Crítica: "Tomb Raider: A Origem" traz Lara Croft mais humana e narrativa genérica 
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Cena Cultural

por Thiago Sampaio

Crítica: “Tomb Raider: A Origem” traz Lara Croft mais humana e narrativa genérica

Por Thiago Sampaio em Crítica

27 de Março de 2018

Foto: Divulgação

Adaptar games para o cinema tem sido uma desgraça para os fãs dos jogos eletrônicos. Tá, vamos reconhecer que tiveram filmes bem piores do que os dois Tomb Raider (2001, 2003) estrelados por Angelina Jolie, mas eles também não agradaram em meio a tantos exageros e apelos sexuais. Seguindo a onda – já nem tão atual – de reboots, “Tomb Raider: A Origem” (Tomb Raider, 2018) chega com a oscarizada Alicia Vikander no papel principal e até acerta no tom mais realista, apesar do roteiro raso e o gosto final de mais um longa de ação genérico.

Na trama, aos 21 anos, Lara Croft (Vikander) leva a vida fazendo entregas de bicicleta pelas ruas de Londres, se recusando a assumir a companhia global do seu pai desaparecido (Dominic West) há sete anos, ideia que ela se recusa a aceitar. Tentando desvendar o sumiço do pai, ela decide largar tudo para ir até o último lugar onde ele esteve e inicia uma perigosa aventura numa ilha no Japão.

A escolha pela ótima Alicia Vikander (a androide de “Ex Machina”, 2014, e vencedora do Oscar de Atriz Coadjuvante em 2016 por “A Garota Dinamarquesa”) se mostra acertada nessa proposta de renovação. Apesar de bela, ela não é conhecida por esses “atributos” e a construção da personagem não é sexualizada como a de Jolie. O que não era bem um erro ali, afinal, a Lara Croft lançada pelos games lá em 1996 era, e por muito tempo foi, esculpida para ser um atrativo para jovens sedentos. Os tempos mudaram.

A heroína de agora é claramente inspirada na versão repaginada do jogo lançado em 2013, “Tomb Raider: Definitive Edition”. Nessa linha, acertadamente o longa busca manter os pés no chão, com ação que não busca chamar a atenção pelo absurdo. Agora não tem mais aquela de cortar o próprio braço para atrair um tubarão, meter um soco na cara dele e depois pegar carona com predador. Há cenas com arco e flecha, perseguições a pé e até esboços de violência crua que funcionam dentro desta proposta.

O diretor norueguês Roar Uthaug (do razoável thriller “A Onda”, 2015) foi uma aposta ousada da Warner Bros. para comandar a sua primeira produção hollywoodiana. Em certos momentos ele mostra o seu valor ao comandar sequências que parecem saídas direto dos games, como a travessia sobre um tronco de árvore sob uma cachoeira e sobre um avião destruído. Ele brinca com travellings, colocando a câmera por cima ou lateralmente, captando-a de costas como numa jogabilidade em terceira pessoa.

Mas o roteiro escrito a seis mãos por Geneva Robertson-Dworet, Alastair Siddons (“Não Ultrapasse”, 2016) e Evan Daugherty (“As Tartarugas Ninja”, 2014) pega um fiapo de história (a jovem rebelde que vai em busca do pai) e não desenvolve nada. Quando deveria existir algum mistério, tudo é explicado de maneira didática (algumas vezes até por algum personagem) para o espectador. Pasmem, quando ela encontra uma câmera exposta num esconderijo, existe um recado nela escrito “Assista!”. Jura?! As descobertas de Lara Croft não soam nada críveis, pois quando ela vê alguma pista, na cena seguinte  já avança para a solução de maneira quase paranormal.

Por ser quase desconhecido, Uthaug é um típico diretor de fácil manipulação para entregar o que o estúdio quer. Para isso, a produção segue um caminho sem muitos riscos e, por tabela, sem atrativos. Quando a trama enfim vai para as escavações, temos mais um exemplar entre tantos outros com derivados de múmias e códigos para desbloquear paredes. Sem nem calçar os sapatos dos três primeiros Indiana Jones (1981, 1984, 1989) ou mesmo o primeiro remake de “A Múmia” (1999), estrelado por Brendan Fraser, está mais para o só razoável “A Lenda do Tesouro Perdido”(2004) e sua esquecível continuação de 2007.

Há combates corporais bem coreografados que misturam estilos de artes marciais, mas a explicação para esse talento de Lara mostrando-a treinando MMA no início da projeção é bem forçada e clichê. Para quem entende de luta, qualquer um que leva o esporte a sério e bate em desistência com um mata-leão em pé, sem passar os ganchos com os pés ou qualquer outro tipo de apoio, provavelmente seria mandado para casa pelo treinador e só voltaria depois de muito treino.

Vikander consegue trazer humanidade a uma Lara Croft ainda em construção, com questões pessoais a serem resolvidas, apanhando muito e ainda sem utilizar armas de fogo. Walton Goggins (“Os Oito Odiados”, 2015) encarna um bom vilão, com a violência e sangue frio, ainda que suas motivações nunca de fato fiquem claras. Enquanto Dominic West (“The Square: A Arte da Discórdia”, 2017) é pura canastrice no papel do pai da heroína, a veterana Kristin Scott Thomas (“O Destino de uma Nação”, 2017) pelo menos consegue trazer o mistério que seu papel induz carregar.

Com gancho claro para uma continuação, o início dessa nova franquia até dá esperanças de que Tomb Raider parecer estar entrando no rumo certo. Porém, sair do óbvio, não subestimar o público-alvo e ousar um pouco mais para não cair nas armadilhas no gênero são algumas arestas lições que podem ser aprendidas com este primeiro exemplar.

Nota: 6,0

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Crítica: “Tomb Raider: A Origem” traz Lara Croft mais humana e narrativa genérica

Por Thiago Sampaio em Crítica

27 de Março de 2018

Foto: Divulgação

Adaptar games para o cinema tem sido uma desgraça para os fãs dos jogos eletrônicos. Tá, vamos reconhecer que tiveram filmes bem piores do que os dois Tomb Raider (2001, 2003) estrelados por Angelina Jolie, mas eles também não agradaram em meio a tantos exageros e apelos sexuais. Seguindo a onda – já nem tão atual – de reboots, “Tomb Raider: A Origem” (Tomb Raider, 2018) chega com a oscarizada Alicia Vikander no papel principal e até acerta no tom mais realista, apesar do roteiro raso e o gosto final de mais um longa de ação genérico.

Na trama, aos 21 anos, Lara Croft (Vikander) leva a vida fazendo entregas de bicicleta pelas ruas de Londres, se recusando a assumir a companhia global do seu pai desaparecido (Dominic West) há sete anos, ideia que ela se recusa a aceitar. Tentando desvendar o sumiço do pai, ela decide largar tudo para ir até o último lugar onde ele esteve e inicia uma perigosa aventura numa ilha no Japão.

A escolha pela ótima Alicia Vikander (a androide de “Ex Machina”, 2014, e vencedora do Oscar de Atriz Coadjuvante em 2016 por “A Garota Dinamarquesa”) se mostra acertada nessa proposta de renovação. Apesar de bela, ela não é conhecida por esses “atributos” e a construção da personagem não é sexualizada como a de Jolie. O que não era bem um erro ali, afinal, a Lara Croft lançada pelos games lá em 1996 era, e por muito tempo foi, esculpida para ser um atrativo para jovens sedentos. Os tempos mudaram.

A heroína de agora é claramente inspirada na versão repaginada do jogo lançado em 2013, “Tomb Raider: Definitive Edition”. Nessa linha, acertadamente o longa busca manter os pés no chão, com ação que não busca chamar a atenção pelo absurdo. Agora não tem mais aquela de cortar o próprio braço para atrair um tubarão, meter um soco na cara dele e depois pegar carona com predador. Há cenas com arco e flecha, perseguições a pé e até esboços de violência crua que funcionam dentro desta proposta.

O diretor norueguês Roar Uthaug (do razoável thriller “A Onda”, 2015) foi uma aposta ousada da Warner Bros. para comandar a sua primeira produção hollywoodiana. Em certos momentos ele mostra o seu valor ao comandar sequências que parecem saídas direto dos games, como a travessia sobre um tronco de árvore sob uma cachoeira e sobre um avião destruído. Ele brinca com travellings, colocando a câmera por cima ou lateralmente, captando-a de costas como numa jogabilidade em terceira pessoa.

Mas o roteiro escrito a seis mãos por Geneva Robertson-Dworet, Alastair Siddons (“Não Ultrapasse”, 2016) e Evan Daugherty (“As Tartarugas Ninja”, 2014) pega um fiapo de história (a jovem rebelde que vai em busca do pai) e não desenvolve nada. Quando deveria existir algum mistério, tudo é explicado de maneira didática (algumas vezes até por algum personagem) para o espectador. Pasmem, quando ela encontra uma câmera exposta num esconderijo, existe um recado nela escrito “Assista!”. Jura?! As descobertas de Lara Croft não soam nada críveis, pois quando ela vê alguma pista, na cena seguinte  já avança para a solução de maneira quase paranormal.

Por ser quase desconhecido, Uthaug é um típico diretor de fácil manipulação para entregar o que o estúdio quer. Para isso, a produção segue um caminho sem muitos riscos e, por tabela, sem atrativos. Quando a trama enfim vai para as escavações, temos mais um exemplar entre tantos outros com derivados de múmias e códigos para desbloquear paredes. Sem nem calçar os sapatos dos três primeiros Indiana Jones (1981, 1984, 1989) ou mesmo o primeiro remake de “A Múmia” (1999), estrelado por Brendan Fraser, está mais para o só razoável “A Lenda do Tesouro Perdido”(2004) e sua esquecível continuação de 2007.

Há combates corporais bem coreografados que misturam estilos de artes marciais, mas a explicação para esse talento de Lara mostrando-a treinando MMA no início da projeção é bem forçada e clichê. Para quem entende de luta, qualquer um que leva o esporte a sério e bate em desistência com um mata-leão em pé, sem passar os ganchos com os pés ou qualquer outro tipo de apoio, provavelmente seria mandado para casa pelo treinador e só voltaria depois de muito treino.

Vikander consegue trazer humanidade a uma Lara Croft ainda em construção, com questões pessoais a serem resolvidas, apanhando muito e ainda sem utilizar armas de fogo. Walton Goggins (“Os Oito Odiados”, 2015) encarna um bom vilão, com a violência e sangue frio, ainda que suas motivações nunca de fato fiquem claras. Enquanto Dominic West (“The Square: A Arte da Discórdia”, 2017) é pura canastrice no papel do pai da heroína, a veterana Kristin Scott Thomas (“O Destino de uma Nação”, 2017) pelo menos consegue trazer o mistério que seu papel induz carregar.

Com gancho claro para uma continuação, o início dessa nova franquia até dá esperanças de que Tomb Raider parecer estar entrando no rumo certo. Porém, sair do óbvio, não subestimar o público-alvo e ousar um pouco mais para não cair nas armadilhas no gênero são algumas arestas lições que podem ser aprendidas com este primeiro exemplar.

Nota: 6,0