Crítica: "Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald" é o mais problemático de toda a saga 
Publicidade

Cena Cultural

por Thiago Sampaio

Crítica: “Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald” é o mais problemático de toda a saga

Por Thiago Sampaio em Crítica

21 de novembro de 2018

Foto: Divulgação

Os “filmes do Harry Potter sem o Harry Potter”, como chamam o criativo pessoal do Choque de Cultura , têm a missão não muito difícil de seguir arrecadando muito através dos fãs lunáticos por aquele universo. O longa de 2016 se mostrou eficiente, porém, pairava a dúvida se haveria material para cinco longas-metragens. Pois bem, este “Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald” (Fantastic Beasts: The Crimes of Grindelwald, 2018) continua como um deleite visual, mas com uma trama enrolada e que pouco avança para a narrativa principal. É certamente o mais episódico de toda a saga, ficando claro que seu intuito é preparar o terreno para o que está por vir.

Na trama, Newt Scamander (Eddie Redmayne) é recrutado pelo seu antigo professor em Hogwarts, Alvo Dumbledore (Jude Law), para enfrentar o bruxo das trevas Gellert Grindelwald (Johnny Depp), que escapou da custódia da Macusa (Congresso Mágico dos EUA) e reúne seguidores, dividindo o mundo entre seres de magos sangue puro e seres não-mágicos.

O fato de a própria J.K. Rowling, autora dos livros e a mente que criou aquele universo, assinar o roteiro acaba por tropeçar nas próprias pretensões. Ela sempre mostrou habilidade nas obras literárias ao construir a relação entre vários personagens numa trama que decorria por quase uma década, mas ao elaborar essa vertente num texto para o cinema, muita coisa soa aleatória e num ritmo bem problemático. Com a intenção de apresentar algumas caras novas e seguir o rumo com conhecidos, as inúmeras subtramas familiares parecem andar em círculos e pouco contribuem para a história andar.

Resumindo: tudo se trata de o grande vilão iniciar o seu plano de eliminar os “trouxas” (ou “não maj”) e passa a perseguir o jovem Creedence pois ele é uma espécie de chave para combater quem pode impedi-lo, Alvo Dumbledore. O discurso de Grindelwald no final é o ponto alto, convence, mas a impressão é que ali se trata de um pré-clímax. Só para não passar batido, acontece depois uma cena de ação com um dragão azul bem desnecessária. Quando finalmente acontece algo para tocar esse arco, o filme acaba! Com um desfecho que dá um nó no juízo dos fãs dos livros, resta esperar para 2020 e conferir o que estão preparando.

Então, esses 134 minutos são reservados a dar a chance para um monte de personagem e fan-services. Um dos destaques do longa de 2016 como o humano que se encanta com tudo aquilo e assiste “de camarote”, Kowalski (o carismático Dan Fogler) está completamente deslocado aqui. Se no final do longa anterior ele teve a memória apagada, aqui ele apenas diz que “a mágica não funcionou” e pronto, segue o jogo. Por que? O roteiro quis, ora! A relação com Queenie (Alison Sundol) fica fora de contexto e ela tem como única função carregar a trama para Paris (apresentando, então, o Ministério da Magia da França).

Leta Lestrange (a boa Zoë Kravitz, aqui algemada pelo script), tem um envolvimento com o protagonista Newt Scamander e o seu irmão Theseus (Callum Turner) que é pouco abordado, pois sua presença ali é para narrar a principal reviravolta de maneira expositiva. O mago Yusuf (o apático William Nadylam) se restringe a seguir a turma do bem, não se define entre vilão ou amigo e, no fim das contas, o espectador sequer lembra que ele existe. Inclusive, ele também fica encarregado de mastigar uma explicação de forma bem didática. Pior ainda é Nicolas Flamel (Brontis Jodorowsky), que só aparece por ser alguém conhecido das histórias anteriores mas não tem utilidade alguma.

Funcionário cativo da Warner Bros. para a franquia, David Yates parece tentar inovar nas poucas opções que o roteiro truncado o oferece, mas, ainda assim, não é bem sucedido. A sequência da fuga de Grindelwald no minutos iniciais, que era para ser emblemática, é cheia de cortes excessivos e fica confuso compreender o que acontece em cena. Ele utiliza de fotografias escuras em demasia sem propósito aparente, como no primeiro diálogo de Newt com Dumbledore (por mais que se entenda que ali eles estejam tramando algo em segredo).

Mas também não só tem derrapadas. Quando toca a trilha sonora clássica de James Newton Howard no surgir Hogwarts ao fundo, a nostalgia transborda, sendo devoto ou não a esse mundo. Para ainda fazer sentido ao título “Animais Fantásticos”, o gigante feroz e fofo Zowu rende momentos bem divertidos, os gatos monstruosos Matagots são bem estilosos e garantem uma caça bem funcional. Tudo, bom frisar, com efeitos especiais impecáveis e direção de arte primorosa, de modo que o infladíssimo orçamento de U$ 200 milhões pode ser visto em cena. Tudo é muito bonito.

Um dos poucos a serem desenvolvidos, Newt permite que Eddie Redmayne entregue mais uma boa performance, trazendo ao rapaz traços próprios, tímido e que desvia o olhar ao dialogar com um humano, justificando a sua maior afeição com os animais. No papel de Tina, Katherine Waterston continua de uma meiguice extrema, rendendo uma química que funciona com o personagem principal.

Encarnando o jovem Dumbledore, Jude Law rouba a cena sempre que aparece. Ele não só capta pequenos trejeitos de Richard Harris e Michael Gambon (intérpretes da sua versão velha), como traz seu charme próprio. Infelizmente a relação dele com Grindewald fica apenas sugerida, deixando o aprofundamento para os próximos episódios. Ezra Miller faz o que pode para fazer de Creedence alguém perturbado, vítima dos abusos da infância, sempre com cabeça baixa, olhar desconfiado e falas ligeiras. Pena que ela sirva apenas como uma peça a ser perseguida o tempo inteiro, quando na verdade ganharia força caso tivesse a origem revelada mais cedo.

Escolha criticada por conta de polêmicas pessoais, Johnny Depp responde com a incrível atuação. Ele deixa de lado os trejeitos do pirata Jack Sparrow e mostra uma presença forte de um típico ditador que fala com calma e convicção, não necessariamente sendo mau só por assim ser. O monólogo para arrebanhar seguidores sob o argumento de que a visão sobre as “minorias” não se trata de ódio, mas que eles podem ser aproveitados de outra maneira, é contundente e atual. Bem atual!

Os fãs alucinados certamente vão curtir as inúmeras referências, pois elas estão aos montes, até escondidas como easter-eggs (a professora Minerva e Nagini, a cobra de Voldemort, estão lá). Mas um produto não funciona apenas para agradar um público alvo, por maior que ele seja. Fica a expectativa pelo próximo episódio, que terá filmagens no Rio de Janeiro, enquanto esse longa provavelmente cairá no esquecimento com o passar dos anos.

Nota: 5,0

Publicidade

Crítica: “Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald” é o mais problemático de toda a saga

Por Thiago Sampaio em Crítica

21 de novembro de 2018

Foto: Divulgação

Os “filmes do Harry Potter sem o Harry Potter”, como chamam o criativo pessoal do Choque de Cultura , têm a missão não muito difícil de seguir arrecadando muito através dos fãs lunáticos por aquele universo. O longa de 2016 se mostrou eficiente, porém, pairava a dúvida se haveria material para cinco longas-metragens. Pois bem, este “Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald” (Fantastic Beasts: The Crimes of Grindelwald, 2018) continua como um deleite visual, mas com uma trama enrolada e que pouco avança para a narrativa principal. É certamente o mais episódico de toda a saga, ficando claro que seu intuito é preparar o terreno para o que está por vir.

Na trama, Newt Scamander (Eddie Redmayne) é recrutado pelo seu antigo professor em Hogwarts, Alvo Dumbledore (Jude Law), para enfrentar o bruxo das trevas Gellert Grindelwald (Johnny Depp), que escapou da custódia da Macusa (Congresso Mágico dos EUA) e reúne seguidores, dividindo o mundo entre seres de magos sangue puro e seres não-mágicos.

O fato de a própria J.K. Rowling, autora dos livros e a mente que criou aquele universo, assinar o roteiro acaba por tropeçar nas próprias pretensões. Ela sempre mostrou habilidade nas obras literárias ao construir a relação entre vários personagens numa trama que decorria por quase uma década, mas ao elaborar essa vertente num texto para o cinema, muita coisa soa aleatória e num ritmo bem problemático. Com a intenção de apresentar algumas caras novas e seguir o rumo com conhecidos, as inúmeras subtramas familiares parecem andar em círculos e pouco contribuem para a história andar.

Resumindo: tudo se trata de o grande vilão iniciar o seu plano de eliminar os “trouxas” (ou “não maj”) e passa a perseguir o jovem Creedence pois ele é uma espécie de chave para combater quem pode impedi-lo, Alvo Dumbledore. O discurso de Grindelwald no final é o ponto alto, convence, mas a impressão é que ali se trata de um pré-clímax. Só para não passar batido, acontece depois uma cena de ação com um dragão azul bem desnecessária. Quando finalmente acontece algo para tocar esse arco, o filme acaba! Com um desfecho que dá um nó no juízo dos fãs dos livros, resta esperar para 2020 e conferir o que estão preparando.

Então, esses 134 minutos são reservados a dar a chance para um monte de personagem e fan-services. Um dos destaques do longa de 2016 como o humano que se encanta com tudo aquilo e assiste “de camarote”, Kowalski (o carismático Dan Fogler) está completamente deslocado aqui. Se no final do longa anterior ele teve a memória apagada, aqui ele apenas diz que “a mágica não funcionou” e pronto, segue o jogo. Por que? O roteiro quis, ora! A relação com Queenie (Alison Sundol) fica fora de contexto e ela tem como única função carregar a trama para Paris (apresentando, então, o Ministério da Magia da França).

Leta Lestrange (a boa Zoë Kravitz, aqui algemada pelo script), tem um envolvimento com o protagonista Newt Scamander e o seu irmão Theseus (Callum Turner) que é pouco abordado, pois sua presença ali é para narrar a principal reviravolta de maneira expositiva. O mago Yusuf (o apático William Nadylam) se restringe a seguir a turma do bem, não se define entre vilão ou amigo e, no fim das contas, o espectador sequer lembra que ele existe. Inclusive, ele também fica encarregado de mastigar uma explicação de forma bem didática. Pior ainda é Nicolas Flamel (Brontis Jodorowsky), que só aparece por ser alguém conhecido das histórias anteriores mas não tem utilidade alguma.

Funcionário cativo da Warner Bros. para a franquia, David Yates parece tentar inovar nas poucas opções que o roteiro truncado o oferece, mas, ainda assim, não é bem sucedido. A sequência da fuga de Grindelwald no minutos iniciais, que era para ser emblemática, é cheia de cortes excessivos e fica confuso compreender o que acontece em cena. Ele utiliza de fotografias escuras em demasia sem propósito aparente, como no primeiro diálogo de Newt com Dumbledore (por mais que se entenda que ali eles estejam tramando algo em segredo).

Mas também não só tem derrapadas. Quando toca a trilha sonora clássica de James Newton Howard no surgir Hogwarts ao fundo, a nostalgia transborda, sendo devoto ou não a esse mundo. Para ainda fazer sentido ao título “Animais Fantásticos”, o gigante feroz e fofo Zowu rende momentos bem divertidos, os gatos monstruosos Matagots são bem estilosos e garantem uma caça bem funcional. Tudo, bom frisar, com efeitos especiais impecáveis e direção de arte primorosa, de modo que o infladíssimo orçamento de U$ 200 milhões pode ser visto em cena. Tudo é muito bonito.

Um dos poucos a serem desenvolvidos, Newt permite que Eddie Redmayne entregue mais uma boa performance, trazendo ao rapaz traços próprios, tímido e que desvia o olhar ao dialogar com um humano, justificando a sua maior afeição com os animais. No papel de Tina, Katherine Waterston continua de uma meiguice extrema, rendendo uma química que funciona com o personagem principal.

Encarnando o jovem Dumbledore, Jude Law rouba a cena sempre que aparece. Ele não só capta pequenos trejeitos de Richard Harris e Michael Gambon (intérpretes da sua versão velha), como traz seu charme próprio. Infelizmente a relação dele com Grindewald fica apenas sugerida, deixando o aprofundamento para os próximos episódios. Ezra Miller faz o que pode para fazer de Creedence alguém perturbado, vítima dos abusos da infância, sempre com cabeça baixa, olhar desconfiado e falas ligeiras. Pena que ela sirva apenas como uma peça a ser perseguida o tempo inteiro, quando na verdade ganharia força caso tivesse a origem revelada mais cedo.

Escolha criticada por conta de polêmicas pessoais, Johnny Depp responde com a incrível atuação. Ele deixa de lado os trejeitos do pirata Jack Sparrow e mostra uma presença forte de um típico ditador que fala com calma e convicção, não necessariamente sendo mau só por assim ser. O monólogo para arrebanhar seguidores sob o argumento de que a visão sobre as “minorias” não se trata de ódio, mas que eles podem ser aproveitados de outra maneira, é contundente e atual. Bem atual!

Os fãs alucinados certamente vão curtir as inúmeras referências, pois elas estão aos montes, até escondidas como easter-eggs (a professora Minerva e Nagini, a cobra de Voldemort, estão lá). Mas um produto não funciona apenas para agradar um público alvo, por maior que ele seja. Fica a expectativa pelo próximo episódio, que terá filmagens no Rio de Janeiro, enquanto esse longa provavelmente cairá no esquecimento com o passar dos anos.

Nota: 5,0