Ouvi Dizer - Frases e efeitos
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Ouvi Dizer

por Michele Boroh

Mandamento único

Por Michele Boroh em Crônica

16 de fevereiro de 2017

Como tentei explicar por aqui há pouco mais de 3 anos, leio para poder conhecer o que não terei tempo de viver. Acrescento hoje que também leio porque ora a realidade é insuficiente, ora é demasiada, e porque, sobretudo, é o livro que escolhe que eu o leia. Às vezes me dou conta disso logo na primeira página, em outras, só no final. Mas é sempre a mesma coisa: eu acabo lendo o que deveria ler naquele exato momento.

Vem sendo assim durante muitos anos, foi assim no primeiro mês deste. Comecei com “A máquina de fazer espanhóis”, de Valter Hugo Mãe. Um bonito soco no estômago sobre a velhice e a morte. O nosso luto e a ousadia do mundo. Como ousa amanhecer, o passarinho cantar, a padaria abrir, a menina sorrir, a vida pros-se-guir como se nada tivesse acontecido enquanto eu estou aqui, vestindo só o meu luto?! Pesado, sufocante, uma armadura de aço que impossibilita qualquer movimento das pernas, dos braços, dos pulmões… Só o coração desesperado e a pálpebra que cede encharcada.

Terminei o livro três dias antes de minha avó Ignez encerrar a história dela nesse mundinho ousado. Pequena, cheirosa, disposta, dedicada, risonha. Aquele arroz que ninguém nunca fez igual. Nem vai fazer. A paciência, a resiliência, a resistência. Tudo estava bom o tempo todo, mesmo que tudo fosse quase nada…

Como esse mundo ousa não fazer sequer um momento de silêncio… Melhor: como esse mundo ousa não aplaudir em pé, mesmo que por alguns segundos, essa mulher que foi incrível para esse mesmo mundo?! Esposa, mãe, avó, bisavó. Como ousas? Como ousam? Eu faço, vó! Mesmo com essa armadura estúpida, eu faço! Eu, suas filhas, seus netos, seu bisneto e algumas outras pessoas que tiveram a imensa sorte de te conhecer de perto.

Dias depois, com menos peças daquela armadura, o coração mais compassado e olhos menos embaçados, girando com aquela tal ousadia, peguei o segundo livro do ano. “Vida e proezas de Aléxis Zorbás”, de Nikos Kazantzákis. Vida e proezas e uma luta benigna e bonita entre os dois protagonistas símbolos dos dois extremos da natureza humana: o apático e o hedonista. Lá pelo meio, uma alegoria que resumia toda a trama: vive melhor e mais sabiamente quem vive como se fosse eterno ou quem vive como se fosse morrer amanhã? Por um e por outro, uma ode à vida.

À vida da minha avó Ignez! Que resumia Valter, Nikos e toda a sã ou vã filosofia do viver em uma única frase, daquelas que ela certamente herdou de sua própria mãe e que passou para a minha e que eu já reproduzo com o sobrinho e estenderei para meus próprios filhos. Aquela frase que substitui qualquer literatura, ultrapassa qualquer lei e supera qualquer mandamento. Aquela frase que, sendo código de conduta universal, poderia direcionar as vidas e mudar o mundo.

Foi assim que você encontrou isso?!

Simples assim. Acima das individualidades dos gostos, caminhos, sonhos, planos e escolhas, um único dever simples: não deixar nada nem ninguém pior do que você encontrou.

Mandamento único:

NÃO DEIXARÁS NADA NEM NINGUÉM PIOR DO QUE ENCONTROU.

Como você não nos deixou, vó, apesar da saudade, da ausência. Até o último segundo, você só nos melhorou.

Por isso esse texto hoje, 16 de fevereiro de 2017, um mês da sua partida.

Para dizer que está tudo bem, mesmo que esse tudo esteja carente de você.

Para que muitos outros tenham a sorte de te conhecer.

Para agradecer à você e por você.

Para agradecer todos aqueles que passam por mim e me deixam melhor nos meus lutos e nas minhas lutas de todo dia: mãe, pai, irmã, Noah, Elaine, Letícia, Fernando, Maria, Luisa, Erica, Eveline, Isabella, Roberta, Lianna, Luiza, Alessandra, Igor, Leopoldina, Socorro, João…

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Breve biografia da lágrima

Por Michele Boroh em Crônica

11 de julho de 2016

Por dever e admiração tenho profundo respeito pelo saber científico, mas sem nunca permitir, como tão comum a tantos racionalistas-puristas, que isso feche a minha janela para o saber poético e místico. Pelo contrário! Quantas vezes deixo a verdade técnica de lado para admitir a verdade da poesia!

Como a que brota das crianças, por exemplo, especialmente das ainda bem pequenas, com o vocabulário em formação, mas de afirmações desconcertantemente bonitas e profundas e que vêm não-sabemos-de-onde!

E assim fez o Noah ontem, meu sobrinho-afilhado de apenas 3 anos, ao surgir do corredor onde guardamos alguns artigos de despensa. Sem qualquer contexto prévio, ele interrompeu nossa conversa na sala para dizer – com toda a segurança de quem realmente sabe – que:

Os cocos são feitos de lágrimas!

Silêncio-para-digerir. Logo depois, claro, tentei arrancar mais algumas informações e entender completamente como as lágrimas vão parar dentro do coco. Nada. A cada pergunta ele só balançava a cabeça em negativa e repetia que os-cocos-são-feitos-de-lágrimas. Um perfeito poeta e provocador filosófico que só diz e deixa o trabalho de remoer e compreender para quem ouve. Se vira! E foi o que fiz.

Seriam mesmo as nossas lágrimas magicamente transportadas para dentro dos cocos? Mas então não haveria poucos coqueiros no mundo?! Neste em que vivemos a proporção de lágrimas derramadas e coqueiros existentes é absurdamente incompatível! E, como todos nós já saboreamos, até mesmo as lágrimas de felicidade são salgadas. Hipótese descartada.

Seriam então as lágrimas que derramamos sem que ninguém saiba ou veja? Teria o nosso travesseiro alguma conexão insuspeita com os coqueiros?! Pouco provável! E, como também bem sabemos, as lágrimas choradas em segredo são ainda mais salgadas que as primeiras. Hipótese descartada.

Seriam então as lágrimas que guardamos? Aquelas que seguramos enquanto o queixo treme e a garganta trava?! Não, definitivamente! Essas são demasiadamente amargas. Hipótese descartada.

Qual seria então a explicação?! Eu sei que o Noah está certo! Recuso a resposta do livro de ciências! Não posso e não vou desistir de compreender essa revelação que ele trouxe de um lugar (ainda) secreto! Mas qual é a opção que ainda resta?!

E então um clarão! É isso! É isso! Tão óbvio! Os cocos são feitos mesmo de lágrimas!

Aquelas que evitamos! Aquelas da dor e da tristeza que não causamos! É isso: a água do coco são as lágrimas que não provocamos no outro.

Por isso é doce.

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Do lado de dentro

Por Michele Boroh em Crônica

14 de junho de 2016

Terrorismo, extremismo religioso, porte de armas… Não pretendo aqui, pelo menos nesse momento, engrossar o coro das discussões tão necessárias e inadiáveis fustigadas pela barbárie de Orlando. A revolta ainda me embota o raciocínio humano e lógico. Calo para sossegar coração e mente. Por agora.

Venho para apontar, com a propriedade de quem é o L na ponta da sigla e sente na pele, desde a infância, algumas outras violências tão silenciosas que, também tragicamente, são tomadas como naturais até mesmo para muitos outros siglados. G, B, T, T…

Ataque de atirador em boate gay deixa 50 mortos em Orlando

Onde está a violência na frase? Ataque, atirador, mortos?

Sim. A violência que choca, revolta, comove.

Mas há outra, crudelíssima! Olha bem, repara! Para tantos – quase todos? – praticamente muda, invisível, imperceptível. Para mim? Um soco, um cuspe na cara, um tiro no peito… Diários e abafados.

Boate gay. Boate gay. Boate gay.

Como reverbera nos seus ouvidos? Nos meus, assim:

Segregação. Segregação. Segregação.

Boate gay, balada gay, rua gay…

Mantidos em armários, mesmo os saídos do armário!

Voluntariamente, por certo! Mas inconscientemente, por hábito. A força do hábito.

Qual? O de lutar pela própria integridade e sobrevivência.

Ainda precisamos de lugares só nossos e festas só nossas – ‘só’, obviamente, é uma força de expressão, já que os héteros são naturalmente recebidos aqui e ali – pois o mesmo não acontece do lado de lá.

Ou você acha que eu consigo segurar a mão da minha namorada num lugar “não gay” sem que um macho-incrível apareça para nos dizer que não fomos bem-comidas? Sem oferecer seus super-poderes-sexuais-de-salvação-universal? Ou que um casal de homens troque carinho ou gays mais afeminados consigam passar ilesos de agressões verbais ou físicas? Sem, no mínimo, malditas piadas?

A maioria de nós (ainda) abre mão todos os dias de frequentar lugares e eventos que gostamos e ansiamos por puro medo. De um maluco com fuzil? Não. De maldosos mesquinhos de línguas, olhares, dedos e pulsos ferinos. Almas feridas.

Nos segregamos voluntariamente, criamos nossa própria plaquinha de ‘Colored People’, na tentativa de desfrutar um refúgio que nos permita ser-exatamente-como-somos.

Uma violência, como admiti no princípio, que nos diminui mas que, pelo menos, não maltrata tanto e não mata.

Até que apareça um maluco com um fuzil e destrua até isso. Nós, no nosso cantinho.

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#VaiTerGoogle

Por Michele Boroh em Crônica

25 de abril de 2016

A Barsa era para poucos. Matar a coceira nas mãos e na cabeça era uma raridade, um fenômeno dependente de uma visita a alguém que ostentava aquele monstro mágico na estante. A consulta era ansiosa, com pressa, ciente de que nem a conversa mais longa seria suficiente. Então não havia pesquisa nem direção. Eu abria a esmo, como feito com um Minutos de Sabedoria. E não era exatamente isso?!

Mas o meu momento pleno de satisfação da curiosidade chegaria – como muitos outros desejos de infância que são realizados só na maturidade – com compensação! Uma colossal compensação que transformou a Barsa num Milionésimo de Segundo de Sabedoria: o Google.

Sim, eu sou A Louca do Google, uma confessa diária recorrente a esse Supremo Guia dos Curiosos. Como revitalizar o farol do carro; como tornar o botão do celular novamente maleável; como resolver o Cubo Mágico; aulas de Alemão; aulas de Esperanto; receitas fáceis para iniciantes; teoria musical para impacientes; clássicos online; como começar uma horta caseira; como passar da fase 182; dicionário; exercícios para perder barriga; Filosofia online e gratuita…

A lista é tão variada quanto extensa. Não há o que não seja possível encontrar, não há limite para o que é possível aprender. Do santo ao bestial, do casto ao esdrúxulo, do útil ao fútil, do trivial ao fundamental.

E o factual, indispensável e obrigatório.

Ficha de carreira do candidato; como funciona o Poder Executivo; como funciona o Poder Legislativo; como funciona o Poder Judiciário; como atua meu vereador; como atua nosso deputado; como atua nosso senador; o que é ser de esquerda; o que é ser de direita; Capitalismo; Socialismo; Comunismo; Anarquismo; aspectos positivos e negativos; capitalistas; comunistas; exemplos na prática; Presidencialismo; Parlamentarismo; Constituição; sistemas políticos mais eficazes do mundo; sistemas políticos mais corruptos do mundo; democracia; meritocracia; responsabilidade social; responsabilidade fiscal; distribuição de renda; aplicação de tributos; golpe; impeachment…

Uma lista tão básica que é até inocente, o prefácio indispensável para quem pretende colocar-se e defender posição. O dever de conhecer o preto, o branco e todas as nuances. O antídoto contra a falha e perigosa postura assumida por paixão ou preguiça. O primeiro passo para a justa questão coletiva que, muito além da individual, e-xi-ge a dedicação mais racional.

E tudo ali, à distância de um toque. Um toque para um povo que – tragicamente – lê menos de 2 livros por ano, mas que passa mais de 9 horas por dia na Internet. Então só falta equilibrar as buscas.

Como desentupir a pia e a cabeça; como eliminar pragas e dogmas; como; onde; por quê; quando; quem…

Como também faz meu amigo João Batista, 53, cinegrafista profissional e eletricista-bombeiro-mecânico-jardineiro-pedreiro ocasional, que apontou para o celular quando eu perguntei onde ele aprendia tudo aquilo: “Eu pesquiso tudo, tudo, tudo aqui!

Louco do Google! Sabedor de que não saber, hoje, como nunca antes na história deste mundo, é só uma questão de não querer.

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Não mudei nada

Por Michele Boroh em Crônica

09 de outubro de 2015

Acho que eu tinha uns 8, 9 anos. Até então ela estava acostumada ao meu silêncio como resposta às suas provocações. Eu ouvia fingindo que não ouvia, o que deveria servir como uma resposta ensurdecedora para alguém suficientemente inteligente, mas ela fazia questão de só usar o Teco. Precisei então, no refúgio quentinho da minha infância, encontrar um ímpeto adolescente e rebater com um frio, sonoro, lento e delicioso palavrão aquela frase que ela repetia obstinada e irritantemente, tentando disfarçar a intenção com um tom de brincadeira e parecer engraçada do alto da sua mais completa falta de talento para o humor.

Foi o seu último “Vá colocar um vestido, Michele!” Muda, assustada com a minha reação inesperada, ela até tentou pedir socorro com os olhos arregalados em direção a minha mãe, mas só conseguiu um seco e justo bem-feito! Eu, realizada e orgulhosa, recebi o costumeiro e carinhoso pode-ir e saí correndo em direção à rua onde eu vivia em plenitude e liberdade os meus dias de criança.

Eu e meu short jeans rasgado, minha camiseta, meu boné e meu tênis. Minha própria lata de bolinhas de gude, meu pião de corda, minha pipa que eu mesma fazia e meu carrinho de rolimã que eu mesma construía com os pedaços de madeira que encontrava e as peças que eu pessoalmente negociava no ferro-velho do bairro.

A Teco, obviamente, não conseguia entender como eu preferia aquilo tudo ao confortável prazer de passar horas sentada inventando tranças, pintando a boca com batom moranguinho ou treinando posições de estátua que não revelassem o que fica debaixo dos maravilhosos vestidos.

A Teco não conseguia compreender como alguém poderia não gostar daquelas coisas incríveis que ela tanto gostava. A Teco não conseguia ficar satisfeita em ver cumprido o seu roteiro de ideal de conduta nas próprias filhas e nas outras primas. Ela queria uma doutrinação generalizada.

Não funcionou. Não funciona.

Mas resolvi escrever hoje, 20 anos depois, para dizer a Teco que em um ponto eu estou em total acordo com ela:

Dentro da camiseta básica, da calça jeans rasgada e do tênis batido vive uma Michele que não conhece quase nada tão bonito quanto uma mulher de vestido.

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Eu não valho nada

Por Michele Boroh em Crônica

18 de junho de 2015

Eu queria saber se ele aceitava ser um dos personagens de uma série de matérias com grandes figuras da nossa cidade. Seria uma conversa informal sobre como sua trajetória e empreendimentos foram incorporados ao patrimônio cultural, social e afetivo da região. Agradeceu, lisonjeado, mas condicionou sua resposta a uma única questão: ‘Quanto eu vou ter que pagar por isso?

Sorri, habituada – mas nunca conformada – com a pergunta. “Se a matéria é ‘elogiosa’, certamente me trará benefícios e, se trará benefícios, certamente tem um custo” é a conclusão comum entre diversos convidados. A minha resposta também é sempre a mesma: obviamente haverá um custo! O tempo que você vai reservar para a nossa equipe. Solamente.

Para uma jornalista por vocação é triste ter que conviver com essa interpretação da profissão, mas é compreensível. É só mais uma face do monstro monetizador da vida. Anda valendo para (quase) tudo.

Ninguém consegue me convencer, por exemplo – e nunca conseguirá, aviso! – de que existe muita dignidade em promover uma infinidade (crescente) de chás em causa própria. Chá de casa nova, chá de fralda, chá de lingerie. Chá de lin-ge-rie! Cadê os promotores do Chá de Semancol?! Acode!

Socorre também os principais convidados de uma casamento, aqueles que têm maior ligação com o casal e que – misericórdia máxima! – por isso mesmo, serão os responsáveis pelos mais caros presentes. Pobres padrinhos! Quem tentará defender essa indefensável precificação do afeto?!

Mais: quem ousará justificar a injustificável monetização do sofrimento?! Tristeza com cifras, haja piedade! Como alguém escolhe, por exemplo, manter-se infeliz por anos num emprego apenas pela expectativa de uma rescisão?!

Os exemplos, infelizmente, são diversos. Escolhi somente três – além daquele que faz parte da rotina da minha função – para ser sucinta, mas levando em conta também a força com que estão entranhados na rotina de todos. Tão entranhados que são tidos como naturais.

A mesma naturalidade com que alguns já questionaram o quanto eu recebo por escrever aqui no Tribuna e por manter o meu blog de literatura. Respondo, naturalmente, que obviamente há ganhos. Compartilhamentos, elogios carinhosos e críticas construtivas no Tribuna. Interações, troca de experiências literárias e o incentivo à leitura no Melhor de Duas. Solamente.

Mantenho os dois por vocação e paixão. Pura realização pessoal! Não recebo nada, nunca ganhei qualquer centavo! Quando o assunto é a minha felicidade e tudo o que pode me fazer bem, eu não valho nada.

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Clichê de bônus

Por Michele Boroh em Conto

29 de maio de 2015

O apresentador, relendo as perguntas previamente combinadas, preparava o ego e o estômago para mais uma sessão de ignorância fingida e intencional – o ônus necessário da função – a fim de antecipar e apoiar a ignorância da audiência sobre a pauta do dia.

Começou com o clichê – tão fundamental para o saber quanto a simulação de desconhecimento de um entrevistador, tão injustamente diminuído e desqualificado na sua importância, tão usado como sinônimo de demérito, como se um ‘mas isso é tão clichê!’ anulasse o seu verdadeiro valor quando, na verdade, deveria provocar exatamente o sentimento oposto pois, se virou clichê é porque é, definitivamente, e-le-men-tar, caros e caras!

Pensava nisso pela milésima vez, enquanto empurrava a pergunta clichezada boca afora:

– Qual foi a sua inspiração?

Orgulhosa desde o convite e com a vaidade renovada pela caprichada apresentação de abertura – Ela é jovem, bonita, herdeira de uma das famílias mais ricas da região e ainda encontra tempo para desenvolver um projeto social em Fortaleza! E é para falar sobre esse lindo trabalho que ela está aqui! Com vocês… – a Magnânima não titubeou na resposta:

A pobreza da Índia me tocou profundamente!

O apresentador precisou segurar o queixo, a gargalhada e todas as possíveis reações do corpo e do espírito em mais uma demonstração de domínio exemplar deste também outro ônus da profissão. Em contraste, a Magnânima sentiu-se autorizada a jorrar o verbo e contou tudo, tudinho, sobre aquela sua aventura exótica oriental.

– Eu fui a procura de uma experiência transcendental, reveladora – e dá-lhe verbo… – a energia daquele lugar é inexplicável, enebriante, de uma potência estratosférica – e corre o verbo… – acabei comprando uma propriedade na Indonésia, que é logo ali ao lado, aprendi um dialeto local suuuper difícil, acabei convidando também o meu marido, que tem negócios na Ásia, a passar uns dias comigo por lá, acho importante essa convivência – e haja verbo!… – e no meio disso tudo eu fiquei muito chocada com a miséria daquele povo, as crianças pedintes nos abordando na saída do hotel, você acredita?! Um absurdo! A pobreza da Índia foi a minha inspiração!

Salvo pelo bip do cronômetro acusando que o tempo da entrevista fora totalmente consumido pela verborragia da mais recente Mahatma, ele evitou a própria demissão – mas também uma possível glória pessoal – ao ter que relegar para a própria consciência uma das perguntas reformuladas durante o monólogo da convidada.

– Vossa Santíssima já ouviu falar, por um acasinho, em Rosalina, Pau Finim, Papouco?

Só poderia torcer agora – balbuciando até um mantra! – que a audiência também formulasse aquela mesma pergunta que ele tão sofregamente foi obrigado a abandonar no cosmos.

Seria um bônus!

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50 tons de avassaladoras avelãs

Por Michele Boroh em Crônica

03 de março de 2015

Consegui, depois de tentar muitíssimo, encontrar um (mínimo) ponto positivo em ’50 tons de cinza’. Infelizmente, por ser mínimo, é sutil e, por isso, pode passar despercebido pela grande maioria. A maioria masculina, especialmente.

A maioria que defende que sendo-bonito-e-rico-é-fácil. O Ogro Líder iria além: basta ser rico! E eles têm razão, claro. Desde que não estejam se referindo à maioria feminina. A maioria mais atenta ao sutil. Sutilezas com gelo, elogio, surpresas, suspiros… Entendedores entenderão.

Entenderão que, antes de tudo, esses são os verdadeiros motivos do alvoroço feminino em relação ao Mr. Grey. As sutilezas além das braçadeiras, do charme e da conta bancária. Apesar dos pesados pesares, Mr. Grey tem seus prós. A pedrinha de gelo audaciosa, o elogio carinhoso, as mínimas e as grandes surpresas, os suspiros… Ele é pró em deixar uma Anastasia anestesiada. Entendedores entenderão.

Mas o Ogro Líder ainda vai teimar: fazer-surpresa-com-carro-zero-é-fácil. E ele continua com a razão, desde que também não continue se referindo à maioria feminina. A maioria, caro Shrek, trocaria uma Ferrari por constantes sessões atrevidinhas de pedrinhas de gelo. Ou por muito ‘menos’. Pode ser até um potinho de avelã. Basta colorir com alguns tons de sutileza. Uma arte que meu Mr. Pai domina.

E foi pelo seu mais recente exemplo que eu resolvi chegar até aqui.

Depois de levar uma mini-bronca da minha Mãe por ter ‘sumido’ durante 5 minutos no supermercado, ele justificou: “Eu estava procurando avelãs!” Justifica? Justifica! Principalmente por não se tratar de uma justificativa, mas de uma lindíssima e inesperada declaração de amor. Explico.

Na semana anterior, enquanto assistiam juntos a um desses 587 programas culinário na TV, ela comentou despretensiosamente – entre tantos outros comentários despretensiosos – que tinha ficado com vontade de fazer e experimentar um daqueles pratos do dia: arroz com… avelãs!

Nem ela lembrava do que havia dito naquele dia! Mas ele, uma semana depois, lembrou. E procurou. E comprou.

Ouvi tudo isso através do relato apaixonado e orgulhoso de minha Mãe! Parecia uma adolescente nas primeiras descobertas do amor, mesmo depois de 3 décadas ao lado de Mr. Pai.

3 décadas de casamento e um homem ainda atento a todos os tons de sua companheira. Tons da voz, dos gestos, dos olhares e dos mínimos detalhes.

Uma prova de que apesar de um rostinho bonito e muito dinheiro até exercerem algum poder sedutor, eles nunca serão páreo para avassaladoras avelãs.

Desde que a gente esteja falando de homens realmente sensíveis e de mulheres verdadeiramente interessantes. Óbvio.

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Teta peluda

Por Michele Boroh em Crônica, Frases

23 de fevereiro de 2015

– Teta peluda! Teta peluda! Teta peluda!

Aos 6 anos de idade, era isso o que eu cantava pela janela da Kombi do transporte escolar. Eu, meu irmão e o Jaime. Os únicos ocupantes do fundão da Kombi. As únicas crianças sem restrições bobas e inúteis do tipo não-sente-no-fundão, não-fale-palavrão ou não-quero-você-perto-do-Jaime. Pois é, eu e meu irmão éramos as únicas companhias do Jaime. Nunca esqueci disso! Mas só fui entender alguns detalhes muito mais tarde, numa daquelas rodas de família em que a gente revive os casos da infância.

Minha mãe contou que começou a receber reclamações sobre o conteúdo da nossa cantoria na janela da Kombi. Claro que, assim como na época, eu não entendi onde estava a gravidade em cantarolar um inocente teta-peluda. Ela explicou: teta peluda era, na verdade, só a nossa maneira infantil de pronunciar uma outra palavrinha que rimava com teta. O.k.! Compreendi! Mas ainda não conseguia entender o motivo de sermos as únicas companhias do Jaime. Ela explicou também: as outras mães proibiam porque ele era o Professor dos Palavrões, mas essa era só uma desculpa. O real motivo da censura era o uniforme da APAE que o Jaime usava. Ele era uma criança especial.

Eu não lembro desse uniforme. Acredito que crianças dessa idade, por conta própria, nem reparem nisso. Também não lembro de qualquer característica fora do comum no Jaime, mas devo concordar que ele devia ser realmente especial. Ele era a criança mais espontânea  e divertida daquela Kombi! Ele foi tão especial que é a minha memória mais viva daqueles dias na Kombi! Aliás, ele é a minha única memória viva daqueles dias na Kombi! Lembro da diversão, do nome, dos cabelos pretos e encaracolados e do corpo levemente gordinho do Jaime. Obrigada, Jaime! Obrigada, minha mãe!

Isso tudo veio à tona na minha memória nesses últimos dias por causa de um garoto que acabou de chegar na vizinhança. Minha rua, sempre cheia de crianças e adolescentes no final do dia, anda ficando meio deserta. Basta o Novato pisar na calçada. 23 anos depois e eu continuo vendo a mesma cena! O ser humano é um bichinho que evolui (quando evolui!) a passos ridiculamente imperceptíveis.

Eu ainda não sei o nome do Novato, mas intimamente o batizei de Jaime Segundo, principalmente depois de observá-lo e concluir que ele também é realmente especial. Na ocasião, ele aproveitava a sua única companhia na calçada: um gato da rua. Com a voz firme e decidida, ele pedia que o gatinho ficasse quieto e não se arriscasse a atravessar a rua. Para convencer o gato do seu pedido, ele dizia sincera e repetidamente “Eu confio em você! Eu confio!

Sábio Jaime Segundo! Apesar das limitações, já conhece uma das principais verdades dessa vida: alguns bichos merecem mais confiança que outros.

Sábio Jaime Segundo, divertido Jaime Primeiro! Duas faces de uma outra triste verdade dessa vida: esse mundo precisa – urgentemente – de mais pessoas especiais e menos pessoas ordinárias, de mais almas superlativas e menos almas diminutas, de mais palavrão e menos gentinha.

– Teta peluda! Teta peluda! Teta peluda, eu confio em você! Eu confio!

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Filha de Buda

Por Michele Boroh em Conto

16 de janeiro de 2015

Nada nem ninguém parecia ser capaz de abalar aquele santo equilíbrio e seu puríssimo domínio sobre as emoções.

-Sou budista praticante… – dizia a Relax em reticência, certa de que o ouvinte saberia concluir sozinho a lista de qualidades resultantes de sua belíssima escolha.

-Adotei o budismo! – reforçava após pequena pausa concedida ao ouvinte para que ele absorvesse a maravilha daquela revelação e para que ela, percebendo a surpresa provocada, pudesse saborear, cheia de orgulho, tamanha admiração conquistada.

(Um orgulho banhado em humildade zen, obviamente!)

Era tão zen que irritava. Pois é. Bastava conviver três dias com a Relax para qualquer um – quiçá Dalai – perder a paciência com a figura. E o Bruto já estava nessa há três longos anos…

Vira e mexe, quente ou frio, suave ou grave, fosse qual fosse a situação, ouvia sempre a mesma reação da Relax:

Não vou me estressar! – e respirava fundo, relaxada.

E era precisamente essa a raiva do Bruto e de quem mais convivia com a Relax: não havia, de fato, criatura mais relaxada.

Pintou problema?! Relaxava. Não assumia, não encarava, não resolvia. Não fazia nada, absolutamente. O que ela vendia como poder de abstração era, na verdade, um talento puro para a abstenção. Era uma abstêmia das obrigações. Só queria saber do que não afligia.

-Qualquer dia dou uma bem dada nessa maldita Relaxada! – o Bruto prometia todo dia para os colegas da firma.

-Eu bem que ajudaria, mas com esse porte de santa… sobra a culpa toda pro nosso lado! – alertou o Precavido.

-Já vejo até a gente levando nome de bruto! – completou o Preocupado.

-Arrumo um jeito, arrumo! – prometeu o Bruto.

E cumpriu. Esperou o próximo não-vou-me-estressar – o slogan da preguiça disfarçado de mantra – e soltou:

-Relax! – chamou em voz alta, com propósito. Quando captou a atenção de todos, completou, simulando a raiva com ironia:

-Você é a pessoa mais re-la-xa-da que eu já conheci! – sorria, batendo uma palma breve, mas caprichada.

-Pôxa! Que bom, Bruto! Muito obrigada! – ficou tão cheia de si, tão humildemente orgulhosa.

-Você é, ouça bem… – apertou os olhos e alargou o sorriso com uma raiva exultante…

Ela esperava, alegre e ansiosa por mais reconhecimento. Ele concluiu:

-Você é uma ver-da-dei-ra filha de buda! UMA FILHA DE BUDA! – deu um tapa na mesa e sorriu gostosamente.

Os parceiros de trabalho acompanharam, igualmente realizados:

-Isso! UMA FILHA DE BUDA!

-FILHA DE BUDA! A MAIOR DE TODAS!

-SUA FILHA DE BUDA!

Ela, felicíssima, agradecia a todos! E todos, silenciosamente, agradeciam ao Bruto que, com uma única bem dada, jogou por terra o budismo da figura e o mutismo da moçada.

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Mandamento único

Por Michele Boroh em Crônica

16 de fevereiro de 2017

Como tentei explicar por aqui há pouco mais de 3 anos, leio para poder conhecer o que não terei tempo de viver. Acrescento hoje que também leio porque ora a realidade é insuficiente, ora é demasiada, e porque, sobretudo, é o livro que escolhe que eu o leia. Às vezes me dou conta disso logo na primeira página, em outras, só no final. Mas é sempre a mesma coisa: eu acabo lendo o que deveria ler naquele exato momento.

Vem sendo assim durante muitos anos, foi assim no primeiro mês deste. Comecei com “A máquina de fazer espanhóis”, de Valter Hugo Mãe. Um bonito soco no estômago sobre a velhice e a morte. O nosso luto e a ousadia do mundo. Como ousa amanhecer, o passarinho cantar, a padaria abrir, a menina sorrir, a vida pros-se-guir como se nada tivesse acontecido enquanto eu estou aqui, vestindo só o meu luto?! Pesado, sufocante, uma armadura de aço que impossibilita qualquer movimento das pernas, dos braços, dos pulmões… Só o coração desesperado e a pálpebra que cede encharcada.

Terminei o livro três dias antes de minha avó Ignez encerrar a história dela nesse mundinho ousado. Pequena, cheirosa, disposta, dedicada, risonha. Aquele arroz que ninguém nunca fez igual. Nem vai fazer. A paciência, a resiliência, a resistência. Tudo estava bom o tempo todo, mesmo que tudo fosse quase nada…

Como esse mundo ousa não fazer sequer um momento de silêncio… Melhor: como esse mundo ousa não aplaudir em pé, mesmo que por alguns segundos, essa mulher que foi incrível para esse mesmo mundo?! Esposa, mãe, avó, bisavó. Como ousas? Como ousam? Eu faço, vó! Mesmo com essa armadura estúpida, eu faço! Eu, suas filhas, seus netos, seu bisneto e algumas outras pessoas que tiveram a imensa sorte de te conhecer de perto.

Dias depois, com menos peças daquela armadura, o coração mais compassado e olhos menos embaçados, girando com aquela tal ousadia, peguei o segundo livro do ano. “Vida e proezas de Aléxis Zorbás”, de Nikos Kazantzákis. Vida e proezas e uma luta benigna e bonita entre os dois protagonistas símbolos dos dois extremos da natureza humana: o apático e o hedonista. Lá pelo meio, uma alegoria que resumia toda a trama: vive melhor e mais sabiamente quem vive como se fosse eterno ou quem vive como se fosse morrer amanhã? Por um e por outro, uma ode à vida.

À vida da minha avó Ignez! Que resumia Valter, Nikos e toda a sã ou vã filosofia do viver em uma única frase, daquelas que ela certamente herdou de sua própria mãe e que passou para a minha e que eu já reproduzo com o sobrinho e estenderei para meus próprios filhos. Aquela frase que substitui qualquer literatura, ultrapassa qualquer lei e supera qualquer mandamento. Aquela frase que, sendo código de conduta universal, poderia direcionar as vidas e mudar o mundo.

Foi assim que você encontrou isso?!

Simples assim. Acima das individualidades dos gostos, caminhos, sonhos, planos e escolhas, um único dever simples: não deixar nada nem ninguém pior do que você encontrou.

Mandamento único:

NÃO DEIXARÁS NADA NEM NINGUÉM PIOR DO QUE ENCONTROU.

Como você não nos deixou, vó, apesar da saudade, da ausência. Até o último segundo, você só nos melhorou.

Por isso esse texto hoje, 16 de fevereiro de 2017, um mês da sua partida.

Para dizer que está tudo bem, mesmo que esse tudo esteja carente de você.

Para que muitos outros tenham a sorte de te conhecer.

Para agradecer à você e por você.

Para agradecer todos aqueles que passam por mim e me deixam melhor nos meus lutos e nas minhas lutas de todo dia: mãe, pai, irmã, Noah, Elaine, Letícia, Fernando, Maria, Luisa, Erica, Eveline, Isabella, Roberta, Lianna, Luiza, Alessandra, Igor, Leopoldina, Socorro, João…