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O Psicólogo

por André Flávio Nepomuceno Barbosa

A sutil arte de ligar o foda-se

A difícil arte de não ligar o foda-se.

Por andreflavionb em assumir responsabilidades

08 de Maio de 2018

A difícil arte de não ligar o foda-se.

 

A difícil arte de não ligar o foda-se.

A pedidos de vários seguidores, e até de pacientes, hoje irei sintetizar minhas impressões sobre um livro que, ao que parece, está na boca de todos, chamado: “a sutil arte de ligar o foda-se” escrito por Mark Manson.

Sim, tive que comprar e ler para poder opinar, apesar de quebrar minhas próprias regras de somente comprar um livro de autoajuda se o escritor realmente for credenciado para tratar de tal tema. O grande problema dos livros de autoajuda, além de serem apelativos e proporem uma solução mágica para todos os nossos problemas, é que tem muito escritor escrevendo sobre como vencer uma corrida de bike, mas que nunca soube andar de bicicleta na vida.

Para começar; quem é Mark Manson? Bom, aparentemente, apenas um blogueiro. É o que diz o seu próprio linkedin e nos dados curriculares que vem no seu livro também. O que um blogueiro tem a me dizer sobre como devo perceber, me ensinar, influenciar e trilhar minha vida? Ok, quebrei essa regra, e li mesmo assim.

Cada um interpreta um texto com seu olhar subjetivo. Tentarei, a seguir, expor meu entendimento, que pode ser diferente do seu. Normal.

Como tudo na vida, nada é 100% ruim, e nem 100% bom. Assim é o livro de Manson. Nem tudo é ruim.

Gosto quando ele passa uma mensagem, por exemplo, de que aceitar uma dor, uma perda, um luto, pode ser a melhor forma desses sentimentos irem embora mais rápido. Apesar de não ter ali nenhuma explicação cientifica de porquê isso acontece, mas ok, ele não tem obrigação de saber isso. Gosto também quando ele fala de aceitar as incertezas da vida, uma ótima fórmula para reduzir a ansiedade.

Porém, o livro trata o ato de dizer “foda-se” para os problemas (aqueles que você acha que não pode solucionar), para o mundo (considerado pelo autor algo que está fora do seu controle), como se fosse algo bem difícil de se fazer e até libertador, porém, na realidade, estamos quase vivendo uma geração dos que apertam o foda-se por qualquer coisa. Sim, acredite, hoje estamos vivendo a cultura do foda-se, talvez até seja esse o motivo do livro ser um best-seller. Como se ao comprarmos esse livro ou só ler a capa eu ja me sentisse bem comigo mesmo ao ter dado um cotoco para mundo e para meus problemas. Passa uma sensação, superficial, de alívio e bem estar.

E esse é um dos aspectos mais perigosos de um livro de autoajuda, podemos cair no erro de selecionar apenas as informações que me agradam, que me interessam, que diz que eu estou certo, e descartamos as que não me interessam ou que me contradizem.Por exemplo; o que é um problema insolúvel? Eu posso simplesmente considerar que um traço de minha personalidade, que me atrapalha a vida e os meus objetivos, ou no outro, é algo insolúvel e acabou. “O jeito é aceitar, se conformar”. Eu posso achar que não tenho nenhuma responsabilidade ou controle de minha vida, quando se trata de respostas do mundo para mim. Como disse um colega meu; “eu posso aderir a cultura da mediocridade”, afinal, cansa menos.

Abrangendo o “foda-se”, vejo várias mensagens correndo soltas nos instagrans da vida, como por exemplo; “aceite-se, você não tem que se encaixar no mundo/ Seja autêntico, os outros já existem/ Se os outros não te aceitam, o problema é dos outros, não seu.”. Essas mensagens, embora “bonitinhas”, quando são levadas ao pé da letra, provocam dor e sofrimento.

Imagine uma pessoa impulsiva/ou compulsiva que diz para todos; “esse é meu jeito de ser!”, ou uma pessoa instável que entende que o problema são os outros, não ela. Ou alguém com crise de baixa autoestima que acha que será traída a qualquer hora, desenvolver um ciúmes patológico, como prevenção de não ser traída, dizendo: Eu sou assim e acabou.

Estamos vivendo uma época tenebrosa onde pessoas, cada vez mais, estão ficando intolerantes as frustrações, onde Bauman bem escreveu; vivendo em relacionamentos líquidos.

Afinal, é mais “fácil” trocar de namorado, de amigos, de emprego, do que olhar pra dentro de si, fazer uma autocrítica, tentar se trabalhar, melhorar, evoluir.

Uma pessoa que vive, ao pé da letra, a frase “se os outros não te aceitam, o problema é dos outros, não seu.”, em outras palavras, uma pessoa que liga o “foda-se” com facilidade de quem dá um “bom dia”, geralmente, tem problemas em relacionamentos, um histórico de amizades instáveis, daquelas que fazem amizade com facilidade e também param de falar com a outra com a mesma velocidade. São pessoas com circulo social bem restrito, com histórico de relacionamentos afetivos bem conturbados, regados por brigas, instabilidades, rancor…

Alguns chamam essas pessoas de “uma pessoa de personalidade forte”. E quando alguns escutam isso, ainda ficam achando que é um elogio, quando, na verdade, é apenas um modo educado de dizer; essa pessoa é problemática, instável.

Entender que o problema é do mundo, não meu, é um ato preguiçoso e  vitimista (o mundo que é ruim por não me aceitar), mas se hoje você não está vivendo um momento ideal, um relacionamento saudável, ou infeliz no emprego, pode ter certeza que existe uma enorme possibilidade de você estar apenas colhendo frutos de suas escolhas. É isso mesmo; existe uma grande probabilidade de você ser o responsável por seus problemas. Vou mais além, você pode ser responsável até pela forma como os outros te tratam.

Skinner, o pai da análise do comportamento, explicou isso de forma categórica, cientifica: Um comportamento só existe porque é reforçado por algo. O comportamento que o outro tem em relação a mim só existe com minha participação. Existe algo que você faz, em consequência do comportamento do outro, que está mantendo isso.

Uma vez tive uma conversa com uma colega que postou uma frase do tipo “Não é seu papel mudar o outro. Não se culpe por isso.”. Mais uma daquelas frases conformistas que tem como o pano de fundo; melhor trocar de pessoas como quem troca de roupa, do que perder seu tempo tentando melhorar seus relacionamentos. Acontece que, se você quer manter um relacionamento, e existe algo que você não está gostando no outro, da forma como te trata, por exemplo, pode ter certeza absoluta que alguma coisa de positivo o outro está ganhando com o comportamento dele em relação a você.

O controlador, por exemplo, pode está ganhando suas senhas das redes sociais, ganhando a sua permissão para invadir sua vida privada. E enquanto você não entender seu papel no seu sofrimento, as coisas continuarão da mesma forma.

O primeiro passo rumo a uma vida melhor é querer melhorar. E, para isso, é preciso ligar, cada vez menos, o “foda-se”.

 

André Barbosa

Psicoterapeuta Cognitivo- Comportamental

85 99651-3394

 

 

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A difícil arte de não ligar o foda-se.

Por andreflavionb em assumir responsabilidades

08 de Maio de 2018

A difícil arte de não ligar o foda-se.

 

A difícil arte de não ligar o foda-se.

A pedidos de vários seguidores, e até de pacientes, hoje irei sintetizar minhas impressões sobre um livro que, ao que parece, está na boca de todos, chamado: “a sutil arte de ligar o foda-se” escrito por Mark Manson.

Sim, tive que comprar e ler para poder opinar, apesar de quebrar minhas próprias regras de somente comprar um livro de autoajuda se o escritor realmente for credenciado para tratar de tal tema. O grande problema dos livros de autoajuda, além de serem apelativos e proporem uma solução mágica para todos os nossos problemas, é que tem muito escritor escrevendo sobre como vencer uma corrida de bike, mas que nunca soube andar de bicicleta na vida.

Para começar; quem é Mark Manson? Bom, aparentemente, apenas um blogueiro. É o que diz o seu próprio linkedin e nos dados curriculares que vem no seu livro também. O que um blogueiro tem a me dizer sobre como devo perceber, me ensinar, influenciar e trilhar minha vida? Ok, quebrei essa regra, e li mesmo assim.

Cada um interpreta um texto com seu olhar subjetivo. Tentarei, a seguir, expor meu entendimento, que pode ser diferente do seu. Normal.

Como tudo na vida, nada é 100% ruim, e nem 100% bom. Assim é o livro de Manson. Nem tudo é ruim.

Gosto quando ele passa uma mensagem, por exemplo, de que aceitar uma dor, uma perda, um luto, pode ser a melhor forma desses sentimentos irem embora mais rápido. Apesar de não ter ali nenhuma explicação cientifica de porquê isso acontece, mas ok, ele não tem obrigação de saber isso. Gosto também quando ele fala de aceitar as incertezas da vida, uma ótima fórmula para reduzir a ansiedade.

Porém, o livro trata o ato de dizer “foda-se” para os problemas (aqueles que você acha que não pode solucionar), para o mundo (considerado pelo autor algo que está fora do seu controle), como se fosse algo bem difícil de se fazer e até libertador, porém, na realidade, estamos quase vivendo uma geração dos que apertam o foda-se por qualquer coisa. Sim, acredite, hoje estamos vivendo a cultura do foda-se, talvez até seja esse o motivo do livro ser um best-seller. Como se ao comprarmos esse livro ou só ler a capa eu ja me sentisse bem comigo mesmo ao ter dado um cotoco para mundo e para meus problemas. Passa uma sensação, superficial, de alívio e bem estar.

E esse é um dos aspectos mais perigosos de um livro de autoajuda, podemos cair no erro de selecionar apenas as informações que me agradam, que me interessam, que diz que eu estou certo, e descartamos as que não me interessam ou que me contradizem.Por exemplo; o que é um problema insolúvel? Eu posso simplesmente considerar que um traço de minha personalidade, que me atrapalha a vida e os meus objetivos, ou no outro, é algo insolúvel e acabou. “O jeito é aceitar, se conformar”. Eu posso achar que não tenho nenhuma responsabilidade ou controle de minha vida, quando se trata de respostas do mundo para mim. Como disse um colega meu; “eu posso aderir a cultura da mediocridade”, afinal, cansa menos.

Abrangendo o “foda-se”, vejo várias mensagens correndo soltas nos instagrans da vida, como por exemplo; “aceite-se, você não tem que se encaixar no mundo/ Seja autêntico, os outros já existem/ Se os outros não te aceitam, o problema é dos outros, não seu.”. Essas mensagens, embora “bonitinhas”, quando são levadas ao pé da letra, provocam dor e sofrimento.

Imagine uma pessoa impulsiva/ou compulsiva que diz para todos; “esse é meu jeito de ser!”, ou uma pessoa instável que entende que o problema são os outros, não ela. Ou alguém com crise de baixa autoestima que acha que será traída a qualquer hora, desenvolver um ciúmes patológico, como prevenção de não ser traída, dizendo: Eu sou assim e acabou.

Estamos vivendo uma época tenebrosa onde pessoas, cada vez mais, estão ficando intolerantes as frustrações, onde Bauman bem escreveu; vivendo em relacionamentos líquidos.

Afinal, é mais “fácil” trocar de namorado, de amigos, de emprego, do que olhar pra dentro de si, fazer uma autocrítica, tentar se trabalhar, melhorar, evoluir.

Uma pessoa que vive, ao pé da letra, a frase “se os outros não te aceitam, o problema é dos outros, não seu.”, em outras palavras, uma pessoa que liga o “foda-se” com facilidade de quem dá um “bom dia”, geralmente, tem problemas em relacionamentos, um histórico de amizades instáveis, daquelas que fazem amizade com facilidade e também param de falar com a outra com a mesma velocidade. São pessoas com circulo social bem restrito, com histórico de relacionamentos afetivos bem conturbados, regados por brigas, instabilidades, rancor…

Alguns chamam essas pessoas de “uma pessoa de personalidade forte”. E quando alguns escutam isso, ainda ficam achando que é um elogio, quando, na verdade, é apenas um modo educado de dizer; essa pessoa é problemática, instável.

Entender que o problema é do mundo, não meu, é um ato preguiçoso e  vitimista (o mundo que é ruim por não me aceitar), mas se hoje você não está vivendo um momento ideal, um relacionamento saudável, ou infeliz no emprego, pode ter certeza que existe uma enorme possibilidade de você estar apenas colhendo frutos de suas escolhas. É isso mesmo; existe uma grande probabilidade de você ser o responsável por seus problemas. Vou mais além, você pode ser responsável até pela forma como os outros te tratam.

Skinner, o pai da análise do comportamento, explicou isso de forma categórica, cientifica: Um comportamento só existe porque é reforçado por algo. O comportamento que o outro tem em relação a mim só existe com minha participação. Existe algo que você faz, em consequência do comportamento do outro, que está mantendo isso.

Uma vez tive uma conversa com uma colega que postou uma frase do tipo “Não é seu papel mudar o outro. Não se culpe por isso.”. Mais uma daquelas frases conformistas que tem como o pano de fundo; melhor trocar de pessoas como quem troca de roupa, do que perder seu tempo tentando melhorar seus relacionamentos. Acontece que, se você quer manter um relacionamento, e existe algo que você não está gostando no outro, da forma como te trata, por exemplo, pode ter certeza absoluta que alguma coisa de positivo o outro está ganhando com o comportamento dele em relação a você.

O controlador, por exemplo, pode está ganhando suas senhas das redes sociais, ganhando a sua permissão para invadir sua vida privada. E enquanto você não entender seu papel no seu sofrimento, as coisas continuarão da mesma forma.

O primeiro passo rumo a uma vida melhor é querer melhorar. E, para isso, é preciso ligar, cada vez menos, o “foda-se”.

 

André Barbosa

Psicoterapeuta Cognitivo- Comportamental

85 99651-3394