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Socializando

por Felipe Feijão

Uma leitura do momento atual

Por Felipe Feijão em Artigos

24 de maio de 2017

 

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Henrique Cláudio de Lima Vaz

         O filósofo brasileiro Henrique Cláudio de Lima Vaz (1921-2002), em um de seus muitos textos deixados para a posteridade, Democracia e sociedade, coloca a seguinte questão: “O desafio democrático com o qual a sociedade brasileira se vê presentemente confrontada impõe uma vigilante lucidez com respeito às relações corretas entre os dois polos que estruturam o campo de uma experiência democrática viável: a ideia de democracia e a efetiva prática democrática. A relação entre esses dois polos se constitui, de um lado, a partir da natureza reguladora e normativa da ideia de democracia e, de outro, a partir das condições históricas concretas que acompanharam a formação do Brasil como Estado-nação dentro da constelação do espaço político do Ocidente moderno”.

         Importa saber que tal texto remonta ao ano de 1985, ano em que o Brasil se viu livre do pesadelo do regime ditatorial. Afirma Lima Vaz: “Nesse momento a questão da democracia torna-se um tema privilegiado de reflexão para quem quer que se preocupe com o destino político do Brasil”.

         Ora, novamente a questão da democracia emerge na cena nacional, uma vez que cada vez mais a putrefação da corrupção se torna visível a todos. A questão do poder nas mãos do atual grupo que tenta implantar um modelo de Estado com pretensas reformas, vem à tona como circunstância que diz respeito ao povo.

         Lima Vaz atesta explicitamente a existência de dois polos democráticos: ideal e efetivo, ou seja, a ideia de democracia e sua efetividade na realidade. Essa exposição impulsiona a reflexão: Há democracia na vida real do Brasil?

         A institucionalização democrática, de fato tem importância de relevo que prepara o terreno para o cultivo de direitos sociais e de um Estado de direito. Acontece que “Todo Estado democrático é um Estado de direito mas a recíproca não é verdadeira, como mostra a formação do poder real nos Estados de direito do Ocidente europeu a partir dos fins da Idade Média”, diz Lima Vaz.

         A dominação interesseira dos poderosos em busca de benefícios não visíveis denota necessariamente uma crise social que a cada dia parece aumentar. Infelizmente, a preocupação com o nervosismo do mercado, parece servir de horizonte para que o efeito dos escândalos não seja gritante.

         Lima Vaz parece ter despertado hoje e escrito esse lúcido texto para os dias atuais. À luz de suas afirmações é possível perceber o vasto espaço que se torna cada vez maior entre ideia de democracia e democracia presente na vida do povo, na vida do País e na vida da política agonizante.

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Brasil, país da violência

Por Felipe Feijão em Artigos

08 de maio de 2017

Pesquisa recente aponta que ao menos 50 milhões de brasileiros com 16 anos ou mais têm parente ou amigo que foi vítima de homicídio ou latrocínio, o que significa 35% da população do País, segundo dados inéditos do Datafolha encomendados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e pelo Instinto de Vida.

A ação policial nos números figura em grande relevância, visto que 16 milhões perderam parente ou amigo assassinado por um policial ou guarda municipal.

De fato, é difícil na vida cotidiana, não tomar conhecimento, sobre alguma ação de violência, ocorrida com alguém próximo. Infelizmente, isso gera em todos um permanente estado de alerta, de medo, de pânico. A qualquer momento qualquer pessoa pode ser surpreendida pela violência.   Por que os números são tão altos? O que está acontecendo com o Brasil?

A violência representada aqui por homicídio e por latrocínio, ceifa a vida de muitos e deixa marcas profundas de difícil cicatrização em familiares e pessoas próximas. Essas marcas, evidenciadas pela intensa vigilância que submete todos a um tipo de vivência superficial, individualizada e interesseira, gesta uma sociedade cada vez mais doente.

Parece haver uma guerra, não declarada, que não envolve países nesse caso, mas uma guerra interna explicitada e efetivada pela ausência e ineficiência do Estado. Essa negligência pública se estabelece historicamente através da ação punitiva com o braço armado, mas não dialoga com a necessária prevenção, que deveria objetivar a inexistência de punição, que por vezes se manifesta como fatal.

Está claro que não adianta a estrita intervenção de agentes estatais, uma vez que não se soluciona a complexidade do problema. Funciona de forma momentânea ou por um determinado período de tempo, como bem afirmou o filósofo Edgar Morin quando esteve no País em sua entrevista à TV Brasil: “Ser jovem é um momento de transição. Se essa violência é respondida com a violência do cárcere, vai se produzir delinquentes mais fortes”. Obviamente, uma prática delituosa, deve ser punida, mas aqui reside um elemento fundamental na problemática situação de segurança no Brasil.

Qual a condição dos presídios brasileiros? Lotados, em péssimas condições de infraestrutura e ambiente que não visa à correção e a ressocialização dos detentos. Isso denota que o sistema penitenciário é bastante deficiente.

A prevenção de todo esse condicionamento precisa receber atenção especial, na educação, na instauração de projetos voltados para a juventude, no incentivo a iniciativas já existentes que trabalham sem nenhuma ou com pouca valorização social e econômica.

Perceber que a violência supõe problemas que levantados constituem a complexa conjuntura, é um passo significativo, numa atualidade em que a fragmentação e especialização do conhecimento não fornecem leitura possível mais adequada do se apresenta como desafiante. Morin relacionando seu pensamento de teoria da complexidade com a violência  diz ainda: “Na complexidade, não podemos reduzir uma pessoa a seu ato mais negativo. Entender, não reduzir a uma característica má uma pessoa que tem outras características, isso é a complexidade. A complexidade busca favorecer uma compreensão maior que a compreensão que vem de se isolar a coisas, colocar o contexto, todos os contextos em uma situação”.

 

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Qual a finalidade de reformar?

Por Felipe Feijão em Artigos

02 de maio de 2017

A investida contra o trabalho e as relações de trabalho em marcha no Congresso brasileiro, se manifesta como elemento que com outras chamadas reformas, explicitam o pretenso modelo de Estado, atualmente projetado pelo grupo que detém o poder.

Uma reforma que beneficia o empresariado e despreza o trabalhador, parece atender justamente o interesse dos que querem a deliberação de tal proposta em iminente aprovação.

Felizmente o 1º de maio deste ano, em várias partes do mundo, foi marcado por protestos de trabalhadores a favor de seus direitos. De fato, com as devidas particularidades, o que sobressai disso é o ato de manifestar-se enquanto atitude atenta e preocupada com a situação do trabalho.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) acompanha atentamente o cenário que se desenha, e de forma acolhedora se coloca ao lado do povo, das pessoas de boa vontade. Os bispos que estão reunidos em Assembleia Geral em Aparecida se manifestaram por meio de mensagem aos trabalhadores por ocasião do 1º de maio: “O dia do trabalhador e da trabalhadora é celebrado, neste ano de 2017, em meio a um ataque sistemático e ostensivo aos direitos conquistados, precarizando as condições de vida, enfraquecendo o Estado e absolutizando o Mercado”.

O Papa Francisco na encíclica Laudato si’ afirma que “O trabalho é uma necessidade, faz parte do sentido da vida nesta terra, é caminho de maturação, desenvolvimento humano e realização pessoal”. E na exortação A Alegria do Evangelho visualiza a necessidade de que “É indispensável que os governantes e o poder financeiro levantem o olhar e alarguem as suas perspectivas, procurando que haja trabalho digno”.

Ora, a reforma está a serviço do mercado, e devido a isso gera cada vez mais um caminho de exclusão, uma economia excludente, impiedosa, que parece aprofundar suas raízes na estrutura social, tornando a sociedade mais débil e mais doente.

A mensagem diz ainda: “Nessa lógica perversa do mercado, os Poderes Executivo e Legislativo reduzem o dever do Estado de mediar a relação entre capital e trabalho, e de garantir a proteção social. Exemplos disso são os Projetos de Lei 4302/98 (Lei das Terceirizações) e 6787/16 (Reforma Trabalhista), bem como a Proposta de Emenda à Constituição 287/16 (Reforma da Previdência). É inaceitável que decisões de tamanha incidência na vida das pessoas e que retiram direitos já conquistados, sejam aprovadas no Congresso Nacional, sem um amplo diálogo com a sociedade”.

A perversidade evidente é, obviamente, explícita na conjuntura de consumismo, de individualismo, de descarte, de interesses abstrusos. Lima Vaz afirma que a prática humana é uma prática de finalidade, isto é, que tende sempre a um fim. Nesse sentido, a sociedade na qual os fins da prática não são visíveis entra em crise. Então, a pergunta decisiva é: qual a finalidade dessas reformas?

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Crise de sentido e a Baleia Azul

Por Felipe Feijão em Artigos

25 de abril de 2017

 

O médico Viktor Frankl, que viveu os tempos da II Guerra Mundial numa experiência de dor e sofrimento no campo de Auschwitz, relata no prefácio de seu livro Em busca de sentido que quando entrevistado e interrogado pelo motivo do livro ter se tornado um best-seller, chegava numa constatação de que tal ocorrência se deve ao fato da situação miserável atual: “se centenas de milhares de pessoas procuram um livro cujo título promete abordar o problema do sentido da vida, deve ser uma questão que está incomodando muito”.

Que é o homem? Como se deve viver? Essas perguntas antropológicas se situam como fundamentais num contexto de desvalorização do valor. Nesse sentido, emerge o jogo Baleia Azul de origem russa e mundialmente conhecido. Trata-se de um jogo em que os participantes são impelidos de cumprir 50 metas que colocam em risco a própria existência de quem o joga.

Na atualidade, a internet que parece ser o novo deus, vicia e escraviza cada vez mais, gerando assim uma geração de dependentes que se acham modernos. A falta do cara a cara, do diálogo, do reconhecimento pessoal do outro numa atitude ética, e o comportamento excessivo em sites e redes sociais, aponta para um condicionamento em que um jogo como o referido possui a capacidade de manipulação adequada para colocar nos olhos da juventude uma venda que muitas vezes pode ser trágica.

Perceber que o homem, o ser humano, é um ser diferenciado dos demais pelas suas complexidades diversas e pela sua capacidade de raciocínio e de pensamento, denota a responsabilidade da ação humana na forma de sua vivência e de relação com os outros. Essa responsabilidade tem a importância de entendimento da posição do homem no mundo enquanto sujeito desenvolvedor de ações de consequência.

O filósofo brasileiro Lima Vaz, que viveu até o início da passagem do século XX para o século XXI, em seus escritos, já identificava uma crise de sentido da vida, da existência nas sociedades contemporâneas. Isso significa dizer que o sentido da vida e da existência entra em crise a partir do momento em que a sociedade não reconhece e não adota mais uma vida ética, ou seja, nega, relativiza e desvaloriza práticas até então vivenciadas e adotadas pela comunidade social.

Infelizmente, a intenção de invenções como a Baleia Azul, tem um apelo, sobretudo com a juventude, que por estar num universo de transformações, de decisões e por vezes com problemas devido à possibilidade de diferentes contextos familiares e emocionais, num momento de fraqueza combinada com curiosidade se deixa levar pela aventura.

Buscar o sentido no amor, no acolhimento, na compreensão, na escuta, no respeito, no aprendizado, se apresenta como condição possível de ir na contramão das crises desafiantes do mundo contemporâneo.

 

 

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CNBB e a reforma da previdência

Por Felipe Feijão em Artigos

19 de abril de 2017

A atual situação de reformas propostas pelo grupo governamental que assumiu o poder e que já mostra seu desejo de projeto de sociedade, se mostra como momento oportuno para o debate. Em publicação recente, o Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular (Ceseep) reúne notas e pronunciamentos que se referem à reforma da previdência em andamento no Congresso Nacional.

Tradicionalmente, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em notas e documentos, se coloca ao lado da justiça e dos pobres, alertando e denunciando os fatos do mundo político.

A nota da CNBB sobre a PEC 287/2016 (reforma da previdência) atesta que: “Buscando diminuir gastos previdenciários, a PEC 287/2016 “soluciona o problema”, excluindo da proteção social os que têm direito a benefícios. Ao propor uma idade única de 65 anos para homens e mulheres, do campo ou da cidade; ao acabar com a aposentadoria especial para trabalhadores rurais; ao comprometer a assistência aos segurados especiais (indígenas, quilombolas, pescadores…); ao reduzir o valor da pensão para viúvas ou viúvos, a PEC 287/2016 escolhe o caminho da exclusão social”.

Esse caminho de exclusão parece ser o caminho de opção preferencial do atual modelo de governo, que propõe medidas de forma atropelada e com isso impossibilita o diálogo necessário com toda a sociedade, que é a mais interessada e que será atingida.

O referido documento contém também uma nota da CNBB sobre o foro privilegiado que em sua gênese e princípio constitutivo se enquadra num condicionamento justificativo que positiva sua existência e necessidade na proteção de um cargo público ocupado por uma autoridade pública. Diante de um cenário de incansáveis escândalos de crimes de corrupção que cotidianamente se manifestam o debate acerca desse privilégio também se faz bastante propício. A nota diz: “Aos olhos da população, esse procedimento jurídico parece garantia de impunidade numa afronta imperdoável ao princípio constitucional de que todos são iguais perante a lei… Não se compreende uma sociedade justa na qual se praticam duas justiças: uma para autoridades e outra para os cidadãos comuns”.

Indubitavelmente, os mesmos que detêm o direito de julgamento diferente são os que possuem, de igual forma, outros privilégios em sua generalização impopulares. E, além disso, o insistente vício da corrupção que macula profundamente as estruturas desgastadas do sistema político torna a diferenciação processual em instâncias superiores, um privilégio dos privilegiados.

A garantia estrita que defende e que protege a função social exercida, não dialoga com a possibilidade de manutenção circunstancial desse condicionamento imerso em evidências de práticas delituosas.

O projeto de sociedade desejado pela possibilidade real de efetivação das pautas que aí estão cada vez mais se revela como excludente. O papa Francisco na exortação A Alegria do Evangelho, ao tratar dos desafios do mundo atual, afirma que é necessário dizer não a uma economia de exclusão: “Esta economia mata”.

Infelizmente, com a deliberação da dita reforma, o povo trabalhador colherá o fruto amargo enquanto, quando se avança aos poucos rumo a uma mudança estrutural de sociedade, novas estratégias surgem e suplantam impiedosamente a esperança de dias melhores.

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Fortaleza e Fortalezas

Por Felipe Feijão em Artigos

13 de abril de 2017

 

O cidadão de Fortaleza vive na 12ª cidade mais violenta do Brasil e 35ª do mundo, segundo dados da ONG mexicana Conselho Cidadão para Segurança Pública e Justiça Penal. Isso significa dizer que o povo se torna vítima de um estarrecimento governamental que parece não dialogar com as realidades dos fatos.

O medo assombra a todos. Seja qual for a hora do dia ou da noite, se faz necessária atenção redobrada ao sair na calçada, nas ruas ou a voltar de algum local para casa. Infelizmente, todo cuidado é pouco quando se vive numa cidade perigosa. A situação é tão grave que o valor da vida humana se encontra banalizado.

A população aprendeu a conviver numa cidade repleta de problemas, de desigualdade e de violência. A chamada periferia, muitas vezes em várias localidades é marcada pela negligência da oferta de serviços públicos básicos para uma vida digna.

Em Fortaleza existem diferentes Fortalezas. Isso mesmo: empreendimentos gigantescos levantados pelo interesse comercial contrastam com áreas desproporcionalmente simples e vulneráveis. Os empreendimentos milionários, shoppings, ambientes seletos parecem ser uma contradição numa cidade onde grande parte da população não tem condições de acessar tais locais.

Fortaleza é um exemplar criterioso do que é a desigualdade social, posto que, se respira desigualdade na capital cearense. É difícil imaginar que a cidade de edifícios esplendorosos à beira mar, é a mesma que possui uma generosa parcela de sua população mantida na chamada margem periférica.

Os problemas além de sociais se expressam de forma física. Em tempos de chuva, a péssima infraestrutura se revela em forma de caos. Alagamentos, ruas e avenidas esburacadas, moradias em áreas de risco agravadas. A chuva, que atualmente é uma necessidade num estado de grave seca, infelizmente explicita um sério descaso.

O bonito discurso de planejamento e de visualização futura da cidade, numa proposta de inovação e de modernização, parece não dialogar com a atual situação que aguarda a possível minoração de tantos problemas que atormentam diariamente o povo fortalezense.

De fato, nessa data comemorativa de 291 anos, quem merece os cumprimentos é o povo que vive, convive e sobrevive em Fortaleza, cidade de belezas, de riqueza, de pobreza e de cenários não tão belos.

Diante disso, a pergunta decisiva é o que comemorar?

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Estado de lamentação

Por Felipe Feijão em Artigos

06 de abril de 2017

 

Vive-se no Brasil uma situação preocupante que diz respeito à vida de todos. O momento atual se mostra como tempo em que o grupo que assumiu o poder revela explicitamente seu projeto de sociedade.

A cada dia, uma novidade é apresentada como algo necessário para o País e que trará benefícios. Reforma do ensino médio, reforma da previdência, terceirização, são elementos que constituem o novo modelo que está sendo estabelecido.

Quais os benefícios de tais medidas? Quem realmente será beneficiado? Uma educação cada vez mais tecnicista e não reflexiva estará a serviço de quem? Os jovens ao terminarem o ensino médio direto para o mercado de trabalho serão mão de obra de quem? Os contribuintes da previdência de longos anos conseguirão aposentadoria?

Com a instauração desses projetos, se corre o risco de que o que reside de mais fundamental seja imperceptível, uma vez que o aparato propagandista celebra com singular entusiasmo a situação atual.

Esse receituário reflete de forma relevante o interesse dos poderosos e dos dominantes. O povo trabalhador, os que sobrevivem com pouco, os que vivem sem a oferta básica de serviços públicos, permanecem vítimas da falha do Estado que não satisfaz a distribuição de bens e serviços.

Disso resultará a implementação, já em andamento, de significativo retrocesso, diante de um quadro governamental anterior. É incrível como se consegue sempre de novo de formas novas a efetivação de estratégias que evitem qualquer mudança mais profunda na estruturação da sociedade.

Ora, esse chamado avanço através de reformas, está à disposição do interesse financeiro. Fantasiar a realidade por meio de algo que se aproxima do fantasioso, mas de fato não possui correspondência, dado sua eminente expressão de ocorrência, é preocupante.

O ambiente de mal estar, de pessimismo, de preocupação, de lamentação, se torna cada vez mais abrangente numa perspectiva de futuro que aos poucos parece ser desenhada pelas mãos severas que ditam as regras do jogo.

Basta esperar para assistir o grande salto que será alcançado com as inovações. Salto para onde?

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Dandara, a travesti morta

Por Felipe Feijão em Artigos

07 de março de 2017

Por vezes é preciso que uma tragédia fatal veiculada nas redes sociais e noticiada pela mídia aconteça para que a sociedade se depare com o atual estado em que se encontra. Isso aconteceu com Dandara, travesti cruelmente agredida e morta em fevereiro na cidade de Fortaleza. A principal suspeita é de transfobia.

O vídeo espalhado nas redes e na mídia contém cenas fortes e denotam a que ponto o ser humano pode chegar quando desconhece semelhança no outro (próximo). A pergunta que surge é qual a necessidade de tamanha violência desmedida? Vários agressores contra uma vida no estado retratado indefesa e humilhada. Independentemente do fator sexual, a dignidade da vida humana deve prevalecer e sobressair à incapacidade eminente de tal reconhecimento.

De fato, numa sociedade mecanizada em que a associação mecânica e técnica de indivíduos parece buscar tão somente benefícios individuais, o valor da vida e a dignidade da pessoa não figuram mais como prioridades. A selvageria então descamba no desrespeito para com o outro ao extremo de ser travada uma luta de combate. Nesse caso em questão: agressão, covardia e intolerância.

Quotidianamente, inúmeros casos semelhantes ocorrem sem ganhar repercussão. Este se tornou notícia depois de as imagens serem compartilhadas na internet. Mas quando um ganha chama a atenção naturalmente pelo condicionamento da situação e felizmente alerta a sociedade e evidencia o trabalho policial investigativo e punitivo.

É preciso saber conviver com o diferente e com as diferenças. Reconhecer que existe uma lei ética que necessita de observância e consequentemente de cumprimento que diz respeito exatamente ao agir na convivência social voluntária. Ora, uma vez que não há observação da alteridade e que os valores estão distorcidos, o terreno para atitudes doentias se torna propício.

Medidas que visam à coibição de tais atrocidades passam pela devida atenção que deve ter o Estado enquanto ordenador da coletividade e pacificador de litígios. De igual forma, o resgaste do valor da vida humana enquanto enquadramento ético de concepção de reconhecimento e respeito fundamenta a conscientização em lento desenvolvimento.

Enquanto isso, a ineficiência governamental conjugada com a ausência de ações e de trabalhos voltados para a população LGBT, favorece a situação de aparente barbárie.

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Situação dos direitos humanos no Brasil

Por Felipe Feijão em Artigos

24 de fevereiro de 2017

 

A Anistia Internacional divulgou em fevereiro o informe “O Estado dos Direitos Humanos no Mundo 2016/2017”, no qual retrata a situação dos direitos enquanto panorama em dezenas de países.

Imagem relacionadaNo que se refere ao Brasil, o relatório enfatiza que “A polícia continuou a fazer uso desnecessário e excessivo da força, em especial no contexto dos protestos. Jovens negros, principalmente os que moram em favelas e periferias, foram desproporcionalmente afetados pela violência por parte de policiais. Defensores e defensoras dos direitos humanos, em especial os que defendem os direitos terra e ao meio ambiente, enfrentaram cada vez mais ameaças e ataques. A violência contra mulheres e crianças continua sendo uma prática comum. As violações de direitos humanos e discriminação contra refugiados, solicitantes de refúgio e migrantes se intensificaram”.

É lamentável perceber os graves problemas que insistem em assolar o Brasil, país diversificado regionalmente, mas ao mesmo tempo semelhante na negligência da oferta de elementos fundamentais para a vida social por parte do Estado. A segurança pública aparentemente permanece estarrecida perante os últimos conflitos e mortes nos presídios. A incapacidade de articulação de medidas governamentais que conjuguem prevenção, punição e ressocialização, resulta no caos atual.

Fatores determinantes para o estado crítico que castiga o País são os impasses e as constatações gritantes das condições prisionais, da liberdade de manifestação, dos defensores dos direitos humanos, dos direitos dos povos indígenas, da violência contra mulheres e meninas, das pessoas refugiadas e dos direitos das crianças.

Resultado de imagem para direitos humanos chargeO destaque negativo colhido agora é fruto do condicionamento que submerge estruturas fundamentais, necessidades básicas que aguardam respostas e ação do poder público. O aprofundamento de sérias violações e o eminente risco de retrocesso em direitos já conquistados, sendo este feito marca registrada do governo vigente, refletem o cenário nacional.

Num nível mundial, o relatório alerta para líderes políticos que apostam seu poder atual e futuro em narrativas de medo e desunião, isto é, no discurso do “nós contra eles”. Tal prática ocasiona um mundo divido e mais perigoso e, sobretudo desenvolve um retrocesso na efetivação de direitos, o que enfraquece, por exemplo, a reação da comunidade internacional à questão dos refugiados.

A retórica do “nós contra eles”, cria um ambiente em que o “nós” se visualiza superior e detentor da razão enquanto “eles” são os inferiores que precisam ser combatidos. O impulso de tal situação parece se encontrar na ascensão dos que instauram essa ideia e a disseminam, ou seja, os que anseiam o poder a qualquer preço.

 

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Seres humanos buscam refúgio

Por Felipe Feijão em Artigos

20 de fevereiro de 2017

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O debate migratório está em pauta nos noticiários e nas discussões sociais devido à chamada “crise” que nos últimos tempos se acentuou na Europa. Outro fator determinante que chama a atenção é o fato de os Estados Unidos recentemente sob ordem do novo presidente ter iniciado uma perseguição aos que entram em suas fronteiras.

Sem dúvida, a palavra “crise” precisa ser questionada, uma vez que é posta na cena midiática pelos que tem interesse de subordinação da mente das pessoas. Entretanto, a situação gritante, denota um condicionamento preocupante que para além de afundar a Europa em colapso, coloca em jogo inúmeras vidas que merecem dignidade, respeito e acolhimento.

Zygmunt Bauman, sociólogo recentemente falecido e intérprete singular do mundo contemporâneo, deixou para a posteridade dentre vasta obra, o livro “Estranhos à nossa porta”, onde trata da questão migratória. Ora, o título é bem sugestivo e acena para a explicitação ensejada por Bauman de que os que batem a porta são considerados estranhos e dos estranhos geralmente se teme e se desconhece suas ações e suas pretensões.

O fato é que eles batem à porta enquanto convivem com “crianças afogadas, muros apressadamente erguidos, cercas de arame farpado, campos de concentração superlotados” etc. Para Bauman, não há previsibilidade de que o fenômeno da migração em massa possa ser interrompido, mesmo em meio a situações desestimulantes e as tentativas governamentais cada vez mais expressas de impedir seu acontecimento. Dessa forma, se apresenta como constatação evidenciada pelos efeitos críticos da devastação dos países de onde emergem os que buscam refúgio.

Nos últimos tempos, a busca de asilo ocasionada por intermináveis guerras, assassinatos em massa e por um aparente estado de selvageria, o contingente de refugiados tem aumentado, gerando assim reações dos que estão do outro lado da porta. É exatamente nesse contexto que segundo Bauman, o papa Francisco pode ser considerado um dos poucos ícones públicos que alertam para o perigo de se repetir o gesto de Pilatos (lavar as mãos) diante do padecimento do povo atingido por tais situações das quais somos em algum grau, vítimas e responsáveis.

Exemplo disso pode ser encontrado em sua mensagem de 19 de junho de 2016 na qual o papa pede que os refugiados sejam encontrados, acolhidos e ouvidos: “Os refugiados são pessoas como todos, mas às quais a guerra tirou a casa, o trabalho, os parentes e os amigos. As suas histórias e os seus rostos exortam-nos a renovar o compromisso para construir a paz na justiça. É por isso que desejamos estar com eles: encontrá-los, recebê-los e ouvi-los, para nos tornarmos juntos artífices de paz” e na postagem em seu twitter na qual diz o seguinte no dia 16 de fevereiro de 2017: “Convido todos a combater a pobreza material e espiritual. Vamos edificar juntos a paz e construir pontes”.

Na situação calamitosa atual pela qual passa o mundo, são necessárias pontes em vez de muros. Reconhecer a necessidade e a importância das relações humanas presentes no diálogo, no respeito e no sentido manifestado de um ser humano para com outro ser humano como diz Levinas, constituem elementos fundamentais que perpassam os interesses próprios e a associação mecânica de indivíduos perseguindo fins individuais e que visualizam a possibilidade de convivência na adversidade.

 

 

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Uma leitura do momento atual

Por Felipe Feijão em Artigos

24 de maio de 2017

 

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Henrique Cláudio de Lima Vaz

         O filósofo brasileiro Henrique Cláudio de Lima Vaz (1921-2002), em um de seus muitos textos deixados para a posteridade, Democracia e sociedade, coloca a seguinte questão: “O desafio democrático com o qual a sociedade brasileira se vê presentemente confrontada impõe uma vigilante lucidez com respeito às relações corretas entre os dois polos que estruturam o campo de uma experiência democrática viável: a ideia de democracia e a efetiva prática democrática. A relação entre esses dois polos se constitui, de um lado, a partir da natureza reguladora e normativa da ideia de democracia e, de outro, a partir das condições históricas concretas que acompanharam a formação do Brasil como Estado-nação dentro da constelação do espaço político do Ocidente moderno”.

         Importa saber que tal texto remonta ao ano de 1985, ano em que o Brasil se viu livre do pesadelo do regime ditatorial. Afirma Lima Vaz: “Nesse momento a questão da democracia torna-se um tema privilegiado de reflexão para quem quer que se preocupe com o destino político do Brasil”.

         Ora, novamente a questão da democracia emerge na cena nacional, uma vez que cada vez mais a putrefação da corrupção se torna visível a todos. A questão do poder nas mãos do atual grupo que tenta implantar um modelo de Estado com pretensas reformas, vem à tona como circunstância que diz respeito ao povo.

         Lima Vaz atesta explicitamente a existência de dois polos democráticos: ideal e efetivo, ou seja, a ideia de democracia e sua efetividade na realidade. Essa exposição impulsiona a reflexão: Há democracia na vida real do Brasil?

         A institucionalização democrática, de fato tem importância de relevo que prepara o terreno para o cultivo de direitos sociais e de um Estado de direito. Acontece que “Todo Estado democrático é um Estado de direito mas a recíproca não é verdadeira, como mostra a formação do poder real nos Estados de direito do Ocidente europeu a partir dos fins da Idade Média”, diz Lima Vaz.

         A dominação interesseira dos poderosos em busca de benefícios não visíveis denota necessariamente uma crise social que a cada dia parece aumentar. Infelizmente, a preocupação com o nervosismo do mercado, parece servir de horizonte para que o efeito dos escândalos não seja gritante.

         Lima Vaz parece ter despertado hoje e escrito esse lúcido texto para os dias atuais. À luz de suas afirmações é possível perceber o vasto espaço que se torna cada vez maior entre ideia de democracia e democracia presente na vida do povo, na vida do País e na vida da política agonizante.