novembro 2012 - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

novembro 2012

Senador Eunício, a solução para a seca é menos conversa e mais ação: cadê a transposição do São Francisco?

Por Wanfil em Ceará

30 de novembro de 2012

A bancada federal do Ceará está descontente com a presidente Dilma Rousseff, que vetou parte do projeto de lei que muda as regras de distribuição dos royalties do petróleo brasileiro. Os estados produtores também estão inconformados com a perda da receita que agora será dividida com não produtores. Cada parte alega que a verba extra será fundamental para melhorar os serviços públicos em seus estados.

Nessa toada, senadores do Ceará se antecipam e fazem planos para os recursos provenientes do petróleo. Para o petista José Pimentel, o dinheiro deve ser aplicado na educação. Já o senador Eunício Oliveira, do PMDB, acredita que a solução para conviver com a seca passa pelos novos critérios de distribuição dos royalties do petróleo.

A mais nova solução para os problemas de sempre

Não faz muito tempo, todo problema não resolvido pelos governos seria solucionado com o advento do pré-sal. Como o buraco para o óleo em mares profundos é, literalmente, mais embaixo, a redenção anunciada não dará resultado no curto prazo. E assim, agora aparece outro apanágio nacional para empurrar promessas com a barriga: os royalties do petróleo.

Eunício Oliveira declarou recentemente a intenção de se candidatar à sucessão de Cid Gomes. Motivado pelo desafio, o senador discursou cobrando soluções para a seca, citando a transposição do Rio São Francisco como uma boa medida a ser efetivada.

Hora de agir

Enquanto a questão do petróleo não é resolvida, o jeito é apelar para a velha conversa utilizada em duas eleições presidenciais, cujo o resultado prático está aí: gente sedenta no Ceará, que sente na pele e no bolso os efeitos da seca, que votou em Eunício, Pimentel e seus aliados para resolverem a questão, muito antes de falarem em royalties.

Portanto, senador, com todo o respeito, não espere por royalties ou por ninguém. Nem cobre seus aliados Lula e Dilma, que o senhor é governista há muito tempo. Para cobrá-los, seria preciso dizer que a presidente e o ex-presidente souberam prometer, mas não fizeram por incompetência ou por negligência. Seria preciso mostrar-se indignado com o descaso e romper, hipótese que não combina com um líder do PMDB.

Sendo assim, é preciso agir. A posição de Vossa Excelência é a de quem deve prestar contas, não a de credor. Nesse sentido, explique aos cearenses: Cadê a transposição do Rio São Francisco?

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Prova do Enade para avaliar estudantes de jornalismo diz que sociedade civil quer regular a imprensa

Por Wanfil em Ideologia

29 de novembro de 2012

Questão discursiva nº 5 do Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade), do caderno de Comunicação Social – Jornalismo), realizado no último domingo (clique na imagem para ampliá-la):

Indução descarada

O exame se propõe a avaliar a qualidade do ensino superior no Brasil. Em tese, o aluno pode discordar do enunciado da questão; na prática, o conjunto é induz a uma resposta. Se o objetivo fosse incentivar o raciocínio crítico livre, o correto seria a apresentação de uma segunda opinião contrária à primeira para que o aluno, diante dos argumentos confrontados, expusesse o seu pensamento. O velho silogismo da tese, antítese e síntese. Isso é tão óbvio que os próprios autores do exame procuram se eximir de qualquer suspeita avisando que “o texto acima têm caráter unicamente motivador”. O cinismo, às vezes,  equivale a confissão de culpa.

Qual aluno, sendo testado, diria que um texto escolhido como referência para uma questão dissertativa, supostamente escolhido com base nos critérios mais isentos, não passa de um panfleto ideológico? Nesses casos, a tendência é justamente a de buscar alinhamento para agradar. Qual aluno diria que a primeira assertiva do texto é uma cascata e que a sociedade civil nada representa senão interesses localizados e bem particulares? Por que apostariam na polêmica, podendo aderir ao clichês seguros de sempre? Ademais, o texto reproduz a cantilena repetida por doutrinadores de esquerda que aparelham o sistema de educação brasileiro, fazendo propaganda, inclusive, do Fórum Mundial Social, o convescote que nunca criou uma mísera solução para problema algum.

O truque

Vejam como esse terreno é movediço. Quem é a sociedade civil? Você, leitor, já autorizou alguma entidade privada a falar por você? “Sociedade civil organizada”, aliás, é um termo utilizado pelo comunista Antônio Gramsci para designar um conjunto de organizações a serviço de uma agenda proposta por um partido político. Em outras palavras, é o braço civil de um grupo de militância ideológica. São militantes camuflados. Uma boa pista disso é a inútil distinção de gênero “todos e todas” (bastaria todos), que tem DNA bem conhecido nos “coletivos” da vida.

Sempre que alguém falar em “sociedade civil”, troque a expressão por um partido de esquerda e você saberá quais interesses estão em jogo. Por que ninguém lê algo como: “A sociedade civil comemora a prisão de José Dirceu”? Ou: “A luta da sociedade civil agora é provar que o presidente Lula sabia do mensalão”? E que tal: “A sociedade civil parabeniza a imprensa por cobrir os escândalos do governo”?. Simples, porque a sociedade civil – sindicatos e movimento estudantil, entre outros – é instrumento político a serviço de José Dirceu, Lula da Silva e seu partido.

Portanto, quem deseja o marco regulatório para a imprensa não são as pessoas que acordam de manhã para trabalhar, mas o grupo de ativistas mobilizados, nesse caso em particular, pelo Partido dos Trabalhadores, sigla que está no poder e que sofre perda de credibilidade por causa das revelações de suas heterodoxias éticas. A regulamentação, uma vez inserida no contexto de chavões bem conhecidos, é desculpa para atacar um alvo é certo: a liberdade de imprensa. Hugo Chavez, Cristina Kirchner, Fidel Castro e Mahmoud Ahmadinejad, poderiam muito bem assinar o texto indutor da questão 5.

Enade aparelhado

O aparelhamento do Enade como peça de doutrinação é apenas mais um esforço no sentido de pressionar os veículos de comunicação que incomodam o poder. O exame foi repleto de citações outras, sempre de petistas e marxistas como o economista Paul Singer e o geógrafo Milton Santos (clique aqui para ver a prova na íntegra).

Os universitários avaliados provavelmente se sairão bem na prova, uma vez que foram adestrados em marxismo desde a educação infantil. E o governo dirá que a qualidade do ensino está aumentando.

Já vejo as declarações em tom triunfal proferidas pelo ministro Aloísio Mercadante, o mesmo envolvido no escândalo do aloprados, para forjar dossiês contra adversários, o mesmo que toma decisões em caráter irrevogável, para no dia seguinte voltar atrás. O triunfo não será da educação formal, que visa a alta cultura, mas do proselitismo que transforma indivíduos em seres diluídos na figura amorfa da tal “sociedade civil organizada”.

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Bandido pé-de-chinelo publica fotos de cela em rede social e humilha a Segurança no Ceará

Por Wanfil em Segurança

27 de novembro de 2012

Fotos de bandidos presos no Ceará postadas no Facebook. Escárnio e descontrole. Imagem: Reprodução / Barra Pesada.

Um assassino sem maior notoriedade no mundo do crime e que atende pela alcunha de “Ninja Nu” – o sujeito gosta de se exibir sem roupas pilotando uma motocicleta -, fez uso de um aparelho celular para tirar fotos dentro da cela em que estava preso e depois publicá-las na rede social Facebook.

Não é possível dizer se as imagens são de dentro de uma delegacia ou se foram feitas já na  Casa de Privação Provisória de Liberdade (CPPL) III, em Itaitinga, presídio onde ele estava até o começo desta semana. Mesmo assim, de acordo com a assessoria de imprensa da Secretaria de Justiça do Ceará, seis aparelhos celulares foram encontrados após uma revista na cela em que estavam o tal “Ninja Nu” e outros criminosos. Ou seja, o acesso a equipamentos é amplo e fácil.

Quem imagina que o acesso a celulares e outras regalias dentro das cadeias no Brasil é coisa de sofisticadas organizações criminosas ou de poderosos chefes de quadrilhas, está enganado. A degradação do sistema de segurança pública é maior e mais profunda. No Ceará, resta comprovado, qualquer bandido consegue fazer uso da tecnologia e escarnecer das autoridades publicamente, acessando até a internet! Podem realizar, se quiserem, reuniões virtuais. É o fim.

Os chefes criminosos, claro, devem ter formas mais eficientes, e portanto, mais perigosas, de contato com o mundo exterior, não para se exibirem ou brincarem, mas para coordenarem suas atividades ilegais desde dentro das unidades prisionais.

No programa Barra Pesada, o apresentador Nonato Albuquerque faz uma pergunta que tanto mais surpreende pela sua realidade desconcertante: Onde os presos recarregam seus celulares? Existem tomadas nas celas? Ou eles levam os aparelhos para tomadas externas? E aí, quem sabe responder?

E o que dizem nossas autoridades? E a OAB?

Na última quarta-feira (21), o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, abriu o Congresso de Ministros de Justiça do Mercosul e Estados Associados sobre acesso à Justiça, em solenidade no Centro de Eventos do Ceará. Junto com o ministro, que recentemente, ao saber que José Dirceu iria cumprir pena em regime fechado, declarou preferir morrer a ter que ir para uma penitenciária, estava a secretária da Justiça e Cidadania do Estado do Ceará, Mariana Lobo.

Discutiam na ocasião experiências para a “democratização do acesso à Justiça”. Bonito e certamente importante. No entanto, me parece mais urgente debater formas de ao menos impedir que presos continuem a cometer crimes de dentro de delegacias e presídios. Anunciar apreensões em revistas é tentar tapar o sol com a peneira, pois não resolve o problema. Começo a desconfiar que essas apreensões são os presos fazendo descarte de aparelhos ultrapassados…

O senhor ministro e a senhora secretária não são páreos para o “Ninja Nu”.  O Estado não consegue dar conta de problemas já bastante conhecidos. Por quê?

A OAB tem se notabilizado ultimamente por suas disputas eleitorais. Agora que passaram, o que a entidade teria a dizer sobre o caso? Nada? E a secretária? Em São Paulo, estado com os menores percentuais de assassinatos do país, chefes do crime organizado presos mandam matar policiais nas ruas. Fizeram das penitenciárias seus bunkers. Lá estão seguros para operar seus esquemas. No Ceará, pelo visto, trilhamos o mesmo caminho.

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PT apresenta denúncia contra PSB em Fortaleza: Só isso?

Por Wanfil em Fortaleza

23 de novembro de 2012

Elmano de Freitas, candidato derrotado, protocola denúncia contra Roberto Cláudio no TRE. Acusação tardia, frágil e superficial. Urgente mesmo é a transição que não anda… Foto: Omar Jacob / Jangadeiro

Se há algo que o PT de Fortaleza e a gestão de Luizianne Lins deveriam ter aprendido com a derrota nestas eleições é a importância do senso de urgência. Antes tarde do que nunca, não é verdade? Mas  não, parece que para ambos, partido e governo, tudo sempre pode esperar um pouco mais.

Vejam o caso das alardeadas denúncias de irregularidades feitas contra o candidato eleito Roberto Cláudio (PSB), anunciadas logo após a divulgação do resultado da disputa. Foram necessários 25 dias para que o PT apresentasse um primeiro questionamento na Justiça. O candidato petista Elmano de Freitas protocolou junto ao TRE pedido de investigação sobre uma suposta paralisação de várias unidades da equipe RAIO, grupo de elite do Pelotão de Motos da Polícia Militar do Estado do Ceará. Comprovado, imaginam os denunciantes, o fato provaria uso da máquina em favor de Roberto Cláudio.

Esse comportamento de quem imagina ter todo o tempo do mundo me faz lembrar do romance Oblómov, do russo Ivan Gontcharóv (1812-1891). De tanto viver com o rosto tomado pela “luz neutra da indiferença”, o personagem-título virou adjetivo: “oblomovismo”, sinônimo de inércia. Mais tarde volto a ele.

Só isso?

O clima de indignação dos derrotados, somados aos boatos de sempre e ao reconhecimento de que eleições no Brasil tem suas peculiaridades, criou alguma expectativa de que algo coisa mais sério poderia acontecer. O tempo passou e expectativa começou a se transformar em desconfiança. A primeira denúncia apenas reforça a sensação de que tudo não passa de choro de quem não sabe perder.

Qual seria a relação entre uma paralisação de veículo de um grupo cujo foco é o “combate ao porte ilegal de armas, o consumo e o tráfico de drogas em pontos de vendas nos bairros de Fortaleza”? A não ser que o número de eleitores traficantes e usuários que estivessem comercializando drogas no dia da eleição seja grande o bastante para mudar o resultado do pleito, o pedido não faz sentido.

Não satisfeitos com a demora em apresentar essa, vá lá, “denúncia”, a coligação comandada pelos petistas ainda avisa que está reunindo provas de outras irregularidades praticadas pelos apoiadores de Roberto Cláudio..

Os meios qualificam a oposição

A inércia do governo municipal custou-lhe o poder em Fortaleza e a aliança com o PSB. No livro que citei, a apatia de Oblómov contrasta com o estilo do seu adversário na trama, o empreendedor Stolz. Essa é a lição! Que a inércia de uns não atrapalhe a iniciativa de quem pode trabalhar.

Não faço aqui defesa de candidato algum, não é meu papel, e nem isento ninguém de nada. Apenas me atenho aos fatos. Se o PT tem algo de concreto, que o apresente já. Por que esperar? Ou tem ou não tem as provas alegadas. Se as tiver, a imprensa fará certamente o seu trabalho na apresentação delas ao público. Se não as tiver, que respeitem a decisão dos eleitores.

Nesse momento, quando Fortaleza carece de tantas ações e o Ceará vive uma seca de grandes proporções, é hora de fazer o melhor trabalho possível na transição para o novo governo. Problemas não faltarão para debater no futuro. No entanto, esse clima de denúncias forçadas e de ameaças sem efeito apenas conturba o processo político e administrativo. Na verdade, a impressão que fica é exatamente essa: o objetivo das acusações, até o momento frágeis e superficiais, é justamente o de atrapalhar. E isso não qualifica positivamente a oposição.

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A relação entre Executivo e Legislativo no Ceará: tudo dominado

Por Wanfil em Ceará, Política

21 de novembro de 2012

Imagem-metáfora: Qual menino representa o Legislativo e qual representa o Executivo? – Foto: Pinterest

Trecho de artigo assinado pela jornalista Dora Kramer, do jornal O Estado de São Paulo, nesta quarta:

“Ao mesmo tempo em que o Supremo afirma sua autonomia, o Congresso se afunda na submissão aos ditames do Executivo e das infames conveniências partidárias. Enquanto a Corte Suprema investe na punição dos crimes contra a administração pública, o Parlamento dá abrigo à impunidade”.

E no Ceará?

No Ceará a realidade não é diferente. Vejam o que disse o deputado Wellington Landin (PSB), com a autoridade de quem já presidiu a Assembleia Legislativa do estado, no início deste mês de novembro: “Sem meias palavras: o governador é o eleitor mais importante da Assembleia Legislativa. Essa decisão passa necessariamente pela palavra do governador. Passa necessariamente, não adianta a gente ficar aqui com meias palavras nem com hipocrisia.

A conclusão é incontornável: aqui também, descontadas as aparências, o poder Legislativo é comandado pelo poder Executivo.

A indicação que vale por uma nomeação

Tanto isso é verdade que a notícia sobre a indicação do deputado Zezinho Albuquerque como nome do PSB do Ceará (presidido por Cid Gomes) à presidência da Assembleia Legislativa equivale quase a uma nomeação. Aguarda-se apenas as negociações sobre a composição da mesa diretora e os ritos burocráticos necessários para a efetivação do escolhido. Leia mais

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Consciência não tem cor

Por Wanfil em Brasil, Cultura, Livros

20 de novembro de 2012

A maior qualidade da democracia brasileira não está na separação de seus cidadãos pelo critério da cor, mas justamente na miscigenação, como evidenciam Freyre, em Casa Grande e Senzala; e Kamel, em Não Somos Racistas.

Hoje é o dia da consciência negra. Pela lógica, o fato de seres humanos  possuírem cores diferentes basta para invalidar qualquer tipo de discriminação, uma vez que todos possuem a mesma constituição física. No entanto, como sabemos, o racismo existe em variadas formas, a depender do período histórico e da sociedade analisados.

O problema de haver um dia para comemorar a “consciência negra” reside no fato de que se está promovendo uma distinção que separa as pessoas pelo critério da cor. Por esse princípio, seria natural haver o dia da “consciência branca”, ou da “consciência cabocla”, ou “quase-negra”, ou “amarela” etc, etc. A consciência, enquanto faculdade de discernimento sobre os próprios atos, é atributo individual e intransferível, independente do sexo ou da cor. Do ponto de vista coletivo, podemos ter o patriotismo, que é o sentimento de pertencimento e de unidade experimentado por pessoas que dividem uma formação histórica. É, portanto, uma soma. Não pode haver, nesse grupo, uma categoria especial, pois todos se igualam na condição de brasileiros.

Dessa forma, grosso modo, a primeira medida para corrigir discriminações de natureza racial é o estabelecimento da igualdade jurídica entre os cidadãos. Qualquer exceção ao estabelecimento dessa noção igualitária, ainda que supostamente criada com as melhores intenções, resulta em… racismo!

Não estou afirmando que inexiste discriminação racial no Brasil. Digo apenas que o racismo brasileiro é um fenômeno cultural de difícil identificação, que na maioria das vezes se manifesta em forma tácita. Não existem, pelo menos não existiam até a criação das cotas raciais nas universidades federais, leis de discriminação. Não há impedimentos legal para que um negro ou um amarelo tenham acesso a qualquer bem ou direito, ou que privilegiem um branco, garantindo-lhe regalias. Portanto, em nossa sociedade, a melhor forma de combater o preconceito de cor é a promoção da boa educação para o exercício da democracia. Não se trata definitivamente, de um problema de legislação.

Dica de leitura sobre o tema

Casa-grande e Senzala, escrito pelo sociólogo Gilberto Freyre, em 1933. Trata-se de um imenso painel que, entre outras coisas, traz o registro detalhado do processo de miscigenação que fez do Brasil um país multi-racial. Para Freyre, essa mistura seria a maior qualidade do nosso povo, a matriz da identidade nacional.

Não Somos Racistas, do jornalista e sociólogo Ali Kamel, de 2007. É um alerta para o perigo de perdermos a noção positiva da miscigenação, devido ao pensamento bicolor que busca dividir o Brasil apenas entre brancos opressores e negros oprimidos. “Num país em que no pós-Abolição jamais existiram barreiras institucionais contra a ascensão social do negro, num país em que os acessos a empregos públicos e a vagas em instituições de ensino público são assegurados apenas pelo mérito, num país em que 19 milhões de brancos são pobres e enfrentam as mesmas agruras dos negros pobres, instituir políticas de preferência racial, em vez de garantir educação de qualidade para todos os pobres e dar a eles a oportunidade para que superem a pobreza de acordo com os seus méritos, é se arriscar a pôr o Brasil na rota de um pesadelo: a eclosão entre nós do ódio racial, coisa que, até aqui, não conhecíamos”, afirma Kamel.

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Estado laico é diferente de ateísmo oficial

Por Wanfil em Brasil

17 de novembro de 2012

Polêmica sobre expressão ‘Deus seja louvado’ nas cédulas de real busca a negação da incorporação de valores religiosos como valores culturais de um povo. Algo impossível de ser feito.

As divergências sobre expressões de natureza religiosa em instituições ou bens públicos vez por outra geram polêmicas na imprensa e nos tribunais. Agora foi um procurador da República em São Paulo, que na última semana solicitou à Justiça Federal a retirada da expressão ”Deus seja louvado” das cédulas de real. O principal argumento para o pedido, como sempre acontece nesses casos, é a preservação do caráter laico do Estado brasileiro. Parece uma formulação lógica, e no entanto, trata-se de mais um episódio a evidenciar a confusão que prevalece na hora de pensar a relação entre religião e o poder secular.

Evolução

Na Idade Média, durante o período da Inquisição, os Tribunais do Santo Ofício criados pela Igreja Católica julgavam e geralmente condenavam pessoas acusadas de heresia, para que depois o Estado os punisse até com a morte. Nessa época, a simbiose entre religião e Estado criou uma cultura de intolerância que culminou na legalização da perseguição em nome de um credo.

Assim, o grande avanço nas democracias ocidentais, obtido no rastro das transformações iluministas, foi justamente a ideia de Estado laico, ou seja, independente da religião. Mas é preciso observar que essa divisão – do ponto de vista filosófico que a permitiu ser formulada – não significa a negação da religião como elemento constitutivo de uma nação. O argumento estritamente religioso, a partir de então, deixou de ser a base da legislação, como acontece nos estados teocráticos. Para os laicos, a Constituição garante a igualdade de todos perante as instituições do Estado. Para os teocráticos, são os textos sagrados que prevalecem, em detrimento dos que não comungam da fé professada pelo Estado.

Religião e cultura

Com efeito, Estado laico é aquele que não permite que perseguições sejam feitas em nome de uma religião ou de uma crença, como o ateísmo. Essa concepção não corresponde a um suposto estado ateu ou agnóstico, que nega, prescinde ou mesmo despreza a dimensão espiritual de seu povo. Pelo contrário, cabe ao laicismo garantir que diferentes religiões coexistam pacificamente, com plena liberdade de expressão, sem ignorar que as religiões são a base da civilização. O Direito à vida, ou mesmo o conceito de igualdade, não são verdades naturais, ou seja, expressas por ciências exatas. São valores morais nascidos justamente de preceitos religiosos incorporados à cultura geral. Assim como a ideia de Deus.

Portanto, nada mais natural que o nome de Deus esteja impresso nas cédulas de um país onde a maioria crê em Deus desde o momento, ou até antes, em que essa sociedade passou a se reconhecer como nação. O Estado brasileiro é laico, não tem religião oficial, mas não renega a importância da religiosidade como traço inerente da cultura nacional. Na verdade, não existe e nunca existiu em nenhum tempo ou lugar, sociedades laicas. O Estado laico é o Estado da harmonia entre as crenças. Por isso, não temos um Estado que imponha o ateísmo como norma.

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Breves notas sobre réveillon, aviões e declarações nada nobres

Por Wanfil em Ceará

15 de novembro de 2012

Breves notas sobre três acontecimentos que agitaram a semana no Ceará:

Luizianne quebra o silêncio e cobra “garantias” Cid Gomes e Roberto Cládio para fazer o Réveillon

Estou na torcida para que a festa do réveillon deste ano seja cancelada, como medida de austeridade e para economizar os parcos recursos do município. A festa em 2010 custou 4,4 milhões de reais. Na ocasião, cito de memória, Caetano Veloso recebeu 700 mil para fazer um show pelo qual cobrou 100 mil em São Paulo. Em 2011, foram mais 5 milhões, numa festa com artistas do calibre de uma tal de Martinália. Qual o retorno de tudo isso? Turismo, dizem alguns. Pois eu aposto que o turismo não diminui sem o réveillon. No feriado de Finados, por exemplo, a taxa de ocupação de leitos de hotel ficou em 90%. Ademais, toda economia será de grande valia para que Roberto Cláudio possa cumprir tudo o que prometeu. Não foi pouca coisa.

Cid Gomes feriu regras de segurança no aeroporto de Salvador. Anac abriu procedimento para investigar o caso

Não sei que sentimento de urgência fez o governador Cid Gomes atravessar a pista de um grande aeroporto em pleno horário de tráfego para ser visto pela presidente Dilma. Uma aeronave foi obrigada a arremeter por causa da imprudência. Aqui faço apenas uma constatação curiosa. Cid não tem mesmo sorte com aviões. Boa parte das notícias que o constrangeram nos últimos anos diz respeito a casos envolvendo jatos. Parece uma karma… Foi assim na famosa viagem com a sogra, a carona com Alexandre Grendene e agora o episódio na Bahia. Sem querer ofender, talvez seja o caso de optar por aviões de carreira.

“Se existirem três pessoas honestas no Brasil, Genoíno é uma delas”, diz deputado José Guimarães

O deputado federal José Nobre Guimarães (PT) afirma que seu irmão José Genoíno (PT), condenado pelo Supremo Tribunal Federal no processo do Mensalão a 6 anos e 11 meses de prisão, é inocente e modelo de inocência. Supondo que Guimarães considere Lula e Dirceu pessoas honestas, ele mesmo ficaria fora da lista tríplice da candura. A declaração, se feita em âmbito privado, seria questão de foro íntimo, coisa de parente que não quer enxergar a verdade. Porém, tornada pública pelo vice-líder do governo na Câmara Federal, ganha contorno de desagravo ao condenado e de consequente repúdio à Corte Suprema. Uma atitude, portanto, nada nobre e genuína.

Guimarães alega ainda que Genoíno é pobre, o que seria prova cabal de que o irmão é puro de espírito. Ora, o destino dado ao produto de um crime não desfaz sua natureza ilegal. Se um ladrão de bolsas rouba uma senhora na esquina e mais adiante distribui o dinheiro que havia nela para mendigos, isso não muda o fato de que a mulher foi roubada por um ladrão. E  olha que não se tem notícias de mendigos que tenham recebido alguma parte no mensalão…

Por último, Guimarães anuncia que “se o PT fizer uma vaquinha, serei o primeiro a entrar na cota”. Que é isso, companheiro? O condenado é seu irmão! Não espere vaquinha do partido para ajudá-lo. Se for necessário, peça um empréstimo bancário. O senhor tem prestígio em algumas casas.

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A condenação de José Dirceu e o Sermão do Bom Ladrão

Por Wanfil em Brasil, Judiciário, Política

12 de novembro de 2012

Padre Vieira, autor do Sermão do Bom Ladrão: sem arrependimento não há mudança. Sem a devolução do roubado, não há arrependimento verdadeiro.

O Supremo Tribunal Federal condenou o ex-ministro José Dirceu a 10 anos e 10 meses de prisão pelos crimes de corrupção ativa e formação de quadrilha. Dirceu dispensa apresentações. Ícone da esquerda revolucionária no passado e braço direito de Lula na criação do Partido dos Trabalhadores e depois na moderação do discurso que o levou ao Planalto, Dirceu é personagem central do projeto de poder que comanda o país a 10 anos. Se Lula exerceu o papel de símbolo desse projeto (o sonho marxista do operário a liderar as massas contra a expliração da classe dominante), Dirceu foi a força operacional e ideológica que o sustentava.

Os mais empolgados acreditam que os ministros do STF passam o Brasil a limpo. Sem prejuízo para o valor singular do julgamento e da condenação dos mensaleiros, é preciso ter cuidado com esses arroubos. Os companheiros de Dirceu, esses que atuam na linha de frente do governo e dirigem o PT por todo o país, não dão sinais de que repudiam os atos dos criminosos condenados. Por isso não os expulsam da sigla. Há o lamento pela queda, mas não há arrependimento. E sem arrependimento, não há mudança de postura.

Sobre roubos e ladrões

Assim, lembro de uma passagem do belíssimo Sermão do Bom Ladrão, do Padre Antônio Vieira (1608-1697), proferido em Portugal no ano de 1655, na Igreja da Misericórdia de Lisboa, diante das maiores autoridades do país, entre os quais o rei D. João IV, que reproduzo abaixo (grifo meu):

Se o alheio, que se tomou ou retém, se pode restituir, e não se restitui, a penitência deste e dos outros pecados não é verdadeira penitência, senão simulada e fingida, porque se não perdoa o pecado sem se restituir o roubado, quando quem o roubou tem possibilidade de o restituir“.

Em outro trecho, citando Santo Tomás de Aquino, o padre deixa claro a omissão, para a Justiça Diniva, é crime também, ao contrário do pregam alguns admiradores do ex-presidente Lula, chefe de Dirceu durante o tempo em que o mensalão foi operado:

Aquele que tem obrigação de impedir que se não furte, se o não impediu, fica obrigado a restituir o que se furtou. E até os príncipes, que por sua culpa deixarem crescer os ladrões, são obrigados à restituição, porquanto as rendas, com que os povos os servem e assistem, são como estipêndios instituídos e consignados por eles, para que os príncipes os guardem e mantenham em justiça“.

Por último, destaco esta outra passagem, utilizada pelo ministro Ayres Britto durante o julgamento, onde Vieira distingue os ladrões pequenos dos grandes:

Os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos.

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Futebol: o falso valor de algo sem importância

Por Wanfil em Crônica

12 de novembro de 2012

Cadeiras quebras no PV por torcedores frustrados. Retrato de uma sociedade que prioriza o circo em detrimento do pão. Foto: Hebert Lemos

O título deste post é uma provocação derivada de uma frase atribuída ao ex-técnico da seleção italiana Arrigo Sacchi: “Il calcio è la cosa più importante delle cose non importanti”, ou “o futebol é a coisa mais importante dentre as coisas menos importantes”. A tirada me veio à mente ao ler no noticiário sobre atos de destruição e vandalismo registrados no Estádio Presidente Vargas, após a equipe do Fortaleza ser eliminada na Série C do Campeonato Brasileiro.

À luz da lógica, nada faz sentido. Times que por longos períodos não disputam a Série A são, via de regra, ruins de bola. Incapazes de jogar com equipes de verdade, fazem um campeonato à parte. Suas torcidas, portanto, deveriam estar imunizadas contra a arrogância e a soberba, uma vez que jamais comemoram títulos de expressão nacional. Torcedor de time ruim precisa ser humilde por necessidade. Um raro exemplo dessa compreensão é a torcida do Ferroviário, aqui no Ceará.

No entanto, de alguma forma, boa parte dos torcedores de times ruins se isolam do resto do mundo em torneios de baixa qualidade, como as divisões inferiores e os campeonatos estaduais, e passam a emular o comportamento desrespeitoso das torcidas dos grandes times.

Reação irracional e sem sentido

Imaginando-se portadores de algo especialíssimo, muitos torcedores adotam a adoração fanática ao clube como religião. Seu Paraíso são os delírios de glória, que no mundo real não se concretizam, claro. E assim, na primeira frustração, os vândalos destroem o PV reformado às custas de dinheiro público, como se fossem credores de uma qualidade superior que não existe no futebol cearense. Se eventualmente um time local sobre à primeira divisão, é para apanhar dos grandes. Isso não é sarcasmo, é uma constatação empírica.

Na tentativa de tratar como desvio de conduta algo que se generaliza cada vez mais entre torcidas de diversos clubes, comentaristas esportivos não tardam em disparar: “Não são torcedores!”. E eu digo: Claro que são! Externam com violência o descontentamento que lhes aflige porque são violentos e vivem numa sociedade tolerante com a violência. Alguns marmanjos reagem de forma diferente e choram. Isso mesmo, vão às lágrimas porque um time de futebol perde uma partida. Outros ficam irascíveis dentro de casa e destratam cônjuges e parentes. Há quem fique doente. Leia mais

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Futebol: o falso valor de algo sem importância

Por Wanfil em Crônica

12 de novembro de 2012

Cadeiras quebras no PV por torcedores frustrados. Retrato de uma sociedade que prioriza o circo em detrimento do pão. Foto: Hebert Lemos

O título deste post é uma provocação derivada de uma frase atribuída ao ex-técnico da seleção italiana Arrigo Sacchi: “Il calcio è la cosa più importante delle cose non importanti”, ou “o futebol é a coisa mais importante dentre as coisas menos importantes”. A tirada me veio à mente ao ler no noticiário sobre atos de destruição e vandalismo registrados no Estádio Presidente Vargas, após a equipe do Fortaleza ser eliminada na Série C do Campeonato Brasileiro.

À luz da lógica, nada faz sentido. Times que por longos períodos não disputam a Série A são, via de regra, ruins de bola. Incapazes de jogar com equipes de verdade, fazem um campeonato à parte. Suas torcidas, portanto, deveriam estar imunizadas contra a arrogância e a soberba, uma vez que jamais comemoram títulos de expressão nacional. Torcedor de time ruim precisa ser humilde por necessidade. Um raro exemplo dessa compreensão é a torcida do Ferroviário, aqui no Ceará.

No entanto, de alguma forma, boa parte dos torcedores de times ruins se isolam do resto do mundo em torneios de baixa qualidade, como as divisões inferiores e os campeonatos estaduais, e passam a emular o comportamento desrespeitoso das torcidas dos grandes times.

Reação irracional e sem sentido

Imaginando-se portadores de algo especialíssimo, muitos torcedores adotam a adoração fanática ao clube como religião. Seu Paraíso são os delírios de glória, que no mundo real não se concretizam, claro. E assim, na primeira frustração, os vândalos destroem o PV reformado às custas de dinheiro público, como se fossem credores de uma qualidade superior que não existe no futebol cearense. Se eventualmente um time local sobre à primeira divisão, é para apanhar dos grandes. Isso não é sarcasmo, é uma constatação empírica.

Na tentativa de tratar como desvio de conduta algo que se generaliza cada vez mais entre torcidas de diversos clubes, comentaristas esportivos não tardam em disparar: “Não são torcedores!”. E eu digo: Claro que são! Externam com violência o descontentamento que lhes aflige porque são violentos e vivem numa sociedade tolerante com a violência. Alguns marmanjos reagem de forma diferente e choram. Isso mesmo, vão às lágrimas porque um time de futebol perde uma partida. Outros ficam irascíveis dentro de casa e destratam cônjuges e parentes. Há quem fique doente. (mais…)