,2 bilhões no Abastecimento, sendo os principais projetos a Refinaria Abreu e Lima e a primeira fase do Comperj. (…) Os investimentos em expansão da capacidade de refino da carteira em avaliação avançaram na maturidade da fase de elaboração dos seus respectivos projetos. Atualmente, passam por otimização buscando o alinhamento com métricas internacionais.

Traduzindo: a refinaria prometida aos cearenses não sairá do papel.

Servidão voluntária

Com o Executivo estadual a coisa não é muito diferente. O governador Cid Gomes abriu uma dissidência interna no PSB para minar a pré-candidatura de Eduardo Campos à Presidência da República, o que facilita o projeto de reeleição de Dilma. Entre o correligionário e a presidente popular, fez-se uma escolha, digamos assim, pragmática. É um estilo político que garante sucesso no curto prazo, mas que com o tempo gera desconfiança, tanto que o grupo do governador não consegue se estabelecer como liderança nacional em partido algum.

Como explicar a popularidade do governo federal no Ceará? Simples, sem opositores e com aliados bem comportados, a distribuição de dinheiro através de programas assistencialistas dá conta do recado. São ações que aliviam a miséria, mas não a eliminam. Politicamente, entretanto, servem para garantir a elevada aprovação da presidente e a subserviência de seus companheiros estaduais. Como dizem, o rio corre para o mar. O risco, nesse caso, é o mar engolir o rio.

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O Ceará e o aumento das esmolas do governo federal – Ou: A mentira da erradicação da extrema pobreza

Por Wanfil em Ceará

18 de Março de 2013

Escolha a pílula azul e continue sonhando com um país onde a miséria foi erradicada com algumas canetadas. Opte pela vermelha e veja como a realidade é mais complicada. Foto: Imagem do filme Matrix.

Escolha a pílula azul e continue sonhando com um país onde a miséria foi erradicada com algumas canetadas. Opte pela vermelha e veja como a realidade é mais complicada. Foto: Imagem do filme Matrix.

O Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) ampliou a cobertura de mais uma bolsa. Agora, o Benefício para Superação da Extrema Pobreza (BSP) a famílias com renda inferior a 70 reais por pessoa e com filhos com até seis anos, será pago também as que têm filhos com até 15 anos. Só no Ceará 240 mil pessoas receberão ajuda para superar a extrema pobreza, número que faz do estado um dos que mais recebem recursos com esse fim.

A notícia parece ser alvissareira, mas é bom ter cuidado, afinal, a simples existência dessa necessidade nos leva a uma conclusão incontornável: no Ceará, mesmo com os seguidos aumentos na arrecadação de impostos e com o crescimento econômico superior à média nacional, a extrema pobreza não recua, pelo contrário, é preciso apelar ao reforço adicional do governo federal para enfrentá-la.

Dependência

Para definir um parâmetro de referência para a pobreza extrema, o Brasil segue o critério utilizado pelo Banco Mundial, que é o de renda per capita de até U$ 1 por dia. Daí o valor de R$ 70,00.

O problema é que a ampliação do BSP não corresponde a uma redução na quantidade de pessoas atendidas pelo Bolsa Família. A doação de dinheiro aos miseráveis, naturalmente, reduz a miséria, ainda que temporariamente. É bom, mas seria melhor se os beneficiários não ficassem eternamente dependentes do governo.

Ensinar a pescar

No final de 2011, entrevistei o economista Carlos Manso, do Laboratório de Estudos da Pobreza da Universidade Federal do Ceará. Na ocasião, ele foi didático ao explicar os limites desses programas assistencialistas: “A geração de riquezas é como encher um açude com peixes: se as pessoas não souberem ou não tiverem condições de pescar, apenas os que já pescavam antes é que irão se beneficiar, aumentando a desigualdade”. Com efeito, só é possível erradicar pobreza e miséria com a geração e a distribuição eficaz de riqueza. E a chave para a distribuição adequada não são as bolsas, diz Carlos Manso, mas o acesso à educação de qualidade, no que concordo plenamente. É justamente o que não aconte, seja no Brasil ou no Ceará.

Canetada

Com o BSP, o sujeito passa a garantir renda de 70 reais por mês e o governo, numa canetada, altera a classificação econômica desse indivíduo no cadastro do ministério. Será o fim da pobreza extrema sem o fim dos extremamente pobres. Seremos a primeira economia do mundo a acabar com a miséria sem criar riqueza. Um feito que será devidamente explorado pelos marqueteiros da presidente em sua campanha à reeleição.

No entanto, se a extrema pobreza estivesse mesmo diminuindo (não confundir transferência de renda das classes médias para os mais pobres com geração de riqueza), as bolsas não precisariam ser ampliadas. Essa contradição elementar bastaria como antídoto para engodos e truques dessa natureza.

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Joga pedra no Feliciano, ele é feito pra apanhar, ele é bom de cuspir!

Por Wanfil em Brasil

14 de Março de 2013

Todos querem jogar pedra em quem é fraco:

O irrelevante Feliciano Maia virou a Geni do momento: está aí para apanhar de todos, inclusive dos que não têm moral para isso, mas querem parecer dignos. Imagem: Internet

A unanimidade do momento no Brasil é o deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP), eleito recentemente para presidir a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. Pastor de alguma igreja pentecostal qualquer, Feliciano é autor de críticas rasas ao homossexualismo e adepto de uma, digamos assim, teologia segundo a qual africanos foram amaldiçoados por Noé.

A patrulha politicamente correta, capitaneada pelo deputado Jean Wyllis (PSOL-RJ), que faz da própria opção sexual uma bandeira pública, não perdeu tempo e sentenciou: um parlamentar racista e homofóbico não pode comandar a Comissão de Direitos Humanos. (Declarações idiotas não devem ser confundidas com o crime de racismo, nem a crítica de cunho comportamental, mesmo que tola, a homofobia).

De todo modo, um onda de indignação correu o país e até os vereadores de Fortaleza, por iniciativa de Ronivaldo Maia (PT), aprovaram uma moção de repúdio contra o congressista.

Aparências

Feliciano Maia virou a Geni do momento, numa alusão à famosa canção de Chico Buarque. Está aí para apanhar de todos, inclusive dos que não têm moral para isso. Alguns ficaram indignados por não compreenderem que nos parlamentos de uma democracia, os contrários são obrigados a conviver com iguais direitos e deveres; outros, no entanto, viram no episódio a oportunidade ideal de parecerem, aos olhos do público, pessoas vigilantes e defensoras das melhores práticas.

Sobre tudo isso, faço três observações:

1) Parlamentares como Feliciano Maia e Jean Wyllis expressam a decadência da atual legislatura brasileira e do próprio processo político no país. São figuras carentes de formação intelectual e de realizações concretas, que apenas ocupam cotas destinadas a seus partidos. Longe de serem causa de problema, são sintomas de uma doença grave, que afasta da política as melhores cabeças e as lideranças morais da sociedade;

2) Será os vereadores de Fortaleza não têm nada melhor a fazer? Que tal se todos divulgassem, espontaneamente, quanto gastaram até o momento com passagens aéreas, hospedagem e aluguel de automóveis?

3) Não vi, aqui no Ceará, ninguém propor moção de repúdio ao fato de José Genoíno e João Paulo Cunha, ambos do PT e mensaleiros condenados pela Justiça, integrarem a poderosa Comissão de Constituição e Justiça da mesma Câmara Federal. Quantos desses defensores da decência protestaram contra a eleição de Renan Calheiros à presidência do Senado? Muitos dos que jogam pedra em Feliciano são solidários a José Dirceu, outro condenado por corrupção.

Conclusão

Como eu disse nessa semana em minha coluna na Tribuna Bandnews FM (101.7), boa parte dos críticos do tal Feliciano, um deputado de gritante irrelevância, trabalha com dois pesos e duas medidas, conforme a conveniência do momento, apenas para posar de moralistas impolutos. A melhor forma de identificá-los é lembrando do máxima kantiana: Só é ético aquilo que pode ser universal.

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Receita para ser um político bem visto pela opinião pública no Ceará

Por Wanfil em Ceará

13 de Março de 2013

A síntese de como ser um político marvilhoso no Ceará: garantir o futebol e se proclamar ambientalista. Pronto! Não precisa de mais nada.

A síntese de como ser um político marvilhoso no Ceará: garantir o futebol (a Copa)  e se proclamar ambientalista. Pronto! Não precisa de mais nada.

Você é político ou gestor público e quer parecer bacana? No Ceará, o caminho mais fácil para esse objetivo é aderir às pautas influentes do momento, que podem ser conferidas na receita abaixo.

Se o candidato a pessoa maravilhosa tiver perfil opositor/esquerdista:

Anuncie a disposição de lutar pela preservação do Parque do Cocó, em Fortaleza, em nome do verde, do belo e da vida, ainda que nunca tenha cuidado de um roçado ou não abra mão de uma casa constuída em cima de um… oh, Gaia!, ecossistema!

Para dar um toque ideológico ao discurso, critique a especulação imobiliária e o capital (sem citar nomes ou propor uma revolução, claro). Nunca diga que a construção civil é o motor do crescimento econômico do estado e principal responsável pela absorção de mão- de obra com baixa qualificação, nem chame empresários de empreendedores. Critique a ganância do ser humano e lembre que você combate as causas do aquecimento global.

PS. Se você quer se defender dessa turma, leia: A mentira do aquecimento global e o sequestro das causas ambientais.

Se o perfil for o de governista profissional:

Nesse caso, o melhor a fazer é alardear, com ar triunfante e retórica de revelação bíblica,  conjugando os verbos sempre no futuro, que a construção da Arena Castelão para a Copa do Mundo mudará para melhor, como nunca antes, a vida de todos os cearenses.

Diga ainda que o Ceará é um canteiro de obras e que jamais o governo federal investiu tanto aqui. Cite como prova inconteste dessa realidade a refinaria da Petrobras, a siderúrgica e a transposição das águas do Rio São Francisco. Acuse quem ousar lembrar que nada disso foi feito de compor a torcida do contra.

Bandeiras fáceis

E por que esses temas garantem sucesso? É que o ambientalismo de miolo mole e o otimismo subalterno são bandeiras fáceis de carregar, associadas a uma carga simbólica aprovada pelo discurso politicamente correto.

Em outras palavras, ao defender o que todos acreditam ser o melhor, ainda que não seja, o sujeito que se investe da pauta influente é automaticamente visto como pessoa boa e maravilhosa. E é exatamente isso o que fazem, diariamente, nossas autoridades, sem o ônus de precisar resolver problema algum.

Temas a evitar

Aqui, a dica vale para todos os perfis. Não admita a crise de segurança que vivemos ou a péssima qualidade do ensino público. Se a opinião pública assume uma postura crítica, a tendência natural é buscar renovação nas eleições, o que é um risco para quem está na crista da onda.

Não fale em violência, que isso não enche estádios e não lota festas. Não fale em qualidade de educação, fale em bolsas e cotas milagrosas. Nunca, jamais, cobre metas e resultados do governo estadual ou federal, pois seu curral eleitoral ou grupo de apoio na sociedade civil pode ser transferido para outro.

Eis o segredo do sucesso.

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Nas ondas do rádio: Política na Tribuna Bandnews FM

Por Wanfil em Tribuna Band News FM

11 de Março de 2013

A rádio Tribuna Band News FM 101.7 é a mais nova emissoa do Sistema Jangadeiro.

A rádio Tribuna Bandnews FM 101.7 é a mais nova emissoa do Sistema Jangadeiro.

Estreei nesta segunda uma coluna de política na Tribuna Bandnews FM 101.7. em programa com o mesmo nome. De segunda à sexta, a partir das 6 horas da manhã, comento os principais fatos da política cearense, sempre buscando um olhar diferenciado, um novo ângulo, fazendo conexões entre fatos aparentemente desconectados e aleatórios, cujas ligações se disfarçam sob a aparência das coincidências inocentes. É preto no branco, como se diz por aí.

Em grande medida, esse novo espaço nasce do trabalho desenvolvido aqui no blog, junto com vocês. A boa audiência e a qualidade dos leitores mostraram que existe uma grande demanda por debates a respeito dos problemas vividos no Ceará.

Agradeço a companhia, as críticas e os elogios, às vezes postados na área de comentários, às vezes externados nas redes sociais.

Publico abaixo, o áudio com o primeiro comentário político feito na Tribuna Band News FM, sobre a seguinte notícia: Gastos do Poder Legislativo no Ceará chegam a R$ 474 milhões.

Ouça o comentário: O PREÇO DA DEMOCRACIA NO CEARÁ.

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Nas ondas do rádio: Política na Tribuna Bandnews FM

Por Wanfil em Tribuna Band News FM

11 de Março de 2013

A rádio Tribuna Band News FM 101.7 é a mais nova emissoa do Sistema Jangadeiro.

A rádio Tribuna Bandnews FM 101.7 é a mais nova emissoa do Sistema Jangadeiro.

Estreei nesta segunda uma coluna de política na Tribuna Bandnews FM 101.7. em programa com o mesmo nome. De segunda à sexta, a partir das 6 horas da manhã, comento os principais fatos da política cearense, sempre buscando um olhar diferenciado, um novo ângulo, fazendo conexões entre fatos aparentemente desconectados e aleatórios, cujas ligações se disfarçam sob a aparência das coincidências inocentes. É preto no branco, como se diz por aí.

Em grande medida, esse novo espaço nasce do trabalho desenvolvido aqui no blog, junto com vocês. A boa audiência e a qualidade dos leitores mostraram que existe uma grande demanda por debates a respeito dos problemas vividos no Ceará.

Agradeço a companhia, as críticas e os elogios, às vezes postados na área de comentários, às vezes externados nas redes sociais.

Publico abaixo, o áudio com o primeiro comentário político feito na Tribuna Band News FM, sobre a seguinte notícia: Gastos do Poder Legislativo no Ceará chegam a R$ 474 milhões.

Ouça o comentário: O PREÇO DA DEMOCRACIA NO CEARÁ.