outubro 2012 - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

outubro 2012

Quem disse que a maioria escolheu o novo prefeito de Fortaleza?

Por Wanfil em Eleições 2012, Fortaleza

29 de outubro de 2012

Votos nulos, brancos e abstenções são desconsideradas pela justiça eleitoral. É que só assim, em muitos casos, o vencedor consegue “maioria”. É o jeitinho brasileiro no exercício da democracia.

Quando acaba a apuração de uma eleição, agora no curto espaço de algumas poucas horas, uma questão interessante termina sendo pouco debatida: a natureza dos percentuais anunciados. É que os números divulgados pela justiça eleitoral levam em consideração somente os votos válidos, ou seja, desconsideram, para efeito de resultado final, as abstenções, os votos brancos e os nulos. E porque isso é interessante? Com efeito, não muda nada a definição de vencedores e perdedores que disputaram o pleito em Fortaleza, mas ajuda a dimensionar de forma mais precisa o tamanho da vitória do PSB e da derrota do PT.

Essa regra dos votos válidos tem por objetivo atender a uma exigência legal. Será considerado vencedor no segundo turno o candidato que obtiver 50% dos votos mais um. Se, hipoteticamente, cada candidato conseguisse apenas 40% dos votos, ninguém poderia ser declarado eleito. Daí a regra dos votos válidos, para poder conferir, de todo o jeito, maioria ao vencedor, mesmo que ela não exista na prática.

Por isso, cuidado ao ouvir algum candidato se gabando de ter sido eleito pela vontade da maioria, como fazia o ex-presidente Collor de Mello. Nem sempre é assim.

 Números reais da eleição em Fortaleza

Em Fortaleza, 268.138 pessoas se abstiveram de votar, o que corresponde a 16,6% de um total de 1.612.155 de eleitores, conforme dados do Tribunal Superior Eleitoral. Levando em consideração que 33.782 votaram em branco e 83.193 anularam o sufrágio, a soma de pessoas que não optaram por nenhum dos candidatos foi de 385.113, ou 23,9% dos eleitores. Esse grupo é desconsiderado para a promulgação do resultado. No entanto, se fossem computados, os percentuais seriam outros.

Assim, para ser fiel aos fatos, a escolha do prefeito de Fortaleza se restringiu a 76,1% do eleitorado, apesar da obrigatoriedade do voto no Brasil.

Pelo Tribunal Superior Eleitoral, Roberto Cláudio (PSB) venceu com 53,02% dos votos válidos. No entanto, comparando seus 650.607 votos com o universo total de eleitores habilitados – válidos e não válidos -, seu índice na verdade foi de 40,35%.

Pela mesma lógica, Elmano de Freitas (PT), que teve 46,98% dos votos válidos, conseguiu 35,75% do total, perfazendo 576.435 eleitores.

Quadro final considerando todos os eleitores aptos a votar

Roberto Cláudio – 40,35%

Elmano de Freitas – 35,75%

Nenhum – 23,9%

Legitimidade assegurada

Naturalmente, isso não desqualifica o processo eleitoral ou a vitória do candidato Roberto Cláudio, nem absolve os derrotados. São as regras do jogo, previamente definidas e válidas para todos. É apenas uma constatação empírica, sem recados embutidos nas entrelinhas, a não ser a evidência de que um quarto do eleitorado não votou em ninguém, trazendo à tona a discussão sobre a necessidade ou não do voto obrigatório.

De resto, é fato que não houve maioria formada em Fortaleza, mas isso não significa rejeição absoluta ao vencedor. Os dados podem indicar, por exemplo, desaprovação aos padrinhos políticos ou aos partidos dos candidatos. Ou desânimo do eleitor com o quadro geral do momento. É verdade que vitórias retumbantes fortalecem os eleitos, dando-lhes melhores condições para negociar a composição do futuro governo, mas cada caso é um caso. Dilma Rousseff, por exemplo, terminou o primeiro ano de governo com mais popularidade do que quando foi eleita, o que lhe conferiu mais autoridade para promover algumas mudanças em ministérios.

Doravante, para Roberto Cláudio, tudo dependerá do desempenho da gestão e da eficiência na comunicação.

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Fortaleza tem novo prefeito. E agora?

Por Wanfil em Eleições 2012

28 de outubro de 2012

Divulgado o resultado das urnas com a vitória de Roberto Cláudio para a Prefeitura de Fortaleza, não faltarão falsos profetas analisando causas que o expliquem. Geralmente são palpites inócuos e servem apenas de adorno ao noticiário. O fato é que ainda é cedo para projeções e tarde para conselhos eleitorais. O que importa agora, passada a festa de quem ganha e o lamento de quem perde, é voltar à realidade que aguarda o novo prefeito a partir desta segunda-feira.

Divisão

A pequena diferença entre o prefeito eleito Roberto Cláudio (PSB) e o derrotado nas urnas Elmano de Freitas (PT), de apenas seis pontos (53% a 47%), repete o desenho político esboçado ainda no primeiro turno: um eleitorado dividido.

Assim, apesar da vitória, Roberto Cláudio assume de certa forma sob o signo da desconfiança de quase metade dos eleitores. O desempenho de Elmano de Freitas, que foi mais longe do que indicavam as pesquisas de avaliação da gestão por ele representada, indica que há um patrimônio eleitoral que o PT deve buscar preservar.

Isso não diminui a legitimidade do processo, evidente, mas é um dado que deve ser levado em consideração tanto pelo gestor eleitor, como pelo grupo que perde. Para o que ganha para evitar a soberba e para como estímulo contra eventuais irresponsabilidades.

Dúvidas

Sobre o futuro governo Roberto Cláudio, algumas dúvidas pairam no ar:  Roberto Cláudio conseguirá imprimir uma liderança própria?   O PT será oposição na capital e aliado em âmbito estadual? A prefeita Luizianne Lins promoverá um processo de transição organizado ou se fechará em ressentimento? O correto é contribuir para que a futura equipe de governo possa ter acesso a todas as informações necessárias para iniciar o seu trabalho da melhor forma possível. Seria incontestável prova de maturidade e transparência, que no entanto está condicionada ao esquecimento da animosidade do processo eleitoral, em respeito à decisão das urnas.

Certeza

Depois da festa, o desafio. Diante das naturais dúvidas que se colocam sobre um novo governo, sobretudo sobre um novo gestor, a maior certeza que existe no momento é que toda a expectativa gerada com a construção da imagem de Roberto Cláudio como político capaz de imprimir um ritmo intenso de ações e obras, especialmente nas áreas de educação e saúde, lhe deverá ser devidamente cobrada. É esperar para ver.

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Se o governador e a prefeita não se respeitam, que respeitem os eleitores

Por Wanfil em Eleições 2012

26 de outubro de 2012

Críticas e ataques fazem parte das campanhas eleitorais. No entanto, governantes, que a rigor representam a coletividade, precisam ter equilíbrio para não se comportar como meros militantes partidários.

A destemperança nos ataques mútuos entre o governador Cid Gomes e a prefeita Luizianne Lins nos últimos dias da campanha eleitoral no 2º turno já extrapolaram os limites do bom senso.

Além de sugerir desequilíbrio impróprio para administradores, gera o mal pressentimento de que existe no ar uma disposição ao vale tudo. Se publicamente o ambiente degrada sem maiores constrangimentos, imaginem nos bastidores dos comitês eleitorais…

Autoridade X militante

Governador e prefeita têm o direito de apoiar candidatos, formar alianças eleitorais e depois rompê-las, cada qual com sua versão dos fatos. No entanto, precisam ter sempre claro que a natureza representativa de suas funções impõem limites ao exercício da militância partidária de cada um.

Não se é governador ou prefeita de um grupo político ou de uma coligação apenas, mas de todos, inclusive dos opositores. Governantes eleitos, ao externarem suas preferências, não podem nunca deixar de ter em mente que trabalham para a coletividade e não apenas para os seus aliados ou para os eleitores dos seus candidatos em outras disputas.

Se por acaso o candidato da prefeita vencer, o governador cruzará os braços em boicote ao gestor adversário político? E se o candidato do governador vencer, em represália a prefeita dificultará a transição? Essas são suposições que não devem estar no horizonte dos cidadãos. É triste ver pessoas atemorizadas com medo de perder isso ou aquilo ou esperançosas de ter algo que desejam por conta desses arroubos.

Liturgia do cargo

Evidentemente, não se faz campanha sem críticas. Há mesmo um certo melindre por parte de alguns candidatos, mas crítica não é ataque. É função inalienável das oposições, posto que não existe governo perfeito.

O problema, em Fortaleza, é o tom de ressentimento e o nível das desqualificações trocadas entre os padrinhos das candidaturas, que já contaminaram, como era de se esperar, os discursos dos candidatos. Se a desconstrução do adversário faz parte do jogo eleitoral, é preciso levar em consideração, em primeira e última instância, o respeito ao público. Especialmente quando se trata, repito, de autoridades que devem se adequar à liturgia dos cargos que ocupam.

Soberano é o eleitor

Na próxima segunda-feira os fortalezenses terão um novo prefeito e o que deverá prevalecer é a compreensão de que a decisão dos eleitores é soberana, independente da vontade ou da opinião dos governantes do momento.

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Por que tantos ainda aplaudem os criminosos do Mensalão?

Por Wanfil em Política

24 de outubro de 2012

Depois do Mensalão, o pior cego é aquele que não quer ver. Simples assim. Mas por que eles não querem ver?

O julgamento do Mensalão do Supremo Tribunal Federal resultou na condenação de José Dirceu e José Genoíno, líderes e símbolos do Partido dos Trabalhadores e no governo Lula da Silva, por crimes de corrupção e formação de quadrilha, entre outros.

Isso não significa que o PT seja todo composto de corruptos e nem que o governo Lula tenha sido integralmente operado por membros da quadrilha. Mas para que isso fique claro, é necessário que esses criminosos – e os que os defendem – sejam expulsos do PT e afastados do governo Dilma (Genoíno pediu para sair, não foi demitido). Sem isso, resta a conclusão incontornável de que nessas instâncias os que não são corruptos e quadrilheiros se deixam, por motivos diversos, liderar por eles.

Fragilidade emocional, instinto de sobrevivência e fé cega

Como isso acontece? Que forças impelem algumas pessoas a fecharem os olhos diante dos fatos mais cristalinos? Não falo das massas desprovidas de formação e informação, historicamente manipuladas pelo populismo, mas de setores com acesso ao noticiário e com capacidade analítica.

Existe, naturalmente, um componente psicológico nessa disposição à cegueira. O sujeito que empenhou sentimentos na crença de que estava no lado certo, que apostou em figuras que representariam valores elevadíssimos, agora resiste em aceitar que foi tapeado, que perdeu tempo e que tudo não passou de um embuste. Prefere viver no mundo que idealizou – e onde tudo fazia sentido – a encarar o mundo real.

Há também o instinto de sobrevivência. É quando a pessoa atrela suas opções ideológicas e partidárias ao seu trabalho e à sua própria subsistência, sendo-lhe temível o desmonte da estrutura sobre a qual ela se equilibra financeira e profisionalmente. Esse tipo geralmente é aguerrido, pois defende não apenas os chefes, mas sobretudo seus interesses pessoais mais imediatos.

Por último, tem a fé. Pode ser a crença no mito do salvador da pátria ou na ideologia socialista, tanto faz. A fé é auto confirmatória já dizia Émile Durkheim, ou seja, é uma adesão dispensa elementos comprobatórios. Assim, se para o militante fanático o Mensalão não existiu, não adianta discutir.

A comodidade de ser indiferente aos fatos

Isso tudo me lembra o filme A Queda – As Últimas Horas de Hitler, baseado no relato Traudl Junge, secretária de Adolf Hitler durante a 2ª Guerra Mundial. A figura do Füher fascinava a jovem inexperiente que o idolatrava. No entanto, na cena final, a própria secretária, já idosa, afirma não ter certeza se sua indiferença em relação ao crimes do governo era apenas ingenuidade, pois, no fundo, feito um autoexame mais distanciado, ela desconfia que deliberadamente optou por não ver o que estava à sua volta como forma de proteção e comodidade.

AVISO

Esse post não tem propósito eleitoral. As críticas aqui feitas ao PT ou aos seus líderes não significam concordância com candidaturas de outras siglas. Em Fortaleza, aliás, cumpre lembrar que Roberto Cláudio e Cid Gomes, do PSB, foram e são tão aliados de José Dirceu e Lula quanto os petistas Elmano de Freitas e Luizianne Lins. Nesse caso, qualquer alusão feita ao Mensalão com fins eleitoreiros não passa do sujo falando do mal lavado.

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Cid e Luizianne sobem o tom e roubam a cena na reta final da campanha

Por Wanfil em Eleições 2012, Fortaleza

22 de outubro de 2012

Foto da campanha de 2008: Unidos por interesses circunstanciais, Cid e Luizianne dividiam o mesmo palanque. De repente, na eleição seguinte, do riso fez-se o pranto…

A aliança entre o governador Cid Gomes se desfez formalmente às vésperas das eleições municipais. Na prática, foi de altos e baixos, mas sempre reafirmada em períodos eleitorais. Da união instável mas vitoriosa na urnas, restou, ironicamente, duas candidaturas adversárias: Roberto Cláudio a representá-lo e Elmano de Freitas a representá-la.

No primeiro momento, uma gélida distância sugeria que os dois não interfeririam demasiadamente no processo. No entanto, o calor da disputa no 2º turno em Fortaleza fez emergir no noticiário ressentimentos guardados e um indisfarçável desejo de vencer o antigo parceiro.

Em entrevista coletiva concedida nesta segunda-feira em que anunciou pedido de licença do cargo para entrar de vez na campanha, Cid afirmou que Luizianne é personalista, vaidosa, arrogante e emendou dizendo que a prefeita não gosta de trabalhar. No mesmo dia ela respondeu em outra entrevista acusando-o de desrespeitar os cearenses que sofrem com a estiagem, de ser preconceituoso, de estar desesperado por causa das eleições e de confundir Fortaleza com Sobral.

Quem haverá de dizer que eles estão errados? Afinal, dado o histórico, os dois se conhecem intimamente enquanto líderes políticos e administradores públicos. Foram sócios para o bem e para o mal. E por último, em que tais declarações ajudariam seus respectivos candidatos? A meu ver, essas demonstrações mais atrapalham.

Revelações

A decisão de Cid e as alfinetadas recíprocas entre os ex-aliados acabam por revelar alguns pontos interessantes que etavam adormecidos, guardados numa camada mais interna da política, encoberta pela camada superficial das propagandas eleitorais. Ressalto dois:

1) O que todos já sabiam ganhou contorno público: esta eleição é uma disputa entre Luizianne e Cid, cabendo aos candidatos Elmano de Freitas e Roberto Cláudio o papel de prepostos sem luz própria, cabendo-lhes apenas refletir a liderança projetada por seus padrinho e madrinha;

2) A aliança entre PSB e PT se desfez em função de sua única e verdadeira razão de existir: as conveniências eleitorais do momento. Se alguém votou em algum candidato majoritário dessas siglas apostando no discurso de convergência de projetos, resta provado ter sido enganado.

Incoerências

Outro ponto intrigante da ruptura entre os ex-aliados de outrora é a falta de um mea culpa. Os dois querem passar a impressão de que estavam certos no passado quando trocavam juras de apoio um ao outro e também agora quando a renegam.

Como Cid pode pedir voto para um candidato dizendo que ele é a melhor opção ao mesmo tempo em que diz que a última candidata para quem pediu votos não presta mais?

Como pode Luizianne, por sua vez, dizer que Cid não apoia bons candidatos se ela fez questão de apresentá-lo como um de seus fiadores em sua campanha a reeleição?

Metáfora

Diante desse caminho que vai da exaltação ao rompimento e depois à intriga, lembrei-me do famoso Soneto de Separação, de Vinícius de Moraes. São versos de amor, claro, mas a correlação que faço nasce da natureza fugaz de certos relacionamentos. Descontados os exageros, serve como metáfora para um processo que nasceu fadado ao fracasso.

SONETO DA SEPARAÇÃO

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

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Avenida Brasil e os finais previsíveis

Por Wanfil em Crônica, Cultura

20 de outubro de 2012

Imagem que fez sucesso na internet por causa da novela Avenida Brasil: O segredo em certos tipos de arte é a previsibilidade.

Dizer que o país parou por causa de uma novela é um exagero. Money never sleeps, já dizia Gordon Grekko. É inegável, porém, que o o folhetim Avenida Brasil monopolizou redes sociais e gerou imensa expectativa na maioria dos brasileiros por ocasião da exibição do seu último capítulo.

Não tenho nada contra novelas. Particularmente, considero-as enfadonhas, mas não as tomo por anestésicos da consciência coletiva como muitos afirmam por aí. Novelas, assim como o futebol, são futilidades que fazem parte da vida porque são necessárias. Mesmo nas sociedades mais avançadas há um bom espaço para o lazer sem compromisso intelectual. E isso, em si, não é ruim, pelo contrário.

Apenas acho que novelas, do ponto de vista formal e estético, são repetitivas ao extremo. O que muda de uma novela para outra são as locações e os atores, mas a liga que amarra a estrutura narrativa de todas elas é sempre a mesma: um grande amor que enfrenta preconceitos e inveja, mocinhos que sempre vencem, pobres cheios de consciência social, um louco, empregados domésticos engraçados e empresários inescrupulosos. No capítulo final, não podem faltar jamais uma festa de casamento, a revelação de um segredo. Pronto. Com esses ingredientes, temos uma novela. Mais recentemente, ao que me consta, briga de mulheres – a heroína contra a vilã – é bom para a audiência.

O poder que essa estrutura quase fixa tem de encantar milhões de pessoas é o que mais considero interessante. Minhas filhas, ainda na primeira infância, costumam a assistir o mesmo filme repetidas vezes e não raro se mostram resistentes em aceitar novidades. Pesquisei um pouco e descobri que, psicologicamente, esse comportamento decorre de algo básico para a criança: necessidade de segurança. No fundo, elas querem o previsível, a história repetida cujo final elas já conhecem, porque isso lhes é confortável. Até os sete anos, se bem me lembro, a criança se vê integralmente nos personagens.

Por isso a arte que incomoda, que provoca o exame mais aprofundado da consciência e das relações sociais, que aborda contradições e foge do senso comum, que demole verdades absolutas ou consensos politicamente corretos, é coisa adulto. Acho que isso explica, em parte, o sucesso de novelas que se esmeram no conceito “vale a pena ver de novo”.

PS. Vou dar um mote: Que tal uma novela sobre um grupo de idealistas que tinham sonhavam com a revolução e que anos depois, uma vez no poder, se transformam naquilo contra o que diziam lutar no passado? Não… Podem pensar isso ou aquilo, vai que alguém se ofende… Melhor fazer uma novela em que um grande amor terá que enfrentar grandes desafios para conseguir vencer.

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Elmano lidera no Datafolha e Roberto Cláudio no Ibope: O segredo está nas margens de erro

Por Wanfil em Eleições 2012, Pesquisa

18 de outubro de 2012

Este post foi escrito originalmente com base nos números da pesquisa Datafolha para o 2º turno em Fortaleza. Como a pesquisa Ibope, divulgada no mesmo dia, reforçou os argumentos aqui expostos, optei por atualizá-lo. Apesar dos resultados diferentes, a análise vale para os dois institutos. O segredo, como o leitor poderá constatar, está nas margens de erro.

A margem de erro tem função estatística e política: serve para dar ares de técnica ao puro e simples chute.

Depois dos erros que marcaram o 1º turno em Fortaleza, as pesquisas eleitorais voltaram. Embora tenham acertado quanto aos nomes que seguiram na disputa, de certa forma elas funcionaram como profecias auto-realizáveis, na medida em que influenciaram negativamente a expectativa de sucesso da candidatura que ficou na terceira posição. Como não existe “o que poderia ter sido” em História, aqui estamos.

Datafolha e Ibope

A pesquisa feita pelo Datafolha  sob encomendada pelo jornal O Povo mostra Elmano de Freitas (PT) com 42% da preferência, contra 37% de Roberto Cláudio (PSB). Brancos e nulos chegam a 11%.

Pelo Ibope, em levantamento feito para a TV Verdes Mares, a disputa estaria com as posições invertidas, com 41% para Roberto Cláudio e 39% para Elmano de Freitas. Brancos e nulos somam 14%.

Quem está com a razão? Os dois, vejam só! Pelo simples motivo de que ambas conseguem estar simultaneamente certas e erradas, desde que observadas as respectivas margens de erro de cada uma, como veremos a seguir.

O fator margem de erro

No caso do Datafolha, considerando a margem de erro de três pontos percentuais para mais ou para menos, Elmano pode muito bem estar com 45%, contra 34% de Roberto. Isso se a margem não estiver subestimada! Ao mesmo tempo, Roberto pode ter na realidade 40% das intenções, estando à frente de Elmano que, descontados os três pontos de segurança, pode ter 39%.

O mesmo vale para o Ibope, que trabalha com igual margem de três pontos para mais ou para menos. Nesse caso, Roberto Cláudio pode estar com 44% e Elmano de Freitas com 36%, ou, invertendo a elasticidade da margem, Elmano pode estar com 42% e Roberto com 38%.

Confuso, não é mesmo? Numa disputa onde a maior certeza das projeções é a incerteza, você apostaria o seu salário do mês baseado nas projeções das pesquisas eleitorais em Fortaleza? Eu, não.

O fato é que os institutos de pesquisas não estão com essa credibilidade toda. Até que se prove o contrário, isso não significa que haja manipulação, é sempre bom deixar claro. O que fica evidente, já escrevi em outros posts, são os limites metodológicos desses levantamentos. Muitos os querem como instrumentos de GPS de alta precisão, quando não passam de imagens sujeitas a variações de pressão e temperatura e a erros recorrentes. O problema está em a supervalorizá-las.

Estabilidade e disputa aberta

De qualquer forma, desconsiderando as flutuações das margens de erro, o que o Datafolha e o Ibope mostram é um quadro de estabilidade e de disputa aberta. Vista assim, como um panorama, as pesquisas têm sua serventia.

Roberto Cláudio conseguiu o apoio do PDT e PPS, mas não o aval pessoal de Heitor Férrer, que se manteve neutro. Conta ainda com a adesão de Moroni Torgan e de Inácio Arruda em sua campanha, isolando a dupla PT e PR. Dado o descompasso de forças, impressiona o desempenho de Elmano, que tem Lula como único trunfo a apresentar.

Não é possível verificar ainda se esses reforços se transformarão em votos. Como o tempo é curto, é possível que eventuais mudanças sejam captadas apenas muito próximo ao dia da eleição. Se houver mudanças bruscas antes disso, credito qualquer mal entendido às margens de erro.

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O pragmatismo político e a moral individual

Por Wanfil em Fortaleza, Ideologia

17 de outubro de 2012

Qual o melhor caminho a seguir? – Imagem: internet

O ex-secretário do Esporte e Lazer da Prefeitura Municipal de Fortaleza, Evaldo Lima, confirmou que seguirá determinação do Partido Comunista do Brasil e apoiará a candidatura de Roberto Cláudio (PSB) para prefeito. Tudo normal, não fosse o fato de que o professor de História obteve êxito em sua canidatura a vereador nessas eleições, em grande medida, por ter ocupado cargo de confiança na atual gestão.

E o que isso tem a ver? Ora, tudo. Maluf e Lula se aliaram em São Paulo. Até pouco tempo atrás cada um garantia que o outro não prestava. É o que se convencionou chamar de pragmatismo político. A depender da vantagem, as posições no jogo eleitoral variam de eleição para eleição. Essa “profissionalização” da política também pode ser vista como insrumento de governabilidade. É só ver o que aconteceu no mensalão. José Dirceu não precisava ser companheiro de Roberto Jéfferson, bastava-lhe comprar os votos do PTB. Deu no que deu.

Dilemas e sensibilidade

O caso de Evaldo não chega a limites extremos, e por isso é perfeito como amostra das contradições que a dinâmica política pode impôr aos seus atores. O que escolher nessa hora? Ser leal ao partido ou ao governo a qual serviu? Ser grato à prefeita que o ajudou após a derrota na eleição anterior ou aos líderes da sigla que o trabalharam sua indicação ao posto que o projetou? Seria ainda possível agradar os dois lados simultaneamente, aderindo à determinação do partido e guardando discrição em respeito aos antigos aliados? Difícil responder.

São situações especialmente intensas, sobretudo para os que não estão acostumados a ter que tomar decisões urgentes pressionados pelo choque de inúmeros interesses. Para o político profissional, entretanto, isso é rotina. Assim como cadáveres não assustam legistas e coveiros, ou o lixo não causa repugnância aos lixeiros, políticos acabam perdendo, uns mais ou outros menos, a sensibilidade para perceber as nuances entre o certo e o errado. Por isso mesmo a coerência é produto raro e valiosíssimo nesse mundo.

Não é possível afirmar se Evaldo e tantos outros agiram guiados pelo instinto de sobrevivência política celebrado por Nicolau Maquiavel ou por profundas crenças de base moral. Isso é com a consciência de cada um, atributo individual e instransferível. De qualquer forma, asistimos, especialmente no segundo turno, essas adesões e alianças que deixam a impressão de que há mais mistérios nos bastidores das eleições do que supõe nossa vã filosofia.

Renovar, mas nem tanto

Além do dilema ético-moral, o episódio guarda ainda uma questão de lógica elementar. Como a campanha do PSB sustenta que é preciso renovar para que a administração possa melhorar, impondo como condição para isso a derrota do PT, Evaldo e o seu PCdoB mudam de lado após oito anos para… atenção… renovar! Fica evidente que se trata de uma renovação de comando com a manutenção de comandados, com os agrados de sempre.

Não deixa de ser, digamos assim, uma forma de convicção formada ao sabor das circunstâncias.

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PT e PSB usam imagem de Heitor Férrer para tentar ludibriar eleitores

Por Wanfil em Eleições 2012

16 de outubro de 2012

Imagem: facebook.com/sistemajangadeiro

As campanhas de Elmano de Freitas (PT) e de Roberto Cláudio (PSB) começaram o segundo turno de olho no patrimônio eleitoral do terceiro colocado no primeiro turno, o deputado Heitor Férrer (PDT), com quase 21% dos votos. Nada mais previsível e natural, afinal, é plausível deduzir que boa parte desse eleitorado irá decidir a partir de uma comparação com o candidato derrotado. Quanto mais afinidades, maior a chance de conquistá-lo.

O alvo: os eleitores de Heitor – A vítima: a verdade dos fatos

O PSB partiu na frente e conseguiu a adesão do PDT. Como os partidos têm pouca importância para o eleitor, a propaganda de Roberto Cláudio anunciou que contava agora com o apoio do “PDT, o partido de Heitor Férrer”.

A ênfase no nome do candidato foi tanta que deixou a impressão subliminar de que ele pessoalmente embarcara na campanha do PSB. No entanto, a referência, feita de forma sutil, é verossímil pela aliança partidária.

Mesmo assim, para esclarecer qualquer dúvida, o deputado convocou a imprensa para anunciou que não apoia nenhum dos candidatos e que não permite a utilização do seu nome nas respectivas campanhas de cada um. Nada mais lógico. Logo após a eleição, escrevi: Não seria conveniente para Férrer a manifestação de apoio a nenhum dos candidatos no segundo turno, para não correr o risco de perder a imagem de independência construída em sua atuação parlamentar e reforçada durante o pleito.

Apenas um dia depois dessas declarações, a campanha do PT manipula descaradamente em sua propaganda eleitoral a declaração de neutralidade de Férrer para insinuar que o parlamentar repudia apenas e tão somente a candidatura de Roberto Cláudio, exibindo o trecho em que ele afirma não poder aderir ao candidato lançado pelo governador e que representaria a consolidação de uma “oligarquia”.

A parte em que Férrer afirma que não apoia Elmano de Freitas por entender que essa opção seria manter por mais quatro anos a “ineficiência” que marca a atual gestão. Quem não assistiu aos jornais com as declarações, acaba concluindo que Heitor apoiaria o candidato do PT.

Candidatos precisam impor limites às suas campanhas

A disposição de usar a imagem de um candidato sem a sua devida autorização para induzir o voto dos eleitores revela: 1) desrespeito ao candidato e aos seus eleitores; 2) falta de limites éticos; 3) compostura e 4) pudor.

É verdade que o calor da disputa, o racha entre os ex-aliados Cid e Luizianne e as responsabilidades assumidas para o pelito, especialmente as financeiras, podem interferir no discernimento de parte dos comandos das campanhas – ou revelar-lhes a real natureza. Entretanto, isso não pode servir de desculpa para a tapeação.

Nessas horas em que a tentação de apelar seja ao que for para vencer a qualquer custo bate à porta, é que o candidato deve mostrar liderança e tomar as rédeas da própria campanha para não permitir um vale tudo eleitoral, ainda que lhe digam que o preço da correção seja uma eventual derrota.

Volto a publicar uma citação de Antoine de Saint-Exupéry“Há vitórias que exaltam, outras que corrompem; derrotas que matam, outras que despertam”.

Senhores candidatos, por favor, mais dignidade. O eleitor agradece.

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Atentados a candidatos continuam mesmo após as eleições no Ceará: clima estranho e apatia nas investigações

Por Wanfil em Ceará

15 de outubro de 2012

Eleições marcadas por pistoleiros: Atentados contra a vontade do eleitor que ficam por isso mesmo, sem solução.

As eleições municipais de 2012 no Ceará foram marcadas pela violência como instrumento de intimidação e pela apatia na coibição dessa prática. Coisa de gente arrogante que se acha acima das regras e aposta na impunidade. Uma afronta ao espírito republicano e aos eleitores.

Mesmo depois de terminadas as eleições na maioria dos municípios, os crimes envolvendo candidatos continuam. Neste domingo (14), em Senador Pompeu, um homem morreu e duas mulheres ficaram feridas após serem baleados durante a comemoração da vitória de um vereador.

Em outro caso, um dia após as eleições, o prefeito reeleito  de Senador Sá, Alex Sandro Oliveira (PSDB), e o atual vice de Quixadá, Airton Buriti (PT), foram alvos de disparos, mas escaparam sem ferimentos.

Durante a campanha foram muitas as ocorrências. Em Milhã, um motociclista efetuou disparos contra a residência do candidato a prefeito Otacílio Pinheiro (PP). Em Caucaia, Paulo Gurgel (PSDB) registrou ter sido ameaçado por um homem armado. Em Pacajús, homens armados assaltaram a casa do prefeito Auri Costa (PR), que participava de um comício.

No dia 20 de setembro, o ex-prefeito e então candidato à Prefeitura de Santa Quitéria, Tomás Figueiredo (PSDB), teve o carro em que estava baleado por dois motoqueiros. A assessoria do candidato descreveu a situação na cidade como clima de terror. Um dia antes, um grupo armado efetuou uma série de disparos contra a residência e o veículo da atual prefeita do município de Orós, Fátima Maciel (PSB).

Em Fortaleza, o agente penitenciário Elias Alves da Silva, candidato a vereador pelo partido Democratas (DEM), foi assassinado no dia 26 de setembro.

Crimes sem resposta

Esse levantamento foi produzido após uma rápida busca pelo Jangadeiro Online. Há mais casos que cito de memória, como em Jardim e Croatá. Em comum nesses episódios, só o fato de que nada foi esclarecido. Não há relato de prisões efetuadas em resposta aos crimes cometidos com a evidente intenção de intimidar candidatos, pelos menos na maioria dos casos. Impunidade, como todos sabem, alimenta a ousadia dos criminosos. Leia mais

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Atentados a candidatos continuam mesmo após as eleições no Ceará: clima estranho e apatia nas investigações

Por Wanfil em Ceará

15 de outubro de 2012

Eleições marcadas por pistoleiros: Atentados contra a vontade do eleitor que ficam por isso mesmo, sem solução.

As eleições municipais de 2012 no Ceará foram marcadas pela violência como instrumento de intimidação e pela apatia na coibição dessa prática. Coisa de gente arrogante que se acha acima das regras e aposta na impunidade. Uma afronta ao espírito republicano e aos eleitores.

Mesmo depois de terminadas as eleições na maioria dos municípios, os crimes envolvendo candidatos continuam. Neste domingo (14), em Senador Pompeu, um homem morreu e duas mulheres ficaram feridas após serem baleados durante a comemoração da vitória de um vereador.

Em outro caso, um dia após as eleições, o prefeito reeleito  de Senador Sá, Alex Sandro Oliveira (PSDB), e o atual vice de Quixadá, Airton Buriti (PT), foram alvos de disparos, mas escaparam sem ferimentos.

Durante a campanha foram muitas as ocorrências. Em Milhã, um motociclista efetuou disparos contra a residência do candidato a prefeito Otacílio Pinheiro (PP). Em Caucaia, Paulo Gurgel (PSDB) registrou ter sido ameaçado por um homem armado. Em Pacajús, homens armados assaltaram a casa do prefeito Auri Costa (PR), que participava de um comício.

No dia 20 de setembro, o ex-prefeito e então candidato à Prefeitura de Santa Quitéria, Tomás Figueiredo (PSDB), teve o carro em que estava baleado por dois motoqueiros. A assessoria do candidato descreveu a situação na cidade como clima de terror. Um dia antes, um grupo armado efetuou uma série de disparos contra a residência e o veículo da atual prefeita do município de Orós, Fátima Maciel (PSB).

Em Fortaleza, o agente penitenciário Elias Alves da Silva, candidato a vereador pelo partido Democratas (DEM), foi assassinado no dia 26 de setembro.

Crimes sem resposta

Esse levantamento foi produzido após uma rápida busca pelo Jangadeiro Online. Há mais casos que cito de memória, como em Jardim e Croatá. Em comum nesses episódios, só o fato de que nada foi esclarecido. Não há relato de prisões efetuadas em resposta aos crimes cometidos com a evidente intenção de intimidar candidatos, pelos menos na maioria dos casos. Impunidade, como todos sabem, alimenta a ousadia dos criminosos. (mais…)