Crítica: "Jogador Número Um" é o melhor Spielberg "moleque" homenageando a cultura pop 
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Cena Cultural

por Thiago Sampaio

Crítica: “Jogador Número Um” é o melhor Spielberg “moleque” homenageando a cultura pop

Por Thiago Sampaio em Crítica

01 de Abril de 2018

Foto: Divulgação

Nos dias atuais, os chamados crossovers entre personagens de franquias diferentes, ou mesmo referências a ícones da cultura pop, é motivo de vibração para os nerds de plantão. “Jogador Número Um” (Ready Player One, 2018) é, de longe, o longa que mais apresenta esses chamarizes, o que já garantiria a diversão.

Mas, existia o risco de se resumir a essa nostalgia direcionada a um público alvo caso a obra tivesse caído nas mãos de qualquer outro diretor. Steven Spielberg é a alma dessa eletrizante adaptação, fazendo homenagens a elementos clássicos dos anos 80 que ele próprio ajudou a criar, porém, anda com as próprias pernas e soa contemporâneo.

A trama se passa num futuro distópico, em 2044. Wade Watts (Tye Sheridan), como o resto da humanidade, prefere a realidade virtual do complexo Oasis ao mundo real. Quando o criador do game, o excêntrico James Halliday (Mark Rylance) morre, os jogadores devem encontrar três chaves a partir de segredos dentro do jogo para conquistar sua fortuna inestimável, que inclui todos os direitos sobre o Oasis.

Adaptação do livro homônimo de Ernest Cline (que também co-escreveu o roteiro do filme), a obra era claramente inspirada em longas dirigidos por Spielberg. O cineasta, tão eficiente com longas “sérios” como “A Cor Púrpura” (1985), “A Lista de Schindler” (1993), “O Resgate do Soldado Ryan” (1998), “Munique” (2005), dentre tantos outros, também é conhecido pelo lado “moleque”, que já rendeu blockbusters que marcaram época, como “Tubarão” (1975), “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”, “Os Caçadores da Arca Perdida” (1981), “Hook: A Volta do Capitão Gancho” (1991), “Jurassic Park” (1993), etc.

A ideia do livro de unir as referências dele próprio e outros “seguidores”, como Robert Zemeckis (da trilogia “De Volta Para o Futuro”, 1985, 1989, 1990), Tim Burton (“Os Fantasmas Se Divertem”, 1988, “Batman”, 1989), e inúmeros games famosos, é mantida do começo ao fim. Mas ele vai além! Quando o personagem Parzival dirige o seu próprio DeLorean fugindo de um destruidor Tiranossauro Rex e deixa para trás um cinema com o nome “Jack Slater” nos letreiros, ele lembra a surra de bilheteria que o seu “Jurassic Park” deu em 1993 em “O Último Grande Herói”, longa estrelado por Arnold Schwarzenegger que também brincava com a metalinguagem dos “filmes dentro do filme”.

Mas longe deste ser um trabalho de soberba de Spielberg que, ainda este ano, dirigiu o bom “The Post: A Guerra Secreta” (2017) para concorrer ao Oscar e paralelamente conduziu esse pipocão, que mescla atores reais e animação, com o intuito de…se divertir! De fato, ele distribui Easter-Eggs a torto e direito e vai ser necessário assistir mais de uma vez para identificar as referências, prática que acaba por se tornar uma distração para quem assiste.

Estão lá o “Gigante de Ferro” (1999), a moto de “Akira” (1988), clássicos do terror (incluindo uma imersão a um longa de Stanley Kubrick que já é uma das melhores sequências dos últimos anos), os jogos “Halo”, “Mortal Kombat”, “Street Fighter”, “Duke Nuken” e uma infinidade de outros. Tudo embalado por uma trilha-sonora cheia de hits como “Jump” (Van Halen), “Everybody Wants do Rule the World” (Tears For Fears), “We’Re Not Gonna Take It” (Twisted Sister), etc. Mas toda essa overdose funciona como cobertura de um bolo que já tem um recheio vasto e de qualidade por si só.

Em tempos de smartphones em que ficamos conectados 24 horas por dia, é clara a crítica através do futuro distópico, cuja realidade se resume praticamente a um amontoado de favelas verticais, com um cinza predominante, enquanto o multicolorido Oasis é uma fuga do vazio que o mundo de verdade se transformou. Nesse contexto, há alfinetadas às grandes corporações, que buscam o lucro acima de tudo, investindo pesado no estudo da cultura pop para fins mercantis, colocando o lado humano e o desenvolvimento do mundo além do game totalmente para escanteio.

Para isso, o roteiro de Zak Penn (de “X-Men: O Confronto Final”, 2006) traz o retrato de adolescentes que, nesse universo fictício, buscam ser o que não conseguem na vida real. E curioso que mesmo com avatares “descolados”, cheios de tatuagens ou corpos monstruosos, mantêm o jeito tímido e desengonçado de falar (o personagem I-R0k, com voz de T.J. Miller, garante bons risos sempre que aparece), enquanto o empresário Nolan Sorrento usa o avatar de um homem forte de terno, mantendo o status poderoso e a voz autoritária.

Nesse embate entre cultura pop x corporativismo, Spielberg dedica o projeto à geração de jovens, hoje adultos, que praticamente formaram personalidade através das produções referenciadas, que idolatram Ferris Bueller e toda a filmografia de John Hughes (obviamente, também citado), que já se enxergaram naquelas obras de Stephen King com grupos de adolescentes desajustados. Linha tênue bem explicitada no diálogo entre Sorrento e Parzival, quando um testa o outro sobre a real afinidade com os temas. Além, é claro, do clímax, quando a premiação, o poder de controlar a Oasis, é colocada em questão para reais (ou não) amantes de tudo aquilo.

Geração representada pelo criador do jogo, Halliday, vivido propositalmente de maneira estereotipada ao extremo pelo bom Mark Rylance, tornando-o até irreal, místico, como uma mistura de Willy Wonka e Bilbo Bolseiro. O protagonista Tye Sheridan, de corpo franzino, óculos e expressões de medo, convence como o nerd comum que tem diante de si a chance de ir além. Por isso, nesses dois e também na carismática Olivia Cooke, existe um pouco de cada espectador que vibra com cada referência. E claro, muito do próprio Steven Spielberg! O contraponto é o ótimo Ben Mendelsohn, que faz de Sorrento um vilão ameaçador, porém, estúpido, bem típico de filmes dos anos 80.

Mas há imperfeições, além da trama em geral simples, da busca por um “Easter Egg definitivo” numa espécie de “Matrix”, que muito se assemelha aos longas de caça ao tesouro de décadas passadas. Por se tratar de um produto que busca o maior alcance possível da audiência, há passagens do roteiro que são mastigadas, algumas vezes repetindo mais de uma vez, como se o que estivesse acontecendo não ficasse claro. E mesmo com batalhas eficientes e de fácil entendimento da ação, são tantos personagens famosos no ato final que acaba virando uma bagunça e o desfecho acaba por se prolongar em demasia, prejudicando o ritmo nos longos 140 minutos de projeção.

Mas a intenção do diretor nunca foi de fazer uma obra prima da sétima arte. Apesar dos defeitos, só não se diverte com “Jogador Número Um” quem tiver crescido numa bolha gigante. Se fosse nos anos 90, certamente seria aquele longa que você adiantaria a tarefa de casa para não perdê-lo na Sessão da Tarde e alugaria repetidas vezes o VHS. E se não rebobinasse a fita, na devolução pagaria multa!

Nota: 8,5

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Crítica: “Jogador Número Um” é o melhor Spielberg “moleque” homenageando a cultura pop

Por Thiago Sampaio em Crítica

01 de Abril de 2018

Foto: Divulgação

Nos dias atuais, os chamados crossovers entre personagens de franquias diferentes, ou mesmo referências a ícones da cultura pop, é motivo de vibração para os nerds de plantão. “Jogador Número Um” (Ready Player One, 2018) é, de longe, o longa que mais apresenta esses chamarizes, o que já garantiria a diversão.

Mas, existia o risco de se resumir a essa nostalgia direcionada a um público alvo caso a obra tivesse caído nas mãos de qualquer outro diretor. Steven Spielberg é a alma dessa eletrizante adaptação, fazendo homenagens a elementos clássicos dos anos 80 que ele próprio ajudou a criar, porém, anda com as próprias pernas e soa contemporâneo.

A trama se passa num futuro distópico, em 2044. Wade Watts (Tye Sheridan), como o resto da humanidade, prefere a realidade virtual do complexo Oasis ao mundo real. Quando o criador do game, o excêntrico James Halliday (Mark Rylance) morre, os jogadores devem encontrar três chaves a partir de segredos dentro do jogo para conquistar sua fortuna inestimável, que inclui todos os direitos sobre o Oasis.

Adaptação do livro homônimo de Ernest Cline (que também co-escreveu o roteiro do filme), a obra era claramente inspirada em longas dirigidos por Spielberg. O cineasta, tão eficiente com longas “sérios” como “A Cor Púrpura” (1985), “A Lista de Schindler” (1993), “O Resgate do Soldado Ryan” (1998), “Munique” (2005), dentre tantos outros, também é conhecido pelo lado “moleque”, que já rendeu blockbusters que marcaram época, como “Tubarão” (1975), “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”, “Os Caçadores da Arca Perdida” (1981), “Hook: A Volta do Capitão Gancho” (1991), “Jurassic Park” (1993), etc.

A ideia do livro de unir as referências dele próprio e outros “seguidores”, como Robert Zemeckis (da trilogia “De Volta Para o Futuro”, 1985, 1989, 1990), Tim Burton (“Os Fantasmas Se Divertem”, 1988, “Batman”, 1989), e inúmeros games famosos, é mantida do começo ao fim. Mas ele vai além! Quando o personagem Parzival dirige o seu próprio DeLorean fugindo de um destruidor Tiranossauro Rex e deixa para trás um cinema com o nome “Jack Slater” nos letreiros, ele lembra a surra de bilheteria que o seu “Jurassic Park” deu em 1993 em “O Último Grande Herói”, longa estrelado por Arnold Schwarzenegger que também brincava com a metalinguagem dos “filmes dentro do filme”.

Mas longe deste ser um trabalho de soberba de Spielberg que, ainda este ano, dirigiu o bom “The Post: A Guerra Secreta” (2017) para concorrer ao Oscar e paralelamente conduziu esse pipocão, que mescla atores reais e animação, com o intuito de…se divertir! De fato, ele distribui Easter-Eggs a torto e direito e vai ser necessário assistir mais de uma vez para identificar as referências, prática que acaba por se tornar uma distração para quem assiste.

Estão lá o “Gigante de Ferro” (1999), a moto de “Akira” (1988), clássicos do terror (incluindo uma imersão a um longa de Stanley Kubrick que já é uma das melhores sequências dos últimos anos), os jogos “Halo”, “Mortal Kombat”, “Street Fighter”, “Duke Nuken” e uma infinidade de outros. Tudo embalado por uma trilha-sonora cheia de hits como “Jump” (Van Halen), “Everybody Wants do Rule the World” (Tears For Fears), “We’Re Not Gonna Take It” (Twisted Sister), etc. Mas toda essa overdose funciona como cobertura de um bolo que já tem um recheio vasto e de qualidade por si só.

Em tempos de smartphones em que ficamos conectados 24 horas por dia, é clara a crítica através do futuro distópico, cuja realidade se resume praticamente a um amontoado de favelas verticais, com um cinza predominante, enquanto o multicolorido Oasis é uma fuga do vazio que o mundo de verdade se transformou. Nesse contexto, há alfinetadas às grandes corporações, que buscam o lucro acima de tudo, investindo pesado no estudo da cultura pop para fins mercantis, colocando o lado humano e o desenvolvimento do mundo além do game totalmente para escanteio.

Para isso, o roteiro de Zak Penn (de “X-Men: O Confronto Final”, 2006) traz o retrato de adolescentes que, nesse universo fictício, buscam ser o que não conseguem na vida real. E curioso que mesmo com avatares “descolados”, cheios de tatuagens ou corpos monstruosos, mantêm o jeito tímido e desengonçado de falar (o personagem I-R0k, com voz de T.J. Miller, garante bons risos sempre que aparece), enquanto o empresário Nolan Sorrento usa o avatar de um homem forte de terno, mantendo o status poderoso e a voz autoritária.

Nesse embate entre cultura pop x corporativismo, Spielberg dedica o projeto à geração de jovens, hoje adultos, que praticamente formaram personalidade através das produções referenciadas, que idolatram Ferris Bueller e toda a filmografia de John Hughes (obviamente, também citado), que já se enxergaram naquelas obras de Stephen King com grupos de adolescentes desajustados. Linha tênue bem explicitada no diálogo entre Sorrento e Parzival, quando um testa o outro sobre a real afinidade com os temas. Além, é claro, do clímax, quando a premiação, o poder de controlar a Oasis, é colocada em questão para reais (ou não) amantes de tudo aquilo.

Geração representada pelo criador do jogo, Halliday, vivido propositalmente de maneira estereotipada ao extremo pelo bom Mark Rylance, tornando-o até irreal, místico, como uma mistura de Willy Wonka e Bilbo Bolseiro. O protagonista Tye Sheridan, de corpo franzino, óculos e expressões de medo, convence como o nerd comum que tem diante de si a chance de ir além. Por isso, nesses dois e também na carismática Olivia Cooke, existe um pouco de cada espectador que vibra com cada referência. E claro, muito do próprio Steven Spielberg! O contraponto é o ótimo Ben Mendelsohn, que faz de Sorrento um vilão ameaçador, porém, estúpido, bem típico de filmes dos anos 80.

Mas há imperfeições, além da trama em geral simples, da busca por um “Easter Egg definitivo” numa espécie de “Matrix”, que muito se assemelha aos longas de caça ao tesouro de décadas passadas. Por se tratar de um produto que busca o maior alcance possível da audiência, há passagens do roteiro que são mastigadas, algumas vezes repetindo mais de uma vez, como se o que estivesse acontecendo não ficasse claro. E mesmo com batalhas eficientes e de fácil entendimento da ação, são tantos personagens famosos no ato final que acaba virando uma bagunça e o desfecho acaba por se prolongar em demasia, prejudicando o ritmo nos longos 140 minutos de projeção.

Mas a intenção do diretor nunca foi de fazer uma obra prima da sétima arte. Apesar dos defeitos, só não se diverte com “Jogador Número Um” quem tiver crescido numa bolha gigante. Se fosse nos anos 90, certamente seria aquele longa que você adiantaria a tarefa de casa para não perdê-lo na Sessão da Tarde e alugaria repetidas vezes o VHS. E se não rebobinasse a fita, na devolução pagaria multa!

Nota: 8,5