julho 2012 - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

julho 2012

A pesquisa Ibope em Fortaleza e o jogo das emoções induzidas

Por Wanfil em Pesquisa

31 de julho de 2012

Com as eleições, o frisson das pesquisas eleitorais ganhar corpo. Na noite desta segunda-feira (30), mais um levantamento com números para a disputa em Fortaleza foi divulgado. Por encomenda da TV Verdes Mares, o Ibope  mostra o seguinte quadro (respostas estimuladas):

Moroni Torgan (DEM) – 32%
Inácio Arruda (PC do B) – 15%
Heitor Ferrer (PDT) – 11%
Renato Roseno (PSOL) – 10%
Roberto Cláudio (PSB) – 8%
Marcos Cals (PSDB) – 6%
Elmano de Freitas (PT) – 4%
Francisco Gonzaga (PSTU) – 1%
Valdeci Cunha (PRTB) – 1%
André Ramos (PPL) – não alcançou 1%

Há pouco mais de uma semana, outra pesquisa, do Datafolha, mostrou cenário semelhante: Moroni disparado, com Inácio em segundo, próximo a um segundo pelotão embolado. No Ibope, a elevada margem de erro de 4 pontos percentuais reforça o quadro de incerteza.

Distorções engajadas

As pesquisas mostram a situação de largada dos candidatos. No entanto, equivocadamente, alguns militantes de redes sociais comemoram, por exemplo, o que teria sido o crescimento de Renato Roseno de 6% no Datafolha para 10% no Ibope. A comparação não procede, pois os institutos possuem metodologias e parâmetros de aferição diferentes. Um candidato só cresce se comparado com a pesquisa anterior do mesmo instituto. Mas isso é do frisson do qual falei anteriormente, que contamina até quem é do ramo.

Pelo Twitter, o presidente da Câmara dos Vereadores, Acrísio Sena, do PT, destacou a rejeição de 34% de Moroni e fez previsões: “Lider (SIC) nas pesquisas das eleições é também Lider (SIC) de rejeição em Fortaleza. Queda livre é o futuro dele”. O parlamentar não cita, naturalmente, que o candidato do seu partido, Elmano de Freitas, sétimo na preferência do eleitorado pelo Ibope, dispara quando o assunto é rejeição, subindo para a terceira posição, com 22%, atrás do comunista Inácio Arruda, que é rejeitado por 27%.

Assim, para a pesquisa Ibope, repito o que já havia dito sobre a pesquisa Datafolha: “A liderança do democrata, que morou durante os últimos anos em Portugal, sugere que o eleitorado procura, nesse instante, manifestar seu descontentamento com a atual gestão, apoiando uma candidatura identificada com um sentimento anti-Luizianne. Daí que o comunista tenha ficado atrás, mesmo com o alto recall: o PCdoB – e o próprio Inácio – sempre tiveram suas imagens atreladas ao petismo.” Daí também a alta rejeição de Elmano, que carregará consigo o ônus da desaprovação da administração que defende.

Gatilho

Neste momento em que ninguém sabe ao certo quais as propostas ou mesmo quais os perfis administrativos dos candidatos, o debate eleitoral se dará na base do acionamento de chavões e rótulos, que o filósofo Olavo de Carvalho chama de palavras-gatilho. Como o tempo é curto e a complexidade da administração pública é cada vez maior, mesmo para públicos mais seletos os argumentos de convencimento deverão contornar aspectos técnicos e objetivos para centrar foco no aspecto emocional. Eis outra característica das eleições que as pesquisas conseguem alimentar, à medida que as pressões sobre os candidatos aumentam. Ninguém discute os aspectos atuariais da dívida pública, porque inacessíveis à maioria, mas se fulano tem o apoio de sicrano ou se beltrano é confiável ou volúvel.

Esse apelo ao emocional não é aleatório. Esquemas retóricos e discursos nada originais repletos de lugares comuns serão cuidadosamente usados para despertar determinadas emoções e provocar as reações desejadas. Veremos, em cada campanha, de um lado o esforço de apresentação das pretensas virtudes dos candidatos, e de outro, a tentativa de desconstrução dos adversários.

Ação e reação

Portanto, doravante, os eleitores escutarão, em conversas com amigos, em salas de aula ou reuniões sociais variadas, palavras como inexperiente, pau-mandado, carreirista, traidor, poste, forasteiro e, mais sutilmente, elitista, autoritário ou pelego, indiretamente estimuladas a partir das propagandas eleitorais. As formas são inúmeras, mas todas visam induzir o eleitor a uma conclusão previamente concebida, fazendo-o, no entanto, acreditar que suas escolhas são livres e originais.

Uma vez dissimulada a manipulação, o público imagina ter feito escolhas com base no retrato fiel de uma realidade, sem perceber que seu espírito crítico não passa de uma expressão reativa a um estímulo externo, o reflexo de um preconceito cuidadosamente inoculado na seara das emoções.

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Você é uma pessoa bacana, bem resolvida e sem culpas? Então leia Mencken

Por Wanfil em Cultura

28 de julho de 2012

H. L. Mencken – Sem medo das unanimidades ou das “verdades” estabelecidas.

Algumas pessoas possuem um poder de síntese de tal forma aguçado que seus aforismas acabam superando seus textos mais longos. No Brasil, Millôr Fernandes, Otto Lara Resende e Aparício Torelly (Barão de Itararé), são alguns dos representantes mais conhecidos desse tipo de intelectual.

Nos Estados Unidos, a arte de expressar em poucas palavras aspectos sensíveis da natureza humana e das relações sociais tem como um de seus expoentes o jornalista  H. L. Mencken (1880 – 1956). É dele a frase:

A consciência é uma voz interior que nos adverte de que alguém pode estar olhando.

Em tempos de unanimidade politicamente correta, em que a dita boa consciência pode ser adquirida com a simples adesão aos pensamentos influentes do dia, o sarcasmo de Mencken alerta para algo intrínseco ao gênero humano: a culpa. Se antes o pecado, e consequentemente a danação, era o terror a ser evitado, hoje é papel de vilão cabe à culpa. Por isso a maioria finge ser completamente realizada, bastando para isso se declarar ambientalista, saudável, holístico, tolerante, moderno, relativista, socialista, feminista pró-aborto, igualitário e outras rotulações bem aceitas na comunidade das pessoas lindas e maravilhosas.

No entanto, a culpa que nos espreita em silêncio, de soslaio, como bem revela Mencken, é o reconhecimento de que somos feitos não apenas de certezas edificantes, mas essencialmente de conflitos e contradições. E isso não é ruim como pode parecer. As dúvidas – e a busca pela verdade –  são o combustível que movem o pensamento humano. Indo mais além, Mencken nos faz lembrar que a consciência é atributo individual, demonstrando a primazia do sujeito sobre o grupo. Não existem culpas coletivas: isso é política. Existe o indivíduo.

Experimente dizer que você reprova alguns aspectos do Islamismo, ou que as democracias ocidentais são formas de organização social superiores às tribos indígenas. Diga que as cotas raciais constituem a legalização próprio racismo. Ouse afirmar que a igualdade plena é uma ideia injusta pois o talento é privilégio de poucos. O risco de você virar alvo da patrulha do pensamento, apontado nos círculos mais influentes como alguém a ser evitado, é grande. Mas se você quiser ser uma pessoa superior dentro do arquétipo da correção política, fale mal de Israel, dos americanos, da Igreja Católica, ou diga que os brancos estão em dívida com os negros e que isso tem que ser compensado pelo estado. Nunca fale que hip-hop é apologia da ignorância, que pichação não é arte ou que acha maracatu um saco. Pode fumar maconha e pedir sua descriminação, mas o tabagismo está proibido. Pronto. Você já pode ser aceito no clube da felicidade onde não existe culpa (a culpa é dos americanos e da direita, lembra?).

Quando as coisas ficam simples demais, quando as contradições são suprimidas do debate por opressão das unanimidades, é hora de ler gente como H. L. Mencken.

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A Saúde como doença

Por Wanfil em Ceará, Eleições 2012

26 de julho de 2012

Durante 7 anos Luizianne e Cid endossaram as políticas de Saúde um do outro. Agora, em lados opostos e por conveniência eleitoral, seus grupos agem como se tivessem sido opositores no passado. Foto: Reprodução – TV Jangadeiro

O Jornal Jangadeiro exibiu reportagem sobre a superlotação no Hospital Geral de Fortaleza. Não foi a primeira vez neste ano. Em maio passado, o programa Barra Pesada, também da TV Jangadeiro, já havia flagrado imagens do caos na unidade, no mesmo dia em que o  próprio governador Cid Gomes havia sido internado lá por causa de um súbito mal-estar. Nas duas ocasiões, uma só realidade para quem necessita de atendimento emergencial: profissionais aflitos, cansados, correndo entre filas de espera; pacientes espalhados pelos corredores ou mesmo no chão, próximos a banheiros e latas de lixo.

Não por acaso a pesquisa Ibope encomendada pelo jornal O Povo, publicada nesta semana, mostra que a principal preocupação do cidadão fortalezense é a saúde.

A direção do HGF confirma a superlotação e admite que existe um excedente diário de 80 pacientes. No entanto, de acordo com o hospital, metade desse contingente deveria ser atendido nos postos de saúde e nas unidades secundárias de Fortaleza. Por outro lado, as autoridades municipais apontam o grande número de pacientes transferidos do interior como origem da superlotação de outro hospital, o IJF.

E a parceria administrativa de 7 anos?

Muito provavelmente os dois lados têm razão. De qualquer forma, a questão, já dramática pela própria natureza, passa a ter contornos de cinismo político, uma vez que os governos estadual e municipal foram aliados durante mais de sete anos. Nas diversas campanhas eleitorais que se sucederam nesse período, governador e prefeita nunca deixaram de endossar mutuamente as ações um do outro na área da saúde. Pelo contrário! Foram desde o primeiro instante fiadores dessas políticas, garantindo ao eleitor que a harmonia entre as duas esferas de governo era o melhor caminho para oferecer serviços adequados.

O mesmo vale para a segurança e a educação. Ver defeitos e responsabilizar ex-aliados somente agora é prova de que a tal sintonia administrativa só funcionou em eleições. Com efeito, o eleitor foi enganado.

Convicções de ocasião

É claro que aliados podem romper e discordar um do outro. Podem até se arrepender. O problema é quando e como isso é feito. Criticar o passado de acordo com as conveniências do presente demonstra que o oportunismo se sobrepõe à convicção. O fato é que, no presente caso, tanto para o governo estadual como para prefeitura, apontar erros do parceiro que apoiou sem assumir sua cota de responsabilidade, é atitude moralmente repreensível que basta para qualificar seus autores. Leia mais

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Pesquisa Datafolha mostra desafios para candidatos em Fortaleza

Por Wanfil em Pesquisa

21 de julho de 2012

A primeira pesquisa do instituto Datafolha para as eleições deste ano em Fortaleza, encomendada pelo jornal O Povo e parcialmente divulgada neste sábado (21), apresenta o seguinte cenário de largada:

Moroni Torgan (DEM) – 27%;
Inácio Arruda (PCdoB) – 14%;
Heitor Férrer (PDT) – 11%;
Marcos Cals (PSDB – 6%;
Renato Roseno (PSOL) – 6%;
Roberto Cláudio (PSB) – 5%;
Elmano Freitas (PT) – 3%;
Indecisos – 21%

Sinais

Evidentemente, tudo ainda é muito incipiente, mas alguns pontos chama a atenção para o tamanho do desafio que algumas candidaturas terão que enfrentar.

Roberto Cláudio e Elmano de Freitas – Desconhecidos

Fica evidente que as candidaturas que representam as máquinas dos governos estadual e municipal terão que fazer grandes esforços para decolar, uma vez que os nomes de Roberto Cláudio (PSB) e Elmano de Freitas (PT) foram definidos apenas muito recentemente. Desconhecidos do grande público, os dois terão que esperar pela propaganda de rádio e TV para se apresentarem ao eleitor. Isso não significa que algo esteja perdido. Calma lá que isso é o começo. O problema é que no caso de Fortaleza, a falta de polarização política e o grande número de indecisos reflete justamente o ambiente de dispersão eleitoral. Elmano e Roberto Cláudio precisam mostrar que são algo mais do que indicações de Luizianne e Cid, respectivamente. A seu favor, pesam a estrutura partidária robusta, o tempo de propaganda e os  recursos para tentar ganhar a confiança dos fortalezenses.

Moroni e Inácio – O recado de insatisfação

Candidatos crônicos à prefeitura de Fortaleza, os dois acabam encarnando o sentimento de rejeição a atual administração. A liderança do democrata, que morou durante os últimos anos em Portugal, estando, portanto, distante da cidade, pode sugerir que o eleitorado procura, nesse instante, manifestar descontentamento com uma candidatura anti-Luizianne. Daí que o comunista tenha ficado um pouco atrás: o PCdoB – e o próprio Inácio – mesmo com projeto próprio, sempre tiveram suas imagens atreladas ao petismo. O desafio da dupla é mostrar que possuem, cada qual, fôlego para ir além da boa largada. Não basta ser contra e representar um sentimento reativo: é preciso inspirar ação positiva.

Heitor Férrer – Potencial confirmado

Conhecido por ser um dos poucos oposicionistas ao governo Cid Gomes e sem ter vinculação com o governo Luizianne, o deputado estadual do PDT aparece em terceiro lugar, tecnicamente empatado com Inácio Arruda. Sem o mesmo recall dos líderes, parte com boa vantagem sobre os candidatos oficiais, estando perto o suficiente do topo para emanar uma verossímil expectativa de poder, fator crucial para a arrecadação de doações. Seu problema é o pouco tempo de propaganda e a falta de apoio de lideranças fortes.

Marcos e Renato – Não surpreendem, mas não decepcionam

Empatados com 6%, Marcos Cals e Renato Roseno estão dentro do que suas estruturas partidárias permitem no momento. Como o processo eleitoral, nesse momento, ainda não faz parte das preocupações do eleitor, essas candidaturas refletem apenas o tamanho de suas siglas na Capital. O tucano buscando remontar o PSDB, o socialista atuando para consolidar o PSol. Numa eleição tão disputada, os dois têm a vantagem de poder arriscar mais sem o risco de virar alvo, pois num eventual segundo turno, todo apoio é cortejado. Não surpreendem na largada, mas também não decepcionam. E estão no páreo, como os demais.

Tempo ao tempo

É importante, desde logo, lembrar que qualquer comparação da pesquisa Datafolha com o levantamento feito pelo Ibope no começo de maio passado é indevida, pois as metodologias – e o próprio cenário político – são diferentes. É preciso esperar a evolução das candidaturas para que as projeções comecem a se delinear com mais clareza. No momento, tudo é incerteza e especulação. Esses números ainda não devem interferir nas estratégias planejadas por cada candidatura.

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Vale-tudo eleitoral: entre a urna, a rinha e o octógono

Por Wanfil em Política

19 de julho de 2012

Duda Mendonça – Das criminosas rinhas de galo para as eleições, um só jeito de ver o mundo. É o vale tudo como filosofia de vida – Foto: Valter Campanato/ABr

Apesar de serem conhecidas como vale-tudo, as competições entre lutadores versados em diferentes artes marciais, muito na moda atualmente, possuem um mínimo de regras com o objetivo de garantir simultaneamente o espetáculo da violência e a preservação de seus protagonistas. Para conseguir sucesso em certas atividades, as regras devem se restringir ao básico. Em outras, o negócio é evitar regras. Para um terceiro tipo, o que vale é ignorar solenemente as regras.

Regras do jogo

Se no octógono só não vale dedo no olho e golpes nas partes íntimas, em outra competição – a “briga de galo” – não há limite algum. Os animais lutam até que um morra. Por isso sua prática é ilegal, definida como crime ambiental. Temos então dois tipos de competições, uma com poucas normas e outra sem qualquer normatização.

No plano simbólico, as disputas eleitorais guardam semelhanças com os octógonos e com as rinhas. No ringue eleitoral existem até algumas regras, mas na prática, poucos as seguem. É a competição com regras de aparência. Caixa dois, por exemplo, é proibido, mas todos sabem que o artifício é amplamente disseminado e tolerado. É um híbrido de vale-tudo com rinha de galo. Ao final, o que importa é vencer a qualquer custo, sem afetação de remorso ou piedade: difamação, promessas impossíveis, traições e calúnias são golpes comuns. Por isso, para quem gosta mesmo de perversidade, nada melhor do que o horário eleitoral gratuito.

A ética do hobby

A figura que melhor encarna e sintetiza a transposição da “ética” das rinhas e das lutas de vale-tudo para as campanhas eleitorais é o Sr. Duda Mendonça, renomado publicitário que chegou a ser preso em 2004 justamente por participação em “brigas de galo”. O baiano trabalhou em várias eleições com Paulo Maluf e depois com Lula da Silva, antecipando, em mais de uma década, a revelação de que entre os dois havia mais em comum – e menos limites – do que supõe nossa vã filosofia.

O Duda dos galos e da dupla Maluf/Lula conhece de perto os golpes baixos das campanhas. Para ele, literalmente, vale tudo. Em depoimento no Congresso Nacional, durante o caso do mensalão, confessou crimes financeiros ao confirmar o recebimento em paraísos fiscais de pagamentos feitos pelo Partido dos Trabalhadores. Não deu em nada, pois como eu disse, essa é uma regra tácita disseminada no vale-tudo eleitoral. E as regras? Para o publicitário, isso é detalhe: “O Brasil todo sabe que eu gosto de rinha de galo e sabe que esse é o meu hobby”. Leia mais

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Brasil: De sexta maior economia do mundo a país com 68% de analfabetos funcionais

Por Wanfil em Brasil

17 de julho de 2012

Parafraseando Groucho Marx: “Você vai acreditar no governo, no PIB, ou nos seus próprios olhos?”

O comediante americano Groucho Marx provocava o espírito conformista dos bajuladores com uma tirada genial: “Você vai acreditar em mim ou nos seus próprios olhos?”. A máxima serve perfeitamente para ilustrar certo estado de euforia com as realizações tímidas de diversos governos no Brasil, divulgadas como grandes revoluções, mas que não têm no mundo real o impacto alardeado. Contra discursos e propagandas, de pouca valia tem servido os fatos. Vejamos.

No final de 2011 quase todos comemoraram, cheios de ufanismo, a notícia de que o Produto Interno Bruto brasileiro, o PIB, era maior do que o da Inglaterra. Seríamos, portanto, a sexta economia mais rica do planeta. De nada adiantava alertar que a comparação, como tinha sido tomada, era indevida. O nosso PIB, por exemplo, é maior do que o da Suíça, país com pouco mais de sete milhões de habitantes. Alguém, em sã consciência, acredita mesmo que um brasileiro tem padrão de vida melhor do que um suíço? A pergunta lógica para aferir o verdadeiro alcance do fenômeno era essencial: Afinal, o que é riqueza para um país?

Entretanto, de nada adiantava pedir mais reflexão. Quem não acompanhasse o coro dos contentes, era acusado de fazer “urucubaca”, como já explicou Lula da Silva. É como se os bate-palmas de plantão dissessem: “Você vai acreditar no PIB ou em seus olhos?”.

Não é com o PIB que se mede uma nação

Eis que alguns meses se passaram e o nosso PIB – medida de valor corrente e variável – caiu drasticamente. Tanto que a própria presidente Dilma veio a público confirmar que os céticos, vejam só, estavam certos. Isso mesmo. No dia 12 de julho deste ano ela afirmou em discurso:

“Uma grande nação deve ser medida por aquilo que faz para as suas crianças e adolescentes, não é o PIB, é a capacidade de o País, do governo e da sociedade de proteger o seu presente e o seu futuro”.

Concordo! Dá-lhe Dilma! Tudo bem que a presidente fala agora, quando lhe é conveniente como medida de proteção contra eventuais críticas na área econômica. Se fosse uma estadista, ela teria dito isso lá no final de 2011. O que a presidente não esperava é que essa verdade simples fosse coroada com outra notícia que bem serve para mostrar como anda nossa riqueza.

País rico é país sem analfabetos

O mais recente Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) revela que 75% das pessoas entre 15 e 64 anos não conseguem ler, escrever e calcular plenamente. Esse número inclui os 68% considerados analfabetos funcionais e os 7% considerados analfabetos absolutos, sem qualquer habilidade de leitura ou escrita. Apenas 1 entre 4 brasileiros consegue ler, escrever e utilizar essas habilidades para continuar aprendendo”. Leia mais

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Dica de Filme: Le Petit Nicolas (O Pequeno Nicolau)

Por Wanfil em Cinema

14 de julho de 2012

Uma comédia que celebra a beleza da infância, capaz de nos fazer lembrar da criança que fomos um dia. Foto: Divulgação

Alguns filmes surpreendem pela simplicidade com que absorvem a atenção de quem os assiste – simplicidade, nesse caso, não significa ausência de sofisticação. É o caso da suave, divertida e comovente comédia “O Pequeno Nicolau” ( Le Petit Nicolas, França, 2009), baseada no personagem de quadrinhos criado por René Goscinny e Jean-Jacques Sempé. Sem o auxílio de grandes estrelas ou de efeitos especiais, o filme consegue, pela força de seu roteiro, a inteligência e sensibilidade da direção, e a dedicação do elenco, levar o público a uma viagem no tempo para fazê-lo, por alguns instantes, crianças novamente.

Volta no tempo

O trabalho do diretor Laurent Tirard é preciso e envolvente. A história se passa na França dos anos 50 (época em que ser criança significava brincar na rua, longe da parafernália eletrônica ou do medo paranóico dos condomínios fechados).

O pequeno Nicolau (Maxime Godart), é um garoto que tem uma vida perfeita. Pais amorosos, escola boa, saúde, amigos divertidos e uma professora bonita. Seu mundo vira de cabeça para baixo (ver metáfora da cena inicial) quando Nicolau imagina, ao ouvir escondido (coisa de criança) uma conversa dos pais, que ganhará um irmão e que por isso será abandonado.

Ver o mundo como criança

O tema é tratado longe das implicações psicológicas da infância que preocupam os adultos, para se fixar no ponto de vista da própria criança, onde se misturam o medo diante do desconhecido, o desejo pela exclusividade do amor dos pais, a inocência em busca de soluções mágicas e a lealdade das primeiras amizades. Aliás, a convivência de Nicolau com seus colegas de escola, em especial aos hilários Agnaldo (Damien Ferdel) e Clotário (Victor Charles), suas desventuras e brincadeiras, é o ponto alto do filme.

Nossos amigos de infância, com os quais convivemos no colégio, estão todos lá representados: o estudioso delator (sempre o preferido dos professores), o desatento, o gordinho, o abastado, o medroso e o brigão. Todos diferentes em suas posturas singulares e iguais na aventura de ser criança. Nesse ponto, é essencial destacar que as crianças do filme são cativantes justamente por serem o que são, evitando o clichê das crianças-prodígio comuns no cinema, capazes de filosofar como se fossem adultos experimentados.

Uma mensagem simples e essencial

Le Petit Nicolas é esteticamente belo, em suas tomadas melancólicas, no colorido iluminado e na reconstituição de época livre de exageros ou referências históricas (é o cotidiano da vida comum), sem esquecer que o principal, para um diretor, deve sempre consistir na habilidade de contar uma história. Nesse caso em particular, há um adicional: a capacidade de amparar a narrativa numa experiência de forte cunho emocional e comum a todos, que é a infância. De alguma forma, nos vemos em retrospectiva e acabamos por lembrar a importância de respeitar quem hoje vive essa condição pela qual já passamos: as crianças do presente.

Veja o trailler legendado

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Para que serve um partido político? Vinte e nove disputam as eleições em Fortaleza

Por Wanfil em Eleições 2012, Política

12 de julho de 2012

O pluripartidarismo brasileiro mais parece um emaranhado de letras dispostas ao acaso, sem conexão alguma com ideologias ou com a realidade.

É tempo de eleições municipais. Junto com a inundação de propagandas eleitorais, temos a profusão de números e letras que identificam os partidos políticos envolvidos na disputa. Em Fortaleza, nada menos que 29 partidos participam do processo eleitoral deste ano. Diga aí amigo leitor: Você é capaz de citar mais que cinco ou seis siglas? Eu não vou muito além disso. Poucos conseguem. Certamente ninguém se lembra de todos (confira no final do post).

Nas democracias representativas, no mundo ideal, partidos políticos constituem espaços nos quais propostas de intervenção na realidade são apresentadas à sociedade, baseadas em pressupostos consagrados por uma ideologia. Em suma, é o primeiro passo para tentativa de por uma visão de mundo em prática.

Imaturidade institucional

No Brasil, país de história marcada por sucessivos golpes e acordos venais, o sistema partidário ainda luta para se consolidar como instância confiável. Aqui, clubes de futebol são centenários, partidos políticos não. Os mais antigos estão na casa dos 30. Para efeito de comparação, o partido Democrata, nos EUA, é do tempo da Revolução Francesa. Além da imaturidade institucional, os partidos brasileiros convivem com velhos vícios próprios de uma cultura personalista, populista e clientelista.

Muitos não possuem representatividade alguma e carecem mesmo de base ideológica consistente. Existem apenas para sugar verbas do fundo partidário e vender tempo de propaganda no rádio e televisão. Se o partido cresce um pouco mais, aí já pode sonhar com algum órgão da estrutura administrativa – e suas verbas – para chamar de seu.

Marketing sem conteúdo

Para piorar, as siglas mais fortes, que poderiam fazer a diferença, abdicaram de ter personalidade própria para se homogeneizarem em discursos fabricados por equipes de marketing político. Não quero dizer que o marketing suprimiu a política. Isso seria uma tremenda injustiça. Digo apenas que os profissionais de marketing, na ausência de conteúdo dos partidos, precisam improvisar. A solução mágica é dizer o que o eleitor deseja ouvir, na esperança de conquistar a sua simpatia. Por isso, tome pesquisa.

Não por acaso partidos se alternam nos governos e a política econômica, por exemplo, pouco muda. No plano federal, por exemplo, a última novidade nesse campo, vejam só, foram o Plano Real, a Lei de Responsabilidade Fiscal e as políticas compensatórias, hoje conhecidas como Bolsa Família. Lá se vão quase vinte anos.

Militância e aparelhamento

Os poucos partidos que conseguiram constituir um corpo doutrinário e arregimentar alguma militância genuína, se perderam no aparelhamento do Estado. Leia mais

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Segurança no Ceará: cada um por si e Deus por todos

Por Wanfil em Segurança

09 de julho de 2012

O grupo de rock Engenheiros do Hawaii tem uma música chamada Fusão a Frio, cuja letra diz o seguinte:

“Ninguém sabe como serão os filhos desse casamento /indústria da informação + indústria do entretenimento / em doses homeopáticas, em escala industrial /tudo acaba em samba, é sempre carnaval / tudo acaba em sombras, é sempre vendaval.”

Lembrei-me dela ao ver essa notícia, divulgada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IpeaSeis em cada 10 pessoas têm medo de assassinato. A informação está no estudo Sistema de Indicadores de Percepção Social (SIPS) sobre segurança pública.

Muro com cerca elétrica e arame farpado: Penitenciária? Instalação militar? Campo de concentração? Não. É uma residência. A violência incorporada no estilo de vida das pessoas comuns não causa indignação, só medo. Enquanto isso, as autoridades disfarçam.

No Nordeste, o medo de ser assassinado aumenta para 72,9%. Na região Sul, esse índice é de 39,1%.

E o que a música tem a ver com esses dados? Simples. A insegurança é o maior problema do Nordeste e o Ceará não destoa dessa realidade. Pelo contrário. Vivemos sombras e vendavais, mas por aqui tudo acaba em samba e sempre é carnaval. Estádios de futebol ou Centro de Eventos que comporta shows grandiosos, são boas iniciativas, claro, mas apresentadas como ações fundamentais. Porém, o fato é que moramos em casas rodeadas por cercas elétricas, como se fossem campos de concentração, e não somos mais capazes de perceber que isso não é normal. Não nos damos conta de que viver e conviver em paz é que é o essencial.

Os números comprovam: insegurança só aumenta

No Ceará, na área de segurança pública temos alarmes sonoros em postes, patinetes na Beira-Mar e viaturas policiais de luxo, tudo apresentado com enorme aparato publicitário. No entanto, de acordo com o mais recente Mapa da Violência,divulgado pelo Instituto Sangari, a taxa de 29, 7 homicídios por grupo de 100 mil habitantes registrada no Ceará em 2010 ultrapassou, pela primeira vez, a média nacional, que foi de 26,2. Em 1994, a taxa estadual era de 9,5. Os assassinatos mais que triplicaram! Adaptando a letra da canção, é a política de entretenimento sucumbindo diante da informação real.

As autoridades afirmam que o problema é a migração de quadrilhas do Sul/Sudeste para o Norte/Nordeste. Isso acontece, mas não podemos confundir causa e efeito. A segurança não cai com a migração de criminosos, os criminosos é que migram pela precariedade da segurança pública nesses estados. Sem contar que temos os nossos próprios criminosos presos e soltos diariamente.

Boas intenções não bastam

Não é o caso de lançar dúvidas a respeito das intenções de quem trabalha para mitigar essa situação, mas intenções não bastam. Enquanto os governos não reconhecerem a gravidade da situação, o problema persistirá.

Em 2009, a Prefeitura de Fortaleza realizou a I Conferência Municipal de Segurança Pública (Conseg), para  “criar uma cultura de paz baseada na segurança cidadã”. O encontro, que aconteceu em um hotel cinco estrelas repleto de seguranças… particulares!, é claro, seria  é “uma grande oportunidade para criar a ambiência necessária, a fim de consolidar um novo paradigma, visando efetivar a segurança pública como direito fundamental”. Papo furado. Na falta do que mostrar, autoridades procuram disfarçar, abusam de frases de efeito repletas de termos empolados e pomposos. E só!

No fundo, essa conversa de “cultura da paz” é uma forma esperta de não resolver o problema da violência. É gente que pretende sensibilizar criminosos organizando passeatas. O que está valendo – em termos de segurança – é o cada um por si e Deus por todos. Leia mais

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Muito além do aumento dos salários dos vereadores: a hipocrisia disfarçada de cidadania

Por Wanfil em Câmara de Vereadores, Opinião pública, Política

04 de julho de 2012

Em Raízes do Brasil (1936), Sérgio Buarque de Holanda já mostrava a dificuldade do brasileiro em distinguir entre o público e o privado, criando privilégios, jeitinhos e tolerando a corrupção. É um clássico que mostra como o Brasil se sabota.

Os vereadores de Fortaleza aumentaram os próprios salários em 28%. Todos reclamaram e viram no episódio mais uma demonstração de privilégio da classe política, de locupletação particular com o dinheiro público, em suma, de uma tremenda injustiça com o contribuinte, que para ter seus vencimentos reajustados com base nis índices de inflação já sofrem um bocado.

No entanto, quando todo mundo concorda com algo e nada acontece para mudar ou impedir o objeto da insatisfação é sinal de que há algo errado mesmo é com quem reclama da situação. Como pode? Se ninguém, absolutamente ninguém, é a favor da forma como os parlamentares definem os valores dos seus próprios contracheques, como essa prática não só se perpetua, mas se dissemina por todo o país?

Algumas reflexões preliminares podem ser úteis para uma melhor avaliação do fenômeno. Se os vereadores tivessem aprovado 60% de aumento, conforme o projeto original, em vez de 28%, o que teria acontecido? Nada. Nada, nada, nada. Em uma semana todos esqueceriam, que é o que vai acontecer. Fiquei surpreso mesmo foi com a redução do índice. E se fossem deputados estaduais, federais ou senadores a se autoconceder aumentos, o que aconteceria? Muita reclamação, mas de objetivo, novamente nada. O perigo é a população confundir o Legislativo – fundamental para a democracia – com os legisladores que lá estão. Os espíritos autoritários adoram essa confusão, tendência muito presente em diversos países da América Latina.

Público e privado

Prosseguindo com as especulações, se fossem magistrados, governadores, ou presidentes gozando de privilégios inimagináveis aos cidadãos comuns, da mesma forma nada aconteceria. A prefeita de Fortaleza, Luizianne Lins, nunca prestou contas de como gastou o cartão corporativo a que tinha direito em seu primeiro mandato. O governador Cid Gomes foi ao exterior em viagem oficial, levando parentes para fazer turismo. Nos dois casos, ficou tudo por isso mesmo. O que seria intolerável em outras sociedades aqui no Brasil é visto como uma inconveniência sem maiores consequências. No fundo, apesar dos protestos que afetam indignação, os brasileiros toleram essas práticas porque compartilham de sua essência: a confusão entre o público e o provado, tão bem demonstrada por Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil. Leia mais

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Muito além do aumento dos salários dos vereadores: a hipocrisia disfarçada de cidadania

Por Wanfil em Câmara de Vereadores, Opinião pública, Política

04 de julho de 2012

Em Raízes do Brasil (1936), Sérgio Buarque de Holanda já mostrava a dificuldade do brasileiro em distinguir entre o público e o privado, criando privilégios, jeitinhos e tolerando a corrupção. É um clássico que mostra como o Brasil se sabota.

Os vereadores de Fortaleza aumentaram os próprios salários em 28%. Todos reclamaram e viram no episódio mais uma demonstração de privilégio da classe política, de locupletação particular com o dinheiro público, em suma, de uma tremenda injustiça com o contribuinte, que para ter seus vencimentos reajustados com base nis índices de inflação já sofrem um bocado.

No entanto, quando todo mundo concorda com algo e nada acontece para mudar ou impedir o objeto da insatisfação é sinal de que há algo errado mesmo é com quem reclama da situação. Como pode? Se ninguém, absolutamente ninguém, é a favor da forma como os parlamentares definem os valores dos seus próprios contracheques, como essa prática não só se perpetua, mas se dissemina por todo o país?

Algumas reflexões preliminares podem ser úteis para uma melhor avaliação do fenômeno. Se os vereadores tivessem aprovado 60% de aumento, conforme o projeto original, em vez de 28%, o que teria acontecido? Nada. Nada, nada, nada. Em uma semana todos esqueceriam, que é o que vai acontecer. Fiquei surpreso mesmo foi com a redução do índice. E se fossem deputados estaduais, federais ou senadores a se autoconceder aumentos, o que aconteceria? Muita reclamação, mas de objetivo, novamente nada. O perigo é a população confundir o Legislativo – fundamental para a democracia – com os legisladores que lá estão. Os espíritos autoritários adoram essa confusão, tendência muito presente em diversos países da América Latina.

Público e privado

Prosseguindo com as especulações, se fossem magistrados, governadores, ou presidentes gozando de privilégios inimagináveis aos cidadãos comuns, da mesma forma nada aconteceria. A prefeita de Fortaleza, Luizianne Lins, nunca prestou contas de como gastou o cartão corporativo a que tinha direito em seu primeiro mandato. O governador Cid Gomes foi ao exterior em viagem oficial, levando parentes para fazer turismo. Nos dois casos, ficou tudo por isso mesmo. O que seria intolerável em outras sociedades aqui no Brasil é visto como uma inconveniência sem maiores consequências. No fundo, apesar dos protestos que afetam indignação, os brasileiros toleram essas práticas porque compartilham de sua essência: a confusão entre o público e o provado, tão bem demonstrada por Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil. (mais…)