Blog do Wanfil - Sem meias palavras 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

Força-Tarefa no Ceará: a palavra-chave é Controle

Por Wanfil em Segurança

19 de Fevereiro de 2018

A Força-Tarefa com 36 homens enviada pelo Governo Federal ao Ceará para ajudar (ou assumir?) a área da inteligência na segurança pública é boa notícia, pois a necessidade realmente existe. Isso é consenso. A questão, política, está no intervalo entre o anúncio desse reforço e seus resultados. Esse intervalo será palco de uma disputa de “narrativas” na composição dos discursos eleitorais.

De cara, a iniciativa repercute politicamente nas seguintes questões: 1) há o reconhecimento de que o Estado não tem mesmo condições de combater sozinho as facções, ou seja, nem tudo está sob controle como garante o governo; 2) essa responsabilidade está doravante compartilhada com o governo federal, que assume o controle na frente investigativa, embora todos neguem que haja transferência de controle; 3) o governo cearense ganha tempo diante das cobranças por redução nos crimes (e se for o caso, qualquer ônus por eventual insucesso será transferido para os federais); 4) reforça, neste início, a imagem do senador Eunício Oliveira, que controla a mediação entre o presidente Michel Temer e Camilo Santana. Em caso de insucesso, ou de agravamento nos índices, o senador poderá ser cobrado junto com o Governo Federal.

O risco, como já disse, reside na possibilidade de fracasso. Foi gerada muita expectativa em cima da atuação federal. Em tese, a oposição poderia se beneficiar, mas precisa tomar cuidado e controlar a ansiedade para não ser acusada de torcer contra, portanto, tem que se mostrar propositiva e até, por incrível que pareça, colaborativa. Por outro lado, sem prazos definidos ou metas claras (na primeira entrevista nada foi apresentado nesse sentido), a presença da Força-Tarefa pode alimentar aquele tipo de lorota que os cearenses escutam há onze anos, de que tudo está sendo feito e que os efeitos pacificadores vão aparecer logo, logo. Tomara que dessa vez apareçam, é claro, pelo bem de todos.

Resumindo, o governo diz que tem o controle da situação, mesmo assim pede a ajuda da Força-Tarefa para manter o controle, sem que se anunciem quais são as metas para o controle de avaliação, na expectativa de reduzir o controle das facções.

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Deputados estaduais evitam CPI do Narcotráfico por medo das facções. Mas o salário…

Por Wanfil em Ceará

16 de Fevereiro de 2018

“Assim não, pessoal!”, diria Max Weber

O maior problema hoje no Ceará é a segurança pública, comprovado com sucessivos recordes de violência. Chegou a um ponto que o próprio líder do governo na Assembleia Legislativa, Evandro Leitão (PDT), ao rebater críticas do  Capitão Wagner (PR), confessou ter medo de assinar a CPI do Narcotráfico: “É muito fácil estar se cobrando nesta Casa a CPI do Narcotráfico. Eu botar minha assinatura, não boto, não. Eu tenho três filhos para criar, eu tenho um neto, eu não ando com segurança 24 horas do meu lado”.

A declaração contradiz o discurso oficial que estaria “tudo sob controle”, mas isso é lá com eles da base aliada. E o deputado não é o único. Silvana Oliveira (MDB) já posicionou em plenário contra a investigação alegando que o assunto é perigoso. Na verdade esse sentimento é partilhado por muitos outros deputados que não se manifestam para preservar o governo, mas que também não assinam o pedido de jeito nenhum.

É compreensível. Em 2016 um carro bomba foi deixado ao lado da Assembleia como recado das facções contra a instalação de bloqueadores de celulares nos presídios. A questão é que deputados são autoridades que encarnam o poder legislativo e que representam os cidadãos do estado. Se não querem, por medo, enfrentar o problema mais urgente dos seus representados – um medo que, repito, é compreensível –, não podem seguir na condição de representantes do povo. É um imperativo moral que renunciem aos cargos aqueles que não desejarem o início da CPI, obrigação imposta pelas circunstâncias e pelos cargos que ocupam.

Antes de continuar, faço um breve desvio: Max Weber observou a tensão entre o que chamou de Ética da Convicção e Ética da Responsabilidade. Para resumir, a primeira diz respeito as decisões individuais, e a segunda, no caso das autoridades, versa sobre decisões que deve ser tomadas para o bem geral. Por exemplo: um pacifista convencido de jamais reagir a uma agressão, uma vez na condição de presidente, estaria obrigado a declarar guerra caso seu país fosse atacado por outra nação, situação em que a ética pessoal estaria vencida pela ética da função que exerce.

Voltando ao Ceará, certamente a CPI não seria a solução mágica da qual os governistas, com impressionante desfaçatez, se dizem injustamente cobrados (quem afinal cobrou isso?), mas seria um esforço a mais em busca de uma política de segurança realmente eficaz. 

Imaginem Vossas Excelências que comunidades inteiras vivem sob a lei do estado paralelo do crime, que diariamente testemunham execuções. Lembrem-se de que existem crianças no Ceará que arriscam a vida para ir a escola. O risco existe, sim. Realmente é um tema perigoso. E por isso mesmo seu enfrentamento é necessário.

Não dá pra ficar escolhendo qual tema é mais confortável discutir, que problema é conveniente ou não, e depois ainda receber no final do mês o generoso salário de parlamentar (com seus penduricalhos), enquanto os cearenses, além de pagar a conta, permanecem expostos a uma taxa de violência que não para de crescer.

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Difícil transparência: abaixo-assinado cobra informações sobre gastos dos vereadores em Fortaleza

Por Wanfil em Câmara dos Vereadores

06 de Fevereiro de 2018

Divulgação

A ONG Patrulha da Transparência tenta desde o ano passado saber como e onde os vereadores de Fortaleza gastam o dinheiro do chamado “Serviço de Desempenho Parlamentar”. A Câmara Municipal divulga os valores gerais com gastos, mas parece não querer nem ouvir falar em detalhamento dessas despesas pagas pelo contribuinte.

Cansada de esperar, a ONG está divulgando uma petição online pedindo os comprovantes desses gastos. Qualquer empresa pede comprovações dessa natureza aos seus funcionários. Pegou um táxi? Almoçou com um cliente? Precisou viajar? Tudo certo, na volta mostre as notas e os recibos. Com dinheiro público, o rigor deveria ser o mesmo. Especialmente agora que a discussão sobre controle de gastos, privilégios, auxílios disso e daquilo, estão na ordem do dia.

Já abordei o assunto aqui no blog: “A situação é no mínimo constrangedora. Se os vereadores não conseguem explicar como gastam as verbas de seus gabinetes, que dizer da função fiscalizadora que deveriam exercer em relação aos gastos do Executivo? Na pior hipótese, lançam sobre a Câmara a sombra da suspeita em relação aos cuidados com a real destinação desses recursos.”

Se você paga a conta e deseja saber como seu dinheiro é gasto, basta conferir o link:

Abaixo-assinado pelos comprovantes de gastos dos vereadores de Fortaleza

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Foi Camilo quem pediu votos prometendo uma política de segurança pública. Se não cumpriu…

Por Wanfil em Segurança

31 de Janeiro de 2018

O empenho da gestão Camilo Santana em terceirizar responsabilidades pelo caos na segurança pública do Ceará é tão intenso e nervoso que acaba tendo efeito contrário, fica parecendo desculpa. Ainda mais quando nenhuma autocrítica é feita. Inacreditavelmente governador e assessores (muitos sem experiência política) insistem em dizer que as melhores medidas foram adotadas, que tudo está sob controle e coisas do tipo, sem explicar como tantos acertos conseguiram produzir os piores índices para a área. O discurso não se encaixa nos fatos, isso é óbvio.

Na ânsia de projetar falhas nos outros, o governo esquece de reconhecer os próprios equívocos. Isso não exime o Governo Federal de sua parcela de responsabilidade nesse quadro. O problema é que da forma como o assunto é denunciado por autoridades locais, e na medida em que o governo Federal diz que pode ajudar se o Estado pedir, a impressão é de que todos estão mais preocupados nesse momento de crise em fugir de cobranças do que em resolver mesmo o problema.

Sem contar que os discursos do presente não combinam com as abordagens de outros momentos, principalmente os períodos eleitorais, o que aumenta a desconfiança geral. Se hoje o Governo do Ceará reclama ostensivamente do Governo Federal, é bom lembrar que até 2016 (ano do impeachment) isso era proibido, por pura conveniência política, pois as estatísticas no Estado já estavam entre as piores do país desde 2007, sem que jamais os então aliados do Palácio do Planalto associassem segurança pública com as gestões Lula ou Dilma. Se antes não havia conexão direta, agora fica complicado tentar estabelecê-la.

Outro ponto: entre o final do governo Cid e o início da gestão Camilo, quando houve uma breve redução nos homicídios, resultado de um frágil acordo entre as facções (que o governo negava na intenção de levar todos os méritos), ninguém do Executivo parabenizou o Judiciário, o Legislativo ou a Polícia federal. Era tudo pois obra do governo estadual. Assim, por que não haveria também de ser quando as coisas pioram?

Por último, nas campanhas eleitorais os principais candidatos sempre destacam o protagonismo do Estado nas políticas de segurança, prometendo ações, programas e liderança. Com Camilo não foi diferente. Por isso tudo, a repentina lembrança de que existe uma divisão de responsabilidades acaba com jeito de tentativa de inverter culpas.

Não adianta. Quem prometeu e não cumpriu sempre estará em dívida. Fica a lição para as próximas eleições.

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Governo atarantado após Chacina das Cajazeiras

Por Wanfil em Segurança

29 de Janeiro de 2018

As entrevistas e declarações de autoridades cearenses depois da chacina das Cajazeiras, em Fortaleza, foram desastrosas para a imagem do governo do Ceará, pelo menos nesse primeiro instante. Se a intenção foi conter danos, o tiro saiu pela culatra. Tiro no sentido metafórico.

O secretário de Segurança Pública, André Costa, comparou o episódio aos atentados terroristas nos países desenvolvidos, igualando crimes de naturezas distintas. O governador Camilo Santana se irritou com um repórter da Folha de São Paulo durante entrevista coletiva, que perguntou sobre a capacidade de controle do Estado diante desse quadro de violência. Segundo Camilo, tudo está sob controle e o governo “tem todas as informações em relação ao que acontece de homicídios, todos os dias no Estado, por área, por hora, por região, por cidade e por bairro”. Há uma evidente confusão entre informação e controle, no sentido de contenção, de afirmação do poder público sobre o todo o território no estado.

Manifestações precipitadas, disparadas (sentido literal, novamente) no calor do momento, revelam que a reação diante da repercussão negativa na imprensa nacional e internacional, especialmente no Jornal Nacional, da Rede Globo, se deu na base do improviso. Nada disso aconteceu quando se anunciou o balanço de homicídios de 2017, com alta de 50% em relação ao ano anterior, perfazendo o recorde de cinco mil assassinatos. Ninguém deu coletiva ou formou força-tarefa. Nada aconteceu, embora os índices exigissem medidas emergenciais. Se agora é diferente, é por causa da repercussão em ano eleitoral.

Pela complexidade do problema, com a multiplicidade de diagnósticos e de intervenções possíveis, a segurança pede mesmo um profundo debate com setores organizados da sociedade, como se propõe a fazer a força-tarefa anunciada às pressas pelo governo. Mas ao fazer isso somente no último ano da atual gestão, tem-se a impressão de que o governo perdeu o timing para propor mudanças. Acossado pelos fatos, corre atarantado, batendo cabeça, atrás de novas desculpas e novos culpados para a escalada da violência no Ceará.

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Os possíveis efeitos da condenação de Lula para as eleições no Ceará

Por Wanfil em Política

24 de Janeiro de 2018

Quais os efeitos políticos da condenação de Lula pelo TRF-4 para as eleições no Ceará? Difícil dizer. Na verdade, é impossível prever algo agora. O que sobram do calor de fatos juridicamente amparados por provas, segundo entendimento da Justiça Federal, são dúvidas para partidos e candidatos. E a principal, para esses, é a seguinte: caso dispute a Presidência com base em liminares ou se confirme seu impedimento em razão da Lei da Ficha Limpa, Lula ainda seria um bom cabo eleitoral? Que personagem os eleitores enxergariam nas propagandas de campanha: o operário que venceu ou o ex-presidente que traiu a própria história?

Vai depender muito da forma como as forças políticas irão trabalhar esse carimbo de condenado por corrupção. E conforme as coisas se desenrolem, o que hoje parece vantagem para uns, amanhã poderá se revelar um baita constrangimento.

Por exemplo: um candidato ao Senado que posar para fotos ao lado do presidente do Bolsa-família, correrá o risco de vincular sua imagem a do chefe do maior esquema de corrupção já revelado.

Essa incerteza, aliás, já produz resultados. Camilo Santana, Ciro Gomes e Eunício Oliveira manifestaram nos últimos dias solidariedade ao ex-presidente, mas evitaram, por razões distintas, porém sintomáticas, endossar as críticas que seus apoiadores fazem ao judiciário. Defendem o Lula do passado, sem firmar compromisso com o Lula condenado por dois tribunais, pois isso poderá ser interpretado como apoio à corrupção. Se o petista conseguir virar o jogo da imagem pública, todos voltam a brigar por sua companhia.

Partidos e candidatos não esperam mais, portanto, pela próxima manifestação da Justiça, mas pelas repercussões de sua aplicação junto aos eleitores.

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Julgamento de Lula não muda a natureza das coligações no Ceará

Por Wanfil em Eleições 2018

23 de Janeiro de 2018

Partidos de situação e de oposição no Ceará aguardam o desfecho do julgamento de Lula na segunda instância para definir seus próximos passos. Na verdade, esperam pela confirmação de alianças nacionais. Sem Lula, o PT apoiaria Ciro no primeiro turno? Ou insistirá com candidatura própria para defender a legenda e seu líder? Com um nome no páreo, o PT no Ceará, partido de Camilo Santana, não poderá pedir votos para o Ciro na propaganda eleitoral. Esse é o ponto. De resto, os demais pré-candidatos ao Palácio do Planalto continuam pré-candidatos. Até mesmo aqueles que negam a possibilidade de se candidatarem.

A confirmação da sentença condenatória de Lula na primeira instância por corrupção não seria surpresa, afinal, o processo corre dentro da legalidade, com amplo direito de defesa ao réu. Os partidos, é claro, já operam com esse cenário em mente.

Sem entrar no mérito do processo, a absolvição de Lula poderia causar alguma surpresa. O próprio PT já fala em recorrer a tribunais internacionais, revelando pessimismo. Nesse caso, tudo ficaria como está hoje: Lula liderando as pesquisas, mas rejeitado por mais da metade do eleitorado. Ciro continuaria sem palanque no Ceará para o primeiro turno. A não ser que Camilo mudasse de partido.

Portanto, a presença ou a ausência de Lula não constitui ruptura na normalidade institucional do processo eleitoral, são na verdade possibilidades já assimiladas pelos partidos, candidatos e até mesmo pelos eleitores. Assim, os conchavos e acordões de ocasião, a divisão dos currais eleitorais entre aliados, a cooptação de opositores, a distribuição de cargos, esses – digamos assim – entendimentos, seguem na mesmíssima toada.

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Ceará bate recorde de homicídios e nenhuma ação é anunciada até agora. Nada! É incrível

Por Wanfil em Segurança

16 de Janeiro de 2018

Na última sexta-feira a Secretaria de Segurança divulgou que foram registrados 5.134 homicídios no Ceará em 2017. O número é um triste e alarmante recorde. Até agora, a reação do governo se limitou a mais do mesmo: culpar as fações (cuja presença por aqui era negada pelas autoridades até pouco tempo atrás) e o Governo Federal (que somente a partir do impeachment passou a ser responsabilizado pelo problema, embora o descontrole na área já perdure há 11 anos).

O governador Camilo Santana, que sempre afirma estar “agarrado ao problema”, estava de férias em Nova York. De todo modo, o lamentável recorde já havia sido batido antes mesmo da consolidação dos números de dezembro. E ainda assim não houve mobilização para deliberações emergenciais ou para a montagem de um gabinete de crise diante desse quadro de guerra. Tudo continua absolutamente como está. Permanecem as os mesmos gestores e as mesmas diretrizes para a segurança pública no Estado. Até as “soluções” são as mesmas de sempre: anúncios de investimentos, concursos e nomeações, que embora importantes, não bastam, como comprovam os dados oficiais.

Essa postura aparentemente conformada, a insistência numa estratégia equivocada, abre espaço para três perguntas:

1) O Governo do Ceará é incapaz de pelo menos conter, por conta própria, o avanço do morticínio e do crime organizado?

2) Se é capaz, o que será feito de diferente agora?

3) Se não é, por que não admite?

E para efeito de avaliação sobre medidas tomadas em 2017, seguem mais três perguntinhas:

1) A divulgação do WhatsApp do secretário para a população contribuiu efetivamente para o quê?

2) Quais os resultados obtidos após o lançamento, pelo governo, de um aplicativo para que vítimas de crimes acionem a polícia?

3) A nova lei de segurança bancária, que obriga a instalação de vidros blindados e proíbe o uso de óculos escuros dentro das agências, impediu que quadrilhas continuassem a explodir bancos e a atacar delegacias?

Se o recorde de violência não ofende o governo, não serão essas poucas perguntas a fazê-lo.

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É possível falar de política com amor?

Por Wanfil em Crônica

12 de Janeiro de 2018

Nesses tempos de radicalismos de internet tomei, por acaso, conhecimento de um episódio envolvendo a comediante americana Sarah Silverman. Alvo de pesado xingamento no Twitter, Sarah respondeu ao insulto demonstrando preocupação com a condição emocional de seu agressor virtual: “Li seus tweets e vi o que você está fazendo. Seu ódio claramente quer esconder sua dor. Eu conheço estes sentimentos”. Realmente o sujeito tinha problemas, pediu desculpas e aceitou a sugestão de procurar ajuda profissional. Ao contar o caso para minha esposa, psicóloga, ela imediatamente o associou ao conceito de “comunicação não-violenta”, que a empolga e contagia quem a ouve.

Pois bem, essas considerações me fizeram lembrar das ofensas diárias trocadas nas redes sociais por causa de política. Muitas vezes gente bacana que levada pelo impulso, extravasa e exagera na hora de se posicionar diante de opiniões alheias e de algumas notícias. Ora, se foi possível para a comediante responder a um insulto com amor, no sentido de preocupação com o bem estar do outro, talvez também seja possível as pessoas falarem de política com respeito pelo interlocutor, ainda que se discorde do que ele diz e pensa.

Quando falo em política neste texto, não penso apenas em partidos, candidatos ou eleição, mas na legítima preocupação que indivíduos podem manifestar sobre o conjunto de regras e meios para construir uma vida em sociedade. Nesse sentido, é possível sim falar de política com amor, ou pelo menos, sem ódio.

O primeiro passo é não esperar que os outros tomem a iniciativa. Não acuse más intenções neles, não atribua-lhes crimes nem xingue ninguém. Respeite a divergência. Cada um tem suas razões quando pensa a realidade, que podem muito bem ser diferentes das suas, sem que isso signifique desejo de impor um mal aos demais.

O segundo passo é não entrar na vibração desequilibrada. Se você for alvo de um hater (apelido para internautas que sentem necessidade de provocar e brigar o tempo inteiro), lembre que tudo o que ele deseja é uma reação destemperada. Caso seja alguém conhecido, que por algum motivo o surpreenda agindo assim, diga que volta a conversar depois, com os ânimos serenados. Levar adiante um debate em termos violentos não constrói nada e ainda te deixa chateado, perturbando seu estado de espírito a troco de nada.

O terceiro é o comedimento. Se não por possível ter o mínimo de empatia pelo outro, ignore-o. Não torça para que o pior aconteça com essa pessoa, não deixe que instintos ruins floresçam. É só bloquear e pronto. Se for o caso de postar uma crítica, não custa lembrar que é possível fazer isso com educação e elegância, ainda que se trate de algo espinhoso.

E o quarto é ter responsabilidade na escolha das palavras, sobretudo dos adjetivos. Tenho amigos que nutrem admiração por políticos que particularmente eu desprezo. Certamente, o mesmo acontece com sinal invertido: eles podem não apreciar políticos que admiro. Mas em respeito à amizade que temos, evito usar expressões que possam dar a entender que todos os que gostam desse ou daquele político são cúmplices de seus erros ou crimes, ou dos seus supostos erros e crimes.

Claro que política também envolve paixão e disputa, e que o sentimento de indignação é compreensível quando as coisas não estão bem. Principalmente onde escândalos em série potencializam essas propensões. Mas quando isso se mistura com outros problemas, ressentimentos e frustrações, a pessoa indignada pode acabar extrapolando limites, confundir a própria sensibilidade e até desnortear a consciência, descontando tudo em quem pensa ou vota diferente dela.

Quando Sarah Silverman percebeu que a agressividade de seu detrator era reflexo de outros males, conseguiu não entrar na espiral de sensações negativas da troca de insultos gratuita. É por aí.

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Cristiane Brasil e Lula: condenados podem ou não podem pleitear cargos públicos?

Por Wanfil em Política

11 de Janeiro de 2018

A pergunta do título não tem por objetivo avaliar a legislação sobre Ficha Limpa e coisas tais. É antes retórica e diz respeito ao aspecto moral que envolve a questão.

Óbvio que a nomeação de pessoa condenada pela Justiça do Trabalho para comandar o Ministério do Trabalho é uma ideia descabida. Que autoridade teria, se não pode apresentar a própria conduta como exemplo de respeito às leis trabalhistas?

Sendo assim, a polêmica envolvendo a deputada federal Cristiane Brasil (PTB-RJ) e o governo Michel Temer é compreensível.

O curioso é que partidos de esquerda, especialmente PT e PDT, não tomaram posição nesse debate. Criticam a parlamentar por outros episódios, mas não pela tentativa de nomeação, que aliás foi suspensa pela Justiça Federal. Onde estão os sindicatos para dizer que não aceitam negociar com uma condenada para o Ministério do Trabalho? Cadê a CUT?

O silêncio é revelador. “Há coisas que melhor se dizem calando”, já dizia Machado de Assis em Brás Cubas. É que a premissa do impedimento moral por causa de condenação judicial vale também para outra figura: Lula da Silva, pré-candidato petista ao Palácio do Planalto, condenado em primeira instância a nove anos de prisão por corrupção e prestes a ser julgado em segunda instância.

A lógica moral é a mesma. Que autoridade teria um presidente nessa condição para editar medidas provisórias isentando impostos para um setor da economia? Especialmente para aqueles setores com os quais mantinha relações indevidas, como revelou a Lava Jato? A suspeita de favorecimento ilegal seria automática. Esse é só um exemplo. Como poderia um presidente condenado por corrupção demitir um ministro condenado por corrupção?

Assim, por conveniência, as supostas entidades de representação dos trabalhadores fazem de conta que nem sabem direito quem é Cristiane Brasil, não obstante o fato de ser filha de Roberto Jefferson, aquele do Mensalão. Os partidários da deputada acusam injustamente de perseguição do PT. É só uma desculpa para insistir na indicação, na esperança de ganhar a simpatia de antipetistas. Não cola.

A maior diferença entre Lula e Cristiane, no que concerne aos problemas de cada um com a justiça, é que corrupção é muito mais grave que uma irregularidade trabalhista. Neste, o caso foi reparado, naquele, o prejuízo atingiu as vidas de milhões de brasileiros, que agora pagam a conta.

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Cristiane Brasil e Lula: condenados podem ou não podem pleitear cargos públicos?

Por Wanfil em Política

11 de Janeiro de 2018

A pergunta do título não tem por objetivo avaliar a legislação sobre Ficha Limpa e coisas tais. É antes retórica e diz respeito ao aspecto moral que envolve a questão.

Óbvio que a nomeação de pessoa condenada pela Justiça do Trabalho para comandar o Ministério do Trabalho é uma ideia descabida. Que autoridade teria, se não pode apresentar a própria conduta como exemplo de respeito às leis trabalhistas?

Sendo assim, a polêmica envolvendo a deputada federal Cristiane Brasil (PTB-RJ) e o governo Michel Temer é compreensível.

O curioso é que partidos de esquerda, especialmente PT e PDT, não tomaram posição nesse debate. Criticam a parlamentar por outros episódios, mas não pela tentativa de nomeação, que aliás foi suspensa pela Justiça Federal. Onde estão os sindicatos para dizer que não aceitam negociar com uma condenada para o Ministério do Trabalho? Cadê a CUT?

O silêncio é revelador. “Há coisas que melhor se dizem calando”, já dizia Machado de Assis em Brás Cubas. É que a premissa do impedimento moral por causa de condenação judicial vale também para outra figura: Lula da Silva, pré-candidato petista ao Palácio do Planalto, condenado em primeira instância a nove anos de prisão por corrupção e prestes a ser julgado em segunda instância.

A lógica moral é a mesma. Que autoridade teria um presidente nessa condição para editar medidas provisórias isentando impostos para um setor da economia? Especialmente para aqueles setores com os quais mantinha relações indevidas, como revelou a Lava Jato? A suspeita de favorecimento ilegal seria automática. Esse é só um exemplo. Como poderia um presidente condenado por corrupção demitir um ministro condenado por corrupção?

Assim, por conveniência, as supostas entidades de representação dos trabalhadores fazem de conta que nem sabem direito quem é Cristiane Brasil, não obstante o fato de ser filha de Roberto Jefferson, aquele do Mensalão. Os partidários da deputada acusam injustamente de perseguição do PT. É só uma desculpa para insistir na indicação, na esperança de ganhar a simpatia de antipetistas. Não cola.

A maior diferença entre Lula e Cristiane, no que concerne aos problemas de cada um com a justiça, é que corrupção é muito mais grave que uma irregularidade trabalhista. Neste, o caso foi reparado, naquele, o prejuízo atingiu as vidas de milhões de brasileiros, que agora pagam a conta.