outubro 2012 - Página 2 de 2 - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

outubro 2012

Voto nulo é tão legítimo quanto qualquer voto livre

Por Wanfil em Eleições 2012, Política

11 de outubro de 2012

Não é por acaso que as opções de voto em branco e de voto nulo são ofertadas nas urnas eletrônicas: trata-se de um direito do eleitor. Voto ruim é o voto de cabresto.

O art. 3º da Lei Eleitoral afirma: Será considerado eleito Prefeito o candidato que obtiver a maioria dos votos, não computados os em branco e os nulos.

Fica evidente que, para todo efeito, votar em branco ou nulo não interfere objetivamente no resultado. Só os votos válidos são considerados para definir quem venceu o pleito (desde 1997 os votos em branco não são mais contabilizados como válidos). Mas, se é assim, por que as urnas eletrônicas oferecem as opções de branco e nulo? Porque o eleitor, vejam só, é livre para rejeitar os candidatos que lhe são apresentados; é livre para dizer que rejeita determinado cenário. Porque nas democracias, essas são alternativas tão legítimas quanto votar em um candidato.

Voto nulo pode ser manifestação consciente

Os críticos do voto inválido argumentam que ele expressa uma falta de compromisso do cidadão para com a democracia, alienação política ou mesmo ingenuidade, uma vez que sua efetivação apenas transferiria a responsabilidade da escolha final a terceiros.

Alguns mostram indignação, como se uma pessoa não pudesse, de forma consciente e lúcida, anular seu voto como manifestação de repúdio a um ou outro grupo político. Se eu acho que dois candidatos são corruptos, o que devo fazer? “Vote no que você achar o menos pior”, dizem os sabichões. Isso é consciência cívica? Não respeitar a opção pelo voto nulo ou pelo voto em branco é manifestação de intolerância disfarçada de preocupação social.

E o que dizer dessa conversa de transferir a escolha a terceiros? Ora, se o sujeito, por exemplo, não votou na candidata Dilma Rousseff no primeiro e no segundo turno, não foram terceiros que escolheram a presidente de todos?

Abstenção é diferente de voto não válido

É importante preciso não confundir voto inválido com abstenção. O abstencionismo – ausência do eleitor – serve para avaliações quantitativas, mas não pode ser tomado como manifestação deliberada de rejeição ao processo eleitoral ou aos candidatos, como nos casos do voto em branco ou do voto nulo. Sim, quem deixar de ir votar pode eventualmente estar protestando, mas analiticamente, somente o voto não válido é que pode ser tomado como expressão consciente de desconfiança ou negação.

Não estou dizendo que o voto inválido é superior ao voto útil, que isso fique claro. Votar em um candidato somente para impedir que outro vença – no menos pior, como dizem – é também manifestação legítima, desde que amparada na reflexão honesta.

Voto ruim é voto corrompido

Isso não significa que todo voto é legítimo. Aqueles que se revoltam contra o voto nulo ou em branco desperdiçam sua indignação, porquanto voto ruim é o voto de cabresto, o voto comprado, o voto vendido, o voto insuflado pelo medo ou pelo fanatismo ideológico, que impede a observação de condições como a integridade do candidato. Voto ruim é o voto induzido pela mentira das propagandas (o estelionato eleitoral) ou pelos erros das pesquisas.

O Brasil é um país que precisa de uma lei para que candidatos enrascados com a lei ou corruptos não sejam eleitos pelo voto livre e democrático. Definitivamente, o problema do país não é o voto nulo. Se você, assim como eu, acredita que as opções que restaram no segundo turno da sua cidade não são adequadas, vote nulo sem pensar que está cometendo um crime. Vote com gosto e diga que não quer escolher entre o que você considera igualmente ruim. O voto é seu.

PS. Esta é uma opinião pessoal deste articulista e não corresponde a nenhuma posição editorial do Jangadeiro Online.

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Vencedores e derrotados no 1º turno em Fortaleza e as lições de Napoleão e Saint-Exupéry

Por Wanfil em Eleições 2012

09 de outubro de 2012

Napoleão em Santa Helena, de Robert Harris. “A derrota é órfã”.

O escritor francês Antoine de Saint-Exupéry, autor do famoso O Pequeno Príncipe, também escreveu obras e artigos sobre diversas guerras (era piloto e morreu em missão durante a Segunda Guerra Mundial). É com conhecimento de causa que ele escreveu: “Há vitórias que exaltam, outras que corrompem; derrotas que matam, outras que despertam”.

Como as guerras militares são irmãs das batalhas políticas, a frase de Saint-Exupéry como baliza para refletirmos sobre o day after do primeiro turno nas eleições para a Prefeitura de Fortaleza. Os que seguiram adiante cantam vitória, naturalmente. Mas será que realmente podem chamar para si o sucesso temporário? Quem sai maior ou menor do que entrou na disputa?

O despertar de Heitor Ferrer

O candidato do PDT não foi ao segundo turno por uma conjunção de fatores entre os quais se destacam as pesquisas eleitorais, especialmente a boca de urna do instituto Ibope. Ao que tudo indica, a percepção de boa parte dos eleitores é a Leia mais

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O resultado das urnas em Fortaleza e as pesquisas eleitorais

Por Wanfil em Eleições 2012

08 de outubro de 2012

O desempenho do candidato Heitor Ferrer (PDT) foi a surpresa do primeiro turno destas eleições municipais em Fortaleza. Com pouco tempo de propaganda, modesta estrutura de campanha e sem padrinhos políticos, o pedetista obteve 20,97% dos votos, logo atrás de Elmano de Freitas (PT), com 25,44%, e Roberto Cláudio (PSB), com 23,32%.

O motivo da surpresa está no fato de que o candidato nunca andou perto dos líderes em todas as pesquisas de intenção de voto realizadas durante a campanha, previsão desmentida nas urnas. Nas redes sociais, esse contraste foi bastante citado, com muita gente acusando as pesquisas de parcialidade, omissão ou incompetência.

Até que ponto as pesquisas prejudicaram Heitor Ferrer?

A pergunta é legítima, uma vez que que a diferença do terceiro colocado para os candidatos que carimbaram o passaporte para o segundo turno foi bastante reduzida. Não estou entre os que sugerem manipulação dos números com o objetivo deliberado de prejudicar determinada candidatura, nem entre os que as tomam como ciência exata. (Para saber mais sobre a enormidade de variáveis que entram na composição de uma pesquisa, ler o post O que não se vê nas pesquisas eleitorais). Dessa forma, é preciso observar alguns pontos específicos.

Primeiro, o fato de mais de um instituto não ter registrado o avanço de Heitor Ferrer indica que seu crescimento foi um movimento muito recente, operado com maior velocidade nas horas que antecederam o pleito. Pesquisas Vox Populi, Datafolha e Ibope divulgadas na última semana não sinalizavam movimentações nesse sentido. Não é plausível acreditar numa manipulação que conseguisse envolver três institutos. O que resta provado é que as metodologias aplicadas não garantem a reprodução adequada da dinâmica de uma eleição.

Segundo, se as pesquisas tivessem captado a tendência a favor de Ferrer, é possível que uma onda positiva se formasse com maior intensidade e o beneficiasse. Evidentemente, a falta de boas notícias nos levantamentos costuma ter um efeito desmobilizador na militância do candidato e na capacidade do seu comando de campanha de angariar contribuições financeiras.

Cumpre registrar ainda que nem mesmo a boca de urna do Ibope, quando a margem de erro cai drasticamente, mostrou a mudança no eleitorado. Como esse foi uma falha única, seria interessante que o instituto explicasse o que aconteceu.

Pesquisas mostraram indícios que não foram bem lidos

Terceiro, é bom lembrar, se por um lado as pesquisas não mostraram categoricamente que Heitor Ferrer crescia na reta final, por outro elas forneceram durante todo o processo indícios valiosos que não foram bem utilizados pelo candidato e sua equipe.

Ferrer sempre apareceu com baixíssima rejeição em todas as pesquisas, que também mostravam que as candidaturas a serem batidas eram as dos candidatos apoiados pelas máquinas. Dito de outra forma, as pesquisas acertaram na evolução de Elmano e Roberto – os alvos – e informavam que Heitor tinha credibilidade para assumir uma postura mais incisiva nas críticas aos seus adversários.

Cruzando esses dados com pesquisas qualitativas feitas no início da campanha, Heitor Ferrer deveria ter levantado a bandeira da independência e associá-la à da ética, campo em que é bem avaliado.

Cuidado para não superestimar as pesquisas

As pesquisas podem ter atrapalhado Heitor Ferrer, influenciando negativamente o eleitorado. Infelizmente, não há como medir isso cientificamente. No entanto, imaginar que pesquisas possam determinar resultados, ignorando que são instrumentos voláteis por natureza e que precisam de leitura estratégica para criar posicionamentos de campanha, é superestimá-las.

Passou para o segundo turno, quem errou menos.

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Falta um Mitt Romney nas eleições de Fortaleza. Aliás, faltam Romneys no Brasil

Por Wanfil em Brasil, Ideologia, Política

04 de outubro de 2012

Debate Mitt Romney e Barack Obama: Embate de visões opostas e bem colocadas. Uma real oportunidade de escolha para o eleitor. Em Fortaleza (e no Brasil), todos repetem o mesmo discurso e as mesmas promessas.

Leio no jornal O Estado de São Paulo que para os americanos Romney foi o vencedor do debate contra Obama. Candidato da oposição pelo Partido Republicano, Mitt Romney disputa a presidência dos Estados Unidos contra o democrata Barack Obama, que busca um segundo mandato. Segundo a CNN, uma pesquisa de opinião mostra que o desafiante levou a melhor para 67% dos entrevistados, contra 25% atribuido ao presidente. Obama lidera as intenção de votos com 50%, tecnicamente empatado com o republicano.

Como fazer uma campanha de oposição combativa

Como o oposicionista Romney consegue um desempenho desses mesmo enfrentando o famoso Obama? Ora, fazendo o que é óbvio para o público americano: buscando ressaltar o contraste de ideias entre os dois. Enquanto no Brasil todos os candidatos se esmeram na arte de parecer iguais, nos EUA, candidato de oposição, vejam só, aponta erros do adversário e sugere soluções.

Obama fala em aumento dos gastos públicos e de impostos para financiar políticas sociais. Romney diz que essa política vicia o cidadão e que irá cortar impostos para incentivar investimentos privados. Um choque de visões feito de forma polida. Nessas horas, lembro de Lula, Cid Gomes e Luizianne Lins, que costumam tomar qualquer crítica como ofensa pessoal. Esse é um aspecto da nossa cultura política que deixo para outra oportunidade.

Como fazer uma campanha onde todos dizem a mesma coisa

Por enquanto, da eleição americana, vale ressaltar o valor positivo das diferenças entre candidatos que defendem plataformas distintas de governo. Trilhando caminho inverso, a disputa pela Prefeitura de Fortaleza é protagonizada por candidatos competem para ver quem é o pedinte mais competende diante do governador ou da presidente. É o cúmulo da sujeição e da falta de altivez. Ninguém se mostra como alguém mais preparado para cobrar ou denunciar eventuais omissões dos governos estadual ou federal.

Em Fortaleza, candidatos falam em aumento dos gastos públicos no município prometendo mais assistencialismo a fundo perdido. Não falam nunca em receita ou em qualidade dos gastos. Nada disso parece estar entre as prioridades do horizonte ideológico de nenhum deles.

Sobram rótulos, mas faltam alternativas reais

Vivemos sob o signo de uma brutal assimetria na construção ideológica da política, com predominância absoluta, em qualquer esfera social ou administrativa, do receituário de inspiração “progressista”.

Por isso candidatos não ousam combater o novo paternalismo com receio de ser rotulado de elitista, reacionário ou direitista. E não adianta dizer que Moroni Torgan é de direita. Onde estão os pressupostos liberais do candidato? A direita aceita no Brasil é a social-democracia, fato que basta para demonstrar o atual estado de indigência intelectual que vivemos.

Concurso de miss

Falta em Fortaleza alguém disposto a bater de frente com essa visão de governo. Aliás, faltam alternativas para o Brasil, onde qualquer eleição não passa de uma competição entre esquerdistas. Quando a pluralidade de visões é substituída por uma unidade doutrinária velada, a democracia não é vivenciada em sua plenitude. Sem diferenças de fundo, resta ao cidadão escolher a partir das aparências. É quando as eleições ganham um aspecto de concurso de miss, em que os adversários competem apenas para saber qual deles é o mais bem produzido.

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Debate Jangadeiro: Candidatos de oposição partem para o ataque – Ainda há tempo?

Por Wanfil em Eleições 2012

03 de outubro de 2012

Candidatos à Prefeitura de Fortaleza no estúdio da TV Jangadeiro

O Sistema Jangadeiro de Comunicação realizou na noite desta terça-feira o seu segundo debate entre os candidatos à Prefeitura de Fortaleza.

Pressionados pelas pesquisas e na reta final da campanha, pela primeira vez os candidatos de oposição atuaram com forte viés de crítica em relação aos candidatos lançados pelo governador Cid Gomes e pela prefeita Luizianne Lins.

Moroni Torgan (DEM), Marcos Cals (PSDB), Renato Roseno (PSOL) e Heitor Ferrer (PDT) apresentaram sintonia nas análises  dirigidas especialmente à aliança recentemente desfeita entre o governador Cid Gomes e a prefeita Luizianne Lins e ao uso da máquinas. Procuraram, em suma, fazer um alerta ao eleitorado sobre a importância de eleger um nome independete, lembrando que os ex-aliados que comandam as máquinas tiveram tempo para fazer aquilo que agora seus indicados prometem.

Por outro lado, Elmano de Freitas (PT) e Roberto Cláudio (PSB), líderes nas pesquisas de opinião, entraram em campo para jogar com o regulamento debaixo do braço e evitaram polêmicas.

No momento mais duro, Marcos Cals citou declarações do ex-governador Ciro Gomes chamando o candidato Elmano de Freitas de “pau mandado”. O petista se mostrou que foi bem orientado no midia trainer e não mudou o semblante enquanto rebatia dizendo que seus adversários o atacavam por não ter propostas. Roberto Cláudio ressaltava a parceria com o governo do estado como trunfo.

Heitor Férrer e Moroni chegaram a abordar o caso do mensalão, provavelmente na esperança de reproduzir em Fortaleza o desgaste que o PT vive em outras capitais por causa do julgamento no Supremo Tribunal Federal.

Política não é “paz e amor”

No início da campanha, com pesquisas mostrando um acentuado desejo de mudança no eleitorado, diversas candidaturas se apresentaram. Imaginando que o desgaste da atual gestão fosse irreversível, todos optaram pela estratégia “paz e amor”, celebrada por Duda Mendonça e Lula da Silva. O que era uma especificidade – Lula tinha a imagem de político agressivo e instável – se transformou em uma espécie de regra absoluta aplicável a toda e qualquer circunstância. Um erro que beneficia justamente aos que são poupados de críticas. Obama não seria eleito sem criticar Bush.

Alertei em outros textos para o risco dessa decisão, que deixava terreno livre para que um governo avaliado negativamente buscasse uma recuperação. Política é embate, é confronto de ideias, de visões. Sem isso, as estruturas milionárias das candidaturas de situação se impuseram sobre a divisão dos opositores.

Vai dar tempo?

Agora que a eleição está na reta final para o primeiro turno, os opositores finalmente entederam que é preciso fazer política e não apenas promessas adornadas pelo marketing. Entretanto, a questão que se evidencia neste momento é saber se essa mudança de postura fará efeito e, se fizer, se haverá tempo hábil para influenciar os eleitores.

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O mensalão e a Teoria dos Três Poderes

Por Wanfil em Brasil, Ideologia

02 de outubro de 2012

O Federalista e o Esquerdismo, doença infantil do comunismo: Formas distintas de ver o parlamento e a divisão de poderes que estão na gênese do mensalão

Agora que o Supremo Tribunal Federal confirmou, oficialmente, que o caso do mensalão foi mesmo compra de votos e, portanto, a sujeição do Poder Legislativo ao Poder Executivo, uma questão de fundo ideológico merece atenção, embora tenha sido pouco abordada (onde estão os intelectuais?), relacionada à organização do Estado e sua relação com o povo e seus representantes.

Com efeito, na superfície o mensalão é mais um caso de corrupção, mas na essência guarda diferenças conceituais importantes para o seu correto entendimento, especialmente sobre o papel dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.

Os Poderes na visão dos liberais

A Teoria dos Três Poderes nasce no século 18 com o francês Montesquieu, influenciado pelo inglês John Locke, com o objetivo de limitar o poder das monarquias absolutistas. Montesquieu, em O Espírito da Leis, escreve de forma precisa sobre a divisão do estado em três poderes autônomos.

Os americanos Alexander Hamilton, James Madison e John Jay, com a publicação da obra O Federalista, ampliam a aplicação desse conceito ao modelo democrático de República e criam o sistema de pesos e contrapesos, que estabelece que cada poder, ainda que autônomo no exercício de suas atividades, deve ser vigiado pelos outros poderes.

Os Poderes na visão dos revolucionários

Para boa parte da esquerda, especialmente a de inspiração soviética, esse modelo representa o próprio estado burguês, com o objetivo de manter tudo como está e de assim manter o sistema de exploração, impedindo revoluções ou mudanças abruptas. A rigor, o movimento revolucionário que luta pela ditadura do proletariado deve ter o Legislativo e o Judiciário como inimigos e trabalhar para desmoralizá-los.

Wladimir Ilich Lênin escreveu em 1920 um panfleto intitulado Esquerdismo: a doença infantil do comunismo. No capítulo sete – Deve-se participar nos parlamentos burgueses – o líder comunista pregava: “A participação num parlamento democrático-burguês, longe de prejudicar o proletariado revolucionário, permite-lhe demonstrar com maior facilidade às massas atrasadas a razão por que semelhantes parlamentos devem ser dissolvidos”. Leia mais

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O mensalão e a Teoria dos Três Poderes

Por Wanfil em Brasil, Ideologia

02 de outubro de 2012

O Federalista e o Esquerdismo, doença infantil do comunismo: Formas distintas de ver o parlamento e a divisão de poderes que estão na gênese do mensalão

Agora que o Supremo Tribunal Federal confirmou, oficialmente, que o caso do mensalão foi mesmo compra de votos e, portanto, a sujeição do Poder Legislativo ao Poder Executivo, uma questão de fundo ideológico merece atenção, embora tenha sido pouco abordada (onde estão os intelectuais?), relacionada à organização do Estado e sua relação com o povo e seus representantes.

Com efeito, na superfície o mensalão é mais um caso de corrupção, mas na essência guarda diferenças conceituais importantes para o seu correto entendimento, especialmente sobre o papel dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.

Os Poderes na visão dos liberais

A Teoria dos Três Poderes nasce no século 18 com o francês Montesquieu, influenciado pelo inglês John Locke, com o objetivo de limitar o poder das monarquias absolutistas. Montesquieu, em O Espírito da Leis, escreve de forma precisa sobre a divisão do estado em três poderes autônomos.

Os americanos Alexander Hamilton, James Madison e John Jay, com a publicação da obra O Federalista, ampliam a aplicação desse conceito ao modelo democrático de República e criam o sistema de pesos e contrapesos, que estabelece que cada poder, ainda que autônomo no exercício de suas atividades, deve ser vigiado pelos outros poderes.

Os Poderes na visão dos revolucionários

Para boa parte da esquerda, especialmente a de inspiração soviética, esse modelo representa o próprio estado burguês, com o objetivo de manter tudo como está e de assim manter o sistema de exploração, impedindo revoluções ou mudanças abruptas. A rigor, o movimento revolucionário que luta pela ditadura do proletariado deve ter o Legislativo e o Judiciário como inimigos e trabalhar para desmoralizá-los.

Wladimir Ilich Lênin escreveu em 1920 um panfleto intitulado Esquerdismo: a doença infantil do comunismo. No capítulo sete – Deve-se participar nos parlamentos burgueses – o líder comunista pregava: “A participação num parlamento democrático-burguês, longe de prejudicar o proletariado revolucionário, permite-lhe demonstrar com maior facilidade às massas atrasadas a razão por que semelhantes parlamentos devem ser dissolvidos”. (mais…)