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Papo Psi

por Caroline Secundino Treigher

2019: O ano que começou pelo fim

Por Caroline Treigher em Comportamento

15 de Fevereiro de 2019

Estamos no segundo mês e o ano já nos surpreendeu com terríveis notícias. Pelo menos para nós, brasileiros. Aqui no Ceará, uma onda de ataques criminosos esvaziou as ruas das cidades. Depois, a notícia assustadora de Brumadinho, em Minas. A morte dos garotos do Flamengo. A queda de helicóptero que levou Ricardo Boechat.

Fins e fins de sonhos, de alegrias, sorrisos e vidas, bem no começo do ano. Medo. Morte. Perda. Luto. Não dá para voltar e fazer diferente, evitar os primeiros ataques, acionar a sirene antes da barragem romper, retirar os meninos antes do incêndio se alastrar, pedir ao Boechat para não pegar aquele helicóptero… O que foi, não tem volta, e gera uma danada de uma impotência. Tristeza pelas coisas ruins que não podemos mudar.

Mas o ser humano é um bicho criativo e, se não pode mudar, pode dar um novo sentido. Quando nada mais pode ser feito, a gente pelo menos busca um sentido, uma experiência. Tipo aquele pneu careca, que já não serve para o automóvel, mas que alguém transforma em balanço, entende?

O que podemos extrair desses fins? Que eles são também começos de novas etapas. A vida é repleta de mudanças e precisamos estar preparados para elas, se não quisermos apenas lamentar quando acontecem. Todos estes fins, em tão pouco tempo, advertem para o que precisamos melhorar e cobrar das instituições, para ficar atentos ao cumprimento das normas de segurança, mas, sobretudo, para a transitoriedade da vida.

Será que estamos aproveitando cada minuto, cada presença? As pessoas que amamos hoje estão conosco, mas amanhã podem não estar. Quantas vezes olhamos nos olhos delas, o invés de mexer em nossos celulares? O céu azul, o cheiro do café, a água do banho, o toque na mão, a música no rádio, tudo isso é maravilhoso e não sabemos até quando teremos. Não que devamos viver ansiosos, com medo de perder tudo, mas devemos aproveitar tudo, viver cada momento, da melhor maneira possível, para que as coisas boas possam fazer valer à pena cada contrariedade, cada dor que a vida também oferta.

E ao final de tudo, mesmo que um furacão nos leve para outro mundo, que a gente possa olhar para trás e, lembrando de um domingo no jardim, dizer: “Valeu demais! Viveria tudo de novo, só para repetir esse momento!”…

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O caminho do perdão sincero

Uma coisa que me chama atenção em algumas religiões, e até mesmo em terapias complementares, muitas vezes chamadas de “alternativas”, é a imposição do perdão. É muito certo que venhamos a perdoar; realmente alcançar o perdão é o último estágio de cura de algumas feridas da alma. Mas não adianta saber que é preciso ou querer perdoar, para verdadeiramente perdoar.

Jung dizia que “não nos iluminamos imaginando figuras de luz, mas tomando consciência das trevas”. Para se chegar ao estágio do perdão, é necessário antes aceitar, sentir, conhecer e ressignificar a mágoa:

1. Aceitar: Identificar a mágoa. Saber que é humano senti-la, não lutar contra a experiência de decepção, tristeza ou raiva, embora nem sempre seja possível colocá-las para fora da maneira que se gostaria.
2. Sentir: Experimentar a emoção, não reprimi-la. Procurar um caminho saudável de esvaziá-la, que pode ser escrevendo num diário, conversando com alguém neutro, extravasando num dojô etc.
3. Conhecer: Uma vez sentida em toda a profundidade, tentar compreender as bases da mágoa, os motivos da vulnerabilidade, as expectativas, anseios e compensações que abriram caminho para que a mágoa se instalasse mais ou menos profundamente.
4. Ressignificar: Conhecidas as bases da mágoa, assumir a parcela de responsabilidade sobre o ocorrido, e procurar na experiência um aprendizado fortalecedor, bom e libertador.

Essas pessoas que ficam dizendo que perdoaram sem ter passado por isso, fizeram foi aumentar sua inconsciência, reprimir as emoções negativas, e ao invés de libertação, o que vão conseguir é adoecimento. Cada coisa a seu tempo. Não se é bom, sem reconhecer o mal em si. O próprio Cristo não aceitava que o chamassem “bom”, Francisco de Assis se afirmava insignificante… Eles não faziam isso por falsa modéstia ou baixa autoestima. Eles tinham auto percepção, aceitavam suas sombras, acolhiam sua pequenez, e naturalmente (não porque se forçavam) revelavam sua grandeza. Estamos longe desses estágios. Somos pessoas comuns, ainda no começo do caminho que alguns raros mestres já percorreram. Então, é claro que temos que perdoar, mas mais claro ainda é que precisamos nos aceitar!

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“Porque rir de tudo é desespero”

Por Caroline Treigher em Comportamento, Psicologia

01 de Fevereiro de 2019

Esse verso da música de Frejat revela uma grande verdade. Parece muito legal alguém sorrir de tudo, mas nem sempre isso é bom. O sorriso deve ser congruente, refletir satisfação. Quando uma pessoa sorri porque está envergonhada, para disfarçar a raiva, para não chorar, ela está incongruente. Verdade que às vezes se deve fazer isso por força das circunstâncias, como, por exemplo, no trabalho; mas fazer sempre, sem se dar conta, reflete um desequilíbrio interior. As dores reprimidas, transformadas em sorrisos artificiais, podem gerar doenças psicológicas e até físicas.

SER PACÍFICO NÃO É SER PASSIVO
Não nos enganemos. Certas atitudes parecem ser pacíficas, mas são passivas. Ser “gente boa”, gente que tudo perdoa, que tudo deixa pra lá, que nunca se irrita e jamais se queixa, que trata a todos na mesma medida, a despeito do que lhe tenham feito, parece sinal de superioridade, mas não é. Revela, antes, uma grande dissociação, que é a desconexão entre a experiência interior e a atitude exterior.

OS ZUMBIS PSICOLÓGICOS
Ser incongruente e dissociado é se transformar numa espécie de zumbi psicológico, que vive anestesiado, sem sentir. Ser da paz não é ser necessariamente imparcial, não ter opiniões, achar tudo bom, e se conformar com tudo. Isso é a perigosa indiferença. A gente pode e deve ter posições firmes. O que devemos evitar é o desrespeito, mas agir sempre, num comportamento pacífico, porém jamais passivo!

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Amor à primeira vista

Por Caroline Treigher em Comportamento

26 de Janeiro de 2019

É muito lindo quando a gente vê nos filmes aquelas histórias de amor repentino. Uma pessoa cruza com outra no caminho e é como se conhecessem há séculos. Mas, será que isso é possível? Pode até ser, mas a chance de que o impacto do encontro seja uma projeção é bem maior do que de ser uma descoberta da alma gêmea.

PROJEÇÃO
Projeção é quando você vê no outro o que traz em si. No caso em questão, você vê naquela pessoa que encontrou a primeira vez a materialização do seu parceiro idealizado. Algo naquela aparência (porque não é possível ver outra coisa no primeiro contato) se encaixa no seu sonho de amor. Tanto que nunca ouvi falar de alguém se apaixonar ao primeiro olhar por uma pessoa absolutamente desgrenhada. Você se apaixona por algo que você vislumbra no outro, por uma esperança de vir-a-ser.

AMOR À MILIONÉSIMA VISTA
Enfim, não acredito em amor à primeira vista. Claro que posso estar errada, nem isso quer dizer que eu não tenha romantismo suficiente para acreditar no amor. Eu acredito, sim. Acredito em amor à milionésima vista… Amor é como uma semente que você recebe e guarda no coração. Ela pode nunca brotar, pode germinar e morrer, e ela pode crescer tanto, que não cabe numa única vida humana! A última opção é o que chamo de amor. Não é fogo, não é impacto, é construção. Amor não acontece de repente, mas cresce no silêncio, de forma que, quando menos espera, e sem explicar o motivo, você simplesmente diz: amo.

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Eleições 2018 e a guerra das sombras

Por Caroline Treigher em Comportamento, Política, Psicologia

16 de setembro de 2018

As pessoas pensam que a sombra – conceito da psicologia junguiana – é a nossa parte ruim, que escondemos. Mas não é bem assim. A sombra é o inconsciente, que não se encontra à luz da consciência. Parte da dificuldade em reconhecer a sombra se deve ao medo de, ao revelarmos características inaceitáveis, sofrermos “rejeição”. O ruim é que, embora ignorados, os conteúdos da sombra não deixam de existir e de determinar nossas ações. É por isso que, de repente, nos surpreendemos agindo contra tudo o que pregamos.

Um exemplo é o tanto de gente postando aqui que o candidato X é preconceituoso, enquanto chama os que votam no dito X de burros. Isso não é preconceito? Acaso a inteligência dos eleitores de X foi mensurada por técnicas confiáveis? Por outro lado, alguns postam que o candidato Y é corrupto, e que seus eleitores são fanáticos e imorais, mas usam, corruptamente, discursos falsos, não menos fanáticos e imorais. Acaso as justificativas dos eleitores de Y foram comprovadas como infundadas e mal intencionadas?

Enfim, estamos literalmente numa guerra das sombras. A julgar pelas postagens citadas, o país está repleto de burrices, preconceitos, corrupções, fanatismos e imoralidades… de todos os lados!

A saída não é ficar em cima do muro, mas tentar ser coerente. Se você acreditar no amor, no respeito, ser amoroso e respeitoso. Se quiser paz e justiça, portar-se com pacificidade e não fazer julgamentos genéricos e precipitados. Essa atitude não vai iluminar o mundo, mas já acenderá pelo menos uma centelha.

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Para quem está cansado da violência

Por Caroline Treigher em Comportamento, Política

09 de setembro de 2018

Hoje queria partilhar com você que me lê, um pouco da minha indignação. Talvez também seja a sua. Pelo menos me parece que muita gente, como eu, anda incomodada com a grande onda de violência que assola o país e o mundo. Bem, vou falar do país, que é a parte do mundo que melhor conheço. Mais especificamente, vou falar da minha cidade.

Moro em Fortaleza, capital do Ceará. Um dos maiores índices de violência do Brasil. Do mundo! Aqui, é difícil conhecer alguém que nunca foi assaltado. E quando a gente conhece, logo se pergunta: “Até quando?” Nesse contexto, sentir medo é regra.

Por isso, chega a época das eleições e os candidatos fazem promessas de segurança. Claro, é o mínimo que se espera. O inesperado é a atitude dos eleitores. Isso mesmo. Todo mundo fica indignado com a hipocrisia dos políticos, mas eu tenho começado a me chocar com a incongruência dos cidadãos. Não vou dizer hipocrisia, porque hipocrisia requer uma vontade manipuladora, e me parece que as pessoas nem percebem o que fazem. Mas basta acessar as redes sociais, para ver.

Há um monte de gente se agredindo. Uns se batem claramente com palavrões, acusações etc. Outros são esgrimistas que usam a ironia, o sarcasmo, a indireta. Todos pregam a liberdade, oprimindo; falam de paz, brigando; pedem tolerância, chamando de burros os que julgam intolerantes; exigem respeito, insultando. E no meio disso tudo, um posta, de Gandhi: “Seja a mudança que você quer ver no mundo”. Aí os gladiadores digitais suspendem as armas e curtem. Oi? Como assim? É incoerência demais!

Não pense você, leitor, que me excluo do contra-senso. Escrevo também para mim. Não estou aqui para apontar o dedo, mas para partilhar a reflexão. Nunca vamos mudar os políticos que aí estão, muito menos o quadro de violência que se alastra na cidade, no estado, no país e no mundo, se não mudarmos, em nós mesmos, as bases de tudo isso que nos horroriza: a má educação, o desrespeito, a grosseria, o egoísmo, o desamor, a presunção. Queremos mais igualdade? Queremos menos violência? Queremos o fim da corrupção? Não vamos esperar que alguém, eleito, nos dê isso. Vamos fazer a nossa parte. Vamos ser, nós mesmos, aquilo que esperamos que os outros sejam: pessoas melhores.

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Amor não é prisão, mas liberdade

Por Caroline Treigher em Comportamento

08 de junho de 2018

Amor de verdade é assim: leve, dedicado e fiel por vontade, e não por imposição. Se não for assim, não é amor, é prisão.

Está chegando o dia dos namorados e muita gente aproveita o momento para declarar o seu amor. Alguns usam uma linda poesia do poeta português Luís Vaz de Camões. Segue abaixo, para vocês se deliciarem:

Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?

É linda, não é mesmo? Mas observando atentamente, a gente vê que não é realmente de amor que o autor está falando. Camões que me perdoe, ele parece estar descrevendo o VÍCIO. Releia a poesia substituindo a palavra “amor” por qualquer vício, seja “bebida”, “cocaína”, “comida”, qualquer um. Veja se não se aplica?

O amor, para você, “é ferida que dói e não se sente”? Eu acho que não. Esse “contentamento descontente” é na verdade uma característica da dependência. Tem gente que não ama, mas se vicia na outra. Uma coisa, porém, não tem nada a ver com a outra. O amor de verdade é livre.

Quando você ama alguém, não é porque não pode viver sem essa pessoa. Neste caso, estar com a dita pessoa seria uma necessidade e não uma escolha. Parece bonito, mas não é. Porque o mais bonito é você saber que pode ser feliz sem alguém, e mesmo assim, escolher ser feliz com este alguém. Ele não é a única opção de felicidade na sua vida, mas é a opção que você escolheu, deliberadamente, porque ama. Amor de verdade é assim: leve, dedicado e fiel por vontade, e não por imposição. Se não for assim, não é amor, é prisão.

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O que fazer quando não se pode fazer nada?

Por Caroline Treigher em Comportamento, Psicologia

26 de Maio de 2018

Tem coisas que não podemos mudar. Mas será que isso quer dizer que não resta nada a fazer? (Foto: Guilherme Collares)

A impotência, sentimento que nos trespassa quando não podemos mudar algo que aconteceu e foi muito ruim, é uma das piores experiências da vida. Eu que trabalho com a escuta das dores da alma, que acesso os segredos das famílias, suas feridas psíquicas e cicatrizes emocionais, sei bem disso. A pessoa que sofreu um abuso sexual, a que perdeu um ente querido, que foi vítima da violência na infância, que sofreu uma rejeição, foi abandonada, ou cometeu um erro pelo qual não se perdoa… São muitas possibilidades que geram uma sensação terrível, uma dor no peito que não raro vem acompanhada de um pensamento: “Não há nada que eu possa fazer para mudar isso.” Daí nasce uma tristeza ou apatia, que nos faz sentir fracos, sem poder. É a impotência.
Mas até que ponto somos impotentes perante o passado? De fato, não há como reverter o que já foi. A história está posta e só segue para frente. Tem coisas que absolutamente não podemos mudar. Mesmo assim, existe algo que podemos fazer. Nem sempre nos damos conta de que nossa psique é um universo de possibilidades. Podemos alterar a forma como encaramos as experiências e, a partir disso, construir novas experiências. Podemos ressignificar. Esse é um dos objetivos da psicoterapia, mas podemos realizá-lo até mesmo sozinhos (embora quando estamos muito fracos, receber ajuda se torne essencial). Requer esforço, treinamento, mas pode mudar nossas vidas, ainda que não mude o passado.
Diante daquilo que entrou para a casa do “sem jeito”, posso perguntar o que está nas minhas mãos fazer com o resultado. É como reciclar lixo. Olho aquilo que restou, que é tão feio, e me questiono como aproveitar. É preciso boas porções de criatividade, claro.
Um dos maiores exemplos neste campo foi o ator Christopher Reeve. Para quem não sabe, ele interpretou no cinema um dos mais famosos heróis dos quadrinhos: o Super-Homem. Era lindo e saudável, mas uma queda de cavalo o deixou tetraplégico. Isso poderia tê-lo destruído, e chegou perto, mas ele ressignificou. Usou sua fortuna e influência para liderar uma campanha a favor de pesquisas com células-tronco. Também fundou e dirigiu uma organização de estudos e cuidados paliativos relacionados a doenças que afetam o sistema nervoso central e o cérebro. Obviamente este é um exemplo extremo. Meu intuito é mostrar que mesmo diante do que não podemos mudar, é possível fazer algo que dê sentido à dor e à vida. Cada um com suas condições, naturalmente. Por isso, quando você achar que não pode fazer nada, reflita um pouco mais. Peça ajuda. Mas não desista. Há sempre um caminho a seguir.

 

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Jovem demais para morrer

Ontem uma amiga minha se foi.  Ela tinha a minha idade e um filho novinho, ainda. Meu coração ficou em choque. Nunca esperamos a morte de alguém ainda jovem, com cara de saúde, equilibrada, como era ela. Mas é assim que funciona.

Não sabemos até quando estaremos por aqui, mas sem dúvida estamos só de passagem. Para alguns a viagem é maior, para outros é menor. Mas nunca é para sempre.

Tem gente que vive como se não fosse morrer nunca. Deixa tudo para depois, coleciona ressentimentos, esconde declarações de amor, guardando tudo para um dia no futuro. E esse dia pode não chegar…

Tem gente que não vê a vida passar, tentando conquistar elementos para ser feliz, sem entender que a felicidade não surge dos bens que colecionamos, mas do bem que espalhamos.

Acho que devíamos viver cada dia como se fosse o último. Um último dia tem que ser lindo, pelo menos por dentro, tem que ser cheio de amor. Para mim este é um grande projeto: me preparar para chegar ao meu “fim” com paz no coração. Consciência tranquila. Amores conectados. Desamores superados. Felicidade sentida na alma.

Um último dia tem que ser bom, e como não sabemos quando será, vale o esforço para que todos os dias sejam bons. Claro que não podemos mudar o mundo para ajustá-lo à nossa perspectiva do que é bom. Contudo, podemos abraçar o desafio de olhar o mundo com muito mais bondade.

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Por que continuar vivo?

Por Caroline Treigher em Comportamento, Psicologia

13 de Maio de 2018

Acredito que todo mundo, cedo ou tarde, tem pelo menos um dia de desespero. E no desespero pensa em morrer. Às vezes por um raio, uma morte súbita, qualquer evento que o retire do mundo como nos videogames; às vezes pelas próprias mãos. Desejar estar morto é bem mais comum do

Toda dor tem um pico, no qual não se permanece eternamente. É uma lei natural: tudo passa.

que se publica nas redes sociais.

Então, quando alguém se mata, seria bom pensar que poderia ser qualquer um de nós, num momento de desespero. Ao contrário do que se pensa, as pessoas que se matam nem sempre estão em depressão. O suicídio acontece num impulso, naquele breve momento em que a angústia parece intolerável. Eu, ou você que me lê, podemos passar por isso. Não estamos imunes. E se encaramos essa possibilidade, nos protegemos melhor. Nos munimos com uma espécie de “medidas de emergência”, para serem usadas no dia em que bater o desespero.

A primeira coisa a se fazer é pensar no que realmente se quer, quando surge o desejo de morte. Acredito que seja alívio. Mas, será que o suicídio trará alívio? Bem, independentemente de você acreditar ou não em vida após a morte, uma coisa que os tanatólogos[1] falam é que existe a boa morte. A boa morte é a morte aliviada. Aquela em que o homem está emocionalmente confortado. Para chegar à boa morte, não pode haver desespero. Se você morre cheio de culpa, raiva, angústia, a única coisa que não sentirá será alívio. Porque alívio se sente depois que se atravessa uma situação difícil, e, bem, a única chance de sentir o procurado alívio, no caso do suicídio, é se houver um depois, se a vida continuar noutra dimensão, como afirmam os espiritualistas.

Porém, na hipótese de haver uma vida além da morte, ela não será no corpo que acabou de morrer. Será uma vida da alma, e a alma é pura emoção. Bom, onde estava a angústia? Na alma. Significa que, se você se mata e continua vivo do lado de lá, vai viver com a angústia que o levou ao suicídio. Acho que não é uma boa opção, porque alívio, você não sentirá.

De qualquer maneira, ao que tudo indica, matar a si mesmo não traz o que se deseja com o gesto. O melhor é continuar aqui. Puxa, mas e o desespero? Ele pode ser tão grande, que até o alívio se torna dispensável. Isso acontece quando esquecemos que tudo passa. Acredite, toda dor tem um pico, no qual não se permanece eternamente. Por uma questão de lógica, aceite que ela vai, pelo menos, diminuir. É uma lei natural: tudo se transforma. Mas, se você quer fazer algo além de esperar passar, tente ressignificar. Você muda a sua maneira de encarar os fatos. Isso pode ser feito olhando para a angústia e se perguntando: como posso me tornar mais maduro a partir de tudo isso? Sei que não é uma pergunta fácil de responder. Mas sempre é possível ressignificar, mesmo as maiores tragédias. A mãe do Cazuza fez isso, a irmã do Aírton Senna, a Glória Perez, e muitos outros exemplos.

Enfim, acho que é por aí. Espero que você continue vivo ainda por muitos anos, e sem desespero, mas se o desespero acontecer, lembre-se: isso passará. E se acreditar nisso, você ainda viverá muitas alegrias!

[1] Tanatologia: vertente do conhecimento que estuda a morte e o morrer.

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Por que continuar vivo?

Por Caroline Treigher em Comportamento, Psicologia

13 de Maio de 2018

Acredito que todo mundo, cedo ou tarde, tem pelo menos um dia de desespero. E no desespero pensa em morrer. Às vezes por um raio, uma morte súbita, qualquer evento que o retire do mundo como nos videogames; às vezes pelas próprias mãos. Desejar estar morto é bem mais comum do

Toda dor tem um pico, no qual não se permanece eternamente. É uma lei natural: tudo passa.

que se publica nas redes sociais.

Então, quando alguém se mata, seria bom pensar que poderia ser qualquer um de nós, num momento de desespero. Ao contrário do que se pensa, as pessoas que se matam nem sempre estão em depressão. O suicídio acontece num impulso, naquele breve momento em que a angústia parece intolerável. Eu, ou você que me lê, podemos passar por isso. Não estamos imunes. E se encaramos essa possibilidade, nos protegemos melhor. Nos munimos com uma espécie de “medidas de emergência”, para serem usadas no dia em que bater o desespero.

A primeira coisa a se fazer é pensar no que realmente se quer, quando surge o desejo de morte. Acredito que seja alívio. Mas, será que o suicídio trará alívio? Bem, independentemente de você acreditar ou não em vida após a morte, uma coisa que os tanatólogos[1] falam é que existe a boa morte. A boa morte é a morte aliviada. Aquela em que o homem está emocionalmente confortado. Para chegar à boa morte, não pode haver desespero. Se você morre cheio de culpa, raiva, angústia, a única coisa que não sentirá será alívio. Porque alívio se sente depois que se atravessa uma situação difícil, e, bem, a única chance de sentir o procurado alívio, no caso do suicídio, é se houver um depois, se a vida continuar noutra dimensão, como afirmam os espiritualistas.

Porém, na hipótese de haver uma vida além da morte, ela não será no corpo que acabou de morrer. Será uma vida da alma, e a alma é pura emoção. Bom, onde estava a angústia? Na alma. Significa que, se você se mata e continua vivo do lado de lá, vai viver com a angústia que o levou ao suicídio. Acho que não é uma boa opção, porque alívio, você não sentirá.

De qualquer maneira, ao que tudo indica, matar a si mesmo não traz o que se deseja com o gesto. O melhor é continuar aqui. Puxa, mas e o desespero? Ele pode ser tão grande, que até o alívio se torna dispensável. Isso acontece quando esquecemos que tudo passa. Acredite, toda dor tem um pico, no qual não se permanece eternamente. Por uma questão de lógica, aceite que ela vai, pelo menos, diminuir. É uma lei natural: tudo se transforma. Mas, se você quer fazer algo além de esperar passar, tente ressignificar. Você muda a sua maneira de encarar os fatos. Isso pode ser feito olhando para a angústia e se perguntando: como posso me tornar mais maduro a partir de tudo isso? Sei que não é uma pergunta fácil de responder. Mas sempre é possível ressignificar, mesmo as maiores tragédias. A mãe do Cazuza fez isso, a irmã do Aírton Senna, a Glória Perez, e muitos outros exemplos.

Enfim, acho que é por aí. Espero que você continue vivo ainda por muitos anos, e sem desespero, mas se o desespero acontecer, lembre-se: isso passará. E se acreditar nisso, você ainda viverá muitas alegrias!

[1] Tanatologia: vertente do conhecimento que estuda a morte e o morrer.