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MAR Jangadeiro

por Orlando Nunes

Quem odeia um ‘matador’ no futebol?

Por Orlando Nunes em Crônica

07 de dezembro de 2016

As palavras de ontem, como os jogadores de hoje, trocam a camisa o tempo todo (FOTO: Divulgação)

As palavras de ontem, como os jogadores de hoje, trocam a camisa o tempo todo (FOTO: Divulgação)

Há quem odeie (ou ao menos diga odiar) o termo ‘matador’ para designar o artilheiro, o goleador, o camisa 9 de uma equipe de futebol. Particularmente, não morro de amores por esse sentido (novo?) conferido à palavra, mas longe estou de ‘odiá-lo’.

O fato (legítimo) de alguém gostar ou não gostar de uma expressão linguística não altera em nada a regra do jogo.

As palavras de ontem, como os jogadores de hoje, trocam a camisa o tempo todo, isto é, ganham novas cores, novos sentidos. As línguas funcionam assim, e o gosto individual cede espaço ao gosto coletivo – as línguas são nesse aspecto absolutamente democráticas.

Toda língua tem uma espécie de “sistema interno de peneirada”: o vocábulo chega com seu novo sentido, aproxima-se da beira do gramado linguístico e fica rondando por ali como quem não quer nada até entrar em campo para ser apreciado na boca do povo. Alguns desses novos valores (semânticos) são aproveitados no grupo; outros, devolvidos à vida privada.

Mas, quando caem nas graças da multidão de usuários do idioma, não adianta xingar a mãe do juiz, porque ela é também a mãe de todos nós, a nossa língua-mãe – e “mãe são todas iguais, só muda o endereço”: Brasil, Portugal, Angola, Cabo Verde, etc. A massa manda, obedece quem tem juízo..

E não posso fazer nada contra o ‘matador’, a não ser, pessoalmente, tirá-lo do meu time, da minha equipe ou seleção vocabular. Mas, insisto, os outros (falantes do idioma) nada têm a ver com isso, vão continuar escalando seus ‘matadores’ amados na sua grande-área lexical, até que sejam substituídos por novos valores semânticos no decorrer do tempo.

No tempo do futebol romântico, um locutor de rádio espetacular (Waldir Amaral) enchia o peito e soltava a voz: “GOOOOOLLLLLLLLL do Flamengo. Nunes, camisa nove”. E concluía a narração do gol com um “Indivíduo competente o Nunes”.

Viraram o jogo no segundo tempo. Os ‘indivíduos competentes’ saíram de campo, agora ocupado por ‘matadores’. A bola não para.

Aqui no Ceará estão falando no retorno do Magno Alves. O Magnata não é propriamente um ‘matador’, mas é inegavelmente um ‘indivíduo competente’, como nos bons tempos.

O Fortaleza deve também trazer o seu goleador, seja um ‘indivíduo competente’, seja um ‘matador’ de peso, afinal insustentável mesmo é permanecer na série C. Essa sim uma expressãozinha, ao pé da letra, m.a.t.a.d.o.r.a.

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Esgotaram-se ou esgotou-se um milhão de ingressos?

Por Orlando Nunes em Concordância verbal

01 de dezembro de 2016

Duas frases novinhas do noticiário nacional para revermos uma velha questão: a concordância (verbal e nominal) com a palavra MILHÃO.

Concordância verbal

“Esgotaram-se, em menos de 24 horas, um milhão de ingressos para os cem shows do artista na Europa.”

Temos na frase acima um caso de verbo anteposto ao sujeito (verbo + sujeito). Na ordem direta (sujeito + verbo), escreveríamos “Um milhão de ingressos … esgotou-se ou esgotaram-se”.

Nessa segunda estrutura (ordem direta), portanto, há dupla possibilidade de concordância verbal. O verbo pode concordar com o núcleo do sujeito, no singular (um milhão esgotou-se), ou concordar com o termo especificador do núcleo do sujeito (um milhão de ingressos esgotaram-se), por atratividade (concordância do verbo com o termo mais próximo).

Entretanto, na primeira estrutura (verbo + sujeito), a concordância verbal deve ser feita com o núcleo do sujeito, quer na concordância lógica (gramatical), quer na concordância atrativa, pois o verbo agora está mais próximo do núcleo do sujeito do que de seu especificador.

Reescritura:

“Esgotou-se, em menos de 24 horas, um milhão de ingressos para os cem shows do artista na Europa.”

Concordância nominal

“Mais de duas milhões de pessoas assinaram o projeto de iniciativa popular.”

Milhão, já comentamos isso noutros posts, é vocábulo masculino. Assim, em vez de “duas milhões”, deveríamos ter na frase acima “dois milhões”. O desvio de concordância se dá em razão de o redator fazer concordar o numeral (duas) com o substantivo feminino “pessoas”. Contudo, “dois” é, nesse caso, determinante do vocábulo masculino “milhão”.

Reescritura:

“Mais de dois milhões de pessoas assinaram o projeto de iniciativa popular.”

Até!

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O Bruxo do Cosme Velho e a Vírgula

Por Orlando Nunes em Pontuação

29 de outubro de 2016

machado

(FOTO: Reprodução)

“Quem viesse pelo lado do mar, veria as costas do palácio, os jardins e os lagos…” Machado de Assis – Esaú e Jacó

Antes de mais nada, três breves considerações acerca da organização sintática do período acima:

1) Há nele dois verbos; trata-se, portanto, de um período composto formado por duas orações. A primeira: “Quem viesse pelo mar”. A segunda: “veria as costas do palácio, os jardins e os lagos”.
2) A primeira oração funciona sintaticamente como sujeito, um “sujeito oracional”. O predicado desse “sujeito oracional” é a segunda oração do período.
3) Não devemos empregar uma vírgula entre o sujeito e seu predicado.

Aqui a regra range

Se a primeira oração é o sujeito e a segunda é o predicado, por que o grande Machado não cortou a pequena vírgula entre elas?
a) O Machado estava meio cego
b) O Machado tropeçou na vírgula
c) Machado que se preza não corta vírgula
d) O Machado era mesmo de lascar
e) O Machado acertou na mosca

Gabarito oficial: “e”, de extraordinário.

Comentário

Nesse contexto, a vírgula é correta, embora opcional. O sujeito oracional iniciado por “QUEM” pode vir separado por vírgula de seu predicado. Escritores valem-se desse recurso para deixar mais clara a estrutura sintática do enunciado. Com uma vírgula, o Bruxo do Cosme Velho deixa evidente o conjunto de vocábulos representativo do sujeito. Sem a vírgula, uma leitura apressada, por exemplo, poderia levar a uma equivocada interpretação da frase.

Vejamos

* Abaixo, os colchetes são empregados para destacar o que foi tomado como “sujeito oracional”.

– A “visualização” correta do “sujeito oracional” conduz o leitor a uma rápida compreensão do enunciado:
[Quem viesse pelo lado do mar] veria as costas do palácio, os jardins e os lagos…”
– A “visualização” errada do “sujeito oracional” possibilita uma interpretação equivocada da frase:
[Quem viesse] pelo lado do mar veria as costas do palácio… ou seja, [Quem viesse] veria, pelo lado do mar, as costas do palácio…

A vírgula de Machado, nesse caso, contribui para a compreensão imediata do período.

Moral da história

Uma vírgula não separa o sujeito do predicado, a não ser quando ela, à Machado, abre caminho para a melhor leitura.

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Sujeito a alteração não tem crase?

Por Orlando Nunes em Crase

04 de outubro de 2016

A frase está correta (FOTO: Divulgação)

A frase está correta (FOTO: Divulgação)

Na frase “Sujeito a alteração sem aviso prévio” não está faltando uma crase? Pergunta de Júlia M., Dionísio Torres, Fortaleza (CE).

Resposta

A frase está correta, nela não há a ocorrência de crase, que é a fusão de duas vogais idênticas. Esse A de “sujeito a” é apenas uma preposição. Para que ocorresse crase, seria necessária, além da preposição A, a presença de um artigo feminino A.

A ausência de artigo fica evidente na substituição do substantivo feminino “alteração” por um substantivo masculino (“ajuste”, por exemplo). Observe: “Sujeito a ajuste sem aviso prévio”. Se houvesse um artigo antes da palavra “ajuste”, teríamos: “Sujeito ao ajuste sem aviso prévio”. Não é o caso.

Frases corretas: “Sujeito a alteração sem aviso prévio” / “Sujeito a ajuste sem aviso prévio”.

Até!

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Como você pronuncia a palavra subsídio?

Por Orlando Nunes em Fonologia

09 de julho de 2016

balaoA gramática tradicional recomenda a pronúncia /subcídio/, afinal a letra “S” depois de uma consoante mantém “seu som” forte, /S/ e não /Z/.

Assim, a sílaba “sí” de subsídio é pronunciada como o “sí” da palavra sílaba.

Contudo, o cordão dos que puxam a pronúncia /subzídio/ cada vez aumenta mais. Sabe o que isso significa ao pé da letra? Mais cedo ou mais tarde, o /subcídio/ perde o lugar.

Obs.: as barras acima sugerem a pronúncia, não a grafia correta do vocábulo, é claro.

Em outras palavras

“S” depois de consoante não tem, normalmente, som de “Z”: absurdo, imprensa, obsoleto, subsolo, subsíndico, subsídio, etc. Mas língua em forma foge à fôrma, e na palavra “obséquio” e nos vocábulos formados com o elemento “trans-”, excepcionalmente, o “S” tem som de “Z”: transação, transatlântico, trânsito.

Detalhe: se depois de “trans-” a palavra começar com a letra “S”, tudo volta ao princípio geral e o som /Z/ cede lugar ao /S/: Trans + Secular = transecular.

Até

 

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Augusta Casa de Irene

Por Orlando Nunes em Concordância verbal

28 de junho de 2016

(FOTO: Divulgação)

(FOTO: Divulgação)

“Cabe a cada um dos deputados desta augusta Casa certas obrigações inerentes ao escorreito desempenho da atividade parlamentar”.

Há um erro no período acima, identificado em uma das alternativas abaixo.

É CORRETO afirmar que…

(A) a Casa não é de Augusta, e sim de Irene;

(B) “obrigações” é vocábulo aplicável ao eleitor, pois deputados só têm “direitos”;

(C) “inerentes” é a negativa prefixal da política parassintética de empregar “parentes”;

(D) “escorreito” é escorrego ou desvio de conduta de um prefeito, não de deputado;

(E) há um erro de concordância verbal no período, o resto é blá-blá-blá.

GABARITO: E (se você errou essa, cabe recurso, ou seja, retorno ao cursinho).

Comentário: Sem “rapapés”, o que se quis dizer, simplesmente, foi isto: “Certas obrigações CABEM (e não “cabe”, como está escrito no período destacado) a cada um dos deputados…”.

Reescritura: “Cabem a cada um dos deputados desta augusta Casa certas obrigações inerentes ao escorreito desempenho da atividade parlamentar.”

Até!

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Lava Jato: a preposição roubada

Por Orlando Nunes em Dica

20 de junho de 2016

operacao lava jato“Força-tarefa da Lava Jato quer multa de R$ 6 bi da Odebrecht”

SUBSTANTIVO COMPOSTO
Quando um substantivo se encontra com outro substantivo, dá pau, e só um hífen para separar a briga feia: força-tarefa, um substantivo composto,

PREPOSIÇÃO ROUBADA
Já a Operação Lava Jato, que está dando um banho, seria mais enxuta como Operação Lava a Jato” (algo é lavado a jatos d’água, afinal).

Na fala, contudo, “lava a jato” vira naturalmente /“lavajato”/. A força da fala, superior à da escrita, cunhou (sem trocadilho) Lava Jato.

Em todo caso, a operação da Polícia Federal é um sucesso, é Lava Jato e ninguém mexe. Que nenhum “delator premiado” me acuse de tentar barrar a dita cuja. Eu sou apenas um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior.

Até!

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A pronúncia do têm

Por Orlando Nunes em Concordância verbal

10 de junho de 2016

(FOTO: Flickr/Creative Commons/Pedro Ribeiro Simões)

(FOTO: Flickr/Creative Commons/Pedro Ribeiro Simões)

Na escrita, a terceira pessoa do plural do presente do indicativo do verbo TER é assinalada com um acento circunflexo: Ele/Ela TEM um plano; Eles/Elas TÊM um plano.

Esse acento diferencial de plural NADA tem a ver com a pronúncia ou FALA.

Assim, FALAMOS (pronúncia) /Eles ou Elas TEM um plano/, e não /… TEEM um plano /.

Até!

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Português para extraterrestres

Por Orlando Nunes em Concordância verbal

25 de abril de 2016

(FOTO: Divulgação)

(FOTO: Divulgação)

“Depois da aparição de objetos voadores não identificados (OVNIs), fatos estranhos começaram a haver na misteriosa cidadezinha do sertão cearense.”

Em relação ao fragmento de texto acima, é correto afirmar:

(A) Está adequado à norma culta da língua portuguesa

(B) Há um erro de regência verbal

(C) Há um erro de concordância nominal

(D) Há um erro de regência nominal

(E) Há um erro de concordância verbal

GABARITO: E

COMENTÁRIO: O verbo “haver”, quando sinônimo de “existir”, “ocorrer” ou “acontecer”, é impessoal (sem sujeito), não é flexionado no plural. Ex.: “Houve (e não *houveram) fatos estranhos”. Há um erro de concordância verbal na frase analisada. O verbo auxiliar da locução verbal não deve ser flexionado no plural. Em vez de “começaram a haver”, o correto seria “começou a haver”, pois o verbo principal da locução (haver) sendo impessoal “transmite” sua impessoalidade ao verbo auxiliar (começou). Na frase, “fatos estranhos” é o objeto direto, e não sujeito (começou a haver fatos estranhos). A inversão dos termos (OD + Verbo) dificulta a análise sintática, e “fatos estranhos” parece ser o sujeito, MAS NÃO É!

Reescritura:

“Depois da aparição de objetos voadores não identificados (OVNIs), fatos estranhos começou a haver na misteriosa cidadezinha do sertão cearense.”

Até!

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Os dois milhões de pessoas

Por Orlando Nunes em Concordância verbal, Sem categoria

10 de março de 2016

Manual de Apoio à Redação – MAR Jangadeiro

“Das 2,4 milhões de pessoas convidadas pelo Facebook, 234 mil já confirmaram presença.”

Milhão, vocábulo de gênero masculino, deve vir determinado por artigo (ou outro determinante) também masculino: “os dois milhões de pessoas”, “estes dois milhões de pessoas”, “todos os dois milhões de pessoas”, e não “*as duas milhões de pessoas”, “*estas duas milhões de pessoas”, “*todas as duas milhões de pessoas”.

Ajuste

Dos 2,4 milhões de pessoas convidadas pelo Facebook, 234 mil já confirmaram presença.”

Até!

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Quem odeia um ‘matador’ no futebol?

Por Orlando Nunes em Crônica

07 de dezembro de 2016

As palavras de ontem, como os jogadores de hoje, trocam a camisa o tempo todo (FOTO: Divulgação)

As palavras de ontem, como os jogadores de hoje, trocam a camisa o tempo todo (FOTO: Divulgação)

Há quem odeie (ou ao menos diga odiar) o termo ‘matador’ para designar o artilheiro, o goleador, o camisa 9 de uma equipe de futebol. Particularmente, não morro de amores por esse sentido (novo?) conferido à palavra, mas longe estou de ‘odiá-lo’.

O fato (legítimo) de alguém gostar ou não gostar de uma expressão linguística não altera em nada a regra do jogo.

As palavras de ontem, como os jogadores de hoje, trocam a camisa o tempo todo, isto é, ganham novas cores, novos sentidos. As línguas funcionam assim, e o gosto individual cede espaço ao gosto coletivo – as línguas são nesse aspecto absolutamente democráticas.

Toda língua tem uma espécie de “sistema interno de peneirada”: o vocábulo chega com seu novo sentido, aproxima-se da beira do gramado linguístico e fica rondando por ali como quem não quer nada até entrar em campo para ser apreciado na boca do povo. Alguns desses novos valores (semânticos) são aproveitados no grupo; outros, devolvidos à vida privada.

Mas, quando caem nas graças da multidão de usuários do idioma, não adianta xingar a mãe do juiz, porque ela é também a mãe de todos nós, a nossa língua-mãe – e “mãe são todas iguais, só muda o endereço”: Brasil, Portugal, Angola, Cabo Verde, etc. A massa manda, obedece quem tem juízo..

E não posso fazer nada contra o ‘matador’, a não ser, pessoalmente, tirá-lo do meu time, da minha equipe ou seleção vocabular. Mas, insisto, os outros (falantes do idioma) nada têm a ver com isso, vão continuar escalando seus ‘matadores’ amados na sua grande-área lexical, até que sejam substituídos por novos valores semânticos no decorrer do tempo.

No tempo do futebol romântico, um locutor de rádio espetacular (Waldir Amaral) enchia o peito e soltava a voz: “GOOOOOLLLLLLLLL do Flamengo. Nunes, camisa nove”. E concluía a narração do gol com um “Indivíduo competente o Nunes”.

Viraram o jogo no segundo tempo. Os ‘indivíduos competentes’ saíram de campo, agora ocupado por ‘matadores’. A bola não para.

Aqui no Ceará estão falando no retorno do Magno Alves. O Magnata não é propriamente um ‘matador’, mas é inegavelmente um ‘indivíduo competente’, como nos bons tempos.

O Fortaleza deve também trazer o seu goleador, seja um ‘indivíduo competente’, seja um ‘matador’ de peso, afinal insustentável mesmo é permanecer na série C. Essa sim uma expressãozinha, ao pé da letra, m.a.t.a.d.o.r.a.