dezembro 2012 - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

dezembro 2012

Retrospectiva breve – 2012 no Ceará

Por Wanfil em Ceará

30 de dezembro de 2012

Uma retrospectiva feita a partir da seleção de poucas passagens, para não ficar cansativa, mas capazes de sintetizar o espírito que marcou 2012

Aqui no blog a retrospectiva do ano é breve. Consiste em anotar acontecimentos e impressões a partir, unicamente, da memória. É que no curto prazo, tudo o que vale a pena ser lembrado prescinde de pesquisas minuciosas. É claro que essa técnica é seletiva, portanto, deixa de fora o que não é interesse do organizador. Portanto, segue abaixo um apanhado de temas que foram recorrentes neste espaço em 2012.

Eleições

Até o primeiro trimestre de 2012, o governador Cid Gomes e a prefeita Luizianne Lins eram aliados. Com as eleições, cada um lançou seu apadrinhado para a sucessão municipal e a aliança se desfez no Dia dos Namorados. A partir de então, separados, passaram a dizer que o governo do outro não prestou, em discordância com as juras de eleições anteriores.

O candidato de Luizianne Lins é derrotado no segundo turno. A prefeita, que se despede do poder com baixo índice de aprovação popular, agora é passado.

O candidato de Cid Gomes vence. Roberto Cláudio é eleito defendendo renovação. Para renovar, escolhe Eudoro Santana para comandar a equipe de transição e indica o próprio irmão para secretário.

Os aliados de conveniência da ex-prefeita agora são aliados de conveniência do novo prefeito.

Investimentos

Em 2012, continuam como promessas não cumpridas os seguintes empreendimentos: 1) Refinaria da Petrobras; 2) Transposição do Rio São Francisco; 3) Transnordestina. Para 2013, a previsão é de que nada mude.

Fortaleza conta agora com um grande Centro de Eventos, inaugurado com um show milionário do tenor espanhol Plácido Domingo, para convidados vips. Quem pode, pode.

Legislativo

Os parlamentos estadual e municipal de Fortaleza continuam funcionando como apêndices dos seus respectivos Executivos. Para 2013, a previsão é de que nada mude. No plano federal, a bancada cearense continua sem força para tornar realidade as promessas feitas pelos últimos dois presidentes da República.

Judiciário

Continua como um dos mais lentos do país, mas os salários são uma beleza.

Esporte

A reforma do Castelão ficou pronta e o estádio foi o primeiro que sediará jogos da Copa em 2014 a ser inaugurado, dias antes do Mineirão. E aí? E aí, nada.

Fortaleza e Ceará, como sempre, apanharam. Times cearenses só ganham títulos quando jogam entre si em disputas estaduais. Apesar dessa realidade, torcidas organizadas quebram estádios, como se nutrissem maiores expectativas e padecessem de grandes decepções.

Segurança

O ano de 2012 começou com greves de Policiais Militares e Civis, que deixou a população em pânico. Durante a crise, o governador Cid Gomes sumiu. Não falou, não apareceu, não resolveu. Do episódio, surgiu o vereador mais votado de Fortaleza nas eleições de outubro, o capitão Wagner, que liderou a paralisação.

A violência cresceu

O Ronda do Quarteirão não resolveu e nem sequer reduziu a criminalidade. Mas o governo inaugurou o Castelão antes dos mineiros.

Réveillon

Após a derrota eleitoral, a prefeitura de Fortaleza desistiu de realizar – e patrocinar – a festa de réveillon. O governador Cid Gomes, ao contrário do que aconteceu na greve da polícia, surgiu prontamente, falou e resolveu. Os cofres estaduais irão bancar a festa.

Seca

Enquanto as promessas do governo federal continuam no mundo das promessas, a seca volta a castigar os cearenses, especialmente no interior. A situação é crítica, mas nada que impeça festas e shows.

FIM

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Dica de livro: A queda – o relato de um amor verdadeiramente incondicional

Por Wanfil em Livros

27 de dezembro de 2012

Lançado em agosto de 2012, A Queda, de Diogo Mainardi, está na 3ª edição no Brasil. Uma experiência que poderia ser deprimente foi transformada em aprendizado enriquecedor.

Ganhei num desses amigos secretos de final de ano, o livro A Queda, do polêmico escritor e jornalista Diogo Mainardi, “as memórias de um pai em 424 passos”. Trata-se de um relato sobre Tito, filho do autor que nasceu com paralisia cerebral devido a um erro médico. Como eu estava no meio de uma outra leitura — Os Demônios, de Dostoiévski –, imaginei deixar A Queda na fila de livros que tenho e ainda não li.

No entanto, manuseando o presente, resolvi conferir as orelhas e a contracapa. Depois, sem maiores pretensões, li o primeiro parágrafo. Fui fisgado. Terminei a leitura das 150 páginas em pouco mais de um dia.

Não há no relato de Mainardi momentos de autocomiseração, lições de como lidar com o infortúnio, mensagens de esperança e de perseverança, lamentos inúteis, homenagens religiosas, confissões de culpas ou apelos sentimentais. Pelo contrário, em muitas passagens, o texto é marcado pela ironia, pelo sarcasmo e pelo estoicismo.

Estilo

A narrativa é uma habilidosa construção onde a experiência pessoal do autor, às voltas com as descobertas e os desafios impostos pela enfermidade do filho, é costurada a uma série de referências culturais (sobretudo a pintura, a escultura e a literatura), históricas (do Renascimento ao nazismo) e do pop (da banda U2 a jogos de videogame), demonstrando uma erudição refinada, porém, agradável, sem afetação. É leitura enriquecedora, com certeza.

Em A Queda, Mainardi consegue adaptar para a literatura o estilo desenvolvido em seus artigos: a capacidade de sintetizar conceitos complexos em frases curtas e diretas. A estrutura narrativa é feita de forma semelhante, com passagens breves sobre variados temas, sempre ligados, de maneira inesperada e bonita, à paralisia cerebral de Tito. A meu ver, o maior desafio de um escritor é ter um estilo próprio. Isso é resultado de leitura, de absorção de outros estilos, de prática, até que se feche a gestalt literária para, então, criar sua marca de identidade.

A mensagem

E ainda assim, com toda a erudição e todo o sarcasmo, o que prevalece do enredo é o amor incondicional de um pai por um filho. Incondicional porque não cobra reconhecimento, não espera retorno, não exige nada em troca. Incondicional porque não lamenta, em momento algum, o destino. Incondicional porque é doação que não se entende por doação. Mainardi revela, de forma indireta, que a gratidão é dele para com o filho enfermiço, que o fez ver como a família é o centro da vida e tudo o mais é passageiro e fugaz.

A Queda é uma referência às tentativas que Tito faz de caminhar sozinho. Ao pai, resta-lhe cuidar para que o tombo não se faça doloroso, sua missão é a de acudi-lo sempre. “Suas quedas recordam-me permanentemente da precariedade e da transitoriedade de tudo o que eu tentei construir”.

Encerro com a transcrição de uma passagem na qual o autor explica o que o motivou a escrever o livro:

“… Marcel Proust pensa em escrever um livro sobre o seu passado, porque para interpretar os sentimentos era necessário, antes de tudo, transformá-lo em ideias, ‘convertendo-os em sem equivalente intelectual’.

O livro que ele pensa em escrever é o próprio Em Busca do Tempo Perdido. (…)

O livro que converte meus sentimentos em seu equivalente intelectual é este aqui”.

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Quem nos acode ao coração neste Natal?

Por Wanfil em Crônica

24 de dezembro de 2012

Todos precisamos de uma estrela de Natal a iluminar o caminho para uma breve pausa em nossos cotidianos corridos. É quando nos lembramos dos outros com mais intensidade.

Observando o esmero das mensagens e dos festejos natalinos, lembrei-me de um singelo texto de Carlos Drummond de Andrade. Não foi publicado em livro, mas justamente numa correspondência de Natal para um amigo em dezembro de 1985.

Quem me acode à cabeça e
ao coração
neste fim de ano, entre
alegria e dor?
Que sonho, que mistério,
que oração?
Amor.

Belo resumo. Os anos, ano após ano, são carregados de urgência, de pressa, de obrigações burocráticas e de notícias ruins. O mundo anda saturado de notícias ruins. Existem os bons acontecimentos, claro, mas é que o medo causa mais impressão em nossas almas assustadas do que a esperança. Estamos impregnados de medo. O passar dos anos, nesse cotidiano alucinado que construímos, é mesmo pesado. Por isso é que perto do limite suportável, quando estamos a ponto de ruir, um intervalo nos acode: o Natal.

Para muitos, o Natal é feriado; para outros, é obrigação sacramental. Para as crianças, é festa; para os adultos, é infância. Digo que o Natal é o disfarce perfeito para uma comunhão de amor. Sim, as coisas ruins continuam a acontecer como se não existisse calendário, mas a disposição geral do espírito muda. A esperança, durante algumas horas, prevalece sobre o medo.

É que no Natal, não importa o credo, é momento de lembrar com gratidão das pessoas que gostamos. Fazemos isso não por benevolência, mas por necessidade, porque precisamos socorrer nossos corações e mentes. Esse socorro, sabemos intuitivamente, é o amor, como disse o poeta. E no Natal, nos permitimos agir assim.

Feliz Natal a todos.

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O secretariado de Roberto Cláudio: cadê a renovação?

Por Wanfil em Fortaleza

21 de dezembro de 2012

Alguns critérios de escolha para o novo secretariado não combinam com a mensagem de renovação defendida por Roberto Cláudio durante a campanha. Imagem: TV Jangadeiro / reprodução.

O prefeito eleito de Fortaleza Roberto Cláudio assumirá o comando do município a partir do dia 1º de janeiro de 2013. Entretanto, com a divulgação dos nomes do futuro secretariado, podemos dizer que ele fez sua estreia no Executivo, afinal, cada escolha pressupõe um método, uma visão de administrativa, política e moral dos fatos. É um cartão de visitas. E aí, infelizmente, a nova gestão começa mal.

Durante a campanha, a renovação do modo de fazer o governo deu o tom da comunicação   Acontece que, apesar da conversa de que o perfil da equipe é técnico, a lógica que sustenta as novas indicações não destoa daquela utilizada no governo Luizianne Lins: loteamento de espaços para aliados (por critérios exclusivamente políticos) e inchaço da máquina. Mudaram os nomes, mas a renovação em sentindo profundo parece que ainda não veio. Trata-se de mais do mesmo, com a esperança de que seja bem executado desta vez.

Para começo de conversa, Roberto Cláudio nomeou para a uma das pastas mais poderosas o próprio irmão, repetindo o governador Cid Gomes, seu padrinho político. Segundo o STF, a contratação de parente para “exercício de cargo eminentemente político” não configura nepotismo. Fica a dica para os demais prefeitos nomearem familiares: é só criar cargos eminentemente políticos. Não faço crítica ao irmão do prefeito. Pode até ser bom gestor, veremos, mas a questão é que a mensagem de austeridade fica comprometida. Empregar parentes é prática do Brasil atrasado, patrimonialista. A título de prevenção, convém ao gestor tornar sua administração algo impessoal. Renovar práticas políticas contratando parente é um retrocesso.

Depois, o anúncio de SETE novas secretarias. É impossível cortar despesas desnecessárias e reduzir gastos com contratações de terceirizados aumentando a máquina. Além disso, fica evidente que algumas pastas foram criadas apenas para abrigar companheiros políticos, como a indicação de Karlo Kardozo para a Secretaria de Cidadania e Direitos Humanos. Onde está o perfil técnico? Trata-se de um jurista? Não. Sua credencial é ser chefe do PSB local. Não se renova usando cargos públicos como prêmio a companheiros de partido.

Na Secretaria Extraordinária da Copa, o escolhido foi o deputado federal Domingos Neto, que tem no currículo o fato de ser filho do vice-governador Domingos Filho. É a renovação da cota do PMDB. Moeda de troca.

E o PCdoB? Usufruiu o quanto pode de cargos na gestão de Luizianne, rompeu na última hora para aderir à candidatura de Roberto Cláudio. Pelo feito, a sigla foi recompensada com a Habitafor para Eliana Gomes e a liderança na Câmara, com o neófito Evaldo Lima (que foi secretário de Esporte na gestão que termina). Renovar com políticos que aderem a qualquer governo é ilusão. 

Existem nomes sérios, claro, com bons currículos. Além disso, em muitas áreas, será difícil piorar a situação: a tendência é que o mínimo de trabalho apresente resultados. No entanto, a atual gestão também tinha nomes bons em algumas pastas e isso não bastou. Vamos torcer para dar certo, mas sem perder a capacidade de avaliar o que está no caminho certo e o que está no caminho errado. E dizer isso o quanto antes, não após quatro anos.

O novo governo busca abrigar o maior número de partidos e forças políticas, pois o prefeito é um conciliador por natureza. Mas até esse perfil precisa de limites, e o primeiro deveria ser não nomear parentes e apadrinhados, nem aceitar indicações políticas sem lastro técnico. Como demitir um secretário ruim se ele foi indicado pelo governador, é da família ou militante profissionais de partidos aliados? Mostrando desde o primeiro dia que assim será. Não seria fácil, mas certamente seria renovador.

Governar, em boa medida, é saber dizer não a aliados.

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Réveillon com dinheiro público é festa de desperdício e politicagem

Por Wanfil em Fortaleza

20 de dezembro de 2012

Festa é bom. Festa de graça, para muitos, é melhor ainda. Para um grupo seleto, festa paga com dinheiro público é supimpa. Já tive oportunidade de conversar, reservadamente, com procuradores, jornalistas e conselheiros dos tribunais de contas do estado e do município. Sempre que toquei nesse assunto, a conclusão foi a mesma: festa é escândalo. Festa de governo, via de regra, é politicagem barata.

Por conta do povo

Por que gostam tanto de festas? Porque é a modalidade preferida de superfaturamento nos dias atuais. Os festeiros profissionais da grana pública alegam que cachês de artistas não podem ser comparados uns com os outros, o que impossibilita contratação pelo expediente do menor preço. Como no Brasil dinheiro público é tratado como recurso infinito e sem dono, todos ficam felizes, enquanto uns poucos se locupletam.

E ainda assim, quando é tudo feito com rigor, é difícil aceitar certos gastos. Lembram do show de Plácido Domingo na inauguração do novo Centro de Convenções? Pois é. Não tivesse sido realizado, seriam 500 mil reais a mais para cuidar de problemas sérios.

No final, todo gestor quando indagado sobre a lisura ou a qualidade desses gastos, tem sempre a mesma resposta na ponta da língua: “A festa é da cidade e o povo merece”. Pronto. Quem pode ser contra a cidade e o povo? Só um reacionário elitista, diria a prefeita.

Sem festa, é mais economia ou menos dívidas

Por isso, comemorei quando soube que a prefeitura não realizará o réveillon de Fortaleza. É mais dinheiro no caixa para a próxima gestão. Ou menos dívida.

Ao cancelar a comemoração, Luizianne Lins desmonta seu principal argumento sacado para defender o evento. A suposta convicção de que sua realização seria uma forma de investimento no turismo. E ainda deixa no ar a impressão de ressentimento com o eleitorado, que assim seria punido. Mas Wanfil, e a festa da cidade? Ora, quem precisa de prefeitura para comemorar o réveillon? Ainda mais correndo o risco de ser vítima de arrastões? Se o trade turístico quer a festa, se lucra com ela, se precisa dela, que a faça. Que eu saiba, não há lei proibindo.

Novo modelo

Mas para a minha frustração, o governador Cid Gomes resolveu garantir a festa. Pelo menos, segundo o anunciado, algumas empresas irão patrocinar parte do evento. É uma forma menos danosa para os cofres públicos (as micaretas podem servir de modelo para o futuro). Assim, enquanto Luizianne Lins, que durante anos defendeu o réveillon pago pelo contribuinte, a peso de ouro, se despede melancolicamente da gestão, Cid marca pontos perante a população, sempre sequiosa de festejos. De qualquer forma, só com fogos serão 700 mil reais.

Essa presteza seria bem mais útil, a bem da verdade, na cobrança de resultados efetivos na área de segurança pública. Mas, nessa época do ano, quem liga?

PS. Quem for ao réveillon de Fortaleza, cuidado. Não leve muito dinheiro, nem use objetos valiosos. Aprendi isso assistindo a entrevistas de autoridades policiais. Sabem como é: para a bandidagem, dia de festa é uma ótima oportunidade de faturar algum…

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Pesquisa Ibope confirma que futebol e cerveja são as maiores paixões do brasileiro; trabalho fica em último lugar

Por Wanfil em Brasil

18 de dezembro de 2012

O instituto Ibope divulgou pesquisa sobre as preferências dos homens brasileiros. Por ordem, as maiores paixões do público masculino são:

1º – Futebol – 82%;
2º – cerveja – 36%;
3º – mulher -33%;
4º – churrasco – 20%;
5º – praia – 13%;
6º – cachaça – 10%;
7º – família – 9%.

Foram entrevistados dois mil homens com idade acima de 18 anos e as respostas forma espontâneas. Em último lugar, empatados com 1% da preferência, aparecem dinheiro e trabalho.

É isso mesmo, pelo levantamento do Ibope, os homens gostam mais de cerveja do que de mulheres! Talvez eu tenha que rever os meus conceitos… E o que dizer das colocações da família e do trabalho? Claro que é preciso cuidado antes de tirar conclusões, pois as variantes envolvidas são muitas. Se a pesquisa fosse estimulada, com uma lista de opções, talvez o resultado fosse outro. Provavelmente o questionário foi interpretado como uma brincadeira pelos entrevistados, não sei. De qualquer forma, a disparidade entre algumas respostas não deixa de ser indicativa de uma realidade mais ou menos perceptível a olho nu.

Ainda que os números não reflitam com exatidão a escala de valores do brasileiro, o fato é que intuitivamente mulheres e políticos já sabiam disso. Mulheres pela experiência da vida conjugal e com os filhos homens. Os políticos, pela popularidade que obras e eventos relacionados com essas preferências propiciam. Ah, publicitários também já sabiam disso. Por isso existem propagandas de mulheres de biquíni vendendo tinta de parede.

Também está explicado o gasto de meio bilhão de reais num estádio de futebol no Ceará, estado com prioridades relacionadas à subsistência da população. Qual político não atenderia a essa expectativa do povo? Que gestor preferiria aplicar mais em educação quando as pessoas preferem o lazer?

Talvez por isso, especulo apenas, as punições para motoristas bêbados sejam leves. Afinal, é muito radical prender alguém que apenas manifesta individualmente uma paixão nacional. Seria hipocrisia demais…

Como pode prosperar uma sociedade em que parte da população, boa parte, diga-se, prefere a cachaça ao trabalho, o futebol ao dinheiro? Como pode ser pacífica uma sociedade em que a família não aparece como principal valor a ser preservado?

Essa apatia disfarçada de bonomia, esse descanso, tudo isso contribui para que tudo caminhe assim no Brasil, entre esfuziantes comemorações de títulos e estádios futebolísticos, e discretas lamentações sobre a violência crescente.

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Assaltos em via pública e à luz do dia: a única certeza é que vivemos em perigo em Fortaleza

Por Wanfil em Segurança

16 de dezembro de 2012

O secretário de Segurança Pública do Ceará impediu uma tentativa de assalto no cruzamento da Av. Alberto Sá com a Via Expressa, na manhã do sábado (15), em Fortaleza.A vitima era um homem em um carro e o secretário, ao avistar a tentativa, atirou nos criminosos. O episódio é emblemático. Os bandidos foram frustrados em sua ação criminosa, um foi preso. Mas, infelizmente, longe de ser uma demonstração de força policial, de destreza operacional, o que fica evidente no caso é a situação de perigo no Ceará. Na verdade, o crime não escolhe hora, lugar ou faz distinção de sexo e classe.

No mesmo dia, à tarde, um policial militar foi morto por assaltantes em plena Av. Pontes Vieira, uma das vias mais movimentadas da capital. O policial estava com o filho pequeno numa loja de peças de automóveis.

O fato é que somos potenciais vítimas, restando-nos rezar para não ter o azar de cruzar o caminho de assaltantes. Pior, os criminosos, profissionais, quando são presos, sabem que rapidamente estarão em liberdade. Nos jornais vemos que, quase sempre, quando um assaltante ou homicida é preso, já responde por uma série de outros crimes. Como podem andar soltos?

No começo, todos alegavam que a legislação penal brasileira seria uma das melhores do mundo, pois teria como prioridade a recuperação do criminoso, tomado sempre como uma vítima da sociedade, aquele papo de intelectual do miolo mole. E aí?

Se os números mostram que nossa polícia é ineficiente para reduzir os índices de criminalidade, os fatos comprovam que essa legislação funciona como um incentivo ao crime.

Na escalada em que seguimos, já com ares de epidemia, com a certeza de que ninguém mais está protegido, nem juízes, nem legisladores e nem policiais, pode ser que assim, as autoridades sejam impelidas a tomar providências mais eficazes. Se não vai pela inteligência, vai pela dor.

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Se eu quisesse ser popular, seria populista, mas não consigo. Ou: Resposta aos críticos do reajuste das passagens de ônibus

Por Wanfil em Fortaleza

13 de dezembro de 2012

No Brasil, ser populista é ser amado.Todos estendem as mãos à espera de um benefício qualquer, sem se dar conta que pagam por eles.

Recebi algumas críticas sobre o texto em que afirmo que as passagens de ônibus em Fortaleza têm os preços manipulados artificialmente para garantir um discurso político à gestão que termina este ano. Em outras palavras, como os valores cobrados aos usuários não cobrem os custos do serviço, a diferença é coberta com dinheiro público, principalmente com a isenção fiscal do ICMS que incide sobre o diesel. Volto a abordar o tema, buscando compreender esse apego a tudo o que parece concessão, mas que muitas vezes é esperteza.

Populismo é pop

Os governos no Brasil têm essa mania de fazer caridade com o dinheiro alheio. No caso em questão, ficam felizes os passageiros, que pagam menos, e as empresas, que ganham antes de vender. O nome disso é populismo. E todos adoram.

O populismo fiscal e monetário está no DNA de quase todas as políticas ditas sociais e de desenvolvimento em vigor no país. Vai de programas como o Bolsa Família até os empréstimos bilionários do BNDES para alguns escolhidos. O brasileiro é estado-dependente, como ouvi de um amigo recentemente, sem distinção de classe.

No fundo, todos acham que ganham quando o governo é obrigado a arcar com uma ou outra despesa. Como governo não produz riqueza, o resultado é que temos que sustentá-lo com uma carga tributária obscena  na casa de 35% do PIB. Brasileiro é esperto. Aceita que 50% do preço de um sabonete seja tributo, para ter a autoridade de cobrar isenção fiscal para empresas de ônibus, garantindo assim o preço baixo das tarifas.

Pão e circo nunca é de graça

Se eu tivesse dito que a ideia de ajustar preços aos custos é um absurdo, que dinheiro público serve para corrigir injustiças, essas coisas, seria aplaudido por minha sensibilidade. Se eu “denunciasse” ainda que empresas de transporte querem mesmo é lucrar, aí seria ovacionado em desfile apoteótico. Mas eu não consigo. Chato e ranzinza, lembro que toda conta tem que fechar. Sem lucro, evidentemente, ninguém trabalha (você trabalharia?). Como recursos de outros impostos são direcionados para suprir essa premissa, o que parece barato, no final das contas, é caro. A conta não fecha.

Pessoalmente, não ganho nada com isso. Não tenho procuração para falar em nome de empresas ou sindicatos. Escrevo sobre o assunto porque o considero, tal como é posto, uma tapeação. Políticos é que sabem pedir dinheiro junto à empresas de transporte para fazer campanhas eleitorais. Populistas, que prometem pão e circo sem custo, enquanto tiram com uma mão o que dão com a outra. Esses são amados. Eu, com minha desconfiança crônica, não. Se ao menos eu nada dissesse… Mas como gosto da crítica, seria um péssimo populista. Diria sem pestanejar: Sabe o dinheiro que falta para prestar melhores serviços? Está ali, no preço baixo daquela tarifa!

Encerro com um trecho do famoso Juízo anatômico dos achaques que padecia o corpo da República em todos os membros, do poeta Gregório de Mattos, escrito ainda no século 17:

Valha-nos Deus, o que custa
 O que El-Rei nos dá de graça.

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Passagens de ônibus congeladas enquanto os custos sobem é populismo feito com o seu dinheiro: Não existe almoço grátis!

Por Wanfil em Economia

11 de dezembro de 2012

Custos sobem, passagens não. Resultado: superlotação, frota reduzida e sucateada, motoristas sobrecarregados. O que o debate não deixa claro é que isso é uma escolha.

A polêmica sobre o reajuste no preço das passagens de ônibus em Fortaleza está de volta. As empresas de ônibus conseguiram uma liminar aumentando o preço das passagens e a prefeitura diz que irá recorrer da decisão.

Há muito tempo essa discussão deixou a racionalidade econômica de lado para se transformar em ativo político-eleitoral da atual gestão. A questão real é saber como e se as tarifas podem e devem ser reajustados, a partir da realidade econômica e social do município. Qualquer que seja a decisão, é preciso ficar claro que existem preços e consequências para ela.

Boas intenções são louváveis, desde que não sejam burras ou ingênuas. Nas economias de mercado, preços sobem por diversas causas, entre as quais: 1) aumento nos custos de produção; 2) aumento da demanda. As únicas coisas que não aumentam de valor são aquelas que ninguém precisa ou quer usar.

Milton Friedman: Nada é de graça, muito menos a suposta caridade oficial.

Leia também: 
Resposta aos críticos do reajuste das passagens de ônibus – Ou: Eu queria ser populista, mas não consigo

O economista americano Milton Friedman (1912-2006), ganhador do Nobel de economia de 1976, cunhou uma frase que se tornou emblemática: “Não existe almoço grátis”. É uma forma simples e didática de explicar que políticas sociais, tais como ensino e transporte públicos, não são gratuitas, pois têm um preço com o qual alguém arca. Nesses casos, a sociedade, por meio do pagamento de impostos.

Quem paga pelo que parece gratuito?

Se o dólar, o petróleo, os insumos, a inflação e a carga tributária subiram, é óbvio que os custos de operação das empresas de transporte coletivo também subiram. E como isso não é repassado às passagens? Simples. O poder público cobre a diferença. Ou seja, o contribuinte. No Ceará, por meio de subsídios, moradores de todos os municípios pagam para manter o valor das tarifas da capital artificialmente baixas. Isso é justo? O sujeito mora em Russas ou Barbalha e o dinheiro de seus impostos é usado para baratear um serviço em Fortaleza. E o pior é que o serviço é ruim, com superlotação e sucateamento dos veículos.

Segundo as empresas de transporte, neste ano não houve reunião para debater o assunto. Em outras palavras, a prefeitura não disse como irá cobrir a necessidade de aumento, pois perdeu a eleição e espera que o ônus do aumento recaia sobre a nova gestão.

Não digo que seja errado a manutenção dessa política. Se a gestão e os cidadãos consideram que essa é uma prioridade, em detrimento de outras áreas, de outros investimentos, que assim seja. Mas o que tem que ficar claro é que essa política é uma escolha, com suas naturais consequências. O transporte público é bom em Fortaleza? Não? Por quê? Eis o debate, cujo preço das passagens é uma das partes.

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Em vez de perder tempo com o Estatuto da Segurança Bancária, melhor seria que prendessem assaltantes de banco

Por Wanfil em Segurança

10 de dezembro de 2012

No Brasil, quando um problema se torna crônico e agudo, as autoridades correm para inventar alguma solução cartorial, de preferência, alguma nova lei ou regulação qualquer, que na prática, não passam de letra morta. É o caso, por exemplo, dos assaltos e saidinhas que acontecem em bancos.

Para dar a aparência de que algo está sendo feito, criaram o Estatuto da Segurança Bancária em Fortaleza, uma lei sancionada em junho de 2012 e que até agora não serviu de nada. Pelo menos é o que podemos concluir após uma reunião para debater a aplicabilidade do estatuto terminou sem acordo. Vejam que primor: primeiro criam a lei, depois pensam em como aplicá-la…

Representantes da Câmara Municipal de Fortaleza e bancários pressionam os bancos para se adequarem à lei, deixando claro que esperam que instituições privadas cuidem da segurança do público. Por que não pressionam o secretário de Segurança a reduzir os índices de crimes contra instituições bancárias, especialmente no interior? Ou o governador? O estatuto é uma confissão de derrota, é um pedido de socorro para forças de segurança privadas, um absurdo.

O “cada um por si” não pode virar regra legal

Mas Wanfil, os bancos são ricos, poderiam cuidar melhor da segurança de quem anda nas agências. Concordo. Mas essa é uma decisão que não pode ser confundida com as funções do poder público. Condomínios de apartamentos contratam empresas de segurança porque querem e precisam, não por serem obrigados. Acho mesmo que os bancos já poderiam oferecer garantias de segurança como atrativo para captar mais correntistas. “Nossos bancos têm vidros blindados e detector de metais” seria uma boa propaganda. Mas isso é lá com eles. Imaginar que os bancos devam ser abrigados a combater a ação de quadrilhas é um erro. Prendê-las e mantê-las presas é dever da polícia e do sistema de segurança pública.

Faço uma comparação, para exemplificar melhor o que digo. Uma das medidas de segurança impostas aos CLIENTES de bancos é a proibição de aparelhos celulares em agências bancárias. Na prática, cidadãos honestos ficam impedidos de falar ao telefone e os assaltos e sequestros continuam. As autoridades simplesmente transferem a responsabilidade pela manutenção da segurança e ainda saem cantando vantagem. Daqui a pouco, vão propor uma lei proibindo as pessoas de andarem com dinheiro em espécie, para não atiçar a criminalidade.

Senhores, deixem de conversa e vão prender bandidos!

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Em vez de perder tempo com o Estatuto da Segurança Bancária, melhor seria que prendessem assaltantes de banco

Por Wanfil em Segurança

10 de dezembro de 2012

No Brasil, quando um problema se torna crônico e agudo, as autoridades correm para inventar alguma solução cartorial, de preferência, alguma nova lei ou regulação qualquer, que na prática, não passam de letra morta. É o caso, por exemplo, dos assaltos e saidinhas que acontecem em bancos.

Para dar a aparência de que algo está sendo feito, criaram o Estatuto da Segurança Bancária em Fortaleza, uma lei sancionada em junho de 2012 e que até agora não serviu de nada. Pelo menos é o que podemos concluir após uma reunião para debater a aplicabilidade do estatuto terminou sem acordo. Vejam que primor: primeiro criam a lei, depois pensam em como aplicá-la…

Representantes da Câmara Municipal de Fortaleza e bancários pressionam os bancos para se adequarem à lei, deixando claro que esperam que instituições privadas cuidem da segurança do público. Por que não pressionam o secretário de Segurança a reduzir os índices de crimes contra instituições bancárias, especialmente no interior? Ou o governador? O estatuto é uma confissão de derrota, é um pedido de socorro para forças de segurança privadas, um absurdo.

O “cada um por si” não pode virar regra legal

Mas Wanfil, os bancos são ricos, poderiam cuidar melhor da segurança de quem anda nas agências. Concordo. Mas essa é uma decisão que não pode ser confundida com as funções do poder público. Condomínios de apartamentos contratam empresas de segurança porque querem e precisam, não por serem obrigados. Acho mesmo que os bancos já poderiam oferecer garantias de segurança como atrativo para captar mais correntistas. “Nossos bancos têm vidros blindados e detector de metais” seria uma boa propaganda. Mas isso é lá com eles. Imaginar que os bancos devam ser abrigados a combater a ação de quadrilhas é um erro. Prendê-las e mantê-las presas é dever da polícia e do sistema de segurança pública.

Faço uma comparação, para exemplificar melhor o que digo. Uma das medidas de segurança impostas aos CLIENTES de bancos é a proibição de aparelhos celulares em agências bancárias. Na prática, cidadãos honestos ficam impedidos de falar ao telefone e os assaltos e sequestros continuam. As autoridades simplesmente transferem a responsabilidade pela manutenção da segurança e ainda saem cantando vantagem. Daqui a pouco, vão propor uma lei proibindo as pessoas de andarem com dinheiro em espécie, para não atiçar a criminalidade.

Senhores, deixem de conversa e vão prender bandidos!