novembro 2012 - Página 2 de 2 - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

novembro 2012

PSB festeja vitória de Roberto Cláudio interditando via pública: Aos vencedores, as batatas

Por Wanfil em Fortaleza

06 de novembro de 2012

Festa da vitória no dia da vitória, como na foto acima, é compreensível. Depois disso, parece recado ou exagero… Sem contar o evento, privado, foi realizado em via pública interditada.

Uma grande festa na Avenida Sebastião de Abreu, bairro Cocó, em Fortaleza, foi realizada para comemorar a vitória do prefeito eleito Roberto Cláudio, do Partido Socialista Brasileiro. No local funcionou um dos comitês do candidato. No dia 28 de outubro, quando houve a eleição, uma festa da vitória já havia sido realizada no local. Algo, digamos, mais espontâneo.

A nova comemoração teve data marcada, com direito a intervenção da via desde o período da tarde e a mobilização de policiais. O evento reuniu diversas atrações musicais e humorísticas.

Ao vencedores, as batatas

Seria um despropósito criticar o ímpeto festivo de quem viveu uma disputa acirrada. No entanto, como em política, via de regra, os momentos que se seguem às vitórias servem para distensionar o ambiente, não seria inapropriado um pouco mais de comedimento para evitar uma possível impressão de provocação. Aliás, o problema é justamente esse, as mensagens implícitas nessa comemoração e sua natureza, digamos, dúbia. Uma vez no poder, tudo tem que ser calculado.

Antes de continuar, faço uma breve digressão que ao final se casa perfeitamente com a celebração dos socialistas. No romance Quincas Borbas, do grande Machado de Assis, o filósofo que dá nome à obra explica ao discípulo Rubião:

Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas e todos os demais feitos das ações bélicas. Se a guerra não fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se, pelo motivo real de que o homem só comemora e ama o que lhe é aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.

Machado ironiza algumas correntes de pensamento, como a filosofia positivista e o darwnismo, com uma paródia: o humanitismo, doutrina fictícia que, apesar das belas palavras, professa a lei do mais forte. Trata-se, de fato, de uma denúncia também: para os homens, ou para a maioria, a vitória justifica tudo.

Festa privada em via pública

Encerrando essa divagação, fica a pergunta: O que isso tem a ver com a festa de Roberto Cláudio? Ora, muito, quiçá tudo. A candidatura da “renovação”, vitoriosa em sua batalha, celebra o feito ocupando uma movimentada via pública, em dia útil, a despeito dos que a usam diariamente e dos que não desejavam participar do evento que, ao fim, foi particular. Onde está o interesse público aí?

Com efeito, a festa, assim realizada, acaba por projetar sobre os vencedores a sombra de um velho vício que não combina com a mensagem de mudança da campanha eleitoral: o patrimonialismo, a tradicional confusão entre público e privado. Por que não alugaram um clube ou algo semelhante? Ou por que não escolheram um lugar aberto, como o Aterro ou o parque do Cocó? A resposta, infelizmente, é simples. Para os vencedores que ali festejavam, nada há de errado em usar o que agora, em seu entendimento torto, lhes pertence.

Cuidado, prefeito

Encerro com outra passagem de Quincas Borbas, defendendo o ideário pelo qual aos triunfantes tudo é permitido.

– Desaparece o fenômeno; a substância é a mesma. Nunca viste ferver água? Hás de lembrar-te que as bolhas fazem-se e desfazem-se de contínuo, e tudo fica na mesma água. Os indivíduos são essas bolhas transitórias.

As bolhas são os fortalezenses. O episódio deve servir de alerta ao prefeito eleito, reconhecido por ser pessoa sensata. Cuidado prefeito com a euforia dos que lhes cercam. O tempo de promessas passou. Agora, cada ato, cada gesto e cada palavra, tudo lhe será cobrado.

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Dica de leitura: Guia Politicamente Incorreto da Filosofia – Ou: “Eu detesto política como redenção”

Por Wanfil em Livros

03 de novembro de 2012

Guia Politicamente Correto da Filosofia, Luiz Felipe Pondé, editora LeYa, 2012. Uma contundente crítica à cultura do politicamente correto.

Em ambientes de assimetria ideológica, como é o caso do Brasil, pautados por uma avassaladora adesão aos preceitos  da esquerda (dos moderados aos radicais) e aos melindres do que se convencionou chamar de “politicamente correto”, vozes dissonantes, dessas que não aderem automaticamente aos modismos ou que não assumem discursos pela conveniência de agradar ao status influente do momento, são raras. Especialmente se forem também inteligentes e provocativas.Assim, provocadora e instigante é a leitura do Guia Politicamente Incorreto da Filosofia (Leya; 224 páginas; 39,90 reais), escrito pelo filósofo Luiz Felipe Pondé, professor da PUC-SP e da FAAP, com formação na USP e doutorado em Paris.

Ser a nota dissonante em meio ao coro dos contentes não é fácil. É certo que alguém que abdica do corporativismo seja rejeitado pelos que preferem a proteção do espírito de manada (“A mediocridade anda em bando”, dispara o autor). Sobre esses, Pondé afirma (grifos meus):

O mundo das ciências humanas, em que há pouco dinheiro e se faz pouca coisa, é dominado pela esquerda aguada. Há muito corporativismo, e a tendência geral de excluir, por manobras institucionais, aqueles que não se identificam com a esquerda. Existe ainda a nova esquerda, para a qual não é mais o proletariado que carrega o sentido da história, como queria Marx. Os novos esquerdistas acreditam que esse papel hoje cabe às mulheres oprimidas, aos índios, aos aborígines, aos imigrantes ilegais. Esses segmentos formariam a nova classe sobre a qual estaria depositada a graça redentora. Eu detesto política como redenção.”

Adorar a política como redenção é a senha para que professores e acadêmicos deixem de lado a missão pedagógica de ensinar os outros a pensar com autonomia para assumir a condição de militantes proselitistas, com a função de doutrinar alunos. Exagero? Não. Basta olhar as bibliografias de qualquer curso desses, em qualquer faculdade. É tiro e queda: esquerdismo e revisionismo esquerdista. Aqui, não se respira nada de novo.

Invasão na UFC: ressentimento

Na semana em que um grupo de “estudantes” liderados por um sujeito maltrapilho invadiu e depredou o prédio da Reitoria da UFC para exigir a implantação imediata de cotas raciais nos termos que eles – os invasores – consideram os melhores, outra passagem do livro ilustra bem como o politicamente correto recobre de pureza sentimentos degradantes, ao mesmo tempo em que reprova conceitos como mérito e competência.

“Como diz o psiquiatra inglês Theodore Dalrymple, o ressentimento é um dos sentimentos mais fortes e duradouros na experiência humana, e o welfare state, ao encher as pessoas com direitos (a quase) tudo, cria uma situação peculiar, que é fazer com que os cidadãos sejam, ao mesmo tempo, ingratos com o que recebem (já que tudo o que recebem é ‘direito inalienável’) e ressentidos quando não recebem seus ‘direitos’. Não há saída para essa equação de geração de preguiça e mau caráter. E esses ‘direitos’ custam caro. Quem paga a conta? Quem trabalha, é claro. A minoria sempre carregou o mundo nas costas. O welfare state nega o fato de que poucos são mais capazes, mais inteligentes, mais esforçados e mais disciplinados e que por isso devem gozar dos resultados das suas virtudes. Dizer isso é politicamente incorreto, mas é verdade. A praga PC ( e seu parceiro, o Estado de bem-estar social europeu, responsável em grande parte pela derrocada da Europa nos últimos meses) estimula o vício e pune a virtude por não a reconhecer e por fazer com que ela pague a conta dos vagabundos”, (pag. 208).

O Guia não é um trabalho científico  e não cansa com afetaçõesdemonstrações complicadas de erudição. São ensaios em que o autor “dialoga” com pensadores que vão desde Sêneca até Nelson Rodrigues. Vale a leitura, que é fácil e acessível a quem não é iniciado nos debates da filosofia.

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Um texto instigante sobre compra de votos em Fortaleza

Por Wanfil em convidado

02 de novembro de 2012

Célebre cena do filme Matrix: Toda escolha revela uma forma de ver o mundo. Negar o aceitar algo, aderir ou repudiar uma prática por vontade própria, são ações que manifestam, no limite, convicções.

Publico abaixo texto do professor Leonardo Sá, publicado originalmente em seu blog pessoal e gentilmente cedido para o Wanfil, que versa sobre aspectos intrínsecos às acusações de compra de votos nas eleições deste ano em Fortaleza. Não concordo com tudo (estou entre os que veem no capital um instrumento de libertação), mas nesse mundo de chavões, bordões e slogans em que vivemos, nada pode ser mais alvissareiro do que a autenticidade. Segue o texto (negritos e são meus). Ao caro Leonardo, agradecimentos e saudações.

O imbróglio da compra de votos nas eleições em Fortaleza: uma reflexão antropológica

Não concordo muito com as análises segundo as quais os votos de uma eleição foram comprados, pois não há ato humano que não seja expressão de uma convicção, nem que esta seja a de uma crença no esvaziamento do próprio sentido de qualquer convicção.

Atos de compra engajam atos de consumo que, por sua vez, expressam sentidos. Um tipo de convicção negativa sobre o sentido total da experiência humana que é uma marca forte das formas conservantistas de pensar funciona desse modo. Portanto, o pessimismo é uma forma de convicção, do mesmo jeito que a valorização da moeda também o é. Inclusive, há perspectivas que veem no uso do dinheiro um fator de liberdade humana, apesar de eu não concordar com isso, do ponto de vista pessoal, mas é digno de nota, do ponto de vista analítico.

Não se trata de defender um relativismo moral, nem um relativismo niilista, minha ponderação vai no sentido de questionar que o significado das práticas do que chamamos de “compra de votos” não é exato, mas sim polissêmico, circunstancial e contingencial. O significado do voto não é anulado, suprimido, por que houve alguma transação monetária de tipo ilegal dando suporte à adesão pelo voto a um projeto de poder político. Leia mais

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Um texto instigante sobre compra de votos em Fortaleza

Por Wanfil em convidado

02 de novembro de 2012

Célebre cena do filme Matrix: Toda escolha revela uma forma de ver o mundo. Negar o aceitar algo, aderir ou repudiar uma prática por vontade própria, são ações que manifestam, no limite, convicções.

Publico abaixo texto do professor Leonardo Sá, publicado originalmente em seu blog pessoal e gentilmente cedido para o Wanfil, que versa sobre aspectos intrínsecos às acusações de compra de votos nas eleições deste ano em Fortaleza. Não concordo com tudo (estou entre os que veem no capital um instrumento de libertação), mas nesse mundo de chavões, bordões e slogans em que vivemos, nada pode ser mais alvissareiro do que a autenticidade. Segue o texto (negritos e são meus). Ao caro Leonardo, agradecimentos e saudações.

O imbróglio da compra de votos nas eleições em Fortaleza: uma reflexão antropológica

Não concordo muito com as análises segundo as quais os votos de uma eleição foram comprados, pois não há ato humano que não seja expressão de uma convicção, nem que esta seja a de uma crença no esvaziamento do próprio sentido de qualquer convicção.

Atos de compra engajam atos de consumo que, por sua vez, expressam sentidos. Um tipo de convicção negativa sobre o sentido total da experiência humana que é uma marca forte das formas conservantistas de pensar funciona desse modo. Portanto, o pessimismo é uma forma de convicção, do mesmo jeito que a valorização da moeda também o é. Inclusive, há perspectivas que veem no uso do dinheiro um fator de liberdade humana, apesar de eu não concordar com isso, do ponto de vista pessoal, mas é digno de nota, do ponto de vista analítico.

Não se trata de defender um relativismo moral, nem um relativismo niilista, minha ponderação vai no sentido de questionar que o significado das práticas do que chamamos de “compra de votos” não é exato, mas sim polissêmico, circunstancial e contingencial. O significado do voto não é anulado, suprimido, por que houve alguma transação monetária de tipo ilegal dando suporte à adesão pelo voto a um projeto de poder político. (mais…)