Crítica: "Jurassic World: Reino Ameaçado" tenta inovar em uma franquia fadada ao desgaste 
Publicidade

Cinema Sinergia

por Thiago Sampaio

Crítica: “Jurassic World: Reino Ameaçado” tenta inovar em uma franquia fadada ao desgaste

Por Thiago Sampaio em Crítica

17 de julho de 2018

Foto: Divulgação

citei aqui o quanto o primeiro “Jurassic Park” (idem, 1993) foi revolucionário em sua época e continua irretocável. Após duas continuações que não surtiram o mesmo efeito nem de longe, foram 14 anos de hiato até sair uma espécie de sequência/reboot. “Jurassic World” (idem, 2015) funcionou dentro da proposta de atualizar aquele universo, ainda que a produção seja um remake disfarçado do original. Sua continuação, “Jurassic World: Reino Ameaçado” (Jurassic World: Fallen Kingdon, 2018), acerta ao tentar fazer diferença e trazer traços autorais. Mas a sensação é que essa franquia já poderia ter sido extinta há muito tempo.

Na trama, três anos após o fechamento do Jurassic World, um vulcão prestes a entrar em erupção põe em risco a vida na ilha Nublar. No local não há mais qualquer presença humana, com os dinossauros vivendo livremente. Diante da situação, é preciso tomar uma decisão: deve-se retornar à ilha para salvar os animais ou abandoná-los para uma nova extinção? Decidida a resgatá-los, Claire (Bryce Dallas Howard) convoca Owen (Chris Pratt) a retornar à ilha com ela.

A premissa de que se meter em um monte de dinossauros pode resultar em algum problema já foi abordada em exaustão. Nesse, o roteiro de Colin Trevorrow (diretor do longa anterior) e Derek Connolly até brinca com isso quando o personagem Owen questiona ao aceitar tal missão de resgatar os bichos. Claro, haverá algum empresário inescrupuloso buscando lucrar alto em cima dos animais, surgindo como o real vilão da narrativa. Sendo assim, sobra a condução de cenas para manter o interesse naquele universo já tão mexido desde a surpresa em 1993. Afinal, nem a ideia e nem os efeitos especiais são mais suficientes para segurar a empolgação.

Por isso, a escolha pelo espanhol Juan Antonio Bayona (do ótimo “O Orfanato”, 2007; e do eficiente “O Impossível”, 2012) se mostra uma escolha acertada ao tentar não imitar o que Steven Spielberg criou ali no passado, mantendo referências na dose certa e flertando com o gênero horror que ele domina. Se o primeiro “Jurassic World” fez mistério para a aparição do Tiranossauro Rex, aqui ele surge de uma maneira assustadora e impiedosa logo na introdução. Afinal, ele é praticamente uma estrela esquecida.

Mas se o longa de 2015 se sustentava nos fan-services com uma avalanche de elementos do filme original, este, usa a nostalgia de maneira pontual e inteligente. O deslumbre pela primeira vista aos Braquiossauros, como aconteceu no primeiro, serve para fazer o paralelo e também atenuar o drama numa cena bastante dramática que vem a surgir posteriormente, quando um dos dinossauros do pescoço gigante faz um movimento semelhante.

O longa mostra repetidas vezes a menina Maisie Lockwood (Isabella Sermon) se fechando em uma espécie de esconderijo que remete à cena em que Lex (Ariana Richards) tenta abaixar uma gaveta e engana um Velociraptor no original. Quem percebe, acha legal, mas a repetição é tanta que força muito a barra. Há referências a John Hammond (personagem do falecido Richard Attenborough) e o matemático Ian Malcom (Jeff Goldblum, retornando) surge numa participação rápida mas importante, com suas teorias sempre pertinentes e inclinadas para a razão, apesar de nada otimistas.

Se “Jurassic World” pecou justamente por fazer o contrário do que Spielberg queria ao construir esse universo, com o excesso de CGI para a criação das criaturas, aqui existe uma tentativa em reparar tal artificialidade. Há até uma cena em que os personagens Owen e Claire tentam fazer algo com um Tiranossauro dentro de um contêiner em que claramente estamos diante de uma criatura mecânica. J.A. Bayona volta a conciliar os animatronics em efeitos práticos com tela verde. Inclusive na Blue, a Velociraptor que move a trama, existe um cuidado para que exista algum tipo de humanidade ali.

Apoiando-se em fotografias escuras, Bayona consegue criar suspense ao esconder algum ataque, sempre intercalando com humor, como uma fuga da prisão utilizando um certo dinossauro desorientado. É perceptível que ele sempre procura omitir o medo real sob a sombra, inclusive quando tais “monstros” são expostos numa espécie de comércio, enquanto os reais caras maus estão sob a luz de relance. Deste modo, ele faz o que pode para fazer do “Indoraptor” (que nome terrível!) uma ameaça plausível.

Se no anterior o “Indominus Rex” não despertou nenhum ofurô entre os fãs, tal “Indoraptor” tem um visual bem estiloso e, o momento em que ele escala o telhado da casa principal e ameaça uma criança, cena utilizada bastante nos trailers, funciona bastante. O efeito é potencializado com a ótima trilha sonora de Michael Giacchino, trazendo referência ao tema clássico de John Williams, mas trazendo traços épicos e até medievais, com sons graves e onipresentes, captando o perigo que tal criatura oferece.

Porém, na tentativa de criar uma dramaticidade em certa personagem humana, se introduz na franquia algo que nunca fora abordado até então e, no fim das contas, não interfere em nada no desenvolvimento da trama. Amplia as questões do “brincar de Deus”, desperdiça uma atriz do calibre de Geraldine Chaplin e pouco interfere no produto em si.

Na pele do domador de Velociraptors, Chris Pratt volta bem mais à vontade como Owen Grady, tendo maior liberdade para desenvolver o potencial cômico que tem através dos diálogos com Claire. Bryce Dallas Howard tem maior presença e percebe-se a preocupação em corrigir os erros quando ela sempre era salva pelo mocinho. E agora, a câmera trata de focar nos pés dela para deixar claro que ela não está correndo de salto alto (precisava ser tão descarado?!). O veterano James Cromwell traz peso numa tentativa de suprir a simpatia que tinha Attenborough, mas fica pelo caminho. Os ótimos Rafe Spall e Toby Jones acabam relegados aos papéis de vilões estereotipados.

Com um interessante gancho para uma continuação, o novo longa honra o que a franquia construiu e tenta construir algo novo. Dentro do que deixou, pode render mais um filme, mas, se esticar além disso, a sensação é de estar torturando algo que tem boa vontade, mas pede para não insistir em interferir com o andar natural da humanidade. E não estou falando dos dinossauros.

Nota: 6,0

Publicidade aqui

Crítica: “Jurassic World: Reino Ameaçado” tenta inovar em uma franquia fadada ao desgaste

Por Thiago Sampaio em Crítica

17 de julho de 2018

Foto: Divulgação

citei aqui o quanto o primeiro “Jurassic Park” (idem, 1993) foi revolucionário em sua época e continua irretocável. Após duas continuações que não surtiram o mesmo efeito nem de longe, foram 14 anos de hiato até sair uma espécie de sequência/reboot. “Jurassic World” (idem, 2015) funcionou dentro da proposta de atualizar aquele universo, ainda que a produção seja um remake disfarçado do original. Sua continuação, “Jurassic World: Reino Ameaçado” (Jurassic World: Fallen Kingdon, 2018), acerta ao tentar fazer diferença e trazer traços autorais. Mas a sensação é que essa franquia já poderia ter sido extinta há muito tempo.

Na trama, três anos após o fechamento do Jurassic World, um vulcão prestes a entrar em erupção põe em risco a vida na ilha Nublar. No local não há mais qualquer presença humana, com os dinossauros vivendo livremente. Diante da situação, é preciso tomar uma decisão: deve-se retornar à ilha para salvar os animais ou abandoná-los para uma nova extinção? Decidida a resgatá-los, Claire (Bryce Dallas Howard) convoca Owen (Chris Pratt) a retornar à ilha com ela.

A premissa de que se meter em um monte de dinossauros pode resultar em algum problema já foi abordada em exaustão. Nesse, o roteiro de Colin Trevorrow (diretor do longa anterior) e Derek Connolly até brinca com isso quando o personagem Owen questiona ao aceitar tal missão de resgatar os bichos. Claro, haverá algum empresário inescrupuloso buscando lucrar alto em cima dos animais, surgindo como o real vilão da narrativa. Sendo assim, sobra a condução de cenas para manter o interesse naquele universo já tão mexido desde a surpresa em 1993. Afinal, nem a ideia e nem os efeitos especiais são mais suficientes para segurar a empolgação.

Por isso, a escolha pelo espanhol Juan Antonio Bayona (do ótimo “O Orfanato”, 2007; e do eficiente “O Impossível”, 2012) se mostra uma escolha acertada ao tentar não imitar o que Steven Spielberg criou ali no passado, mantendo referências na dose certa e flertando com o gênero horror que ele domina. Se o primeiro “Jurassic World” fez mistério para a aparição do Tiranossauro Rex, aqui ele surge de uma maneira assustadora e impiedosa logo na introdução. Afinal, ele é praticamente uma estrela esquecida.

Mas se o longa de 2015 se sustentava nos fan-services com uma avalanche de elementos do filme original, este, usa a nostalgia de maneira pontual e inteligente. O deslumbre pela primeira vista aos Braquiossauros, como aconteceu no primeiro, serve para fazer o paralelo e também atenuar o drama numa cena bastante dramática que vem a surgir posteriormente, quando um dos dinossauros do pescoço gigante faz um movimento semelhante.

O longa mostra repetidas vezes a menina Maisie Lockwood (Isabella Sermon) se fechando em uma espécie de esconderijo que remete à cena em que Lex (Ariana Richards) tenta abaixar uma gaveta e engana um Velociraptor no original. Quem percebe, acha legal, mas a repetição é tanta que força muito a barra. Há referências a John Hammond (personagem do falecido Richard Attenborough) e o matemático Ian Malcom (Jeff Goldblum, retornando) surge numa participação rápida mas importante, com suas teorias sempre pertinentes e inclinadas para a razão, apesar de nada otimistas.

Se “Jurassic World” pecou justamente por fazer o contrário do que Spielberg queria ao construir esse universo, com o excesso de CGI para a criação das criaturas, aqui existe uma tentativa em reparar tal artificialidade. Há até uma cena em que os personagens Owen e Claire tentam fazer algo com um Tiranossauro dentro de um contêiner em que claramente estamos diante de uma criatura mecânica. J.A. Bayona volta a conciliar os animatronics em efeitos práticos com tela verde. Inclusive na Blue, a Velociraptor que move a trama, existe um cuidado para que exista algum tipo de humanidade ali.

Apoiando-se em fotografias escuras, Bayona consegue criar suspense ao esconder algum ataque, sempre intercalando com humor, como uma fuga da prisão utilizando um certo dinossauro desorientado. É perceptível que ele sempre procura omitir o medo real sob a sombra, inclusive quando tais “monstros” são expostos numa espécie de comércio, enquanto os reais caras maus estão sob a luz de relance. Deste modo, ele faz o que pode para fazer do “Indoraptor” (que nome terrível!) uma ameaça plausível.

Se no anterior o “Indominus Rex” não despertou nenhum ofurô entre os fãs, tal “Indoraptor” tem um visual bem estiloso e, o momento em que ele escala o telhado da casa principal e ameaça uma criança, cena utilizada bastante nos trailers, funciona bastante. O efeito é potencializado com a ótima trilha sonora de Michael Giacchino, trazendo referência ao tema clássico de John Williams, mas trazendo traços épicos e até medievais, com sons graves e onipresentes, captando o perigo que tal criatura oferece.

Porém, na tentativa de criar uma dramaticidade em certa personagem humana, se introduz na franquia algo que nunca fora abordado até então e, no fim das contas, não interfere em nada no desenvolvimento da trama. Amplia as questões do “brincar de Deus”, desperdiça uma atriz do calibre de Geraldine Chaplin e pouco interfere no produto em si.

Na pele do domador de Velociraptors, Chris Pratt volta bem mais à vontade como Owen Grady, tendo maior liberdade para desenvolver o potencial cômico que tem através dos diálogos com Claire. Bryce Dallas Howard tem maior presença e percebe-se a preocupação em corrigir os erros quando ela sempre era salva pelo mocinho. E agora, a câmera trata de focar nos pés dela para deixar claro que ela não está correndo de salto alto (precisava ser tão descarado?!). O veterano James Cromwell traz peso numa tentativa de suprir a simpatia que tinha Attenborough, mas fica pelo caminho. Os ótimos Rafe Spall e Toby Jones acabam relegados aos papéis de vilões estereotipados.

Com um interessante gancho para uma continuação, o novo longa honra o que a franquia construiu e tenta construir algo novo. Dentro do que deixou, pode render mais um filme, mas, se esticar além disso, a sensação é de estar torturando algo que tem boa vontade, mas pede para não insistir em interferir com o andar natural da humanidade. E não estou falando dos dinossauros.

Nota: 6,0