Papo Psi
Caroline Treigher

Caroline Treigher

Papo Psi, por Caroline Treigher

Será que a maneira como a mulher se veste desperta o instinto do estuprador?

Para um potencial estuprador, por um mecanismo de distorção da realidade, qualquer roupa ou pose é convidativa. A vítima não tem culpa disso. (foto: Massimiliana Beserra)

Para um potencial estuprador, por um mecanismo de distorção da realidade, qualquer roupa ou gesto pode ser convidativo. A vítima não tem culpa disso. (foto: Massimiliana Beserra)

Será que a maneira como a mulher se veste é que causa o estupro? Essa pergunta vem à tona quando é divulgada uma pesquisa em que considerável parcela da população brasileira revela acreditar que as mulheres são responsáveis pelo estupro que sofrem. Os pesquisados associam o crime em questão à maneira de vestir das vítimas. Será que faz sentido?

Por esse princípio, poderíamos afirmar que a pessoa que denota possuir dinheiro é responsável pelo assalto que venha a sofrer. Pois se não fosse assim, não despertaria o instinto do ladrão. Poder-se-ia mesmo dizer que a pessoa que veste grifes caras quer ser assaltada, assim como se diz que a mulher que veste uma saia curta quer ser estuprada.

Ora, um ladrão é um infrator e ninguém questiona sua culpabilidade.  Já o estuprador, apesar de também ser um fora-da-lei, parece contar com maior tolerância da sociedade brasileira. Por quê? Talvez por uma herança inconsciente da crença medieval agostiniana de que a mulher é um ser demoníaco, que representa a tentação e pode levar o homem ao inferno. Machismo. O estuprador, por esse viés, é quase transformado em vítima! Mas ele não é. Trata-se de um criminoso e a pessoa contra quem ele age é a verdadeira vítima.

Contudo, não se é criminoso por acaso. Os fatores que levam alguém ao crime podem e devem ser estudados, para fins de tratamento e recuperação, para prevenção de novos casos, mas não para justificarem o delito cometido.

O ESTUPRADOR É, COM RARAS EXCEÇÕES, UM SOCIOPATA

E o que realmente leva alguém a ser um estuprador? Segundo estatísticas de entrevistas com presidiários, os estupradores geralmente são portadores de algum distúrbio de caráter ou transtorno de preferência sexual (sadismo). As causas do comportamento transviado são variadas, como fatores genéticos, estresse, conflitos familiares graves. Porém o que se observa é que, independentemente das causas, eles são, na grande maioria, sociopatas, desprovidos de sentimento de culpa.

Os sociopatas desprezam as obrigações sociais, não possuem empatia, são egocêntricos e possuem pouco ou nenhum controle da impulsividade. Quando fazem vítimas, via de regra sua intenção é agredir, humilhar, machucar, pois olham o outro como um objeto com o qual fazem o que querem. Nem sempre eles transparecem maldade, podendo ser muito sedutores, e manipularem as opiniões de quem os conhece. Se flagrados em delito, procuram despertar a piedade, a tolerância e, pelo que aponta a pesquisa recente, no Brasil, são bem sucedidos na sua intenção, o que é lamentável!

Por causa dessa complacência da sociedade é que tantos crimes sexuais acabam silenciados e os criminosos permanecem livres, aumentando o número de vítimas e traumatizando mais e mais pessoas. Num país onde o estupro não apenas é perdoável, como justificável, a pessoa sexualmente abusada sente vergonha de revelar o que lhe ocorreu, por medo de ser responsabilizada. Participante da mesma visão distorcida do seu meio, muitas vezes ela mesma sente-se culpada! Assim é que o tabu em torno da mulher e do sexo, fruto da falta de maturidade ética, acaba por incentivar a proliferação dos crimes sexuais.

INCOERÊNCIA E FALTA DE EDUCAÇÃO

Se queremos evitar os estupros, devemos procurar formas de impedir a formação do estuprador, o que passa bem longe de modificar o vestuário feminino. Responsabilizar a mulher pela violência sexual, criticando suas roupas, é uma grande hipocrisia. Tudo, em nossos tempos, convida à exposição dos corpos, especialmente os femininos. E porque são incentivadas, nossas jovens se despem em fotos que postam nas redes sociais, na expectativa de serem admiradas, porque uma grande parcela da sociedade aclama a cabeça vazia e o corpo sarado.

Então, paradoxalmente, essa mesma grande parcela, que aplaude a exposição do corpo, que solicita a vulgaridade em danças e músicas, que idolatra a nudez sensual e a mercantilização do sexo, repreende aquela que atende aos seus apelos, julgando-a culpada por ser estuprada. Que hipocrisia!

O estuprador possui uma psique comprometida e a vítima não tem culpa disso. Mesmo que uma mulher passe nua na sua frente, isso não quer dizer que ela queira ser violentada. Ela pode querer ser estimada, conforme os valores que recebeu. Mas não estuprada. Ele não tem o direito. Ele não é um animal qualquer, mas um homem, dotado de razão, teoricamente capaz de controlar seus impulsos. Não vivemos mais na Idade da Pedra.

Parece, porém, que no Brasil ainda há muita gente pensando como os primitivos. O resultado dessa pesquisa prova, mais uma vez, para nossa tristeza, o quanto estamos carentes da boa educação que conviria aos novos tempos. Carentes de noções de respeito e igualdade. Por causa dessa banalização do mal é que estão à solta, em todas as classes sociais, nas ruas como no Planalto, os crimes de toda ordem, entre estupros, roubos e semelhantes. Até quando vamos tolerar isso?