Crítica: "Lucy" mescla com eficiência ação e trama ambiciosa - Cena Cultural 
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Cena Cultural

por Thiago Sampaio

Crítica: “Lucy” mescla com eficiência ação e trama ambiciosa

Por Thiago Sampaio em Crítica

11 de setembro de 2014

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

O diretor francês Luc Besson ficou conhecido por uma série de filmes de ação estilosos, como “Nikita – Criada Para Matar” (1990), “O Profissional” (1994) e “O Quinto Elemento” (1997). Ultimamente, tem se dedicado a produções menos badaladas como “Além da Liberdade” (2011), “A Família” (2013), e a franquia animada “Arthur” (2006, 2009, 2010), além de roteirizar e produzir inúmeros longas de ação como as franquias “Carga Explosiva” (2002, 2005, 2008) e “Busca Implacável” (2008, 2012). Agora com “Lucy” (idem, 2014), ele volta aos holofotes com Scarlett Johansson mais poderosa do que nunca e uma trama ambiciosa que vai além do lugar comum.

Sinopse

A trama apresenta Lucy (Scarlett Johansson), uma jovem rebelde que, por causa de uma armadilha armada por um interesse romântico, acaba refém de criminosos orientais. Ela acaba sendo obrigada a transportar drogas dentro do seu estômago, e, por acaso, ela acaba absorvendo as efeitos das substâncias e um efeito inesperado acontece: ela ganha poderes sobre-humanos, incluindo a telecinesia, a ausência de dor e a capacidade de adquirir conhecimento instantaneamente.

Relevando fatos

Apesar de já ter sido explorado por outras produções, como “Sem Limites” (Limitless, 2011), estrelado por Bradley Cooper, o conceito do que o homem seria capaz caso utilizasse mais do que apenas os habituais 10% do cérebro, sempre gera curiosidade. No caso de “Lucy”, o roteiro do próprio Besson utiliza de pesquisas e teorias reais, utilizando-as em formato de uma superprodução. Porém, é preciso deixar claro: não tem como levar tudo a sério e é necessário (veja a grande ironia…), “desligar o cérebro” para aceitar que uma pessoa pode ter controle de qualquer matéria ou tempo a partir dos efeitos de uma droga rara.

Mais do que ação

A partir da personagem principal, Besson volta às origens ao explorar o conceito de mulher poderosa (como Nikita e a Leeloo, vivida por Milla Jovovich em “O Quinto Elemento”). E se, de início, imaginamos que tal transformação de Lucy irá se restringir às habilidades físicas ao vê-la massacrar sozinha uma gangue inteira (uma nova Viúva Negra?), logo percebemos que o teor científico é bem mais profundo. Se abstrair de emoções, controlar o próprio organismo, captar tudo o que é “exato”, tornar vulnerável qualquer coisa ao redor…isso tudo com menos de 50% da capacidade do cérebro. Afinal, somos reféns da nossa própria mediocridade?

Homem x Cérebro

No fim das contas, o longa de Besson tem a proposta audaciosa de questionar a própria essência humana, baseando a vida real unicamente na meritocracia: nós só oferecemos o que podemos receber. O pouco que utilizamos do cérebro funciona para os próprios prazeres e obrigações, para a reprodução, e tudo isso ainda refém do meio ambiente que nos abriga, como já dizia a Lei de Darwin. E se, por ordem divina, o homem é impossibilitado de utilizar mais de 10% da sua capacidade, seria porque o mundo não está preparado ou mesmo por prevenção das consequencias?

Quem leu ao clássico “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, de Douglas Adams, não tem como não se identificar com a passagem em que o personagem de Morgan Freeman cita que os golfinhos são os seres mais inteligentes, utilizando 20% do seu cérebro. No livro, Adams explica que os golfinhos estão infiltrados na Terra para estudar os homens e se disfarçam muito bem como seres fofinhos que divertem os humanos em parques. “É um fato importante, e conhecido por todos, que as coisas nem sempre são o que parecem ser. Por exemplo, no Planeta Terra, os homens sempre se consideraram mais inteligentes que os golfinhos, porque haviam criado tanta coisa – a roda, Nova York, as guerras, etc. –, enquanto os golfinhos só sabiam nadar e se divertir. Porém, os golfinhos, por sua vez, sempre se acharam muito mais inteligentes que os homens – exatamente pelos mesmos motivos”, diz Adams em uma passagem da obra.

Direção audaciosa

Mas todo esses questionamentos ficam à critério do espectador, pois “Lucy” tem todos os ingredientes para agradar ao grande público, com boas cenas de ação envolvendo Scarlett Johansson destruindo bandidos sem nem tocá-los ou dirigindo alucinadamente na contramão pelas ruas de Paris. Ainda assim, Luc Besson mostra uma direção audaciosa ao constantemente traçar paralelos, através de flashes rápidos, das ações do humanos com a de animais selvagens, ou mesmo com a nossa criação, desde os dinossauros. Não é à toa a referência à primeira macaco fêmea, batizada posteriormente de Lucy. Afinal, em plenos anos 2000, será que somos tão diferentes assim dessas outras espécies “inferiores”?

Elenco correto

Scarlett Johansson apresenta mais um bom trabalho, captando a transformação de uma jovem insegura e em busca do desconhecido do início para uma pessoa totalmente ausente de sentimento, com expressões sempre frias. Morgan Freeman, na pele do professor que estuda os avanços do cérebro, atua no seu já convencional piloto automático, mas com participação relevante por situar o espectador por todas as mudanças da protagonista. De resto, apenas o ator egípcio Amr Waked, que vive um policial que auxilia Lucy, e Min-sik Choi (o protagonista do fantástico “Oldboy”, 2003), como o vilão Sr. Jang, ganham destaque na projeção.

Resultado

Em meio a tantas superproduções de 2014, “Lucy” pode até passar desapercebida por muitos, mas não deixa de ter o seu valor por trazer ambições extras a um filme sobre humanos com poderes. E apesar de alguns efeitos especiais que deixam a desejar, é bom ver que Luc Besson ainda sabe o que fazer com um grande orçamento.

Obs: É impossível não imaginar o ótimo “Ela” (Her, 2014) como uma continuação de “Lucy” ao fim deste último.

Nota: 8,0

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Crítica: “Lucy” mescla com eficiência ação e trama ambiciosa

Por Thiago Sampaio em Crítica

11 de setembro de 2014

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

O diretor francês Luc Besson ficou conhecido por uma série de filmes de ação estilosos, como “Nikita – Criada Para Matar” (1990), “O Profissional” (1994) e “O Quinto Elemento” (1997). Ultimamente, tem se dedicado a produções menos badaladas como “Além da Liberdade” (2011), “A Família” (2013), e a franquia animada “Arthur” (2006, 2009, 2010), além de roteirizar e produzir inúmeros longas de ação como as franquias “Carga Explosiva” (2002, 2005, 2008) e “Busca Implacável” (2008, 2012). Agora com “Lucy” (idem, 2014), ele volta aos holofotes com Scarlett Johansson mais poderosa do que nunca e uma trama ambiciosa que vai além do lugar comum.

Sinopse

A trama apresenta Lucy (Scarlett Johansson), uma jovem rebelde que, por causa de uma armadilha armada por um interesse romântico, acaba refém de criminosos orientais. Ela acaba sendo obrigada a transportar drogas dentro do seu estômago, e, por acaso, ela acaba absorvendo as efeitos das substâncias e um efeito inesperado acontece: ela ganha poderes sobre-humanos, incluindo a telecinesia, a ausência de dor e a capacidade de adquirir conhecimento instantaneamente.

Relevando fatos

Apesar de já ter sido explorado por outras produções, como “Sem Limites” (Limitless, 2011), estrelado por Bradley Cooper, o conceito do que o homem seria capaz caso utilizasse mais do que apenas os habituais 10% do cérebro, sempre gera curiosidade. No caso de “Lucy”, o roteiro do próprio Besson utiliza de pesquisas e teorias reais, utilizando-as em formato de uma superprodução. Porém, é preciso deixar claro: não tem como levar tudo a sério e é necessário (veja a grande ironia…), “desligar o cérebro” para aceitar que uma pessoa pode ter controle de qualquer matéria ou tempo a partir dos efeitos de uma droga rara.

Mais do que ação

A partir da personagem principal, Besson volta às origens ao explorar o conceito de mulher poderosa (como Nikita e a Leeloo, vivida por Milla Jovovich em “O Quinto Elemento”). E se, de início, imaginamos que tal transformação de Lucy irá se restringir às habilidades físicas ao vê-la massacrar sozinha uma gangue inteira (uma nova Viúva Negra?), logo percebemos que o teor científico é bem mais profundo. Se abstrair de emoções, controlar o próprio organismo, captar tudo o que é “exato”, tornar vulnerável qualquer coisa ao redor…isso tudo com menos de 50% da capacidade do cérebro. Afinal, somos reféns da nossa própria mediocridade?

Homem x Cérebro

No fim das contas, o longa de Besson tem a proposta audaciosa de questionar a própria essência humana, baseando a vida real unicamente na meritocracia: nós só oferecemos o que podemos receber. O pouco que utilizamos do cérebro funciona para os próprios prazeres e obrigações, para a reprodução, e tudo isso ainda refém do meio ambiente que nos abriga, como já dizia a Lei de Darwin. E se, por ordem divina, o homem é impossibilitado de utilizar mais de 10% da sua capacidade, seria porque o mundo não está preparado ou mesmo por prevenção das consequencias?

Quem leu ao clássico “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, de Douglas Adams, não tem como não se identificar com a passagem em que o personagem de Morgan Freeman cita que os golfinhos são os seres mais inteligentes, utilizando 20% do seu cérebro. No livro, Adams explica que os golfinhos estão infiltrados na Terra para estudar os homens e se disfarçam muito bem como seres fofinhos que divertem os humanos em parques. “É um fato importante, e conhecido por todos, que as coisas nem sempre são o que parecem ser. Por exemplo, no Planeta Terra, os homens sempre se consideraram mais inteligentes que os golfinhos, porque haviam criado tanta coisa – a roda, Nova York, as guerras, etc. –, enquanto os golfinhos só sabiam nadar e se divertir. Porém, os golfinhos, por sua vez, sempre se acharam muito mais inteligentes que os homens – exatamente pelos mesmos motivos”, diz Adams em uma passagem da obra.

Direção audaciosa

Mas todo esses questionamentos ficam à critério do espectador, pois “Lucy” tem todos os ingredientes para agradar ao grande público, com boas cenas de ação envolvendo Scarlett Johansson destruindo bandidos sem nem tocá-los ou dirigindo alucinadamente na contramão pelas ruas de Paris. Ainda assim, Luc Besson mostra uma direção audaciosa ao constantemente traçar paralelos, através de flashes rápidos, das ações do humanos com a de animais selvagens, ou mesmo com a nossa criação, desde os dinossauros. Não é à toa a referência à primeira macaco fêmea, batizada posteriormente de Lucy. Afinal, em plenos anos 2000, será que somos tão diferentes assim dessas outras espécies “inferiores”?

Elenco correto

Scarlett Johansson apresenta mais um bom trabalho, captando a transformação de uma jovem insegura e em busca do desconhecido do início para uma pessoa totalmente ausente de sentimento, com expressões sempre frias. Morgan Freeman, na pele do professor que estuda os avanços do cérebro, atua no seu já convencional piloto automático, mas com participação relevante por situar o espectador por todas as mudanças da protagonista. De resto, apenas o ator egípcio Amr Waked, que vive um policial que auxilia Lucy, e Min-sik Choi (o protagonista do fantástico “Oldboy”, 2003), como o vilão Sr. Jang, ganham destaque na projeção.

Resultado

Em meio a tantas superproduções de 2014, “Lucy” pode até passar desapercebida por muitos, mas não deixa de ter o seu valor por trazer ambições extras a um filme sobre humanos com poderes. E apesar de alguns efeitos especiais que deixam a desejar, é bom ver que Luc Besson ainda sabe o que fazer com um grande orçamento.

Obs: É impossível não imaginar o ótimo “Ela” (Her, 2014) como uma continuação de “Lucy” ao fim deste último.

Nota: 8,0