Crítica: "Um Lugar Silencioso" mostra que o medo não precisa ter voz específica 
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Cena Cultural

por Thiago Sampaio

Crítica: “Um Lugar Silencioso” mostra que o medo não precisa ter voz específica

Por Thiago Sampaio em Crítica

10 de Abril de 2018

Foto: Divulgação

Já virou clichê filme de suspense/terror utilizar dos recursos sonoros para dar sustos, se tornando uma estratégia para maquiar a (falta de) qualidade da produção em si. Em “Um Lugar Silencioso” (A Quiet Place, 2018), o ator John Krasinski se mostra uma excelente revelação na cadeira de diretor, utilizando exatamente da falta de áudio durante a maior parte do tempo para criar uma atmosfera de tensão real, ao passo em que os efeitos de som são utilizados de maneira cirúrgica, quase como um personagem à parte. Não à toa, tamanha precisão tem feito este um dos melhores longas do gênero dos últimos anos.

A trama se passa em uma fazenda nos Estados Unidos, num futuro quase pós-apocalíptico. Uma família do Meio-Oeste se vê rodeada por entidades monstruosas. Para se protegerem, eles devem permanecer em silêncio absoluto, a qualquer custo, pois o perigo é ativado pela percepção do som.

Um dos méritos da produção é ser um longa direto e enxuto. Nos 90 minutos de projeção, o roteiro de Bryan Woods e Scott Beck (que escreveram e dirigiram o independente “Nightlight”, 2015), finalizado pelo próprio Krasinski, não perde tempo com explicações em demasia. Os monstros apenas estão lá, provavelmente em mais uma invasão alienígena com intuito destrutivo como já apresentada em diversas produções. Não há muitos detalhes sobre o passado de cada personagem, mas o papel de cada um está muito bem definido com o que é visto em cena.

O foco da trama é a família, a maneira como cada um se comporta dentro daquele contexto desesperador em busca da sobrevivência. Tanto que o longa já começa com meses depois do início da invasão de tais monstros, mostrando os protagonistas à procura de suprimentos. As informações que temos são as mesmas que eles: notícias vazias em jornais recomendando se esconder em subsolos e ficar em silêncio para não atrair a ameaça. Policiamento e autoridades aparentemente também se refugiaram ou estão planejando algo que não se tornou público. E o roteiro mostra coragem com uma cena chocante logo no início, essencial para o desenvolvimento psicológico de todos os (poucos) personagens.

Existe aquele suspense psicológico em torno das criaturas, com cenários de milharais que até remetem a “Sinais” (Signs, 2002) e “A Vila” (The Village, 2004), ambos de M. Night Shyamalan. Mas não demora muito para mostrá-los por completo, afinal, eles não são o foco da trama. Diga-se de passagem, os monstros possuem um visual bem estiloso, criados através de efeitos especiais funcionais, numa mistura de Venom (vilão do Homem-Aranha) com Demogorgon (da série “Stranger Things”), e a particularidade do “ouvido” ampliado e cheio de subdivisões, o que justifica a sensibilidade para sons.

E já que o silêncio em tela induz o espectador a se manter da mesma forma (pelo menos em teoria, pois não vamos contar com os chatos que vão ao cinema com outra intenção além de assistir), Krasinski conduz cenas densas, em que até utiliza os tradicionais códigos de narrativa que vão ter efeito adiante (como um prego na escada), mas depois ele entrega uma das sequências de maior tensão do ano. Acreditem, dificilmente você já viu um parto tão sofrido! Um acidente num reservatório de milho, que poderia cair no lugar comum, ganha peso justamente pelo drama familiar.

Mais conhecido como o personagem Jim do seriado “The Office” e que antes havia dirigido apenas as razoáveis comédias “Breves Entrevistas com Homens Hediondos” (Brief Interviews with Hideous Men, 2009) e “Família Hollar” (The Hollars, 2016), John Krasinski mostra um impressionante domínio dos recursos que têm à disposição, sem precisar reinventar a roda. Os planos estáticos e demorados, diferente daquela megalomania de Michael Bay – que indicou Krasinski, com quem trabalhou em “13 Horas: Os Soldados Secretos de Benghazi” (13 Hours, 2016), para este projeto e aqui assina como produtor – ditam o rumo da produção.

E é justamente na simplicidade que o ator/cineasta encontra a beleza e o horror. Acostumados com a quase constante claustrofobia do sótão, cuja fotografia é obviamente escura, é bonita a sensação de liberdade que transmite na cena da cachoeira, quando pai e filho encontram um breve momento de paz. Quando o perigo se aproxima, na tentativa de alertar quem estiver ao redor, a mãe ligas várias luzes vermelhas, cuja paleta forte passa a tomar conta da tela. Não é nem preciso ser fã de cinema para captar a intenção do cineasta, pois tudo está lá de maneira objetiva.

O som pontual sempre tem valor simbólico. Já imaginaram passar o resto da vida sem dizer mais uma palavra sequer, podendo custar a própria vida? Por isso, é singelo e até romântico quando o casal principal divide um fone de ouvido e o volume da música aumenta, inserindo quem assiste naquele momento de intimidade. Ao mesmo tempo, os “gritos de liberdade”, uma necessidade reprimida, sempre surgem como um prazer extremo, ao mesmo tempo que a morte é iminente.

Como dito anteriormente, se trata de um filme sobre proteger aqueles que amamos. O filho pequeno que ainda não tem consciência do risco que há em ter um brinquedo que emite sons, a filha adolescente que apresenta as angústias e rebeldia dessa etapa da vida, estão lá cumprindo função de extrema importância para a narrativa. Por sinal, a jovem Millicent Simmonds (do bom “Wonderstruck”, 2017), que é deficiente auditiva na vida real assim como sua personagem (o que justifica os pais saberem a linguagem de sinais), é um destaque e tanto, levando a carga de culpa e audácia que sua Regan exige.

Krasinski também mostra bom trabalho como protagonista, aqui contracenando com sua esposa também do lado de cá, Emily Blunt, aumentando a química entre eles. Lee Abbott tem conhecimento técnico para transmitir para os filhos como sobreviver. Traça caminhos com areia para fazer menos barulho, realiza testes com amplificadores, faz instalações na casa para situações de emergência. Ele não mede esforço para proteger a família, mesmo que não saiba expressar o amor com palavras. Já Evelyn Abbott, numa atuação de total entrega de Blunt, representa a mãe forte e amorosa, que se possível triplicaria as forças para levar todos no braço. Ela é total emoção, sem nunca cair no estereótipo da mulher fraca.

Em tempos de produções genéricas, é mais do que louvável um filme como “Um Lugar Silencioso”, que não tenta ser mais do que é, mas no que se propõe, faz da melhor maneira. Claro que ali podemos tirar lições sobre escolhas familiares, o peso da paternidade/maternidade, a crítica ao atual mundo tecnológico em que a comunicação humana vem se tornando raridade, mas tudo está intrínseco. O que temos é um suspense redondo que nos faz temer suspirar mais alto já esperando pelo pior. Algo louvável.

Nota: 9,0

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Crítica: “Um Lugar Silencioso” mostra que o medo não precisa ter voz específica

Por Thiago Sampaio em Crítica

10 de Abril de 2018

Foto: Divulgação

Já virou clichê filme de suspense/terror utilizar dos recursos sonoros para dar sustos, se tornando uma estratégia para maquiar a (falta de) qualidade da produção em si. Em “Um Lugar Silencioso” (A Quiet Place, 2018), o ator John Krasinski se mostra uma excelente revelação na cadeira de diretor, utilizando exatamente da falta de áudio durante a maior parte do tempo para criar uma atmosfera de tensão real, ao passo em que os efeitos de som são utilizados de maneira cirúrgica, quase como um personagem à parte. Não à toa, tamanha precisão tem feito este um dos melhores longas do gênero dos últimos anos.

A trama se passa em uma fazenda nos Estados Unidos, num futuro quase pós-apocalíptico. Uma família do Meio-Oeste se vê rodeada por entidades monstruosas. Para se protegerem, eles devem permanecer em silêncio absoluto, a qualquer custo, pois o perigo é ativado pela percepção do som.

Um dos méritos da produção é ser um longa direto e enxuto. Nos 90 minutos de projeção, o roteiro de Bryan Woods e Scott Beck (que escreveram e dirigiram o independente “Nightlight”, 2015), finalizado pelo próprio Krasinski, não perde tempo com explicações em demasia. Os monstros apenas estão lá, provavelmente em mais uma invasão alienígena com intuito destrutivo como já apresentada em diversas produções. Não há muitos detalhes sobre o passado de cada personagem, mas o papel de cada um está muito bem definido com o que é visto em cena.

O foco da trama é a família, a maneira como cada um se comporta dentro daquele contexto desesperador em busca da sobrevivência. Tanto que o longa já começa com meses depois do início da invasão de tais monstros, mostrando os protagonistas à procura de suprimentos. As informações que temos são as mesmas que eles: notícias vazias em jornais recomendando se esconder em subsolos e ficar em silêncio para não atrair a ameaça. Policiamento e autoridades aparentemente também se refugiaram ou estão planejando algo que não se tornou público. E o roteiro mostra coragem com uma cena chocante logo no início, essencial para o desenvolvimento psicológico de todos os (poucos) personagens.

Existe aquele suspense psicológico em torno das criaturas, com cenários de milharais que até remetem a “Sinais” (Signs, 2002) e “A Vila” (The Village, 2004), ambos de M. Night Shyamalan. Mas não demora muito para mostrá-los por completo, afinal, eles não são o foco da trama. Diga-se de passagem, os monstros possuem um visual bem estiloso, criados através de efeitos especiais funcionais, numa mistura de Venom (vilão do Homem-Aranha) com Demogorgon (da série “Stranger Things”), e a particularidade do “ouvido” ampliado e cheio de subdivisões, o que justifica a sensibilidade para sons.

E já que o silêncio em tela induz o espectador a se manter da mesma forma (pelo menos em teoria, pois não vamos contar com os chatos que vão ao cinema com outra intenção além de assistir), Krasinski conduz cenas densas, em que até utiliza os tradicionais códigos de narrativa que vão ter efeito adiante (como um prego na escada), mas depois ele entrega uma das sequências de maior tensão do ano. Acreditem, dificilmente você já viu um parto tão sofrido! Um acidente num reservatório de milho, que poderia cair no lugar comum, ganha peso justamente pelo drama familiar.

Mais conhecido como o personagem Jim do seriado “The Office” e que antes havia dirigido apenas as razoáveis comédias “Breves Entrevistas com Homens Hediondos” (Brief Interviews with Hideous Men, 2009) e “Família Hollar” (The Hollars, 2016), John Krasinski mostra um impressionante domínio dos recursos que têm à disposição, sem precisar reinventar a roda. Os planos estáticos e demorados, diferente daquela megalomania de Michael Bay – que indicou Krasinski, com quem trabalhou em “13 Horas: Os Soldados Secretos de Benghazi” (13 Hours, 2016), para este projeto e aqui assina como produtor – ditam o rumo da produção.

E é justamente na simplicidade que o ator/cineasta encontra a beleza e o horror. Acostumados com a quase constante claustrofobia do sótão, cuja fotografia é obviamente escura, é bonita a sensação de liberdade que transmite na cena da cachoeira, quando pai e filho encontram um breve momento de paz. Quando o perigo se aproxima, na tentativa de alertar quem estiver ao redor, a mãe ligas várias luzes vermelhas, cuja paleta forte passa a tomar conta da tela. Não é nem preciso ser fã de cinema para captar a intenção do cineasta, pois tudo está lá de maneira objetiva.

O som pontual sempre tem valor simbólico. Já imaginaram passar o resto da vida sem dizer mais uma palavra sequer, podendo custar a própria vida? Por isso, é singelo e até romântico quando o casal principal divide um fone de ouvido e o volume da música aumenta, inserindo quem assiste naquele momento de intimidade. Ao mesmo tempo, os “gritos de liberdade”, uma necessidade reprimida, sempre surgem como um prazer extremo, ao mesmo tempo que a morte é iminente.

Como dito anteriormente, se trata de um filme sobre proteger aqueles que amamos. O filho pequeno que ainda não tem consciência do risco que há em ter um brinquedo que emite sons, a filha adolescente que apresenta as angústias e rebeldia dessa etapa da vida, estão lá cumprindo função de extrema importância para a narrativa. Por sinal, a jovem Millicent Simmonds (do bom “Wonderstruck”, 2017), que é deficiente auditiva na vida real assim como sua personagem (o que justifica os pais saberem a linguagem de sinais), é um destaque e tanto, levando a carga de culpa e audácia que sua Regan exige.

Krasinski também mostra bom trabalho como protagonista, aqui contracenando com sua esposa também do lado de cá, Emily Blunt, aumentando a química entre eles. Lee Abbott tem conhecimento técnico para transmitir para os filhos como sobreviver. Traça caminhos com areia para fazer menos barulho, realiza testes com amplificadores, faz instalações na casa para situações de emergência. Ele não mede esforço para proteger a família, mesmo que não saiba expressar o amor com palavras. Já Evelyn Abbott, numa atuação de total entrega de Blunt, representa a mãe forte e amorosa, que se possível triplicaria as forças para levar todos no braço. Ela é total emoção, sem nunca cair no estereótipo da mulher fraca.

Em tempos de produções genéricas, é mais do que louvável um filme como “Um Lugar Silencioso”, que não tenta ser mais do que é, mas no que se propõe, faz da melhor maneira. Claro que ali podemos tirar lições sobre escolhas familiares, o peso da paternidade/maternidade, a crítica ao atual mundo tecnológico em que a comunicação humana vem se tornando raridade, mas tudo está intrínseco. O que temos é um suspense redondo que nos faz temer suspirar mais alto já esperando pelo pior. Algo louvável.

Nota: 9,0