Maio 2018 - MOUSE OU MENOS 
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MOUSE OU MENOS

por Nonato Albuquerque

Maio 2018

Fonsequinha: humor não pode rimar com dor

Por Nonato Albuquerque em ARTIGO

03 de Maio de 2018

Fonsequinha, morto em meio a onda avassaladora de violência que assusta Fortaleza, era um homem de paz. De fazer rir e de conviver com uma forma lúdica, brincalhona, como se peterpanizasse a idade da irreverência.

Estivemos juntos no programa da Maísa Vasconcelos, “Na Boca do Povo”, onde eu era o produtor e ele fazia as esquetes de humor. Um humor despojado de qualquer preocupação estética, onde a graça estava no compartilhar a comicidade cearense.

Ele sabia atrair para si, a atenção da massa. Por isso, sua graça era feita nas ruas e avenidas, no meio do povo, sem pauta programada, onde valia puxar o que havia de mais expressivo da molecagem cearense.

Era um homem de pureza, como são alguns que militam no humor, e que nem sabiam definir a importância de seu trabalho. Fazer rir era a sua profissão. Alguns até estranhavam seu figurino intrigante, mas na leitura que se fazia podíamos ver homenageados nela. Do humorista Jorge Loredo, o Zé Bonitinho da Escolinha do Professor Raimundo, ele tomou emprestado o figurino dos óculos enormes. A roupa mesclada de cores berrantes era o grande remendo das vestimentas do povo.

Fonsequinha que fazia rir, jamais imaginaria que, um dia, o humor rimaria com dor. E, na cidade que tem a molecagem como perfil mais lúdico, é preciso reinventar os espaços de paz e tranquilidade, por onde outros fonsequinhas e admiradores possam circular.

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A crise de segurança passa por cada um de nós

Por Nonato Albuquerque em ARTIGO

02 de Maio de 2018

Como se não bastasse a violência causada pelas facções criminosas, ainda nos deparamos com briga entre policiais em uma barraca de praia. O saldo, a morte de um PM. Isso nos remete a uma reflexão de que falta habilidade no trato entre pessoas, que saem para se divertir e uma discussão tola, banal, serve de estopim para uma tragédia.

A crise de segurança passa por cada um de nós. Do parceiro que espanca sua mulher em casa. De pessoas que nem se conhecem e se odeiam a partir de uma freada brusca no trânsito. Do vizinho que ameaça o outro incomodado pelo som alto. Do indivíduo que se impacienta numa fila de banco e passa a quebrar tudo pela demora no atendimento.

Tudo isso é algo tão pequeno, capaz de ser superado, resolvido com uma conversa, mas a intolerância humana não consegue trabalhar esses pequenos desafios. Se quisermos ter uma cidade pacífica, teremos que enfrentar essas questiúnculas movidas por ódio, egoismo, orgulho e, principalmente, ego ferido.

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Um texto de Eça de Queiroz em homenagem ao trabalhador

Por Nonato Albuquerque em ARTIGO

01 de Maio de 2018

No dia internacional do Trabalho, vale a pena lembrar um texto de Eça de Queiroz, “O Povo”, numa homagem ao trabalhador. Diz ele:

“Há no mundo uma raça de homens com instintos sagrados e luminosos, com divinas bondades do coração, com uma inteligência serena e lúcida, com dedicações profundas, cheias de amor pelo trabalho e de adoração pelo bem, que sofrem, que se lamentam em vão.

Estes homens são o povo.
Estes homens estão sob o peso do calor e do Sol, transidos pelas chuvas, roídos do frio, descalços, mal nutridos; lavram a terra, revolvem-na, gastam a sua vida, a sua força, para criar o pão, o alimento de todos.
Estes são o povo, e são os que nos alimentam.

Estes homens vivem nas fábricas, pálidos, doentes, sem família, sem doces noites, sem um olhar amigo que os console, sem ter repouso do corpo e a expansão da alma, e fabricam o linho, o pano, a seda, os estofos.
Estes homens são o povo, e são os que nos vestem.

Estes homens vivem debaixo das minas, sem o Sol e as doçuras consoladoras da Natureza, respirando mal, comendo pouco, sempre na véspera da morte, rotos, sujos, curvados, e extraem o metal, o minério, o cobre, o ferro, e toda a matéria das indústrias.
Estes homens são o povo, e são os que nos enriquecem.

Estes homens, nos tempos de lutas e de crises, tomam as velhas armas da pátria, e vão, dormindo mal, com marchas terríveis, à neve, à chuva, ao frio, nos calores pesados, combater e morrer longe dos filhos e das mães, sem ventura, esquecidos, para que nós conservemos o nosso descanso opulento.

Estes homens são o povo, e são os que nos defendem.

Estes homens formam as equipagens dos navios, são lenhadores, guardadores de gado, servos mal retribuídos e desprezados.
Estes homens são os que nos servem.

E o mundo oficial, opulento, soberano, o que faz a estes homens que o vestem, que o alimentam, que o enriquecem, que o defendem, que o servem?

Primeiro, despreza-os; não pensa neles, não vela por eles, trata-os come se tratam os bois, deixa-lhes apenas uma pequena porção dos seus trabalhos dolorosos; não lhes melhora a sorte, cerca-os de obstáculos e de dificu1dades; forma-lhes ao redor uma servidão que os prende e uma miséria que os esmaga, não lhes dá proteção, e, terrível coisa, não os instrui: deixa-lhes morrer a alma.

É por isso que os que têm coração e alma, e amam a justiça, devem lutar e combater pelo povo.
E ainda que não sejam escutados, tem na amizade dele uma consolação suprema”.

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Um texto de Eça de Queiroz em homenagem ao trabalhador

Por Nonato Albuquerque em ARTIGO

01 de Maio de 2018

No dia internacional do Trabalho, vale a pena lembrar um texto de Eça de Queiroz, “O Povo”, numa homagem ao trabalhador. Diz ele:

“Há no mundo uma raça de homens com instintos sagrados e luminosos, com divinas bondades do coração, com uma inteligência serena e lúcida, com dedicações profundas, cheias de amor pelo trabalho e de adoração pelo bem, que sofrem, que se lamentam em vão.

Estes homens são o povo.
Estes homens estão sob o peso do calor e do Sol, transidos pelas chuvas, roídos do frio, descalços, mal nutridos; lavram a terra, revolvem-na, gastam a sua vida, a sua força, para criar o pão, o alimento de todos.
Estes são o povo, e são os que nos alimentam.

Estes homens vivem nas fábricas, pálidos, doentes, sem família, sem doces noites, sem um olhar amigo que os console, sem ter repouso do corpo e a expansão da alma, e fabricam o linho, o pano, a seda, os estofos.
Estes homens são o povo, e são os que nos vestem.

Estes homens vivem debaixo das minas, sem o Sol e as doçuras consoladoras da Natureza, respirando mal, comendo pouco, sempre na véspera da morte, rotos, sujos, curvados, e extraem o metal, o minério, o cobre, o ferro, e toda a matéria das indústrias.
Estes homens são o povo, e são os que nos enriquecem.

Estes homens, nos tempos de lutas e de crises, tomam as velhas armas da pátria, e vão, dormindo mal, com marchas terríveis, à neve, à chuva, ao frio, nos calores pesados, combater e morrer longe dos filhos e das mães, sem ventura, esquecidos, para que nós conservemos o nosso descanso opulento.

Estes homens são o povo, e são os que nos defendem.

Estes homens formam as equipagens dos navios, são lenhadores, guardadores de gado, servos mal retribuídos e desprezados.
Estes homens são os que nos servem.

E o mundo oficial, opulento, soberano, o que faz a estes homens que o vestem, que o alimentam, que o enriquecem, que o defendem, que o servem?

Primeiro, despreza-os; não pensa neles, não vela por eles, trata-os come se tratam os bois, deixa-lhes apenas uma pequena porção dos seus trabalhos dolorosos; não lhes melhora a sorte, cerca-os de obstáculos e de dificu1dades; forma-lhes ao redor uma servidão que os prende e uma miséria que os esmaga, não lhes dá proteção, e, terrível coisa, não os instrui: deixa-lhes morrer a alma.

É por isso que os que têm coração e alma, e amam a justiça, devem lutar e combater pelo povo.
E ainda que não sejam escutados, tem na amizade dele uma consolação suprema”.