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Papo Psi

por Caroline Treigher

A culpa nem sempre é dos pais

Por Caroline Treigher em Comportamento, Família, Psicologia

06 de novembro de 2016

A polêmica do “Jogo da Asfixia”, que já levou à morte dezenas de crianças, tem suscitado discussões a respeito da culpabilidade dos pais. Sobre o tema, li um texto incentivando os pais a estarem mais próximos de seus filhos, “para que os meninos não precisem recorrer a brincadeiras perigosas, em busca de adrenalina”. E, com o típico saudosismo que caracteriza certas pessoas com mais de trinta anos, o autor referiu-se aos tempos em que a criançada brincava no quintal, como sendo algo muito precioso que se perdeu, nesta contemporaneidade repleta de tablets e celulares. Inevitavelmente, eu, que já cheguei aos “enta”, lembrei de quando era menina. Apesar de já existirem vídeo games, eu gostava de brincar nos corredores do prédio onde morava. Tinha uma brincadeira de ficar girando no lugar, até ficar tonta, só para experimentar a sensação de vertigem. Também pegava impulso numa corrida, com a turminha, para saltar sobre uma escadaria de dez a doze degraus, só pelo gosto da emoção. Alguns amiguinhos davam saltos mortais no parquinho, no intuito de impressionar a galera. Às vezes, eu e uma amiga cozinhávamos ovos numa lata de leite vazia, sobre uma fogueira que nós mesmas acendíamos no chão, para depois comermos, pela aventura de fazer o próprio rango. E assim eu brincava, correndo risco de quebrar o pescoço ou ser contaminada, sem que meus pais jamais sonhassem, porque, do mesmo jeito que muitos hoje não fiscalizam o que suas crianças fazem nos quartos, eles não me vigiavam no corredor, no parquinho, na rua. Graças a Deus! Imaginem que infância reprimida teria, com meus pais colados o tempo todo, dando conta de cada passo meu?

Acho que há um certo exagero na responsabilização dos pais pelo que sucede aos filhos. Isso torna o sonho de ser mãe ou pai algo muito assustador! Os pais devem, sim, estar suficientemente próximos para saber o que seus filhos fazem, mas não tanto, que os sufoquem. O ponto do equilíbrio é o meio, nunca os extremos. Não dá para saber tudo o que o filho faz, nem se recomenda que seja assim. É preciso lembrar que filhos são gente, com vontade própria, com desejos de aventura e adrenalina como qualquer ser humano, e que nem tudo o que eles fazem é consequência do que acontece em casa.

Não acredito que as crianças vitimadas pelo “Jogo da Asfixia” fossem todas carentes de presença e afeto. Pelo que li e ouvi, algumas tinham pais bastante dedicados. Acontece que sempre teve menino se machucando e, infelizmente, morrendo em brincadeiras. Os pais devem estar alertas, sim, e devem entabular o diálogo sempre que possível. Mas precisam entender que não são deuses. Não controlam tudo, não determinam o destino, e, de certo modo, são crianças também, porque ninguém, neste mundo, deixa de aprender e crescer, mesmo que tenha noventa anos!

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Autoengrandecimento não é autoestima

Por Caroline Treigher em Comportamento, Psicologia

23 de outubro de 2016

A pessoa que se gaba e sente a constante necessidade de chamar atenção sobre os próprios feitos, não por brincadeira, mas por acreditar possuir virtudes que na verdade lhe faltam, está longe de ser alguém que se ama. Ao contrário, pode ser que esteja tão alheia a si, e que viva tão distante de quem realmente é, e pior, que se despreze, inconscientemente, de tal forma, que necessita que os outros confirmem, com sua admiração, o seu valor.

Esta pessoa não possui, como se poderia pensar, uma elevada autoestima. A verdadeira autoestima fundamenta-se nas qualidades que realmente se tem, e que não precisam ser gritadas aos quatro ventos, embora todo mundo deseje ser reconhecido. Quem se ama, sabe seu valor e não o impõe a ninguém. Já o autoengradecimento é que embasa a atitude narcísica, daquele que se proclama superior, que acha que toda crítica é inveja, e que se afasta das pessoas (sem abrir mão de seus elogios), porque elas não lhe merecem a presença. Por trás dessa atitude, o que existe é uma sensação de insignificância muito grande, tão grande quanto a suposta magnificência de seu portador.

O que se acredita em Psicologia, é que esta pessoa foi ferida na sua autoestima desde a infância, quando provavelmente veio a acreditar que, para ser amada e aceita, precisaria ser o que desejavam que fosse. Assim, ela foi reprimindo seus próprios desejos, sentimentos e afinidades, para se tornar “alguém aparentemente importante”; ou seja, ela abriu mão de si mesma e virou uma farsa. A farsa se confirma nos “aplausos do público”, de que ela tanto necessita. Para descobrir que vive num eterno palco, uma pessoa assim precisa se tratar com boas doses de verdade, oferecidas pela vida, às vezes de forma bastante dolorosa. Se tiver um mínimo de amor por si mesma, talvez procure uma psicoterapia, e consiga construir uma realística autoestima.

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Reciclagem psicológica para preservar a saúde

Por Caroline Treigher em Comportamento, Psicologia

15 de outubro de 2016

Quando eu era menina, gostava muito de desenhar. Mas possuía um nível de exigência tamanho, que quando não apreciava o desenho, não tentava ajeitar, simplesmente jogava fora. Assim, era muito difícil guardar um desenho, e se não fosse mamãe salvando alguns, não teria sobrado muito da minha produção desta época…
Hoje, adulta, percebi que isso não se dava apenas com os desenhos, mas com tudo. E descobri que muita gente é assim também. Uma autora junguiana, Marion Woodman, chama essa prática de “vício da perfeição”. A mania de jogar fora o que não ficou perfeito, voltando sempre ao começo de tudo, para fazer de novo e melhor.
Felizmente, descobri a tempo que tal vício não faz ninguém melhor; pelo contrário, paralisa. Desejosos de atingir um nível impossível, não apreciamos o possível. Jogamos fora as oportunidades, e até as amizades e os amores, porque exigimos perfeição de tudo. O amigo decepcionou? Fora! O casamento entrou em crise? Fora! O trabalho tem problemas? Fora! Um constante desperdício de tempo e energia,  com prejuízo da saúde mental, por não se permitir reciclar.
É uma bênção aprender a RECICLAR. Se algo não saiu do jeito que se desejava, não é preciso jogar fora todo o resto, o que foi bom. A vida me ensinou que muitas vezes vale à pena tentar de novo. Me ensinou a perseverar nos desenhos, e descobrir que, a partir de traços feios, ainda se pode conseguir algo muito bonito…
A vida me ensinou que não é possível (nem necessário) controlar tudo e que o dono do mundo – Deus – sabe muito bem o que está fazendo. E não foi Ele o criador da reciclagem? Não fez a Terra dos destroços de uma explosão? Não fez surgir do caos, uma nova ordem? Portanto, viva a reciclagem!

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Quando amar é para sempre

Por Caroline Treigher em Comportamento

08 de outubro de 2016

Eu te amo porque te amo./ Não precisas ser amante,/ E nem sempre sabes sê-lo./ Eu te amo porque te amo./ Amor é estado de graça/ E com amor não se paga. (Carlos Drummond de Andrade)

Ao contrário do que se pensa, é muito mais fácil declarar amor a quem pouco se conhece. Difícil é identificar o amor quando os anos encobriram de realidade as fantasias dos primeiros meses… Não há mais aquele frescor do início, quando o casal descobre o que tem em comum, quando tudo é uma bela novidade, e os obstáculos têm gosto de desafio. Quando o costume e o hábito desaceleram o coração. E quando, justamente por não haver mais aquele frisson que turva a vista, as diferenças começam a aparecer com clareza. Neste momento, é mais fácil querer um novo amor. Porém, pode-se perder a chance de experimentar o aprofundamento do amor, que é uma experiência melhor que a primeira. É quando você redescobre o amor pela mesma pessoa. Quando quer estar ao lado dela, não porque não pode viver sem ela, mas porque simplesmente quer viver com ela. Quando ela não é mais a compensação de um complexo de inferioridade ou um objeto para a superação das carências infantis. Quando ela é ela, e mesmo assim, viver com ela é bom, sem nenhum redemoinho de emoções, e sem muitas explicações. É mais difícil identificar o amor por quem muito se conhece, mas quando se identifica, é muito, muito mais valioso. Porque só quem amou até este momento, consegue dizer sem ilusão, que amar é para sempre!

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Dia D, de Democracia

Por Caroline Treigher em Comportamento, Política

01 de outubro de 2016

Olá, leitor! Me ausentei do blog por algum tempo, mas estou de volta. Pretendo escrever uma vez por semana, aos sábados, porém textos menores que antes. Em geral, vou postar “aforismos”, que são afirmações curtas, de teor prático ou moral. Isso me facilita a escrita e acho que é melhor para a leitura rápida da Internet. Então, vou iniciar a nova etapa com o tema do momento: ELEIÇÃO. Amanhã é o dia D, de Democracia!

No começo da semana, publiquei na timeline de uma das minhas redes sociais, a imagem do candidato a vereador em quem escolhi votar. Nunca fiz isso antes, mas sendo ele meu amigo e pessoa em quem confio, tive gosto em ajudar na sua campanha. Por que não? Vivemos numa democracia e cada um vota em quem quer, não é mesmo? Pois é, mas parece que não é. Acontece que alguns me parabenizaram pela coragem. Como assim, coragem? Nunca pensei que fosse preciso coragem para anunciar um voto. Infelizmente, a admiração destes amigos revela o ambiente de intolerância em que vivemos, contrário ao propósito democrático. Isto é preocupante. A intolerância, a perseguição aos que pensam diferente, a opressão pelo constrangimento ou pela força, são atitudes que ameaçam a democracia, e que devemos combater, mais que nas urnas, nos nossos corações.

Vamos refletir a respeito e, ao invés de esperar atitudes democráticas apenas dos nossos representantes, exercê-las nós mesmos. Amanhã, ao fazer nossas escolhas, respeitemos a escolha alheia. O voto do outro, igual ou diferente do meu, não o coloca em lado oposto. Essencialmente, somos todos brasileiros e estamos do mesmo lado!

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Orgulho: virtude ou defeito?

Por Caroline Treigher em Comportamento, Psicologia

14 de agosto de 2016

Karen Horney, médica psicanalista alemã, viveu entre 1885 e 1952. (Foto: Wikipédia)

Uma autora que adoro é Karen Horney. Psicanalista, ela me apresentou o conceito de “orgulho neurótico”, que tem me ajudado muito. Porque tem aquele orgulho que é saudável, o reconhecimento do próprio valor, um sinal de elevada autoestima. Mas tem o orgulho doentio, que é aquele que nos faz pensar que merecemos mais do que merecemos, que está por traz tanto da personalidade inflada, quanto da auto piedade… Sabem aquela pessoa que chora por si mesma, todos os dias? Tudo bem, um dia ou outro, a gente sentir pena de si, mas ficar revoltado porque sofre, porque não consegue isso ou aquilo que deseja, é demais, desproporcional. Oxe! Me apontem uma só pessoa que tem todos os seus desejos satisfeitos? Que nunca passa por dificuldades? Que não tem que pedir ajuda, jamais? Que nunca viu ou verá a morte trazer seu aguilhão?
Quem se paralisa na revolta, porque passa por situações assim, é um “orgulhoso neurótico”. De onde veio, que não pode enfrentar o que todos enfrentam? Quem pensa que é? Deus?!
Meu amigo, este planetinha é assim mesmo, é melhor se acostumar. Quem quer ser feliz, precisa entender que não vai ser o sol ou a chuva, o amado ou o líder, que vão proporcionar motivos para sorrir. É o nosso olhar. A maneira como recebemos o dom da vida. Quem é esperto, vê no problema um desafio, e uma oportunidade!

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Comentários idiotas provam: espertos leem mais e comentam menos…

Por Caroline Treigher em Comportamento

19 de fevereiro de 2016

… ou comentam com propriedade.

Dando uma passada por comentários em posts meus e de alguns colegas blogueiros, e até de reportagens na Internet, percebi que muitos comentam tendo lido apenas o título. Alguns não entendem que um blog publica artigos de opinião e não matérias. E um grande número deixa óbvio que não leram, pela total incompatibilidade de suas palavras com a publicação. Isso torna seus comentários idiotas (não os seus autores, pois todos temos o direito de fazer uma ou mais idiotices, sem nos tornar idiotas por completo). Sempre ouvi que os espertos escutam mais do que falam. Em se tratando de posts, penso que os espertos são os que leem (e entendem) antes de comentar. Como ilustração do fenômeno, vou contar uma história que conheci na adolescência. Ela narrava um diálogo entre um sábio e seu discípulo:
– Mestre, tenho algo a dizer-te!
– Já passaste pelos três crivos, meu jovem?
– Como assim, três crivos?
– Toda vez que fores dizer algo, passa primeiro a ideia por três crivos. O primeiro: o que tens a me contar é VERDADE?
– Hum… Suponho que sim.
– Bem, se supões, é porque não sabes. Vamos, então, ao segundo crivo: é BOM?
– Bom, bom, não é, com certeza.
– Por fim, o terceiro crivo: é ÚTIL?
– Útil?! De forma alguma!
– Bem, meu caro, se não sabes se o que tens a dizer é verdadeiro, e se estás certo de que é ruim e inútil, melhor então que fiques calado.
E assim, o rapaz não transmitiu o que pensava. Foi o conselho de um sábio, que penso valer para todos nós, se não quisermos propagar idiotices.

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Quem é o dono da razão?

Por Caroline Treigher em Comportamento

12 de fevereiro de 2016

“Prefiro ter paz a ter razão”.

De vez em quando me deparo com esta frase. Tanto, que resolvi pensar a respeito. O que, de fato, ela está afirmando? Examinando com profundidade, acessei duas possíveis interpretações:

PRIMEIRO: Ela é usada quando alguém acredita estar certo numa opinião, mas se cala, para evitar conflito. Parece uma atitude sábia, mas é presunçosa e intransigente. Presunçosa, porque a pessoa parte do pressuposto de que está certa, antes mesmo do debate; intransigente, porque fecha as portas para o esclarecimento através do debate. Isso se deve ao receio de debater, de discutir. De fato, numa discussão, raramente os envolvidos querem ouvir ou conhecer a ideia do outro. Tudo o que querem é  impor a própria. Quando alguém repete a frase acima para justificar seu silêncio e não expor os próprios pensamentos, pode até querer paz, mas talvez obtenha apenas guerra. Suas impressões, reprimidas, podem se transformar em raiva e explodir adiante, noutra circunstância, causando muito mais danos. Mais pacífico seria procurar uma forma de falar e ouvir, com clareza e respeito pelas diferenças.

SEGUNDO: Ela é usada quando alguém faz o que acredita ser certo, mesmo que toda a sociedade determine que deve agir diferente. Bem, aqui temos alguém de personalidade forte, que quer estar em paz com a própria consciência, e isto é louvável. Porém, o lema pode ser usado como desculpa para uma postura egoísta, dos que afirmam estar nem aí para o que o mundo pensa. Claro que seria pretencioso querer agradar a todos, e muitas vezes temos que nadar contra a maré das opiniões alheias, para alcançar nossos objetivos. Mas por que não tentar, se possível, ser atencioso e explicar as nossas escolhas? Nem sempre os outros vão compreender, mas eles não merecem sequer a tentativa? Dizer que não se importa com o que as pessoas pensam é um engodo, porque ninguém é uma ilha, estamos todos interligados, e a busca de relações harmoniosas é importante para o bem-estar social e pessoal. Ter paz na consciência implica não apenas em fazer o que quer, mas em fazer sem agressividade, sem violência.
Pensemos nisso. Expor o que se pensa é um direito, e o maior desafio não é impor ou calar, mas propor e, talvez, mudar de opinião. Afinal de contas, quem é o dono da razão?…
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No carnaval, vou viajar para um lugar lindo: para dentro de mim

Por Caroline Treigher em Comportamento, Psicologia, Religião

05 de fevereiro de 2016

“Os olhos são a lâmpada do corpo. Portanto, se teus olhos forem bons, teu corpo será pleno de luz. Porém, se teus olhos forem maus, todo o teu corpo estará em absoluta escuridão.” (Mateus 6: 22, 23)

Primeiro, dispa-se do preconceito, caro leitor. Não tenho nenhuma intenção doutrinária ao citar Jesus. Independentemente de sua religião, ou até mesmo de seu ateísmo, a citação acima traz uma sábia advertência. Ela nos remete ao fenômeno que em Psicologia ficou conhecido como projeção. Sugere que o que experimentamos no mundo, reflete o que trazemos dentro de nós. Todos atravessamos as mais diversas experiências, boas ou más.  Porém, o que as qualifica como boas ou más, não são as circunstâncias, e sim o olhar que sobre elas deitamos.

O julgamento vem de dentro. Segundo Jesus, é o nosso olhar que classifica o que é visto como luz ou treva.  Faz sentido. Tem gente que se habituou a olhar o mundo com bons olhos. Bons olhos é como denominamos a capacidade de encontrar algo positivo nas mais diversas circunstâncias, até mesmo as adversas. A pessoa que possui bons olhos está conectada com sua luz interior e, como uma lanterna, por causa da luz que traz em si, ilumina o seu entorno. Ela se faz feliz.  Já quem tem maus olhos, de tudo, tira um motivo para reclamar, para se queixar. Não importa onde esteja, sua atenção se volta para o que está fora do eixo, para o que poderia ser e não é. Ela se conecta com sua treva interior e, mergulhada nela, sente apenas escuridão, de forma que se faz infeliz.

Como o clima é de Carnaval, lembrei dessa passagem. Fala-se muito em alegria, como se alegria fosse algo que vem de fora, e não de dentro. Como se não fosse uma avaliação pessoal da experiência vivida. Muita gente que corre atrás da felicidade, sofre bastante neste período, por acreditar não dispor de meios para alcançá-la. Passa o Carnaval emburrada, com raiva do povo nas ruas, com inveja de quem viaja, ruminando insatisfação. Mas a verdade é que não seria preciso tanto. Bastaria olhar. Olhar com bons olhos. Fazer uma viagem para o melhor lugar: para dentro de si. E procurar com atenção os motivos que existem para abrir um luminoso sorriso. Se cada um fizesse assim, o mundo inteiro seria luz!

 

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Sibutramina pode matar, mas quem suja as mãos somos nós

Por Caroline Treigher em Comportamento, Psicologia

29 de janeiro de 2016

Um "corpo perfeito' não significa saúde, mas o equilíbrio entre o corpo e a mente. (Foto: Caroline Treigher)

Um “corpo perfeito’ não significa saúde, mas o equilíbrio entre o corpo e a mente. (Foto: Caroline Treigher)

Recentemente uma mãe publicou um triste depoimento, a respeito da morte de sua filha, em decorrência de um surto psicótico, deflagrado pelo uso de um remédio para emagrecer, chamado Sibutramina. A Sibutramina é, originalmente, um antidepressivo. Porém, como controla a fome no indivíduo, muitos passaram a usá-la apenas para perder peso, o que é perigoso, pois seus efeitos colaterais incluem alterações de humor e mentais graves. Por isso, a medicação é proibida em alguns países e bastante restringida em outros.

No Brasil, para adquirir Sibutramina, o paciente precisa assinar um termo de responsabilidade, além de apresentar a receita médica. Mesmo assim,  é possível conseguir o medicamento no comércio ilegal. Foi o que aconteceu com a jovem mencionada.  Sua mãe lamenta ter perdido a filha para a Sibutramina, mas quem foi que a matou, realmente? A ambição dos que fabricam? A dos que vendem? Ou toda a sociedade, com o seu culto ao Corpo Perfeito? Será que não temos participação nisso, toda vez que julgamos alguém pela aparência, separando as pessoas em feias ou bonitas, e medindo sua importância pela estética?

Não, ela não perdeu a filha pra Sibutramina. Ela perdeu a filha para a ditadura da beleza, para essa bobagem generalizada que tanto nos ocupa, e nos faz olhar para os corpos, esquecendo as almas. Por que precisamos ser magros? Para ter saúde? Mas a saúde é feita de magreza, somente? Magros não adoecem e morrem? Que saúde tem alguém que se martiriza e se expõe ao risco de morte, apenas para perder peso? Não será o equilíbrio emocional, também, um forte indicador de saúde? Não é por falta dele que, muitas vezes, se come compulsivamente até a obesidade? Pensemos nisso. Essas e muitas outras,  são questões que precisam ser debatidas e solucionadas, se quisermos evitar que mais e mais pessoas morram de estômagos e corações vazios.

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A culpa nem sempre é dos pais

Por Caroline Treigher em Comportamento, Família, Psicologia

06 de novembro de 2016

A polêmica do “Jogo da Asfixia”, que já levou à morte dezenas de crianças, tem suscitado discussões a respeito da culpabilidade dos pais. Sobre o tema, li um texto incentivando os pais a estarem mais próximos de seus filhos, “para que os meninos não precisem recorrer a brincadeiras perigosas, em busca de adrenalina”. E, com o típico saudosismo que caracteriza certas pessoas com mais de trinta anos, o autor referiu-se aos tempos em que a criançada brincava no quintal, como sendo algo muito precioso que se perdeu, nesta contemporaneidade repleta de tablets e celulares. Inevitavelmente, eu, que já cheguei aos “enta”, lembrei de quando era menina. Apesar de já existirem vídeo games, eu gostava de brincar nos corredores do prédio onde morava. Tinha uma brincadeira de ficar girando no lugar, até ficar tonta, só para experimentar a sensação de vertigem. Também pegava impulso numa corrida, com a turminha, para saltar sobre uma escadaria de dez a doze degraus, só pelo gosto da emoção. Alguns amiguinhos davam saltos mortais no parquinho, no intuito de impressionar a galera. Às vezes, eu e uma amiga cozinhávamos ovos numa lata de leite vazia, sobre uma fogueira que nós mesmas acendíamos no chão, para depois comermos, pela aventura de fazer o próprio rango. E assim eu brincava, correndo risco de quebrar o pescoço ou ser contaminada, sem que meus pais jamais sonhassem, porque, do mesmo jeito que muitos hoje não fiscalizam o que suas crianças fazem nos quartos, eles não me vigiavam no corredor, no parquinho, na rua. Graças a Deus! Imaginem que infância reprimida teria, com meus pais colados o tempo todo, dando conta de cada passo meu?

Acho que há um certo exagero na responsabilização dos pais pelo que sucede aos filhos. Isso torna o sonho de ser mãe ou pai algo muito assustador! Os pais devem, sim, estar suficientemente próximos para saber o que seus filhos fazem, mas não tanto, que os sufoquem. O ponto do equilíbrio é o meio, nunca os extremos. Não dá para saber tudo o que o filho faz, nem se recomenda que seja assim. É preciso lembrar que filhos são gente, com vontade própria, com desejos de aventura e adrenalina como qualquer ser humano, e que nem tudo o que eles fazem é consequência do que acontece em casa.

Não acredito que as crianças vitimadas pelo “Jogo da Asfixia” fossem todas carentes de presença e afeto. Pelo que li e ouvi, algumas tinham pais bastante dedicados. Acontece que sempre teve menino se machucando e, infelizmente, morrendo em brincadeiras. Os pais devem estar alertas, sim, e devem entabular o diálogo sempre que possível. Mas precisam entender que não são deuses. Não controlam tudo, não determinam o destino, e, de certo modo, são crianças também, porque ninguém, neste mundo, deixa de aprender e crescer, mesmo que tenha noventa anos!