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Compro e vendo ouro

por Agência Delantero

Os mitos não fazem escolhas óbvias

Por Delantero em Opinião

01 de dezembro de 2018

Campeão Brasileiro da Série B, Rogério Ceni deveria ir para um clube do eixo Rio-SP-Minas, correto? Errado. Os menos familiarizados com o futebol talvez não saibam que Rogério é chamado de mito por tricolores de São Paulo e, agora, de Fortaleza.

Há o exagero próprio do futebol, claro. Há imperadores, fenômenos, gênios e outras hipérboles no esporte. Mas em se tratando da alcunha atribuída a Rogério, os torcedores têm uma certa razão. Os mitos, tão bem descritos por Joseph Campbell, possuem todos uma característica em comum: sacrificam-se a si mesmos em benefício da comunidade. Serve para todo mito. Eles preferem mudar o lugar em que estão, em vez de estar sempre mudando de lugar.

Como goleiro, Rogério poderia ter saído do São Paulo em inúmeras oportunidades. Escolheu ficar e mudar a história do clube de coração. Mais que isso, escolheu mudar a posição de goleiro para sempre. É o maior goleiro-artilheiro do futebol. E foi mudando o entorno que mudou a si mesmo.

Agora como treinador, após o maior título da história do Fortaleza, Rogério poderia ter legitimamente preferido sair para um clube maior, com mais estrutura e um salário mais gordo.

“Um escolha natural”, diziam alguns. “Ele não tem mais para onde crescer no clube”, diziam outros. Talvez estivessem certos, mas o clube ainda tem muito a crescer com Rogério. E isso importa muito para ele, como os 26 anos de São Paulo já atestaram. Por trás do rótulo que Ceni carrega, existe um cara que, citando Shakespeare aos jogadores, diz preferir plantar o próprio jardim a esperar que lhe tragam flores.

O que isso tem a ver com você? Muito. Dá uma olhadinha para a sua atividade. Você está tentando transformar o lugar em que está, a sua empresa, a sua profissão? Ou só está pensando em subir na carreira, enquanto fala mal do emprego no happy hour? Nada contra quem escolhe a última opção. Você até poderá ser um grande profissional, ganhar muita grana. Mas jamais, jamais será um mito para ninguém.

Marcel Pinheiro é sócio-diretor da Delantero e diretor de marketing do Fortaleza.

 

 

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Publicitários, bora voltar a vender xampu?

Por Delantero em Publicidade

29 de novembro de 2018

Séan Garnier é um dos maiores jogadores de futebol freestyle do mundo. É um daqueles malucos descolados que fazem coisas absurdas com uma bola de futebol. Sobe em postes equilibrando a bola, dança com a pelota no pescoço, faz embaixadinhas com limão, pitomba, cajarana, essas coisas. Assistindo a um de seus mirabolantes vídeos, comecei a pensar na nossa atividade. É que quanto mais vejo o que os festivais de criatividade têm apresentado, mais penso que estamos diante de uma geração de Séans Ganiers.  

Nada contra o que ele faz, mas precisamos estar atentos. O ganha-pão do Séan é encantar. Ou seja, ele não tem obrigação com o gol, de fazer lançamentos precisos, de voltar pra marcar. A glória vem das manobras em si e da capacidade de surpreender. Já os jogadores de futebol convencionais têm que jogar bonito, mas também têm que ganhar. A criatividade do Messi, por exemplo, é um recurso para transformar uma jogada em gol. Para mostrar apenas pirueta, ele tem as propagandas da Adidas. Por falar em propaganda, chegamos ao ponto crucial da conversa.

Estivemos nos dois últimos festivais de Cannes que, diga-se de passagem, é uma experiência excepcional. Porém reflete um pouco esse momento. Vimos uma série de campanhas impressionantes como manobras a la Séan, mas que sempre parecem terminar pela linha de fundo, à margem de problemas reais, como aumento de vendas, de participação de mercado e de outras coisas chatas de adultos que só servem para estragar a minha obra de arte. Aí fica na cara que se está tentando fazer caber uma calça 42 no Jô Soares em troca de um troféu. E o pior é que, no festival, a calça entra.

Uma das formas mais comuns de esses lampejos se manifestarem é através de causas sociais. Tem para todos os gostos. Inclusive gerando resultados impossíveis de serem comprovados. Que jurado de Cannes vai atrás de saber, por exemplo, se 138 milhões de pessoas foram mesmo impactadas em uma ação para uma tribo com 12 mil habitantes no sul da ilha de Tonga? De repente, não mais que de repente, descobriu-se que salvar o mundo é um caminho (mais) fácil para o reconhecimento. Mais uma vez, isso é igual ao Séan no campo: impressiona, mas não resolve.

A vida real é diferente. Voltando aos gramados, os jogadores são cobrados por um futebol bonito, desde que façam gols. Nós também. A criatividade deve ser acionada para, antes de tudo, resolver problemas apontados em um briefing passado pelo cliente. Em tempos de vacas magras, gastando o mínimo possível. Sem essa de “job dia a dia”, jogo oficial e “job pra prêmio”, freestyle. Essa hora me vem à cabeça o comercial “Brigas de Condomínio”, da Talent, para vender (ora vejam só) caixa d’água. Ou pra ficar em Cannes mesmo, o Ma’am da Issue, Tide ad e um baratíssimo “pre-approved loans”, do Banco Santa Fé. Todos premiados. Tá vendo como é possível?

Absolutamente nada contra campanhas sociais (absolutamente nada contra você também, Séan). O problema é quando a causa não é a causa, mas um atalho para rechear um portfólio. Quando se reúnem todos esses trabalhos, fica chato. Tem uma hora que você não sabe mais se está em um festival de criatividade ou no Criança Esperança.

Nós, que cruzamos o oceano e ainda damos o azar de cair em uma poltrona do meio – depois de passar 8, 9h tentando achar um lugar para os cotovelos – queremos ver como as agências mais criativas do mundo venderiam produtos que todo mundo consome. Pneu, frango congelado, água sanitária, frigideira, fralda descartável, rolamento de caminhão, xampu e por aí vai. É a capacidade de resolver problemas reais de forma diferente, inovadora e econômica que vai gerar mais ou menos valor para o nosso negócio. Isso sim é futebol-arte, Séan.

Quanto a continuar usando a propaganda para salvar o planeta, pode colocar a cabeça no travesseiro tranquilo. Toda campanha criativa que tem êxito, que traz retorno para o cliente, faz o motor da economia girar. Ajuda a aumentar a demanda, a criar ou mesmo manter milhares de postos de trabalho. A melhor notícia de todas: um desses empregos pode ser o nosso, e a gente nem percebe.

 

Pádua Sampaio, sócio e diretor de criação da agência Delantero.

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Publicitários, bora voltar a vender xampu?

Por Delantero em Publicidade

29 de novembro de 2018

Séan Garnier é um dos maiores jogadores de futebol freestyle do mundo. É um daqueles malucos descolados que fazem coisas absurdas com uma bola de futebol. Sobe em postes equilibrando a bola, dança com a pelota no pescoço, faz embaixadinhas com limão, pitomba, cajarana, essas coisas. Assistindo a um de seus mirabolantes vídeos, comecei a pensar na nossa atividade. É que quanto mais vejo o que os festivais de criatividade têm apresentado, mais penso que estamos diante de uma geração de Séans Ganiers.  

Nada contra o que ele faz, mas precisamos estar atentos. O ganha-pão do Séan é encantar. Ou seja, ele não tem obrigação com o gol, de fazer lançamentos precisos, de voltar pra marcar. A glória vem das manobras em si e da capacidade de surpreender. Já os jogadores de futebol convencionais têm que jogar bonito, mas também têm que ganhar. A criatividade do Messi, por exemplo, é um recurso para transformar uma jogada em gol. Para mostrar apenas pirueta, ele tem as propagandas da Adidas. Por falar em propaganda, chegamos ao ponto crucial da conversa.

Estivemos nos dois últimos festivais de Cannes que, diga-se de passagem, é uma experiência excepcional. Porém reflete um pouco esse momento. Vimos uma série de campanhas impressionantes como manobras a la Séan, mas que sempre parecem terminar pela linha de fundo, à margem de problemas reais, como aumento de vendas, de participação de mercado e de outras coisas chatas de adultos que só servem para estragar a minha obra de arte. Aí fica na cara que se está tentando fazer caber uma calça 42 no Jô Soares em troca de um troféu. E o pior é que, no festival, a calça entra.

Uma das formas mais comuns de esses lampejos se manifestarem é através de causas sociais. Tem para todos os gostos. Inclusive gerando resultados impossíveis de serem comprovados. Que jurado de Cannes vai atrás de saber, por exemplo, se 138 milhões de pessoas foram mesmo impactadas em uma ação para uma tribo com 12 mil habitantes no sul da ilha de Tonga? De repente, não mais que de repente, descobriu-se que salvar o mundo é um caminho (mais) fácil para o reconhecimento. Mais uma vez, isso é igual ao Séan no campo: impressiona, mas não resolve.

A vida real é diferente. Voltando aos gramados, os jogadores são cobrados por um futebol bonito, desde que façam gols. Nós também. A criatividade deve ser acionada para, antes de tudo, resolver problemas apontados em um briefing passado pelo cliente. Em tempos de vacas magras, gastando o mínimo possível. Sem essa de “job dia a dia”, jogo oficial e “job pra prêmio”, freestyle. Essa hora me vem à cabeça o comercial “Brigas de Condomínio”, da Talent, para vender (ora vejam só) caixa d’água. Ou pra ficar em Cannes mesmo, o Ma’am da Issue, Tide ad e um baratíssimo “pre-approved loans”, do Banco Santa Fé. Todos premiados. Tá vendo como é possível?

Absolutamente nada contra campanhas sociais (absolutamente nada contra você também, Séan). O problema é quando a causa não é a causa, mas um atalho para rechear um portfólio. Quando se reúnem todos esses trabalhos, fica chato. Tem uma hora que você não sabe mais se está em um festival de criatividade ou no Criança Esperança.

Nós, que cruzamos o oceano e ainda damos o azar de cair em uma poltrona do meio – depois de passar 8, 9h tentando achar um lugar para os cotovelos – queremos ver como as agências mais criativas do mundo venderiam produtos que todo mundo consome. Pneu, frango congelado, água sanitária, frigideira, fralda descartável, rolamento de caminhão, xampu e por aí vai. É a capacidade de resolver problemas reais de forma diferente, inovadora e econômica que vai gerar mais ou menos valor para o nosso negócio. Isso sim é futebol-arte, Séan.

Quanto a continuar usando a propaganda para salvar o planeta, pode colocar a cabeça no travesseiro tranquilo. Toda campanha criativa que tem êxito, que traz retorno para o cliente, faz o motor da economia girar. Ajuda a aumentar a demanda, a criar ou mesmo manter milhares de postos de trabalho. A melhor notícia de todas: um desses empregos pode ser o nosso, e a gente nem percebe.

 

Pádua Sampaio, sócio e diretor de criação da agência Delantero.