Crítica: "Han Solo: Uma História Star Wars" é uma "Sessão da Tarde" sem alma 
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Cena Cultural

por Thiago Sampaio

Crítica: “Han Solo: Uma História Star Wars” é uma “Sessão da Tarde” sem alma

Por Thiago Sampaio em Crítica

08 de junho de 2018

Foto: Divulgação

Nenhuma produção da franquia “Star Wars” foi tão problemática como esse “Han Solo: Uma História Star Wars” (Solo: A Star Wars Story, 2018). Tudo começou com a demissão dos diretores Chris Miller e Phil Lord (responsáveis pelo ótimo “Uma Aventura Lego”, 2014). Boatos apontam que o tom cômico em demasia não agradou Kathleen Kennedy, presidente da Lucasfilm. No lugar deles, foi contratado o experiente Ron Howard.

Depois falava-se que a atuação do protagonista Alden Ehrenreich não estava convincente, necessitando contratar um professor de interpretação e passar por refilmagens. Tantas incertezas deram pouco tempo para a produção trabalhar o marketing, tanto que os trailers foram divulgados pouco antes da estreia, quando o corte final nem estava pronto. Conferindo o produto, vemos uma aventura protocolar, que não teme em sair da zona de segurança, talvez por medo de errar. Longe de ser um desastre mas, de tão sem alma própria, será facilmente esquecida pelos fãs da saga.

Na trama, o piloto Han (Alden Ehrenreich) e sua namorada Qi’Ra (Emilia Clarke) buscam algum trabalho. Eles conseguem pôr as mãos em uma substância valiosa que acaba levando à perseguição do Império e à separação entre os dois. Preocupado, ele opta por se infiltrar num plano arriscado, mas que pode render a oportunidade de voltar à terra natal. No caminho, o jovem encontra parceiros importantes, como o também mercenário Beckett (Woody Harrelson), Chewbacca (Joonas Suotamo) e Lando Calrissian (Donald Glover), o proprietário original da Millennium Falcon.

Um grande receio por parte dos fãs era a não necessidade de um longa de origem para Han Solo, um dos personagens favoritos, mas que funcionava muito bem ali como um coadjuvante canastrão, sob a performance emblemática de Harrison Ford. Bom, também poucos se interessavam pelo plano dos rebeldes que roubaram a arquitetura da Estrela da Morte, mas “Rogue One: Uma História Star Wars” (2016), o primeira dessa levas de spin-offs fora da franquia oficial, rendeu um excelente e corajoso filme sobre “guerra nas estrelas”.

Mas deslumbrando lucros, o roteiro de Lawrence Kasdan (do eficiente “Star Wars Episódio VII: O Despertar da Força”, 2015) ao lado do filho Jonathan Kasdan foca justamente em trazer respostas para perguntas que ninguém fez. Explicar a origem do sobrenome Solo (que momento constrangedor!), do apelido Chewie (não era óbvio que era uma abreviação de Chewbacca?!), mostrar como Han ganha o seu famoso blaster, acabam soando como grandes forçadas de barra do que aprofundamento do personagem. No longa de 1977, Han já havia falado que conseguiu a nave Millenium Falcon num jogo de Sabacc, que ela fez o Percurso de Kersell em menos de 12 persecs, mas materializar esses momentos em nada acrescenta para a saga.

No fim das contas, fica como atrativo para os fãs uma série de easter eggs, como o disfarce de Beckett igual ao que Lando Calrissian usa em “O Retorno de Jedi” (1983), o jogo de damas com hologramas de monstros na nave, uma alusão a Jabba The Hut, uma divertida nova versão do clássico diálogo “- Eu te amo! – Eu sei!”, uma aparição-surpresa de um personagem que há muito tempo não era visto, entre muitos outros. Funciona, mas quando uma produção se mostra mais preocupada em distribuir referências do que contar uma história, algo está errado.

Mas a “culpa” é mesmo de Ron Howard que, por mais que tenha ótimos filmes no currículo, como “Apollo 13” (1995) e “Uma Mente Brilhante” (2001), também é conhecido por ser um diretor de fácil manipulação dos estúdios – vide “O Código Da Vinci” (2006), “Anjos e Demônios” (2009) e “Inferno” (2016). Ele entrega o que pedem, pouco se importando com traços autorais. Aqui, comanda algumas cenas de ação legais como o roubo ao trem, do próprio Percurso de Kersell, mas nada de marcante. Até o humor mais pastelão quando presente, que certamente daria uma identidade ao longa, certamente é resquício do que os diretores demitidos deixaram.

Apesar de tanto temor, Alden Ehrenreich está longe de ser o maior problema da produção. Acertadamente ele tenta trazer traços próprios ao invés de copiar Harrison Ford, utilizando apenas alguns detalhes, como o dedo indicador ao falar e a maneira icônica de segurar o revólver. Ao não vermos certos tiques de Ford, como o sorriso de um só lado do rosto, é como se estivéssemos lidando com outro personagem, ainda em formação, mas deixando claro que a personalidade dele é de “quem atira primeiro”, sim. Alden, apenas, não tem charme ou carisma. Apenas está de passagem, à sombra de seu antecessor que apareceu um dia desse, no fim de 2015.

O ótimo elenco de coadjuvantes ajuda muito a dar algum peso. Woody Harrelson traz sua tradicional canastrice com ar paternal num papel perfeito para ele. Emilia Clark, de início, parece destoar de uma interpretação séria (talvez por seguir a condução de Chris Miller e Phil Lord), mas à medida que sua Qi’Ra evolui, ela mostra a autoridade que já mostrou que sabe com sua Daenerys da série “Game of Thrones”. Uma pena que a talentosa Thandie Newton tem pouco tempo em cena para mostrar algo.

Como já era esperado, o grande destaque é mesmo Donald Glover como a versão jovem de Lando Calrissian. Sarcástico, metrossexual, com charme e pieguice na medida certa, é fácil ser convencido que aquele é o mesmo “canalha” vivido Billy Dee Williams. Paul Bettany faz de Dryden um vilão bem interessante, com visual estiloso e armas que poderiam se tornar ícones para a franquia, porém, é bem mal aproveitado pelo roteiro, aparecendo bem menos do que merecia. Como sempre, há um androide, a L3-37 (voz de Phoebe Waller-Bridge) que garante bons risos pelo estilo “ativista”, defensora das minorias, num curioso paralelo com os dias atuais.

Em certo momento, a fala “tenho um bom pressentimento sobre isso”, bem tradicional dos filmes da saga, porém, desta vez com tom otimista, deixa clara a intenção de fazer uma aventura leve. Consegue e temos uma “Sessão da Tarde” que não ofende, mas pouco tem a acrescentar. Por isso, este é o episódio menos audacioso do universo “Star Wars” e, mesmo com os ganchos para uma continuação, ela não deve acontecer por causa dos resultados ruins nas bilheterias. Nem precisava mesmo.

Nota: 5,0

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Crítica: “Han Solo: Uma História Star Wars” é uma “Sessão da Tarde” sem alma

Por Thiago Sampaio em Crítica

08 de junho de 2018

Foto: Divulgação

Nenhuma produção da franquia “Star Wars” foi tão problemática como esse “Han Solo: Uma História Star Wars” (Solo: A Star Wars Story, 2018). Tudo começou com a demissão dos diretores Chris Miller e Phil Lord (responsáveis pelo ótimo “Uma Aventura Lego”, 2014). Boatos apontam que o tom cômico em demasia não agradou Kathleen Kennedy, presidente da Lucasfilm. No lugar deles, foi contratado o experiente Ron Howard.

Depois falava-se que a atuação do protagonista Alden Ehrenreich não estava convincente, necessitando contratar um professor de interpretação e passar por refilmagens. Tantas incertezas deram pouco tempo para a produção trabalhar o marketing, tanto que os trailers foram divulgados pouco antes da estreia, quando o corte final nem estava pronto. Conferindo o produto, vemos uma aventura protocolar, que não teme em sair da zona de segurança, talvez por medo de errar. Longe de ser um desastre mas, de tão sem alma própria, será facilmente esquecida pelos fãs da saga.

Na trama, o piloto Han (Alden Ehrenreich) e sua namorada Qi’Ra (Emilia Clarke) buscam algum trabalho. Eles conseguem pôr as mãos em uma substância valiosa que acaba levando à perseguição do Império e à separação entre os dois. Preocupado, ele opta por se infiltrar num plano arriscado, mas que pode render a oportunidade de voltar à terra natal. No caminho, o jovem encontra parceiros importantes, como o também mercenário Beckett (Woody Harrelson), Chewbacca (Joonas Suotamo) e Lando Calrissian (Donald Glover), o proprietário original da Millennium Falcon.

Um grande receio por parte dos fãs era a não necessidade de um longa de origem para Han Solo, um dos personagens favoritos, mas que funcionava muito bem ali como um coadjuvante canastrão, sob a performance emblemática de Harrison Ford. Bom, também poucos se interessavam pelo plano dos rebeldes que roubaram a arquitetura da Estrela da Morte, mas “Rogue One: Uma História Star Wars” (2016), o primeira dessa levas de spin-offs fora da franquia oficial, rendeu um excelente e corajoso filme sobre “guerra nas estrelas”.

Mas deslumbrando lucros, o roteiro de Lawrence Kasdan (do eficiente “Star Wars Episódio VII: O Despertar da Força”, 2015) ao lado do filho Jonathan Kasdan foca justamente em trazer respostas para perguntas que ninguém fez. Explicar a origem do sobrenome Solo (que momento constrangedor!), do apelido Chewie (não era óbvio que era uma abreviação de Chewbacca?!), mostrar como Han ganha o seu famoso blaster, acabam soando como grandes forçadas de barra do que aprofundamento do personagem. No longa de 1977, Han já havia falado que conseguiu a nave Millenium Falcon num jogo de Sabacc, que ela fez o Percurso de Kersell em menos de 12 persecs, mas materializar esses momentos em nada acrescenta para a saga.

No fim das contas, fica como atrativo para os fãs uma série de easter eggs, como o disfarce de Beckett igual ao que Lando Calrissian usa em “O Retorno de Jedi” (1983), o jogo de damas com hologramas de monstros na nave, uma alusão a Jabba The Hut, uma divertida nova versão do clássico diálogo “- Eu te amo! – Eu sei!”, uma aparição-surpresa de um personagem que há muito tempo não era visto, entre muitos outros. Funciona, mas quando uma produção se mostra mais preocupada em distribuir referências do que contar uma história, algo está errado.

Mas a “culpa” é mesmo de Ron Howard que, por mais que tenha ótimos filmes no currículo, como “Apollo 13” (1995) e “Uma Mente Brilhante” (2001), também é conhecido por ser um diretor de fácil manipulação dos estúdios – vide “O Código Da Vinci” (2006), “Anjos e Demônios” (2009) e “Inferno” (2016). Ele entrega o que pedem, pouco se importando com traços autorais. Aqui, comanda algumas cenas de ação legais como o roubo ao trem, do próprio Percurso de Kersell, mas nada de marcante. Até o humor mais pastelão quando presente, que certamente daria uma identidade ao longa, certamente é resquício do que os diretores demitidos deixaram.

Apesar de tanto temor, Alden Ehrenreich está longe de ser o maior problema da produção. Acertadamente ele tenta trazer traços próprios ao invés de copiar Harrison Ford, utilizando apenas alguns detalhes, como o dedo indicador ao falar e a maneira icônica de segurar o revólver. Ao não vermos certos tiques de Ford, como o sorriso de um só lado do rosto, é como se estivéssemos lidando com outro personagem, ainda em formação, mas deixando claro que a personalidade dele é de “quem atira primeiro”, sim. Alden, apenas, não tem charme ou carisma. Apenas está de passagem, à sombra de seu antecessor que apareceu um dia desse, no fim de 2015.

O ótimo elenco de coadjuvantes ajuda muito a dar algum peso. Woody Harrelson traz sua tradicional canastrice com ar paternal num papel perfeito para ele. Emilia Clark, de início, parece destoar de uma interpretação séria (talvez por seguir a condução de Chris Miller e Phil Lord), mas à medida que sua Qi’Ra evolui, ela mostra a autoridade que já mostrou que sabe com sua Daenerys da série “Game of Thrones”. Uma pena que a talentosa Thandie Newton tem pouco tempo em cena para mostrar algo.

Como já era esperado, o grande destaque é mesmo Donald Glover como a versão jovem de Lando Calrissian. Sarcástico, metrossexual, com charme e pieguice na medida certa, é fácil ser convencido que aquele é o mesmo “canalha” vivido Billy Dee Williams. Paul Bettany faz de Dryden um vilão bem interessante, com visual estiloso e armas que poderiam se tornar ícones para a franquia, porém, é bem mal aproveitado pelo roteiro, aparecendo bem menos do que merecia. Como sempre, há um androide, a L3-37 (voz de Phoebe Waller-Bridge) que garante bons risos pelo estilo “ativista”, defensora das minorias, num curioso paralelo com os dias atuais.

Em certo momento, a fala “tenho um bom pressentimento sobre isso”, bem tradicional dos filmes da saga, porém, desta vez com tom otimista, deixa clara a intenção de fazer uma aventura leve. Consegue e temos uma “Sessão da Tarde” que não ofende, mas pouco tem a acrescentar. Por isso, este é o episódio menos audacioso do universo “Star Wars” e, mesmo com os ganchos para uma continuação, ela não deve acontecer por causa dos resultados ruins nas bilheterias. Nem precisava mesmo.

Nota: 5,0