Doutora, o que eu tenho?

Foto: Massimiliana Beserra

Uma das perguntas mais comuns que me são dirigidas pelos clientes recém-chegados à psicoterapia é se são normais. Trata-se de algo muito complicado de responder, tanto porque – como se diz – de perto, ninguém é normal, como porque a elaboração de um psicodiagnóstico é algo bem mais complexo do que se costuma pensar.

INFORMAÇÃO x DESINFORMAÇÃO

A proliferação de livros sobre os sofrimentos psíquicos que assolam a alma humana pode ser positiva no sentido de informar e levar muitas pessoas a buscar ajuda,  mas também pode criar mitos, preconceitos e diagnósticos falsos.  Às vezes alguém entra no meu consultório dizendo ser TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo), mas quando pergunto sobre como se chegou a tal diagnóstico, descubro que foi uma conclusão dele próprio, a partir da leitura de um ou outro livro a respeito do assunto.

Até bem pouco tempo a moda eram os psicopatas. Porque do mesmo jeito que filmes sobre psicopatas parecem dar muito público, os livros repetem a façanha.  Se julgasse pelo tanto de psicopatas que são descobertos e denunciados nas conversas com ávidos leitores de auto ajuda, daria para concluir que psicopatia é uma peste semelhante à bubônica na Idade Média. Todo mundo tem um vizinho psicopata!

Enfim, depois da psicopatia, a depressão, o transtorno bipolar, o TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade) e o transtorno de pânico são talvez os campeões de bilheteria.

DIAGNÓSTICO REQUER INVESTIGAÇÃO

Bem, a respeito disso, acredito que há muita ilusão. Não que as problemáticas psíquicas sejam algo raro, mas que é bem delicado diagnosticar as pessoas sem uma investigação profunda e prolongada, sem levar em consideração o histórico pessoal, sua cultura, sua situação atual de vida, dentre outros aspectos que influenciam o comportamento de qualquer indivíduo.

Em algumas religiões acredita-se na possibilidade de comunicação com os espíritos dos que já morreram, de modo que, se uma pessoa neste contexto diz estar vendo e ouvindo alguém falecido, não temos, necessariamente, um caso de esquizofrenia!

Algumas pessoas que se encaixam nas descrições publicadas sobre psicopatia, por exemplo, podem realmente parecer desprovidas de sentimentos. Mas nem tudo é o que parece ser.  Pode ser que a pessoa em questão seja alguém que desenvolveu um mecanismo de autopreservação em que o sentimento é bloqueado. Talvez na sua história de vida tenha sofrido tanto que, como se costuma falar: “Endureceu o coração”.

O que ocorre é que as afecções psicológicas, os transtornos de personalidade, têm causas diversas e sintomas algumas vezes semelhantes, podendo ser confundidos entre si. E não são tão claros nem mesmo para os investigadores das áreas especializadas, uma vez que as pesquisas a respeito estão apenas engatinhando.

O PERIGO DE ROTULAR

O que se tem desenvolvido sobre as chamadas psicopatologias é muito novo. Não é fácil pesquisar a mente humana, porque há questões éticas envolvidas nas pesquisas com seres humanos. Não dá para usar ratinhos de laboratório para entender as emoções próprias do homem! Quando escutamos ou lemos os especialistas falando sobre psicopatias, parece que falam de um assunto dominado, mas não é bem assim. Não que eles estejam tentando ludibriar, mas expõem os últimos avanços na convicção de que estão no caminho certo, embora possam estar errados. Afinal, a ciência trabalha com hipóteses, sempre sujeitas a revisões.

O perigo de rotular a si mesmo ou aos outros com um psicodiagnóstico, pode gerar mais males do que se pensa. Ao invés de se entender, alguém pode acabar se complicando mais, afastando-se do tratamento mais adequado e fechando-se para a melhoria de sua qualidade de vida.

O sentido de fazer um diagnóstico é organizar um tratamento, e isto compete aos profissionais da área em questão. Pode ser tranquilizador para alguém que se crê estranho e anormal saber que pertence a um grupo, que não está sozinho no mundo, e que existe alguma atenção voltada para seu bem-estar na forma de estudos e medicamentos.

Mas no fundo, sem o olhar do profissional, o nome do que se tem não passará de um rótulo, sem maior sentido. Apenas um nome a identificar sintomas, que permanecem ali, simplesmente “batizados”.

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Caroline Treigher

Caroline Treigher

Sou graduada em Psicologia e trabalho na área clínica, com terapia individual e de grupos, de orientação junguiana. Minha visão de mundo é transpessoal. Ser transpessoal significa que estou convicta de que sou muito mais que este Quem Sou Eu aqui exposto. Porém é uma parte de mim que está aqui, dividida com o mundo, através destes posts, que refletem minhas convicções atuais e mutáveis...

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