Crítica: "Aniquilação" e o bom uso da ficção como metáfora para a autodestruição humana 
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Cena Cultural

por Thiago Sampaio

Crítica: “Aniquilação” e o bom uso da ficção como metáfora para a autodestruição humana

Por Thiago Sampaio em Crítica

20 de Março de 2018

Foto: Divulgação

Desde os primórdios da humanidade, muito antes de o cinema existir, o gênero ficção científica já servia como ferramenta de cunho existencialista, para além apenas do entretenimento. Júlio Verne, H.G. Wells, dentre tantos outros nomes da literatura, já usavam suas artes imaginando transformação. E esta palavra é a força motriz deste “Aniquilação” (Annihilation, 2018), segundo longa dirigido por Alex Garland, que antes havia mostrado seu talento com o também sci-fi filosofal “Ex Machina: Instinto Artificial” (Ex Machina, 2014).

Novo longa que, por ter sido um fracasso nos Estados Unidos no fim de semana de estreia, foi vendido para a Netflix e lançado pela plataforma de streaming para o resto do mundo (deixando claro que não se trata de uma produção original). Em termos de expectativa e repercussão pela internet, deu muito certo! Mas dificilmente entrará para o hall dos grandes clássicos do gênero, apesar de render uma profunda reflexão.

A trama mostra uma bióloga (Natalie Portman) que se junta a uma expedição secreta com outras três mulheres em uma região conhecida como Área X, um local isolado da civilização onde as leis da natureza não se aplicam. Lá, ela precisa lidar com uma misteriosa contaminação, um animal mortal e ainda procura por pistas de colegas que desaparecem, incluindo seu marido (Oscar Isaac).

De cara, é possível ver o ritmo propositalmente lento aplicado por Alex Garland. A melancolia é constante permeando entre personagens perdidos num vazio com pouco ou nada a perder na vida. A edição não linear já deixa claro para o espectador na abertura que Lena (Portman) foi a única a sobreviver na missão. Voltando para o “início”, em que conferimos o luto da personagem pela partida do marido, logo algo radical acontece para desenrolar a misteriosa expedição.

Até parece uma produção sobre salvação com toques de horror convencional, mas sempre estão distribuídos indícios da visão niilista do realizador, que já mostrava a criatividade como roteirista no ótimo “Sunshine – Alerta Solar” (Sunshine, 2007). Baseando-se no livro de Jeff Vandermeer, Garland traz sua visão peculiar sobre a natureza autodestrutiva dos seres humanos. À medida que as cinco mulheres avançam na missão quase suicida, fica cada vez mais claro que cada uma tem seu motivo particular para não ver sentido em continuar a vida.

Câncer, dependência química, alcoolismo, luto pela perda de familiar próximo, peso na consciência por adultério, traumas diversos (e tão comuns quanto as desgraças que vemos diariamente nos noticiários) que colocam a existência daquelas mulheres numa balança constante. Depressão! É louvável como o roteirista/diretor tem a preocupação de deixar claro, através de diálogos até curtos e diretos, como a personalidade de cada uma mudou drasticamente em decorrência desses fatores.

Não precisa ser gênio para descobrir que a área conhecida apenas como “The Shimmering” (na tradução, “O Brilho”) se trata de uma força alienígena. Porém, ao invés de os “ETs” possuírem forma física definida, é curioso como somos apresentados a um mundo em que todo tipo de mutação é possível. Um réptil gigante com arcada semelhante a de tubarão, plantas em forma de humanos e até um híbrido de urso que grita a última palavra da sua vítima…é bizarro, mas atiça a curiosidade, ao mesmo tempo que funciona como suspense psicológico.

Inevitável comparar tais transformações com a destruição que o próprio homem faz com a natureza. Desmatamento, poluição, caça de animais, além da própria automutilação já citada (tanto que a constituição do sangue muda só ao estar lá no “Brilho”). Quando a personagem de Portman se vê diante de um espécie de “espelho” que imita os seus movimentos, nada mais é do que o meio se voltando contra ela. Curioso que é o reflexo quem sempre parece andar para frente, a ponto de esmagar a “original”, numa metáfora nem tão difícil de enxergar.

Mas Alex Garland tem a preocupação em deixar nada óbvio, mesmo espalhando códigos de narrativa em diversos detalhes. Começando pelo reflexo no copo d’água, que aparece no começo do filme cobrindo a mão do casal Portman-Isaac e, ao final, é possível ver a refração das partículas em outro copo. Quando Lena está dando aula, usa como exemplo uma célula de um câncer em uma mulher, situação que surge adiante. Ao buscar lidar com o luto, ela pinta o quarto de branco, na tentativa de clarear a própria vida. Bela a transição de planos ao induzir uma mutação, quando a paleta branca se mistura com o azul escuro, logo se tornando uma coisa só.

Se por um lado o diretor utiliza bastante os planos bastante abertos e demorados, focando o complexo mise-en-scène, que bruscamente muda de cenários escuros e claustrofóbico para paisagens de florestas arborizadas, é de lamentar os efeitos especiais obsoletos, deixando claro o uso em demasia de CGI sob o fundo verde. O uso de sintetizadores na trilha sonora até combina com a “descoberta” final, mas soa um tanto repetitiva, soando bem parecido com os recentes “A Chegada” (“Arrival”, 2016) e “Blade Runner 2049” (idem, 2017). Esses, sim, legítimos novos clássicos.

Mesmo não estando no melhor papel da carreira, Natalie Portman faz um trabalho correto, conferindo uma constante angústia de quem carrega uma grande culpa e age movida pelo desespero. Destaque também para a veterana Jennifer Jason Leigh, que apresenta o contraponto, uma extrema frieza de quem já perdeu qualquer tipo de esperança. O restante da equipe, formada por Tessa Thompson, Tuva Novotny e Gina Rodriguez também está eficiente, cada uma com sua personalidade bem definida. Por outro lado, Oscar Isaac tem pouca chance de mostrar algo, se limitando a um ar desnorteado que o papel exige.

Ousar dizer que tais pretensões são inovadoras é um exagero e tanto. A série “Star Trek” dos anos 60 já trazia esses e muitos outros questionamentos. Mas por buscar não responder as questões que são apresentadas, “Aniquilação” é um longa que certamente vai fazer o espectador pensar. O que é bem positivo por não ignorar o potencial intelectual de quem assiste. Claro, muita gente vai odiar e como não tem que pagar ingresso, mudar a opção do que assistir no Netflix é bem mais fácil.

Nota: 8,5

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Crítica: “Aniquilação” e o bom uso da ficção como metáfora para a autodestruição humana

Por Thiago Sampaio em Crítica

20 de Março de 2018

Foto: Divulgação

Desde os primórdios da humanidade, muito antes de o cinema existir, o gênero ficção científica já servia como ferramenta de cunho existencialista, para além apenas do entretenimento. Júlio Verne, H.G. Wells, dentre tantos outros nomes da literatura, já usavam suas artes imaginando transformação. E esta palavra é a força motriz deste “Aniquilação” (Annihilation, 2018), segundo longa dirigido por Alex Garland, que antes havia mostrado seu talento com o também sci-fi filosofal “Ex Machina: Instinto Artificial” (Ex Machina, 2014).

Novo longa que, por ter sido um fracasso nos Estados Unidos no fim de semana de estreia, foi vendido para a Netflix e lançado pela plataforma de streaming para o resto do mundo (deixando claro que não se trata de uma produção original). Em termos de expectativa e repercussão pela internet, deu muito certo! Mas dificilmente entrará para o hall dos grandes clássicos do gênero, apesar de render uma profunda reflexão.

A trama mostra uma bióloga (Natalie Portman) que se junta a uma expedição secreta com outras três mulheres em uma região conhecida como Área X, um local isolado da civilização onde as leis da natureza não se aplicam. Lá, ela precisa lidar com uma misteriosa contaminação, um animal mortal e ainda procura por pistas de colegas que desaparecem, incluindo seu marido (Oscar Isaac).

De cara, é possível ver o ritmo propositalmente lento aplicado por Alex Garland. A melancolia é constante permeando entre personagens perdidos num vazio com pouco ou nada a perder na vida. A edição não linear já deixa claro para o espectador na abertura que Lena (Portman) foi a única a sobreviver na missão. Voltando para o “início”, em que conferimos o luto da personagem pela partida do marido, logo algo radical acontece para desenrolar a misteriosa expedição.

Até parece uma produção sobre salvação com toques de horror convencional, mas sempre estão distribuídos indícios da visão niilista do realizador, que já mostrava a criatividade como roteirista no ótimo “Sunshine – Alerta Solar” (Sunshine, 2007). Baseando-se no livro de Jeff Vandermeer, Garland traz sua visão peculiar sobre a natureza autodestrutiva dos seres humanos. À medida que as cinco mulheres avançam na missão quase suicida, fica cada vez mais claro que cada uma tem seu motivo particular para não ver sentido em continuar a vida.

Câncer, dependência química, alcoolismo, luto pela perda de familiar próximo, peso na consciência por adultério, traumas diversos (e tão comuns quanto as desgraças que vemos diariamente nos noticiários) que colocam a existência daquelas mulheres numa balança constante. Depressão! É louvável como o roteirista/diretor tem a preocupação de deixar claro, através de diálogos até curtos e diretos, como a personalidade de cada uma mudou drasticamente em decorrência desses fatores.

Não precisa ser gênio para descobrir que a área conhecida apenas como “The Shimmering” (na tradução, “O Brilho”) se trata de uma força alienígena. Porém, ao invés de os “ETs” possuírem forma física definida, é curioso como somos apresentados a um mundo em que todo tipo de mutação é possível. Um réptil gigante com arcada semelhante a de tubarão, plantas em forma de humanos e até um híbrido de urso que grita a última palavra da sua vítima…é bizarro, mas atiça a curiosidade, ao mesmo tempo que funciona como suspense psicológico.

Inevitável comparar tais transformações com a destruição que o próprio homem faz com a natureza. Desmatamento, poluição, caça de animais, além da própria automutilação já citada (tanto que a constituição do sangue muda só ao estar lá no “Brilho”). Quando a personagem de Portman se vê diante de um espécie de “espelho” que imita os seus movimentos, nada mais é do que o meio se voltando contra ela. Curioso que é o reflexo quem sempre parece andar para frente, a ponto de esmagar a “original”, numa metáfora nem tão difícil de enxergar.

Mas Alex Garland tem a preocupação em deixar nada óbvio, mesmo espalhando códigos de narrativa em diversos detalhes. Começando pelo reflexo no copo d’água, que aparece no começo do filme cobrindo a mão do casal Portman-Isaac e, ao final, é possível ver a refração das partículas em outro copo. Quando Lena está dando aula, usa como exemplo uma célula de um câncer em uma mulher, situação que surge adiante. Ao buscar lidar com o luto, ela pinta o quarto de branco, na tentativa de clarear a própria vida. Bela a transição de planos ao induzir uma mutação, quando a paleta branca se mistura com o azul escuro, logo se tornando uma coisa só.

Se por um lado o diretor utiliza bastante os planos bastante abertos e demorados, focando o complexo mise-en-scène, que bruscamente muda de cenários escuros e claustrofóbico para paisagens de florestas arborizadas, é de lamentar os efeitos especiais obsoletos, deixando claro o uso em demasia de CGI sob o fundo verde. O uso de sintetizadores na trilha sonora até combina com a “descoberta” final, mas soa um tanto repetitiva, soando bem parecido com os recentes “A Chegada” (“Arrival”, 2016) e “Blade Runner 2049” (idem, 2017). Esses, sim, legítimos novos clássicos.

Mesmo não estando no melhor papel da carreira, Natalie Portman faz um trabalho correto, conferindo uma constante angústia de quem carrega uma grande culpa e age movida pelo desespero. Destaque também para a veterana Jennifer Jason Leigh, que apresenta o contraponto, uma extrema frieza de quem já perdeu qualquer tipo de esperança. O restante da equipe, formada por Tessa Thompson, Tuva Novotny e Gina Rodriguez também está eficiente, cada uma com sua personalidade bem definida. Por outro lado, Oscar Isaac tem pouca chance de mostrar algo, se limitando a um ar desnorteado que o papel exige.

Ousar dizer que tais pretensões são inovadoras é um exagero e tanto. A série “Star Trek” dos anos 60 já trazia esses e muitos outros questionamentos. Mas por buscar não responder as questões que são apresentadas, “Aniquilação” é um longa que certamente vai fazer o espectador pensar. O que é bem positivo por não ignorar o potencial intelectual de quem assiste. Claro, muita gente vai odiar e como não tem que pagar ingresso, mudar a opção do que assistir no Netflix é bem mais fácil.

Nota: 8,5