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Tribuna Científica

por Hugo Fernandes-Ferreira

Vaquejada: dois lados emocionais de uma polêmica

Por hugofernandesbio em Ciência e Cinema

03 de novembro de 2016

Manifestação cultural ou maus tratos a animais?

Nas últimas semanas, o Brasil tem acompanhado uma forte polêmica em torno da prática da vaquejada. O Superior Tribunal Federal, em uma decisão apertada no dia 06 de outubro, tomou como inconstitucional a prática da atividade. Em paralelo, o Senado aprovou ontem uma Lei que tornaria o esporte como patrimônio cultural e imaterial do país. Como toda boa polêmica, principalmente nesse nosso atual contexto social, o que não faltam são injúrias, discussões e achismos passionais entre os que condenam e os que defendem a vaquejada. Se há um equilíbrio nessa história, está na quantidade de trocas carinhosas entre os grupos. O que se vê de resto é desequilíbrio, justamente porque esse assunto mexe com o emocional das pessoas de uma forma bem distinta. De um lado, o amor pelos animais. Do outro, questões culturais fortemente arraigadas em toda uma região.

Por falar em cultura, comecemos por essa primeira parte da polêmica. Parte dos grupos contrários à vaquejada afirma veemente que a atividade não é manifestação cultural. Erro crasso. Claro que é cultura. É um direito discordar da existência da prática e achá-la absurda (se você é contra, leu até aqui e está p*** comigo, espere mais um pouquinho), mas ninguém pode dizer que ela não é cultural. Na Caatinga, o gado é majoritariamente criado solto. Para dizer quem é o boi de quem em determinadas épocas do ano, eram organizadas as festas de apartação ainda no século XVII, onde os vaqueiros de cada fazenda dominavam o manejo do gado errante para seus respectivos terrenos. Os animais mais bravios que acabavam fugindo mata seca adentro exigiam a captura de profissionais de extrema perícia, que os derrubavam pela cauda. Esses vaqueiros eram muito bem recompensados e ganhavam status regional, o que motivou o aproveitamento dessa atividade em eventos esportivos. Se pudéssemos (não podemos, só para constar) medir cultura por tempo, a vaquejada seria “mais cultural” que o frevo, que possui pouco mais de 100 anos ou até mesmo que o boi-bumbá, surgido no século XVIII.

O fato de ser uma reconhecida manifestação cultural diminui o poder de crítica acerca dos maus tratos sobre os animais? Não. Essa também é uma resposta muito simples. Em nota, o Conselho Federal de Medicina Veterinária se posiciona de modo contrário à vaquejada. O órgão afirma que o esporte pode causar “luxação das vértebras, ruptura de ligamentos e de vasos sanguíneos, estabelecendo lesões traumáticas com o comprometimento, inclusive, da medula espinhal”. Como contra-argumento, os defensores da atividade apontam o uso do rabo artifical, um protetor de cauda que, embora esteja longe de ser amplamente utilizado em todos os eventos, sobretudo nos mais modestos, vem ganhando obrigatoriedade em torneios de médio e grande porte. De fato, o instrumento diminui os riscos do principal tipo de lesão, que é o desenluvamento da base da cauda, mas ainda não há alternativas que evitem por completo patas quebradas, exostoses, miopatias e injúrias internas.

Quanto a esses fatores, o lobby pró-vaquejada (diga-se de passagem, muito forte no Congresso por conta da Bancada Ruralista) afirma que, atualmente, os eventos contam com plantão veterinário, os animais participam de menos corridas do que antes e os casos de injúrias vem caindo constantemente. Há quem se apegue inclusive ao voto do Ministro do STF Luis Roberto Barroso, que sugere a proibição “quando for impossível sua regulamentação de modo suficiente para evitar práticas cruéis”. A questão é que isso é muito subjetivo. Para os grupos de proteção animal, submeter o gado ao estresse já é maus tratos e portanto esses argumentos não seriam válidos, mas se isso for levado à risca, todo o processo de criação pecuária teria de ser proibido. Embora esse seja o sonho de boa parte dos ativistas, sabemos bem que isso traria consequências econômicas e sociais bastante graves. O balaio é muito complicado.

Existem ainda os defensores que pontuam o caráter de exceção da proibição da vaquejada em relação a outros esportes de mesmo teor. De fato, os argumentos utilizados para tal encaixariam-se perfeitamente para proibir o rodeio, a gineteada sulista, provas de laço e outras atividades envolvendo animais. Proibir somente a vaquejada pode parecer inicialmente um ato com tons xenofóbicos em relação ao Nordeste brasileiro, mas é válido ressaltar que a decisão partiu por conta da análise de uma lei cearense, que transforma o esporte em patrimônio cultural e imaterial do estado. Foi essa a Lei, e portanto a interpretação para outras esferas do país, que foi julgada como inconstitucional. Paradoxalmente, o início da proibição se deu através de uma lei pró-vaquejada.

Na última semana, centenas de pessoas acamparam em Brasília pedindo a mudança da decisão do STF, imbuídas principalmente de argumentos econômicos. A Associação Brasileira de Vaquejadas estima que os eventos movimentam mais de 700 milhões de reais, gerando cerca de 750 mil empregos diretos e indiretos. Cidades como Alto Sereno – BA e Itapebussu – CE tem suas economias fortemente dependentes da atividade. Em um cenário de crise na região mais pobre do país, é de grande importância levar isso em consideração.

Diante de tantas variáveis, o que decidir? Que princípios éticos seguir? O da proteção animal incondicional? O do direito a manifestações culturais? O da estabilidade econômica de municípios pobres? São escolhas que dependem muito do contexto social de cada grupo e que certamente ainda terão muitos fatores a serem discutidos. Particularmente, eu não compactuo com a ideia de que a minha diversão possa ser dependente de qualquer sofrimento animal, apesar de compreender as questões evolutivas associadas a isso. Entretanto, pela existência de fatores sociais tão complexos, vejo com bons olhos a possibilidade de regulações cada vez mais restritas e que caminhem para uma extinção mais gradual do que abrupta, para que impactos econômicos e culturais não sejam sofridos de forma tão drástica. De todo modo, é preciso entender que culturas evoluem e, pelo andar da carruagem, essa carruagem muito em breve não será puxada por bois.

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Lagarto cearense e duas espécies de tatu são descobertas no Brasil

Por hugofernandesbio em Zoologia

03 de outubro de 2016

Muita gente imagina que já conhecemos todos os representantes da nossa fauna. Ledo engano. Anualmente, centenas de novas espécies são descobertas por biólogos em todo o mundo e o que falta para ser descoberto está na ordem de milhões. E o Brasil, apesar de abrigar a maior biodiversidade do planeta, já estudada há séculos, ainda está muito longe de ter toda sua fauna completamente revelada.

Essa lacuna está concentrada principalmente nos grupos de invertebrados terrestres e marinhos. O que até mesmo a maioria dos biólogos desconhece é que mamíferos de médio e grande porte, considerado um grupo bastante conhecido, ainda guardam representantes que ainda não foram desvendados.

É o que demonstram os trabalhos do biólogo paraibano Anderson Feijó, doutorando em Zoologia pela Universidade Federal da Paraíba. Ele já havia publicado, em 2013, a descrição de uma nova espécie de porco-espinho (Coendou baturitensis) e outra de cutia (Dasyprocta iacki), junto com o renomado Dr. Alfredo Langguth. Dessa vez, acaba de lançar em conjunto com o também biólogo e professor da UFPB, Dr. Pedro Cordeiro-Estrela, um artigo na revista Zootaxa, reconhecendo duas espécies de tatu para a região amazônica, Dasypus pastasae e Dasypus beniensis.

kappleri

Tatu-de-quinze quilos (Foto: Vicent Rufray / Biotope)

Você acha que essa constatação foi realizada no meio da mata? Nada disso. Ambas as espécies eram anteriormente conhecidas como Dasypus kappleri, um tatu de médio porte, chamado popularmente de “quinze-quilos” (massa aproximada do animal) e relativamente comum na Amazônia. Feijó analisou dezenas de exemplares depositados em coleções científicas do Brasil, Colômbia, Venezuela, Equador, Peru e Estados Unidos e encontrou diferenças morfológicas responsáveis por separar o que era uma única espécie em três. Dasypus kappleri agora está localizada apenas ao norte do Rio Amazonas até a região das Guianas. Ao sul, está Dasypus beniensis. Já Dasypus pastasae ocorre ao leste da Amazônia, entre Venezuela e Bolívia. As três são quase idênticas e as duas últimas já foram consideradas subespécies de D. kappleri, mas podem ser diferenciadas através de características do crânio, casco e cauda.

Distribuição das esp

Distribuição das espécies de tatus-de-quinze-quilos (Fonte: Feijó & Cordeiro-Estrela 2016)

Na edição anterior da mesma revista, os professores doutores Diva Borges-Nojosa, da Universidade Federal do Ceará; Ulisses Caramaschi, do Museu Nacional de História Natural do Rio de Janeiro e Miguel Trefaut Rodrigues, da Universidade de São Paulo, também revelaram para a Ciência uma nova espécie de lagarto, batizada de Placosoma limaverdorum, em homenagem ao professor aposentado pela UFC, Dr. José Santiago Lima-Verde e ao agrônomo Wilson Lima-Verde, proprietário do terreno onde o holótipo (exemplar que representa oficialmente uma espécie) foi coletado.

limaverdorum

Nova espécie de lagarto cearense (Foto: Diva Borges-Nojosa)

Na década de 90, Borges-Nojosa já havia coletado indivíduos dessa espécie na Serra de Baturité, Ceará, distante pelo menos 1700 km ao norte da distribuição original das outras populações do gênero Placosoma. Na época, a bióloga já havia notado algumas diferenças em relação às outras espécies conhecidas, mas aguardou novas evidências para comprovar. Agora, depois de coletas em outras regiões do estado e de análises morfológicas complexas comparadas com outros representantes do grupo, os pesquisadores finalmente atestaram que essas populações do Ceará representam uma única espécie, localizada até o momento apenas nas Serras de Baturité, Maranguape e Pacatuba. Chamadas de brejos de altitude, essas serras são cenários conhecidos mundialmente por abrigarem espécies endêmicas, ou seja, que só existem lá, como os anfíbios Adelophryne maranguapensis e Adelophryne baturitensis, o periquito da cara-suja Pyrrhura griseipectus e o lagarto Leposoma baturitensis.

Além da excelente notícia em sabermos que nossa lista de fauna é crescente, essas descobertas são muito mais do que isso. Perceber de que forma esses animais se distribuem no mapa hoje é fundamental para entender os processos de evolução e dispersão das espécies ao longo de milhares de anos. Quando ocorreu a separação das populações do ancestral comum? Quem foram esses ancestrais? O que pode ter motivado essa separação? Terá sido um rio? Um evento climático? Uma longa migração e isolamento? Além disso, identificar essas diferenças morfológicas e moleculares das espécies pode nos dar a resposta para inúmeras relações ecológicas. Esse padrão de interdisciplinaridade, sem dúvida, é uma das maiores belezas da Biologia.

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Pra que exibir uma onça como mascote?

Por hugofernandesbio em Sem categoria

22 de junho de 2016

Mais uma tragédia envolvendo animais em cativeiro. Após a passagem da tocha olímpica por Manaus, Juma, uma onça pintada (Panthera onca) acabou sendo abatida com um tiro. Ela estava sendo exibida no evento e pertencia ao Centro de Instrução de Guerra na Selva(CIGS), sob responsabilidade do Comando Militar da Amazônia (CMA), órgão vinculado ao Exército Brasileiro.

De acordo com a nota emitida pelo Exército, a onça fugiu ao ser encaminhada para uma jaula após a exibição, adentrou uma zona de mata, foi perseguida, encontrada e atingida com um tiro tranquilizante. Os militares afirmam que não houve eficácia nesse método e o animal acabou avançando sobre um dos militares. Para preservar a vida humana, um tiro de pistola foi disparado na cabeça da onça.

Uma vergonha que já está repercutindo internacionalmente, principalmente porque a espécie é símbolo das Olímpiadas, que acontecerão esse ano no Rio de Janeiro. Diante disso, precisamos falar sobre duas coisas. Primeiro, sobre esse caso em específico e depois sobre confinamento de animais silvestres.

Apesar de não termos mais detalhes sobre o ocorrido, uma coisa é certa, se a onça fugiu, alguém errou feio. Estamos falando de um predador, topo de cadeia e que em situações de estresse pode trazer riscos à vida humana. Um evento com fogos e barulho de forma alguma é ambiente propício para um animal silvestre desse porte. Se ela não deveria nem ter saído do seu recinto, o que dizer da falha apresentada em sua condução.

Quanto ao tiro, apesar da polêmica, se de fato havia risco à vida humana infelizmente não houve o que fazer. E eu acredito fortemente que a decisão foi bastante difícil e dolorosa, pois nos parece clara a afeição dos militares pelos seus animais. Mas os questionamentos maiores não estão sobre a necessidade do tiro e sim sobre o que ocorreu antes. Quais foram as sequencias de erros que podem ter acontecido para que fosse necessário chegar nesse ponto? É preciso saber mais detalhes sobre o que aconteceu em sua perseguição. Um tiro de tranquilizante pode, principalmente em um primeiro momento, causar mais estresse no animal e é preciso saber se quem preparou o composto utilizou a dosagem correta e se estavam preparados para esse tipo de acontecimento. Outro ponto é saber se a distância de segurança entre os militares e o animal foi respeitada na hora do tiro. Queremos acreditar que sim, mas para isso precisamos de mais explicações por parte do CMA ou do CIGS.

Essa tragédia se junta ao caso do gorila Harambe do Zoológico de Cincinatti (Estados Unidos) e dos leões abatidos no Chile após um homem ter se jogado na jaula para tentar suicídio, levantando um caloroso debate sobre a necessidade ou não de zoológicos. Antes de mais nada, é preciso afirmar que zoológicos cumprem uma função de extrema importância para a conservação da vida silvestre. Além da atividade óbvia de educação ambiental, programas de reprodução e de estudos genéticos em cativeiro promovem material de valor imensurável para programas de reintrodução e recuperação de fauna na natureza. Além disso, zoológicos são responsáveis por financiamentos de 350 milhões de dólares todos os anos direcionados a projetos de conservação na natureza. Pedir a extinção de zoológicos é fruto de muito romantismo aliado a total desinformação. Obviamente, precisamos discutir a conduta de muitos estabelecimentos, mas isso não justifica a eliminação da atividade.

Entretanto, para o caso da Juma, precisamos debater muito além disso. Apesar do CIGS abrigar um zoológico que mantem animais provenientes de ações contra a caça e do tráfico, muitos sem possibilidade de reintrodução, me pergunto qual é a mensagem de expor um animal vivo na multidão como mascote?

Seria uma mensagem de educação ambiental ou de conservação? Discordo. Para mim, a mensagem é de domínio humano sobre a fauna, claramente ilustrada pela foto de dois onceiros (como são conhecidos os militares que tratam das onças) segurando Juma por uma coleira. Precisamos rever se esse tipo de conduta é de fato interessante. Vejam bem, não estou dizendo que manter essas espécies em cativeiro ou domesticadas é sempre sinal de erro.Nem todo “domínio” é ruim. O Instituto Onça Pintada, coordenado pelo Dr. Leandro Silveira, é um exemplo de instituição que, além de manter pesquisas em campo, também exerce atividades com onças cativas, a maioria órfãs pela caça e faz isso com excelência. O próprio CIGS mantem animais silvestres para fins de proteção e por isso merece elogios, mas é importante que fique por aí. Exibição em público, principalmente nessas condições não me parece adequado. Se for para fazer algo mais, o mais importante seria fornecer meios para que o CIGS possa atuar como provedor de reintrodução dessas espécies.

Espero que esse triste ocorrido possa servir como fator de mudança. Mas ideal também seria se toda essa comoção em torno de um único animal também servisse para mobilizar a sociedade para gritar contra a diminuição de praticamente todas as populações da espécie. Em apenas 30 anos, perdemos 27% de nossas onças. Muitas Jumas, infelizmente, invisíveis.

Abaixo, segue o link de um vídeo onde também explico essas questões.

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Ei, você que acredita na “pílula do câncer”! Precisamos conversar numa boa.

Por hugofernandesbio em Ciência e Política

15 de Abril de 2016

Olá, meu caro. Precisamos conversar. Antes de mais nada, quero dizer que se você é paciente ou é muito próximo a alguém que esteja sofrendo com o câncer, saiba que não só respeito sua dor, como faço questão de, enquanto divulgador científico, mostrar os avanços e servir como porta-voz para que continuemos crescendo na luta contra essa doença que assola milhões de pessoas ao redor do mundo.

Você vai ler muitas críticas sobre o caso da fosfoetanolamina nesse texto. Definitivamente, essas críticas não são sobre você. Não são a respeito da sua dor. São sobre como essa sua dor está sendo direta ou indiretamente explorada para que você acredite na eficácia de um composto sem qualquer comprovação científica. São sobre o erro e, por que não dizer, irresponsabilidade do Judiciário e do Executivo na assinatura da liberação de algo que nem remédio é. Vamos enumerar alguns fatos que você precisa saber sobre o assunto, que já virou uma grande bola de neve.

1 – A fosfoetanolamina não é remédio. É um composto fosfolipídico produzido pelo nosso próprio corpo. Em 1980, um químico da USP, Dr. Gilberto Chierice, apenas sintetizou esse composto em laboratório.

2 – Chierice é químico e nunca capitaneou nenhuma pesquisa publicada envolvendo medicina ou biomedicina. A única pesquisa de sua autoria envolvendo a fosfoetalonamina compreende o uso desse composto na oxidação de microeletrodo de cobre, em 2011. Após ler artigos basais sobre a presença desse composto em células de defesa contra células tumorais, eles passou a creditar à droga algum poder “milagroso”.

3 – Depois de constituir parceria com outros pesquisadores, principalmente o Dr. Adilson Cleber Ferreira, seu laboratório começou a pesquisar o efeito do composto em células cancerígenas de camundongos (principalmente melanoma e câncer de Ehrlich, sendo essa última acometida somente em roedores). Após observar alguma regressão do crescimento dessas células (regressão essa que estava longe de ser sensacional sob um ponto de vista médico), ele passa a envasar a substância e distribui-la em um hospital público de Jaú, interior de São Paulo.

4 – Esse é o ponto principal. O composto foi distribuído apenas com evidências muito rasas de melhoria. Para que um remédio chegue ao paciente, é preciso realizar três fases de testes em animais, outras três em humanos, passar por critérios rígidos de controle médico e sanitário por órgãos de vigilância, para só depois chegar aos laboratórios farmacêuticos, em um processo que dura aproximadamente dez anos. Esse espaço de tempo é suficiente para que outros pesquisadores possam replicar os métodos e inclusive confirmar ou refutar os resultados e a conclusão dos experimentos prévios. O uso dessa droga parou na fase pré-clínica em animais, tornando sua distribuição ilegal, irresponsável, antiética e perigosa.

5 – A pior parte desse ponto é que esse processo também é importante para detectar riscos à saúde humana a curto, médio e longo e prazo. Isso foi totalmente ignorado na distribuição da fosfoetanolamina aos pacientes. Não há, por exemplo, estudos sobre efeitos colaterais e, por esse motivo, os pacientes são obrigados a assinar um termo de responsabilidade para adquirir a droga.

6 – Após a aposentadoria do Chierice em 2014, o laboratório parou de produzir o composto. Porém, milhares de pessoas já tomavam a droga acreditando em uma cura milagrosa. O nome da USP, a maior universidade do país, dava credibilidade a algo que nunca havia sido corretamente testado como eficaz. O desespero de famílias motivou inúmeras ações legais após o ministro do Supremo, Edson Fachin, obrigar o laboratório a voltar a produzir a droga para uma paciente em estado terminal, em outubro de 2015.

7 – A Reitoria da USP prontamente emite uma nota afirmando que não caberia a ela servir como indústria farmacêutica, tampouco para produzir algo que não passou pelos critérios legais e científicos necessários. Entretanto, muitos políticos se aproveitaram do desespero dessas pessoas para propor liminares de liberação de sua produção.

8 – Diante da pressão, o Ministério da Ciência em Tecnologia anuncia, em novembro de 2015, a destinação de 10 milhões de reais para pesquisas sobre o composto.

9 – De dezembro de 2015 até março de 2016, os primeiros testes da fosfoetanolamina já mostram o que a comunidade científica já esperava. Os resultados não apontaram ação efetiva contra câncer. O Laboratório de Oncologia Experimental da Universidade Federal do Ceará mostrou que o composto só produziu efeitos em uma concentração mil vezes maior do que o valor potencial para que alguma substância ataque efetivamente células tumorais. As análises do Centro de Inovação e Ensaios Pré-Clínicos de Santa Catarina corroboraram os mesmos resultados. Os defensores da suposta droga afirmam que é preciso pesquisas em seres humanos, sob a alegação de que ela só funcionaria quando metabolizada pelo organismo. Os testes serão feitos, mas as evidências de que darão certo estão muito mais longe do que muitas drogas que obtiveram excelentes observações in vitro e mesmo assim alcançaram péssimos resultados em seres humanos.

10 – Mesmo diante dessas conclusões e excluindo a necessidade de passar por controles sanitários, a Câmara dos Deputados aprovou no dia 8 de março o projeto de lei para fabricação e distribuição da fosfoetanolamina, que foi aprovada pelo Senado e agora sancionada como Lei pela presidente Dilma Roussef.

Agora que nós já fizemos essa análise temporal, precisamos tratar dos pontos que você definitivamente precisa compreender dentro de um processo científico. Peço a você muita calma e serenidade.

Primeiramente, os pesquisadores que são contra a distribuição da fosfoetanolamina são de diversos setores da Ciência, de todas as partes do país e locados em instituições de altíssima credibilidade internacional. E não, eles não são vendidos para a indústria farmacêutica. Sim, é verdade que esse setor econômico se mostra como um dos mais imorais do cenário mundial, mas colocar o caso da fosfoetanolamina nesse bolo é de um conspiracionismo totalmente infundado. Pense comigo. Um remédio que garantisse o tratamento eficaz contra qualquer tipo de câncer teria como impacto potencial 14 milhões de pessoas, com lucros inimagináveis. Não à toa, remédios desenvolvidos a partir de métodos corretos recebem altíssimas fontes de financiamento, como o caso do tomoxifeno. Mas ainda que você desconfie, pense mais uma vez, você realmente acha que todos os oncologistas e demais pesquisadores sérios sobre câncer desse país conseguiriam ser comprados? Faço o pedido para que você reflita. Não se deixe enganar. Não há qualquer evidência de que esses pesquisadores sejam vendidos.

Outro ponto bastante levantado por parte da sociedade é o de que esses pacientes, principalmente em estado terminal, merecem uma chance de tentar, já que o suposto remédio não faz mal. Concordo, de fato o composto passou nos testes de toxicidade, mas é importante ressaltar de novo a questão da ausência da lista de efeitos colaterais. De todo modo, eles tem esse direito a lutar pela vida, principalmente diante dessas circunstâncias, mas o que estamos discutindo aqui não é esse direito e sim os motivos que levaram essas pessoas a acreditarem nisso. Esses motivos são infundados. Além disso, pense que 10 milhões de reais que saíram do seu bolso e dos contribuintes estão sendo fornecidos para algo desse tipo, enquanto milhares de bolsas de estudo estão sendo cortadas de pesquisadores sérios desse país. Estamos sem recursos para encontrarmos remédios que tenham realmente potenciais de cura para diversas doenças, inclusive o câncer.

Você deve estar pensando nesse exato momento nas dezenas de relatos de pacientes que foram curados ou tiveram sintomas aliviados pela pílula. Bom, vamos lá. O câncer dessas pessoas pode ter regredido por tratamentos convencionais, causas naturais ou mesmo pelo efeito de placebo. A sensação de melhoria pode ser devido à oscilação da manifestação dos sintomas, que também depende de causas naturais e da ação do tratamento convencional. Além disso, você precisa ter conhecimento de que inúmeras pessoas pioraram ou morreram, mesmo tomando a fosfoetanolamina. Relatos populares só servem para levantar hipóteses científicas e nunca para confirmá-las. Você vai encontrar muitos que afirmam categoricamente que banha de cobra cura asma e que manga com leite mata. Por mais que elas atestem casos pessoais, nada disso faz sentido sob a luz da Ciência.

Meu caro, não permita que grupos sem compromisso com o método científico utilize sua dor para promover desinformação, falsas esperanças e ainda por cima dando margem para outros se aproveitarem politicamente disso. A liberação desse composto foi um atestado de ignorância científica dos nossos governantes e que certamente já é motivo de vergonha internacional. A abertura desse precedente pode causar um desastre. A partir de agora, qualquer um pode disseminar uma informação falsa para pessoas desesperadas sobre a cura de alguma doença e lucrar fortemente com isso sob proteção legal. Não aceite que você, seus amigos e familiares sejam as cobaias desse “experimento”.

E se você quiser saber mais e atestar as fontes de tudo isso que falei, vou te passar aqui embaixo uma playlist com vídeos do Science Vlogs Brasil, repleto de mais informações com os links dos artigos e notícias sobre o assunto. Esses caras são cientistas divulgadores e, assim como eu, não são vendidos para a indústria farmacêutica. Nem se preocupe, porque nem remédio de graça a gente recebe. Acredite na Ciência, ajude a fomentá-la e juntos, aí sim, podemos vencer o câncer.

 

 

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A incrível incapacidade de interpretar um texto

Por hugofernandesbio em Ciência e Política

23 de Fevereiro de 2016

Semana passada, postei o artigo “Um exército de Doutores desempregados”. Milhares de likes, compartilhamentos e, felizmente, muitas críticas também. E quando digo felizmente, não estou sendo nenhum pouco demagogo.

A Ciência enriquece muito mais na discordância do que o contrário. Entretanto, muitas dessas críticas atacam pontos que eu definitivamente não escrevi. Partem de uma interpretação própria, que nada mais é do que o reflexo de pouca leitura ou pelo menos incapacidade de absorver uma informação sem deixar de lado sentimentos românticos, posicionamentos políticos ou qualquer modo abstrato que provoque nossos julgamentos antes mesmo de uma análise coerente.

Um exemplo típico está em um artigo de opinião replicado pela Tribuna do Ceará. Vamos analisá-lo ponto a ponto.

                                                       “Para o autor do texto, agora que há pouca oferta de concurso público, as alternativas de emprego para doutores seriam: 1) “Fazer concurso público em outras áreas”; 2) “Fazer doces caseiros”. Isso é sério? Iniciativa privada não pode empregar cientista nunca? Cientista não pode empreender jamais (a não ser vendendo chocolate de panela)? “

Eu jamais sugeri esses itens como alternativa para a falta de emprego. Apenas apliquei exemplos (vejam bem, exemplos) de como alguns Doutores estão se virando para superar essa crise. E embora eu nunca tivesse a coragem de sugerir isso a alguém, infelizmente é um fato que já está ocorrendo. Sim, faculdades privadas podem empregar cientistas, mas o que está acontecendo é que centenas delas estão preferindo os mestres para não terem que pagar o salário de doutores, ao ponto de levar alguns deles a esconderem seu diploma ou a se sujeitarem ao triplo de horas/aula para ganharem menos do que o equivalente em universidades públicas.

Outro ponto muito importante é que o artigo se limita aos cientistas. E vou além, se limita a Ciência Básica (como bem explicado no texto original, onde citei Química, Física, Matemática e Biologia como exemplos). Isso significa que esses profissionais vivem de recursos para pesquisa, que são majoritariamente públicos. Pouquíssimas universidades particulares tem foco em pesquisa. Mais abaixo, no presente texto, comentarei sobre iniciativa privada e empreendedorismo. Vamos ao próximo ponto.

                                                           “O autor parece até estar sugerindo cortar os recursos para a pesquisa e o ensino superior, porque nem alunos nem instituições prestariam. Para ele, os “bilhões de reais gastos” no ensino superior geram “graduados analfabetos funcionais”, “mestres que não merecem o título”, “doutores cujo diploma só servem para enfeitar a parede” e o retorno em ciência “é pífio para o país”. Tirando o fato de que isso tudo é extremamente controverso (especialmente na área do pensamento social), ele não menciona que a esmagadora maioria dos poucos cientistas que temos ainda vieram e vêm dessas instituições públicas brasileiras.”

Para um texto que se inicia me acusando de desonestidade intelectual, eu nem sei como eu poderia classificar essa passagem. Para começar, não, eu não pareço estar sugerindo absolutamente nada disso e não há nada no texto que indique tal absurdo. Em segundo, o que é de enorme desonestidade é destacar essa passagem como se eu tivesse resumindo todo o resultado dos bilhões gastos nesse diagnóstico. Para esclarecer (ou para desenhar), eu disse que “bilhões são gastos para investir e manter esse grupo”. E logo depois (ressaltando, imediatamente depois) eu cito que esse nem é o cenário mais alarmante, dando lugar ao exército de pessoas competentes que estão sem emprego. Esse exército, por sinal, é mais numeroso.

                                                              “É com recurso público (neste momento, pingadíssimo) que se faz estágios sanduíche em grandes universidades no exterior. Fora as bolsas governamentais para formar pesquisadores nas nossas excelentes particulares, bem menos numerosas que as públicas de quilate. Então cuidado ao desmerecer a área pública quando se trata de pesquisa.”

Ao longo do texto, pelo menos duas vezes, eu afirmo que o Governo acertou bastante na criação de novas universidades e de programas de pós-graduação. Isso é inegável. O que eu pontuei categoricamente é que parte dessa gestão (o Ciência sem Fronteiras é um excelente exemplo) foi mal conduzida e mal planejada. Pensamos muito no número de doutores, mas não houve planejamento sobre demanda e reserva.

                                                               “Que podemos melhorar a formação no setor público, ora, não há a menor das dúvidas. Mas não parece que é esse o debate que o autor quer fazer. Ele quer emprego. Ok, então vamos lá. Nenhuma surpresa: o setor público é também o que mais emprega cientistas no Brasil. Há problemas? Como há!”

Sim, era esse o debate que eu queria fazer e fiz. Não, não quero emprego, pois já sou concursado. Sim, o setor público é a área que mais emprega cientistas e, por estarmos numa crise do setor público, foi que fiz o artigo ressaltando os problemas que a autora mesmo encontrou.

                                                                 “Quem entende que os anos que se passa como investigadores de mestrado, doutorado e pós-doutorado devem contar como tempo de serviço para a previdência social sabe que essas pessoas não estão aqui de brincadeira. Não sei na área das engenharias (da qual aparentemente vem o autor), nem sei da real nas instituições pelas quais ele passou, mas o que eu vejo perto de mim é muito trabalho.”

É justamente por estar há 11 anos nesse sistema e por defender direitos trabalhistas para cientistas que resolvi elaborar o artigo, em prol de dezenas de conhecidos e milhares de colegas competentes que, apesar de terem suas formações graças ao sistema público, hoje são vítimas de uma má gestão do próprio. Quando a autora sugere que eu seja engenheiro, finalmente entendi o motivo da sua falta de interpretação. Ela deve ter imaginado que meu artigo tinha tom de deboche e que eu estava provocando uma guerra econômica de classes profissionais. Bom, definitivamente, eu não sou engenheiro.

                                                                  “O “Carinha” citado no texto está convicto sobre fazer ciência no seu laboratório e desenvolver institucionalmente a ciência no Brasil?”

Sim, mas o colega medíocre dele, assim como milhares iguais, não. Esse é o ponto. Aí é que nasce a inflação da oferta diante da pouca demanda. Sobre iniciativa privada, que admite o menor preço, ambos estariam concorrendo no mesmo nicho, com uma forte possibilidade do colega medíocre ganhar, caso o Carinha não se sujeite a baixar seu salário.

                                                                    “Mas por que o horizonte discutido tem sempre um fundo mais imediato e particular, que é o do emprego na praça e do salário bom? O autor fica sempre olhando pro cara do lado, que está comprando carro e casa (…) Então estamos falando de ter emprego e ganhar salário bom? Ou estamos aqui falando de fazer ciência, ter emprego e ganhar salário bom? Porque se for a última, é melhor saber que essa coisa troncha que alguns estão vendo corresponde à melhor fase de investimentos que a ciência já teve no país, que muita gente pode começar a largar a rodilha do pote agora que o dinheiro está sumindo, mas que vai ter muita gente comprometida a não arredar o pé, inclusive porque o Brasil precisa de ciência para ser um país melhor. “

Estamos falando de fazer Ciência e poder pagar suas contas com isso. Independente de carro ou casa. Confesso que fui infeliz quando comparei com um engenheiro, porque até ele está passando por uma grave crise. Minha intenção foi mostrar que enquanto o colega prosperava financeiramente, o Carinha hoje está endividado. O exemplo serviu apenas para mostrar o abismo de diferenças, não para reivindicar riqueza para o Carinha. Afinal, bem sabemos que é quase impossível ficar rico como cientista no Brasil, mas esse não é o ponto.

                                                                    “O autor ignora a falta de empregos na iniciativa privada (grande empregadora em países mais desenvolvidos) e a própria falta de interesse dos doutores e incentivo do governo de empreender para além do ambiente das universidades. Só ficar esperando concurso não vai dar, nem ficar cobrando apenas do governo.”

Concordo demais. De fato, não mencionei isso, mas apenas por uma questão de foco nas causas públicas. Entretanto, faço do comentário da autora o meu. É preciso que haja incentivo para que a iniciativa privada, além das instituições de ensino, financie e empregue o cientista brasileiro. Mas, já tentaram discutir isso dentro das universidades? Sabem que a resistência não é só governamental né? Imagino que sim. Além disso, é bom pontuar que empresas não ligadas aos setores de educação no Brasil, quando investem, só o fazem em Ciência Aplicada. Ciência Básica (ressaltando, mais uma vez, que foi sobre ela que eu escrevi) dificilmente é absorvida e pesquisas de ponta nesse escopo são fortemente dependentes da máquina pública. Empreendedorismo? Não sei como montar uma empresa de Taxonomia de Roedores Sigmodontíneos, de Cristalografia de Proteínas de Lectina de Soja, de Desenvolvimento de Nanocompósitos de Poliuretana, de Fotocálise do Azul de Metileno na Presença de Óxido de Bismuto, entre outras áreas de extrema importância para a Ciência brasileira (essa passagem não contém ironia, antes que alguém diga o contrário). Mais uma vez, falei sobre Ciência Básica. Não dá para falar sobre iniciativa privada e empreendedorismo como se fosse simples de resolver.

                                                                       “A ânsia de se achar um culpado sem apontar soluções, pode-se faltar com o respeito aos pesquisadores que cortam um dobrado para que ainda se desenvolva projetos relevantes no país (eles existem!). Fazer ciência no Brasil hoje não é apenas reclamarmos da nossa realidade mais imediata (quase toda ela incentivada pelo governo), mas estarmos dispostos a trabalhar também na institucionalização de um política muito mais ampla para o campo – ou pelo menos conhecer sua história, acompanhar os atuais desdobramentos e fazer um debate mais qualificado.”

Em momento algum, desrespeitei o pesquisador brasileiro. Pelo contrário. A autora, seja lá por qual motivo, não deve ter lido com cuidado ou leu imbuída de percepções que nada tem a ver com o teor do manuscrito. Na verdade, as respostas que obtive de colegas foram, em sua maioria, as mais positivas possíveis. Quanto à última frase, não teria como discordar. Mas tenho que reforçar o adendo de que, para fazer um debate qualificado, antes de mais nada, é preciso saber interpretar um texto. Pelo menos.

 

 

 

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Um exército de Doutores desempregados

Por hugofernandesbio em Ciência e Política

17 de Fevereiro de 2016

Vou contar uma história para vocês, para que entendam em que ponto a Ciência brasileira se insere nessa crise. Ao personagem, dou o nome de Carinha. Obviamente, é uma história generalista, que jamais pode ser aplicada a todos, mas pelo menos a uma enorme parcela dos acadêmicos. Você verá muitos amigos seus na pele do Carinha. Talvez, você mesmo.

1 – No começo dos anos 2000, principalmente a partir de 2005, novas universidades começam a surgir e o número de vagas, inclusive nas já existentes, aumentam vertiginosamente. A estrutura também melhora e as taxas de evasão de cursos de Ciência básica (Física, Química, Biologia e Matemática, por exemplo) caem. O Carinha, então, ingressa em um desses cursos.

2 – O Carinha que entrou em 2005 e se formou em 2009 passou o período da faculdade desconhecendo o mercado de trabalho do seu curso fora do meio acadêmico. Ao seu lado, muitos colegas que passaram quatro anos sem saber nem o que estavam fazendo. Para o Carinha, não havia outra solução a não ser lecionar em escolas ou tentar o Mestrado, que oferecia bolsa de pesquisa de R$ 1.100,00. Mas, para isso, teria que passar por uma difícil e concorrida seleção. Até que, com o aumento do número de programas e bolsas de pós-graduação, ele viu então que aquilo não era tão difícil assim. Em 2010, torna-se mestrando.

3 – Enquanto seu amigo engenheiro civil****, recém-formado, já está dando entrada para comprar um carro, o Carinha usa sua bolsa para pagar seus pequenos gastos pessoais, além de sua pesquisa sem financiamento externo

(****PS. Permitam-me uma edição aqui. Fui infeliz quando exemplifiquei o colega como um engenheiro civil, pois o mercado para esse profissional atualmente também encontra-se em crise. Tente imaginar qualquer profissão facilmente absorvida pelo mercado de trabalho privado e o texto continuará com o mesmo objetivo).

Em dois anos, o Carinha tenta produzir alguns artigos para enriquecer o currículo. Tem planos para publicar cinco, mas publica um, em revista de qualis baixo. Em paralelo, entra num forte estresse para entregar sua dissertação e passar pelo forte crivo da banca, que pode reprová-lo. Será? Na semana de sua defesa, seu colega também é aprovado, mas com um projeto medíocre e mal conduzido, que, apesar de criticado, foi encaminhado pela banca porque reprovações não são interessantes para a avaliação de conceito do Programa. Normas do MEC.

4 – Já mestre, publica mais um artigo e entra no Doutorado, em 2012. Foi mais difícil que o Mestrado, porém mais fácil do que teria sido anos atrás, por conta do bom número de bolsas disponível. Boa parte daqueles colegas medianos desiste da vida acadêmica, mas aquele dito cujo sem perfil de cientista de alto nível também é aprovado. Afinal, ter bolsas desocupadas não é interessante, porque senão o Programa é obrigado a devolvê-las. Normas do MEC.

5 – Sua bolsa de R$ 2.500,00 já ajuda um pouco sua condição financeira, enquanto aquele colega engenheiro conta sobre sua primeira casa própria. Além disso, o amigo já contribui com o INSS, tem seguro desemprego, 13º salário, plano de saúde, cartão alimentação, entre outros benefícios. O Carinha não, tem só a bolsa e um abraço. Normas do MEC. Mas, tudo bem, é um investimento em longo prazo. Logo menos, ele tentará um concurso para ser professor universitário, com iniciais de cerca de R$9.000,00. Ele se esforça, publica artigos, dá aulas, redige a Tese, defende e é aprovado. O colega mediano faz um terço disso, mas também alcança o título.

6 – Eis que, em 2016, Doutor Carinha se depara com uma grave crise financeira. Cortes profundos no orçamento, principalmente no Ministério da Educação, tornam escassas as vagas como docente. Concursos em cidades remotas do interior, antes com dois, cinco concorrentes no máximo, contam hoje com 30, 50, 80.A solução então é caminhar urgentemente para um Pós-Doutorado, com bolsa de R$ 4.100,00, metade do que ganha seu amigo engenheiro, mas ok, dá um caldo bom, ainda que continue sem direitos trabalhistas. Pouco tempo atrás, as bolsas sobravam e os convites eram feitos pelo próprio professor. Hoje, ele enfrenta uma seleção com 30. Ele passa, o outro colega já fica pelo caminho, assim como centenas espalhados pelo país. O que eles estão fazendo agora?

O resumo da história é… Temos um exército de graduados analfabetos funcionais e de mestres que não merecem o título. Em um pelotão menor, mas ainda numeroso, doutores cujo diploma só serve para enfeitar a parede. Bilhões de reais gastos para investir e manter um grupo cujo retorno científico é pífio para o país. Entretanto, esse não é o pior cenário.

Alarmante é ver um outro exército de Carinhas, esse qualificado, com boas produções, só que desempregado e enfrentando a maior dificuldade financeira de suas vidas. Alguns há anos em bolsas de Pós-Doutorado, sem saberem se essas podem ser cortadas no ano seguinte. Se forem, nenhum mísero centavo de seguro desemprego. Na rua, ponto. Outros abandonando por vez a carreira para tentar os já escassos concursos públicos em outras áreas ou mesmo para fazer doces caseiros, entre outras alternativas.

Ao passo que o Governo acertou na criação de novas universidades, programas e bolsas de pós-graduação nesses últimos 14 anos, a gestão desse material humano e financeiro foi bastante descontrolada. Quantidade exacerbada de cursos criados sem demanda profissional, falta de política de cargos e carreiras para o cientista brasileiro, recursos transportados para um programa de intercâmbio que não exigia praticamente nenhum produto de um aluno de graduação (sobre Ciência Sem Fronteiras, teremos um post exclusivo), critérios de avaliação bem distantes da realidade das melhores universidades do mundo, além de uma série de outros absurdos.

Teremos cerca de dez anos pela frente para que essa curva entre oportunidades e demanda volte a estabilizar. Não tenho dúvidas de que alcançaremos isso. Mas, até lá, cabe a pergunta. O que faremos com os novos Carinhas que ainda surgem a cada vestibular?

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Jacaré no Ceará? Claro que sim!

Por hugofernandesbio em Zoologia

11 de Fevereiro de 2016

Um jacaré capturado pela equipe do Corpo de Bombeiros no Rio Poti, na cidade de Crateús, região dos Inhamuns, causou espanto para muita gente. Como assim, jacaré no Ceará?

Para alguns biólogos, espanto nenhum. A espécie, denominada Caiman crocodilus, conhecida como jacaretinga, já havia sido registrada nesse mesmo município pela Dra. Diva Maria Borges-Nojosa, da Universidade Federal do Ceará e pelo Dr. Daniel Cassiano Lima, da Universidade Estadual do Ceará, em 2008.

Além dessa espécie, o jacaré-anão (Paleosuchus palpebrosus) também já foi registrado pelos mesmos autores, junto com o Ms. Helio Coelho de Lima, em lagoas do litoral norte do estado.

Mesmo há poucos anos, acreditava-se que os jacarés do Ceará eram fruto de solturas provenientes do tráfico. Pessoas que traziam filhotes procedentes da Amazônia ou de outras regiões soltavam esses animais em lagoas e rios quando já não davam mais conta de alimentá-los. De fato, isso aconteceu em algumas ocasiões, como no caso da Lagoa da Parangaba e no Lago Jacareí. Nesse último caso, há uma importante consideração a fazer. “Jacareí”, no tronco linguístico tupi-guarani, significa “jacaré pequeno”. Muito provavelmente, essa lagoa abrigava populações naturais de jacarés antes da expansão desenfreada da cidade de Fortaleza.

Jacaretinga, capturado em Crateús. (Foto: Corpo de Bombeiros)

Certamente, esse cenário poderia ser visto em quase todo o Estado do Ceará, mas a caça tanto desses crocodilianos, como de suas presas (capivaras e tartarugas, por exemplo), além da poluição de rio e alteração dos habitats do entorno, são fatores que levaram as populações aqui presentes a uma situação alarmante de declínio.

Registros históricos para o estado podem ser conferidos nos estudos do Prof. Francisco Dias da Rocha, em 1948. Antes disso, informações de naturalistas e documentos do Império também apontavam a presença de jacarés.

Quanto à captura, fico me perguntando se isso foi realmente necessário. O animal estava em seu habitat natural. As chances de um ataque a seres humanos são ínfimas e, mesmo considerando essa possibilidade, é preciso ressaltar que o uso do rio pela população local deve ser feito levando em consideração a presença do animal. Caso haja risco, é bom evitar a aproximação nas margens. Já pensou se, para cada jacaré encontrado na Amazônia ou Pantanal perto de comunidades ribeirinhas, fosse necessário chamar os bombeiros para capturar? Essa estranheza também deveria ser aplicada aqui. Segundo informações da Corporação, o animal foi solto em uma área do rio mais afastada do centro urbano.

Importante lembrar que conservação desses animais é de suma importância para a biodiversidade local, já que eles são topo da cadeia alimentar e por isso exercem controle populacional sobre as demais espécies.

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Uma entrevista descontraída para você entender o maior impacto ambiental do Brasil

Por hugofernandesbio em Ciência e Política

25 de novembro de 2015

Segue abaixo o link para uma entrevista que concedi para Haroldo Guimarães, advogado, professor, ator e músico, que faz sucesso nas redes sociais com seus vídeos informativos, mas cheios de humor. No caso, o papo é descontraído, mas sem deixar de lado a seriedade que o assunto merece. Entenda porque esse é o maior impacto ambiental que o Brasil já viu, quais serão as consequências e, o mais importante, como você pode fazer para ajudar. Existe um corpo de cientistas independentes para estudar o impacto da tragédia sobre o meio ambiente e que precisa de levantamento de fundos para isso. Para contribuir, é só acessar http://www.kickante.com.br/campanhas/relatorio-independente-de-impacto-causado-pelo-rompimento-das-barragens-de-fundao-e

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Cientistas precisam da sua ajuda! E você ganha duas vezes.

Por hugofernandesbio em Ciência e Política

12 de novembro de 2015

Orçamento apertado e previsão para cortes mais drásticos nas universidades federais e estaduais do Brasil. Esse é o cenário para o qual, segundo os economistas, não há previsão de melhoras pelo menos até 2017.

A última do Governo foi a suspensão de 75% verba do Programa de Apoio a Pós-Graduação (PROAP) sem aviso prévio em julho, além do corte de novos editais para concursos federais. Diante desse cenário, muitos cientistas com pesquisas em andamento estão com as análises de seus trabalhos comprometidas. Desesperar? Jamais, como diria o velho samba. Reclamar? Claro, mas não sem agir. E foi tentando pensar “fora da caixa” que alguns brasileiros estão recorrendo aos programas de financiamento coletivo para dar continuidade às suas pesquisas.

É o caso da equipe do Dr. Ulysses Paulino Albuquerque, da Universidade Federal Rural de Pernambuco. O Laboratório de Etnobiologia Aplicada e Teórica é umas das maiores referências internacionais sobre o uso de plantas por populações tradicionais e rurais, incluindo aquelas usadas na medicina popular. Por envolver esse tipo de conhecimento, Albuquerque faz questão de que esses resultados sejam divulgados em revistas conceituadas, mas de acesso aberto a qualquer pessoa no mundo. Para isso, o custo de publicação de cada artigo em um desses veículos é de no mínimo R$ 4.500,00. A cura de diversas doenças podem ter seus processos iniciados por essas pesquisas, por isso a importância de uma ampla divulgação.

Diante do orçamento apertado, os pesquisadores agora estão fazendo uma campanha para arrecadar R$ 50.000,00. Para fazer doações, basta acessar o link http://www.kickante.com.br/campanhas/producao-de-conhecimento-cientifico .

Essa também foi a solução encontrada pelo biólogo Diogo Dutra-Araújo, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), no Rio Grande do Sul. O objetivo do projeto “Fluxo de Energia do Jacaré-de-papo-amarelo” é entender e identificar qual a origem da alimentação do jacaré e avaliar esta disponibilidade em banhados e áreas úmidas que vêm sofrendo inúmeras pressões pelo desenvolvimento humano. O jacaré-de-papo-amarelo (Caiman latirostris) é uma espécie de ampla distribuição nacional, sendo encontrada nos biomas Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica, Pampa e Marinho-costeiro, habitando lagoas costeiras, manguezais, brejos, banhados e pântanos de água doce ou salobra. O projeto está em campanha pelo Catarse no link https://www.catarse.me/fluxojacare

Ambos os projetos oferecem brindes aos doadores, como cursos, livros e até mesmo a oportunidade de adotar um jacaré! Ou seja, ganha-se duas vezes. Na hora de votar e, a longo prazo, no retorno das pesquisas quando aplicadas para a conservação e medicina.

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Nova espécie de rato silvestre é descoberta por biólogo cearense

Por hugofernandesbio em Zoologia

13 de outubro de 2015

Em pleno século XXI, novas espécies de animais relativamente bem conhecidos como os mamíferos continuam sendo reveladas no Brasil. A novidade agora é o ratinho Calomys matevii.

Calomys_2 (1)

Calomys matevi, nova espécie de rato para o Brasil (Foto: Bruno Campos).

Olhando para a foto, parece com o rato de rua né? E se eu falar que a relação entre essa nova espécie e um rato comum é tão distante quanto a relação entre uma onça e um cachorro doméstico?

Antes de explicar isso, vamos às apresentações. Esse novo roedor foi descrito pelo pesquisador cearense Newton Gurgel-Filho, pelo paraibano Anderson Feijó e pelo uruguaio Alfredo Langguth, todos biólogos da Universidade Federal da Paraíba. Gurgel-Filho visitou diversos museus científicos no país e, através da análise morfológica (principalmente do crânio) de diversos exemplares, os autores concluíram que a espécie Calomys expulsus, amplamente distribuída no país, na verdade não era uma só. Os exemplares do Ceará, Piauí, Tocantins, Bahia, Sergipe, Pernambuco e parte de Minas Gerais apresentavam características únicas que levaram os autores a separarem essa espécie em duas. O nome matevii é uma homenagem a Dra. Margarete Matevi, geneticista gaúcha que faleceu ano passado e que fez grandes contribuições para o estudo de mamíferos brasileiros.

Ao contrário dos ratos de rua, que foram introduzidos pelos colonizadores europeus no século XVI, essa espécie vive em áreas naturais secas e florestais e não pertence nem a mesma família daqueles indesejados urbanos. A catita (Mus musculus) e o rato (Rattus sp.) pertencem à Família Muridae, enquanto essa nova espécie é da Família Cricetidae.

Essa descoberta está descrita em um extenso trabalho intitulado “Pequenos Mamíferos do Ceará”, publicado em um volume único da Revista Nordestina de Biologia. Além dessa nova espécie, os autores propõem novas denominações para animais muito conhecidos dos brasileiros, os cassacos (também chamados de gambás, timbus, mucuras e sariguês). Segundo os pesquisadores, a espécie Didelphis albiventris (gambá-de-orelha-branca) recebeu historicamente uma denominação errada. Há mais de um século, o nome verdadeiro para o animal deveria ser Didelphis marsupialis. Porém, a confusão não para por aí. Isso porque Didelphis marsupialis é o nome dado para os gambás-de-orelha-preta da região amazônica. A proposta é que agora esse animal, bem como as populações de gambás-de-orelha-preta da Mata Atlântica (antes chamadas de Didelphis aurita), tenham um mesmo nome, pois os biólogos concluíram que elas não possuem características únicas o suficiente para serem separadas em duas espécies. Ambas agora teriam o nome de Didelphis kankrivora.

Parece um pouco complicado, mas isso parte de uma ciência chamada Taxonomia, que apesar de ter séculos de desenvolvimento, tem se tornado cada vez mais escassa no Brasil. A ideia é que trabalhos como esse possam inspirar novos pesquisadores.

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Nova espécie de rato silvestre é descoberta por biólogo cearense

Por hugofernandesbio em Zoologia

13 de outubro de 2015

Em pleno século XXI, novas espécies de animais relativamente bem conhecidos como os mamíferos continuam sendo reveladas no Brasil. A novidade agora é o ratinho Calomys matevii.

Calomys_2 (1)

Calomys matevi, nova espécie de rato para o Brasil (Foto: Bruno Campos).

Olhando para a foto, parece com o rato de rua né? E se eu falar que a relação entre essa nova espécie e um rato comum é tão distante quanto a relação entre uma onça e um cachorro doméstico?

Antes de explicar isso, vamos às apresentações. Esse novo roedor foi descrito pelo pesquisador cearense Newton Gurgel-Filho, pelo paraibano Anderson Feijó e pelo uruguaio Alfredo Langguth, todos biólogos da Universidade Federal da Paraíba. Gurgel-Filho visitou diversos museus científicos no país e, através da análise morfológica (principalmente do crânio) de diversos exemplares, os autores concluíram que a espécie Calomys expulsus, amplamente distribuída no país, na verdade não era uma só. Os exemplares do Ceará, Piauí, Tocantins, Bahia, Sergipe, Pernambuco e parte de Minas Gerais apresentavam características únicas que levaram os autores a separarem essa espécie em duas. O nome matevii é uma homenagem a Dra. Margarete Matevi, geneticista gaúcha que faleceu ano passado e que fez grandes contribuições para o estudo de mamíferos brasileiros.

Ao contrário dos ratos de rua, que foram introduzidos pelos colonizadores europeus no século XVI, essa espécie vive em áreas naturais secas e florestais e não pertence nem a mesma família daqueles indesejados urbanos. A catita (Mus musculus) e o rato (Rattus sp.) pertencem à Família Muridae, enquanto essa nova espécie é da Família Cricetidae.

Essa descoberta está descrita em um extenso trabalho intitulado “Pequenos Mamíferos do Ceará”, publicado em um volume único da Revista Nordestina de Biologia. Além dessa nova espécie, os autores propõem novas denominações para animais muito conhecidos dos brasileiros, os cassacos (também chamados de gambás, timbus, mucuras e sariguês). Segundo os pesquisadores, a espécie Didelphis albiventris (gambá-de-orelha-branca) recebeu historicamente uma denominação errada. Há mais de um século, o nome verdadeiro para o animal deveria ser Didelphis marsupialis. Porém, a confusão não para por aí. Isso porque Didelphis marsupialis é o nome dado para os gambás-de-orelha-preta da região amazônica. A proposta é que agora esse animal, bem como as populações de gambás-de-orelha-preta da Mata Atlântica (antes chamadas de Didelphis aurita), tenham um mesmo nome, pois os biólogos concluíram que elas não possuem características únicas o suficiente para serem separadas em duas espécies. Ambas agora teriam o nome de Didelphis kankrivora.

Parece um pouco complicado, mas isso parte de uma ciência chamada Taxonomia, que apesar de ter séculos de desenvolvimento, tem se tornado cada vez mais escassa no Brasil. A ideia é que trabalhos como esse possam inspirar novos pesquisadores.