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Socializando

por Felipe Feijão

Dependência do Brasil

Por Felipe Feijão em Artigos

07 de setembro de 2017

A dependência que aqui se aborda não é a da questão histórica da proclamação e das controvérsias que envolvem o tema, como não é novidade nos importantes registros históricos do país. Trata-se, pois do grave momento que ameaça a todos.

Parece que o grupo que atualmente detém o poder, instaura de forma disseminada uma dependência declarada. Dependência dos trabalhadores ao empresariado, dos estudantes a uma educação cada vez mais tecnicista, das empresas estatais ao interesse estrangeiro, da população em geral ao sofrimento devido a ineficiência evidente no que se pode imaginar de oferta de serviço mais básico.

A dependência também se torna nítida na urgente necessidade da realização de reformas que por assim dizer irão melhorar o país. No entanto, um questionamento fundamental que confronta essa imprescindibilidade: “reformar para quem?”.

Novamente, entra em pauta a reforma política. O fato é que tal reforma, apesar de ser positiva e gerar de certa forma consequências concretas e esperanças futuras, não satisfaz a participação popular e, tampouco colabora com a melhoria do sistema eleitoral. A partir do momento em que se discute sobre esse importante passo estrutural a ser dado, sem que haja um real engajamento social vinculado ao atendimento das verdadeiras demandas populares, existe nessa conjuntura algo que não dialoga diretamente com a sociedade e não efetiva positivamente as exigências sociais.

É salutar que aconteçam reformas na estrutura desgastada e esgotada das instituições, mas, mais do que criação de novas formulações superficiais, é preciso haver um novo enquadramento na estrutura, ou seja, no sentido mais profundo que ocasiona a manutenção do sistema.
Infelizmente, a permanência do interesse pelo poder e pela constância do desgastado modo de governar, continua ditando as regras do jogo, e isso gera dependência.

E, a mais recente novidade de dependência, foi o decreto presidencial para extinguir a Reserva Nacional do Cobre e Associados (Renca) da Amazônia.

Enfim, os tentáculos impiedosos desse modelo de gerir a coisa pública, posicionam todos numa progressiva condição de sujeição, de retrocesso e de começo de um tempo incerto.

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Que Congresso é esse?

Por Felipe Feijão em Artigos

10 de agosto de 2017

Em artigo recente sobre a sessão da Câmara dos Deputados, que majoritariamente votou contra a admissibilidade de processo contra Temer no STF, Leonardo Boff se posiciona: “O que a sessão mostrou foi a real natureza de nossa democracia que se nega a si mesma. Se a medirmos pelos predicados mínimos de toda a democracia que é o respeito à soberania popular, a observância dos direitos fundamentais do cidadão, a busca de uma equidade mínima na sociedade e o incentivo à participação, o bem comum, além de uma ética pública reconhecível, então ela comparece como uma farsa e como uma negação de si mesma”.

A situação de quantidade expressiva de membros do Congresso envolvidos em corrupção denota o que pode se esperar deles. “Como iriam votar a favor da admissibilidade de um julgamento de um Presidente, pelo Supremo Tribunal Federal, se cerca de 40% de atuais deputados respondem a vários tipos de processos na Corte Suprema? Vigora sempre um conluio secreto entre os criminosos ou acusados como tais”, diz Boff.

Um governo altamente impopular, que parece a atender interesses abstrusos, marcha com o objetivo de aprovar as chamadas reformas. Qual a finalidade de reformar? Em nota sobre o assunto a CNBB afirma que: “Nessa lógica perversa do mercado, os Poderes Executivo e Legislativo reduzem o dever do Estado de mediar a relação entre capital e trabalho, e de garantir a proteção social. Exemplos disso são Lei das Terceirizações e Reforma Trabalhista, bem como a proposta de Reforma da Previdência. É inaceitável que decisões de tamanha incidência na vida das pessoas e que retiram direitos já conquistados, sejam aprovadas no Congresso Nacional, sem um amplo diálogo com a sociedade”.
Infelizmente, a estrutura que cada vez mais se instala, não está aberta ao diálogo, sobretudo com os que quando aos poucos conseguem mudanças significativas através de avanços sociais, são barrados pelo vício censurador que entra em jogo e condiciona a situação atual à semelhantes registradas pela história recente.

É preciso, pois que se atente para o fato de que tal estrutura desgastada, viciada e maculada não oferece mais esperança de que se possa realizar a efetivação de uma representação que se coloca ao lado dos que mais padecem perante o constante estado agonizante que atinge a vida de todos.

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Do papa aos jovens

Por Felipe Feijão em Artigos

07 de agosto de 2017

“O dinheiro deve servir, e não governar!”. Esta é uma exclamação presente na visualização de alguns desafios do mundo atual, expostos pelo Papa Francisco na exortação Evangelii Gaudium de 2013. O dinheiro é um meio (não um fim), quando o meio deixa de ser o que é para se tornar fim (que é governar), algo caminha de forma inversa.

O Papa escreveu uma carta que merece atenção dos jovens brasileiros por ocasião do encerramento do Rota 300, que ocorreu em Aparecida-SP. Esse evento comemora os 300 anos do encontro da imagem de Aparecida, no rio Paraíba do Sul.

A celebração dos três séculos transcorridos do encontro da imagem, denota o tema da imagem de Aparecida, que possui diversas vertentes que podem ser abordadas, mas não aqui, de um ponto de vista religioso e social, dado o contexto escravagista em que vivia o país.

Duas frases podem ser destacadas da mensagem do Papa aos jovens: “Não tenham medo de lutar contra a corrupção e não se deixem seduzir por ela!”. É possível fazer uma relação entre essa afirmação e a atual situação de corrupção na qual estão inseridos vários países, condição tratada por Francisco na exortação Evangelii Gaudium, 60: “Os mecanismos da economia atual… torna-se ainda mais irritante, quando os excluídos vêem crescer este câncer social que é a corrupção profundamente radicada em muitos países – nos seus Governos, empresários e instituições – seja qual for a ideologia política dos governantes”.

Infelizmente, a idolatria do dinheiro se enraíza cada vez mais em projetos de governo que não dialogam com as necessidades populares, mas que atendem pautas que apontam para o retrocesso. O que acontece agora no Brasil serve de exemplo bastante oportuno. Um Estado que delibera reformas que parecem atender o interesse do “mercado divinizado” como fala o Papa em Evangelii Gaudium, 56, não está preocupado com a efetivação de direitos básicos.

A segunda afirmativa relevante da carta: “Vocês são a esperança do Brasil e do mundo. E a novidade, da qual vocês são portadores, já começa a construir-se hoje”. Essa afirmação dialoga abertamente com o parágrafo 108 da citada encíclica: “Os jovens chamam-nos a despertar e a aumentar a esperança, porque trazem consigo as novas tendências da humanidade e abrem-nos ao futuro, de modo que não fiquemos encalhados na nostalgia de estruturas e costumes que já não são fonte de vida no mundo atual”.

De fato, a corrupção que gera morte, não pode ser fonte de vida. Sem dúvida, quando se deposita esperança em algo é porque se acredita numa nova realidade que é possível. O sofrimento, o padecimento, a angústia, a aflição, o estado de alerta em função da gritante violência, o abandono em que se encontra grande parte da população em decorrência da falta de oferta de serviços necessários que constituem a dignidade humana, são fruto do desinteresse com o que é público e do interesse de promoção com o que se torna de poucos.

A novidade que se pode oferecer é uma retomada a ética no agir humano em seu sentido mais profundo, que se despreza generosamente e que se desconhece.

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Guerra no Brasil

Por Felipe Feijão em Artigos

25 de julho de 2017

Reprodução/Site Contra o vento

É desnecessário dizer que a violência se mostra cada vez mais forte e poderosa, basta atentar para os índices dos casos de homicídios e de expressões violentas, evidentes a todo dia e a toda hora.

Nos últimos dias a cidade do Rio de Janeiro tem chamado a atenção nacional pelo fato de agravamento da chamada crise na segurança pública do Estado. Tal crise, que se deve ao eminente caos vivido graças ao império da insegurança, se explicita efetivamente na situação em que se encontra a população: medo constante.

Ora, essa situação reflete o que acontece não só no Rio de Janeiro, mas em todo o País. Na cidade citada, recentemente uma criança ainda no ventre materno foi atingida por bala perdida. A decadência humana chegou ao ponto de não medir as consequências de uma trágica ação e, assim, marcar brutalmente pela violência de um tiro, quem ainda, de fato, não nasceu.

Há quem compare a condição do RJ com países que estão em guerra. Pode ser considerado exemplo disso o trabalho “O som da guerra”, realizado pelo jornal comunitário Voz das Comunidades formado por moradores do Complexo do Alemão. O jornal foi às ruas com gravações de confrontos ocorridos na comunidade e pediu que as pessoas identificassem onde aquilo havia acontecido. A reação em forma de resposta apontava para países como Síria e Iraque.

A pesquisa “Retrato do espalhamento da mancha criminal no Estado do Rio de Janeiro” feita pela Diretoria de Análise de Políticas Públicas da FGV, atesta que atualmente a criminalidade em alguns índices volta ao patamar anterior a implantação das UPPs.

Isso denota um desafio que se apresenta em nível nacional. O enfrentamento direto com o braço armado pode ser útil momentaneamente e resolve ali o entrave efêmero, mas gera o que se demonstrou na reação das pessoas diante da escuta do áudio dos confrontos, ou seja, uma sensação de guerra.

A complexidade demandada pelo setor de segurança enquanto instituição estatal precisa estar em diálogo com um outro tipo de enfrentamento que, por assim dizer, serve de prevenção, ou seja, evita que o pior aconteça, evita que uma cidade ou que cidades se assemelhem a países em guerra. Esse possível diálogo que pouco recebe atenção, se encontra na abrangência que constitui as carências sociais que devem ser atendidas.

Infelizmente, o que se observa é a insistente indiferença mantida pela mediocridade de não satisfazer os elementos carregados da falta de assistência, de modo que essa omissão, se volta para a própria estrutura que deveria contemplar tal oferta, em forma do que se chama de crise. E o País parece enfrentar internamente de forma não declarada, uma guerra que mata comparativamente a guerras existentes.

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O marcante momento nacional

Por Felipe Feijão em Artigos

19 de julho de 2017

 

O momento da vida nacional é marcante. Algo marcante é um distintivo que assinala um relevo. Quando se trata de momento, emerge o tempo como um período demarcado. O marco na vida da nação, nesse caso, é um marco negativo, que submete gravemente todos que de alguma forma vivem a vida do País a uma situação angustiante que bem se pode perceber no noticiário, na roda de conversa, no cotidiano.

Consequentemente, a demarcação que se pode observar, é uma designação de distinção para pior, ou seja, uma condição que piora se instala rapidamente e consegue aos poucos legitimação.

O período de tempo demarcado que aqui se concebe estabelece seu caminho num percurso nebuloso. E o pior é que nessa trilha sombria, difícil é identificar rota e destino. O objetivo, aos poucos mostra seus desdobramentos em aprovações legais celebradas pelo interesse de poucos.

O que se apresenta como mais estranho são as formas que assinalam a legalidade em procedimentos sérios que interferem profundamente na vida das pessoas. Essas formas, se diferem, numa medida que parece obedecer a critérios obscuros.

Ora, quando a putrefação da corrupção política se torna impregnada e se enraíza estruturalmente, a instauração de medidas novas que se manifestam como inovadoras e benéficas podem querer suprimir a noção de preservação, que com certas legalizações é colocada em questão justamente pela representação da novidade que se pretende efetivar.

É nessa perspectiva que o marco que ora se instaura, trespassa um condicionamento anterior, e aponta para o cumprimento de pautas que não são as sociais.

Perscrutar a cena desenhada pela agonizante conjuntura e estrutura política, denota um estado de tristeza. Essa tristeza consiste na visualização de que não há sequer um nome capaz de satisfazer a minoração da presente aflição. Isso denota negligência, ineficiência, incapacidade, omissão e indiferença que são as fortes características do presente modelo de gerir o que é público.

Algumas interrogações colaboram para uma melhor concepção desse momento: as chamadas reformas estão a serviço de quem? Como um Congresso com expressivo número de membros envolvidos em esquemas de corrupção pode tomar decisões tão importantes? O que ainda está sustentando a atual governabilidade?  A manutenção da engenhosa máquina política permanecerá como está até quando?

A natureza dessas interrogações como perguntas que descambam no levantamento de possibilidades gestam também a permanente incerteza que inevitavelmente ronda o espetáculo. Difícil é assistir tudo e aguardar.

 

 

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País da insegurança

Por Felipe Feijão em Artigos

11 de julho de 2017

 

O informativo Nota Econômica do mês de julho de 2017 da Confederação Nacional da Indústria traz uma pesquisa que se refere a insegurança nas regiões do País. Segundo dados sobre a região Nordeste, 4, 4 a cada 10 famílias tiveram uma vítima de furto, assalto ou agressão. Já na região Sul, 3,1 a cada 10 famílias tiveram vítima dessas manifestações de violência.

O Sul se situa como região onde a população tem a menor percepção de insegurança, uma vez que menos habitantes vivenciaram violência e mudaram hábitos. As regiões Nordeste, Norte e Centro-Oeste, possuem proporção maior de habitantes que por motivos dos crimes, mudaram hábitos.

A sociedade atual, sofrida e marcada pela negligência da oferta de serviços básicos, ainda é obrigada a conviver em permanente estado de alerta. Esse estado de alerta é em função da violência que como demonstrado está mudando a vida das pessoas.

O filósofo Manfredo Oliveira em texto recente apresenta um panorama da condição social hodierna: “A normatividade ética, individual e social, constitui a condição irrecusável para que a sociedade possa lutar contra seus males evidentes: a violência contra a pessoa e a vida, contra a família, o tráfico de drogas e outros negócios ilícitos, excessos no uso da força policial, corrupção, sonegação fiscal, malversação dos bens públicos, abuso do poder econômico e político, poder discricionário dos meios de comunicação social, crimes ambientais”.

Vale ressaltar que já nesse panorama que retrata diversificadas manifestações de violência, se observa uma importante proposta: a normatividade ética. Um mundo sem ética é um mundo em crise. A normatividade ética emerge no sentido de guiar individual e socialmente o caminho do ser humano.

Que normatividade é essa? É a conduta que reconhece limite e que requer esclarecimento na práxis humana. Noutros termos, a representação de uma ação pautada no resgate de sentido e de valores constituintes do ser humano.

Desse modo, no diagnóstico se encontra a proposta de reverter a situação. O remédio para uma doença só pode ser consumido, ao menos dentro da regularidade, após saber do que se trata.

Na situação de barbárie evidente, de guerra interna, para onde se caminha? Afirma o filósofo que “Não tem futuro uma sociedade em que se dissolve a verdadeira fraternidade”. Isso significa dizer que é necessária a realização da enorme tarefa de estabelecer urgentemente uma sociedade menos doente, menos violenta, mais fraterna e mais humana.

A condição de possibilidade de superação dessa grave situação que é constante precisa encontrar apoio num aparato governamental que dialogue com mudanças profundas na visualização de um tempo diferente, mas infelizmente não é o que acontece e parece que não há interesse nessa empreitada.

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Por que acreditar na política?

Por Felipe Feijão em Artigos

04 de julho de 2017

 

O discurso do compromisso com o país, de responsabilidade com a continuidade de atividades ditas governamentais, emerge no momento atual em que cada vez mais a face do projeto de governo se revela, o que significa que para tal ecoar é arriscado colocar a política em descrédito.

Essa exposição, precisa ser colocada em questão na medida em que não dialoga com a gravidade condicional em que o estado político conseguiu alcançar. A angústia de a quem recorrer, é bastante significativa, porque denota a seriedade do momento.

A situação de agora não pede mudança? Não pede algo diferente? Parece que como anuncia Vladimir Safatle em texto recente publicado na Folha de S. Paulo, é necessário “deixar quebrar”: “o melhor que pode acontecer ao Brasil neste momento é, de certa forma, deixar tudo quebrar. A consciência de que o país entrou em colapso e de que nenhuma de suas instituições funciona de maneira minimamente adequada pode ser a única saída real do fracasso”[1].

Faz bem observar que é em sentido positivo que Safatle vê como saída o “deixar quebrar”, uma vez que deve ser entendido no sentido de que para construir é preciso destruir primeiro, é uma destruição que cria. Assim sendo, não é quebrar simplesmente por quebrar.

Que figuras serão capazes de satisfazer o cenário político? Haverá possível consolação? A visualização que defende a completa desqualificação da política parece um pouco atrasada se só agora resolveu marcar presença no eminente espetáculo que a cada dia se mostra mais recheado de atrações e novidades.

Disso resulta a fria passividade geral na qual o povo permanece perante a enorme avalanche que não se aproxima, mas com a qual se acostumou a sobreviver . Infelizmente, ainda corre o risco de absorver o discurso de que apesar de tudo, há compromisso, há responsabilidade.

Outra postura que pode ser encontrada na cena aqui descrita é a do menos pior, ou por assim dizer, da aceitação conformada, de que não tem jeito. Melhor é engolir o que aí está do que se aventurar em possibilidade de incertezas que precisariam de um grau de demasiada superioridade para conseguirem ser pior.

Entretanto, deve haver uma inteligência forte que planeja e que maquina passo por passo a ser dado, nas palavras de Safatle, “a estratégia atual consiste em amedrontar a população com o discurso do futuro caótico, em vez de permitir que a imaginação política aja e crie o que o país ainda não sabe como fazer existir”.

Ora, se quem dita as regras do jogo é o interesse financeiro “que procura reduzir o Estado brasileiro a mero instrumento de rentabilização de ativos da elite patrimonialista e rentista”[2], então as “reformas que visam destruir até mesmo a possibilidade de se aposentar com uma renda minimamente digna” brevemente devem ser celebradas.

Enquanto o povo não perceber que “sua vontade é sempre atual e soberana. Ele pode desfazer as leis que ele mesmo fez e destituir instituições que se mostram corrompidas”, muitos apostarão suas cartas marcadas no jogo da manutenção política brasileira.

 

[1] Vladimir Safatle. Deixar quebrar. Folha de S. Paulo, 30/06/2017: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/vladimirsafatle/2017/06/1897086-deixar-quebrar.shtml

[2] Vladimir Safatle. O povo pode desfazer as leis que ele mesmo fez e destituir instituições. Folha de S. Paulo, 19/05/2017: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/vladimirsafatle/2017/05/1885194-desobediencia-civil.shtml

 

 

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CNBB e a questão indígena

Por Felipe Feijão em Artigos

26 de junho de 2017

 A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) em nota recente se manifestou em apoio ao Conselho Indigenista Missionário (CIMI), devido as “infundadas e injustas acusações que recebeu da Comissão Parlamentar de Inquérito, denominada CPI da Funai e Incra, encerrada no último mês de maio”. O CIMI ao longo de 45 anos realiza um trabalho junto aos povos indígenas, na defesa de sua vida e de seus direitos e colabora para a efetivação da justiça em respeito a história e a cultura.

 O relatório da CPI foi também repudiado em nota pelo Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH): “As ações da citada CPI e sua forma de condução demonstraram nítido propósito de intimidação e criminalização de pessoas e entidades que atuam na defesa dos direitos dos povos indígenas, quilombolas e da reforma agrária”. O relatório pede o indiciamento de aproximadamente uma centena de pessoas dentre lideranças religiosas, antropólogos, e aliados da causa indígena missionários do CIMI.

O CNDH continua: “Constam, ainda, no relatório proposições que visam paralisar as demarcações de terras indígenas e territórios quilombolas, bem como rever e revogar aquelas já demarcadas, colocando na mira do agronegócio e do mercado de terras áreas indispensáveis à sobrevivência física e cultural dos povos indígenas e quilombolas”. E a CNBB atesta que a CPI “Revelou, dessa forma, o abuso da força do poder político e econômico na defesa dos interesses de quem deseja a todo custo inviabilizar a demarcação das terras indígenas e quilombolas, numa afronta à Constituição Federal”.

A questão indígena é uma questão que merece atenção especial no Brasil, uma vez que foram eles os habitantes que já povoavam esta terra na qual aportaram os europeus. Desde então até o momento atual, felizmente após ter conseguido a positivação de direitos, essa questão continua a suscitar problemas e reclamação de cumprimento e, por assim dizer de reconhecimento. O fato do relatório da CPI é evidência disso.

 Durante a CPI, conforme dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT) no ano de 2016, ocorreram 61 assassinatos em conflitos no campo, o que representa aumento de 22% comparado com 2015. Já neste primeiro semestre de 2017, as barbáries ocorridas em Colniza (MT) e Pau D’arco (PA) registraram 40 assassinatos no campo.

 Felizmente, a Igreja do Brasil reconhece que “Os indígenas são, sobretudo, outros diferentes que exigem respeito e reconhecimento. A sociedade tende a menosprezá-los, desconhecendo o porquê de suas diferenças. Sua situação social está marcada pela exclusão e pela pobreza”. (Documento de Aparecida, 89). E constata que “Hoje, os povos indígenas estão ameaçados em sua existência física, cultural e espiritual; em seus modos de vida; em suas identidades; em sua diversidade; em seus territórios e projetos. Algumas comunidades indígenas se encontram fora de suas terras porque elas foram invadidas e degradadas, ou não tem terras suficientes para desenvolver suas culturas”. (Documento de Aparecida, 90).

Do aparente projeto de governo que vigora não é de se esperar algo diferente, porque “as proposições da CPI se inserem no mesmo contexto de reformas propostas pelo governo, especialmente as trabalhista e previdenciária, privilegiando o capital em detrimento dos avanços sociais”, diz a CNBB.

 Como se não bastasse a progressiva diminuição de povos e da cultura indígena, o vício do “colonizador” parece continuar constrangendo a vida dessas populações. O interesse financeiro, assim como mostra a história de imposição e de repressão colonial, novamente fala mais alto e precisa ser atendido.

 

 

 

 

 

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Um jovem subversivo

Por Felipe Feijão em Artigos

13 de junho de 2017

O jovem francês estudante de direito Étienne de La Boétie (1530-1563) provavelmente antes de completar 18 anos, escreveu seu Discurso da servidão voluntária, obra publicada postumamente. Importa saber que o pensamento de La Boétie emerge num contexto de reinados e de súditos, de poderio absurdo e de obediência cega e que seu discurso vai de encontro direito ao questionamento do poder soberano.

É na cena da Europa do século XVI que desbravava os mares nas navegações e aportava em novos territórios, terras sem rei nem lei, que desponta a ideia de que uma outra situação é possível. Que outra situação é essa? Quando os europeus entram em contato com os povos ameríndios, habitantes originais das Américas devem ter observado dentre as mais diversas diferenças possíveis, que não eram governados e dominados por um ou por um grupo detentor de poder.

Nesse sentido, La Boétie que vive em realidade distinta, concebe que é possível algo diferente do que é estabelecido e tido como verdade, ou seja, o sistema monárquico no qual tantas nações e povos viviam. Séculos mais tarde, o filósofo também francês Michel Foucault, irá refletir que a prática social é o que constitui com sua institucionalização legal a verdade.

Com efeito, verdade e poder caminham juntos e de mãos dadas, uma vez que é o poder que legitima a verdade e é a verdade que torna próspero o terreno para o cultivo do poder.

De que verdade e de que poder aqui se trata? A verdade diz respeito à produção que num dado percurso histórico se instaura na adoção de saber como verdadeiro. E o poder é o modo de poder que impera socialmente, politicamente e governamentalmente. Para entender melhor, basta que se exemplifique que a verdade, de algumas décadas atrás, tanto no que diz respeito a regime governamental quanto ao que se pratica na vida cotidiana não é a mesma de hoje. Isso significa uma mudança de concepção e de mentalidade ao menos de forma geral que indica para onde apontam esses dois elementos.

Uma inquietação fundamental que abre o Discurso de La Boétie é a seguinte: “Como é possível que tantos homens, tantas cidades, tantas nações às vezes suportem tudo de um Tirano só, que tem apenas o poder que lhe dão, que não tem o poder de prejudicá-los senão enquanto aceitam suportá-lo”. Em seguida ele se admira do fato de “ver milhões e milhões de homens miseravelmente subjugados e, de cabeça baixa, submissos a um jugo deplorável; não que a ele sejam obrigados por força maior, mas porque são fascinados e, por assim dizer, enfeitiçados apenas pelo nome de um que não deveriam temer, pois ele é só, nem amar, pois é desumano e cruel para com todos eles”.

Atualizando essa afirmação: como é possível um povo entregue a um ou a uns grupos de poder que possuem próprios interesses, continuar numa passividade gritante? Qual a proposta de La Boétie para uma pretensa emancipação? Não se curvar diante do poder, não obedecer, não bajular, não estar a serviço, pois a justificativa cerne se encontra na colocação de que o homem é um ser para a liberdade.

Infelizmente, tais inquietudes parecem que não foram escritas somente para o mundo de mais de quinhentos anos atrás. Também é bastante aplicável para as realidades que se apresentam hoje. Atemporal e atual, o vigor explícito do jovem La Boétie precisa continuar a ecoar e consequentemente a suscitar em outros a indignação necessária que entende e questiona o que se põe como soberano e como poderoso, afinal parece que é os que são submergidos pelo poder e pela verdade que depositam nas mãos dos que reinam e imperam força para tal.

O caráter clandestino e até mesmo subversivo do Discurso, às vezes se torna imprescindível para que estrategicamente uma palavra sobreviva à circulação que ocorre na margem do poder.

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Reflexão ambiental

Por Felipe Feijão em Artigos

05 de junho de 2017

No dia Mundial do Meio Ambiente, datado no contexto atual, cabe refletir sobre algumas considerações fundamentais concernentes ao momento nebuloso pelo qual todo o mundo passa.

O advento da modernidade condicionou o homem como sujeito que é doador de sentido para tudo. Isso significa dizer que a partir de então a técnica é a nova postura do homem diante da natureza. Esse posicionamento expresso por uma pretensa superioridade do homem em relação à natureza conduz tal postura a uma tensão cerne: a ação humana atua como mediação na natureza para satisfação de necessidades, por outro lado, cada vez mais que se vê satisfeita, parece sentir mais necessidade, o que denota o explícito estado de dependência.

Ora, se é o homem um ser superior que dá significado a tudo, indivíduo que carrega carências que devem ser suprimidas, então a situação de dominação, posse e violência sobre a natureza está explicada. No entanto, isso descambou na profunda crise socioambiental, que coloca em questão a sobrevivência de todo tipo de vida no planeta.

Consequentemente, o homem, como afirma Manfredo Oliveira em Desafios éticos da globalização “é o ser que pode levantar a questão da validade de sua própria práxis, a qual lhe abre a possibilidade de afirmar que o que é não deveria ser, e que algo que ainda não é deve ser”[1]. Isso denota que a capacidade de ser moral, poder decidir, e portar dignidade faz do homem na observação de Manfredo Oliveira em Cultura e natureza “responsável pela própria natureza, não como dono dela, mas a serviço de todos os seres. Ela deve ser respeitada”[2].

Colocar em questão a validade da práxis diante do cenário atual é buscar a ética de uma nova práxis, ou seja, uma nova ética. A práxis, a prática precisa de comprometimento com a vida e precisa ter a capacidade evidenciada na continuidade do texto citado acima “de dizer não a uma destruição da natureza, que não está a serviço dos homens, mas em função da satisfação de necessidades absurdas, criadas artificialmente a partir de interesses particulares e que ameaçam a vida no planeta e os povos”.

Quando o sentido da vida humana entra em crise, quando entra em crise a compreensão do fundamento da vida humana, se abrem as portas para as sucessivas crises que podem ser assistidas hoje: ética, política, econômica, social, ambiental. Uma civilização em crise, nas palavras de Lima Vaz é “uma civilização tão prodigiosamente avançada na sua razão técnica e tão dramaticamente indigente na sua razão ética”[3].

Mas o que esperar do momento de crise? Na mais esperançosa pretensão, um aprendizado e a inspiração de uma mudança radical no relacionamento do homem com a natureza e dos homens entre si.

 

[1] OLIVEIRA, Manfredo. Desafios éticos da globalização. São Paulo: Paulinas, 2008, p. 9.

[2] OLIVEIRA, Manfredo. Cultura e natureza: Síntese, 58, p. 290.

[3] LIMA VAZ, Henrique Cláudio de. Ética e comunidade: Síntese, 52, p. 11.

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Dependência do Brasil

Por Felipe Feijão em Artigos

07 de setembro de 2017

A dependência que aqui se aborda não é a da questão histórica da proclamação e das controvérsias que envolvem o tema, como não é novidade nos importantes registros históricos do país. Trata-se, pois do grave momento que ameaça a todos.

Parece que o grupo que atualmente detém o poder, instaura de forma disseminada uma dependência declarada. Dependência dos trabalhadores ao empresariado, dos estudantes a uma educação cada vez mais tecnicista, das empresas estatais ao interesse estrangeiro, da população em geral ao sofrimento devido a ineficiência evidente no que se pode imaginar de oferta de serviço mais básico.

A dependência também se torna nítida na urgente necessidade da realização de reformas que por assim dizer irão melhorar o país. No entanto, um questionamento fundamental que confronta essa imprescindibilidade: “reformar para quem?”.

Novamente, entra em pauta a reforma política. O fato é que tal reforma, apesar de ser positiva e gerar de certa forma consequências concretas e esperanças futuras, não satisfaz a participação popular e, tampouco colabora com a melhoria do sistema eleitoral. A partir do momento em que se discute sobre esse importante passo estrutural a ser dado, sem que haja um real engajamento social vinculado ao atendimento das verdadeiras demandas populares, existe nessa conjuntura algo que não dialoga diretamente com a sociedade e não efetiva positivamente as exigências sociais.

É salutar que aconteçam reformas na estrutura desgastada e esgotada das instituições, mas, mais do que criação de novas formulações superficiais, é preciso haver um novo enquadramento na estrutura, ou seja, no sentido mais profundo que ocasiona a manutenção do sistema.
Infelizmente, a permanência do interesse pelo poder e pela constância do desgastado modo de governar, continua ditando as regras do jogo, e isso gera dependência.

E, a mais recente novidade de dependência, foi o decreto presidencial para extinguir a Reserva Nacional do Cobre e Associados (Renca) da Amazônia.

Enfim, os tentáculos impiedosos desse modelo de gerir a coisa pública, posicionam todos numa progressiva condição de sujeição, de retrocesso e de começo de um tempo incerto.