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Papo Psi

por Caroline Secundino Treigher

Maternidade simbólica

Ao contrário do que se acredita, nem toda mulher tem vocação para a maternidade. Tampouco, a maternidade é algo apenas da mulher… Pelo menos, se considerada simbolicamente.

Simbolicamente, maternidade é acolhimento e nutrição. Toda pessoa que sabe colocar o outro no colo e aconchegá-lo ao peito, compreendendo-o e nutrindo-o de amor, está sendo maternal. Está se conectando ao arquétipo materno em sua mais bela expressão.

Nos primórdios da humanidade, esse arquétipo era ativado pela religiosidade, no culto à Grande Mãe. Ela era a deusa da terra, da fartura, que nos alimentava através das plantas e dos animais. Depois, veio o tempo do Deus Pai, mental, incorpóreo, do céu. A mãe esteve à frente no primeiro momento, no desenvolvimento da agricultura e da pecuária; o pai veio depois, com o desenvolvimento das cidades e suas instituições.

Estamos carentes de mãe, novamente. Vivemos uma época seca, de muito individualismo. Cada um por si. Precisamos nos reconectar à natureza, à maternidade. E nutrir uns aos outros de amor.

Se a gente considerar maternidade apenas ter filhos e criá-los, isso não é para todo mundo, sejam homens ou mulheres. Mas a maternidade em seu simbolismo de Grande Mãe, todos podemos e devemos viver. Como você pode exercer a sua maternidade? Essa é a pergunta-chave! Como você se nutre, nutrindo ao mesmo tempo o seu entorno? O que tem a oferecer para gerar conforto no mundo? O que coloca no colo?

Se seu colo está vazio, encha-o. Não necessariamente com um filho, mas com um sentido, com algo que lhe faça experienciar-se como um ser divino e necessário. Isso é o aspecto simbólico ou espiritual da maternidade, pelo que você poderá receber os parabéns todos os dias, como eternos dias das mães!

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Questão de ética

Por Caroline Treigher em Comportamento, Política

03 de Maio de 2019

Semana passada vi no Twitter o vídeo de uma moça na sala de aula, que discutia com sua professora, porque esta falava mal de certo escritor polêmico numa aula de Gramática. O presidente da república compartilhou o vídeo, aprovando a atitude da aluna. E as pessoas comentaram a postagem, em blocos pró-professora x pró-estudante (ou seriam esquerda x direita?).

Bem, muito antes desses debates, quando eu ainda estava no colégio, já me questionava a maneira como os professores declaravam seus votos, suas escolas partidárias, aos adolescentes nas salas de aulas. Eles estavam num lugar de poder, o lugar “daquele que sabe”, e isso lhes outorgava ascendência sobre suas turmas, lhes conferia grande influência sobre as cabecinhas em formação. Eu achava estranho… Porque uma coisa é incentivar a reflexão filosófica, sociológica, o pensamento crítico etc., e outra é propagandear partidos e associar convicções políticas a virtudes ou defeitos morais. Tipo: “Partidários desse lado são bons e democráticos e partidários daquele outro lado são maus e ditadores”.

Depois, na faculdade, fiz uma disciplina chamada Ética Profissional, em que ficou claro que não posso e não devo usar a minha profissão de psicóloga para dizer ao meus clientes como devem pensar e agir. Não é ético induzi-los a abraçarem minha convicção religiosa; tampouco minhas crenças políticas. Por quê? Porque seria abuso de poder. Mau uso da profissão.

Acho que os professores, assim como os psicólogos, têm um serviço de esclarecimento a prestar. Mas precisam cuidar para não confundir a liberdade de cátreda e o desejo de ajudar com doutrinação segundo suas crenças.

Então, lamento a forma como a mencionada aluna confrontou a professora, sem respeito, para depois postar no Twitter. Lamento também que importantes lideranças incentivem e aplaudam esse tipo de comportamento. Se havia uma queixa sobre a metodologia da docente, era algo a ser resolvido em privado, com os dirigentes da instituição. Afinal, o problema não era a professora ter divagado além do conteúdo da disciplina?

Mas, a despeito disso, acho que a mestra pode ter mesmo pisado na bola. Não porque a garota estivesse “pagando” para ouvir apenas sobre Gramática, como fez questão de alegar, prepotentemente (triste, isso), com a entonação de uma patroa insatisfeita. Mas por ser um abuso de poder, ser antiético usar o espaço da sala de aula para difamar um pensador, seja quem for. Como professora de Gramática, ela poderia mostrar no texto dele as contradições que encontrasse, os sofismas etc., como forma de ensinar os alunos a interpretar criticamente o que leem. Mas não chamar o homem de “bosta”, porque discorda de suas ideias e pronto. 

A liberdade de expressão é algo pelo que devemos lutar, sempre; mas o exercício da ética, também. Os limites entre uma e outra merecem atenção e debate, por ser algo bastante escorregadio. É contraditório (e maquiavélico) combater a manipulação, usando manipulação; combater os abusos dos poderosos, abusando do pequeno poder; e se posicionar contra o desrespeito, de forma desrespeitosa. Bem dizia Carl G.Jung que se  quisermos chegar à luz, devemos conhecer nossas sombras…

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O doloroso vício da perfeição

Por Caroline Treigher em Comportamento, Psicologia

05 de Abril de 2019

Uma doença perigosa, que se encontra na raiz de muitos transtornos psicológicos é o “vício da perfeição”. Esse foi o nome que a terapeuta junguiana Marion Woodman escolheu para se referir à atitude exageradamente perfeccionista que tem consumido milhares de pessoas no mundo inteiro.

CARACTERÍSTICAS DO VÍCIO DA PERFEIÇÃO
Os viciados em perfeição são excelentes em tudo o que fazem, ou pelo menos tentam ser. Muitas vezes são reconhecidos pelos outros, mas raramente por si mesmos. Eles sempre acham que poderiam ter feito mais e/ou melhor. São excessivamente críticos consigo mesmos e com os demais. Por isso, estão constantemente cansados, irritados, infelizes e aborrecidos. Acabam estourando sobre os que estão à sua volta e, depois, se sentem culpados. É um círculo doloroso que repetem mecanicamente, como acontece com todos os vícios. E como ocorre com qualquer vício, este também gera muito sofrimento. Afinal, não é possível ser exímio em tudo! Seria preciso que um dia tivesse mais que 24 horas, e que um ser humano fosse mais que simplesmente humano, para que se conseguisse realizar todas as tarefas com o mesmo grau de excelência, sempre! Contudo, é isso que o perfeccionista procura, e que o torna fadado ao fracasso e ao desespero. Depressão, transtorno de ansiedade, TOC, transtorno alimentar etc., é no que muitas vezes resulta a sua busca interminável pelo esmero.

O MISTÉRIO DAS ORIGENS
Mas, por quê? Qual a origem dessa compulsão? Cada vez mais, as ciências psíquicas trabalham com a multi-causalidade. Não é apenas uma causa, mas uma série de fatores, que operam na construção de uma doença psicológica. Da genética aos relacionamentos e circunstâncias de vida, tudo influencia. O que não quer dizer que somos joguetes do acaso! Nossas crenças pesam muito na matemática das probabilidades psíquicas. Dentre elas, o quanto possuímos de autoamor e autoconhecimento.

AUTOAMOR E AUTOCONHECIMENTO
O autoamor favorece a tolerância, a compreensão e a aceitação de nós mesmos. Não se trata de autopiedade ou vitimismo, mas de consciência do próprio valor. É como se repetíssemos com Shakespeare: “Que obra de arte é o homem!”. O homem no sentido de ser humano, de obra-prima de Deus, capaz de pensar, planejar, sentir, criar! Então, autoamor é essa percepção do nosso potencial, a despeito de quaisquer limitações. Todo mundo sabe ser paciente com o ser amado, sabe enxergar a luz dele; se o ser amado é você mesmo, você enxerga a sua luz.
Já o autoconhecimento é decorrente do autoamor. Você também quer conhecer a pessoa amada, entender cada gesto dela, cada olhar, para melhor satisfazê-la, ou para evitar que ela se machuque, ainda que para isso tenha que ser duro. Conhecer a si mesmo é praticar o autoamor, é cuidar de si.

CURANDO O VÍCIO DA PERFEIÇÃO
A pessoa que não desenvolve autoamor e autoconhecimento vive insegura, e não conta com ninguém, pois duvida do próprio valor e acha que precisa conquistar importância, se tornando uma referência. Como está insegura, com medo, procura controlar tudo. Daí o perfeccionismo. Para reverter esse quadro, ela precisa modificar sua crença.
É muito exaustivo tentar ser perfeito. Sobretudo, é muito chato. Para si e para os outros. Ninguém aguenta ter por perto, por longo tempo, um viciado em perfeição. Por melhor que ele seja, acaba se mostrando uma pessoa tensa, pesada e estressante! Tudo o que o perfeitinho quer é ser correto e isso parece inofensivo. Mas é doentio, e a única coisa excelente que sua atitude lhe garante, é a perfeita insatisfação.

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O corpo como aliado

Por Caroline Treigher em Comportamento, Psicologia

29 de Março de 2019

Recentemente falei dos sonhos como vias de acesso aos motivos inconscientes e, portanto, excelentes auxiliares no autoconhecimento. Outro recurso neste sentido é o CORPO. Isso mesmo, o corpo físico. Terapeutas como Reich, e mais tarde Pierrakos e Lowen, desenvolveram estudos a respeito, que até hoje ajudam centenas de pessoas no processo de cura de problemas psicossomáticos.
Procurar no corpo humano informações sobre a alma de cada um é uma prática antiga, e os velhos iogues já se utilizavam dela nos primórdios da civilização. Eles procuravam nas formas físicas revelações sobre a natureza dos homens. Se pessoa era baixa ou alta, magra ou gorda, se tinha forma de pera ou tubo, tudo isso falava um pouco de como ela era.

O SIMBOLISMO DAS POSTURAS E DOS SINTOMAS
Hoje fazemos algo parecido na Psicologia. Não apenas nossas posturas, se estamos envergados, se andamos de cabeça baixa, se sentamos voltados para uma ou outra direção, se cruzamos os braços ou trincamos os dentes, falam dos interesses e motivações que guardamos no momento. As nossas doenças também são reveladoras. Cada parte do corpo é carregada de simbolismo, e pode ser interpretada metaforicamente, assim como os sonhos.
Recentemente uma amiga estava se queixando de problemas pulmonares. Fora diagnosticada com uma bronquite. Chamei atenção para o fato de como estava difícil “respirar” sua atual situação de vida. O “ar” ao seu entorno estava ruim, com problemas familiares, chateações que andava “engolindo” e que ficavam “engasgadas” na garganta (um sintoma frequente era a tosse). O corpo lhe comunicava que não estava conseguindo suportar aquilo e anunciava um colapso, caso não fizesse algo para mudar a experiência. O colapso é o agravamento da doença. Se dialogasse com o corpo, ela escolheria uma entre três saídas: 1. mudar de onde se encontrava (livrar-se do ar impuro), 2. modificar a situação em que estava (limpar o ar), ou 3. recorrer a atividades que amenizassem o desconforto vivido (usar uma máscara protetora).

CUDAR DO CORPO
É assim que o corpo pode ser um aliado, e não um incômodo. Ele é parte do ser, não uma máquina à parte, e precisa ser “ouvido” e cuidado. Muita gente pensa que cuidar do corpo é violentá-lo para que se molde às convenções externas de beleza e saúde. Entretanto, uma vida bela e saudável requer, antes de mais nada, autoaceitação e estima por cada pedacinho que faz da gente o que a gente é.

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Sobre as raízes da violência atual

Por Caroline Treigher em Comportamento, Psicologia

22 de Março de 2019

Tenho me espantado com a energia de violência que se espalha no mundo. Por isso falarei rapidamente sobre o trabalho de uma importante pesquisadora do assunto: Alice Miller, psicanalista ucraniana, doutora em Filosofia, Psicologia e Sociologia. A partir de análises de pacientes e biografias de sociopatas e ditadores como Hitler, Stalin, Napoleão e Milosevic, ela descobriu que boa parte da violência na sociedade se origina de abusos infantis.

O FALSO EU
Apesar de antigas, as flagelações e explorações da criança reaparecem no mundo contemporâneo sob o disfarce da educação. Graças à dependência em relação aos pais, o filho pequeno pode ser facilmente punido e castigado. Nesses momentos, ele sente tristeza e raiva, mas raramente pode expressar tais emoções (quem nunca ouviu a célebre frase: “Engula o choro?”). Muitas vezes, além de esconder o que sente, a criança é obrigada a mostrar o que não sente, pelo menos naquele momento: amor e gratidão. Aos poucos, ela aprende a dar sempre a resposta esperada pelos pais, formando assim um falso eu.

TRAUMAS NEM SEMPRE SÃO LEMBRADOS
A repetição de medidas violentas com o pretexto de educar é sempre danosa, porquanto nos primeiros anos de vida, situações de estresse intenso podem destruir neurônios recém-formados. Por outro lado, as emoções negadas, embora esquecidas, continuam inconscientemente a determinar comportamentos. Por esse motivo, quando combinadas com fatores genéticos e existenciais, a tristeza e a raiva infantis acabam se manifestando, na vida adulta, como abuso de autoridade, fanatismo religioso ou político, atitudes autodestrutivas, depressão et.

VIOLÊNCIA GERA VIOLÊNCIA
Quando recorda a infância, o adulto tende a dizer que foi uma época maravilhosa, e caso venha a lembrar de alguma surra ou humilhação, afirmará que os pais agiram por amor. Esta aprovação do abuso sofrido promove a ideologização da hipocrisia, em que o desejo de maltratar passa a ser exaltado como desejo de fazer o bem. Foi assim que Hitler – cuja infância foi marcada por espancamentos de um pai que justificava “discipliná-lo” pelo bem da família – resolveu exterminar os judeus pelo bem da Alemanha.

Quem quiser saber mais sobre o assunto, leia de Alice Miller especialmente “O Drama da Criança Bem-Dotada” e “A Verdade Liberta”. Aqui não tenho como me aprofundar a respeito, mas quero apenas lançar a reflexão sobre como poderemos construir um mundo melhor em cima das bases do ódio. Não que devamos deixar nossos filhos sem orientação e limites, mas que importa lembrar que os exemplos ensinam mais que as palavras. Se queremos verdadeiramente educar as crianças, sejamos, nós mesmos, as pessoas fortes e equilibradas que esperamos ver nelas.

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O significado dos sonhos

Por Caroline Treigher em Comportamento, Psicologia

15 de Março de 2019

Recentemente li um tuíte de alguém que tinha sonhos “parcelados”. Ela sonhava, acordava, e o sonho continuava na noite seguinte. Percebi que seu post levou várias pessoas a falarem dos próprios sonhos, e é interessante como esse tema mexe com tanta gente.

Os sonhos sempre foram um mistério, e desde a Antiguidade temos notícias de pessoas que se especializaram em interpretá-los. Um caso famoso está na Bíblia: José do Egito decifra o sonho do faraó, e por isso acaba salvando o país de uma calamidade. 

Mas, o que são, de fato, os sonhos?

Não existe uma resposta definitiva. Hoje em dia, as melhores referências sobre sonhos vêm da Psicanálise e da Psicologia Analítica. Para ambas as escolas, os sonhos são símbolos de conteúdos inconscientes. A primeira defende que eles são simbólicos na intenção de ocultar a verdade insconsciente, e assim realizar desejos muitas vezes não admitidos pelo sonhador; já a segunda postula que a simbologia dos sonhos se deve ao fato de o inconsciente ser irracional, não “educado”, primitivo e usar a linguagem arcaica das imagens. Os sonhos, nesse caso, não escondem, mas revelam por metáforas.

Então, quando você sonhar “parcelado”, como no caso do post no Twitter, ou se sonhar repetidas vezes o mesmo sonho, preste atenção ao conteúdo. Qual a história que se repete? Se ela fosse uma poesia, ou um mito, o que acha que representaria? Por exemplo: sonhar que está num carro, percorrendo uma ponte. Pontes são passagens, atravessadores. Talvez o sonhador esteja enfrentando uma mudança ou transição na vida. O sonho está mostrando isso com uma imagem do seu cotidiano, contudo ele não apenas mostra o óbvio.  O carro cai? O carro chega do outro lado? Se cai, observe que o sonho traz uma espécie de advertência: “se vc continuar nesse rumo, vai se dar mal”.  Mas se o carro termina a travessia, o sonho pode estar sinalizando que tudo vai dar certo. 

Enfim, não existe dicionário dos sonhos que possa ser generalizado. Cada sonho usa imagens de acordo com as crenças e experiências  de quem sonha. Sonhar com o Menino Jesus, por exemplo, pode ter significados bem diferentes, se o sonhador é um cristão, um budista, ou um ateu.

Então, a sugestão para você interpretar seus próprios sonhos, aprofundando com isso o autoconhecimento (afinal, eles revelam o que está na sua mente subliminar!), é atentar para eles como se fossem poesias, ou pinturas modernas, e se perguntar: “O que representam essas imagens?”, ou “qual a moral dessa história”? Ah! E se você estiver se questionando como vai saber se acertou na interpretação, entenda que é bem simples: Quando a gente acerta, o conteúdo se torna consciente e o tema do sonho não se repete mais! Boa sorte!

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Um exemplo de mulher

Por Caroline Treigher em Comportamento

08 de Março de 2019

Mamãe é uma mulher da transição para os novos tempos, como toda a geração de mulheres nascidas pouco depois do fim da Segunda Grande Guerra. Elas vieram numa fase em que se tornou possível sonhar com uma faculdade e trabalhar. Mas poucas conseguiram voar tão alto. Dona Gracinha não foi uma dessas poucas. Mesmo assim, teve sua boa quota de emancipação.
Casou com papai aos vinte e poucos anos, e a primeira coisa que fez foi cortar os cabelos bem curtinhos. Como todos os machões da sua juventude (e muitos da atualidade), ele a tinha “proibido” de cortá-los. Então, ela mostrou quem mandava no seu corpo, sem grande alarde, só passando a tesoura nas madeixas, bem ao estilo Joãozinho. O que ele fez? Resmungou, e depois elogiou a “cabecinha de bombom”.
Mamãe sempre foi dona de casa. Mas entendam: dona de casa mesmo. Ela abraçou com todas as forças o substantivo “dona”. Não tinha essa de achar que o dinheiro era dele, por ser ele quem trabalhava. De forma alguma. Ela fazia questão de dizer: “Fossem me pagar salário pelo que faço, não tinha dinheiro no mundo que desse.” E talvez, por isso, o salário dele fosse todo parar nas mãos dela. Papai não ficava com um vintém. Um dia testemunhei, já adolescente, um papo entre os dois. Ele chegou em casa e disse:
– Cheirinho, me arranja aí dez reais.
– Pra quê?
– Ave Maria! Eu ponho dinheiro em casa, tenho que pedir dez reais e ainda preciso explicar!
Mamãe era assim. Ainda é. Mesmo depois que papai se foi. Na época – há exatos cinco anos – ela disse que nunca mais vestiria vermelho. Vermelho para a minha mãe é a cor da alegria. Bem, ela voltou a vestir vermelho, e a dançar forró, e continua reinando como dona de casa. Ela ainda sente saudades, mas já recuperou sua alegria. Alegre é a pessoa que consegue sorrir sozinha, e que sabe fazer companhia a si mesma.
Por tudo isso, mamãe me ensinou que a dignidade da mulher não depende de um diploma, de um alto cargo, nada disso. Tanto faz se ela está em casa ou na rua, se é casada, solteira ou viúva, o valor dela está nela mesma. Como acontece com o homem.
Dignidade não tem sexo, gênero, raça, idade… Todos a merecem, pelo simples fato de serem parte do mundo. E devemos nos apropriar do que merecemos. A isso se chama determinação.
Mamãe é uma mulher determinada. Acho que as mulheres em geral são muito determinadas, porque elas tiveram, bem mais que os homens, que lutar por dignidade.
Por isso, no dia internacional da mulher, agradeço à minha mãe e a todas as mulheres, cuja determinação abriram e abrem caminhos para uma sociedade mais justa e igualitária. Todos temos a ganhar com isso!

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Cuidado com as sereias, porque elas existem

Por Caroline Treigher em Comportamento, Psicologia

01 de Março de 2019

AS FANTASIAS POSSUEM UM FUNDO DE VERDADE
Como estamos no Carnaval, falemos de fantasias. Um dia desses as fantasias de sereias estavam em alta. Passou a moda, mas as sereias ficaram. Simplesmente porque elas existem. As sereias, segundo a mitologia, são seres alados, mulheres que, da cintura para baixo, são peixes. Frequentemente cantadas como lindas e sedutoras, possuem uma voz irresistível, que atrai os marinheiros, a ponto deles se jogarem no mar, apaixonados. Mas sem alcançá-las, os coitados acabam morrendo afogados.
Isso realmente acontece. Mas não do jeitinho do mito, claro. Um mito é uma metáfora, uma simbologia. E a sereia simboliza um tipo de pessoa que parece maravilhosa, mas não é. A metade “submersa” dela, que se revela apenas na intimidade, é fria, escamosa, inatingível e destrutiva.

O PERIGO DOS RELACIONAMENTOS TÓXICOS
Essas pessoas destroem os desavisados, aqueles que não se previnem, que não possuem bases seguras. Suas “vítimas” são os dependentes emocionais que se jogam nos relacionamentos de olhos fechados. Na Odisseia, para resistir ao canto das sereias, Ulisses se amarra a um mastro do navio. Na vida real, você tem quem estar seguro em si mesmo, auto-consciente. É assim que evitará uniões tóxicas.
As sereias são símbolos femininos, porque representam a “alma” ou essência de certos homens e mulheres. Há um equivalente fantástico masculino, que representa o exterior das pessoas destrutivas: o Barba Azul. Barba Azul é um conto sobre um homem poderoso que após o casamento, mata suas esposas.
Enfim, sereias e Barbas Azuis são metáforas de amantes destrutivos. Se você conhece algum, desvie-se dele, procure ajuda, não se deixe levar.

OS BONS RELACIONAMENTOS SÃO BONS
Bons relacionamentos são aqueles que nos ajudam a crescer. Se nos colocam para baixo, não são bons. Podem até parecer uma promessa de felicidade eterna, mas uma promessa que jamais se concretiza. Nunca se relacione com promessas, com perspectivas. Isso é viver uma fantasia, que lhe tira a terra firme da realidade, e lhe joga no mar da ilusão. Cuidado para não se afogar!

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O que há por trás do melindre

Por Caroline Treigher em Comportamento, Psicologia

22 de Fevereiro de 2019

Se tem uma coisa que atrapalha a vida é o melindre. Melindre nasce do que a autora Karen Horney chama de Orgulho Neurótico. Segundo essa psicanalista, o orgulho não é um problema, e chega mesmo a ser desejável, quando significa reconhecimento do próprio valor. Mas, como tudo demais é veneno, orgulho em excesso é neurose. É o caso do Orgulho Neurótico.

Ela chama de Orgulho Neurótico aquela sensibilidade excessiva que nos torna ofendidos por qualquer coisa. Trata-se de um exagero (inconsciente) de importância pessoal, frequentemente acompanhado por uma grande lista de exigências: Se um conhecido cruza com você e não o cumprimenta, a negligência é recebida como uma ofensa propositada; se um amigo fala com alguém que você não gosta, isso é tomado na conta de traição injustificável; se a pessoa a quem você pediu um favor, esqueceu de atendê-lo, ou não lhe deu prioridade, o fato cai na conta de total falta de consideração. Estes são exemplos de reações neuróticas, que tornam o melindroso um chato e um solitário. Afinal, quem quer ficar perto de uma alma tão “sensível”?

É como se o tempo todo, o melindroso se achasse no centro do universo e tudo o que as pessoas fizessem fosse contra ou a favor dele. Uma espécie de infantilidade, porque apenas as crianças pequenas são tão egocêntricas, mas nelas é justificável, devido ao desconhecimento que possuem do mundo e da vida.

Continuar assim, depois de adulto, é tenso, cansativo, e torna infeliz não apenas quem vive perto, mas o próprio melindroso. Essa infelicidade é o castigo imediato de toda presunção de importância. Quem consegue parar de responsabilizar os outros pelas frustrações que lhe sucedem, e assume que o mundo existe para além do horizonte que consegue vislumbrar, sem dúvida, vive bem melhor.

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2019: O ano que começou pelo fim

Por Caroline Treigher em Comportamento

15 de Fevereiro de 2019

Estamos no segundo mês e o ano já nos surpreendeu com terríveis notícias. Pelo menos para nós, brasileiros. Aqui no Ceará, uma onda de ataques criminosos esvaziou as ruas das cidades. Depois, a notícia assustadora de Brumadinho, em Minas. A morte dos garotos do Flamengo. A queda de helicóptero que levou Ricardo Boechat.

Fins e fins de sonhos, de alegrias, sorrisos e vidas, bem no começo do ano. Medo. Morte. Perda. Luto. Não dá para voltar e fazer diferente, evitar os primeiros ataques, acionar a sirene antes da barragem romper, retirar os meninos antes do incêndio se alastrar, pedir ao Boechat para não pegar aquele helicóptero… O que foi, não tem volta, e gera uma danada de uma impotência. Tristeza pelas coisas ruins que não podemos mudar.

Mas o ser humano é um bicho criativo e, se não pode mudar, pode dar um novo sentido. Quando nada mais pode ser feito, a gente pelo menos busca um sentido, uma experiência. Tipo aquele pneu careca, que já não serve para o automóvel, mas que alguém transforma em balanço, entende?

O que podemos extrair desses fins? Que eles são também começos de novas etapas. A vida é repleta de mudanças e precisamos estar preparados para elas, se não quisermos apenas lamentar quando acontecem. Todos estes fins, em tão pouco tempo, advertem para o que precisamos melhorar e cobrar das instituições, para ficar atentos ao cumprimento das normas de segurança, mas, sobretudo, para a transitoriedade da vida.

Será que estamos aproveitando cada minuto, cada presença? As pessoas que amamos hoje estão conosco, mas amanhã podem não estar. Quantas vezes olhamos nos olhos delas, o invés de mexer em nossos celulares? O céu azul, o cheiro do café, a água do banho, o toque na mão, a música no rádio, tudo isso é maravilhoso e não sabemos até quando teremos. Não que devamos viver ansiosos, com medo de perder tudo, mas devemos aproveitar tudo, viver cada momento, da melhor maneira possível, para que as coisas boas possam fazer valer à pena cada contrariedade, cada dor que a vida também oferta.

E ao final de tudo, mesmo que um furacão nos leve para outro mundo, que a gente possa olhar para trás e, lembrando de um domingo no jardim, dizer: “Valeu demais! Viveria tudo de novo, só para repetir esse momento!”…

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2019: O ano que começou pelo fim

Por Caroline Treigher em Comportamento

15 de Fevereiro de 2019

Estamos no segundo mês e o ano já nos surpreendeu com terríveis notícias. Pelo menos para nós, brasileiros. Aqui no Ceará, uma onda de ataques criminosos esvaziou as ruas das cidades. Depois, a notícia assustadora de Brumadinho, em Minas. A morte dos garotos do Flamengo. A queda de helicóptero que levou Ricardo Boechat.

Fins e fins de sonhos, de alegrias, sorrisos e vidas, bem no começo do ano. Medo. Morte. Perda. Luto. Não dá para voltar e fazer diferente, evitar os primeiros ataques, acionar a sirene antes da barragem romper, retirar os meninos antes do incêndio se alastrar, pedir ao Boechat para não pegar aquele helicóptero… O que foi, não tem volta, e gera uma danada de uma impotência. Tristeza pelas coisas ruins que não podemos mudar.

Mas o ser humano é um bicho criativo e, se não pode mudar, pode dar um novo sentido. Quando nada mais pode ser feito, a gente pelo menos busca um sentido, uma experiência. Tipo aquele pneu careca, que já não serve para o automóvel, mas que alguém transforma em balanço, entende?

O que podemos extrair desses fins? Que eles são também começos de novas etapas. A vida é repleta de mudanças e precisamos estar preparados para elas, se não quisermos apenas lamentar quando acontecem. Todos estes fins, em tão pouco tempo, advertem para o que precisamos melhorar e cobrar das instituições, para ficar atentos ao cumprimento das normas de segurança, mas, sobretudo, para a transitoriedade da vida.

Será que estamos aproveitando cada minuto, cada presença? As pessoas que amamos hoje estão conosco, mas amanhã podem não estar. Quantas vezes olhamos nos olhos delas, o invés de mexer em nossos celulares? O céu azul, o cheiro do café, a água do banho, o toque na mão, a música no rádio, tudo isso é maravilhoso e não sabemos até quando teremos. Não que devamos viver ansiosos, com medo de perder tudo, mas devemos aproveitar tudo, viver cada momento, da melhor maneira possível, para que as coisas boas possam fazer valer à pena cada contrariedade, cada dor que a vida também oferta.

E ao final de tudo, mesmo que um furacão nos leve para outro mundo, que a gente possa olhar para trás e, lembrando de um domingo no jardim, dizer: “Valeu demais! Viveria tudo de novo, só para repetir esse momento!”…