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Tribuna Científica

por Hugo Fernandes-Ferreira

Perfis

Professor cearense estreia programa sobre Evolução direto da Austrália

Por hugofernandesbio em Perfis

27 de setembro de 2015

Um dos professores mais conhecidos dos cursos de pré-vestibular de Fortaleza nas décadas de 90 e 2000, o cearense Gerardo Furtado atualmente mora na Austrália e encara um novo desafio, a estreia de um programa na internet voltado para o ensino de Evolução. Ligado ao Canal Zoa, veículo recente de divulgação científica do qual parte da programação é exibida pela TV Jangadeiro (SBT – Ceará), o Evoluzoa tem a proposta de adequar a linguagem sobre um assunto ainda muito distante do cotidiano público e cheio de polêmicas. Esse é o terceiro espaço de divulgação científica encabeçado pelo professor, que coordena o blog www.biologiaevolutiva.wordpress.com e é autor do livro “Lições sobre 7 conceitos fundamentais da Biologia Evolutiva”, pela editora da UnB. Confira a entrevista.

gerardo

Professor, escritor, blogueiro e apresentador, Gerardo Furtado é um exímio divulgador científico.

Tribuna Científica: Como você se tornou professor de Biologia?

Gerardo Furtado: Desde criança, eu sempre me interessei por ciências. Nos domingos pela manhã, acordava para ver as corridas de Fórmula 1, mas, além das corridas, o que mais me interessava nesse dia era a série “Cosmos”, de Carl Sagan. Isso foi em 1982. Logo depois disso, comecei a me interessar por programação, ali por volta de 86, uma época em que quase todo usuário de computador era também um programador, e por muito pouco eu não tomei esse caminho. O que ocorreu é que eu tive alguns bons professores de biologia e é impressionante como um bom professor pode despertar o interesse e a curiosidade nos alunos. Por causa desses professores eu me enveredei por esse rumo.

TC: E foi a chance de despertar interesses que te levou a ser professor?

GF: Sim e não, porque foi algo acidental. Curiosamente, foi um desses meus professores de biologia do Ensino Médio (que naquela época era chamado de segundo grau), em grande medida o responsável pelo meu interesse em Biologia, que me convidou para dar algumas aulas. Comecei dando duas aulas por semana e na semana seguinte já estava dando seis, depois dez. Não sei exatamente o que aconteceu, mas em um ou dois meses eu já estava com todos os horários preenchidos.

TC: Então você era disputado por muitas escolas e cursinhos do Ceará? Como foi esse período? E o que fez você sair?

GF: Eu não era propriamente “disputado”, porque nessa época ainda era valorizada a figura do professor de cursinho como um animador de torcida, coisa que eu nunca fui. Mas não posso negar que foi uma época na qual havia muito trabalho disponível. Lembro que cheguei a dar aulas semanais em três estados diferentes, viajava uns bons mil quilômetros por semana. Parei de dar aulas quando me mudei para a Nova Zelândia. Voltei ao Brasil para morar em Florianópolis, cidade que eu adoro e que me é muito querida, e lá lecionei por mais três anos, antes de me mudar para a Austrália.

TC: E, em relação à época em que você era professor, como você enxerga o sistema de ensino particular no Ceará?

GF: Eu prefiro não falar do Ceará, mas do Brasil de forma geral, e não apenas do ensino particular. O que eu vou falar não é nada novo, muita gente tem a mesma opinião: no Brasil o sistema de avaliação para a universidade (vestibular, ENEM ou o que seja) determina o que o aluno tem que aprender na escola, e não o contrário. Além disso, penso que 80% ou até mais do que é ensinado em biologia, química, matemática é quase completamente desnecessário para os adolescentes. Eu já ensinei, por exemplo, que o esclerênquima se diferencia do colênquima porque tem parede secundária, que a mesoderme dos deuterostomados é formada por enterocelia, ou que o pareamento cromossomial na meiose ocorre no zigóteno… Agora me diga: qual a importância disso para quem vai ser piloto de avião, cozinheiro, engenheiro, fotógrafo, advogado ou encanador? Melhor ainda, qual a importância disso para a formação de um cidadão? Quem estiver lendo essa entrevista lembra-se de alguma dessas coisas, e se lembrar, que importância elas tiveram? Em minha opinião, não é para isso que serve a escola. A escola deveria ser um lugar onde a curiosidade e o pensamento científico são estimulados, mas ao invés disso a escola praticamente os mata, os sufoca. Esse monte de informações que são ensinadas hoje poderiam ser transferidas para a universidade, ou tornados facultativos, como ocorre em vários outros países.

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TC: Então você acha que poderíamos usar o tempo em sala de aula para abordar outros assuntos?

GF: Com certeza. Em Biologia, por exemplo, a maior parte do currículo deveria ser voltada para explicar o método científico e, em relação a um tópico mais específico, em explicar a Biologia Evolutiva, que por si só permeia todos os ramos da Biologia.

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TC: Foi com esse interesse em vista que você lançou um livro sobre Evolução? Quais foram as motivações?

GF: Na verdade eu escrevi o livro em 2009, para comemorar o bicentenário de Darwin, e pretendia publicá-lo naquele ano. Mas eu fui muito ingênuo ao achar que um livro pode ser publicado em um intervalo tão curto. Só para você ter uma ideia, logo depois de ter concluído meu livro comecei a escrever no meu blog, onde eu pudesse escrever coisas que resolvi deixar de fora da obra. Mas, de lá para cá, o blog já tem umas dez vezes mais texto que o livro!  Enfim, eis 2015 e eu estou muito feliz por ele ter sido finalmente publicado. Minhas motivações? Vou ter que ser sincero: pena. Pena pela forma lastimável com que boa parte dos livros didáticos tratava a biologia evolutiva. Os conceitos e a abordagem eram tão ultrapassados que mais pareciam ter saído de um livro dos fins do século XIX. Os livros de química, de física, de matemática, quase todas as outras matérias, eram atualizados, bem melhores, com uma abordagem muito mais moderna. Por que não os de biologia, e em especial a biologia evolutiva? Minha motivação foi dar minha contribuição para mudar, pouco que seja, essa situação.

TC: E sobre seu programa, encarar uma câmera e o Youtube é muito diferente que encarar uma sala lotada? Qual sua expectativa sobre isso?

GF: Encarar uma sala lotada é muito mais fácil, porque é uma coisa com a qual eu já era acostumado. Meu recorde foi uma aula para umas 5 mil pessoas, num ginásio. Nunca fiquei nervoso, estava no meu ambiente natural. No Youtube, porém, a coisa é diferente, tenho que aprender a ajustar a exposição, o balanço de branco, o microfone, o enquadramento. Coisas com as quais eu nunca tive familiaridade. E tem sido bem difícil, porque aqui onde eu moro, que só chove, a luz varia entre “muito ruim” a “terrivelmente ruim”! Mas com o tempo, quem sabe lá pelo décimo episódio, eu aprendo.

TC: Você foi influenciado por grandes divulgadores como Carl Sagan e David Attenborough. Você acha que o legado deles tem sido bem difundido? Como você encara o padrão de divulgação científica atual?

GF: Sim, com certeza. Attenborough é meu herói pessoal, e eu tive o prazer de vê-lo pessoalmente (mesmo que a partir da vigésima fileira de um auditório)! Sagan, Dawkins, Gould, Feynman, Nye, Hawking, uns mais famosos, outros menos, são sempre bem vistos pela audiência, mesmo que a mídia não lhes dê muito espaço. O novo “Cosmos”, de deGrasse Tyson, é muito bom! Além disso, o Youtube é um meio cujo impacto em nossas vidas aumenta dia após dia. O que o comandante Hadfield fez para atrair o interesse das pessoas pelo espaço e pela ciência em geral usando o Youtube e o Tumblr é impagável, simplesmente fantástico. E há muitos canais interessantes de ciências no youtube, acessíveis a qualquer um e a qualquer hora, como o “Smarter every Day”, “Veritasium”, “In a nutshell – Kurzgesagt”… Ah, e o “Zoa”, é claro!

Inicialmente com frequência quinzenal, o Evoluzoa é gravado na Australia, mas é editado e divulgado no Brasil. O programa estreia hoje e já pode ser conferido aqui. O livro, que também possui linguagem adaptada ao público leigo, está disponível para vendas pelo site http://www.editora.unb.br/lstDetalhaProduto.aspx?pid=746.

 

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Cearense de Harvard cria aparelho que emite luz para aliviar a dor

Por hugofernandesbio em Perfis

17 de junho de 2015

Luzes podem aliviar dores e inflamações? Sim e, por mais estranho que pareça em princípio, isso não tem nada de esotérico ou sobrenatural. Isso é Ciência avançada. Mais especificamente, Física Médica.

Essa é a especialidade do cearense Marcelo Sousa, físico formado pela Universidade Federal do Ceará. Durante seu período de graduação, concluído aos 20 anos, ele não sabia o que ia fazer com tanta teoria e pouca prática. Até que resolveu abandonar um posto de professor substituto naquela mesma universidade e seguir para o Mestrado na Universidade de São Paulo, porque viu na física aplicada à medicina um caminho fascinante para finalmente ver seus estudos de forma materializada. Foi também na USP onde o cientista iniciou seu Doutorado, onde parte dele foi cursada na prestigiada Universidade de Harvard, em Cambridge, Estados Unidos.

“Sou cearense e isso define muito minha vida. O local onde nasci e cresci tem uma influência muito forte na minha história.”

Mas como a luz pode aliviar a dor? O processo é complexo, mas o princípio é relativamente simples. Essas luzes especiais atravessam os tecidos biológicos até serem absorvidas no interior dos neurônios pelas mitocôndrias. Nesse local, a luz otimiza o Ciclo de Krebs, responsável pela nossa produção metabólica, o que acaba aumentando a produção de ATP (trifosfato de adenosina, ou seja, energia). Quanto maior a energia, maior será a facilidade da célula liberar anestésicos endógenos, tais como endorfina, serotonina e marcadores anti-inflamatórios. E isso tudo em qualquer efeito colateral. Para isso, os cientistas desenvolveram um aparelho chamado Light Aid.

marcelo3

Dr. Marcelo Sousa, físico e cearense acima de tudo. (Foto: Arthur Plaza)

Marcelo é um cientista como poucos, desses que vão além dos muros acadêmicos. Ele próprio é o responsável por tornar sua área de conhecimento uma fonte de renda de grande potencial. Ele fundou a Bright Photomedicine, uma startup que está lançando o Light Aid como peça principal para o desenvolvimento de seus negócios. Ainda em fase de testes, a atividade por enquanto consiste em oferecer o aparelho para aluguel, pelo valor de R$ 2.000,00, para médicos e terapeutas. Esse aparelho é controlado por um aplicativo de smartphone e a previsão é que ele seja lançado em larga escala no mercado em 2017 com preços mais acessíveis. Na última semana, Marcelo e seus sócios venceram um prêmio da StartupFarm, uma das principais aceleradoras de startups do país, além de estarem começando a trilhar conquistas internacionais.

O físico não pensa em parar por aí. Ele quer alçar voos mais altos. Seu maior sonho é fundar o Ceará Institute of Technology, um centro de referência mundial, uma espécie de MIT alencarino para aproveitar os inúmeros talentos que nascem em solo cearense e que acabam sendo aproveitados fora do estado. Alguém duvida?

Marcelo enfrentou muita resistência, inclusive do próprio colégio, quando optou pela Física, quando suas notas no vestibular certamente o colocariam dentro de cursos mais “tradicionais”, como Medicina, Direito ou Engenharia. Quem tem esse potencial, enfrenta essas barreiras desde novo e ainda por cima vê em suas raízes o objeto de seu foco no futuro, sem dúvida alguma alcançará esse sucesso. E o prêmio maior, com certeza, será para o Ceará.

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Cearense de Harvard cria aparelho que emite luz para aliviar a dor

Por hugofernandesbio em Perfis

17 de junho de 2015

Luzes podem aliviar dores e inflamações? Sim e, por mais estranho que pareça em princípio, isso não tem nada de esotérico ou sobrenatural. Isso é Ciência avançada. Mais especificamente, Física Médica.

Essa é a especialidade do cearense Marcelo Sousa, físico formado pela Universidade Federal do Ceará. Durante seu período de graduação, concluído aos 20 anos, ele não sabia o que ia fazer com tanta teoria e pouca prática. Até que resolveu abandonar um posto de professor substituto naquela mesma universidade e seguir para o Mestrado na Universidade de São Paulo, porque viu na física aplicada à medicina um caminho fascinante para finalmente ver seus estudos de forma materializada. Foi também na USP onde o cientista iniciou seu Doutorado, onde parte dele foi cursada na prestigiada Universidade de Harvard, em Cambridge, Estados Unidos.

“Sou cearense e isso define muito minha vida. O local onde nasci e cresci tem uma influência muito forte na minha história.”

Mas como a luz pode aliviar a dor? O processo é complexo, mas o princípio é relativamente simples. Essas luzes especiais atravessam os tecidos biológicos até serem absorvidas no interior dos neurônios pelas mitocôndrias. Nesse local, a luz otimiza o Ciclo de Krebs, responsável pela nossa produção metabólica, o que acaba aumentando a produção de ATP (trifosfato de adenosina, ou seja, energia). Quanto maior a energia, maior será a facilidade da célula liberar anestésicos endógenos, tais como endorfina, serotonina e marcadores anti-inflamatórios. E isso tudo em qualquer efeito colateral. Para isso, os cientistas desenvolveram um aparelho chamado Light Aid.

marcelo3

Dr. Marcelo Sousa, físico e cearense acima de tudo. (Foto: Arthur Plaza)

Marcelo é um cientista como poucos, desses que vão além dos muros acadêmicos. Ele próprio é o responsável por tornar sua área de conhecimento uma fonte de renda de grande potencial. Ele fundou a Bright Photomedicine, uma startup que está lançando o Light Aid como peça principal para o desenvolvimento de seus negócios. Ainda em fase de testes, a atividade por enquanto consiste em oferecer o aparelho para aluguel, pelo valor de R$ 2.000,00, para médicos e terapeutas. Esse aparelho é controlado por um aplicativo de smartphone e a previsão é que ele seja lançado em larga escala no mercado em 2017 com preços mais acessíveis. Na última semana, Marcelo e seus sócios venceram um prêmio da StartupFarm, uma das principais aceleradoras de startups do país, além de estarem começando a trilhar conquistas internacionais.

O físico não pensa em parar por aí. Ele quer alçar voos mais altos. Seu maior sonho é fundar o Ceará Institute of Technology, um centro de referência mundial, uma espécie de MIT alencarino para aproveitar os inúmeros talentos que nascem em solo cearense e que acabam sendo aproveitados fora do estado. Alguém duvida?

Marcelo enfrentou muita resistência, inclusive do próprio colégio, quando optou pela Física, quando suas notas no vestibular certamente o colocariam dentro de cursos mais “tradicionais”, como Medicina, Direito ou Engenharia. Quem tem esse potencial, enfrenta essas barreiras desde novo e ainda por cima vê em suas raízes o objeto de seu foco no futuro, sem dúvida alguma alcançará esse sucesso. E o prêmio maior, com certeza, será para o Ceará.