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Tribuna Científica

por Hugo Fernandes-Ferreira

Sem categoria

Pra que exibir uma onça como mascote?

Por hugofernandesbio em Sem categoria

22 de junho de 2016

Mais uma tragédia envolvendo animais em cativeiro. Após a passagem da tocha olímpica por Manaus, Juma, uma onça pintada (Panthera onca) acabou sendo abatida com um tiro. Ela estava sendo exibida no evento e pertencia ao Centro de Instrução de Guerra na Selva(CIGS), sob responsabilidade do Comando Militar da Amazônia (CMA), órgão vinculado ao Exército Brasileiro.

De acordo com a nota emitida pelo Exército, a onça fugiu ao ser encaminhada para uma jaula após a exibição, adentrou uma zona de mata, foi perseguida, encontrada e atingida com um tiro tranquilizante. Os militares afirmam que não houve eficácia nesse método e o animal acabou avançando sobre um dos militares. Para preservar a vida humana, um tiro de pistola foi disparado na cabeça da onça.

Uma vergonha que já está repercutindo internacionalmente, principalmente porque a espécie é símbolo das Olímpiadas, que acontecerão esse ano no Rio de Janeiro. Diante disso, precisamos falar sobre duas coisas. Primeiro, sobre esse caso em específico e depois sobre confinamento de animais silvestres.

Apesar de não termos mais detalhes sobre o ocorrido, uma coisa é certa, se a onça fugiu, alguém errou feio. Estamos falando de um predador, topo de cadeia e que em situações de estresse pode trazer riscos à vida humana. Um evento com fogos e barulho de forma alguma é ambiente propício para um animal silvestre desse porte. Se ela não deveria nem ter saído do seu recinto, o que dizer da falha apresentada em sua condução.

Quanto ao tiro, apesar da polêmica, se de fato havia risco à vida humana infelizmente não houve o que fazer. E eu acredito fortemente que a decisão foi bastante difícil e dolorosa, pois nos parece clara a afeição dos militares pelos seus animais. Mas os questionamentos maiores não estão sobre a necessidade do tiro e sim sobre o que ocorreu antes. Quais foram as sequencias de erros que podem ter acontecido para que fosse necessário chegar nesse ponto? É preciso saber mais detalhes sobre o que aconteceu em sua perseguição. Um tiro de tranquilizante pode, principalmente em um primeiro momento, causar mais estresse no animal e é preciso saber se quem preparou o composto utilizou a dosagem correta e se estavam preparados para esse tipo de acontecimento. Outro ponto é saber se a distância de segurança entre os militares e o animal foi respeitada na hora do tiro. Queremos acreditar que sim, mas para isso precisamos de mais explicações por parte do CMA ou do CIGS.

Essa tragédia se junta ao caso do gorila Harambe do Zoológico de Cincinatti (Estados Unidos) e dos leões abatidos no Chile após um homem ter se jogado na jaula para tentar suicídio, levantando um caloroso debate sobre a necessidade ou não de zoológicos. Antes de mais nada, é preciso afirmar que zoológicos cumprem uma função de extrema importância para a conservação da vida silvestre. Além da atividade óbvia de educação ambiental, programas de reprodução e de estudos genéticos em cativeiro promovem material de valor imensurável para programas de reintrodução e recuperação de fauna na natureza. Além disso, zoológicos são responsáveis por financiamentos de 350 milhões de dólares todos os anos direcionados a projetos de conservação na natureza. Pedir a extinção de zoológicos é fruto de muito romantismo aliado a total desinformação. Obviamente, precisamos discutir a conduta de muitos estabelecimentos, mas isso não justifica a eliminação da atividade.

Entretanto, para o caso da Juma, precisamos debater muito além disso. Apesar do CIGS abrigar um zoológico que mantem animais provenientes de ações contra a caça e do tráfico, muitos sem possibilidade de reintrodução, me pergunto qual é a mensagem de expor um animal vivo na multidão como mascote?

Seria uma mensagem de educação ambiental ou de conservação? Discordo. Para mim, a mensagem é de domínio humano sobre a fauna, claramente ilustrada pela foto de dois onceiros (como são conhecidos os militares que tratam das onças) segurando Juma por uma coleira. Precisamos rever se esse tipo de conduta é de fato interessante. Vejam bem, não estou dizendo que manter essas espécies em cativeiro ou domesticadas é sempre sinal de erro.Nem todo “domínio” é ruim. O Instituto Onça Pintada, coordenado pelo Dr. Leandro Silveira, é um exemplo de instituição que, além de manter pesquisas em campo, também exerce atividades com onças cativas, a maioria órfãs pela caça e faz isso com excelência. O próprio CIGS mantem animais silvestres para fins de proteção e por isso merece elogios, mas é importante que fique por aí. Exibição em público, principalmente nessas condições não me parece adequado. Se for para fazer algo mais, o mais importante seria fornecer meios para que o CIGS possa atuar como provedor de reintrodução dessas espécies.

Espero que esse triste ocorrido possa servir como fator de mudança. Mas ideal também seria se toda essa comoção em torno de um único animal também servisse para mobilizar a sociedade para gritar contra a diminuição de praticamente todas as populações da espécie. Em apenas 30 anos, perdemos 27% de nossas onças. Muitas Jumas, infelizmente, invisíveis.

Abaixo, segue o link de um vídeo onde também explico essas questões.

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Ciência Brasileira inicia 2015 com péssimas notícias

Por hugofernandesbio em Sem categoria

27 de Janeiro de 2015

O ano mal começou e os fatos que circularam nas redes sociais, principalmente nos perfis da classe acadêmica, não foram nenhum pouco animadores quando o assunto é o presente e o futuro da Ciência no Brasil.

Em menos de um mês, fomos arrebatados por manchetes que podem ser divididas entre a triste realidade atual e o pessimismo do que ainda pode estar por vir.

 

Atraso e cancelamento de bolsas de pesquisa

A Coordenação de Aperfeiçoamento Pessoal de Nível Superior (Capes), ligada ao Ministério da Educação (MEC), é o órgão responsável pelo maior número de bolsas de pós-graduação concedidas no país, com orçamento anual de 4,3 bilhões de reais. Tal orçamento já está beirando o vermelho, o que certamente motivou o atraso de milhares de depósitos que deveriam ter sido efetuados nas contas de quem contribui, em maior número, para a produção científica nacional: o estudante de pós-graduação.

Esse cenário foi formado desde novembro do ano passado e somente agora, no fim de janeiro, começou a se estabilizar. Para o trabalhador padrão, com contrato em carteira assinada, fim de ano é época de tormento devido principalmente ao acúmulo de contas a pagar, correto? Imaginem esse tormento para um bolsista que não recebe 13º salário, férias ou qualquer tipo de gratificação, ainda que seja obrigado a fornecer dedicação exclusiva de seu trabalho para garantir o sustento de sua pesquisa, dele próprio e muitas vezes de sua família. Agora, tentem mensurar o quanto esse fato se agrava com um atraso dessa magnitude. O secretário executivo do MEC, Luiz Claudio Costa, informou à Associação Nacional de Estudantes de Pós-Graduação (ANPG) que o atraso se deu por conta de complicações com o fluxo de orçamento do Tesouro Nacional, que estava parado até o dia 08. Ainda não se sabe se a situação foi completamente normalizada.

O panorama é ainda mais grave para 1500 pesquisadores dos Programas de Recursos Humanos da ANP/MCTI da área de petróleo, gás e biocombustível, que realizam pesquisas de ponta no país. Até o momento, não foi apresentada uma previsão orçamentária para manter as bolsas, que podem ser canceladas esse ano, causando problemas financeiros graves aos cientistas e interrompendo pesquisas importantes, um prejuízo imensurável para o avanço científico-tecnológico brasileiro.

 

Suspensão das atividades do Museu Nacional 

Entre os dias 12 e 24 de janeiro, o maior e mais antigo acervo científico do país, o Museu Nacional de História Natural do Rio de Janeiro, esteve de portas fechadas para visitação devido ao não pagamento de empresas terceirizadas que fazem serviço de vigilância e limpeza. Mais uma para a conta do MEC, que não transferiu os repasses, utilizando a mesma desculpa sobre complicações com o Tesouro. Semelhante ao tópico acima, essa notícia não poderia ter vindo em época pior.

O período de férias escolares é responsável pela demanda de mais de 5.000 visitantes por dia. Em um país onde museu não faz parte da rotina turística ou familiar, a suspensão das atividades do maior deles é muito grave. A ponte entre o conhecimento produzido por cientistas e o adquirido pela sociedade tem nos museus um de seus principais alicerces. Pelo que estamos presenciando, esses alicerces estão sendo mantidos com farinha da pior qualidade.

 

Ameaças de setores pesqueiros sobre a lista de animais ameaçados 

Após a publicação da nova lista nacional de animais ameaçados de extinção (por sinal, uma das poucas boas notícias científicas desse período), o Sindicato dos Pescadores de Itajaí, região que abriga uma das maiores produções pesqueiras do país, realizou uma intervenção que impediu a partida de um cruzeiro no porto local, em protesto pela publicação da Portaria do Ministério do Meio Ambiente no 445/2014, que trata especificamente de peixes e invertebrados aquáticos em situação de risco no Brasil.

O presidente do sindicato, Giovani Monteiro, afirma que algumas espécies listadas como ameaçadas, na realidade, seriam abundantes, como por exemplo cações e arraias. Uma afirmação como essa soa quase como piada quando se mostra que tubarões (ressaltando que cação é um nome comercial para filhote de tubarão) e arraias fazem parte do grupo dos Elasmobrânquios, um dos mais ameaçados dentre os vertebrados aquáticos. Entretanto, essa reação por parte do setor pesqueiro já era esperada. Inesperada e descabida é a postura do Ministério do Meio Ambiente em considerar a criação de um grupo de trabalho interno, junto com o Ministério da Pesca e Aquicultura, para analisarem uma possibilidade de revogação da portaria.

A lista de animais ameaçados foi baseada no estudo minucioso de dezenas de pesquisadores renomados e especializados, que, para essa conclusão, utilizaram dados e métodos adequados. Atender essa legislação é essencial, inclusive, para a própria manutenção dos recursos de pesca. Em resposta a essa intervenção, diversas entidades de cunho acadêmico e conservacionista assinaram uma nota de apoio incondicional à portaria publicada.

O Dr. Ronaldo Francini-Filho, professor da Universidade Federal da Paraíba, foi um dos coordenadores científicos da lista de peixes ameaçados e atua há mais de dez anos na elaboração de status de conservação de espécies. O biólogo cita que a lista é um dos maiores avanços para a conservação ambiental no Brasil, mas que, para um melhor aproveitamento nas gestões públicas, foi proposto ao Ministério do Ambiente um diálogo prévio entre os cientistas e os demais setores da sociedade, incluindo a indústria pesqueira e comunidades tradicionais, o que não foi atendido pelo órgão.

“Propor uma reconsideração tardia dessa portaria somente entre os ministérios e sem a participação dos cientistas é um retrocesso” – ressalta Francini-Filho.

 

O novo (e polêmico) cenário político

Ciência no Brasil é mantida majoritariamente por recursos públicos, que são geridos principalmente por dois ministérios, o da Educação (MEC) e o de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), embora a questão científica seja pauta constante em outros prédios da Esplanada, como os que abrigam Meio Ambiente (MMA), Minas e Energia (MME), Sáude (MS), entre outros. Nesse contexto, a escolha da presidente Dilma Roussef quanto aos nomes desses ministérios não agradou nenhum pouco a classe acadêmica.

Cid Gomes (PROS/CE), autor da famosa e fatídica frase “Quem quer dar aula, faz isso por gosto e não pelo salário”, foi nomeado Ministro da Educação. Se sua atuação em relação ao ensino superior no Ministério for semelhante àquela demonstrada enquanto Governador do Estado do Ceará, certamente enfrentaremos alguns percalços. As universidades estaduais (Universidade Estadual do Ceará, Universidade Regional do Cariri e Universidade Estadual do Vale do Acaraú) enfrentam graves problemas estruturais e há passivos trabalhistas pendentes em favor do professorado, o que motivou diversas greves ao longo dos dois mandatos de Gomes. Por sinal, o atual ministro cumpriu sua última gestão estadual enquanto centenas de professores das três universidades ainda estavam de braços cruzados.

Porém, a nomeação mais polêmica, tanto pela dependência direta desse ministério em relação aos investimentos em pesquisa, como pelo histórico do político em questão, foi sem dúvida a de Aldo Rebelo (PCdoB/SP) para o Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação. Estamos falando de um senhor que nega, sem qualquer embasamento, a existência do aquecimento global, uma realidade atestada por milhares de cientistas sérios e negada por meia dúzia de pesquisadores que não dominam o assunto, mas que motivam milhares de leigos (muitas vezes, sem um pingo de seriedade) a militarem contra um fato. Como se não bastasse, ele foi o principal nome da última votação e aprovação do Novo Código Florestal, que enfraqueceu a proteção, que já era pífia, do meio ambiente brasileiro. O projeto foi veementemente reprovado por centenas entidades científicas, inclusive as mais importantes do Brasil e do exterior. Ou seja, ele não acredita na Ciência. Ademais, Rebelo já elaborou projeto de lei que visava proibir inovação tecnológica poupadora de mão-de-obra. Ou seja, pelo visto, ele também não acredita na Tecnologia e Inovação. Assim, fica difícil digerir.

 

Essas notícias ainda vem amargamente acompanhadas pelo pacote de contenção de gastos anunciados pelo Governo Federal, que atingem majoritariamente o Ministério da Educação. Se esse blog não fosse científico, torceria para que a Ciência no Brasil estivesse passando apenas por um “inferno astral”, o que seria muito bom já que, pelo que me falaram, trata-se de algo passageiro. Mas como os preceitos aqui são outros, o que podemos concluir é que a perspectiva para o resto do ano (ou até mais), infelizmente, não é das melhores.

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Ciência Brasileira inicia 2015 com péssimas notícias

Por hugofernandesbio em Sem categoria

27 de Janeiro de 2015

O ano mal começou e os fatos que circularam nas redes sociais, principalmente nos perfis da classe acadêmica, não foram nenhum pouco animadores quando o assunto é o presente e o futuro da Ciência no Brasil.

Em menos de um mês, fomos arrebatados por manchetes que podem ser divididas entre a triste realidade atual e o pessimismo do que ainda pode estar por vir.

 

Atraso e cancelamento de bolsas de pesquisa

A Coordenação de Aperfeiçoamento Pessoal de Nível Superior (Capes), ligada ao Ministério da Educação (MEC), é o órgão responsável pelo maior número de bolsas de pós-graduação concedidas no país, com orçamento anual de 4,3 bilhões de reais. Tal orçamento já está beirando o vermelho, o que certamente motivou o atraso de milhares de depósitos que deveriam ter sido efetuados nas contas de quem contribui, em maior número, para a produção científica nacional: o estudante de pós-graduação.

Esse cenário foi formado desde novembro do ano passado e somente agora, no fim de janeiro, começou a se estabilizar. Para o trabalhador padrão, com contrato em carteira assinada, fim de ano é época de tormento devido principalmente ao acúmulo de contas a pagar, correto? Imaginem esse tormento para um bolsista que não recebe 13º salário, férias ou qualquer tipo de gratificação, ainda que seja obrigado a fornecer dedicação exclusiva de seu trabalho para garantir o sustento de sua pesquisa, dele próprio e muitas vezes de sua família. Agora, tentem mensurar o quanto esse fato se agrava com um atraso dessa magnitude. O secretário executivo do MEC, Luiz Claudio Costa, informou à Associação Nacional de Estudantes de Pós-Graduação (ANPG) que o atraso se deu por conta de complicações com o fluxo de orçamento do Tesouro Nacional, que estava parado até o dia 08. Ainda não se sabe se a situação foi completamente normalizada.

O panorama é ainda mais grave para 1500 pesquisadores dos Programas de Recursos Humanos da ANP/MCTI da área de petróleo, gás e biocombustível, que realizam pesquisas de ponta no país. Até o momento, não foi apresentada uma previsão orçamentária para manter as bolsas, que podem ser canceladas esse ano, causando problemas financeiros graves aos cientistas e interrompendo pesquisas importantes, um prejuízo imensurável para o avanço científico-tecnológico brasileiro.

 

Suspensão das atividades do Museu Nacional 

Entre os dias 12 e 24 de janeiro, o maior e mais antigo acervo científico do país, o Museu Nacional de História Natural do Rio de Janeiro, esteve de portas fechadas para visitação devido ao não pagamento de empresas terceirizadas que fazem serviço de vigilância e limpeza. Mais uma para a conta do MEC, que não transferiu os repasses, utilizando a mesma desculpa sobre complicações com o Tesouro. Semelhante ao tópico acima, essa notícia não poderia ter vindo em época pior.

O período de férias escolares é responsável pela demanda de mais de 5.000 visitantes por dia. Em um país onde museu não faz parte da rotina turística ou familiar, a suspensão das atividades do maior deles é muito grave. A ponte entre o conhecimento produzido por cientistas e o adquirido pela sociedade tem nos museus um de seus principais alicerces. Pelo que estamos presenciando, esses alicerces estão sendo mantidos com farinha da pior qualidade.

 

Ameaças de setores pesqueiros sobre a lista de animais ameaçados 

Após a publicação da nova lista nacional de animais ameaçados de extinção (por sinal, uma das poucas boas notícias científicas desse período), o Sindicato dos Pescadores de Itajaí, região que abriga uma das maiores produções pesqueiras do país, realizou uma intervenção que impediu a partida de um cruzeiro no porto local, em protesto pela publicação da Portaria do Ministério do Meio Ambiente no 445/2014, que trata especificamente de peixes e invertebrados aquáticos em situação de risco no Brasil.

O presidente do sindicato, Giovani Monteiro, afirma que algumas espécies listadas como ameaçadas, na realidade, seriam abundantes, como por exemplo cações e arraias. Uma afirmação como essa soa quase como piada quando se mostra que tubarões (ressaltando que cação é um nome comercial para filhote de tubarão) e arraias fazem parte do grupo dos Elasmobrânquios, um dos mais ameaçados dentre os vertebrados aquáticos. Entretanto, essa reação por parte do setor pesqueiro já era esperada. Inesperada e descabida é a postura do Ministério do Meio Ambiente em considerar a criação de um grupo de trabalho interno, junto com o Ministério da Pesca e Aquicultura, para analisarem uma possibilidade de revogação da portaria.

A lista de animais ameaçados foi baseada no estudo minucioso de dezenas de pesquisadores renomados e especializados, que, para essa conclusão, utilizaram dados e métodos adequados. Atender essa legislação é essencial, inclusive, para a própria manutenção dos recursos de pesca. Em resposta a essa intervenção, diversas entidades de cunho acadêmico e conservacionista assinaram uma nota de apoio incondicional à portaria publicada.

O Dr. Ronaldo Francini-Filho, professor da Universidade Federal da Paraíba, foi um dos coordenadores científicos da lista de peixes ameaçados e atua há mais de dez anos na elaboração de status de conservação de espécies. O biólogo cita que a lista é um dos maiores avanços para a conservação ambiental no Brasil, mas que, para um melhor aproveitamento nas gestões públicas, foi proposto ao Ministério do Ambiente um diálogo prévio entre os cientistas e os demais setores da sociedade, incluindo a indústria pesqueira e comunidades tradicionais, o que não foi atendido pelo órgão.

“Propor uma reconsideração tardia dessa portaria somente entre os ministérios e sem a participação dos cientistas é um retrocesso” – ressalta Francini-Filho.

 

O novo (e polêmico) cenário político

Ciência no Brasil é mantida majoritariamente por recursos públicos, que são geridos principalmente por dois ministérios, o da Educação (MEC) e o de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), embora a questão científica seja pauta constante em outros prédios da Esplanada, como os que abrigam Meio Ambiente (MMA), Minas e Energia (MME), Sáude (MS), entre outros. Nesse contexto, a escolha da presidente Dilma Roussef quanto aos nomes desses ministérios não agradou nenhum pouco a classe acadêmica.

Cid Gomes (PROS/CE), autor da famosa e fatídica frase “Quem quer dar aula, faz isso por gosto e não pelo salário”, foi nomeado Ministro da Educação. Se sua atuação em relação ao ensino superior no Ministério for semelhante àquela demonstrada enquanto Governador do Estado do Ceará, certamente enfrentaremos alguns percalços. As universidades estaduais (Universidade Estadual do Ceará, Universidade Regional do Cariri e Universidade Estadual do Vale do Acaraú) enfrentam graves problemas estruturais e há passivos trabalhistas pendentes em favor do professorado, o que motivou diversas greves ao longo dos dois mandatos de Gomes. Por sinal, o atual ministro cumpriu sua última gestão estadual enquanto centenas de professores das três universidades ainda estavam de braços cruzados.

Porém, a nomeação mais polêmica, tanto pela dependência direta desse ministério em relação aos investimentos em pesquisa, como pelo histórico do político em questão, foi sem dúvida a de Aldo Rebelo (PCdoB/SP) para o Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação. Estamos falando de um senhor que nega, sem qualquer embasamento, a existência do aquecimento global, uma realidade atestada por milhares de cientistas sérios e negada por meia dúzia de pesquisadores que não dominam o assunto, mas que motivam milhares de leigos (muitas vezes, sem um pingo de seriedade) a militarem contra um fato. Como se não bastasse, ele foi o principal nome da última votação e aprovação do Novo Código Florestal, que enfraqueceu a proteção, que já era pífia, do meio ambiente brasileiro. O projeto foi veementemente reprovado por centenas entidades científicas, inclusive as mais importantes do Brasil e do exterior. Ou seja, ele não acredita na Ciência. Ademais, Rebelo já elaborou projeto de lei que visava proibir inovação tecnológica poupadora de mão-de-obra. Ou seja, pelo visto, ele também não acredita na Tecnologia e Inovação. Assim, fica difícil digerir.

 

Essas notícias ainda vem amargamente acompanhadas pelo pacote de contenção de gastos anunciados pelo Governo Federal, que atingem majoritariamente o Ministério da Educação. Se esse blog não fosse científico, torceria para que a Ciência no Brasil estivesse passando apenas por um “inferno astral”, o que seria muito bom já que, pelo que me falaram, trata-se de algo passageiro. Mas como os preceitos aqui são outros, o que podemos concluir é que a perspectiva para o resto do ano (ou até mais), infelizmente, não é das melhores.