Flashback: "Jurassic Park" continua uma obra-prima à frente de sua época 
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Cena Cultural

por Thiago Sampaio

Flashback: 25 anos depois, “Jurassic Park” continua uma obra-prima à frente de sua época

Por Thiago Sampaio em Flashback

13 de junho de 2018

Foto: Divulgação

O tempo passa rápido. Tanto que já fazem 25 anos que chegava aos cinemas “Jurassic Park” (idem, 1993) – ou “Parque dos Dinossauros”, como preferirem – para mudar a percepção geral de superprodução. Como forma de comemorar o aniversário e também promover “Jurassic World: Reino Ameaçado” (Jurassic World: Fallen Kingdom, 2018), novo longa da longínqua franquia, o original foi relançado nos cinemas, com cópias convertidas para Imax 3D.

E conferir a obra nas telonas nos dias atuais só confirma que aquele era um filme que estava bem à frente de sua época e, com o passar dos anos e o lançamento de novos derivados, se torna ainda mais irretocável.

Na trama, um parque construído por um milionário tem como atração, para futuros visitantes, dinossauros diversos, extintos há sessenta e cinco milhões de anos. Isto é possível por ter sido encontrado um inseto fossilizado, que tinha sugado sangue destes dinossauros, de onde pôde-se isolar o DNA, o código químico da vida, e, a partir deste ponto, recriá-los em laboratório. O proprietário convoca uma equipe de especialistas para dar o veredito sobre a viabilidade do parque funcionar. Mas, o que parecia ser um sonho se torna um pesadelo, quando a experiência sai do controle de seus criadores.

Antes tudo, trata-se de um projeto arriscado e, se tivesse caído nas mãos de qualquer outro diretor se não Steven Spielberg e seu deslumbre “moleque” por trazer os dinossauros para os dias atuais, as chances de o resultado ser algo vergonhoso eram imensas. Mas o apego pela fantasia, aliada ao perfeccionismo como cineasta, tornaram possível a criação de criaturas que, para a maioria das pessoas “comuns”, é a referência de memória dos nossos antepassados. Vamos lá: imagine na sua cabeça um Tiranossauro Rex! Se não pensou nele exatamente como no filme, provavelmente você é algum profundo estudioso do assunto ou um do-contra universal.

Se eles tivessem sido criados inteiramente por CGI, em 1993, provavelmente teríamos uma bizarra interação de atores com desenhos animados. Mas Spielberg exigiu que fossem construídos robôs e modelos em tamanho real de cada espécie. Reproduções perfeitas, porém, por motivos óbvios, incapazes de correr ou realizar movimentos “realistas”. Nesse ponto os efeitos especiais, supervisionados pelo mago Stan Winston, foram utilizados de maneira cirúrgica nos “animatronics”, mantendo sempre que possível em cena as peças construídas.

Os efeitos sonoros criados por Gary Rydstrom, utilizando sons diversos que misturavam golfinhos, belugas, leões, porcos e morsas, tornaram algo bem particular, desde simples ruídos a estrondos de doer os ouvidos. Sons inéditos até então e, sim, algo assustador!

E um dos principais triunfos de Spielberg é misturar o tom de aventura infantil com suspense de alto nível. Os figurinos, em que cada um tem características bem definidas (o lenço vermelho e chapéu do Dr.Grant, a jaqueta de couro do Malcom, a bermuda e meias longas do guarda Muldoon) são propositalmente caricatos, parecendo personagens do Scooby-Doo. A explicação da recriação das criaturas, através de uma animação fofinha, segue essa linha.

A tensão ocasionalmente é quebrada com alívio cômico, principalmente na interação de Grant (Sam Neill, seguro como protagonista) com o jovem Tim (Joseph Mazello, um carisma e tanto, pena que não vingou na carreira). Mas quando a intenção é transmitir para o espectador o medo que aqueles personagens sentem, a condução de Steven é primorosa. O uso da água para anunciar que o perigo se aproxima, o mistério para a primeira aparição do Tiranossauro com foco no olho na janela do carro, até o primeiro ataque às crianças no veículo elétrico e a perseguição ao jipe, já se tornaram cenas icônicas do cinema.

Os travellings de câmera, junto a uma fotografia escura, na cena dos Velociraptors na cozinha, é de uma adrenalina absurda cujo estilo foi copiada em várias outras produções (e até repetida pelo próprio Spielberg em filmes como “Guerra dos Mundos”, 2005). Mas também há belos momentos de sensibilidade, como o deslumbre pela respiração de um Triceratops doente e a interação com um Braquiossauro que espirra.

Mesmo adaptado do livro de Michael Crichton, o roteiro do próprio Crichton com intervenções de David Koepp (“Homem-Aranha, 2002) traz explicações plausíveis para algo como trazer de volta os animais pré-históricos. É absurdo encontrar mosquito que ainda continha sangue com o DNA dos dinossauros? E completar a cadeia com DNA de rãs que acaba por causar a reprodução dos bichos? Claro! Mas tudo ao redor é tão imersivo que é fácil de relevar.

Até a subtrama da aproximação de Grant, um cara com aversão a crianças e tecnologia, com os netos de Hammond, causam não só leveza, mas trazem um traço particular de Spielberg, que sempre trata a juventude como uma etapa essencial. Tim e Lex (Ariana Richards, que também sumiu do mapa) são inteligentes e tomam decisões importantes para a trama.

Os humanos ali não são apenas carne a serem devoradas pela ameaça, como filmes de criatura tanto fazem. Um coadjuvante como o matemático Ian Malcom (Jeff Goldblum num nível de canastrice perfeito) traz diálogos contundentes que questionam a quebra do andar natural das coisas, utiliza Teoria do Caos para justificar a imprevisibilidade e como a vida sempre encontra o seu meio, independente das escolhas do homem.

A paleontóloga Ellie (Laura Dern, com uma presença forte) está longe de ser a mulher a ser protegida. Ela vai para a ação e traz discursos feministas no início dos anos 90. Algo muito louvável! John Hammomd (o saudoso e carismático Richard Attenborough) tem muito ali do próprio Spielberg, um sonhador que traz magia às crianças, fala encantado do seu “Circo de Pulgas” e deseja materializar algo para tocar e sentir.

Mesmo 25 anos depois, trata-se de uma experiência que transcende as barreiras do tempo. Marcou época ali e continua algo único. Podem mandar quantas continuações quiserem, mas o que vai realmente causar o arrepio na espinha é a memorável trilha-sonora de John Williams e a saudação de John Hammond: “Welcome to Jurassic Park”.

Nota: 10

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Flashback: 25 anos depois, “Jurassic Park” continua uma obra-prima à frente de sua época

Por Thiago Sampaio em Flashback

13 de junho de 2018

Foto: Divulgação

O tempo passa rápido. Tanto que já fazem 25 anos que chegava aos cinemas “Jurassic Park” (idem, 1993) – ou “Parque dos Dinossauros”, como preferirem – para mudar a percepção geral de superprodução. Como forma de comemorar o aniversário e também promover “Jurassic World: Reino Ameaçado” (Jurassic World: Fallen Kingdom, 2018), novo longa da longínqua franquia, o original foi relançado nos cinemas, com cópias convertidas para Imax 3D.

E conferir a obra nas telonas nos dias atuais só confirma que aquele era um filme que estava bem à frente de sua época e, com o passar dos anos e o lançamento de novos derivados, se torna ainda mais irretocável.

Na trama, um parque construído por um milionário tem como atração, para futuros visitantes, dinossauros diversos, extintos há sessenta e cinco milhões de anos. Isto é possível por ter sido encontrado um inseto fossilizado, que tinha sugado sangue destes dinossauros, de onde pôde-se isolar o DNA, o código químico da vida, e, a partir deste ponto, recriá-los em laboratório. O proprietário convoca uma equipe de especialistas para dar o veredito sobre a viabilidade do parque funcionar. Mas, o que parecia ser um sonho se torna um pesadelo, quando a experiência sai do controle de seus criadores.

Antes tudo, trata-se de um projeto arriscado e, se tivesse caído nas mãos de qualquer outro diretor se não Steven Spielberg e seu deslumbre “moleque” por trazer os dinossauros para os dias atuais, as chances de o resultado ser algo vergonhoso eram imensas. Mas o apego pela fantasia, aliada ao perfeccionismo como cineasta, tornaram possível a criação de criaturas que, para a maioria das pessoas “comuns”, é a referência de memória dos nossos antepassados. Vamos lá: imagine na sua cabeça um Tiranossauro Rex! Se não pensou nele exatamente como no filme, provavelmente você é algum profundo estudioso do assunto ou um do-contra universal.

Se eles tivessem sido criados inteiramente por CGI, em 1993, provavelmente teríamos uma bizarra interação de atores com desenhos animados. Mas Spielberg exigiu que fossem construídos robôs e modelos em tamanho real de cada espécie. Reproduções perfeitas, porém, por motivos óbvios, incapazes de correr ou realizar movimentos “realistas”. Nesse ponto os efeitos especiais, supervisionados pelo mago Stan Winston, foram utilizados de maneira cirúrgica nos “animatronics”, mantendo sempre que possível em cena as peças construídas.

Os efeitos sonoros criados por Gary Rydstrom, utilizando sons diversos que misturavam golfinhos, belugas, leões, porcos e morsas, tornaram algo bem particular, desde simples ruídos a estrondos de doer os ouvidos. Sons inéditos até então e, sim, algo assustador!

E um dos principais triunfos de Spielberg é misturar o tom de aventura infantil com suspense de alto nível. Os figurinos, em que cada um tem características bem definidas (o lenço vermelho e chapéu do Dr.Grant, a jaqueta de couro do Malcom, a bermuda e meias longas do guarda Muldoon) são propositalmente caricatos, parecendo personagens do Scooby-Doo. A explicação da recriação das criaturas, através de uma animação fofinha, segue essa linha.

A tensão ocasionalmente é quebrada com alívio cômico, principalmente na interação de Grant (Sam Neill, seguro como protagonista) com o jovem Tim (Joseph Mazello, um carisma e tanto, pena que não vingou na carreira). Mas quando a intenção é transmitir para o espectador o medo que aqueles personagens sentem, a condução de Steven é primorosa. O uso da água para anunciar que o perigo se aproxima, o mistério para a primeira aparição do Tiranossauro com foco no olho na janela do carro, até o primeiro ataque às crianças no veículo elétrico e a perseguição ao jipe, já se tornaram cenas icônicas do cinema.

Os travellings de câmera, junto a uma fotografia escura, na cena dos Velociraptors na cozinha, é de uma adrenalina absurda cujo estilo foi copiada em várias outras produções (e até repetida pelo próprio Spielberg em filmes como “Guerra dos Mundos”, 2005). Mas também há belos momentos de sensibilidade, como o deslumbre pela respiração de um Triceratops doente e a interação com um Braquiossauro que espirra.

Mesmo adaptado do livro de Michael Crichton, o roteiro do próprio Crichton com intervenções de David Koepp (“Homem-Aranha, 2002) traz explicações plausíveis para algo como trazer de volta os animais pré-históricos. É absurdo encontrar mosquito que ainda continha sangue com o DNA dos dinossauros? E completar a cadeia com DNA de rãs que acaba por causar a reprodução dos bichos? Claro! Mas tudo ao redor é tão imersivo que é fácil de relevar.

Até a subtrama da aproximação de Grant, um cara com aversão a crianças e tecnologia, com os netos de Hammond, causam não só leveza, mas trazem um traço particular de Spielberg, que sempre trata a juventude como uma etapa essencial. Tim e Lex (Ariana Richards, que também sumiu do mapa) são inteligentes e tomam decisões importantes para a trama.

Os humanos ali não são apenas carne a serem devoradas pela ameaça, como filmes de criatura tanto fazem. Um coadjuvante como o matemático Ian Malcom (Jeff Goldblum num nível de canastrice perfeito) traz diálogos contundentes que questionam a quebra do andar natural das coisas, utiliza Teoria do Caos para justificar a imprevisibilidade e como a vida sempre encontra o seu meio, independente das escolhas do homem.

A paleontóloga Ellie (Laura Dern, com uma presença forte) está longe de ser a mulher a ser protegida. Ela vai para a ação e traz discursos feministas no início dos anos 90. Algo muito louvável! John Hammomd (o saudoso e carismático Richard Attenborough) tem muito ali do próprio Spielberg, um sonhador que traz magia às crianças, fala encantado do seu “Circo de Pulgas” e deseja materializar algo para tocar e sentir.

Mesmo 25 anos depois, trata-se de uma experiência que transcende as barreiras do tempo. Marcou época ali e continua algo único. Podem mandar quantas continuações quiserem, mas o que vai realmente causar o arrepio na espinha é a memorável trilha-sonora de John Williams e a saudação de John Hammond: “Welcome to Jurassic Park”.

Nota: 10