Publicidade

Socializando

por Felipe Feijão

O marcante momento nacional

Por Felipe Feijão em Artigos

19 de julho de 2017

 

O momento da vida nacional é marcante. Algo marcante é um distintivo que assinala um relevo. Quando se trata de momento, emerge o tempo como um período demarcado. O marco na vida da nação, nesse caso, é um marco negativo, que submete gravemente todos que de alguma forma vivem a vida do País a uma situação angustiante que bem se pode perceber no noticiário, na roda de conversa, no cotidiano.

Consequentemente, a demarcação que se pode observar, é uma designação de distinção para pior, ou seja, uma condição que piora se instala rapidamente e consegue aos poucos legitimação.

O período de tempo demarcado que aqui se concebe estabelece seu caminho num percurso nebuloso. E o pior é que nessa trilha sombria, difícil é identificar rota e destino. O objetivo, aos poucos mostra seus desdobramentos em aprovações legais celebradas pelo interesse de poucos.

O que se apresenta como mais estranho são as formas que assinalam a legalidade em procedimentos sérios que interferem profundamente na vida das pessoas. Essas formas, se diferem, numa medida que parece obedecer a critérios obscuros.

Ora, quando a putrefação da corrupção política se torna impregnada e se enraíza estruturalmente, a instauração de medidas novas que se manifestam como inovadoras e benéficas podem querer suprimir a noção de preservação, que com certas legalizações é colocada em questão justamente pela representação da novidade que se pretende efetivar.

É nessa perspectiva que o marco que ora se instaura, trespassa um condicionamento anterior, e aponta para o cumprimento de pautas que não são as sociais.

Perscrutar a cena desenhada pela agonizante conjuntura e estrutura política, denota um estado de tristeza. Essa tristeza consiste na visualização de que não há sequer um nome capaz de satisfazer a minoração da presente aflição. Isso denota negligência, ineficiência, incapacidade, omissão e indiferença que são as fortes características do presente modelo de gerir o que é público.

Algumas interrogações colaboram para uma melhor concepção desse momento: as chamadas reformas estão a serviço de quem? Como um Congresso com expressivo número de membros envolvidos em esquemas de corrupção pode tomar decisões tão importantes? O que ainda está sustentando a atual governabilidade?  A manutenção da engenhosa máquina política permanecerá como está até quando?

A natureza dessas interrogações como perguntas que descambam no levantamento de possibilidades gestam também a permanente incerteza que inevitavelmente ronda o espetáculo. Difícil é assistir tudo e aguardar.

 

 

leia tudo sobre

Publicidade

País da insegurança

Por Felipe Feijão em Artigos

11 de julho de 2017

 

O informativo Nota Econômica do mês de julho de 2017 da Confederação Nacional da Indústria traz uma pesquisa que se refere a insegurança nas regiões do País. Segundo dados sobre a região Nordeste, 4, 4 a cada 10 famílias tiveram uma vítima de furto, assalto ou agressão. Já na região Sul, 3,1 a cada 10 famílias tiveram vítima dessas manifestações de violência.

O Sul se situa como região onde a população tem a menor percepção de insegurança, uma vez que menos habitantes vivenciaram violência e mudaram hábitos. As regiões Nordeste, Norte e Centro-Oeste, possuem proporção maior de habitantes que por motivos dos crimes, mudaram hábitos.

A sociedade atual, sofrida e marcada pela negligência da oferta de serviços básicos, ainda é obrigada a conviver em permanente estado de alerta. Esse estado de alerta é em função da violência que como demonstrado está mudando a vida das pessoas.

O filósofo Manfredo Oliveira em texto recente apresenta um panorama da condição social hodierna: “A normatividade ética, individual e social, constitui a condição irrecusável para que a sociedade possa lutar contra seus males evidentes: a violência contra a pessoa e a vida, contra a família, o tráfico de drogas e outros negócios ilícitos, excessos no uso da força policial, corrupção, sonegação fiscal, malversação dos bens públicos, abuso do poder econômico e político, poder discricionário dos meios de comunicação social, crimes ambientais”.

Vale ressaltar que já nesse panorama que retrata diversificadas manifestações de violência, se observa uma importante proposta: a normatividade ética. Um mundo sem ética é um mundo em crise. A normatividade ética emerge no sentido de guiar individual e socialmente o caminho do ser humano.

Que normatividade é essa? É a conduta que reconhece limite e que requer esclarecimento na práxis humana. Noutros termos, a representação de uma ação pautada no resgate de sentido e de valores constituintes do ser humano.

Desse modo, no diagnóstico se encontra a proposta de reverter a situação. O remédio para uma doença só pode ser consumido, ao menos dentro da regularidade, após saber do que se trata.

Na situação de barbárie evidente, de guerra interna, para onde se caminha? Afirma o filósofo que “Não tem futuro uma sociedade em que se dissolve a verdadeira fraternidade”. Isso significa dizer que é necessária a realização da enorme tarefa de estabelecer urgentemente uma sociedade menos doente, menos violenta, mais fraterna e mais humana.

A condição de possibilidade de superação dessa grave situação que é constante precisa encontrar apoio num aparato governamental que dialogue com mudanças profundas na visualização de um tempo diferente, mas infelizmente não é o que acontece e parece que não há interesse nessa empreitada.

leia tudo sobre

Publicidade

Por que acreditar na política?

Por Felipe Feijão em Artigos

04 de julho de 2017

 

O discurso do compromisso com o país, de responsabilidade com a continuidade de atividades ditas governamentais, emerge no momento atual em que cada vez mais a face do projeto de governo se revela, o que significa que para tal ecoar é arriscado colocar a política em descrédito.

Essa exposição, precisa ser colocada em questão na medida em que não dialoga com a gravidade condicional em que o estado político conseguiu alcançar. A angústia de a quem recorrer, é bastante significativa, porque denota a seriedade do momento.

A situação de agora não pede mudança? Não pede algo diferente? Parece que como anuncia Vladimir Safatle em texto recente publicado na Folha de S. Paulo, é necessário “deixar quebrar”: “o melhor que pode acontecer ao Brasil neste momento é, de certa forma, deixar tudo quebrar. A consciência de que o país entrou em colapso e de que nenhuma de suas instituições funciona de maneira minimamente adequada pode ser a única saída real do fracasso”[1].

Faz bem observar que é em sentido positivo que Safatle vê como saída o “deixar quebrar”, uma vez que deve ser entendido no sentido de que para construir é preciso destruir primeiro, é uma destruição que cria. Assim sendo, não é quebrar simplesmente por quebrar.

Que figuras serão capazes de satisfazer o cenário político? Haverá possível consolação? A visualização que defende a completa desqualificação da política parece um pouco atrasada se só agora resolveu marcar presença no eminente espetáculo que a cada dia se mostra mais recheado de atrações e novidades.

Disso resulta a fria passividade geral na qual o povo permanece perante a enorme avalanche que não se aproxima, mas com a qual se acostumou a sobreviver . Infelizmente, ainda corre o risco de absorver o discurso de que apesar de tudo, há compromisso, há responsabilidade.

Outra postura que pode ser encontrada na cena aqui descrita é a do menos pior, ou por assim dizer, da aceitação conformada, de que não tem jeito. Melhor é engolir o que aí está do que se aventurar em possibilidade de incertezas que precisariam de um grau de demasiada superioridade para conseguirem ser pior.

Entretanto, deve haver uma inteligência forte que planeja e que maquina passo por passo a ser dado, nas palavras de Safatle, “a estratégia atual consiste em amedrontar a população com o discurso do futuro caótico, em vez de permitir que a imaginação política aja e crie o que o país ainda não sabe como fazer existir”.

Ora, se quem dita as regras do jogo é o interesse financeiro “que procura reduzir o Estado brasileiro a mero instrumento de rentabilização de ativos da elite patrimonialista e rentista”[2], então as “reformas que visam destruir até mesmo a possibilidade de se aposentar com uma renda minimamente digna” brevemente devem ser celebradas.

Enquanto o povo não perceber que “sua vontade é sempre atual e soberana. Ele pode desfazer as leis que ele mesmo fez e destituir instituições que se mostram corrompidas”, muitos apostarão suas cartas marcadas no jogo da manutenção política brasileira.

 

[1] Vladimir Safatle. Deixar quebrar. Folha de S. Paulo, 30/06/2017: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/vladimirsafatle/2017/06/1897086-deixar-quebrar.shtml

[2] Vladimir Safatle. O povo pode desfazer as leis que ele mesmo fez e destituir instituições. Folha de S. Paulo, 19/05/2017: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/vladimirsafatle/2017/05/1885194-desobediencia-civil.shtml

 

 

leia tudo sobre

Publicidade

CNBB e a questão indígena

Por Felipe Feijão em Artigos

26 de junho de 2017

 A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) em nota recente se manifestou em apoio ao Conselho Indigenista Missionário (CIMI), devido as “infundadas e injustas acusações que recebeu da Comissão Parlamentar de Inquérito, denominada CPI da Funai e Incra, encerrada no último mês de maio”. O CIMI ao longo de 45 anos realiza um trabalho junto aos povos indígenas, na defesa de sua vida e de seus direitos e colabora para a efetivação da justiça em respeito a história e a cultura.

 O relatório da CPI foi também repudiado em nota pelo Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH): “As ações da citada CPI e sua forma de condução demonstraram nítido propósito de intimidação e criminalização de pessoas e entidades que atuam na defesa dos direitos dos povos indígenas, quilombolas e da reforma agrária”. O relatório pede o indiciamento de aproximadamente uma centena de pessoas dentre lideranças religiosas, antropólogos, e aliados da causa indígena missionários do CIMI.

O CNDH continua: “Constam, ainda, no relatório proposições que visam paralisar as demarcações de terras indígenas e territórios quilombolas, bem como rever e revogar aquelas já demarcadas, colocando na mira do agronegócio e do mercado de terras áreas indispensáveis à sobrevivência física e cultural dos povos indígenas e quilombolas”. E a CNBB atesta que a CPI “Revelou, dessa forma, o abuso da força do poder político e econômico na defesa dos interesses de quem deseja a todo custo inviabilizar a demarcação das terras indígenas e quilombolas, numa afronta à Constituição Federal”.

A questão indígena é uma questão que merece atenção especial no Brasil, uma vez que foram eles os habitantes que já povoavam esta terra na qual aportaram os europeus. Desde então até o momento atual, felizmente após ter conseguido a positivação de direitos, essa questão continua a suscitar problemas e reclamação de cumprimento e, por assim dizer de reconhecimento. O fato do relatório da CPI é evidência disso.

 Durante a CPI, conforme dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT) no ano de 2016, ocorreram 61 assassinatos em conflitos no campo, o que representa aumento de 22% comparado com 2015. Já neste primeiro semestre de 2017, as barbáries ocorridas em Colniza (MT) e Pau D’arco (PA) registraram 40 assassinatos no campo.

 Felizmente, a Igreja do Brasil reconhece que “Os indígenas são, sobretudo, outros diferentes que exigem respeito e reconhecimento. A sociedade tende a menosprezá-los, desconhecendo o porquê de suas diferenças. Sua situação social está marcada pela exclusão e pela pobreza”. (Documento de Aparecida, 89). E constata que “Hoje, os povos indígenas estão ameaçados em sua existência física, cultural e espiritual; em seus modos de vida; em suas identidades; em sua diversidade; em seus territórios e projetos. Algumas comunidades indígenas se encontram fora de suas terras porque elas foram invadidas e degradadas, ou não tem terras suficientes para desenvolver suas culturas”. (Documento de Aparecida, 90).

Do aparente projeto de governo que vigora não é de se esperar algo diferente, porque “as proposições da CPI se inserem no mesmo contexto de reformas propostas pelo governo, especialmente as trabalhista e previdenciária, privilegiando o capital em detrimento dos avanços sociais”, diz a CNBB.

 Como se não bastasse a progressiva diminuição de povos e da cultura indígena, o vício do “colonizador” parece continuar constrangendo a vida dessas populações. O interesse financeiro, assim como mostra a história de imposição e de repressão colonial, novamente fala mais alto e precisa ser atendido.

 

 

 

 

 

leia tudo sobre

Publicidade

Um jovem subversivo

Por Felipe Feijão em Artigos

13 de junho de 2017

O jovem francês estudante de direito Étienne de La Boétie (1530-1563) provavelmente antes de completar 18 anos, escreveu seu Discurso da servidão voluntária, obra publicada postumamente. Importa saber que o pensamento de La Boétie emerge num contexto de reinados e de súditos, de poderio absurdo e de obediência cega e que seu discurso vai de encontro direito ao questionamento do poder soberano.

É na cena da Europa do século XVI que desbravava os mares nas navegações e aportava em novos territórios, terras sem rei nem lei, que desponta a ideia de que uma outra situação é possível. Que outra situação é essa? Quando os europeus entram em contato com os povos ameríndios, habitantes originais das Américas devem ter observado dentre as mais diversas diferenças possíveis, que não eram governados e dominados por um ou por um grupo detentor de poder.

Nesse sentido, La Boétie que vive em realidade distinta, concebe que é possível algo diferente do que é estabelecido e tido como verdade, ou seja, o sistema monárquico no qual tantas nações e povos viviam. Séculos mais tarde, o filósofo também francês Michel Foucault, irá refletir que a prática social é o que constitui com sua institucionalização legal a verdade.

Com efeito, verdade e poder caminham juntos e de mãos dadas, uma vez que é o poder que legitima a verdade e é a verdade que torna próspero o terreno para o cultivo do poder.

De que verdade e de que poder aqui se trata? A verdade diz respeito à produção que num dado percurso histórico se instaura na adoção de saber como verdadeiro. E o poder é o modo de poder que impera socialmente, politicamente e governamentalmente. Para entender melhor, basta que se exemplifique que a verdade, de algumas décadas atrás, tanto no que diz respeito a regime governamental quanto ao que se pratica na vida cotidiana não é a mesma de hoje. Isso significa uma mudança de concepção e de mentalidade ao menos de forma geral que indica para onde apontam esses dois elementos.

Uma inquietação fundamental que abre o Discurso de La Boétie é a seguinte: “Como é possível que tantos homens, tantas cidades, tantas nações às vezes suportem tudo de um Tirano só, que tem apenas o poder que lhe dão, que não tem o poder de prejudicá-los senão enquanto aceitam suportá-lo”. Em seguida ele se admira do fato de “ver milhões e milhões de homens miseravelmente subjugados e, de cabeça baixa, submissos a um jugo deplorável; não que a ele sejam obrigados por força maior, mas porque são fascinados e, por assim dizer, enfeitiçados apenas pelo nome de um que não deveriam temer, pois ele é só, nem amar, pois é desumano e cruel para com todos eles”.

Atualizando essa afirmação: como é possível um povo entregue a um ou a uns grupos de poder que possuem próprios interesses, continuar numa passividade gritante? Qual a proposta de La Boétie para uma pretensa emancipação? Não se curvar diante do poder, não obedecer, não bajular, não estar a serviço, pois a justificativa cerne se encontra na colocação de que o homem é um ser para a liberdade.

Infelizmente, tais inquietudes parecem que não foram escritas somente para o mundo de mais de quinhentos anos atrás. Também é bastante aplicável para as realidades que se apresentam hoje. Atemporal e atual, o vigor explícito do jovem La Boétie precisa continuar a ecoar e consequentemente a suscitar em outros a indignação necessária que entende e questiona o que se põe como soberano e como poderoso, afinal parece que é os que são submergidos pelo poder e pela verdade que depositam nas mãos dos que reinam e imperam força para tal.

O caráter clandestino e até mesmo subversivo do Discurso, às vezes se torna imprescindível para que estrategicamente uma palavra sobreviva à circulação que ocorre na margem do poder.

leia tudo sobre

Publicidade

Reflexão ambiental

Por Felipe Feijão em Artigos

05 de junho de 2017

No dia Mundial do Meio Ambiente, datado no contexto atual, cabe refletir sobre algumas considerações fundamentais concernentes ao momento nebuloso pelo qual todo o mundo passa.

O advento da modernidade condicionou o homem como sujeito que é doador de sentido para tudo. Isso significa dizer que a partir de então a técnica é a nova postura do homem diante da natureza. Esse posicionamento expresso por uma pretensa superioridade do homem em relação à natureza conduz tal postura a uma tensão cerne: a ação humana atua como mediação na natureza para satisfação de necessidades, por outro lado, cada vez mais que se vê satisfeita, parece sentir mais necessidade, o que denota o explícito estado de dependência.

Ora, se é o homem um ser superior que dá significado a tudo, indivíduo que carrega carências que devem ser suprimidas, então a situação de dominação, posse e violência sobre a natureza está explicada. No entanto, isso descambou na profunda crise socioambiental, que coloca em questão a sobrevivência de todo tipo de vida no planeta.

Consequentemente, o homem, como afirma Manfredo Oliveira em Desafios éticos da globalização “é o ser que pode levantar a questão da validade de sua própria práxis, a qual lhe abre a possibilidade de afirmar que o que é não deveria ser, e que algo que ainda não é deve ser”[1]. Isso denota que a capacidade de ser moral, poder decidir, e portar dignidade faz do homem na observação de Manfredo Oliveira em Cultura e natureza “responsável pela própria natureza, não como dono dela, mas a serviço de todos os seres. Ela deve ser respeitada”[2].

Colocar em questão a validade da práxis diante do cenário atual é buscar a ética de uma nova práxis, ou seja, uma nova ética. A práxis, a prática precisa de comprometimento com a vida e precisa ter a capacidade evidenciada na continuidade do texto citado acima “de dizer não a uma destruição da natureza, que não está a serviço dos homens, mas em função da satisfação de necessidades absurdas, criadas artificialmente a partir de interesses particulares e que ameaçam a vida no planeta e os povos”.

Quando o sentido da vida humana entra em crise, quando entra em crise a compreensão do fundamento da vida humana, se abrem as portas para as sucessivas crises que podem ser assistidas hoje: ética, política, econômica, social, ambiental. Uma civilização em crise, nas palavras de Lima Vaz é “uma civilização tão prodigiosamente avançada na sua razão técnica e tão dramaticamente indigente na sua razão ética”[3].

Mas o que esperar do momento de crise? Na mais esperançosa pretensão, um aprendizado e a inspiração de uma mudança radical no relacionamento do homem com a natureza e dos homens entre si.

 

[1] OLIVEIRA, Manfredo. Desafios éticos da globalização. São Paulo: Paulinas, 2008, p. 9.

[2] OLIVEIRA, Manfredo. Cultura e natureza: Síntese, 58, p. 290.

[3] LIMA VAZ, Henrique Cláudio de. Ética e comunidade: Síntese, 52, p. 11.

leia tudo sobre

Publicidade

A quem recorrer?

Por Felipe Feijão em Artigos

31 de maio de 2017

As notícias das últimas semanas marcadas por acontecimentos que abalaram o mundo político denotam a seguinte questão: a que instância recorrer?
O julgamento que se aproxima da chapa Dilma-Temer no TSE levanta a hipótese de um afastamento do atual governo. Nesse caso, a linha sucessória não é nada animadora, basta olhar para o estado do Congresso Nacional.

A possibilidade de eleições indiretas circula nos bastidores como evento que serviria para acalmar os ânimos e novamente tentar a governabilidade para o País. No entanto, como um Congresso que coloca em marcha as ditas reformas do governo vigente e com expressivo número de membros envolvidos em corrupção, pode querer inspirar a confiança popular para eleger um novo presidente?

Outra possibilidade que se levantou em meio ao abalo na já profunda crise foi a de eleições diretas. Entretanto, qual um único nome que seja sinônimo de esperança e que possa efetivamente ser eleito? A atual estrutura perversa não cria condições de possibilidade sequer para a instauração de uma dinâmica que visualize um tempo diferente do de agora, claro com tendência para o melhoramento.
A permanência de uma mentalidade que não enxerga semelhança na diferença no que se refere ao momento de troca de governos, não contribui para o favorecimento da geração de um tempo diferente.

A situação angustiante na qual o País se encontra imerso é resultado não somente da desgraça da corrupção política, mas tem nisso a consequência de um povo que se deixa ser manobrado e que prepara o terreno da corrupção superior num patamar cotidiano inferior.
A perda de referenciais e de figuras relevantes na vida social gera na cena atual uma sensação de abandono que intensifica o desenvolvimento da individualização e da selvageria. Isso significa dizer que uma sensível falta de esperança diante da turbulência impulsiona a presença do pessimismo e descrédito total em relação com o que aí está.

Talvez essa ideia de necessidade de recorrer a alguém ou a alguma coisa estabelecida como estágio de superioridade, seja o reconhecimento de uma submissão e de que se pode ir além disso.

leia tudo sobre

Publicidade

Uma leitura do momento atual

Por Felipe Feijão em Artigos

24 de maio de 2017

 

Resultado de imagem para lima vaz

Henrique Cláudio de Lima Vaz

         O filósofo brasileiro Henrique Cláudio de Lima Vaz (1921-2002), em um de seus muitos textos deixados para a posteridade, Democracia e sociedade, coloca a seguinte questão: “O desafio democrático com o qual a sociedade brasileira se vê presentemente confrontada impõe uma vigilante lucidez com respeito às relações corretas entre os dois polos que estruturam o campo de uma experiência democrática viável: a ideia de democracia e a efetiva prática democrática. A relação entre esses dois polos se constitui, de um lado, a partir da natureza reguladora e normativa da ideia de democracia e, de outro, a partir das condições históricas concretas que acompanharam a formação do Brasil como Estado-nação dentro da constelação do espaço político do Ocidente moderno”.

         Importa saber que tal texto remonta ao ano de 1985, ano em que o Brasil se viu livre do pesadelo do regime ditatorial. Afirma Lima Vaz: “Nesse momento a questão da democracia torna-se um tema privilegiado de reflexão para quem quer que se preocupe com o destino político do Brasil”.

         Ora, novamente a questão da democracia emerge na cena nacional, uma vez que cada vez mais a putrefação da corrupção se torna visível a todos. A questão do poder nas mãos do atual grupo que tenta implantar um modelo de Estado com pretensas reformas, vem à tona como circunstância que diz respeito ao povo.

         Lima Vaz atesta explicitamente a existência de dois polos democráticos: ideal e efetivo, ou seja, a ideia de democracia e sua efetividade na realidade. Essa exposição impulsiona a reflexão: Há democracia na vida real do Brasil?

         A institucionalização democrática, de fato tem importância de relevo que prepara o terreno para o cultivo de direitos sociais e de um Estado de direito. Acontece que “Todo Estado democrático é um Estado de direito mas a recíproca não é verdadeira, como mostra a formação do poder real nos Estados de direito do Ocidente europeu a partir dos fins da Idade Média”, diz Lima Vaz.

         A dominação interesseira dos poderosos em busca de benefícios não visíveis denota necessariamente uma crise social que a cada dia parece aumentar. Infelizmente, a preocupação com o nervosismo do mercado, parece servir de horizonte para que o efeito dos escândalos não seja gritante.

         Lima Vaz parece ter despertado hoje e escrito esse lúcido texto para os dias atuais. À luz de suas afirmações é possível perceber o vasto espaço que se torna cada vez maior entre ideia de democracia e democracia presente na vida do povo, na vida do País e na vida da política agonizante.

leia tudo sobre

Publicidade

Brasil, país da violência

Por Felipe Feijão em Artigos

08 de maio de 2017

Pesquisa recente aponta que ao menos 50 milhões de brasileiros com 16 anos ou mais têm parente ou amigo que foi vítima de homicídio ou latrocínio, o que significa 35% da população do País, segundo dados inéditos do Datafolha encomendados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e pelo Instinto de Vida.

A ação policial nos números figura em grande relevância, visto que 16 milhões perderam parente ou amigo assassinado por um policial ou guarda municipal.

De fato, é difícil na vida cotidiana, não tomar conhecimento, sobre alguma ação de violência, ocorrida com alguém próximo. Infelizmente, isso gera em todos um permanente estado de alerta, de medo, de pânico. A qualquer momento qualquer pessoa pode ser surpreendida pela violência.   Por que os números são tão altos? O que está acontecendo com o Brasil?

A violência representada aqui por homicídio e por latrocínio, ceifa a vida de muitos e deixa marcas profundas de difícil cicatrização em familiares e pessoas próximas. Essas marcas, evidenciadas pela intensa vigilância que submete todos a um tipo de vivência superficial, individualizada e interesseira, gesta uma sociedade cada vez mais doente.

Parece haver uma guerra, não declarada, que não envolve países nesse caso, mas uma guerra interna explicitada e efetivada pela ausência e ineficiência do Estado. Essa negligência pública se estabelece historicamente através da ação punitiva com o braço armado, mas não dialoga com a necessária prevenção, que deveria objetivar a inexistência de punição, que por vezes se manifesta como fatal.

Está claro que não adianta a estrita intervenção de agentes estatais, uma vez que não se soluciona a complexidade do problema. Funciona de forma momentânea ou por um determinado período de tempo, como bem afirmou o filósofo Edgar Morin quando esteve no País em sua entrevista à TV Brasil: “Ser jovem é um momento de transição. Se essa violência é respondida com a violência do cárcere, vai se produzir delinquentes mais fortes”. Obviamente, uma prática delituosa, deve ser punida, mas aqui reside um elemento fundamental na problemática situação de segurança no Brasil.

Qual a condição dos presídios brasileiros? Lotados, em péssimas condições de infraestrutura e ambiente que não visa à correção e a ressocialização dos detentos. Isso denota que o sistema penitenciário é bastante deficiente.

A prevenção de todo esse condicionamento precisa receber atenção especial, na educação, na instauração de projetos voltados para a juventude, no incentivo a iniciativas já existentes que trabalham sem nenhuma ou com pouca valorização social e econômica.

Perceber que a violência supõe problemas que levantados constituem a complexa conjuntura, é um passo significativo, numa atualidade em que a fragmentação e especialização do conhecimento não fornecem leitura possível mais adequada do se apresenta como desafiante. Morin relacionando seu pensamento de teoria da complexidade com a violência  diz ainda: “Na complexidade, não podemos reduzir uma pessoa a seu ato mais negativo. Entender, não reduzir a uma característica má uma pessoa que tem outras características, isso é a complexidade. A complexidade busca favorecer uma compreensão maior que a compreensão que vem de se isolar a coisas, colocar o contexto, todos os contextos em uma situação”.

 

leia tudo sobre

Publicidade

Qual a finalidade de reformar?

Por Felipe Feijão em Artigos

02 de maio de 2017

A investida contra o trabalho e as relações de trabalho em marcha no Congresso brasileiro, se manifesta como elemento que com outras chamadas reformas, explicitam o pretenso modelo de Estado, atualmente projetado pelo grupo que detém o poder.

Uma reforma que beneficia o empresariado e despreza o trabalhador, parece atender justamente o interesse dos que querem a deliberação de tal proposta em iminente aprovação.

Felizmente o 1º de maio deste ano, em várias partes do mundo, foi marcado por protestos de trabalhadores a favor de seus direitos. De fato, com as devidas particularidades, o que sobressai disso é o ato de manifestar-se enquanto atitude atenta e preocupada com a situação do trabalho.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) acompanha atentamente o cenário que se desenha, e de forma acolhedora se coloca ao lado do povo, das pessoas de boa vontade. Os bispos que estão reunidos em Assembleia Geral em Aparecida se manifestaram por meio de mensagem aos trabalhadores por ocasião do 1º de maio: “O dia do trabalhador e da trabalhadora é celebrado, neste ano de 2017, em meio a um ataque sistemático e ostensivo aos direitos conquistados, precarizando as condições de vida, enfraquecendo o Estado e absolutizando o Mercado”.

O Papa Francisco na encíclica Laudato si’ afirma que “O trabalho é uma necessidade, faz parte do sentido da vida nesta terra, é caminho de maturação, desenvolvimento humano e realização pessoal”. E na exortação A Alegria do Evangelho visualiza a necessidade de que “É indispensável que os governantes e o poder financeiro levantem o olhar e alarguem as suas perspectivas, procurando que haja trabalho digno”.

Ora, a reforma está a serviço do mercado, e devido a isso gera cada vez mais um caminho de exclusão, uma economia excludente, impiedosa, que parece aprofundar suas raízes na estrutura social, tornando a sociedade mais débil e mais doente.

A mensagem diz ainda: “Nessa lógica perversa do mercado, os Poderes Executivo e Legislativo reduzem o dever do Estado de mediar a relação entre capital e trabalho, e de garantir a proteção social. Exemplos disso são os Projetos de Lei 4302/98 (Lei das Terceirizações) e 6787/16 (Reforma Trabalhista), bem como a Proposta de Emenda à Constituição 287/16 (Reforma da Previdência). É inaceitável que decisões de tamanha incidência na vida das pessoas e que retiram direitos já conquistados, sejam aprovadas no Congresso Nacional, sem um amplo diálogo com a sociedade”.

A perversidade evidente é, obviamente, explícita na conjuntura de consumismo, de individualismo, de descarte, de interesses abstrusos. Lima Vaz afirma que a prática humana é uma prática de finalidade, isto é, que tende sempre a um fim. Nesse sentido, a sociedade na qual os fins da prática não são visíveis entra em crise. Então, a pergunta decisiva é: qual a finalidade dessas reformas?

leia tudo sobre

Publicidade

O marcante momento nacional

Por Felipe Feijão em Artigos

19 de julho de 2017

 

O momento da vida nacional é marcante. Algo marcante é um distintivo que assinala um relevo. Quando se trata de momento, emerge o tempo como um período demarcado. O marco na vida da nação, nesse caso, é um marco negativo, que submete gravemente todos que de alguma forma vivem a vida do País a uma situação angustiante que bem se pode perceber no noticiário, na roda de conversa, no cotidiano.

Consequentemente, a demarcação que se pode observar, é uma designação de distinção para pior, ou seja, uma condição que piora se instala rapidamente e consegue aos poucos legitimação.

O período de tempo demarcado que aqui se concebe estabelece seu caminho num percurso nebuloso. E o pior é que nessa trilha sombria, difícil é identificar rota e destino. O objetivo, aos poucos mostra seus desdobramentos em aprovações legais celebradas pelo interesse de poucos.

O que se apresenta como mais estranho são as formas que assinalam a legalidade em procedimentos sérios que interferem profundamente na vida das pessoas. Essas formas, se diferem, numa medida que parece obedecer a critérios obscuros.

Ora, quando a putrefação da corrupção política se torna impregnada e se enraíza estruturalmente, a instauração de medidas novas que se manifestam como inovadoras e benéficas podem querer suprimir a noção de preservação, que com certas legalizações é colocada em questão justamente pela representação da novidade que se pretende efetivar.

É nessa perspectiva que o marco que ora se instaura, trespassa um condicionamento anterior, e aponta para o cumprimento de pautas que não são as sociais.

Perscrutar a cena desenhada pela agonizante conjuntura e estrutura política, denota um estado de tristeza. Essa tristeza consiste na visualização de que não há sequer um nome capaz de satisfazer a minoração da presente aflição. Isso denota negligência, ineficiência, incapacidade, omissão e indiferença que são as fortes características do presente modelo de gerir o que é público.

Algumas interrogações colaboram para uma melhor concepção desse momento: as chamadas reformas estão a serviço de quem? Como um Congresso com expressivo número de membros envolvidos em esquemas de corrupção pode tomar decisões tão importantes? O que ainda está sustentando a atual governabilidade?  A manutenção da engenhosa máquina política permanecerá como está até quando?

A natureza dessas interrogações como perguntas que descambam no levantamento de possibilidades gestam também a permanente incerteza que inevitavelmente ronda o espetáculo. Difícil é assistir tudo e aguardar.