Crítica: "Deadpool 2" funciona ao ampliar a fórmula que deu certo no primeiro 
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Cena Cultural

por Thiago Sampaio

Crítica: “Deadpool 2” funciona ao ampliar a fórmula que deu certo no primeiro

Por Thiago Sampaio em Crítica

22 de Maio de 2018

Foto: Divulgação

O primeiro “Deadpool” (idem, 2016) foi essencial para quebrar o padrão dos filmes de super heróis que ainda são lançados em exaustão. Com censura imprópria para menores de 18 anos, piadas referentes a diversos ícones da cultura pop, tirando sarro das gafes e clichês do gênero e sem levar nem a si próprio à sério, deu uma guinada na carreira de Ryan Reynolds, que tomou este como seu projeto pessoal.

Isso, além de facilitar para que a Fox permitisse longas com traços autorais, nem tão voltados para o público infanto-juvenil, caso de “Logan” (idem, 2017). Era uma aposta arriscada, tanto que contou com um orçamento modesto. Assim, “Deadpool 2” (idem, 2018) chega com investimento bem maior, amplia suas pretensões, mas o resultado é semelhante justamente por seguir a fórmula que funcionou.

Na trama, o mercenário Wade Wilson (Reynolds), o Deadpool, combate criminosos ao redor de todo o mundo, enquanto traça planos futuros com a namorada Vanessa (Morena Baccarin). Quando o super soldado Cable (Josh Brolin) vem do futuro em uma missão para assassinar o jovem mutante Russel (Julian Dennison), o tagarela precisa aprender o que é ser herói de verdade para salvá-lo. Para isso, ele precisa recorrer a integrantes dos X-Men e inicia a formação de um novo grupo, a X-Force.

Se o longa de 2016 custou apenas U$ 58 milhões (valor bem pequeno para um longa do estilo), a sequência custou quase o dobro, U$ 110 milhões, permitindo a realização de cenas grandiosas e a inclusão de mais personagens, seguindo a tendência de que as continuações precisam ter dimensões maiores em quase tudo. O diretor Tim Miller, que fez ali a sua estreia, saiu para assumir o próximo longa da franquia “O Exterminador do Futuro” e deu lugar a David Leitch, que é “um dos caras que mataram o cachorro do John Wick” (os créditos engraçadinhos estão de volta) em 2014 e de “Atômica” (Atomic Blonde, 2017), que por conta da afinidade com o gênero ação, se mostrou uma escolha acertada.

Há momentos realmente interessantes, como a primeira luta entre Wade Wilson e Cable na prisão e a perseguição de carros em que se destaca o “poder da sorte” da Dominó (Zazie Beetz, um dos pontos altos do longa). Mas até as cenas que seriam de pura destruição tomam uma inclinação para o humor, ainda que a violência esteja até mais gráfica do que o anterior. A primeira ação da X-Force (nomes como Terry Crews e Bill Skarsgård surgem apenas como chamarizes) e o brutal embate entre “dois personagens de CGI” (claro, piada devidamente explicada em cena) funcionam pelo desenrolar cômico ou pelas gags construídas em cima daqueles momentos. Até porque muitos efeitos especiais ainda soam limitados.

Durante as duas horas, temos uma metralhadora de piadas e referências a tudo que se possa imaginar. Abertura no estilo James Bond com música da Céline Dion, citação ao tom sombrio dos longas da DC Comics, ao fato de Cable e Thanos serem interpretados pelo mesmo ator…são previsíveis, mas inevitavelmente criam uma proximidade com o espectador. Outras já abordadas no primeiro zoando as próprias limitações da produção voltam a acontecer, porém, ganham abordagens ainda melhores, como o fato de a Mansão X estar estar quase sempre vazia, aparecendo apenas Colossus e a Míssil Adolescente Megassônico, e às escolhas erradas da carreira de Ryan Reynolds.

Ainda que o personagem-título quebre bem menos a quarta parede para interagir com o espectador desta vez, a narrativa dificilmente se limita à diegese (a realidade vista apenas no filme), citando até edições dos quadrinhos em que determinado vilão aparece. “Os Goonies” (1985), “Flashdance” (1983), “Digam o Que Quiserem” (1989), “Instinto Selvagem” (1992) e muitos outros ganham lembranças. São inúmeros os easter-eggs distribuídos para os fãs, que incluem participações relâmpagos (sim, se piscar, perdeu) de atores famosos e personagens surpresas que conseguiram esconder bem até o lançamento.

Mas o excesso acaba por prejudicar os momentos sérios do longa, já que o roteiro da dupla Rhett Reese e Paul Wernick, que retornam do primeiro, com intervenções do próprio Reynolds, busca apresentar um desenvolvimento dramático para o protagonista. Desde o início, ele explica que se trata de “um filme sobre família”, o que de certa forma é verdade. Não à toa, Wade Wilson aparece bem mais tempo sem máscara com o intuito de humanizá-lo, aprofundando o amor que sente por Vanessa e o desejo de construir uma família, o que o leva também a agir em equipe. Mas como sabemos que a qualquer momento haverá uma piada, fica difícil levar à sério. A montagem também prejudica esse efeito, dando a impressão que o filme como um todo é um grande conjunto de esquetes diferentes entre si.

Acontece que este é o projeto de Ryan Reynolds e não tem como negar que ele segura a barra com um carisma diferenciado. Ele não só está se divertindo em cena, como está mais à vontade no papel e fica difícil imaginar outro para o lugar dele. Já Josh Brolin faz o que pode para conferir humanidade para além da cara fechada e o visual estiloso de Cable, mas o tratamento simplificado ao personagem (que nos quadrinhos se chama Nathan Summers, filho do Ciclope) o deixa de mãos atadas, diferente de quando estava debaixo de uma tonelada de CGI em “Vingadores: Guerra Infinita” (Avengers: Infinity War, 2018). Quem rouba a cena é o jovem Julian Dennison, como Russell, um talento a ser melhor explorado no futuro.

Perdendo bastante por causa da ausência do fator surpresa, “Deadpool 2” mantém o bom nível cômico e melhora na ação, mas corre o risco de se tornar refém da repetição da fórmula que ele mesmo criou. Por ora, ainda garante situações hilárias se abraçarmos a ideia do absurdo que ele propõe. Se parar mesmo neste segundo episódio, seguindo adiante com a franquia X-Force como tudo indica, está de ótimo tamanho.

Obs: há duas excelentes cenas pós-créditos.

Nota: 8,0

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Crítica: “Deadpool 2” funciona ao ampliar a fórmula que deu certo no primeiro

Por Thiago Sampaio em Crítica

22 de Maio de 2018

Foto: Divulgação

O primeiro “Deadpool” (idem, 2016) foi essencial para quebrar o padrão dos filmes de super heróis que ainda são lançados em exaustão. Com censura imprópria para menores de 18 anos, piadas referentes a diversos ícones da cultura pop, tirando sarro das gafes e clichês do gênero e sem levar nem a si próprio à sério, deu uma guinada na carreira de Ryan Reynolds, que tomou este como seu projeto pessoal.

Isso, além de facilitar para que a Fox permitisse longas com traços autorais, nem tão voltados para o público infanto-juvenil, caso de “Logan” (idem, 2017). Era uma aposta arriscada, tanto que contou com um orçamento modesto. Assim, “Deadpool 2” (idem, 2018) chega com investimento bem maior, amplia suas pretensões, mas o resultado é semelhante justamente por seguir a fórmula que funcionou.

Na trama, o mercenário Wade Wilson (Reynolds), o Deadpool, combate criminosos ao redor de todo o mundo, enquanto traça planos futuros com a namorada Vanessa (Morena Baccarin). Quando o super soldado Cable (Josh Brolin) vem do futuro em uma missão para assassinar o jovem mutante Russel (Julian Dennison), o tagarela precisa aprender o que é ser herói de verdade para salvá-lo. Para isso, ele precisa recorrer a integrantes dos X-Men e inicia a formação de um novo grupo, a X-Force.

Se o longa de 2016 custou apenas U$ 58 milhões (valor bem pequeno para um longa do estilo), a sequência custou quase o dobro, U$ 110 milhões, permitindo a realização de cenas grandiosas e a inclusão de mais personagens, seguindo a tendência de que as continuações precisam ter dimensões maiores em quase tudo. O diretor Tim Miller, que fez ali a sua estreia, saiu para assumir o próximo longa da franquia “O Exterminador do Futuro” e deu lugar a David Leitch, que é “um dos caras que mataram o cachorro do John Wick” (os créditos engraçadinhos estão de volta) em 2014 e de “Atômica” (Atomic Blonde, 2017), que por conta da afinidade com o gênero ação, se mostrou uma escolha acertada.

Há momentos realmente interessantes, como a primeira luta entre Wade Wilson e Cable na prisão e a perseguição de carros em que se destaca o “poder da sorte” da Dominó (Zazie Beetz, um dos pontos altos do longa). Mas até as cenas que seriam de pura destruição tomam uma inclinação para o humor, ainda que a violência esteja até mais gráfica do que o anterior. A primeira ação da X-Force (nomes como Terry Crews e Bill Skarsgård surgem apenas como chamarizes) e o brutal embate entre “dois personagens de CGI” (claro, piada devidamente explicada em cena) funcionam pelo desenrolar cômico ou pelas gags construídas em cima daqueles momentos. Até porque muitos efeitos especiais ainda soam limitados.

Durante as duas horas, temos uma metralhadora de piadas e referências a tudo que se possa imaginar. Abertura no estilo James Bond com música da Céline Dion, citação ao tom sombrio dos longas da DC Comics, ao fato de Cable e Thanos serem interpretados pelo mesmo ator…são previsíveis, mas inevitavelmente criam uma proximidade com o espectador. Outras já abordadas no primeiro zoando as próprias limitações da produção voltam a acontecer, porém, ganham abordagens ainda melhores, como o fato de a Mansão X estar estar quase sempre vazia, aparecendo apenas Colossus e a Míssil Adolescente Megassônico, e às escolhas erradas da carreira de Ryan Reynolds.

Ainda que o personagem-título quebre bem menos a quarta parede para interagir com o espectador desta vez, a narrativa dificilmente se limita à diegese (a realidade vista apenas no filme), citando até edições dos quadrinhos em que determinado vilão aparece. “Os Goonies” (1985), “Flashdance” (1983), “Digam o Que Quiserem” (1989), “Instinto Selvagem” (1992) e muitos outros ganham lembranças. São inúmeros os easter-eggs distribuídos para os fãs, que incluem participações relâmpagos (sim, se piscar, perdeu) de atores famosos e personagens surpresas que conseguiram esconder bem até o lançamento.

Mas o excesso acaba por prejudicar os momentos sérios do longa, já que o roteiro da dupla Rhett Reese e Paul Wernick, que retornam do primeiro, com intervenções do próprio Reynolds, busca apresentar um desenvolvimento dramático para o protagonista. Desde o início, ele explica que se trata de “um filme sobre família”, o que de certa forma é verdade. Não à toa, Wade Wilson aparece bem mais tempo sem máscara com o intuito de humanizá-lo, aprofundando o amor que sente por Vanessa e o desejo de construir uma família, o que o leva também a agir em equipe. Mas como sabemos que a qualquer momento haverá uma piada, fica difícil levar à sério. A montagem também prejudica esse efeito, dando a impressão que o filme como um todo é um grande conjunto de esquetes diferentes entre si.

Acontece que este é o projeto de Ryan Reynolds e não tem como negar que ele segura a barra com um carisma diferenciado. Ele não só está se divertindo em cena, como está mais à vontade no papel e fica difícil imaginar outro para o lugar dele. Já Josh Brolin faz o que pode para conferir humanidade para além da cara fechada e o visual estiloso de Cable, mas o tratamento simplificado ao personagem (que nos quadrinhos se chama Nathan Summers, filho do Ciclope) o deixa de mãos atadas, diferente de quando estava debaixo de uma tonelada de CGI em “Vingadores: Guerra Infinita” (Avengers: Infinity War, 2018). Quem rouba a cena é o jovem Julian Dennison, como Russell, um talento a ser melhor explorado no futuro.

Perdendo bastante por causa da ausência do fator surpresa, “Deadpool 2” mantém o bom nível cômico e melhora na ação, mas corre o risco de se tornar refém da repetição da fórmula que ele mesmo criou. Por ora, ainda garante situações hilárias se abraçarmos a ideia do absurdo que ele propõe. Se parar mesmo neste segundo episódio, seguindo adiante com a franquia X-Force como tudo indica, está de ótimo tamanho.

Obs: há duas excelentes cenas pós-créditos.

Nota: 8,0