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Socializando

por Felipe Feijão

Dandara, a travesti morta

Por Felipe Feijão em Artigos

07 de março de 2017

Por vezes é preciso que uma tragédia fatal veiculada nas redes sociais e noticiada pela mídia aconteça para que a sociedade se depare com o atual estado em que se encontra. Isso aconteceu com Dandara, travesti cruelmente agredida e morta em fevereiro na cidade de Fortaleza. A principal suspeita é de transfobia.

O vídeo espalhado nas redes e na mídia contém cenas fortes e denotam a que ponto o ser humano pode chegar quando desconhece semelhança no outro (próximo). A pergunta que surge é qual a necessidade de tamanha violência desmedida? Vários agressores contra uma vida no estado retratado indefesa e humilhada. Independentemente do fator sexual, a dignidade da vida humana deve prevalecer e sobressair à incapacidade eminente de tal reconhecimento.

De fato, numa sociedade mecanizada em que a associação mecânica e técnica de indivíduos parece buscar tão somente benefícios individuais, o valor da vida e a dignidade da pessoa não figuram mais como prioridades. A selvageria então descamba no desrespeito para com o outro ao extremo de ser travada uma luta de combate. Nesse caso em questão: agressão, covardia e intolerância.

Quotidianamente, inúmeros casos semelhantes ocorrem sem ganhar repercussão. Este se tornou notícia depois de as imagens serem compartilhadas na internet. Mas quando um ganha chama a atenção naturalmente pelo condicionamento da situação e felizmente alerta a sociedade e evidencia o trabalho policial investigativo e punitivo.

É preciso saber conviver com o diferente e com as diferenças. Reconhecer que existe uma lei ética que necessita de observância e consequentemente de cumprimento que diz respeito exatamente ao agir na convivência social voluntária. Ora, uma vez que não há observação da alteridade e que os valores estão distorcidos, o terreno para atitudes doentias se torna propício.

Medidas que visam à coibição de tais atrocidades passam pela devida atenção que deve ter o Estado enquanto ordenador da coletividade e pacificador de litígios. De igual forma, o resgaste do valor da vida humana enquanto enquadramento ético de concepção de reconhecimento e respeito fundamenta a conscientização em lento desenvolvimento.

Enquanto isso, a ineficiência governamental conjugada com a ausência de ações e de trabalhos voltados para a população LGBT, favorece a situação de aparente barbárie.

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Situação dos direitos humanos no Brasil

Por Felipe Feijão em Artigos

24 de fevereiro de 2017

 

A Anistia Internacional divulgou em fevereiro o informe “O Estado dos Direitos Humanos no Mundo 2016/2017”, no qual retrata a situação dos direitos enquanto panorama em dezenas de países.

Imagem relacionadaNo que se refere ao Brasil, o relatório enfatiza que “A polícia continuou a fazer uso desnecessário e excessivo da força, em especial no contexto dos protestos. Jovens negros, principalmente os que moram em favelas e periferias, foram desproporcionalmente afetados pela violência por parte de policiais. Defensores e defensoras dos direitos humanos, em especial os que defendem os direitos terra e ao meio ambiente, enfrentaram cada vez mais ameaças e ataques. A violência contra mulheres e crianças continua sendo uma prática comum. As violações de direitos humanos e discriminação contra refugiados, solicitantes de refúgio e migrantes se intensificaram”.

É lamentável perceber os graves problemas que insistem em assolar o Brasil, país diversificado regionalmente, mas ao mesmo tempo semelhante na negligência da oferta de elementos fundamentais para a vida social por parte do Estado. A segurança pública aparentemente permanece estarrecida perante os últimos conflitos e mortes nos presídios. A incapacidade de articulação de medidas governamentais que conjuguem prevenção, punição e ressocialização, resulta no caos atual.

Fatores determinantes para o estado crítico que castiga o País são os impasses e as constatações gritantes das condições prisionais, da liberdade de manifestação, dos defensores dos direitos humanos, dos direitos dos povos indígenas, da violência contra mulheres e meninas, das pessoas refugiadas e dos direitos das crianças.

Resultado de imagem para direitos humanos chargeO destaque negativo colhido agora é fruto do condicionamento que submerge estruturas fundamentais, necessidades básicas que aguardam respostas e ação do poder público. O aprofundamento de sérias violações e o eminente risco de retrocesso em direitos já conquistados, sendo este feito marca registrada do governo vigente, refletem o cenário nacional.

Num nível mundial, o relatório alerta para líderes políticos que apostam seu poder atual e futuro em narrativas de medo e desunião, isto é, no discurso do “nós contra eles”. Tal prática ocasiona um mundo divido e mais perigoso e, sobretudo desenvolve um retrocesso na efetivação de direitos, o que enfraquece, por exemplo, a reação da comunidade internacional à questão dos refugiados.

A retórica do “nós contra eles”, cria um ambiente em que o “nós” se visualiza superior e detentor da razão enquanto “eles” são os inferiores que precisam ser combatidos. O impulso de tal situação parece se encontrar na ascensão dos que instauram essa ideia e a disseminam, ou seja, os que anseiam o poder a qualquer preço.

 

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Seres humanos buscam refúgio

Por Felipe Feijão em Artigos

20 de fevereiro de 2017

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O debate migratório está em pauta nos noticiários e nas discussões sociais devido à chamada “crise” que nos últimos tempos se acentuou na Europa. Outro fator determinante que chama a atenção é o fato de os Estados Unidos recentemente sob ordem do novo presidente ter iniciado uma perseguição aos que entram em suas fronteiras.

Sem dúvida, a palavra “crise” precisa ser questionada, uma vez que é posta na cena midiática pelos que tem interesse de subordinação da mente das pessoas. Entretanto, a situação gritante, denota um condicionamento preocupante que para além de afundar a Europa em colapso, coloca em jogo inúmeras vidas que merecem dignidade, respeito e acolhimento.

Zygmunt Bauman, sociólogo recentemente falecido e intérprete singular do mundo contemporâneo, deixou para a posteridade dentre vasta obra, o livro “Estranhos à nossa porta”, onde trata da questão migratória. Ora, o título é bem sugestivo e acena para a explicitação ensejada por Bauman de que os que batem a porta são considerados estranhos e dos estranhos geralmente se teme e se desconhece suas ações e suas pretensões.

O fato é que eles batem à porta enquanto convivem com “crianças afogadas, muros apressadamente erguidos, cercas de arame farpado, campos de concentração superlotados” etc. Para Bauman, não há previsibilidade de que o fenômeno da migração em massa possa ser interrompido, mesmo em meio a situações desestimulantes e as tentativas governamentais cada vez mais expressas de impedir seu acontecimento. Dessa forma, se apresenta como constatação evidenciada pelos efeitos críticos da devastação dos países de onde emergem os que buscam refúgio.

Nos últimos tempos, a busca de asilo ocasionada por intermináveis guerras, assassinatos em massa e por um aparente estado de selvageria, o contingente de refugiados tem aumentado, gerando assim reações dos que estão do outro lado da porta. É exatamente nesse contexto que segundo Bauman, o papa Francisco pode ser considerado um dos poucos ícones públicos que alertam para o perigo de se repetir o gesto de Pilatos (lavar as mãos) diante do padecimento do povo atingido por tais situações das quais somos em algum grau, vítimas e responsáveis.

Exemplo disso pode ser encontrado em sua mensagem de 19 de junho de 2016 na qual o papa pede que os refugiados sejam encontrados, acolhidos e ouvidos: “Os refugiados são pessoas como todos, mas às quais a guerra tirou a casa, o trabalho, os parentes e os amigos. As suas histórias e os seus rostos exortam-nos a renovar o compromisso para construir a paz na justiça. É por isso que desejamos estar com eles: encontrá-los, recebê-los e ouvi-los, para nos tornarmos juntos artífices de paz” e na postagem em seu twitter na qual diz o seguinte no dia 16 de fevereiro de 2017: “Convido todos a combater a pobreza material e espiritual. Vamos edificar juntos a paz e construir pontes”.

Na situação calamitosa atual pela qual passa o mundo, são necessárias pontes em vez de muros. Reconhecer a necessidade e a importância das relações humanas presentes no diálogo, no respeito e no sentido manifestado de um ser humano para com outro ser humano como diz Levinas, constituem elementos fundamentais que perpassam os interesses próprios e a associação mecânica de indivíduos perseguindo fins individuais e que visualizam a possibilidade de convivência na adversidade.

 

 

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Campanha pelos biomas brasileiros

Por Felipe Feijão em Artigos

13 de fevereiro de 2017

 

 

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) realiza anualmente a Campanha da Fraternidade (CF). Trata-se de um período do ano em que um tema social relevante é evidenciado, objetivando a reação da sociedade em relação a problemas concretos que precisam de atenção, reflexão e ação.

A CF 2017 tem como tema: “Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida”, e como lema: “Cultivar e guardar a criação” (Gn 2, 15). Neste ano, a CNBB põe em debate os biomas do País que de acordo com o texto-base são definidos como “a vida que se manifesta em um conjunto semelhante de vegetação, água, superfície e animais”.

O Brasil em sua vasta dimensão territorial possui seis biomas: a Amazônia, a Caatinga, o Cerrado, a Mata Atlântica, o Pantanal e o Pampa. Cada determinação se caracteriza, pois, pela dinâmica de semelhança que forma o ecossistema, isto é, pela similaridade de vegetação, de clima e formação histórica.

Ora, não é de hoje que a natureza padece de uma profunda crise ecológica que se manifesta também na depredação dos biomas. Para Manfredo Oliveira, a crise ecológica é uma dentre várias específicas mutuamente entrelaçadas, descambando assim numa crise civilizacional, uma crise ético-cultural. A devastação dessas áreas naturais implica diretamente na ação humana e os efeitos de degradação da vida e da natureza denotam um grande risco em eminência patrocinado e mantido pela meta do homem de cada vez mais aumentar o domínio sobre a natureza e a sociedade.

Nessa mesma linha na encíclica Laudato si’, o Papa Francisco adverte: “Se quisermos, de verdade, construir uma ecologia que nos permita reparar tudo o que temos destruído… a Igreja Católica está aberta ao diálogo com o pensamento filosófico, o que lhe permite produzir várias sínteses entre fé e razão”. Desse modo, a crise civilizacional atinge o sentido humano do mundo construído por essa mesma humanidade, o que se torna um desafio contemporâneo.

Com efeito, é de suma importância conceber que do fato da crise ético-cultural derivar a crise ecológica, as coisas estão conectas. Prova disso é a exposição feita pelo Papa na referida encíclica de uma “ecologia integral”, ou seja, uma proposta que contempla a íntima relação dos problemas atuais que incluem dimensões humanas e sociais. A fragmentação do conhecimento e a divisão social do trabalho continuam a gestar uma visão amplamente segmentada dos problemas. Em última instância o ensejo de uma conjugação efetiva que reconheça conexões de abrangência de diferentes ramos dos saberes se apresenta como uma empreitada desafiante.

Noutros termos: é preciso observar as relações das coisas. No caso dos biomas, como a crescente desertificação da Caatinga, o desmatamento da floresta Amazônica, e a agressão a Mata Atlântica influem na vida humana e dos animais? Como a vontade política poderia diretamente implementar medidas de preservação? Como incorporar o conceito de sustentabilidade nas atividades econômicas?

As respostas para tais perguntas se colocam no caminho da CF 2017 rumo a uma conscientização e mobilização civil em prol do cuidado com nossa casa comum que nos sustenta como dizia Francisco de Assis.

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O poderio abstruso da comunicação de massa

Por Felipe Feijão em Artigos

10 de fevereiro de 2017

 

A toda hora e a qualquer momento, os meios de comunicação de massa cercam milhares de indivíduos que atentos se entretém em frente da televisão ou na escuta do rádio. Isso denota que esses veículos são mantidos e patrocinados por interesses desde comerciais até governamentais. Marilena Chaui em “Simulacro e poder” considera o exercício do poder através dos meios de comunicação em dois aspectos, a saber, econômico e ideológico.

Já na Dialética do Esclarecimento em 1947, Adorno e Horkheimer, definiram o termo “indústria cultural” como a transformação da cultura em mercadoria e o seu uso pela classe dominante com a finalidade de construir ideologias e controlar a sociedade. Sendo assim, os meios de comunicação são uma indústria cultural, uma vez que no Brasil as concessões estatais de rádio e de televisão são feitas a empresas privadas. Aqui se encontram as duas vertentes assinaladas, a econômica (classe dominante) e a ideológica (controle da sociedade).

Ora, por vezes de forma despercebida propagandas são consumidas e sem dúvida incitam o público-alvo a prática consumista e a aceitação de condicionamentos conjunturais. E o imenso alcance da mídia que estrutura o poder da veiculação proposital, gesta na sociedade entretida e inocente, indivíduos que terão seu pensamento e sua ação pautada no que tão somente veem na televisão ou escutam no rádio. Isso significa dizer que o poderio de determinado interesse regido pelos imperativos do capital, dita as regras do jogo.

Vale ressaltar que não há visibilidade transparente na regra desse jogo. O processo não é feito para ser percebido. Ou seja, como afirma Chaui: “as representações ou imagens que constituem a ideologia aparecem desprovidas de localização, embora estejam precisamente localizadas nos centros emissores da comunicação”[1].

A articulação motivacional dessa representação indireta repousa nos bastidores da cena dos meios de comunicação. No entanto, o compromisso em transmitir a mensagem com fidelidade ao propósito então empreitado sobressai, porque o objetivo precisa contemplar o auge do espetáculo. Em tempos de uma aparente desinformação sistemática como fala Manfredo Oliveira, ou seja, de uma informação seletiva que descamba em desinformação, o poder midiático se torna apurado e ainda mais relevante e influente.

Saber que isso acontece e tirar a venda dos olhos perante tal realidade preocupante é necessário ainda que a complexidade circunstancial desses elementos seja de alto nível. Daí o desenvolvimento da obviedade dos fatos e da vigência legal da estruturação informativa permanecer em plena manutenção.

 

[1] CHAUI, Marilena. Simulacro e poder. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2006, p. 74.

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Barraca da honestidade

Por Felipe Feijão em Artigos, Filosofia

02 de fevereiro de 2017

Imagem: GreenMe

 

O telejornal Bom dia Brasil da Rede Globo, exibiu no dia 31/01/2017, reportagem sobre uma barraca sem vendedor, que funciona no esquema pegue e pague, na zona rural de Delfim Moreira em Minas Gerais. A barraca fica na beira da estrada, sem vigilância, e possui até uma caixinha para a própria pessoa pegar o troco, se necessário.

A barraca tem umas placas explicativas: pegue e pague, preciso vender, confio na sua honestidade, obrigado por ser honesto, vamos mudar a imagem de que os brasileiros são desonestos e você não está sendo filmado. O dono da barraca passa maior parte do tempo trabalhando na terra, e por isso a deixa sob a honestidade dos clientes.

Num País repleto de corrupção, desde pequenas atitudes quotidianas expressas pelo “jeitinho brasileiro” até grandes escândalos na política, como alguém acredita que as pessoas irão pegar o produto desejado e pagar? E mais, existem pessoas que conseguem exercer o dever de pegar e pagar? A resposta é sim.

O filósofo Immanuel Kant em “Que é esclarecimento?” [1], trabalhou essa questão. Para ele, é preciso possuir esclarecimento, ou seja, sair da menoridade (não a inferior a 18 anos), mas a da incapacidade de fazer uso do entendimento sem a direção de outro indivíduo. Para Kant, o homem é capaz de servir-se de si mesmo sem a direção de outrem e de usar o próprio entendimento nas ações. Vale ressaltar aqui que não menos importante na visão de Kant é que o homem seja educado, isto é, seja cuidado desde a infância nos aspectos de instrução e de disciplina com sua formação.

Diante dessa definição se percebe que mesmo que possuam a maioridade civil, inúmeras pessoas, não prezam adequadamente pelo exercício do esclarecimento. De quem é a culpa do homem permanecer na menoridade? Do próprio homem, uma vez que precisa de decisão e de coragem para se elevar ao nível do esclarecimento.

Não é preciso estar sendo observado ou filmado para que a ação do indivíduo esclarecido seja o cumprimento do que, de fato, deve ser efetivado. Noutros termos: a barraca da honestidade serve de modelo para testar o esclarecimento nos clientes.

Ser esclarecido não é simplesmente adquirir profundo conhecimento sobre determinado assunto, mas conjugar isso com a conquista da autonomia, isto é, dar um passo moral fundamental. Disso resulta que todos, potencialmente enquanto capazes de mudança e através da educação enquanto formação ética que se volta para a construção da autonomia podem ser esclarecidos, uma vez que possuem a capacidade de pensar.

Já na época de Kant, século XIX, ele constatou que “não, vivemos em uma época de esclarecimento” [2]. A esperança otimista é que se trabalhe para a minoração dos obstáculos ao esclarecimento. Assim sendo, a possibilidade da existência da barraca da honestidade é prova disso.

É claro que se o filósofo alemão vivesse nos dias de hoje, constataria com tristeza a mesma realidade da sua época enquanto filho de seu tempo. Mas tudo indica que seu amor pela sabedoria e seu otimismo moral, concederiam generosas respostas aos anseios hodiernos.

 

[1] KANT, Immanuel. Resposta à pergunta: Que é esclarecimento? In: Textos seletos. Tradução Floriano de Sousa Fernandes. 2 ed. Vozes: Petrópolis, RJ. 1985. p. 100-117.

[2] KANT, Immanuel. Resposta à pergunta: Que é esclarecimento? In: Textos seletos. Tradução Floriano de Sousa Fernandes. 2 ed. Vozes: Petrópolis, RJ. 1985. p. 112.

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Riqueza nas mãos de oito

Por Felipe Feijão em Artigos

30 de janeiro de 2017

 

 

O dado chamativo do relatório “Uma economia para os 99%”, divulgado em janeiro e elaborado pela Oxfam em reunião com várias organizações não governamentais, aponta que oito dos homens mais ricos do mundo concentram o mesmo patrimônio de 3,6 bilhões de pessoas, sendo esta a parcela mais pobre da humanidade.

A globalização em eminência que fascina a todos e que sem dúvida beneficia a muitos com o emprego cada vez mais de tecnologias avançadas nos mais variados campos, ocasiona também a colocação no debate de problemas graves. A avalanche atual de produção que gera montanhas de mercadorias pelo mundo inteiro, se concentra na mão de uma significante minoria, enquanto bilhões vivem ou tentam sobreviver com o pouco que possuem.

Não é de hoje que o Fórum Mundial Econômico identifica o aumento da desigualdade econômica como uma grande ameaça à estabilidade social. O presidente Obama, em seu discurso de despedida na Assembleia Geral da ONU em setembro de 2016, afirmou que: “um mundo no qual 1% da humanidade controla uma riqueza equivalente à dos demais 99% nunca será estável”.  Isso é sério porque a tendência dessa situação se não conseguir minoração desse quadro é a desintegração das sociedades e consequentemente o distanciamento ainda maior do combate à pobreza.

O que está gerando essa situação? Empresas e indivíduos super-ricos possuem papel fundamental no desenvolvimento e aprimoramento dessa pretensa calamidade. Por exemplo, as empresas são constituintes vitais da economia e se trabalhassem em prol do benefício não só dos ricos, gerariam a construção de sociedades mais justas. De fato, o que acontece é que as empresas trabalham para os detentores do poder econômico e a favor deles.

Diante desse cenário desesperador há saída? Um caminho que constitui condição de possibilidade ainda que regional, mas que poderá ser sentido amplamente é o da reforma tributária, uma vez que respeita a distribuição de renda. A reforma tributária, do ponto de vista propriamente social, uma vez que o tratado aqui se refere, sobretudo as consequências que já assolam as sociedades em decorrência do gigantesco abismo que separa os 99% do 1%, é um elemento de grande relevo numa visualização abrangente da conjuntura. Ela é um dos mecanismos mais fortes de justiça social, exemplo disso é a adoção por parte de países que avançaram socialmente, do imposto progressivo. É inconcebível como um pobre paga os mesmos preços de determinado produto pago por um empresário.

Em um país altamente marcado pela desigualdade de renda entre os indivíduos como o Brasil, era de se esperar que o sistema tributário adotasse medidas que objetivassem o possível encurtamento da situação gritante. O que acontece é justamente o contrário, uma vez que predominam efetivações que reforçam o fosso existente.

As propostas de cooperação governamental voltadas para a grande parcela populacional desassistida, de tecnologia a serviço de todos, de fontes de energia renováveis ao invés de poluentes, são passos significativos ensaiados no relatório que se colocam no percurso de uma economia para todos.

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Dinheiro ou preservação?

Por Felipe Feijão em Artigos

27 de janeiro de 2017

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, já nos primeiros dias de mandato autorizou a construção de dois polêmicos oleodutos criticados por ambientalistas. No mandato de Obama, um dos oleodutos ora decretados havia sido vetado justamente pelo impacto ambiental que ocasionaria.

É possível aqui relacionar essa questão política com a contemporaneidade da ética. Os teóricos atuais que desenvolvem trabalhos no campo da ética, notavelmente se destacam pelo ensaio de uma ética socioambiental, ou seja, uma teoria que descamba na prática e que é uma resposta ao momento vivido pelo mundo hodierno. Em suma, nesse sentido, a ação humana se volta para a realidade da natureza (meio ambiente e seres humanos), e diante das condições constatadas na atualidade vê a necessidade de um princípio de responsabilidade como fala o filósofo Hans Jonas.

Será que as mais variadas manifestações da natureza como desastres e desajuste do natural, alterações climáticas, derretimento das geleiras, desaparecimento de espécies, dentre uma imensidão, não são suficientemente capazes de alertar o homem que inclusive o próprio homem tem possibilidade de desaparecer?

Há quarenta anos Hans Jonas, em outras palavras, já explicitava um aprendizado da crise (que à época não era como hoje), e acenava para a necessidade de que a concepção crítica da natureza deve provocar mudanças na ação humana. Quando a técnica respaldada e patrocinada pela ambição desmedida de progresso no sentido de aumento do domínio do homem sobre a natureza, venda os olhos inclusive dos que detém nas mãos o poder de ajudar na minoração dos quadros ambientais enquanto condutores de potências econômicas se observa, de fato, que não se pretende mesmo com tanto tecnologia promover o bem da humanidade como um todo e a manutenção das possibilidades de sua continuada existência.

Para além de uma aparente cegueira, o ruído dos motores da civilização tecnicista tem cada vez mais destruído o meio ambiente e parece também ensurdecer o ser humano que se torna incapaz de ouvir a voz da Terra. Sobrepor a economia à preservação das diferentes formas de vida da Terra e aos alertas que quotidianamente se apresentam não como novidade ou como jogo de interesses, resulta na situação atual, que insiste em se preocupar com o aqui e o agora e com o lucro.

A conjugação ainda que em desvantagem gritante da efetivação de medidas políticas com ação responsável que preza pela preservação ambiental agonizante parece um caminho mais sensato.

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Populismo ameaçador

Por Felipe Feijão em Artigos

20 de janeiro de 2017

 

A Human Rights Watch em seu Relatório Mundial 2017 expõe uma constatação de fundamental importância para a compreensão do momento atual. Trata-se da defesa de que a ascensão de líderes populistas se torna uma ameaça perigosa à proteção de direitos básicos ao tornar favorável a efetivação de medidas lamentáveis ao redor do mundo.

Como exemplo, o Relatório cita a eleição de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos após uma campanha polêmica com propostas de intolerância e a crescente influência de partidos políticos que rejeitam os direitos universais na Europa. Além de explicitar a situação de países governados por líderes autoritários como a Rússia e a Turquia que aparentam dar preferência à autoridade à responsabilidade e ao Estado de direito.

A questão do populismo como uma ameaça aos direitos humanos se encontra no fato de estar em evidência uma geração de políticos que busca fazer cair por terra o conceito de proteção aos direitos humanos, lidando com o respeito aos direitos como um empecilho a realização da vontade da maioria da população, como afirma o Diretor Executivo, Kenneth Roth, na introdução: “A ascensão do populismo representa uma profunda ameaça aos direitos humanos”.

E acrescenta: “Trump e vários políticos na Europa buscam chegar ao poder com discursos que apelam ao racismo, à xenofobia, à misoginia, e ao nacionalismo. Todos eles afirmam que as pessoas entendem as violações de direitos humanos como supostamente necessárias para garantir empregos, evitar mudanças culturais, ou prevenir ataques terroristas. Na verdade, o desrespeito pelos direitos humanos oferece o caminho mais provável à tirania”.

Ora, mas quem é o responsável pela ascensão dessa onda populista? Em última instância é o povo, porque uma vez que se simpatiza com o discurso demagogo, os pretensos líderes angariam apoio popular. Parece que a população, por vezes, prefere falsas explicações e soluções que maquiam a cena da realidade.

Numa rápida perscrutação pela história, se vê o que ficou de legado para a humanidade. Os demagogos do passado, os fascistas, os nazistas e seus semelhantes, defendiam a superioridade e diziam possuir uma visão privilegiada em nome da maioria, mas acabaram suplantando as liberdades e os direitos fundamentais.

É preciso, pois, que a população atue na exigência de uma política embasada e fundamentada na verdade e nos valores sobre os quais é constituída uma democracia que referenda e plenifica direitos e que reconheça a necessidade essencial de direitos para todos.

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A verdade em debate

Por Felipe Feijão em Artigos, Filosofia

13 de janeiro de 2017

Este texto intenta expor o tema da perda da verdade na sociedade atual. Para tanto será utilizado o livro “Adeus à verdade” do filósofo italiano contemporâneo Gianni Vattimo. Tal livro aborda uma questão de relevo na atualidade: a possível predominância da verdade no mundo, não somente do ponto de vista filosófico enquanto trata de debates de natureza própria da filosofia, mas, sobretudo estabelecendo diálogos abertos com a política, com a religião e com a experiência comum.

Para Vattimo, o “adeus à verdade” exprime, ainda que de maneira controvérsia, a situação da cultura atual. Ora, se existem interesses e a reprodução desses interesses não necessariamente é falsa, mas percorre a trilha de intenções condicionadas, então há um jogo de interpretações responsáveis pelos mesmos interesses postos na cena, por exemplo, da mídia.

O autor, ao exemplificar a questão da mentira na política, sabe bem estruturar sua argumentação a partir do momento em que alerta para os limites do que está em jogo numa situação capaz de envolver países e até mesmo quando os interesses das partes pode descambar numa guerra. Nas palavras dele: “se digo que não me importa a mentira de Bush e de Blair, desde que seja justificada por um fim bom, ou seja, por um fim que eu partilhe, aceito que a verdade dos fatos seja uma questão de interpretação condicionada pela partilha de um paradigma”, nessa referência o autor trata da Guerra no Iraque.
De fato, numa cultura ocidental pluralista, diversificada e dinâmica, que atravessa, indubitavelmente, sobretudo do ponto de vista brasileiro, uma nebulosa crise no âmbito do que engloba o sistema político representativo e partidário, a questão da verdade na política emerge de forma exponencial e se mostra explícita na expressão demonstrada pela classe da mesma natureza da crise que a atinge.

É preciso, conscientemente perceber antes de tudo, que a possibilidade de sobrevivência de toda uma conjuntura sistemática governamental, segundo Vattimo, a democrática, por exemplo, passa pela salutar e necessária manutenção de um modelo social (adeus à verdade) que a rege e a instaura enquanto paradigma legado pela história e consequentemente atualizado de acordo com as conveniências políticas do momento, uma vez que as estruturas estatais e mundiais estão imersas numa profunda dinamicidade.

O contexto cultural e social, uma vez que se configura e se modela nos parâmetros das exigências hodiernas, precisa, com efeito, ser capaz de responder e reagir eficazmente aos novos debates que se apresentam em seu seio, por vezes, como desafios a serem enfrentados. Para Vattimo, a construção da verdade mediante o consenso e o respeito da sociedade de cada um e das diversas comunidades que convivem é um exemplo de desafio a ser aceito.

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Dandara, a travesti morta

Por Felipe Feijão em Artigos

07 de março de 2017

Por vezes é preciso que uma tragédia fatal veiculada nas redes sociais e noticiada pela mídia aconteça para que a sociedade se depare com o atual estado em que se encontra. Isso aconteceu com Dandara, travesti cruelmente agredida e morta em fevereiro na cidade de Fortaleza. A principal suspeita é de transfobia.

O vídeo espalhado nas redes e na mídia contém cenas fortes e denotam a que ponto o ser humano pode chegar quando desconhece semelhança no outro (próximo). A pergunta que surge é qual a necessidade de tamanha violência desmedida? Vários agressores contra uma vida no estado retratado indefesa e humilhada. Independentemente do fator sexual, a dignidade da vida humana deve prevalecer e sobressair à incapacidade eminente de tal reconhecimento.

De fato, numa sociedade mecanizada em que a associação mecânica e técnica de indivíduos parece buscar tão somente benefícios individuais, o valor da vida e a dignidade da pessoa não figuram mais como prioridades. A selvageria então descamba no desrespeito para com o outro ao extremo de ser travada uma luta de combate. Nesse caso em questão: agressão, covardia e intolerância.

Quotidianamente, inúmeros casos semelhantes ocorrem sem ganhar repercussão. Este se tornou notícia depois de as imagens serem compartilhadas na internet. Mas quando um ganha chama a atenção naturalmente pelo condicionamento da situação e felizmente alerta a sociedade e evidencia o trabalho policial investigativo e punitivo.

É preciso saber conviver com o diferente e com as diferenças. Reconhecer que existe uma lei ética que necessita de observância e consequentemente de cumprimento que diz respeito exatamente ao agir na convivência social voluntária. Ora, uma vez que não há observação da alteridade e que os valores estão distorcidos, o terreno para atitudes doentias se torna propício.

Medidas que visam à coibição de tais atrocidades passam pela devida atenção que deve ter o Estado enquanto ordenador da coletividade e pacificador de litígios. De igual forma, o resgaste do valor da vida humana enquanto enquadramento ético de concepção de reconhecimento e respeito fundamenta a conscientização em lento desenvolvimento.

Enquanto isso, a ineficiência governamental conjugada com a ausência de ações e de trabalhos voltados para a população LGBT, favorece a situação de aparente barbárie.