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Tribuna Científica

por Hugo Fernandes-Ferreira

Zoologia

Lagarto cearense e duas espécies de tatu são descobertas no Brasil

Por hugofernandesbio em Zoologia

03 de outubro de 2016

Muita gente imagina que já conhecemos todos os representantes da nossa fauna. Ledo engano. Anualmente, centenas de novas espécies são descobertas por biólogos em todo o mundo e o que falta para ser descoberto está na ordem de milhões. E o Brasil, apesar de abrigar a maior biodiversidade do planeta, já estudada há séculos, ainda está muito longe de ter toda sua fauna completamente revelada.

Essa lacuna está concentrada principalmente nos grupos de invertebrados terrestres e marinhos. O que até mesmo a maioria dos biólogos desconhece é que mamíferos de médio e grande porte, considerado um grupo bastante conhecido, ainda guardam representantes que ainda não foram desvendados.

É o que demonstram os trabalhos do biólogo paraibano Anderson Feijó, doutorando em Zoologia pela Universidade Federal da Paraíba. Ele já havia publicado, em 2013, a descrição de uma nova espécie de porco-espinho (Coendou baturitensis) e outra de cutia (Dasyprocta iacki), junto com o renomado Dr. Alfredo Langguth. Dessa vez, acaba de lançar em conjunto com o também biólogo e professor da UFPB, Dr. Pedro Cordeiro-Estrela, um artigo na revista Zootaxa, reconhecendo duas espécies de tatu para a região amazônica, Dasypus pastasae e Dasypus beniensis.

kappleri

Tatu-de-quinze quilos (Foto: Vicent Rufray / Biotope)

Você acha que essa constatação foi realizada no meio da mata? Nada disso. Ambas as espécies eram anteriormente conhecidas como Dasypus kappleri, um tatu de médio porte, chamado popularmente de “quinze-quilos” (massa aproximada do animal) e relativamente comum na Amazônia. Feijó analisou dezenas de exemplares depositados em coleções científicas do Brasil, Colômbia, Venezuela, Equador, Peru e Estados Unidos e encontrou diferenças morfológicas responsáveis por separar o que era uma única espécie em três. Dasypus kappleri agora está localizada apenas ao norte do Rio Amazonas até a região das Guianas. Ao sul, está Dasypus beniensis. Já Dasypus pastasae ocorre ao leste da Amazônia, entre Venezuela e Bolívia. As três são quase idênticas e as duas últimas já foram consideradas subespécies de D. kappleri, mas podem ser diferenciadas através de características do crânio, casco e cauda.

Distribuição das esp

Distribuição das espécies de tatus-de-quinze-quilos (Fonte: Feijó & Cordeiro-Estrela 2016)

Na edição anterior da mesma revista, os professores doutores Diva Borges-Nojosa, da Universidade Federal do Ceará; Ulisses Caramaschi, do Museu Nacional de História Natural do Rio de Janeiro e Miguel Trefaut Rodrigues, da Universidade de São Paulo, também revelaram para a Ciência uma nova espécie de lagarto, batizada de Placosoma limaverdorum, em homenagem ao professor aposentado pela UFC, Dr. José Santiago Lima-Verde e ao agrônomo Wilson Lima-Verde, proprietário do terreno onde o holótipo (exemplar que representa oficialmente uma espécie) foi coletado.

limaverdorum

Nova espécie de lagarto cearense (Foto: Diva Borges-Nojosa)

Na década de 90, Borges-Nojosa já havia coletado indivíduos dessa espécie na Serra de Baturité, Ceará, distante pelo menos 1700 km ao norte da distribuição original das outras populações do gênero Placosoma. Na época, a bióloga já havia notado algumas diferenças em relação às outras espécies conhecidas, mas aguardou novas evidências para comprovar. Agora, depois de coletas em outras regiões do estado e de análises morfológicas complexas comparadas com outros representantes do grupo, os pesquisadores finalmente atestaram que essas populações do Ceará representam uma única espécie, localizada até o momento apenas nas Serras de Baturité, Maranguape e Pacatuba. Chamadas de brejos de altitude, essas serras são cenários conhecidos mundialmente por abrigarem espécies endêmicas, ou seja, que só existem lá, como os anfíbios Adelophryne maranguapensis e Adelophryne baturitensis, o periquito da cara-suja Pyrrhura griseipectus e o lagarto Leposoma baturitensis.

Além da excelente notícia em sabermos que nossa lista de fauna é crescente, essas descobertas são muito mais do que isso. Perceber de que forma esses animais se distribuem no mapa hoje é fundamental para entender os processos de evolução e dispersão das espécies ao longo de milhares de anos. Quando ocorreu a separação das populações do ancestral comum? Quem foram esses ancestrais? O que pode ter motivado essa separação? Terá sido um rio? Um evento climático? Uma longa migração e isolamento? Além disso, identificar essas diferenças morfológicas e moleculares das espécies pode nos dar a resposta para inúmeras relações ecológicas. Esse padrão de interdisciplinaridade, sem dúvida, é uma das maiores belezas da Biologia.

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Jacaré no Ceará? Claro que sim!

Por hugofernandesbio em Zoologia

11 de Fevereiro de 2016

Um jacaré capturado pela equipe do Corpo de Bombeiros no Rio Poti, na cidade de Crateús, região dos Inhamuns, causou espanto para muita gente. Como assim, jacaré no Ceará?

Para alguns biólogos, espanto nenhum. A espécie, denominada Caiman crocodilus, conhecida como jacaretinga, já havia sido registrada nesse mesmo município pela Dra. Diva Maria Borges-Nojosa, da Universidade Federal do Ceará e pelo Dr. Daniel Cassiano Lima, da Universidade Estadual do Ceará, em 2008.

Além dessa espécie, o jacaré-anão (Paleosuchus palpebrosus) também já foi registrado pelos mesmos autores, junto com o Ms. Helio Coelho de Lima, em lagoas do litoral norte do estado.

Mesmo há poucos anos, acreditava-se que os jacarés do Ceará eram fruto de solturas provenientes do tráfico. Pessoas que traziam filhotes procedentes da Amazônia ou de outras regiões soltavam esses animais em lagoas e rios quando já não davam mais conta de alimentá-los. De fato, isso aconteceu em algumas ocasiões, como no caso da Lagoa da Parangaba e no Lago Jacareí. Nesse último caso, há uma importante consideração a fazer. “Jacareí”, no tronco linguístico tupi-guarani, significa “jacaré pequeno”. Muito provavelmente, essa lagoa abrigava populações naturais de jacarés antes da expansão desenfreada da cidade de Fortaleza.

Jacaretinga, capturado em Crateús. (Foto: Corpo de Bombeiros)

Certamente, esse cenário poderia ser visto em quase todo o Estado do Ceará, mas a caça tanto desses crocodilianos, como de suas presas (capivaras e tartarugas, por exemplo), além da poluição de rio e alteração dos habitats do entorno, são fatores que levaram as populações aqui presentes a uma situação alarmante de declínio.

Registros históricos para o estado podem ser conferidos nos estudos do Prof. Francisco Dias da Rocha, em 1948. Antes disso, informações de naturalistas e documentos do Império também apontavam a presença de jacarés.

Quanto à captura, fico me perguntando se isso foi realmente necessário. O animal estava em seu habitat natural. As chances de um ataque a seres humanos são ínfimas e, mesmo considerando essa possibilidade, é preciso ressaltar que o uso do rio pela população local deve ser feito levando em consideração a presença do animal. Caso haja risco, é bom evitar a aproximação nas margens. Já pensou se, para cada jacaré encontrado na Amazônia ou Pantanal perto de comunidades ribeirinhas, fosse necessário chamar os bombeiros para capturar? Essa estranheza também deveria ser aplicada aqui. Segundo informações da Corporação, o animal foi solto em uma área do rio mais afastada do centro urbano.

Importante lembrar que conservação desses animais é de suma importância para a biodiversidade local, já que eles são topo da cadeia alimentar e por isso exercem controle populacional sobre as demais espécies.

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Nova espécie de rato silvestre é descoberta por biólogo cearense

Por hugofernandesbio em Zoologia

13 de outubro de 2015

Em pleno século XXI, novas espécies de animais relativamente bem conhecidos como os mamíferos continuam sendo reveladas no Brasil. A novidade agora é o ratinho Calomys matevii.

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Calomys matevi, nova espécie de rato para o Brasil (Foto: Bruno Campos).

Olhando para a foto, parece com o rato de rua né? E se eu falar que a relação entre essa nova espécie e um rato comum é tão distante quanto a relação entre uma onça e um cachorro doméstico?

Antes de explicar isso, vamos às apresentações. Esse novo roedor foi descrito pelo pesquisador cearense Newton Gurgel-Filho, pelo paraibano Anderson Feijó e pelo uruguaio Alfredo Langguth, todos biólogos da Universidade Federal da Paraíba. Gurgel-Filho visitou diversos museus científicos no país e, através da análise morfológica (principalmente do crânio) de diversos exemplares, os autores concluíram que a espécie Calomys expulsus, amplamente distribuída no país, na verdade não era uma só. Os exemplares do Ceará, Piauí, Tocantins, Bahia, Sergipe, Pernambuco e parte de Minas Gerais apresentavam características únicas que levaram os autores a separarem essa espécie em duas. O nome matevii é uma homenagem a Dra. Margarete Matevi, geneticista gaúcha que faleceu ano passado e que fez grandes contribuições para o estudo de mamíferos brasileiros.

Ao contrário dos ratos de rua, que foram introduzidos pelos colonizadores europeus no século XVI, essa espécie vive em áreas naturais secas e florestais e não pertence nem a mesma família daqueles indesejados urbanos. A catita (Mus musculus) e o rato (Rattus sp.) pertencem à Família Muridae, enquanto essa nova espécie é da Família Cricetidae.

Essa descoberta está descrita em um extenso trabalho intitulado “Pequenos Mamíferos do Ceará”, publicado em um volume único da Revista Nordestina de Biologia. Além dessa nova espécie, os autores propõem novas denominações para animais muito conhecidos dos brasileiros, os cassacos (também chamados de gambás, timbus, mucuras e sariguês). Segundo os pesquisadores, a espécie Didelphis albiventris (gambá-de-orelha-branca) recebeu historicamente uma denominação errada. Há mais de um século, o nome verdadeiro para o animal deveria ser Didelphis marsupialis. Porém, a confusão não para por aí. Isso porque Didelphis marsupialis é o nome dado para os gambás-de-orelha-preta da região amazônica. A proposta é que agora esse animal, bem como as populações de gambás-de-orelha-preta da Mata Atlântica (antes chamadas de Didelphis aurita), tenham um mesmo nome, pois os biólogos concluíram que elas não possuem características únicas o suficiente para serem separadas em duas espécies. Ambas agora teriam o nome de Didelphis kankrivora.

Parece um pouco complicado, mas isso parte de uma ciência chamada Taxonomia, que apesar de ter séculos de desenvolvimento, tem se tornado cada vez mais escassa no Brasil. A ideia é que trabalhos como esse possam inspirar novos pesquisadores.

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Mais uma nova espécie revelada no Nordeste. Entenda como um biólogo descobre novos animais.

Por hugofernandesbio em Zoologia

17 de Março de 2015

Na última edição da Revista Zootaxa, os biólogos brasileiros Roberta Graboski, Gentil Alves Pereira Filho, Ariane da Silva, Ana Lúcia Prudente e Hussam El Dine Zaher revelaram uma nova espécie  para a Ciência, a serpente Amerotyphlops arenesis. A nomenclatura foi em homenagem à localidade tipo (local onde o animal foi encontrado), a cidade de Areia, no Estado da Paraíba.

O réptil possui hábito fossorial, que corresponde a atividades realizadas no subsolo e sua visão é bastante limitada. Por esse motivo, serpentes da Família Typhlopidae, caso dessa nova espécie, são popularmente chamadas de cobras-cegas.

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Amerotyphlops arenensis, descoberta em 2015 (Foto: Gentil Pereira-Filho).

Essa descoberta zoológica é mais uma das dezenas realizadas na região Nordeste nos últimos anos. Parte desse mesmo grupo de pesquisa, por exemplo, já havia descrito outra espécie de serpente em 2014, a cobra-coral Micrurus potyguara, também na Paraíba.

Outro exemplo é o calango Tropidurus jaguaribanus, descoberto pela equipe liderada pelo biólogo Daniel Passos, da Universidade Federal do Ceará em 2011. Desde o início dos anos 2000, o crescimento do número de publicações desse escopo na região tem sido exponencial e vem ganhando um destaque mais forte em relação a décadas anteriores.

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Tropidurus jaguaribanus, descoberto no Ceará em 2011 (Foto: Daniel Passos)

Em 2013, os mamíferos de médio e grande porte foram representados pela descrição de Coendou speratus, um porco-espinho revelado na Universidade Federal de Pernambuco, bem como pelo trabalho dos pesquisadores da Universidade Federal da Paraíba, Anderson Feijó e Alfredo Langguth, que publicaram um estudo sobre a taxonomia de mamíferos de médio e grande porte dos estados do Ceará, Pernambuco e Paraíba. Nesse trabalho, foram reveladas para o mundo duas espécies de roedores: o porco-espinho Coendou baturitensis, que ganhou ampla repercussão na mídia nacional e internacional e a cutia Dasyprocta iacki, que foi menos divulgada. Isso porque a descoberta da cutia não veio acompanhada, na época, de fotografias de animais vivos, a exemplo do que aconteceu com o porco-espinho.

Coendou baturitensis - Aratuba, CE - Hugo Fernandes-Ferreira

Coendou baturitensis, descoberto no Ceará em 2013. (Foto: Hugo Fernandes-Ferreira)

Somente em 2015, um exemplar vivo foi fotografado coincidentemente no Zoológico de João Pessoa. Essa espécie foi encontrada nos estados de Pernambuco e Paraíba, mas ainda não se sabe ao certo sua ocorrência real, que pode incluir outros estados do Nordeste, inclusive o Ceará. Já o Coendou baturitensis recebeu esse nome graças ao local onde o primeiro indivíduo foi coletado, a Serra de Baturité, localizada no norte cearense.

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Dasyprocta iacki, descoberta em Pernambuco em 2013 (Foto: Hugo Fernandes-Ferreira)

Essa mesma serra já foi palco para outras descobertas históricas, como a serpente Atractus ronnie, o lagarto Leposoma baturitensis e o anfíbio Adelophryne baturitensis, reveladas pelo grupo de pesquisa liderado pela professora Diva Maria Borges-Nojosa, do Núcleo Regional de Ofiologia da Universidade Federal do Ceará (UFC). No ano de 2015, um outro sapo, chamado Rhinella casconi, foi descrito em homenagem ao professor do Departamento de Biologia da UFC, Dr. Paulo Cascon e publicado pelo biólogo Igor Roberto e sua equipe. Esse mesmo autor também já havia liderado a descrição de outro anfíbio no Piauí em 2013, denominado Pseudopaludicola parnaiba e também de uma espécie de anfisbênia (lagarto ápode popularmente chamado de cobra-de-duas-cabeças) para o Rio de Grande do Norte em 2014 (Amphisbaena littoralis). No mesmo ano e no mesmo estado, outro anuro do gênero Pseudopaludicola, chamado de P. pocoto foi revelad0 por Felipe Magalhães e colaboradores. O nome curioso é devido à vocalização do animal, muito semelhante ao barulho de um cavalo cavalgando.

O aumento do número dessas descobertas é graças ao surgimento e estabelecimento de grupos de pesquisa em Zoologia na região Nordeste, principalmente nos estados do Ceará, Paraíba, Pernambuco e Bahia. Estudos envolvendo a taxonomia (área da Ciência que define os grupos de organismos biológicos de acordo com características em comum) em coleções científicas tem utilizado dados morfológicos e moleculares que acabam resultando na separação de espécies. Para ilustrar melhor, imaginem que um pesquisador tem na sua frente dezenas ou centenas de animais coletados por várias pessoas ao longo de vários anos e em vários lugares. Esses animais foram todos previamente identificados como Animalius xis (nome fictício).  Então, o pesquisador que estudou bastante e se tornou um especialista nesse grupo zoológico em específico, olha para todos aqueles animais coletados e acaba encontrando algumas diferenças (no aspecto externo, no crânio, no DNA etc.) em algum(ns) indivíduo(s) que ninguém ainda havia analisado ou notado. Através de critérios internacionalmente estabelecidos, ele então publica uma descrição dessas diferenças, propondo à comunidade científica que aquele indivíduo ou aquela porção de indivíduos diferentes então seria uma nova espécie, Animalius ypsilon.

Além disso, diversos pesquisadores tem se dedicado a trabalhos de campo de cunho ecológico que acidentalmente podem culminar com a coleta de uma espécie até então desconhecida. Isso não exclui o cientista a comparar essa então suposta nova espécie com outras espécies do mesmo grupo para atestar sua descoberta.

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“Carona é uma ova”, diria o pica-pau.

Por hugofernandesbio em Zoologia

03 de Março de 2015

Essa semana, uma foto no mínimo inusitada invadiu a timeline de milhões de pessoas mundo afora. Um pica-pau voando e levando um pequeno mamífero em suas costas, fotografado por Martin Le-May, em um parque de Londres. Acompanhada da imagem, a seguinte manchete: “Doninha pega carona nas costas de um pica-pau”.

 

Woodpecker

“Carona” ingrata (Foto: Martin Le-May)

 

Qual o problema com essa notícia? Só mesmo essa história de “pegar carona”, porque a foto é bem real.

Só que alguns viajaram muito na maionese e começaram a incluir textos sobre amizade no mundo animal, como se o pica-pau boa praça pudesse ter ajudado a doninha a ir visitar uma tia distante. Mas, como a natureza não liga muito para os nossos romantismos, o que de fato aconteceu ali foi uma tentativa de ataque de predação feita pela doninha. O fato foi atestado pelo fotógrafo, mas se você ainda tiver dúvidas, preste bem atenção na cara do pica-pau e veja se ele está com cara de quem está sendo solidário.

Apesar de essas aves não fazerem parte da dieta comum de doninhas, esses mamíferos são predadores vorazes e costumam não desistir fácil de suas presas. Eles perseguem, atacam, se enrolam no seu alvo e costumam morder até esmagar a região craniana da vítima. Exímia escaladora, essa doninha da espécie Mustela nivalis resolveu investir contra uma presa bem maior do que ela, o pica-pau Picus viridis, o que certamente foi a causa do insucesso de sua empreitada.

Após a aterrissagem, a doninha entrou em uma região de arbustos e o pica-pau se salvou, conta Le-May. (Os românticos podem dormir em paz).

Algumas postagens tentaram criticar o nome popular dado por alguns veículos de mídia, quando chamaram o mamífero de furão. A verdade é que, apesar de usualmente a espécie Mustela nivalis ser  nomeada como “doninha-anã”, chamar esse animal de furão não é errado. Furões e doninhas são nomenclaturas aplicadas, geralmente, a mamíferos do gênero Mustela como um todo. Existem centenas de referências etimológicas e históricas para atestar isso. Outro exemplo é que o nome “furão”, que é comumente aplicado a Mustela putorius furo (furão doméstico de origem no Velho Mundo), é uma corruptela de “tourão”, nome referente às formas selvagens de Mustela putorius, mas ainda assim é utilizado para designar as espécies do gênero Galictis, que vivem nas Américas.

 

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Mustela nivalis, a doninha “voadora” (Getty Images)

 

Mustela e Galicitis possuem morfologia bastante semelhante (corpo alongado, pernas e pelos curtos e cinco dedos em cada membro, os quais são dotados de garras curvas) e fazem parte da Família Mustelidae.  Nesse mesmo grupo, estão as lontras, ariranhas, iraras e texugos.

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Galictis cuja, um furão sul-americano (Foto: Renato Rizzaro)

 

 

 

 

 

 

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“Carona é uma ova”, diria o pica-pau.

Por hugofernandesbio em Zoologia

03 de Março de 2015

Essa semana, uma foto no mínimo inusitada invadiu a timeline de milhões de pessoas mundo afora. Um pica-pau voando e levando um pequeno mamífero em suas costas, fotografado por Martin Le-May, em um parque de Londres. Acompanhada da imagem, a seguinte manchete: “Doninha pega carona nas costas de um pica-pau”.

 

Woodpecker

“Carona” ingrata (Foto: Martin Le-May)

 

Qual o problema com essa notícia? Só mesmo essa história de “pegar carona”, porque a foto é bem real.

Só que alguns viajaram muito na maionese e começaram a incluir textos sobre amizade no mundo animal, como se o pica-pau boa praça pudesse ter ajudado a doninha a ir visitar uma tia distante. Mas, como a natureza não liga muito para os nossos romantismos, o que de fato aconteceu ali foi uma tentativa de ataque de predação feita pela doninha. O fato foi atestado pelo fotógrafo, mas se você ainda tiver dúvidas, preste bem atenção na cara do pica-pau e veja se ele está com cara de quem está sendo solidário.

Apesar de essas aves não fazerem parte da dieta comum de doninhas, esses mamíferos são predadores vorazes e costumam não desistir fácil de suas presas. Eles perseguem, atacam, se enrolam no seu alvo e costumam morder até esmagar a região craniana da vítima. Exímia escaladora, essa doninha da espécie Mustela nivalis resolveu investir contra uma presa bem maior do que ela, o pica-pau Picus viridis, o que certamente foi a causa do insucesso de sua empreitada.

Após a aterrissagem, a doninha entrou em uma região de arbustos e o pica-pau se salvou, conta Le-May. (Os românticos podem dormir em paz).

Algumas postagens tentaram criticar o nome popular dado por alguns veículos de mídia, quando chamaram o mamífero de furão. A verdade é que, apesar de usualmente a espécie Mustela nivalis ser  nomeada como “doninha-anã”, chamar esse animal de furão não é errado. Furões e doninhas são nomenclaturas aplicadas, geralmente, a mamíferos do gênero Mustela como um todo. Existem centenas de referências etimológicas e históricas para atestar isso. Outro exemplo é que o nome “furão”, que é comumente aplicado a Mustela putorius furo (furão doméstico de origem no Velho Mundo), é uma corruptela de “tourão”, nome referente às formas selvagens de Mustela putorius, mas ainda assim é utilizado para designar as espécies do gênero Galictis, que vivem nas Américas.

 

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Mustela nivalis, a doninha “voadora” (Getty Images)

 

Mustela e Galicitis possuem morfologia bastante semelhante (corpo alongado, pernas e pelos curtos e cinco dedos em cada membro, os quais são dotados de garras curvas) e fazem parte da Família Mustelidae.  Nesse mesmo grupo, estão as lontras, ariranhas, iraras e texugos.

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Galictis cuja, um furão sul-americano (Foto: Renato Rizzaro)